5. Queria pedir-lhe um esclarecimento de índole bastante geral: quem e sobre que bases decidiu que os livros inspirados que constituem a Bíblia são precisamente aqueles? A resposta óbvia é que no AT o decidiu o Povo da Aliança (sem precisar doutrem) e no NT a Assembleia dos "santos". Mas então a Assembleia é superior à Escritura, visto que decide sobre ela? A mim a posição da Igreja Romana a tal respeito parece bastante lógica e coerente, ainda que pense não estares de acordo.


Escuta, eu não penso, de modo nenhum, que a Igreja quando proclamou nos primeiros séculos depois de Cristo que livros deveriam compor o cânon se mostrou superior aos Livros Sagrados, e a razão é porque a decisão que a Igreja tomou foi simplesmente a de escrever a lista daqueles livros que eram inspirados não incluindo portanto na lista todos aqueles livros, escritos quer antes da vinda de Cristo quer depois, que não eram inspirados.

Pelo que concerne ao cânon do Novo Testamento, haviam diversos Evangelhos apócrifos (atribuídos a Pedro, a Tomé, a Matias e ainda a outros), os Actos de André, de João e dos outros apóstolos, todos livros que era manifesto que não eram autênticos porque continham coisas absurdas e falsas doutrinas (cfr. Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, III, 25). É verdade que por quanto respeita ao reconhecimento de alguns livros sagrados alguns no início os puseram em discussão (vê por exemplo a epístola de Tiago, a de Judas, a segunda de Pedro e a segunda e a terceira de João, como também o Apocalipse e a carta aos Hebreus), mas no fim se decidiu incluí-los no Cânon porque a maior parte dos cristãos reconheceu neles livros inspirados.
Por quanto respeita ao cânon do Antigo Testamento se aceitaram como inspirados só os livros que os Hebreus tinham já aceite como tais, e foram excluídos todos os livros apócrifos do Antigo Testamento que também os mesmos Hebreus não tinham incluído no seu cânon bíblico e que os Cristãos desde o início nunca reconheceram como Escritura, ou seja, como Palavra de Deus. A Igreja no século IV (Concílio de Cartago de 397 depois de Cristo) tomou alguns deles e os incluiu no cânon sagrado, isto aconteceu sob a influência de alguns dos chamados Pais da Igreja que os consideravam canónicos, entre os quais estava Agostinho de Hipona. A mesma coisa fará infelizmente a Igreja Católica Romana a seguir no século dezasseis, de facto, ela tomou alguns deles e os incluiu no cânon lançando o anátema contra todos aqueles que não os reconhecerem sagrados. Fazendo isto portanto a Igreja Católica romana foi contra o parecer dos primeiros Cristãos que não aceitaram esses livros como sagrados. Até Jerónimo o tradutor da Vulgata não reconhecia como sagrados os livros apócrifos que a Igreja Católica Romana incluiu no cânon; como também Atanásio, mas Jerónimo e Atanásio neste caso não são ouvidos pela Igreja Católica Romana.
Queria portanto dizer que a Igreja Católica Romana com o ter acrescentado os livros apócrifos (que estão cheios de fábulas, contradições e falsidades) ao cânon, demonstrou ainda uma vez ser contra a Palavra de Deus e não a favor dela. Esta é a verdadeira posição da Igreja Católica em relação à Escritura; ela é uma acérrima inimiga da Palavra de Deus e o demonstrou no curso dos séculos chegando até a proibir a leitura dela ao povo. Poderá a Igreja Romana reputar-se superior à Sagrada Escritura, coisa que faz porque considera que a escritura recebe a autoridade da Igreja, mas ela erra grandemente e para nós Cristãos não importa absolutamente nada. Nós do nosso canto como Cristãos não nos reputamos superiores à Escritura porque ela é a Palavra de Deus de quem a Igreja recebe a autoridade, e estamos seguros que também os antigos Cristãos tinham este sentimento.
Concluo dizendo isto; a Igreja Romana incluindo os livros apócrifos no Cânon demonstrou claramente não ter discernimento espiritual, que não é idónea sequer para reconhecer um livro inspirado de um não inspirado. Em outras palavras é como aquele que não consegue distinguir um cavalo de um mulo. É pois completamente inconfiável: mas aliás o que se podia esperar de bom de uma Igreja que tinha já aceite no curso dos séculos tantas práticas e tantas doutrinas contrárias à sã doutrina, como o batismo dos infantes, a regeneração batismal, a confissão ao padre, a missa como repetição do sacrifício de Cristo, o culto das estátuas e das imagens, o purgatório, o culto de Maria, dos santos e dos anjos? Nada, senão ainda falsidade, e eis acrescentados portanto os livros apócrifos ao cânon. Eu li grande parte destes livros e efectivamente ao lê-los se percebe logo que nos encontramos perante livros não inspirados, o Espírito em mim o testifica logo, e isto acontecia também aos primeiros Cristãos que portanto agiram em conformidade. Não te apoies portanto no Magistério da Igreja Romana, porque ele te induz ao erro.

 

 

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