2. Gostaria de saber o que crês a respeito da doutrina da ‘completa depravação (ou corrupção) do homem e do chamado livre arbítrio


A respeito da natureza do homem creio e ensino que ela é corrupta; a Escritura diz que a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice (Gênesis 8:21), que nós fomos formados em iniquidade e que a nossa mãe nos concebeu em pecado  (Salmos 51:5), que todos se corromperam e que não há quem faça o bem (Salmos 14:3). Nascemos todos filhos da ira, com a ira de Deus que pesava sobre nós; sem nenhuma distinção o homem é mau, escravo do pecado que serve e por quem é pago com a morte, o medo, e a infelicidade. O homem está à mercê do diabo que peca desde o princípio (1 João 3:8), está debaixo do seu poder e de facto João diz que todo o mundo jaz no maligno (1 João 5:8); e se por um lado ele escolhe fazer o mal porque tem uma vontade ele faz o mal porque a sua natureza é totalmente e inexoravelmente inclinada para o mal.

Se pois a natureza do homem é corrupta, o homem não pode salvar-se sozinho, não pode auto-redimir-se de nenhuma maneira; necessita de um salvador que é Cristo Jesus porque só ele o pode libertar do pecado tendo ele levado sobre a cruz os nossos pecados . E para ser salvo deve arrepender-se e crer em Jesus Cristo; não há outra maneira. Mas tanto o arrependimento como a fé é dado por Deus, "na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida" (Actos 11:18), e a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9). Se pois alguém se arrepende e crê em Jesus Cristo é porque Deus QUIS dar-lhe tanto o arrependimento como a fé. O homem não tem nada de seu através do qual se possa salvar, nem sequer o arrependimento e a fé; mas Deus na sua grande bondade lhos concede segundo o beneplácito de sua vontade para mostrar-lhe a sua benignidade. Não é o homem que escolhe arrepender-se e crer em Jesus Cristo (ainda que a aparência leve a dizer isto), mas Deus. As passagens as conheces;  te quero recordar porém só uma delas nesta circunstância, a saber, esta: "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós" (João 15:16). Foi Jesus a dizer estas palavras aos seus discípulos; mas não é porventura verdade que em algumas outras passagens parece que foram os discípulos a escolher seguir Cristo? Toma o caso de André por exemplo que juntamente com um outro discípulo de João se pôs a seguir Jesus sem que este os tivesse chamado verbalmente (lê atentamente João 1:35-37). Mas permanece o facto de que eles foram a Jesus porque levados pelo Pai de Jesus; não poderiam jamais ir a Jesus sem serem levados pelo Pai. Muitos dizem que o homem tem a capacidade ou a liberdade de escolher a salvação ou de rejeitá-la; isto é verdade ainda na aparência porque na realidade nós vemos pessoas que aceitam o Evangelho e pessoas que o recusam. Mas na realidade por detrás da aceitação do Evangelho ou da sua recusa por parte de alguém há um decreto de Deus. Naturalmente eu e tu não sabemos quem são os vasos de misericórdia de antemão preparados para a glória e quem são os vasos da ira preparados para a perdição, mas isso não nos preocupa porque sabemos que Deus fará o que decretou sem que alguém lho possa impedir. Aquilo que como ministros do Evangelho devemos fazer para com os pecadores não é falar-lhes da predestinação, mas da salvação em Cristo Jesus advertindo-os do fim que terão se a recusarem. Se depois aceitarão ou não o Evangelho é algo que nunca saberemos sobre a terra (pelo menos com muitos é assim), mas a seu tempo saberemos. Eu quando evangelizo os pecadores lhes falo como se a salvação da sua alma dependesse da sua vontade. Não me entendas mal: quero dizer que lhes digo que se devem arrepender e crer (coisa, de resto, que Jesus e os apóstolos faziam), sob pena do fogo eterno se recusarem obedecer à Palavra de Deus, e basta. Naturalmente sei que quem foi preordenado para a vida eterna dentre a massa dos homens, no seu tempo Deus o fará idóneo para participar da herança dos santos na luz (cfr. Colossenses 1:12), enquanto quem não foi predestinado para a salvação ou eleito para a salvação (por razões que só Deus sabe), não será feito idóneo para participar desta vocação celestial mas irá para a perdição. Deus naturalmente não é censurável em nada por este seu modo de agir porque Ele é livre de fazer daquilo que possui aquilo que quer. Quem somos nós para lhe poder dizer: 'Que fazes?'

Sobre a vontade do homem, que é inegável que exista, há muitíssimas outras coisas a dizer. Certamente Deus é poderoso para virá-la com o desconhecimento do homem na direcção por Ele decretada. Poderei te dar dezenas de exemplos tirados da Bíblia . Vê o caso dos irmãos de José, de Faraó, dos filhos de Eli que não deram ouvidos ao seu pai porque Deus os queria fazer morrer, dos Judeus que recusaram Jesus e o crucificaram, como também o caso de Judas que embora estivesse no número dos discípulos do Senhor, ou melhor, tinha recebido até o ministério de apóstolo, tinha sido predestinado a trair o Mestre. Eis um ponto que é sempre objecto de contenda: 'Judas era verdadeiramente um discípulo do Senhor, ainda que saibamos que depois foi para a perdição porque é chamado filho da perdição?' Eu creio que o era porque há provas bíblicas; procurar negá-lo é tempo perdido. Jesus nunca enviaria a pregar um incrédulo ou um filho do diabo, até porque lhe deu também a ele o poder de curar e de expulsar os demónios. Mas Judas, para que fosse cumprida a Escritura, devia ir para a perdição, isto é, devia ser riscado do livro da vida. Isto é o que tinha sido dito nos Salmos (69:28), e assim Deus cumpriu a sua palavra sobre Judas.

 

 

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