Roberto Bracco

 

Perseguição em Itália

 

 

Título original:

Persecuzione in Italia

 

Primeira Edição, Roma 1954

Segunda Edição, Roma 1964

Tradução: Hugo Castro






Introdução

 

A Itália sempre foi um país de violenta e algumas vezes cruel intolerância religiosa. Através dos séculos milhares e milhares de cristãos derramaram o seu sangue generoso pelo testemunho do Evangelho e muitas vezes colónias inteiras de crentes foram mortas pelas armas para tentar sufocar com a sua morte, a proclamação da verdade.

 

Quando falo da Itália, não me refiro ao poderoso Império romano que desde Nero em diante organizou e conduziu as suas sangrentas perseguições contra os cristãos; mas falo exclusivamente das repressões exercidas sobretudo, por influência do catolicismo oficial, desde a época dos primeiros Valdenses aos nossos dias.

 

Este nosso país, tão sensível aos problemas religiosos, nunca gozou infelizmente, da liberdade conquistada por outros povos e se arrastou, através dos séculos, e se arrasta, também na nossa geração sob o peso das cadeias apertadas pela igreja católica à volta da sua vida.

 

É lógico, portanto, que também o nosso movimento encontrasse desde o seu início, hospitalidade hostil e oposição organizada. Antes, posso acrescentar, hostilidade mais acentuada do que a manifestada em relação a outros movimentos, que pareciam de menor perigosidade com respeito à igreja católica. Apesar deste estado de coisas, as nossas igrejas, porém, não sofreram uma verdadeira perseguição durante muitos anos, e isto sobretudo por duas razões. A primeira razão é constituída pelo facto que por muitos anos a obra viveu em fase de gestação: as igrejas eram poucas e os membros destas não eram numerosos. A actividade do movimento não era por isso excessivamente visível e notavelmente preocupante para os adversários do evangelho. A segunda razão é constituída pela condição política da nossa nação anteriormente ao ano de 1929.

 

O Estado italiano vivia, nessa época, em aberto e oficial conflito com a igreja católica, em consequência dos acontecimentos bélicos de 1870 nunca sanados e nunca superados. O governo, por conseguinte, estava desvinculado de interferências ou influências das hierarquias eclesiásticas e antes não raramente era induzido a agir num espírito liberal abertamente em contraste com os desejos da igreja católica. Estas duas razões, porém, desapareceram espontaneamente nos anos imediatamente anteriores à perseguição; o movimento, superado o período de gestação, conheceu o seu rápido e vigoroso desenvolvimento numérico e espiritual, e a situação política sofreu uma radical transformação em consequência da Conciliação entre o Estado e a igreja e do tratado lateranense, que da conciliação foi a filiação natural.

 

O movimento não podia mais passar despercebido e ao mesmo tempo o governo não podia mais tolerá-lo incondicionalmente, quando a nova situação política lhe sugeria satisfazer o mais largamente possível os desejos e os objectivos da igreja católica. A partir de 1929 começaram por isso os sinais da incipiente perseguição e se esta não teve início nesse ano, foi somente porque a máquina burocrática governamental foi lenta a pôr-se em movimento. Houveram, porém, casos isolados periféricos de violenta intolerância que marcaram o princípio da batalha. O conflito, no sentido rigoroso deste termo, estalou no ano de 1935, pois foi no princípio desse ano que o então subsecretário do Ministério do Interior (o ministro era o próprio Mussolini que gostava de acumular cargos), após ter declarado nulo o decreto de nomeação para ministro de culto ao pastor da nossa comunidade de Roma, iniciou a sua enérgica acção repressiva.

 

O nosso movimento nunca tinha sido oficialmente reconhecido pelo Governo, e de todos os ministros de culto em actividade, somente o da igreja de Roma tinha obtido um decreto que lhe reconhecia o direito de exercer o seu ministério espiritual e de presidir reuniões de culto públicas. Ele, porém, gozava o privilégio de conceder delegações a outros ministros assumindo a responsabilidade pela actividade deles. Com a revogação portanto do único decreto concedido, o Ministério contestava ao mesmo tempo o direito ao pastor da comunidade de Roma de exercer o seu mandato espiritual e a todos aqueles que tinham sido por ele delegados, a faculdade de realizar e presidir reuniões de culto públicas.

 

As autoridades periféricas de segurança pública tomaram imediatamente providências para intimar os proprietários dos locais onde eram realizadas as reuniões e os condutores das comunidades para não realizar mais reuniões de culto. Quase todas as igrejas foram fechadas e permaneceram somente abertas as poucas que por algumas semanas e alguns meses fugiram à observação das autoridades de segurança pública. Mas se os locais, destinados oficialmente ao culto público, foram solicitamente fechados, as actividades dos fiéis não cessaram. Imediatamente e com aquela prontidão que representa um dos maravilhosos recursos do Espírito, as comunidades se organizaram para iniciar a sua nova vida; a vida em clima de perseguição.

 

A organização das comunidades não foi uniforme porque cada uma destas procurou a adaptação em relação às particulares circunstâncias do ambiente. Nas cidades, por exemplo, foi fácil ao princípio realizar reuniões de culto privadas nas casas de habitação subdividindo-se em diversos grupos nas várias zonas da própria cidade. Nos pequenos povoados, ao invés, onde esta organização não podia passar despercebida, procurou-se antes aproveitar o favor dos campos longe das casas, ou a oportunidade oferecida pelas longas noites da localidade; e assim as reuniões ou eram realizadas em lugares longínquos e escondidos ou eram realizadas em voz baixa em plena noite.

 

Este estado de coisas não podia durar, porque os mesmos, que tinham pedido a repressão do movimento, foram solícitos em informar as autoridades relativamente à continuação da nossa actividade. Do Ministério do Interior partiram então várias enérgicas circulares reservadas, dirigidas aos prefeitos e aos comandantes da polícia, com as mais precisas e detalhadas instruções acerca das providências a adoptar-se em relação ao movimento e aos fiéis, na eventualidade de se verificar o desenrolar de qualquer actividade. Uma dentre estas circulares, enfrentava de maneira particular e resolutiva a questão aberta. Refiro-me à já famosíssima circular n. 600/159 de 9 de Abril de 1935 assinada por Buffarini-Guidi, que ordenava a dissolução e a repressão de todas as comunidades e de qualquer actividade do nosso movimento justificando a medida com a necessidade de salvaguardar a integridade física e psíquica da raça. O regime fascista, é preciso não esquecer, propugnava a diabólica filosofia do super-homem e, portanto, aquela consequente da discriminação racial. A defesa da integridade da raça representava por isso um fenómeno político de importância vital na vida da nação e os atentados à integridade da raça assumiam o aspecto jurídico de delito político. O movimento pentecostal veio por isso a encontrar-se no campo das actividades políticas condenadas pelo regime e, coisa pior, veio apontado como um movimento gerador de diminuídos físicos e psíquicos, isto é, gerador de doentes e loucos. Não é difícil compreender de onde partiu o ataque como não é difícil identificar o motivo que inspirou esta acusação antes que uma outra.

 

Tudo foi organizado com crueldade e com astúcia maléfica. Também a opinião pública foi habilmente manobrada em benefício da perseguição. Uma prolongada campanha jornalística desenvolvida pela imprensa totalmente submetida ao governo, encarregou-se de cobrir de opróbrio e de ridículo todas as nossas comunidades: as mentiras mais despudoradas, as insinuações mais audazes foram diabolicamente exploradas para alcançar este objectivo.

 

Este imenso campo de batalha em perfeito estado de guerra não podia permanecer inerte; os ataques partiram bem cedo e cobriram a frente de estrondo ensurdecedor: veio a perseguição.


Detenções após detenções; exílio, prisão, processos, repatriamentos, ameaças, açoites... Estes ataques já não podiam ser identificados em ordem distinta, porque um só estrondo formado de cem, mil ataques envolveu o movimento numa luta de dimensões gerais. Passaram assim lentamente os oito anos de lágrimas e de sangue, que foram porém também anos de bênçãos e de poder. Nestes anos os filhos de Deus conheceram as experiências mais vivas do cristianismo. Não somente as experiências dolorosas, e necessárias, da prisão, da separação, da angústia, do perigo constante e tormentoso, mas também as luminosas e alegres das libertações, das bênçãos inefáveis, do milagre.


Estes oito anos podem ser reconstruídos dia por dia, porque mesmo hoje, que nos aparecem à distância, nos aparecem nos detalhes mais vivos. Como esquecer os lentos e furtivos êxodos para os campos longínquos para reunir, com o favor da noite, longe dos olhos indiscretos? E como esquecer as reuniões de culto solenes e trepidantes , realizadas no coração das cavernas ou das grutas? Como esquecer as repetidas partidas, cheias de comoção e de pranto que exilavam os irmãos, para longe das comunidades? Como esquecer os múltiplos processos que nos juntavam no banco dos réus, aos ladrões, às prostitutas, aos mendigos? Como esquecer as celas das prisões ou dos quartos de segurança onde passávamos dias de sofrimento, mas também de alegria cristã? Como esquecer as inumeráveis detenções cheias de circunstâncias emocionantes e de episódios dramáticos? Não, estas coisas estão vivas na memória de todos os que as viveram; mas não representam, porém, uma recordação opressiva ou assustadora, antes uma doce recordação com leves tons nostálgicos que fala de lutas, mas também de vitórias; de dores mas também de bênçãos, sobretudo que fala de uma vida cristã intensamente vivida; vivida até ao sacrifício, até à renúncia, até à dor, com todo o ímpeto de corações realmente transbordantes do amor de Cristo. Muitos cristãos invocam hoje os dias da perseguição, porque recordam claramente que o fogo da luta era também o fogo da santificação, o fogo da fidelidade. É audaz afirmar que a perseguição representa saúde espiritual, mas é também audaz sustentar que ela constitua um dano para a igreja cristã e é mais lógico aceitar o princípio de que tudo aquilo que Deus prepara na vida do seu povo é para o bem e para a prosperidade. Por isso hoje, que um clima de parcial tolerância (*) afastou a luta quotidiana da perseguição, nós não invocamos uma nova perseguição, como não sofremos agonias por uma absoluta liberdade, mas invocamos e esperamos o cumprimento do plano que Deus, o Deus de toda a sabedoria, preparou para nós.


 (*) O livro foi escrito há cerca de 40 anos .

 


Capítulo 1 - O nosso Deus, a quem nós servimos é poderoso para nos libertar.

 

... O nosso Deus, a quem nós servimos é poderoso para nos libertar... (Daniel 3:17).

 

A frase dos três irmãos hebreus foi, durante o período da perseguição, o mote e também a regra espiritual das comunidades de Itália.

 

Todas as igrejas e todos os fiéis fizeram o seu caminho com a convicção profunda que Deus era poderoso a manifestar ajuda e libertação em todas as provas. Portanto as provas, as dores, as perseguições não representavam, para os cristãos, um sinal da fraqueza ou impotência de Deus, mas somente uma manifestação dos seus planos e da sua vontade.

 

Sempre, de facto, perante os ferozes agressores os cristãos repetiram o testemunho de Sadraque e dos seus companheiros: "O Deus que servimos é poderoso a nos libertar".

 

Quantas vezes vimos diante de nós funcionários espumando de raiva, quase loucos de ira, que, parecia, quererem triturar-nos, aniquilar-nos! Quantas vezes ouvimos gritar na cara as suas terríveis ameaças; quantas vezes se apresentou aos nossos olhos o espectáculo de um poder humano, de um poder infernal que parecia esmagar-nos!... Amedrontámo-nos ou reconhecemos a grandeza deste diabólico poder? Não! Continuámos a repetir, perante os perseguidores, mas sobretudo no íntimo do nosso coração: "Deus é poderoso para nos libertar!"

 

Esta convicção e este testemunho não foram, porém, nunca independentes da convicção expressa na segunda frase dos três companheiros hebreus: "Se Deus não nos libertar, nós faremos igualmente a Sua vontade"

 

Ele é poderoso para nos libertar, mas se, para o cumprimento dos seus planos gloriosos e eternos, considerar mais oportuno deixar-nos no fogo da perseguição, nós continuaremos igualmente a honrar e glorificar o Seu nome com fé e dedicação.

 

Nestes termos o nosso testemunho resultava completo e a nossa convicção sã e perfeita. Nos liberte ou não nos liberte, avante; avante com o Senhor. E todos juntos repetindo estas doces e poderosas palavras, prosseguimos o nosso caminho.

 

O Deus fiel muitas e muitas vezes nos mostrou e demonstrou que era poderoso a fazer libertações milagrosas em nosso favor e estas repetidas demonstrações foram suficientes naqueles dias para nos recordar que quando Ele não nos libertava tinha que cumprir, no nosso sofrimento, um plano para a sua glória e para a nossa edificação.

 

Pessoalmente tive modo de experimentar repetidamente a intervenção milagrosa de Deus e de constatar por isso que tudo se desenvolvia segundo os planos inteligentes que o Senhor devia levar a execução. Dentre as muitas libertações lembro-me de uma realizada longe da minha cidade. Fui convidado para ir a Terni, onde tinha surgido uma pequena comunidade cheia de fervor e de entusiasmo cristão. Aceitei o convite e dirigi-me para essa cidade juntamente com uma irmã da comunidade. Assim que chegámos, dirigimo-nos para casa de uma família de fiéis que estava à espera da nossa chegada e ali iniciámos uma conversa cristã. Estávamos lá somente há pouco tempo, talvez 30 minutos, quando chegou um jovem irmão todo atarefado a avisar-nos que um notável número de agentes de segurança pública tinham invadido diversas habitações de fiéis e em todo o lado perguntavam por mim. Procuravam-me activamente para me prenderem. Por quem tinham sido informados da minha chegada nunca pude sabê-lo, mas uma coisa soube naquela ocasião: eu era procurado.

 

Sem demora deixei aquela casa e pus-me a andar pela cidade juntamente com a irmã que me tinha acompanhado. Peregrinámos longamente esperando confiantemente os eventos, mas a trepidação nos inflamava o coração; estávamos ansiosos pelos fiéis junto dos quais a polícia me procurava.

 

Caminhando em todas as direcções, procurei restringir o círculo dos meus passos para a casa da família que representava o centro da comunidade do lugar. Cheguei nas proximidades daquela casa e procurei observar de longe o que estava a acontecer. Não consegui notar nada e por isso decidi-me, avançando cautelosamente, aproximar-me da casa. A zona estava quase deserta e eu com aparente desinteresse e indiferença caminhei para o portão.

 

Cheguei diante da entrada: nada! Tudo silêncio. Não sabia se entrar ou afastar-me; de repente tomei a decisão de encostar-me à janela que estava ao lado do portão, à distância talvez de um metro para procurar observar, através dos postigos fechados o que acontecia no interior. Com a máxima cautela me aproximei e procurei olhar para o interior. Os postigos estavam muito fechados e o meu olhar não conseguia penetrar através das fissuras, estava intensamente concentrado no meu intento, quando de repente me achei rodeado por um denso grupo de guardas. Eram vinte? Eram trinta? Não poderei dizê-lo mas lembro-me claramente que eram muitíssimos. Tinham chegado por trás de mim sem que me apercebesse disso; porque estava profundamente concentrado a tentar superar o obstáculo dos postigos para poder ver o que se passava no interior da casa. Voltei-me: os guardas estavam à minha volta; estávamos absolutamente sozinhos naquela zona. Não me desencorajei, antes decidi caminhar; atravessei o círculo dos guardas; afastei-me, perdi-me novamente na cidade longe deles e da sua raiva.

 

O que aconteceu? Não sei; mas eu creio que os guardas olharam para mim sem me ver; rodearam-me sem se aperceberem que eu me afastava tranquilo atravessando as suas fileiras. Sim, o nosso Deus é poderoso a nos libertar; a nos libertar individualmente, como fez muitas e muitas vezes comigo e com todos os fiéis durante a perseguição; e também a nos libertar colectivamente, quando com estes meios pretendia glorificar o Seu nome. Quantas vezes a polícia acreditava ter-nos na mão enquanto nós lhe saíamos da dita de maneira milagrosa! Quantas vezes era obrigada a consumir-se de raiva por causa dos métodos maravilhosos que Deus usava para esconder-nos dos olhos de quantos nos combatiam!

 

Lembro-me, dentre as muitas memórias, de uma libertação tão poderosa quanto graciosa. Realizava-se uma reunião de culto em noite avançada no fundo de um campo situado na extrema periferia da cidade. Os fiéis conheciam o lugar, porque tinha sido usado muitas vezes para o mesmo objectivo e se encontraram ali pela hora estabelecida.

 

A escuridão de uma noite sem lua rodeava os fiéis de uma densa cortina. Iniciaram os hinos em voz baixa ...

 

De repente, coisa estranha, duas, três, cinco, oito pequenas luzes se acenderam no meio do grupo. Eram fogos de cigarros. Os fiéis compreenderam que diversos inconvertidos se encontravam naquele mesmo lugar, mas não se preocuparam; a reunião continuou regularmente. Após os hinos, a oração; após a oração, mais um hino; depois os testemunhos, a pregação, um hino, uma segunda oração, e por fim a reunião se encerra.

 

Todos tomaram o caminho de volta e espalhadamente alcançaram novamente a cidade para encaminhar-se para as suas habitações.

 

Uma semana depois viemos a saber, de maneira verdadeiramente milagrosa, que um grupo de guardas, enviados expressamente para prender os fiéis, tinham estado presentes na reunião sem poder executar a ordem recebida.