2. Lendo o Antigo Testamento me parece que Deus estava mais pronto para fazer as suas vinganças do que quanto o está agora debaixo da graça; o que pensas desta minha impressão? 


É uma impressão errada porque o Deus que se vingava dos seus inimigos debaixo do Antigo Pacto, é o mesmo Deus que se vinga debaixo da graça. Ele não mudou de modo algum, repito de modo algum. O Deus que chamou Saulo de Tarso a servi-lo pregando o Evangelho aos Gentios, é o mesmo e idêntico Deus que chamou Abrão de Ur dos Caldeus e o levou para Canaã; o Deus que fez morrer muitos Israelitas no deserto por causa dos seus pecados, é o mesmo Deus que fez morrer Herodes, Ananias e Safira, e muitos dos crentes de Corinto. Provavelmente esta tua impressão deriva do facto de Deus ter querido que as Escrituras do Antigo Pacto contivessem mais seus juízos do que quantos contêm as Escrituras do Novo Pacto. É manifesto, de facto, que se se mencionarem as punições de Deus contra particulares ou nações, encontram-se muitas mais no Antigo Testamento, até porque estas últimas dizem respeito a um período de tempo muito mais longo, e falam de histórias que não se encontram nas Escrituras do Novo Pacto. Mas também debaixo da graça, Deus é um vingador, e faz as suas vinganças; nem mais nem menos do que quanto fazia antes da vinda de Cristo. Já falei dos casos de Ananias e Safira, e de alguns crentes da Igreja de Corinto, mas a estes te posso acrescentar todos os juízos de Deus contra os homens que devem ainda cumprir-se e que estão transcritos no livro do Apocalipse. Juízos que são verdadeiramente muitos e terríveis.

Mas te direi também isto, o mesmo Deus pronto para vingar os seus inimigos e para fazer colher ao ímpio o salário da sua conduta, no modo e no tempo por ele estabelecido, tanto debaixo do Antigo como do Novo Pacto; é também um Deus de amor, que manifestava o seu amor pelos homens também debaixo do Antigo Pacto. Digo também debaixo do Antigo Pacto, porque por vezes lendo o Novo Testamento se pode ter a impressão que Deus começou a amar os homens a partir da vinda de Cristo em diante; isso não é verdade porque também debaixo do Antigo Pacto, Deus manifestou a sua misericórdia e a sua bondade para com os homens. Noé foi salvo juntamente com mais sete pessoas, Ló foi salvo juntamente com a sua mulher e as suas filhas, José foi por Deus libertado de toda a sua angústia, o povo de Israel foi libertado das mãos de Faraó após séculos de escravidão, foi depois ajudado e sustentado miraculosamente no meio de um deserto cheio de escorpiões e serpentes, foi perdoado muitas vezes pelas suas iniquidades, e poderia prosseguir com muitos outros exemplos que mostram o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua bondade e a sua piedade. Certamente porém, no sacrifício de Cristo temos a mais alta manifestação de amor de Deus para com os homens, porque como disse Jesus, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Portanto quer por quanto respeita ao aspecto vingativo de Deus quer ao amorável, exorto-te a não te deixares enganar pela aparência.



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