13. Gentil senhor Butindaro, queria fazer-lhe uma pergunta com o intuito de conhecer o pensamento dos Pentecostais sobre o assunto: quando e como nasceu a Bíblia? Para mim resulta claro que foram bispos católicos a estabelecer, no curso dos séculos III-IV, quais livros eram inspirados e quais não eram, considerado a presença de textos como o Evangelho de Pedro e o de Tomé falsos e não inspirados naturalmente. E o próprio João Crisóstomo, por você mesmo nomeado como "pai da Igreja" e como primeiro homem a chamar "Bíblia" ao conjunto dos livros sagrados, não era católico? Agradeço antecipadamente pela cortês atenção, e envio as minhas mais cordiais saudações.


Também para mim resulta claro que foram bispos católicos a proclamar oficialmente quais eram os livros inspirados e os não inspirados, isto é, os que deviam ser considerados Escritura e quais não deviam sê-lo. E isto aconteceu entre o terceiro e o quarto século, em particular a decisão final foi tomada no concílio de Cartago de 397 onde foi declarado – pelo que dizia respeito ao Novo Testamento - que só estes 27 livros deviam ser aceites como canónicos; Mateus, Marcos, Lucas, João, Actos dos apóstolos, Romanos, primeira e segunda epístola aos Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Primeira e segunda epístola aos Tessalonicenses, primeira e segunda epístola a Timóteo, Tito, Filemom, Hebreus, Tiago, primeira e segunda epístola de Pedro, primeira e segunda e terceira epístola de João, Judas, Apocalipse.
Entre os chamados pais da Igreja, também para mim resulta claro que foi João Crisóstomo a usar o termo ‘Bíblia’ em referência aos livros inspirados. Mas o que NÃO ME RESULTA DE MODO NENHUM CLARO da História é que esses bispos que tomaram essa decisão, fossem CATÓLICOS ROMANOS, porque então não existia o papado como o entendemos hoje. Então ao bispo de Roma não era reconhecido o primado de jurisdição sobre todos os outros bispos, como ao contrário acontece hoje. O bispo de Roma, por mais que gozasse de prestígio porque era bispo de uma das igrejas mais antigas, não tinha de modo algum o poder que tem hoje. Portanto, podemos dizer que foi a Igreja Católica ou Universal (porque é isto que significa o termo ‘católica’), a estabelecer, ou melhor, a reconhecer o cânon do Novo Testamento, mas não a Igreja Católica Romana, naqueles tempos de facto a Igreja Universal não tinha como chefe o bispo de Roma. E aqui quero dizer uma outra coisa, não é que o Cânon tomou a sua autoridade pelos Concílios da Igreja Antiga, de modo nenhum, porque a Igreja já possuía a Escritura, ela já reconhecia a Escritura Sagrada. Aquilo que fizeram os Concílios foi proclamar de maneira pública e solene o que a Igreja por séculos já tinha aceite. É verdade que alguns nesses séculos puseram em discussão certos livros do Novo Testamento, mas nunca foi a maioria dos Cristãos a pô-los em discussão mas apenas uma minoria. Pelo que no fim também aqueles livros ‘discutíveis’ tiveram que por força ser aceites como parte do Cânon Neotestamentário da Bíblia..
Pelo que diz respeito aos livros do Antigo Testamento, é preciso dizer que o mesmo Concílio de Cartago de 397 depois de Cristo, se exprimiu a favor da inclusão dos livros apócrifos no Cânon; e isto porque sobre esse Concílio exerceu uma forte influência Agostinho de Hipona que os considerava canónicos. Mas isto sem dúvida foi um erro, porque os livros apócrifos não são inspirados como ao contrário o são os outros. É verdade que Agostinho ao confutar alguém que fazia apelo ao segundo livro dos Macabeus, respondia que a sua causa devia ser bastante fraca se tinha que recorrer para sua defesa a um livro que não pertencia à categoria dos livros sagrados acolhidos e considerados tais pelos Judeus; mas ele no seu livro Instrução Cristã os enumera entre os livros sagrados. Deve ser todavia dito que a posição de Agostinho não era de modo algum aceite pelo seu contemporâneo Jerónimo (347-420 depois de Cristo), que foi o autor da Vulgata, que no seu Prologus Galeatus considerava os livros apócrifos como não fazendo parte do Cânon. E não só, ele diz também que ‘a igreja lê Judite, Tobias e os Macabeus (no culto público), mas não os recebe como livros canónicos das Escrituras’, o que faz perceber que em linha geral a Igreja antiga não os aceitava como inspirados, e disto se pode deduzir que a decisão do Concílio de Cartago foi contra o parecer da maioria na Igreja. Também um outro dos chamados pais da Igreja, também este muito autorizado no seu tempo, a saber, Atanásio (morto em 365), não aceitava como canónicos os livros apócrifos, de facto, no parágrafo 4 da sua trigésima nona carta ele diz que o Antigo Testamento resulta de 22 livros, que ele depois passa a enumerar assim como se encontram agora no texto Masorético e segundo a ordem das Igrejas protestantes; nos parágrafos 6 e 7 diz que os livros que não estão incluídos neste elenco, isto é, os catorze livros apócrifos, embora não sendo canónicos, ‘merecem ser lidos’. De qualquer modo, mesmo se vários concílios incluíram esses livros apócrifos no cânon, como tinham feito ainda primeiro os Setenta quando fizeram a tradução do Antigo Testamento em grego, isto não significa que eles fossem de considerar parte do cânon. Foi um dos erros que fizeram os antigos. Fizeram muitos erros: não é nada de admirar.

 

 

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