Capitulo 12

O ecumenismo [1]

 

A MUDANÇA DE ATITUDE DA IGREJA CATÓLICA EM RELAÇÃO AO ECUMENISMO

 

Na encíclica Mortalium Animos (1928) de Pio XI (1922-1939) se lê: ‘Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja recto. Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade? Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem "UM"? (...) Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem (...) Oxalá todos os cristãos fossem "UM", acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho. Os chamados "pancristãos" espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos. Esta iniciativa é promovida de modo tão activo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadãos e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grémio (...) os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeito a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos (...) Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembleias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo (...) Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objecto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros? E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina? Como os que crêem instituída por Deus a hierarquia com Bispos, padres e ministros, e os que a dizem introduzida a pouco e pouco em diferentes circunstâncias de tempo e de factos? Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo? Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor? Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo - Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar - e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo? (...) Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos (...) Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos porquanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos (...) Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica (...) para que se entreguem a seu magistério e regime. (...)’ (Tutte le encicliche dei sommi pontefici [ Todas as encíclicas dos sumos pontífices] , vol. 1, Milano 1979, pag. 803-811).

Eis como há setenta anos o papado pensava sobre o ecumenismo. Em substância ele considerava difícil, ou melhor impossível, uma união com os que negavam grande parte dos dogmas essenciais da igreja católica, e portanto considerava que toda a tentativa de se juntarem seria vã e por isso os Católicos deviam abster-se de participar em iniciativas que não podiam dar algum resultado. Agora porém as coisas mudaram notavelmente, no sentido que agora é a própria igreja católica a encorajar iniciativas ecuménicas para a reunificação de todos os Cristãos (esta viragem se verificou com o concílio Vaticano II que foi convocado por João XXIII, 1958-1963, e depois prosseguido por Paulo VI, 1963-1978). Portanto ela não considera mais inúteis as tentativas em vista da unificação das igrejas como então fazia o seu chefe Pio XI. Unificação que em substância consiste em levar os chamados dissidentes para o seu grémio, sob a guia do seu magistério, em outros termos, em um retorno ao ‘aprisco’ daqueles que se afastaram dele (mesmo se hoje a se ouve falar raramente do grande retorno porque agora fala não mais de absorvimento das igrejas separadas mas de uma sua unidade com Roma na diversidade e no respeito das particularidades históricas, litúrgicas e doutrinais de cada igreja). Perante esta sua nova atitude me encontro pois obrigado, irmãos, a falar-vos do ecumenismo por ela embandeirado (e infelizmente também por algumas Igrejas evangélicas) a fim de vos advertir sobre os perigos que se escondem por detrás dele e para que saibais como responder aos que em fingidos semblantes e com palavras doces vêm a vós propor-vos este ecumenismo.

 

O decreto do concílio Vaticano II sobre o ecumenismo

 

Proponho agora à vossa atenção algumas passagens do decreto sobre o ecumenismo do concílio Vaticano II datado de 21 de Novembro de 1964, decreto que para muitos constitui uma viragem histórica da igreja romana porque ela por meio dele se declarou aberta ao diálogo com ‘as outras igrejas cristãs’ para restabelecer a unidade dos Cristãos abandonando assim a sua posição passada. Também por nossa parte reconhecemos que uma viragem se verificou realmente no âmbito da igreja católica porque ela se pôs a dialogar com os que ela agora chama ‘os irmãos separados’; mas apenas isso, porque na substância a igreja romana não rompeu de modo nenhum com o passado mas permaneceu a mesma dos séculos passados. Por isso estamos de acordo com as seguintes palavras do cardeal Gabriel-Marie Garrone (que participou no concílio Vaticano II) por ele ditas em 1985, segundo as quais o quanto emerge do Vaticano II às vezes ‘não sublinha de modo adequado o elemento de continuidade com o passado. Alguém poderia ler nele até uma recusa das concessões anteriores. Enquanto não há nada de mais falso que ler o Concílio em chave de rotura com o passado’ (Entrevista a ‘30 giorni’, Março de 1985, pag. 23) [2]. Mas vejamos as palavras do decreto sobre o ecumenismo (Concílio Vaticano II, (1962-1965), Sess. V - 21 de Novembro de 1964).

Ÿ ‘Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II. Pois Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja. Todavia, são numerosas as Comunhões cristãs que se apresentam aos homens como a verdadeira herança de Jesus Cristo. Todos, na verdade, se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura. O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano de sua graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espírito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado ecuménico. Participam dele os que invocam Deus Trino e confessam a Cristo como Senhor e Salvador, não só individualmente mas também reunidos em assembleias. Cada qual afirma que o grupo onde ouviu o Evangelho é Igreja sua e de Deus. Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus. (ibid., Do proémio ) (...) E o Filho, antes de oferecer-se no altar da cruz, como vítima imaculada, rogou ao Pai pelos crentes, dizendo: «Para que todos sejam um, como tu, Pai, és em mim e eu em ti; para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste» (Jo. 17,21). E na Sua Igreja instituiu o admirável sacramento da Eucaristia, pelo qual é tanto significada como realizada a unidade da Igreja (...) Para estabelecer esta Sua Igreja santa em todo mundo até à consumação dos séculos, Cristo outorgou ao colégio dos doze o ofício de ensinar, governar e santificar. Dentre eles, escolheu Pedro, sobre quem, após a profissão de fé, decidiu edificar a Sua Igreja. A ele prometeu as chaves do reino dos céus e, depois da profissão do seu amor, confiou-lhe a tarefa de confirmar todas as ovelhas na fé e de apascentá-las em perfeita unidade, permanecendo eternamente o próprio Cristo Jesus a suma pedra angular e o pastor das nossas almas. Jesus Cristo quer que o Seu Povo cresça mediante a fiel pregação do Evangelho, administração dos sacramentos e governo amoroso dos Apóstolos e dos seus sucessores os Bispos, com a sua cabeça, o sucessor de Pedro, sob a acção do Espírito Santo; e vai aperfeiçoando a sua comunhão na unidade: na confissão duma só fé, na comum celebração do culto divino e na fraterna concórdia da família de Deus. (.....) Nesta una e única Igreja de Deus já desde os primórdios surgiram algumas cisões, que o Apóstolo censura asperamente como condenáveis. Nos séculos posteriores, porém, originaram-se dissensões mais amplas. Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens dum e doutro lado. Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterno respeito e amor. Pois que crêem em Cristo e foram devidamente baptizados, estão numa certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica. De facto, as discrepâncias que de vários modos existem entre eles e a Igreja católica - quer em questões doutrinais e às vezes também disciplinares, quer acerca da estrutura da Igreja - criam não poucos obstáculos, por vezes muito graves, à plena comunhão eclesiástica. O movimento ecuménico visa a superar estes obstáculos. No entanto, justificados no Baptismo pela fé, são incorporados a Cristo, e, por isso, com direito se honram com o nome de cristãos e justamente são reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor.(....) Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de instrumentos de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica. Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só por meio da Igreja católica de Cristo, que é o instrumento geral da salvação, pode-se obter toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, à cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus (...) Por «movimento ecuménico» entendem-se as actividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime (...) É, sem dúvida, necessário que os fiéis católicos na empresa ecuménica se preocupem com os irmãos separados, rezando por eles, comunicando com eles sobre assuntos da Igreja, dando os primeiros passos em direcção a eles. Sobretudo, porém, examinem com espírito sincero e atento aquelas coisas que na própria família católica devem ser renovadas e realizadas para que a sua vida dê um testemunho mais fiel e luminoso da doutrina e dos ensinamentos recebidos de Cristo, através dos Apóstolos. Embora a Igreja católica seja enriquecida de toda a verdade revelada por Deus e de todos os meios da graça, os seus membros, contudo, não vivem com todo aquele fervor que seria conveniente. E assim, aos irmãos separados e ao mundo inteiro o rosto da Igreja brilha menos e o seu crescimento é retardado. Por esse motivo, todos os católicos devem tender à perfeição cristã e, cada um segundo a própria condição, devam procurar que a Igreja, levando em seu corpo a humildade e mortificação de Jesus, de dia para dia se purifique e se renove, até que, Cristo a apresente a Si gloriosa, sem mancha e sem ruga. (ibid., cap. 1). (...) Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. (...) Em algumas circunstâncias especiais, como por ocasião das orações prescritas «pela unidade», e em reuniões ecuménicas, é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos separados na oração. Tais preces comuns são certamente um meio muito eficaz para impetrar a graça da unidade. São uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados (....) Os Católicos devidamente preparados devem adquirir um melhor conhecimento da doutrina e história, da vida espiritual e litúrgica, da psicologia religiosa e da cultura própria dos irmãos. Muito ajudam para isso as reuniões de ambas as partes para tratar principalmente de questões teológicas, onde cada parte deve agir de igual para igual, contanto que aqueles que, sob a vigilância dos superiores, nelas tomam parte, sejam verdadeiramente peritos (.....) Ademais, no diálogo ecuménico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade. Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou «hierarquia» das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente. Assim se abre o caminho pelo qual, mediante esta fraterna emulação, todos se sintam incitados a um conhecimento mais profundo e a uma exposição mais clara das insondáveis riquezas de Cristo. (ibid., cap. 2). (...) Embora falte às Comunidades eclesiais de nós separadas a unidade plena connosco proveniente do Baptismo, e embora creiamos que elas não tenham conservado a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem, contudo, quando na santa Ceia comemoram a morte e a ressurreição do Senhor, elas confessam ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam o Seu glorioso advento. É, por isso, necessário que se tome como objecto do diálogo a doutrina sobre a Ceia do Senhor, sobre os outros sacramentos, sobre o culto e sobre os ministérios da Igreja.’ (ibid., cap. 3).

Como podeis ver nós nos encontramos diante de um documento onde o erro é misturado habilmente à verdade; e onde as mentiras, a falsidade e as hipocrisias são apresentadas com doçura e lisonjas pela cúria romana. Notai como nas referidas palavras vem reiterado que a igreja católica romana é a Igreja constituída por Cristo porque possui o sucessor de Pedro e os sucessores dos apóstolos, isto é, os bispos; e depois também porque possui todos os meios da graça, isto é, os sacramentos através dos quais é conferida a graça aos homens, e que a unidade dos Cristãos passa obrigatoriamente por ela. Isto basta para entender que efectivamente a igreja católica romana é a mesma de séculos atrás, porque - mesmo se por vezes de maneira um pouco diferente do quanto fazia outrora - continua a considerar ser o ponto de referência para todos os Cristãos, e que portanto na realidade ela não está de modo algum a favor do ecumenismo verdadeiro, mas está apenas concentrada em seguir o seu domínio temporal e em impor a sua vontade aos outros. Ela é a mãe das igrejas, todas as outras são suas filhas e por isso estas últimas se devem reconciliar com ela e voltar a amamentar-se dela porque esta, segundo eles, é a vontade de Deus! E esta reconciliação - naturalmente - pode acontecer somente reconhecendo a autoridade papal, o magistério católico, os seus sacramentos, e toda a sua tradição; isto é em substância a mensagem de fundo que leva avante a igreja católica romana neste esforço ecuménico, desde 1964 em diante. Alguns Evangélicos porém consideram que a igreja católica romana se tenha aberto com este decreto sobre o ecumenismo; mas nós dizemos; ‘Mas o que abriu? De certo os Católicos não abriram o coração ao amor pela verdade para serem salvos; mas abriram uma cova bem profunda e bem camuflada para na qual fazer cair os simples; eis o que abriram os Católicos diante de nós.

Ora, já confutei em precedência as afirmações feitas da parte católica segundo as quais o papa é sucessor de Pedro, e a igreja romana o instrumento de salvação para o género humano; por isso aqui me limitarei a fazer considerações à luz das Escrituras sobre a unidade de que fala a Escritura; considero imperioso fazê-las, sabendo que o Vaticano está intensificando os seus esforços para instaurar um diálogo cada vez mais ‘frutuoso’ com muitos crentes, que tem como fim o de fazê-los cair da graça, fazê-los desviar da verdade, e corrompê-los. Na verdade importa dizer que o diabo está tentando mais do que nunca nestes últimos fins dos tempos fazer apostatar os crentes da fé, e nós reconhecemos que um dos meios de que se está usando para fazer isso é justamente este ecumenismo assim como o entende a igreja romana e infelizmente também algumas Igrejas evangélicas que se deixaram seduzir pelas suas lisonjas. Aquilo a que nós assistimos é isto, a saber, durante o tempo em que houve a Reforma protestante a igreja romana enfurecida sobremodo ao constatar que muitos seus membros saíam dela porque persuadidos que as coisas que ela ensinava e praticava eram contrárias ao ensinamento de Cristo e dos apóstolos, procurou com a sua força brutal (a Inquisição) fazer regressar ao seu meio aqueles que ela tinha perdido, hoje ela mudou de táctica. Ela deixou de usar a espada material - ou seja a Inquisição - contra os filhos de Deus e embraçou a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus mas ainda com o fim de nos fazer cair no pecado. Não é de admirar o facto de ela procurar nos fazer entrar a fazer parte dela (repito que este é o seu pensamento e objectivo final, mesmo se o seu falar por vezes pode não ser assim tão explícito sobre este ponto) servindo-se precisamente da Palavra de Deus (que ela detesta porque nos factos a anulou esvaziando-a da sua eficácia). Porquê? Porque também Satanás, o tentador, quando tentou Jesus para fazê-lo pecar se usou da Palavra de Deus. E quem pode dizer que o Diabo ama a Palavra de Deus? O certo porém é que fez uso dela, mas com o único fim de induzir Jesus Cristo a desobedecer ao seu Pai! Mas nós não ignoramos as maquinações de Satanás urdidas contra a Igreja do Deus vivo, coluna e base da verdade, por isso respondemos aos Católicos, que nos embandeiram as passagens da Escritura concernentes a unidade da Igreja, da mesma maneira em que fez Jesus em relação ao diabo; nós dizemos-lhes: "Também está escrito..." (Mat. 4:7). Ora, eles dizem que está escrito que Jesus Cristo, o Senhor orou pela unidade da Igreja, e isso é verdade; mas também está escrito que Jesus disse: "E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?" (Lucas 6:46). Portanto, por que chamam eles Jesus, Senhor, chefe da Igreja, mas recusam dobrar o pescoço sob ele mas o têm bem rígido? Com a boca reconhecem o Senhorio de Cristo mas com as suas obras negam as suas palavras porque mostram não ter nenhuma intenção de renunciar a todas as suas heresias de que se gloriam também de serem guardas. Como diz o profeta Ezequiel eles ouvem as palavras de Deus mas não as põem em prática porque com a boca fazem mostra de muito amor, mas o seu coração segue a avareza (cfr. Ez. 33:31-33), o seu coração segue os ídolos.

Eles devem antes de tudo reconhecer-se pecadores e não mais os membros da Igreja de Deus; devem depois implorar a misericórdia de Deus para que Ele tenha piedade deles; e depois devem produzir frutos dignos do arrependimento os quais estão ainda completamente ausentes neles. Ora, nós sabemos que quando um Católico romano se arrepende e crê no Evangelho deixa logo de adorar e orar a Maria, deixa de orar a Paulo, a Pedro, a João, a Luís, a José etc., e aos anjos; ele deixa de participar na missa, deixa de ter pendurado ao pescoço e em casa crucifixos, imagens e ídolos de qualquer tipo e grandeza, deixa de ir em peregrinação a qualquer santuário, deixa de chamar o papa ‘santo padre’, e de considerá-lo o chefe da Igreja na terra, deixa de participar nas funções religiosas de todo o tipo e género realizadas nos lugares de culto da igreja católica romana, deixa em substância de observar a tradição católica romana e de crer em todas as suas heresias. E tudo isto acontece nele porque Cristo vem morar nele e lhe renova a mente. Ele começa a estimar a Palavra de Deus como única guia da sua vida pondo de lado toda a tradição de homens que se opõe a ela; para ele a Palavra de Deus não é mais um livro qualquer ou um livro que deve ser posto ao mesmo nível dos decretos conciliares do Vaticano ou da secular tradição da igreja romana; e por isso começa a amá-la e a respeitá-la como nunca tinha feito antes. Isto é o que sucedeu em todos os nossos irmãos que encontraram o Senhor e saíram do seio desta organização religiosa; portanto nós estamos persuadidos que estes Católicos romanos que ainda não deixaram ou não têm nenhuma intenção de deixar de professar a religião católica romana - porque de facto a ela querem ficar apegados a todo o custo -, embora falem do senhorio de Cristo e da sua oração pela unidade dos crentes, ainda não se arrependeram e não creram no nome de Cristo Jesus, e por conseguinte ainda não fazem parte do corpo de Cristo e com eles não podemos ter comunhão de espírito. Seja bem claro portanto: enquanto o papa dos Católicos romanos e os seus bispos e todos os seus seguidores se mostrarem surdos à voz do Senhor nosso Jesus Cristo recusando converterem-se dos seus ídolos ao Senhor e recusando reconhecer só na Escritura a única regra de fé pondo de lado a sua perversa tradição secular não poderá haver nenhuma comunhão entre nós e eles, como não pode haver comunhão entre alguém que adora a Deus e alguém que adora a Satanás. ‘Mas mesmo nenhuma?’ alguém dirá. Sim, mesmo nenhuma. Estais certos? Sim, estamos certos. Vós nos direis então: ‘Mas por que não deixais de ser tão rígidos e não vos tornais mais flexíveis e mais razoáveis? Não vedes que esta vossa tomada de posição impede a comunhão com os Católicos? Mas não vedes que este vosso modo de falar impede uma qualquer forma de diálogo com eles? Por que não reconheceis também vós na igreja católica romana uma igreja co-irmã que está também ela na verdade ainda que permaneçam nela tradições humanas? Por que, pois, não reconheceis também vós os seus sacramentos e a autoridade do papa na Igreja?’ Não; nós não desceremos a nenhum compromisso, não consentiremos em pôr de parte nenhuma parte do conselho de Deus porque amamos a verdade que nos fez livres, mas com firmeza e com força lhes reiteramos até ao fim todo o conselho de Deus para que os Católicos romanos tornem para nós. Eles tornarão para nós, mas nós não tornaremos para eles, porque sabemos que eles todos jazem nas trevas e num charco de lodo feito de preceitos de homens que voltam as costas à verdade. A eles que nos acusam de não observar a sua tradição diremos ainda o que Jesus disse aos Fariseus: "E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mat. 15:3). Mas então - nos dirão alguns - não vos importa nada do ecumenismo que quer a igreja católica romana? Não, da sua amizade não nos importa nada, da sua chamada comunhão também não, de dialogar com surdos também não, porque sabemos bem que para obter estas coisas é necessário condescender em alguma coisa a ela, é necessário atermo-nos às suas directivas! E quais directivas? Evitar a polémica, evitar os juízos contra as suas falsas doutrinas que podem comprometer o diálogo, estimá-los irmãos e não inimigos da verdade, e por aí fora. Com isto queremos dizer que nós passamos muito bem sem a amizade e a aparente e falsa comunhão que nos oferecem os Católicos romanos, mas não podemos passar nem sem fazer habitar em nós a verdade que está em Cristo Jesus porque dela depende o bem da nossa alma nesta nossa peregrinação terrena e a sua salvação eterna, e nem sem combater em sua defesa como fizeram os apóstolos antes de nós porque este nosso combate é útil para a salvação das almas e para a edificação da Igreja. Declarai-nos também fanáticos, declarai-nos também sectários; lembrai-vos porém que aqueles que nesta nação nos precederam para nos fazerem chegar a mensagem da salvação pela graça mediante a fé tiveram que sofrer muitas coisas precisamente dos Católicos romanos; sim precisamente deles que dizem ser Cristãos. E que se eles tivessem descido a algum compromisso com a cúria romana nos teriam anunciado não o verdadeiro Evangelho que se funda sobre a graça de Deus, mas o subvertido da cúria romana fundado nas obras meritórias que não pode trazer nenhuma salvação a quem o aceita. Acordai pois!

 

 

A UNIDADE DA IGREJA SEGUNDO A ESCRITURA

 

Vejamos agora algumas Escrituras que nos mostram o que entende Deus por unidade. Mas antes de fazer isso, vos recordo que a unidade de que falou Jesus e também os apóstolos se refere a uma unidade no âmbito da irmandade, e não de uma unidade que os crentes devem buscar com os que ainda não são nascidos de novo. Digo isto para vos fazer compreender que é impossível buscar unidade com os Católicos romanos ou falar de unidade com eles porque eles ainda se devem arrepender e crer no Evangelho como antes já fizemos nós. O facto porém é que se fossem os Budistas ou os Hinduístas a chamar-se Cristãos e a procurar unir-se a nós ou fazer-nos unir a eles, logo muitos responderiam que não se pode dialogar com eles de algum modo enquanto não se converterem dos ídolos ao Deus vivo, mas como esta chamada unidade e este chamado diálogo fraterno connosco é procurado pelos Católicos romanos que se dizem Cristãos porque falam também eles de Jesus, dizem crer em Jesus, na sua divindade, na sua morte e na sua ressurreição, (mas nos factos renegam o Evangelho porque são dados à idolatria e escravos do pecado da mesma maneira que tantos outros pagãos), então parece que muitos dentre nós tenham perdido o discernimento porque começaram a chamar irmãos os idólatras e os pecadores. Ora, enquanto são os Católicos romanos a chamarem-nos irmãos separados é compreensível porque são cegos e pensam ser a única e verdadeira família de Deus iludindo-se, mas quando são alguns dentre nós que começam a chamá-los irmãos então a coisa é muito preocupante porque é sinal que alguns não sabem sequer o que se entende pelo termo irmão. Jesus um dia disse: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam" (Lucas 8:21); portanto não se podem chamar irmãos de Jesus pessoas que não se arrependeram ainda dos seus pecados, que não creram no Evangelho e recusam observar os mandamentos de Cristo. E dado que não são ainda irmãos de Jesus Cristo, não são também nossos irmãos porque não fazem parte da família de Deus. Mas dizei-me? Como podemos chamar irmãos os Católicos romanos quando eles nos factos antepõem a sua tradição à Palavra de Deus, pisam a Palavra de Deus de todas as maneiras? Como podemos chamar irmãos pessoas que dizem crer mas ao mesmo tempo dizem não ter a vida eterna? Porventura não disse Jesus: "Aquele que crê tem a vida eterna" (João 6:47)? Então como é que eles afirmam não possuir a vida eterna como antes o afirmamos nós pela graça de Deus? A razão é porque eles ainda não creram no Evangelho! Ouviram falar do Evangelho, alguns deles até o ensinam, mas o certo é que ainda não creram nele. Como é que somos acusados por eles de sermos presunçosos porque dizemos ter a vida eterna e que o Senhor nos salvou e que quando morrermos iremos viver com Jesus Cristo no paraíso de Deus? A razão é ainda a mesma: eles ainda não provaram e nem viram a bondade de Deus como antes a vimos e provámos nós pela graça de Deus. (Seja bem claro porém também isto: não se podem chamar irmãos também a todos aqueles Evangélicos que frequentam o local de culto mas não são ainda nascidos de novo).

Bastaria este discurso até aqui feito para chegar à conclusão que é totalmente errado chamar irmãos aos que ainda são escravos do pecado e que buscar a unidade com eles que estão no erro então nem se fala, mas quero prosseguir neste exame escritural sobre a unidade entre os crentes de que fala a Palavra para que ninguém vos engane. Citarei a respeito algumas passagens que são frequentemente citadas pelos teólogos papistas quando falam de unidade entre os Cristãos.

Ÿ Jesus na noite em que foi traído disse ao Pai: "E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim" (João 17:20-23). Antes de mais Jesus orou por futuros crentes, e em particular por aqueles que creriam nele por meio da palavra pregada pelos seus apóstolos; portanto esta unidade que ele pediu ao Pai a pediu para filhos de Deus. Ele não orou para que os crentes e os incrédulos fossem unidos, isto é, para que andassem de acordo porque isso é impossível que aconteça dado que não há comunhão alguma entre a luz e as trevas. Isto é o que ainda alguns dentre nós não perceberam, que aqueles que verdadeiramente creram não podem andar de acordo com os que ainda não creram, e por isso toda a tentativa de se porem de acordo é tempo perdido. Explico este conceito desta maneira: Jesus não procurou pôr-se de acordo com os escribas e os Fariseus acerca dos preceitos da lei que eles tinham anulado com a sua tradição, para não parecer alguém que não queria a unidade dos Judeus, mas os repreendeu chamando-os cegos, insensatos, raça de víboras, hipócritas porque eles mereciam isso. Eles tinham anulado a Palavra de Deus e Jesus não poderia comprazer aos escribas e aos Fariseus em mostrar-se de acordo com os seus mandamentos por meio dos quais tinham anulado a Palavra de Deus. Não procurou minimamente mostrar-se tolerante para com eles mas os repreendeu severamente. Jesus não comprazeu nem ainda aos Saduceus que não criam na ressurreição dos mortos, com efeito os admoestou dizendo-lhes que eles erravam porque não conheciam as Escrituras e nem o poder de Deus e lhes tapou assim a boca. Da mesma maneira nós seus discípulos não podemos nos pôr a trocar a verdade pela unidade que nos oferecem estes guias cegos da igreja romana; mas com força devemos repreendê-los como fez Jesus com os Fariseus e os Saduceus exortando-os a se arrependerem e a crer no Evangelho. Demonstrei anteriormente como a igreja romana tenha anulado em muitíssimos pontos a Palavra de Deus e como ela recusa crer em todo o conselho de Deus, e como os seus guias ensinam aos seus seguidores muitas coisas tortas e más: como se pode portanto pensar em colaborar ou em discutir com eles que partem com o pressuposto de ter razão e que a sua igreja é a fundada por Cristo, a que possui a verdade, a correcta interpretação das palavras de Jesus e dos apóstolos? Não é porventura o caso de admoestá-los como fez Jesus com os Fariseus e os Saduceus? Certamente, isso havemos de fazer.

É claro, lendo o decreto do concílio Vaticano, que nós crentes somos por eles considerados como os seguidores daqueles que decidiram sair do seu meio, mas os factos são outros. Nós somos seguidores de Cristo Jesus porque nele cremos, a ele seguimos e a ele amamos; o nosso cabeça ou fundador não é Calvino, nem Lutero, e nem nenhum outro além de Cristo Jesus. Sendo considerados como pessoas que se separaram deles e fazendo-nos parecer aos olhos da opinião pública como pessoas num certo sentido rebeldes à ordem de Cristo porque recusamos nos sujeitar ao presumido sucessor de Pedro, é inevitável que sejamos feitos passar como aqueles que ainda devem perceber que a única e verdadeira Igreja é a católica romana e que fora dela não há esperança de sermos salvos! (A propósito, sabei que eles estão rezando por nós para que voltemos para a igreja mãe!) Mas aliás este é o tratamento que espera todos os que decidem obedecer ao Evangelho, mas nós nos regozijamos quando ouvimos dizer aos Católicos que somos sectários que perderam o juízo e que não percebemos nada porque este é um vitupério que sofremos por causa de Cristo. Ouvimos chamarem-nos ‘os irmãos separados’, como se fôssemos membros da mesma família mas vivêssemos por nossa conta. Mas nós não somos os seus irmãos separados e não sentimos de modo nenhum a necessidade de nos reconciliarmos com eles. A consciência de todos aqueles que se separaram deles em nada os repreende, mas lhes testifica pelo Espírito Santo que fizeram bem em separar-se deles. Eles se devem primeiro reconciliar com Deus; tudo menos ecumenismo! A eles se deve ainda falar de arrependimento das obras mortas, se lhes deve dizer para se converterem dos ídolos mudos ao Deus vivo e verdadeiro!

Agora, lendo as referidas palavras que Jesus dirigiu em oração ao Pai por aqueles que creriam nele por meio da palavra dos apóstolos, não podemos não reconhecer que nós estamos entre aqueles que creram em Cristo Jesus por meio da palavra dos apóstolos, porque ainda que não tenhamos conhecido pessoalmente os apóstolos do Senhor todavia foi mediante as palavras escritas também por Mateus, por João e por Pedro que nós cremos no Senhor. Após ter dito isto perguntemo-nos: Foi atendida a oração de Jesus? Certamente que foi atendida porque com efeito nós crentes formamos um corpo único, somos membros de uma só família, e fazemos parte de uma só casa. O facto de entre nós existirem diversas denominações que têm nomes diversos e tenham convicções diversas sobre algumas coisas relativas ao reino de Deus (que importa dizer não anulam a justificação pela fé) não significa que os irmãos que fazem parte de uma denominação cessam por causa disso de ser membros do corpo de Cristo ou membros da família de Deus. De maneira nenhuma, porque nós continuamos a ter em comum a mesma esperança, o mesmo batismo, o mesmo Espírito, a mesma fé, o mesmo Deus e o mesmo Senhor. Na realidade há uma só Igreja na terra, que é a Igreja de Deus, da qual fazem parte todos os que são nascidos de novo mediante a acção do Espírito Santo e da Palavra de Deus. Certo, reconhecemos que em Cristo somos um conforme está escrito aos Gálatas: "Todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gal. 3:26-28), mas reconhecemos também que entre nós persistem divergências doutrinais pelo que não podemos dizer que somos perfeitamente unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo falar e parecer. Os motivos pelos quais existem estas divergências que algumas vezes são marginais, outras vezes mais substanciosas, são de variado género. Não os examinarei nesta ocasião; o certo é que estas diferentes convicções doutrinais que têm os outros não são tais a fazê-los desconhecer como irmãos. Será bom recordar que também a Igreja de Corinto era uma Igreja de Deus no tempo dos apóstolos, porém como é conhecido no seu seio haviam divisões, de facto haviam os que diziam: "Eu sou de Paulo", e outros: "Eu sou de Apolo", e outros ainda: "Eu de Cefas". Mas que fez o apóstolo quando lhes escreveu? Deixou porventura de chamá-los irmãos, ou não reconheceu mais neles irmãos? De maneira nenhuma; tanto é verdade que se dirige a eles ainda como a irmãos chamando-os precisamente irmãos. Para confirmação disso eis as seguintes expressões de Paulo: "Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer. Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós" (1 Cor. 1:10,11); "E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo" (1 Cor. 3:1); "Não escrevo estas coisas para vos envergonhar; mas para admoestar-vos como meus filhos amados" (1 Cor. 4:14). Foi precisamente aos Coríntios em cujo meio haviam dissensões que Paulo disse: "Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular" (1 Cor. 12:27); portanto não era por haverem aquelas divergências entre aqueles crentes que eles não eram mais filhos de Deus. Mas eles tinham crido; eles eram nascidos de novo! Mas no caso da igreja romana nos encontramos diante não de homens que têm como fundamento Cristo Jesus mas o papado, a tradição que anula a Palavra de Deus, o culto a Maria, aos anjos e aos seus santos, portanto não se podem definir irmãos. Como se podem definir membros da Igreja de Deus pessoas que dizem que o paraíso o se deve ganhar fazendo o nosso melhor? Ou que depois de mortos se deve ir no purgatório para expiar a pena dos nossos pecados que o sangue de Cristo não pôde cancelar?

Ÿ Jesus disse: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor" (João 10:16). Também estas palavras são tomadas pela cúria romana quando fala de ecumenismo; mas o significado que dão a elas é verdadeiramente arbitrário, de facto, segundo eles o rebanho é ‘a igreja católica romana’, e o pastor é o chefe do Estado do Vaticano. Se enganam grandemente dando-lhe esta interpretação; sim são ovelhas também eles, mas estão perdidas, de facto, eles seguem o seu próprio caminho e necessitam voltar ao Sumo Pastor que é Cristo Jesus. Mas o que eles esquecem ou fingem ignorar é que Jesus disse das suas outras ovelhas que agregaria dentre os Gentios: "E elas ouvirão a minha voz" (João 10:16), portanto uma ovelha do Senhor se reconhece pelo facto dela ouvir a voz de Cristo Jesus. Não disse porventura Jesus mais adiante: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz" (João 10:27)? Não me parece propriamente que os Católicos ouçam a voz do Senhor Jesus; eles ouvem a voz do seu magistério, do seu chefe, dos seus sacerdotes mas não ouvem a de Jesus porque não a conhecem. Engano-me porventura? Não, porque os factos falam muito mais claro do que quanto faça o decreto do concílio Vaticano. Ora, não é difícil ouvir membros (também influentes) da igreja romana fazer-nos este discurso: ‘Mas o que são estas divisões que há entre nós? Não somos porventura todos Cristãos? Por que pois estar divididos se temos um mesmo Pai?’ O que eles na substância nos propõem é que nos associemos com eles e que ponhamos de parte certas nossas convicções. Mas como respondemos nós a estas suas propostas lisonjeiras? Nós respondemos que não consentiremos de modo algum em atirar para um canto ou em sufocar a verdade por amor de unidade; bem entendido, a sua unidade. Não, nós não nos associaremos com todos aqueles que também dizendo-se Cristãos são idólatras porque Deus o ordenou por meio do apóstolo Paulo com estas palavras: "Agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for…idólatra.." (1 Cor. 5:11), e: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" (2 Cor. 6:14-16). O ecumenismo proclamado pela igreja romana não é um jugo para os santos; como muitos crentes que se uniram em matrimónio com infiéis, após não muito tempo, senão logo, abandonaram a comum congregação e lançaram para trás das costas os mandamentos de Deus porque levados pelas palavras doces e lisonjeiras do seu cônjuge incrédulo, assim muitos crentes tendo-se unido em um matrimónio espiritual com os infiéis que têm a aparência de fiéis, se corromperam e pouco a pouco voltaram a revolver-se no lamaçal das heresias católicas romanas. Cometeram adultério diante de Deus, por isso são gente adúltera; falam e agem como os adúlteros, de facto, para eles é necessário procurar estar junto com os Católicos romanos a todos os custos, mesmo a custo de pôr de parte uma parte do conselho de Deus. Não, nós não estamos dispostos a descer a nenhum compromisso nem com eles e nem com outros. Se arrependam primeiro das suas obras mortas, creiam no Evangelho e produzam frutos dignos do arrependimento. O papa, os bispos, os cardeais, os monsenhores, os padres e as freiras e todos os seus consócios se arrependam e demonstrem com os factos de se terem tornado Cristãos: palavras ouvimos muitas deles, mas frutos dignos do arrependimento da parte destes que falam tanto de ecumenismo e de unidade dos Cristãos não vemos nenhuns. Querem verdadeiramente unir-se a nós ou que nós nos unamos a eles? Pois bem, convertam-se dos ídolos ao Deus vivo crendo no Evangelho da graça, (o que significa reconhecer que a salvação se obtém só por fé em virtude dos méritos de Cristo sem nenhuma obra meritória); e depois destruam todos os seus ídolos que figuram Maria, José, Pedro e todos os outros, todas as suas imagens chamadas santas, os desfaçam em pedaços e vão deitá-los à lixeira; deixem de adorar e orar a Maria, de adorar a cruz, de venerar as relíquias, de fazer procissões, peregrinações e de realizar qualquer prática que se opõe ao Evangelho; em suma deixem de observar a sua tradição, e depois poderemos nos juntar para orar, para adorar a Deus, para servir a Deus. Mas eles não querem fazer isto, querem ter os cadáveres dos seus ídolos, e ficar apegados à sua tradição, por isso não se pode de nenhuma maneira chamá-los irmãos e colaborar com eles. O Espírito que Deus fez habitar em nós anseia por nós até ao ciúme irmãos, sabei-o, por isso não vos deixeis enganar por aqueles que em fingidos semblantes vêm a vós falar-vos de ecumenismo mas não querem ouvir falar de todo o conselho de Deus. Sim, falam de unidade, e fazem alarde também de versículos da Escritura que falam de unidade; mas nós cremos na unidade da Igreja, mas na fundada sobre a verdade, e não na fundada sobre uma mistura feita de verdade e de heresias que proclama a igreja romana, porque essa não é unidade mas confusão. Dilectos, permanecei apegados à fiel Palavra de Deus, permanecei unidos ao Senhor para andar unidos a ele até ao fim; ninguém vos engane com os seus doces discursos. Recordai-vos que na Igreja sempre se insinuaram ministros de Satanás transfigurados de ministros de Cristo a fim de trazer heresias de perdição e confusão; "o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz" (2 Cor. 11:14), diz Paulo. A antiga serpente seduziu Eva com a sua astúcia, de facto lhe disse que não morreria se comesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal; ela não lhe disse explicitamente: ‘Come o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para desobedecer a Deus e te afastares dele’, mas: "Certamente não morrereis". E as seguintes palavras de Paulo VI: ‘Nós abrimos os braços a todos aqueles que se glorificam do nome de Cristo, os chamamos com o doce nome de irmãos; saibam que encontrarão em nós compreensão e benevolência, que encontrarão em Roma a casa paterna que valoriza e exalta com novo esplendor os tesouros da sua história, do seu património cultural, da sua herança espiritual’ (Citado por Leonard Emile G. in Storia del protestantesimo [ História do protestantismo] , Milano 1971, vol. 3, pag. 367), tendem na substância precisamente a fazer-nos fazer a mesma coisa que a antiga serpente com as suas doces palavras induziu Eva a fazer, ou seja, fazer-nos desobedecer a Deus associando-nos com os infiéis e fazer-nos assim morrer espiritualmente.

 

 

A ENCÍCLICA UT UNUM SINT DE JOÃO PAULO II

 

Agora quero comentar a encíclica de João Paulo II intitulada Ut unum sint (Que sejam todos um) datada de 25 de Maio de 1995 e que tem como tema o empenho ecuménico da igreja católica, os frutos do diálogo entre a igreja católica romana e as outras igrejas e também a maneira em que se pode alcançar a unidade visível entre a igreja católica e as outras igrejas. O fim que me proponho com este exame, irmãos, é o de vos fazer compreender o que entende por ecumenismo e por unidade das igrejas a igreja católica romana, que esta unidade que eles estão buscando aparentemente com as Igrejas evangélicas é uma armadilha, e como falar com eles significa falar com pessoas que têm ouvidos mas não ouvem e por isso é inútil procurar dialogar com eles. Antes de começar este exame, quero fazer esta premissa; na encíclica de João Paulo II há muitas referências ao decreto sobre o ecumenismo do concílio Vaticano II (de que citei algumas partes antes); além disso de quando em vez serei obrigado a repetir, ainda que de maneira diferente, conceitos já explicados antes. Advirto o leitor que não tomarei toda a encíclica mas só uma parte dela, que embora sendo consistente, julgo ser necessário transcrever e confutá-la publicamente a fim de mostrar a todos a astúcia deste homem.

Ÿ ‘Juntamente com todos os discípulos de Cristo, a Igreja Católica funda, sobre o desígnio de Deus, o seu empenho ecuménico de reunir a todos na unidade. De facto, a Igreja não é uma realidade voltada sobre si mesma, mas aberta permanentemente à dinâmica missionária e ecuménica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, actualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui: a fim de reunir a todos e tudo em Cristo; ser para todos "sacramento inseparável de unidade". Já no Antigo Testamento, referindo-se à situação do povo de Deus de então, o profeta Ezequiel, recorrendo ao símbolo simples de duas varas, primeiro separadas e depois juntas uma à outra, exprimia a vontade divina de « reunir de toda a parte » os membros do seu povo dividido: « Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Então as nações reconhecerão que Eu sou o Senhor que santifica Israel » (cf. 37, 16-28). Por sua vez, o Evangelho de S. João, pensando na situação do povo de Deus daquele tempo, vê na morte de Jesus a razão da unidade dos filhos de Deus: « Devia morrer pela Nação. E não somente pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos » (11, 51-52). De facto, como explicará a Carta aos Efésios, « destruindo o muro de inimizade que os separava (...), pela Cruz levando em Si próprio a morte à inimizade », Ele fez a unidade entre o que estava dividido (cf. 2, 14.16). A vontade de Deus é a unidade de toda a humanidade dispersa. Por este motivo, enviou o seu Filho a fim de que, morrendo e ressuscitando por nós, nos desse o seu Espírito de amor. Na véspera do sacrifício da Cruz, Jesus mesmo pede ao Pai pelos seus discípulos e por todos os que acreditarem n'Ele, para que sejam um só, uma comunhão viva. Daqui deriva o dever e a responsabilidade que incumbe, diante de Deus e do seu desígnio, sobre aqueles e aquelas que, através do Baptismo, se tornam o Corpo de Cristo: Corpo no qual se deve realizar em plenitude a reconciliação e a comunhão. Como é possível permanecer divididos, se, pelo Baptismo, fomos « imersos » na morte do Senhor, ou seja, naquele mesmo acto pelo qual Deus, através do seu Filho, abateu os muros da divisão? A « divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura » (Il Regno, N° 752, Anno 1995, pag. 395).

João Paulo II, da forma como fala, parece que tenha o coração quebrantado em constatar que as igrejas cristãs estão divididas entre elas; naturalmente entre as igrejas cristãs está também a igreja católica romana, e não poderia ser doutra forma, porque ela se reputa a Mãe das igrejas. Ele afirma que Deus através de Ezequiel fez conhecer a sua vontade que era a de reunir o seu povo de toda a parte, e através de João de reunir os filhos de Deus dispersos através da morte do seu Filho; e que Cristo morrendo destruiu o muro da divisão para fazer uma unidade. Depois passa a dizer que Deus quer reunir toda a humanidade dispersa por estas divisões, e que Jesus orou pela unidade dos seus discípulos e dos crentes. Daqui o dever, segundo ele, que têm todos os que pelo batismo se tornam membros do corpo de Cristo, de buscar a reconciliação interna dos crentes. E depois diz que a divisão é escândalo para o mundo e prejudica a causa de Cristo. Ele pois inclui a igreja católica entre as igrejas cristãs; nós, ao contrário, não a incluímos porque ela com a sua tradição anulou a palavra de Cristo metendo-a debaixo dos pés. Vimos isto quando confutamos as suas doutrinas; portanto é supérfluo que eu me alonge mais sobre este aspecto da questão. Dizem-se filhos de Deus porque receberam o batismo por infusão em criança; mas nós sabemos que não se passa a ser filho de Deus dessa maneira, mas arrependendo-se e crendo no nome do Filho de Deus. Eles pensam ter entrado a fazer parte do corpo de Cristo mediante aquele rito batismal; o que não é verdade. Além disso, eles junto com nós formam, segundo ele, o corpo de Cristo, sepultado na morte de Cristo; por isso é contraditório que hajam no nosso meio divisões quando Jesus morreu para reunir num os filhos de Deus. A divisão é escândalo, ele diz. Mas a este ponto é necessário fazer esta precisão: os nossos irmãos antes de nós, não deram de modo nenhum motivo de escândalo saindo da igreja católica romana; antes saíram dela por querer de Deus. Mas não saíram do corpo de Cristo, ou separaram-se dele; mas se retiraram de idólatras, de supersticiosos, de pessoas que abominam a santa Palavra de Deus. Em outras palavras eles foram resgatados de uma assembleia pseudocristã, como é a igreja católica romana; a par daqueles nossos irmãos que antes estavam entre os chamados Testemunhas de Jeová, ou entre os Mórmons. Mas para sermos ainda mais claros, nós consideramos que entre os nossos irmãos que saíram da igreja católica romana e os que saíram do Budismo ou do Hinduísmo, ou do Sintoísmo, a única diferença é que eles se retiraram de pessoas que se dizem Cristãs (coisa que não dizem ser os Budistas, os Hinduístas e os Sintoístas), porque na realidade são idólatras como os Budistas, os Hinduístas e os Sintoístas porque vão também eles após os ídolos mudos. Com isto nós queremos dizer que a divisão que se veio a criar entre a igreja católica romana e todos aqueles que conheceram a verdade e saíram dela, de modo algum é algo de contraditório, mas algo de inevitável, de justo, que entra na vontade de Deus. Também quando no tempo dos apóstolos se convertiam Judeus acontecia uma divisão entre os Judeus que consideravam que se era justificado pelas obras da lei e os que pelo contrário diziam que se é justificado pela fé somente, sem as obras da lei. Temos um exemplo disto, naquilo que aconteceu em Éfeso: "Mas, como alguns deles se endureciam e não obedeciam, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano" (Actos 19:9); e também naquilo que aconteceu em Antioquia da Psídia: "E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé" (Actos 13:43). Eis a divisão inevitável! Mas tudo isto é normal, porque os crentes em todas as idades são chamados a separar-se dos incrédulos conforme está escrito: "Saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor..." (2 Cor. 6:17). Mas qual é o escândalo de que aqueles Judeus crentes se fizeram culpados separando-se daqueles Judeus duros de coração, que contradiziam a palavra da verdade? E assim, qual é o escândalo de que se fizeram culpados os que tendo crido entre os Católicos se separaram deles? Nenhum, por isso seja pois posta de lado a definição de escândalo dada à divisão que se veio a criar entre a igreja católica romana e todas as igrejas que se atêm ao Evangelho da graça; porque esta não é uma obra da carne, mas uma obra poderosa realizada pelo nosso Deus. Nós podemos dizer dela: "Pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos" (Mat. 21:42). No decreto sobre o ecumenismo está escrito: ‘Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterno respeito e amor’ (Concílio Vaticano II, Sess. V, cap. 7). Isto quer dizer que os que se separaram antigamente da igreja católica romana por causa da sua fé, podem ser acusados do pecado de separação. Não, não é de modo nenhum assim, porque Lutero e muitos outros quando se separaram da igreja católica não cometeram algum pecado de separação; nisso, temos que dizer, eles não operaram um escândalo. O escândalo se alguém o operava era a igreja católica romana com os seus ministros à cabeça que se entregavam à dissolução, que em vez de apascentar o rebanho apascentavam-se a si mesmos, vendendo indulgências e apropriando-se dos bens do povo de todas as maneiras. Por quanto respeita depois a este fraterno respeito e amor com que a igreja católica diz abraçar-nos, nós não o vemos; antes vemos o contrário. Vemos seja nos padres, como nas suas ovelhas uma particular aversão por nós filhos de Deus. Lisonjas, falsidades, hipocrisias; eis o que são tais frases. Não é a divisão que se veio a criar entre Católicos e Evangélicos o que escandaliza as pessoas, mas é antes o luxo, a arrogância, o amor pelo poder e o amor pelo dinheiro que há na igreja católica romana; começando pelo seu chefe carismático. Quis assim pôr as coisas em claro, antes de prosseguir o exame deste discurso; para que ninguém pense que nós provamos ou tenhamos que provar algum sentido de culpa pela nossa aversão ao papado, à tradição católica romana. Mas qual sentido de culpa? Nós, pelo contrário, provamos uma grande alegria em defender o Evangelho confutando as heresias da igreja católica romana; temos a graça de poder combater pelo Evangelho como a tiveram antes de nós muitos outros; e isto faremos até termos um hálito de vida.

Ÿ ‘...Cheia de esperança, a Igreja Católica assume o empenho ecuménico como um imperativo da consciência cristã, iluminada pela fé e guiada pela caridade. Também aqui se podem aplicar as palavras de S. Paulo aos primeiros cristãos de Roma: « O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido »; assim a nossa « esperança não nos deixa confundidos » (Rm 5, 5). Esta é a esperança da unidade dos cristãos, que encontra a sua fonte divina na unidade trinitária do Pai e do Filho e do Espírito Santo.’ (Il Regno, N° 752, pag. 395).

A igreja católica, da forma como fala João Paulo II, deseja ardentemente a unidade visível de todas as igrejas; este é o seu desígnio e o seu papa se fez porta-voz e promotor deste ecumenismo; mas ela jamais verá realizar-se este desígnio de unidade visível que está com grande vigor perseguindo; a sua esperança nesta unidade será frustrada porque o seu é um astuto desígnio que tende a fazer confluir os filhos de Deus na igreja católica romana sob o seu papa, e Deus fará sim que os que conheceram a verdade não fiquem enganados pelas lisonjas papais. Ele "aniquila os desígnios dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito" (Jó 5:12), diz a Palavra, por isso estamos confiantes que o astuto desígnio da cúria romana irá à falência. Ficarão grandemente desiludidos, estamos seguros disso; Deus sempre teve em todo o tempo servos fiéis que se recusaram em condescender com a mentira e com a idolatria. No tempo de Elias, embora o povo tivesse abandonado o pacto de Deus e muitos daqueles que falavam da parte de Deus tivessem sido mortos pelo povo rebelde, todavia Deus tinha conservado um resíduo de sete mil homens que não tinham dobrado os seus joelhos diante de Baal e não o tinham beijado. E assim no povo de Deus embora alguns apostatarão da fé e se deixarão seduzir pelas lisonjas papais também ficarão sempre os que recusarão até ao fim dobrar os seus joelhos diante do papa e beijar-lhe o pé ou a mão. Alguns dirão: ‘Mas por que falas assim? O papa nos quer bem e se está empenhando grandemente para juntar todos os Cristãos!’ Eu digo: Vós não sabeis o que dizeis; dentro em pouco podereis por vós mesmos constatar que este, que vós dizeis que nos quer bem, embora fale com voz graciosa tem sete abominações no seu coração e um grande ódio pela verdade que porém consegue camuflar muito bem. Ele diz que o amor de Deus foi derramado nos seus corações pelo Espírito Santo; mas a Escritura diz que: "Este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos" (1 João 5:3), e nós este guardar de mandamentos da parte deles não o vemos. Eles deixaram os mandamentos de Deus por amor da sua tradição, e depois tomam as palavras de Paulo para sustentar que nos seus corações está o amor de Deus. Mas qual amor de Deus têm? O fingido certamente, porque se tivessem o verdadeiro guardariam a Palavra de Deus e nós teríamos comunhão com eles. Ninguém vos engane irmãos, João diz: "Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade" (1 João 2:4). O que procura fazer João Paulo II não é unir, mas seduzir por via de lisonjas os que não fazem parte da igreja católica romana a fim de que entrem a fazer parte dela, ou que pelo menos se aliem com ela para servir junto com ela os ídolos mudos pelos quais entra em delírio. Veremos a seguir qual é o desígnio e o desejo de João Paulo II; tudo menos unidade, tudo menos desígnio de Deus; tudo menos verdade, tudo menos amor de Deus!

Ÿ ‘...Passando dos princípios, do imperativo da consciência cristã à realização do caminho ecuménico rumo à unidade, o Concílio Vaticano II põe em relevo sobretudo a necessidade da conversão do coração. O anúncio messiânico — « completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto » —, e o consequente apelo — « convertei-vos e crede no Evangelho » (Mc 1, 15) —, com os quais Jesus inaugura a sua missão, indicam o elemento essencial que deve caracterizar qualquer novo início: a exigência fundamental da evangelização em cada etapa do caminho salvífico da Igreja. Mas isso aplica-se de modo particular ao processo desencadeado pelo Concílio Vaticano II que incluiu, no âmbito da renovação, a tarefa ecuménica de unir os cristãos divididos entre si: « Não existe verdadeiro ecumenismo sem conversão interior ». O Concílio apela tanto à conversão pessoal, como à conversão comunitária. O anseio de cada Comunidade cristã pela unidade cresce ao ritmo da sua fidelidade ao Evangelho. Ao referir-se às pessoas que vivem a sua vocação cristã, o Concílio fala de conversão interior, de renovação da mente. Assim, cada um tem que se converter mais radicalmente ao Evangelho e, sem nunca perder de vista o desígnio de Deus, deve rectificar o seu olhar. Com o ecumenismo, a contemplação das « maravilhas de Deus » (mirabilia Dei) enriqueceu-se de novos espaços onde o Deus Trino suscita a acção de graças: a percepção de que o Espírito age nas outras Comunidades cristãs, a descoberta de exemplos de santidade, a experiência das infindáveis riquezas da comunhão dos santos, o contacto com aspectos surpreendentes do compromisso cristão (.....) Assim, toda a vida dos cristãos está marcada pela solicitude ecuménica e, de certo modo, eles são chamados a deixarem-se plasmar por ela (...) Pelo que diz respeito à Igreja Católica, várias vezes, como, por exemplo, por ocasião do aniversário do Baptismo da Rus', ou da comemoração, ao cumprirem-se onze séculos, da acção evangelizadora dos Santos Cirilo e Metódio, chamei a atenção para tais exigências e perspectivas. Mais recentemente, o Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo, publicado com a minha aprovação pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, aplicou-as no campo pastoral. Relativamente aos outros cristãos, os documentos principais da Comissão Fé e Constituição e as declarações de numerosos diálogos bilaterais forneceram já às Comunidades cristãs úteis instrumentos para discernir o que é necessário ao movimento ecuménico e à conversão que este deve suscitar. Tais estudos são importantes sob dois aspectos: mostram os notáveis progressos já alcançados e infundem esperança por constituirem uma base segura para a busca da unidade que se há-de continuar e aprofundar...’ (Il Regno, N° 752, pag. 396-397).

Agora, João Paulo II passa a falar das coisas que são precisas para alcançar o verdadeiro ecumenismo; começa a falar da conversão interior e da renovação da mente porque, segundo ele, sem elas não se pode alcançar a perfeita unidade entre as igrejas. Mas em que consistem na prática esta conversão interior e renovação da mente? Consistem, para os Católicos, em se porem a pensar que é necessário procurar incansavelmente a unidade visível com todas as igrejas; e por isso devem dedicar-se a procurar o diálogo com os outros Cristãos, como nos chamam eles. Naturalmente este diálogo eles o devem procurar, como veremos também depois, permanecendo apegados à sua Tradição; portanto à idolatria, à mentira e à superstição. Portanto com efeito, os Católicos não querem um verdadeiro ecumenismo mas um falso ecumenismo; porque eles partem do pressuposto de estar na verdade e que se têm que converter mais radicalmente ao Evangelho, o que significa que eles pensam já se terem convertido ao Evangelho mas esta conversão tem de ser mais radical. Nós, do nosso canto, dizemos que eles ainda não se converteram de modo algum ao Evangelho, e disso temos deles as seguintes provas irrefutáveis. Oram e adoram a Maria, oram e adoram aos santos (os verdadeiros e os falsos) e aos anjos, prostram-se diante de estátuas e imagens; participam na missa que para eles é a repetição do sacrifício de Cristo, crêem em toda a espécie de superstição; não crêem no Filho de Deus porque dizem não estarem certos de terem a vida eterna e de terem sido salvos pelo Senhor. Com efeito, eles para ter comunhão connosco têm de arrepender-se dos seus pecados, crer no Evangelho e abandonar a sua tradição, e toda a sorte de idolatria; mas isto para os Católicos, é claro, não entra de modo nenhum nas coisas necessárias para o alcançar deste ecumenismo, antes para eles, destas coisas não se deve sequer falar se se quiser ter diálogos frutuosos com eles. Portanto; que diálogo pode haver com surdos? Naturalmente esta conversão interior e esta renovação da mente deve ser recíproca, segundo João Paulo II, o que significa que nós, segundo ele, teremos que nos converter à causa do ecumenismo, mas àquele ecumenismo como o entendem eles. Mas esta não seria uma conversão mais radical ao Evangelho para nós, mas uma verdadeira e própria traição; em outras palavras nós estamos convictos, que se começássemos a ver as coisas como as vêem os Católicos nos desviaríamos e nos prejudicaríamos a nós mesmos. Porquê? Porque da forma como falam os Católicos romanos, nós se queremos o ecumenismo não devemos polemizar com eles; dito em outras palavras, não devemos reprovar as suas heresias de perdição, a sua idolatria e tantas outras coisas tortas, porque isso não se adequa a pessoas que procuram estar juntas. Mas então isto significa que nós teríamos que deixar de combater o bom combate que a Escritura nos diz para combater! Então nós não deveríamos mais defender o Evangelho, mas condescender com as suas heresias por amor de unidade visível. Mas então teríamos que nos pôr à mesa com eles e dizer-lhes: ‘Respeitemo-nos reciprocamente, nós respeitamos as vossas doutrinas e vós respeitais as nossas!’ Mas eu pergunto a vós: ‘Mas Jesus quando se encontrou à mesa com os Fariseus que fez? Disse porventura: ‘Ouvi, procuremos nos pôr de acordo sobre a lei, vós dizeis isto mas eu digo esta outra coisa sobre estes mandamentos; porém temos em comum Moisés, a religião judaica, portanto não demos motivo de escândalo aos Gentios; estamos juntos mas não polemizemos; eu não vos julgo, mas vós também não deveis julgar-me’? De maneira nenhuma, mas os censurou pela sua hipocrisia, e por eles terem anulado a Palavra de Deus com a sua tradição. Eis o que devem fazer os discípulos de Cristo que amam a verdade; admoestar os que embora dizendo-se Cristãos anularam com a sua tradição os mandamentos de Deus. Tudo menos não polemizar; tudo menos não ser anticatólicos! Nós somos anticatólicos; porque sabemos que as doutrinas da igreja católica romana até agora levaram para o fogo do inferno multidões de pessoas. Elas estão lá em tormentos, e nós teríamos que procurar reconhecer as doutrinas católicas que as conduziram para lá? Não pode ser; nos persigam, nos olhem mal; nós continuaremos a destruir os vãos raciocínios da cúria romana. Mas sobre este facto do diálogo voltaremos mais adiante, porque há mais a dizer.

Ÿ ‘...Retomando uma ideia que o próprio Papa João XXIII tinha expresso na abertura do Concílio, o Decreto sobre o ecumenismo menciona a forma de expor a doutrina, entre os elementos de reforma contínua. Não se trata, neste contexto, de modificar o depósito da fé, de mudar o significado dos dogmas, de banir deles palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de uma época, de eliminar certos artigos do Credo com o falso pretexto de que hoje já não se compreendem. A unidade querida por Deus só se pode realizar na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada. Em matéria de fé, a cedência está em contradição com Deus, que é a Verdade. No Corpo de Cristo — Ele que é « Caminho, Verdade e Vida » (Jo 14, 6) —, quem poderia considerar legítima uma reconciliação levada a cabo à custa da verdade? (...) Portanto um « estar juntos » que traísse a verdade, estaria em oposição com a natureza de Deus, que oferece a sua comunhão, e com a exigência de verdade que vive no mais profundo de todo o coração humano....’ (ibid., pag. 397).

Neste trecho João Paulo II diz em substância que da parte dele não se deve modificar o depósito da fé, os dogmas dos papas, como o da imaculada conceição, da infalibilidade papal, e por aí fora, porque a unidade dos Cristãos só se pode realizar com a adesão à integridade da fé revelada, em outras palavras aderindo a todas as suas tradições (recordai-vos que eles consideram a tradição como verdade revelada por Deus a par da Escritura). Portanto, ainda uma vez, eles reputam a sua tradição verdade; e dizem em substância que a unidade deve ser fundada sobre esta verdade. Mas nós crentes edificámos a nossa vida sobre a verdade e não temos nenhuma intensão de mudar o fundamento verdadeiro com um falso. Fiquem com a sua ‘verdade’, se apascentem das suas mentiras; nós de certo não trocaremos a verdade que conhecemos pelas suas falsidades. Mas como podem pensar eliminar o abismo que nos separa deles sem de modo algum se arrependerem e sem abandonar a sua tradição? Parecerá inacreditável, mas isso é o que estão procurando fazer. Há dois modos de nos comportarmos em relação aos Católicos. O primeiro é o de abandonar a verdade que conhecemos e aderir às suas mentiras; o segundo é o de lhes pregar o arrependimento das obras mortas e a remissão dos pecados pela fé no nome de Jesus, e orar a Deus que lhes conceda o arrependimento, neste caso os arrependidos deixarão de ser membros da igreja romana para unir-se a nós. Nós somos pelo segundo que é o que faz enfurecer o papado; aliás nós sabemos em quem temos crido, e que este no qual estamos é o caminho que leva à vida, enquanto o que eles batem é o caminho que leva à perdição. E não pareça a alguém que seguir este comportamento não é sinal de amor pelos Católicos romanos; porque as coisas são precisamente ao contrário. Somente dizendo aos Católicos romanos para se arrependerem e para crer no Senhor e produzir frutos dignos de arrependimento, se mostra verdadeiro amor por eles. Lisonjeando-os e procurando chegar a compromisso com eles antes é sinal de não querer a sua salvação mas só de querer a sua amizade. O apóstolo disse: "Como fomos aprovados por Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações" (1 Tess. 2:4); seja este o sentimento de todos aqueles que foram aprovados por Deus e chamados à pregação do Evangelho. Certamente, os Católicos não gostam que nós falemos contra as suas doutrinas e pensam que nós os odiamos; mas essa é a inevitável reacção de quem jaz ainda no erro contra quem lhe mostra o caminho da salvação sem lisonjeá-lo.

Ÿ ‘...Assim acreditava na unidade da Igreja o Papa João XXIII, e desse modo contemplava ele a unidade de todos os cristãos. Ao referir-se aos outros cristãos, à grande família cristã, constatava: É muito mais forte aquilo que nos une do que quanto nos divide ’ (Il Regno, N° 752, pag. 398).

Quereria deter-me brevemente sobre estas últimas palavras; mas eu digo: ‘Mas como podem dizer tais coisas quando entre nós e eles não há nada que nos une? Nós perguntamos como o apóstolo Paulo: "Que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" (2 Cor. 6:14-16). Mas queremos também responder a estas perguntas dizendo que não há nenhuma sociedade entre a justiça e a injustiça, nenhuma comunhão entre a luz e as trevas, nenhuma concórdia entre Cristo e Belial, e nada de comum entre o fiel e o infiel, e nenhum consenso entre o templo de Deus e os ídolos. Portanto, irmãos, não vos deixeis levar também vós dizendo que com os Católicos é mais forte aquilo que nos une do que aquilo que nos divide; porque isso é falso. Entre nós e eles não há nada em comum [3], entre nós e eles não há concórdia, e nem comunhão, como não há com os Budistas, os Hinduístas e os Muçulmanos; mesmo se aparentemente parecesse o contrário. Não olheis à aparência; não julgueis pela aparência.

Ÿ ‘...Quando os irmãos que não estão em perfeita comunhão entre si, se reúnem em comum para rezar, esta sua oração é definida pelo Concílio Vaticano II como alma de todo o movimento ecuménico. Essa oração comum é « um meio muito eficaz para impetrar a graça da unidade », « uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados ». Mesmo quando não se reza formalmente pela unidade dos cristãos, mas por outros motivos como, por exemplo, pela paz, a oração torna-se, por si própria, expressão e confirmação da unidade. A oração comum dos cristãos convida o próprio Cristo a visitar a comunidade dos que Lhe rezam: « Pois onde estiverem reunidos, em meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles » (Mt 18, 20). Quando os cristãos rezam juntos, a meta da unidade fica mais próxima (...) No caminho ecuménico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se congregam à volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as debilidades e limitações humanas (...) A oração « ecuménica » está ao serviço da missão cristã e da sua credibilidade. Por isso, deve estar especialmente presente na vida da Igreja e em cada actividade que tenha a finalidade de favorecer a unidade dos cristãos (...) É motivo de alegria constatar como os vários encontros ecuménicos incluem, quase sempre, a oração, antes, culminam nela (...) Durante estes anos, numerosos dignos representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais me visitaram em Roma, e pude rezar com eles em ocasiões públicas e privadas’ (Il Regno, N° 752, pag. 398, 399).

Agora, João Paulo II põe muito ênfase na oração pela unidade dos Cristãos; segundo ele esta oração ecuménica é muito importante para alcançar a unidade. O Directório para o ecumenismo, orgão católico, constituído para dirigir os católicos neste caminho do ecumenismo encoraja os católicos a participar das reuniões de oração com os membros das Igrejas evangélicas. Naturalmente, a tal respeito, ele dá-lhes claras directivas como por exemplo estas: A) ‘Tal oração teria que ser preparada de comum acordo, com o contributo dos representantes de igrejas, comunidades eclesiais ou outros grupos. É em conjunto que conviria precisar o papel de uns e de outros e escolher os temas, as leituras bíblicas, os hinos e as orações a utilizar’; B) ‘Embora a própria igreja seja o lugar em que uma comunidade tem o hábito de celebrar normalmente a sua liturgia, as celebrações comuns, de que agora se falou, podem ter lugar na igreja de uma ou de outra das comunidades interessadas, com o consenso de todos os participantes. Qualquer que seja o lugar de que se serve, é preciso que seja a todos agradável, que possa ser convenientemente arrumado e que favoreça a devoção’; C) É necessário que se preste sempre séria atenção tanto ao que foi dito sobre o reconhecimento das reais diferenças de doutrina que existem, quanto ao ensinamento e à disciplina da igreja católica sobre a condivisão sacramental’; D) Dado que a celebração da eucaristia no dia do Senhor é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico, os católicos, sem prejuízo do direito das igrejas orientais, têm a obrigação de participar na missa ao domingo e nos dias de preceito. Por este motivo se desaconselha a organizar serviços ecuménicos ao domingo e se lembra que, mesmo quando católicos participam em serviços ecuménicos e em serviços de outras igrejas e comunidades eclesiais, nos dias supraditos permanece a obrigação de participar na missa’ (Il Regno, N° 718, anno 1994, pag. 24). Qual é a nossa convicção a respeito desta oração ecuménica com os Católicos que o seu papa tanto encoraja? Esta; que nós não podemos nos pôr a orar com os Católicos romanos para que Deus nos una a eles; porque oramos por eles para que sejam salvos e se tornem assim Cristãos. É verdadeiramente absurdo orar com incrédulos para que Deus una nós com eles quando antes é necessário orar pela sua salvação. Paulo era Judeu de nascença, mas não ia orar com os Judeus desobedientes que contrastavam as coisas que ele dizia, mas orava pela sua salvação, de facto disse aos Romanos: "Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação" (Rom. 10:1). Por isso também nós não pensamos em reunir-nos com o papa, os bispos, os padres, as freiras e os outros Católicos romanos para orar com eles pela nossa unidade; porque sabemos que eles estão perdidos e oramos a Deus para que os salve. E dado que estamos em tema de oração, recordamos a famosa jornada mundial de oração organizada por João Paulo II em Assis no ano de 1986. Naquele dia, ele diz, que ‘os cristãos das várias Igrejas e Comunidades eclesiais invocaram, a uma só voz, o Senhor da história pela paz no mundo. Naquele dia, de modo distinto mas paralelo, rezaram pela paz também os hebreus e os representantes das religiões não cristãs, numa sintonia de sentimentos que fizeram vibrar as cordas mais profundas do espírito humano’ (Il Regno, N° 752, pag. 410). Naquele dia se reuniram os chefes de 62 religiões para orar; os Peles-vermelha, os Budistas, os Hinduístas, os Muçulmanos e muitos outros com no meio João Paulo II se puseram a orar. Que confusão! Tudo menos vibração das cordas mais profundas do espírito humano; aqui assistimos a uma manifestação de hipocrisia. Naquele dia todas aquelas personalidades reunidas a orar nos lembraram as palavras de Jesus: "E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão" (Mat. 6:5). E seria esta a oração ecuménica que ele considera eficaz para a unidade dos Cristãos e para a paz no mundo? Mas por quanto respeita em específico à oração dos Católicos pela unidade é necessário dizer também que eles se apoiam na mediação de Maria quando oram pela unidade, com efeito se lê na revista Alleluja: ‘Maria ora pela unidade das igrejas, conduzindo-nos a seu filho para pronunciar juntos o nome de Jesus. Ela nos convida a celebrar ecumenicamente o Pentecostes numa comunhão fraterna....’ (Alleluja, N° 6, anno 1979, pag. 12).

Portanto concluindo, o facto de eles se porem a orar com os Muçulmanos, com os Budistas, com os Hinduístas, e com muitos outros pagãos, e o facto de eles se apoiarem na mediação de Maria confirmam claramente que eles estão debaixo do poder das trevas, e que é impensável orar com eles. João Paulo II diz estar contente que várias reuniões ecuménicas terminem com a oração comum; nós do nosso canto estamos entristecidos em constatar não só que alguns dos nossos, iludidos pela igreja católica romana, se puseram a dialogar com os representantes católicos para alcançar não sabemos qual acordo com estas pessoas que não têm nenhuma intenção de renunciar às suas heresias, mas também que se põem a orar com eles.

Ÿ ‘...Se a oração é a alma da renovação ecuménica e do anseio pela unidade, sobre ela se baseia e dela recebe apoio tudo aquilo que o Concílio define « diálogo » . (...) O diálogo não é apenas uma troca de ideias; de algum modo, é sempre um « intercâmbio de dons ». Por este motivo, também o Decreto conciliar sobre o ecumenismo põe em primeiro plano todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles. Tal documento enfrenta a questão do ponto de vista da Igreja Católica, referindo-se ao critério que ela deve aplicar em relação aos outros cristãos. Em tudo isso, porém, há uma exigência de reciprocidade. Ater-se a tal critério é compromisso de cada uma das partes que quer dialogar, e é condição prévia para o iniciar. É preciso passar de uma posição de antagonismo e de conflito para um nível onde um e outro se reconheçam reciprocamente como partner. Quando se começa a dialogar, cada uma das partes deve pressupor uma vontade de reconciliação no seu interlocutor, de unidade na verdade. Para realizar tudo isso, devem desaparecer as manifestações de confrontação recíproca. Somente assim o diálogo ajudará a superar a divisão e poderá aproximar da unidade. (....) O diálogo ecuménico tem uma importância essencial. « Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reunem-se em oração unânime’ (Il Regno, N° 752, pag. 399,400).

Eis aqui o diálogo a que acenei antes, e que o Vaticano considera muito importante ter connosco. Antes de tudo importa dizer que o Vaticano decidiu, para fazer frutuosos os seus diálogos com algumas igrejas cristãs evangélicas, eliminar dos seus discursos todas as palavras e juízos e comportamentos que tornam mais difícil o seu diálogo com elas; de facto é de notar que quando fala oficialmente dos Protestantes não os define nem seitas e nem heréticos e apóstatas; mas os chama ‘irmãos separados’, ‘os outros cristãos’, ‘comunidades eclesiais’, e ‘as outras igrejas’ que são tudo termos que fazem parecer a igreja católica romana alegre pela nossa existência, e fazem crer que ela nos reconhece como Cristãos mesmo se não fazemos parte dela. Certo, à diferença de muitos papas do passado, João Paulo II é um dos que usa belas palavras para connosco. Porém, ainda que a igreja romana use estes termos para connosco ela afirma que as mesmas igrejas e comunidades separadas, têm defeitos porque, como diz o decreto sobre o ecumenismo, ‘só por meio da Igreja católica de Cristo, que é o instrumento geral da salvação, pode-se obter toda a plenitude dos meios de salvação’. E aqui cai de novo em contradição! Mas o que quer dizer com estas palavras? Que nós não possuímos toda a plenitude dos meios de salvação, porque esta só ela a possui! Mas então estamos perdidos? De maneira nenhuma, porque nós conhecemos Cristo Jesus, o Salvador do mundo. Ele está em nós e recebemos da sua plenitude e graça sobre graça. Nele nós temos tudo plenamente; porque "Cristo é tudo em todos" (Col. 3:11). Certo, nós não possuímos os sete sacramentos que tem a igreja católica e que ela define os meios da salvação, mas queremos recordar que a salvação se obtém por meio de uma pessoa, Cristo Jesus, que é o instrumento da salvação de Deus. É a fé nele que salva, não a prática dos sacramentos católicos. Mas vejamos este diálogo. João Paulo II faz claramente perceber que o diálogo com ‘as outras igrejas’, para ser frutuoso, exige que também ‘os outros cristãos’ eliminem palavras e juízos que possam chocar os ânimos dos Católicos e tornar difícil o diálogo. Que significa isto? Significa que nós se queremos dialogar com eles temos que nos pôr a chamá-los irmãos, Igreja de Deus; não devemos dizer-lhes que a doutrina do purgatório é uma heresia, que o culto a Maria é idolatria, que o papa não é nem o chefe da Igreja e nem o sucessor de Pedro; que a salvação é impossível obtê-la por meio dos seus sacramentos e tantas outras coisas. Em suma nos deveremos pôr a discutir coisas relativas ao reino de Deus à sua maneira, dizendo-lhes que têm razão também eles e que nós reconhecemos que também neles há a verdade, e porquê? Para não feri-los, e para não pôr obstáculos ao diálogo!! Seja bem claro irmãos; com os Católicos não se pode e não se deve nunca passar de uma posição de antagonismo para um nível no qual se aceitam como irmãos ou se reconhecem os seus sacramentos e outras suas heresias. Quem se põe a fazê-lo se corrompe; quem o faz torna-se sal insípido que para nada mais serve. Cuidai pois de vós mesmos. Não vos deixeis enganar por estes seus sofismas. A verdade é uma; e não se encontra nos ritos e nas doutrinas da igreja católica; portanto há pouco a dialogar. É necessário exortá-los a se arrependerem e a crer no Evangelho! Nós não estamos de modo algum dispostos a baixar a guarda e a deixar de nos contrapor à arrogância e às mentiras da igreja católica romana. Paulo disse a Timóteo: "Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé ; assim o faço agora" (1 Tim. 1:3,4); e a Tito disse que o bispo deve "reter firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos rebeldes, faladores vãos e enganadores… aos quais convém tapar a boca.." (Tito 1:9-11); portanto todo o ministro de Deus é chamado a convencer os contradizentes, e a tapar a boca aos que ensinam coisas perversas por torpe ganância. Não me parece que Paulo tenha dito a Timóteo ou a Tito para se porem a dialogar à volta de uma mesa com os rebeldes para procurar um acordo com eles, e para conhecer melhor as suas doutrinas para ser enriquecido espiritualmente! Quando o procônsul Sérgio Paulo, chamando a si Barnabé e Saulo, pediu para ouvir a Palavra de Deus, está dito que Elimas, um falso profeta Judeu, procurava apartar da fé o procônsul. Mas que fez Paulo? Disse-lhe fraternamente: ‘Escuta caro irmão Elimas, procuremos dialogar, e assim perceberás que nós estamos dizendo a verdade? De maneira nenhuma, mas disse-lhe: "Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor? Agora eis a mão do Senhor sobre ti, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. Imediatamente caiu sobre ele uma névoa e trevas e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão" (Actos 13:10,11). Quando Estevão falou diante do Sinédrio, disse-lhes: "Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos pais, assim fazeis também vós. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que dantes anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e homicidas, vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes" (Actos 7:51-53). Eis como se exprimiram homens cheios de Espírito Santo para com os que contrastavam o Espírito Santo. Elimas pervertia os caminhos rectos do Senhor e procurava apartar o procônsul da fé; e o Sinédrio contrastava o Espírito Santo, tudo coisas que faz também a cúria romana; porque também ela procura apartar as pessoas da fé e contrasta o Espírito Santo e perverte os caminhos rectos do Senhor; e nós que faremos? Deixaremos que eles digam tudo o que querem, sem levantar a nossa voz de protesto contra eles? Assim, não seja! Não nos calaremos; não deixaremos de nos contrapor a estes; mas com a graça de Deus queremos tapar a sua boca para que as pessoas compreendam ter sido enganadas por eles. Cuidai de vós mesmos, ó ministros do Evangelho porque a igreja católica romana procura com as suas doces palavras de todas as maneiras tornar-vos maleáveis; para dirigir as coisas na direcção que ela quer. Sabei que vós estais na verdade e eles estão no erro; vós estais na luz e eles nas trevas; vós estais salvos e eles perdidos; vós podeis enriquecê-los mas eles apenas podem roubar-vos a vossa riqueza! Levai a mensagem do Evangelho aos Católicos; mas com toda a franqueza; sem lhes encobrir nada; não os lisonjeeis de outro modo Deus requererá o sangue deles da vossa mão. São eles que devem reconhecer que nós estamos na verdade; são eles que devem tornar para nós e não nós para eles. São eles que devem reconhecer as nossas ordenanças e não nós os seus sacramentos! Nós o dizemos claramente: nós já conhecemos a fundo as doutrinas católicas, e não temos necessidade de dialogar com eles para adquirir um conhecimento mais verdadeiro delas, e muito menos para adquirir um apreço mais justo delas. Mas eu pergunto aos que são a favor destes diálogos ecuménicos: ‘Mas que apreço mais justo pensais se poder adquirir pelas heresias da igreja católica romana que conduziram ao Hades dezenas e dezenas de milhões de pessoas de todo o mundo até este presente dia? Não, nós não podemos adquirir nenhum apreço pelas heresias da igreja católica romana; podemos e devemos somente confutá-las e reprová-las privadamente e publicamente. Não há alternativas!

Ÿ ‘...O diálogo é também instrumento natural para confrontar os diversos pontos de vista e, sobretudo, examinar aquelas divergências que são obstáculo à plena comunhão dos cristãos entre si. O Decreto sobre o ecumenismo detém-se, em primeiro lugar, a descrever as disposições morais com que se hão-de enfrentar os colóquios doutrinais: « No diálogo ecuménico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade ».... ‘ (Il Regno, N° 752, pag. 401).

Continuamos a falar deste diálogo que a igreja católica romana depois do concílio Vaticano II instaurou com muitas Igrejas evangélicas, entre as quais também diversas igrejas pentecostais (o diálogo com os Pentecostais teve início oficialmente em 1972 e prossegue ainda hoje). Como podeis ver à distância de trinta anos do concílio Vaticano II (que marcou o início do esforço ecuménico católico) o chefe da igreja católica romana se exprime a respeito deste diálogo dizendo que os teólogos romanos devem permanecer sempre fiéis à doutrina católica romana neste diálogo com os ‘irmãos separados’. Isto significa que não devem ceder sobre nenhum ponto, mas levar avante as suas doutrinas sem vacilar; e já passaram bem trinta anos desde o fim do concílio Vaticano II! Mas então é inevitável fazer-se a pergunta; ‘Mas se falam desta maneira por que procuram de todas as maneiras o diálogo com as Igrejas evangélicas? Conhecem bem quais são as abissais divergências doutrinais que nos separam deles; portanto, segundo nós, é falsa a sua afirmação segundo a qual eles procuram o diálogo connosco para conhecer melhor o que nós ensinamos e para adquirir um apreço mais justo pela doutrina que professamos. João Paulo II definiu também o diálogo com os Cristãos evangélicos um intercâmbio de dons; mas quais são estes dons que durante estas últimas três décadas tomaram dos Evangélicos? Nenhum; de facto no Catecismo da igreja católica de 1993, de Rino Fisichella, que é apresentado aos Católicos por ele mesmo estão as mesmas doutrinas que estão no Novo manual do catequista de Giuseppe Perardi de 1939. Os factos falam claro; tiveram muitos e muitos diálogos e permaneceram sempre firmes sobre todos os seus pontos doutrinais! Não é isto um sinal suficiente para perceber que este seu diálogo que querem ter com os Evangélicos tem como fim o de lhes arrancar concessões e de oferecer-lhes a sua amizade e ‘fraternidade’ na condição de eles fazerem um qualquer compromisso? Façamos um exemplo para fazer compreender isto; o Vaticano quer o reconhecimento recíproco dos batismos, de facto o próprio João Paulo II disse: ‘O Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo almeja um reconhecimento recíproco e oficial dos Baptismos. Isto está muito para além de um simples acto de cortesia ecuménica e constitui uma afirmação básica de eclesiologia’ (ibid., pag. 403). Que significa tudo isto? Significa que se nós reconhecermos o seu batismo eles reconhecerão oficialmente também o nosso; mas para reconhecer o seu batismo por infusão teremos não só que dar um outro significado ao batismo pois teremos que dizer que ele cancela os pecados, mas teremos que também afirmar que ele pode ser ministrado aos infantes e por infusão porque é válido na mesma. Portanto é de se excluir da maneira mais absoluta que nós nos ponhamos a negociar a verdade sobre o batismo em troca da ‘fraternidade’ católica. Mas nem todos estão dispostos a desconhecer o batismo por infusão da igreja católica romana, porque sabem que o diálogo ecuménico neste caso se interromperia ou sofreria um grande golpe. Entre estes está Cecil M. Robeck Jr. que é um membro de destaque das Assembleias de Deus americanas que há anos dialoga a nível oficial com a igreja católica romana. Num seu escrito (redigido juntamente com Jerry L. Sandidge que já morreu mas que ao tempo era membro também ele das Assembleias de Deus americanas) afirma quanto se segue: ‘Nós cremos que os paralelos que existem entre a prática Pentecostal da dedicação dos infantes e a prática Católica Romana do batismo dos infantes possuem uma grande promessa para a apreciação e a compreensão recíproca (hold great promise for mutual understanding and appreciation). Nós sugerimos portanto que o batismo dos crentes (seja ele de crianças de idade apropriada ou de adultos) continue a ser afirmado na teologia e na prática Pentecostal e que o batismo dos infantes realizado numa outra família confessional Cristã possa ser visto como uma alternativa aceitável e equivalente baseada em considerações históricas e teológicas. Assim, se uma pessoa que se une a uma igreja Pentecostal tiver sido batizada em infante ou em criança e se esse batismo foi vivificado e feito pleno de significado através de um subsequente encontro espiritual com Cristo, os Pentecostais não necessitam insistir no batismo na água em adulto’ (Cecil M. Robeck, Jr., and Jerry L. Sandidge, ‘The ecclesiology of Koinonia and baptism: a pentecostal perspective’, [A eclesiologia da koinonia e do batismo: uma perspectiva pentecostal] in Journal of Ecumenical Studies [Jornal de estudos ecuménicos], 27:3. Summer 1990, pag. 531). [4] E então que farão? Cedo o veremos; porque a igreja católica romana está fazendo força para que as Igrejas evangélicas com quem dialoga reconheçam o seu batismo e a sua doutrina sobre o batismo. Mas seja como for não importa se algumas Igrejas evangélicas reconhecerão o batismo católico; nós continuaremos a reiterar que o batismo católico romano é nulo. Mas o facto é que se a igreja católica romana arrancar a certas Igrejas evangélicas o reconhecimento do seu batismo, então será encorajada a prosseguir nesta linha, e procurará logo arrancar um outro reconhecimento ainda mais importante para ela que é o da sua missa. Vós sabeis que a missa, ou eucaristia, segundo a doutrina católica é a repetição do sacrifício de Cristo; portanto se alguma Igreja evangélica reconhecer a sua missa quer dizer que reconhecerá nela a repetição do sacrifício de Cristo, o que significa dizer ‘amen’ a uma blasfémia. Não vos iludais vós que sois pelo ecumenismo com a igreja católica romana; porque o fim a que se propõe o Vaticano é o de levar os Evangélicos a reconhecer a sua missa e a participar nela. O disse claramente o próprio João Paulo II quando disse: ‘É como se tivéssemos sempre de voltar a reunir-nos no Cenáculo de Quinta-Feira Santa, embora a nossa presença juntos, em tal lugar, aguarde ainda a sua completa realização até quando, superados os obstáculos que se interpõem à perfeita comunhão eclesial, todos os cristãos possam reunir-se na única celebração da Eucaristia’ (Il Regno, N° 752, pag. 398). Portanto não vos deixeis enganar pelas suas doces palavras; porque esta sua chamada fraternidade que eles embandeiram e vos oferecem tem um preço: a verdade. Que fareis pois? Vendereis a verdade em troca da sua amizade, ou direis: ‘Não, nós não podemos remover os limites postos pelos apóstolos’? Eu vos digo: Não vendais a verdade; defendei-a incansavelmente também diante dos Católicos: desconhecei todas as suas heresias; tapai-lhes a boca e retirai-vos deste diálogo que haveis empreendido com eles inutilmente.

Ÿ ‘Tudo o que atrás foi dito a propósito do diálogo ecuménico, desde a conclusão do Concílio para diante, leva a dar graças ao Espírito de verdade, prometido por Jesus Cristo aos Apóstolos e à Igreja (cf. Jo 14, 26). Foi a primeira vez na história, que a acção em prol da unidade dos cristãos assumiu proporções tão amplas e se estendeu num âmbito tão vasto. Isto já é um dom imenso que Deus concedeu, e que merece toda a nossa gratidão (..) Uma visão de conjunto dos últimos trinta anos ajuda-nos a compreender melhor muitos frutos desta conversão comum ao Evangelho, cujo instrumento usado pelo Espírito de Deus foi o movimento ecuménico. Acontece, por exemplo, que — segundo o espírito mesmo do Sermão da Montanha — os cristãos pertencentes a uma confissão já não consideram os outros cristãos como inimigos ou estranhos, mas vêem neles irmãos e irmãs. Por outro lado, mesmo a expressão irmãos separados, o uso tende hoje a substituí-la por vocábulos mais orientados a ressaltar a profundidade da comunhão — ligada ao carácter baptismal — que o Espírito alimenta, não obstante as rupturas históricas e canónicas. Fala-se dos « outros cristãos », dos « outros baptizados », dos « cristãos das outras Comunidades ». O Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo designa as Comunidades a que pertencem estes cristãos como « Igrejas e Comunidades eclesiais que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica’ (...) Numa palavra, os cristãos converteram-se a uma caridade fraterna que abraça todos os discípulos de Cristo’ (ibid., pag. 402).

Nesta parte do seu discurso, João Paulo II mostra a sua alegria pelos progressos que se fizeram neste diálogo ecuménico com muitas Igrejas evangélicas começado há cerca de trinta anos. Ele tem razão ao dizer que ‘foi a primeira vez na história, que a acção em prol da unidade dos cristãos assumiu proporções tão amplas e se estendeu num âmbito tão vasto’, porque com efeito nunca houve assim tantas igrejas cristãs evangélicas de todas as denominações, incluindo também denominações pentecostais, que entretiveram este diálogo ecuménico com os Católicos romanos, como há hoje. No início eram poucas, mas agora são verdadeiramente muitas. Nós, pelo contrário, estamos grandemente entristecidos ao ver isto, mas também preocupados por muitos nossos irmãos cujos pastores os arrastam para esta cova do ecumenismo com os Católicos romanos. Mas este sinal não é mais que um dos albores da apostasia que tem de haver antes da vinda do Senhor; têm que acontecer estas coisas; por isso não nos admiramos delas. Paulo disse que "um pouco de fermento faz levedar toda a massa" (1 Cor. 5:6); por isso não é de admirar se este cancro do ecumenismo se difundiu assim tanto no corpo de Cristo. Ora, nós consideramos um dado muito preocupante que os Católicos, a nível oficial, se tenham posto a chamar muitos Cristãos evangélicos ‘irmãos separados’; e já não heréticos, ou apóstatas; porque isso demonstra como muitos dos que se baseiam nos pontos cardinais da sua doutrina na Reforma, deixaram de protestar contra a igreja católica romana, deixaram de combater pelo Evangelho como fizeram alguns séculos atrás os reformadores. Mas por que chegamos a esta conclusão? Porque no tempo da Reforma, isto é, há cerca de quatrocentos anos, na Europa e no mundo os papas não chamavam ‘irmãos separados’ a Calvino, Lutero e muitos outros, mas os chamavam com todo o tipo de apelativo vil! Basta ir desempoar alguns dos livros dos teólogos católicos daquele tempo, ou também ler discursos dos papas de então para se dar conta disso. Por que então esta mudança de expressões da parte católica, quando as suas doutrinas de demónios permaneceram na substância as mesmas, antes acrescentaram muitas outras e nós nos atemos ainda em diversos pontos às doutrinas proclamadas pelos reformadores? É simples; porque muitos daqueles que ela chama Protestantes, não protestam mais contra ela, como faziam os seus predecessores! Mas o motivo é também um outro; a igreja católica romana com o passar do tempo se deu conta que muitas pessoas saíam dela para unir-se a nós, e que pela força não conseguiam fazê-las voltar para o seu seio; portanto mudou de táctica. Hoje usa as lisonjas, os reconhecimentos e várias outras astúcias a eles ligados para fazer voltar para ela aqueles que a deixaram. Esta mudança de atitude formal por parte da igreja católica não é uma coisa a subvalorizar, porque com ela, em muitos casos, conseguiu amaciar e por vezes fazer desaparecer o protesto de muitos Cristãos evangélicos. Isto o se pode constatar também pelo facto de hoje muitos, precisamente por a igreja católica romana aparentemente se humilhar e dizer reconhecer em nós Cristãos, não quererem mais polemizar com ela, ou seja, não querem que se confutem com vigor e com toda a franqueza as suas doutrinas, como se fazia outrora; porque isso poderia refrear o diálogo que instauraram com os rebeldes. Onde estão hoje os livros onde são postas a nu as heresias da igreja romana e são anuladas pela Escritura? Onde estão hoje os pregadores que denunciam do púlpito com toda a franqueza as doutrinas desta organização como faziam séculos atrás os reformadores? Se podem verdadeiramente contar; porque se tornam cada vez mais raros com o tempo. Eis uma das coisas que produziu este diálogo ecuménico! Mas a este ponto, importa dizer também que é muito preocupante e entristecedor constatar que muitos daqueles que se dizem Cristãos evangélicos se puseram a chamar os Católicos, ‘cristãos’, ‘irmãos’; porquê? É caso para se perguntar: Mas então não há mais necessidade de pregar o arrependimento e a fé aos Católicos, se eles são todos nossos irmãos? Já estão salvos; portanto que necessidade há de conjurá-los a salvarem-se? Mas aqui o facto é que é necessário pregar o arrependimento e a fé a esses pretensos Cristãos evangélicos que ou nunca nasceram de novo ou que perderam o discernimento. A vós que levais o nome de Cristãos evangélicos mas que não sois de modo nenhum Cristãos, eu vos digo; Arrependei-vos e crede no Evangelho para obter a remissão dos vossos pecados e escapar à ira vindoura’; e a vós irmãos que pelo contrário fostes enganados pelas lisonjas papais dizemos antes: Arrependei-vos e tornai ao Senhor do qual vos afastastes para procurar o favor dos Católicos romanos.

Ÿ ‘...Acontece cada vez mais frequentemente os responsáveis das Comunidades cristãs assumirem posição conjunta, em nome de Cristo, acerca de problemas importantes que dizem respeito à vocação humana, à liberdade, à justiça, à paz, ao futuro do mundo. Agindo assim, eles « comungam » num dos elementos constitutivos da missão cristã: lembrar à sociedade, de modo realista, a vontade de Deus, alertando as autoridades e os cidadãos para que não sigam pelo declive que os conduziria a espezinhar os direitos humanos (....) Numerosos cristãos de todas as Comunidades, motivados pela sua fé, participam juntos em projectos corajosos que se propõem mudar o mundo no sentido de fazer triunfar o respeito pelos direitos e necessidades de todos, especialmente dos pobres, humilhados e desprotegidos. Na Carta encíclica Sollicitudo rei socialis, constatei, com alegria, esta colaboração, ressaltando que a Igreja Católica não se lhe pode subtrair (...) Hoje constato com satisfação que a rede já ampla de colaboração ecuménica se estende cada vez mais. Também pelo influxo do Conselho Ecuménico das Igrejas se realiza um grande trabalho neste campo’ (Il Regno, N° 752, pag. 403).

Mudar o mundo para fazer triunfar a justiça! Este é pois o projecto da igreja católica romana, e para este seu projecto arrastou e está arrastando também muitas Igrejas evangélicas. Começamos por dizer que é um engano pensar que se pode mudar este mundo e fazer triunfar a justiça nele; Jesus quando veio a este mundo não mudou o mundo, no sentido que aos seus dias continuaram a haver os pobres, os perseguidos por causa da justiça, e os que sofriam todo o tipo de prepotências, e por conseguinte continuaram a haver aqueles que buscavam o mal do seu próximo. Também nos dias dos apóstolos, o mundo continuou a ser o mesmo; de facto continuaram a haver as injustiças sociais. Mas tanto Jesus como os apóstolos não se empenharam na luta social para fazer triunfar a justiça social. Eles pregaram o Evangelho e muitos se arrependeram e creram nele, fizeram bem aos homens; mas não meteram na cabeça que podiam mudar o mundo e fazer triunfar o respeito pelos direitos de todos. Eles próprios eram pobres e foram perseguidos por causa da justiça; sofreram todo o tipo de injustiças, foram abandonados, escarnecidos pelos seus inimigos e estiveram em necessidade; no entanto suportaram tudo isto com paciência sabendo terem sido chamados para isso. E também nós não nos iludimos; se queremos seguir as pisadas de Cristo e as dos apóstolos, também os nossos direitos serão espezinhados pelos homens; também nós sofreremos injustiças de todo o género dos homens que não conhecem a Deus porque Jesus disse: "Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós" (João 15:20), e Paulo disse que "todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tim. 3:12). A Igreja de Deus que quer conduzir-se de modo digno do Evangelho será perseguida; não pode ser de outro modo. Estas são as razões pelas quais nós cremos que, em qualquer caso, não se deve meter na cabeça o pensamento que se nos juntamos todos, poderemos levantar a nossa voz em favor da justiça de maneira mais forte e transformar este mundo de trevas. Mas isto é precisamente o que a igreja romana quer fazer os outros pensar. Estai atentos porque este modo de falar da igreja romana tem como fim o de distrair-vos do bom combate e envolver-vos na política. Sim, na política a que ela desde há muitos séculos se dá; não esqueçais que a igreja romana é política. Nós crentes não temos nenhuma intenção de nos darmos à política ou de fazer política para procurar fazer triunfar o direito neste mundo. Nós, a política a deixamos fazer aos que Deus encarregou de fazê-la, e por eles oramos para que Deus os guie e os ajude. João Paulo II está à cabeça de um império temporal; portanto fala e se comporta à homem poderoso da terra; por isso não fala e não vive como Jesus Cristo ou como o apóstolo Pedro de quem se diz o sucessor. E sendo chefe de um Estado também ele procura salvaguardar os interesses do seu Estado, e estender de uma maneira ou de outra o seu poder no mundo; exactamente aquilo que fizeram os seus predecessores durante os séculos passados. Portanto é compreensível que ele fale de luta social e de iniciativas que têm como fim o de persuadir as autoridades de um Estado a fazer ou não fazer alguma coisa. Tem o poder de fazê-lo e o faz. Mas o facto é que ele está procurando envolver nesta luta política, porque tal é, também nós que da política devemos estar fora e longe dela para não corremper-nos. Mas cuidai que o fim a que ele se propõe não é o de fazer triunfar o respeito pelos direitos; mas o respeito por ele e pela igreja católica romana. Isto é manifesto, quem tem os olhos abertos vê bem tudo isto. Aquilo que nós antes queremos fazer é anunciar o arrependimento e a palavra da fé à igreja católica romana e denunciar as suas heresias, as suas hipocrisias, as suas falsidades, que mantêm milhões de pessoas longe da justiça de Deus que está em Cristo Jesus. Esta é a luta que nós perseguimos. Certo, sabemos que nem toda a igreja católica romana se converterá ao Senhor; de qualquer modo, queremos fazer de tudo para que muitos seus encarcerados cheguem ao conhecimento da verdade e sejam assim libertados do jugo desta religião organizada. Portanto, para concluir; o papa dos Católicos está contente por muitas Igrejas evangélicas se empenharem, como faz ele e junto com ele, a nível político para fazer triunfar o respeito pelos direitos; ou melhor para estender o seu poder temporal sobre a terra esquecendo que o reino de que Cristo, o chefe da Igreja, está à cabeça não é deste mundo. Nós por isso entristecemo-nos ao constatar que também Igrejas evangélicas querem constituir o seu papado sobre a terra, e reprovamos este seu comportamento feito de compromissos, de interesses pessoais, de mentiras e de hipocrisias. A Igreja de Deus deve pregar o Evangelho aos homens e orar pela sua salvação; porque só se os homens aceitarem o Evangelho poderão pôr-se a seguir a justiça e o bem alheio.

Ÿ ‘Os progressos da conversão ecuménica são significativos também noutro sector, o relacionado com a Palavra de Deus. Penso, antes de mais, num facto tão importante para os vários grupos linguísticos como são as traduções ecuménicas da Bíblia (....) Tais traduções, obra de especialistas, oferecem geralmente uma base segura para a oração e a actividade pastoral de todos os discípulos de Cristo. Quem recorda como influíram nas divisões, especialmente no Ocidente, os debates em torno da Escritura, pode compreender quanto seja notável o passo em frente representado por tais traduções comuns’ (Il Regno, N° 752, pag. 403).

Eis aqui agora um outro assunto importante, que é o das traduções da Bíblia feitas entre Católicos e Protestantes. João Paulo II fala de progressos, de passo em frente e se mostra satisfeito por estas traduções; mas nós do nosso canto não podemos de modo nenhum falar de progressos porque constatamos que estas traduções ecuménicas trazem a marca do catolicismo romano, antes de mais porque contêm os livros apócrifos que não são inspirados, depois porque a Palavra de Deus resulta adulterada em muitos pontos, e depois porque contêm notas explicativas ambíguas em alguns casos, e confirmadoras das doutrinas católicas em outros. Em suma são Bíblias de compromisso inconfiáveis. Mas aliás o que se podia esperar de uma tradução feita entre os tradutores Católicos que são especializados tanto no adulterar a Palavra de Deus como no colocar as notas explicativas do magistério romano, e pessoas de Igrejas evangélicas que para levar avante este diálogo ecuménico estão dispostas a fazer compromissos à custa da Palavra de Deus e da sã doutrina? Para vos fazer compreender porque João Paulo II se mostra satisfeito pelas traduções ecuménicas submeto agora à vossa atenção algumas passagens (com ou sem as notas explicativas de algumas delas) de algumas destas traduções.

T.O.B (Torino 1976).

A) ‘Despertando do sono, José fez como Lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho, que ele chamou Jesus’ (Mat. 1:24,25). A nota diz que ‘o texto não permite afirmar que Maria depois tenha tido relações com José’. E realmente o texto não o permite; foi adulterado! O texto original diz: "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogénito; e pôs-lhe por nome Jesus" (Mat. 1:25); deste texto se aprende que José depois que Maria deu à luz Jesus a conheceu, isto é, teve relações carnais com ela. O que é confirmado pelo facto dele ter tido filhos e filhas de Maria.

B) ‘Enquanto ele falava ainda à multidão, sua mãe e os seus irmãos, estando do lado de fora, procuravam falar-lhe’ (Mat. 12:46). A nota diz: ‘Na Bíblia, como ainda hoje no Oriente, a palavra irmãos pode designar tanto os filhos da mesma mãe, como os parentes próximos (Cf Gn 13,8; 14,16; 29,15; Lv 10,4; I Cr 23,22). Aqui, o discurso na nota é justo porque efectivamente por vezes na Bíblia o termo irmãos indica também parentes próximos como primos sobrinhos etc., mas é evidente que uma tal nota de modo nenhum convém em referência aos irmãos de Jesus; porquê? Porque nós estamos seguros que os irmãos de Jesus de quem Mateus fala nesta passagem são os filhos de sua mãe e não seus primos ou sobrinhos; e não nos pomos a pensar sequer por um momento que estes irmãos pudessem ser seus parentes próximos. Uma tal nota posta nesta passagem faz compreender ainda uma vez quanto o espírito ecuménico possa influir negativamente não só na tradução mas também no comentário das notas. Nesta nota, ninguém pende para um lado; ninguém toma posição, deixa-se ao leitor pensar que os irmãos de Jesus podiam ser os filhos de sua mãe mas também que podiam ser os seus parentes próximos. Eis uma forma de compromisso ecuménico que tende a sufocar a verdade que Maria não permaneceu virgem porque José, depois que nasceu Jesus, teve filhos dela.

C) ‘Quando porém se manifestaram a bondade de Deus, nosso salvador, e o seu amor pelos homens, ele nos salvou não em virtude de obras de justiça por nós praticadas, mas por sua misericórdia mediante um lavacro de regeneração e de renovação no Espírito Santo’ (Tito 3:4,5). A nota em referência ao lavacro de regeneração diz: ‘Alusão ao batismo’. Porquê? Para contentar os Católicos que afirmam que o batismo dos infantes regenera. Mas as palavras de Paulo a Tito não fazem alusão ao batismo, mas à regeneração feita em nós pela água da Palavra de Deus.

D) ‘Por isso, irmãos, permanecei firmes e mantei as tradições que aprendestes ou por nossas palavras ou por nossa carta’ (2 Tess. 2:15). A nota diz: ‘Se pode pensar na primeira carta canónica. Mas Paulo, por meio de Timóteo, teve outras ocasiões de comunicar com os tessalonicenses. As tradições são as verdades respeitantes à fé e à vida cristã, que Paulo recebeu da Igreja primitiva e que ensina, por sua vez, às comunidades por ele fundadas’. Por que é que esta nota diz isto? Para sustentar a tradição católica que, segundo a cúria romana, é o ensinamento dos apóstolos transmitido de viva voz mas não escrito. Na nota há uma mentira porque Paulo não recebeu verdades respeitantes à fé e à vida cristã da Igreja primitiva porque ele o Evangelho não o recebeu e não o aprendeu de nenhum homem mas o recebeu por revelação de Jesus Cristo. Basta lembrar, para confirmar isto, que a respeito da ceia do Senhor o apóstolo não disse tê-la transmitido como a tinha recebido dos apóstolos mas como a tinha recebido do próprio Senhor!

E) ‘Ora, enquanto eles comiam, Jesus tomou o pão e, pronunciada a benção, o partiu e o deu aos discípulos...’ (Mat. 26:26). A nota diz: ‘Mateus pressupõe, sem dizê-lo explicitamente como Lc (22,19) ou Paulo (I Cor 11,24), que os discípulos devem fazer isto em memória de Jesus. Sobre a iniciativa de Jesus não se trata só de lembrar este facto ou de repetir a Ceia, mas de actualizar o gesto sacrificial realizado por Jesus na cruz e de antecipar o banquete escatológico’. Eis despontar também a missa católica (a pretensa repetição do sacrifício de Cristo) sob as palavras ‘actualizar o gesto sacrificial realizado por Jesus na cruz’!

Estas aqui supracitadas são só algumas das notas desviantes que aparecem nesta tradução ecuménica feita por ‘especialistas’!

Parola del Signore (Roma 1976).

A) ‘E Gesù le disse: ‘Donna, perché me lo dici? L’ora mia non è ancora giunta’ ou seja ‘E Jesus lhe disse (a sua mãe): ‘Mulher, por que me o dizes? Ainda não é chegada a minha hora’ (João 2:4,5). Porquê não pôr "que tenho eu contigo?" (João 2:4)? É claro o motivo, para não fazer parecer tão severa a repreensão de Jesus para com sua mãe. E portanto para exaltar de uma certa maneira Maria.

B) ‘Gesù le dice: ‘Dio è spirito. Chi lo adora deve lasciarsi guidare dallo Spirito e dalla verità di Dio’ ou seja ‘Jesus lhe diz (à mulher samaritana): ‘Deus é espírito. Quem o adora deve deixar-se guiar pelo Espírito e pela verdade de Deus’ (João 4:24). Porquê não pôr "é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade" (João 4:24)? É evidente; porque a verdadeira tradução dá melhor a ideia que Deus não deve de modo nenhum ser adorado com o auxílio de estátuas e de imagens, mas só em espírito porque Ele é espírito.

Parola del Signore (Torino 1986) [5].

‘Perciò nessuno può spiegare con le sue sole forze le profezie che ci sono nella Bibbia’ ou seja ‘Por isso ninguém pode explicar com as suas forças as profecias que há na Bíblia’ (2 Ped. 1:21). Porquê não pôr: ".. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens" (2 Ped. 1:21)? Porque neste caso o leitor perceberia que a Escritura não procede de visões particulares (ou não é de particular interpretação) porque os homens que a escreveram não a escreveram de sua vontade porque foram movidos pelo Espírito Santo. Enquanto no texto ‘ecuménico’ há amplo espaço para introduzir nele a guia ‘infalível’ na compreensão da Escritura do magistério papista.

B) ‘L’angelo entrò in casa e le disse: - Ti saluto, Maria! Il Signore è con te: egli ti ha colmata di grazia’ ou seja ‘O anjo entrou em casa e lhe disse: - Te saúdo, Maria! O Senhor é contigo: ele te encheu de graça’ (Lucas 1:28). Por que é que os tradutores não puseram "agraciada" (Lucas 1:28) ou "tu cuja graça foi feita" (Lucas 1:28 Diodati)? Porque assim os Católicos podem sempre explicar a imaculada conceição de Maria e o facto de ela durante a sua vida nunca ter cometido pecado.

C) ‘Fate attenzione; nessuno vi inganni con ragionamenti falsi e maliziosi. Sono frutto di una mentalità umana...’ ou seja ‘Prestai atenção; ninguém vos engane com raciocínios falsos e maliciosos. São fruto de uma mentalidade humana...’ (Col. 2:8). Por que é que os tradutores fizeram desaparecer a filosofia e a tradição dos homens conforme está escrito: "Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens..." (Col. 2:8)? É claro o porquê: para não fazer aparecer danosas a filosofia e a tradição humana presentes amplamente na igreja católica romana.

D) ‘Se qualcuno di voi è malato, chiami i responsabili della comunità’ ou seja ‘Se alguém de vós está doente, chame os responsáveis da comunidade’ (Tiago 5:14). Por que é que os tradutores fizeram desaparecer "os anciãos da igreja" conforme está escrito: " Está alguém entre vós doente? Chame os anciãos da igreja" (Tiago 5:14) e puseram os responsáveis da comunidade? Porque assim os Católicos podem dizer que os responsáveis da comunidade de que fala Tiago são os padres (que porém ministram a extrema unção) e os Protestantes podem dizer que se trata do pastor ou dos anciãos. Mas a palavra grega presbyteros deve ser traduzida com anciãos e não com responsáveis da comunidade; mesmo se os anciãos são os responsáveis da comunidade.

E) ‘Avete ricevuto lo Spirito Santo quando siete diventati cristiani?’ ou seja ‘Recebestes o Espírito Santo quando vos tornastes cristãos?’ (Actos 19:2) Por que é que os tradutores não puseram "quando crestes"? É simples; porque para os Católicos se passa a ser Cristão e por isso se recebe o Espírito Santo quando em infante se recebe o batismo, enquanto para os Evangélicos se passa a ser Cristão quando se crê em adulto e por isso se recebe o Espírito Santo (aqui me refiro a uma medida de Espírito Santo e não à plenitude que se recebe depois de ter crido) em adulto. E assim a tradução contenta ambas as partes, mas sobretudo os Católicos porque desta maneira os Evangélicos não podem dizer que se recebe o Espírito Santo só em adulto quando se crê, enquanto os Católicos podem dizer que o bebé recebe o Espírito Santo sem crer!!!

F) ‘Per questo io ti dico che tu sei Pietro e su di te, come su una pietra, io costruirò la mia Chiesa’ ou seja ‘Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre ti, como sobre uma pedra, eu construirei a minha Igreja’ (Mat. 16:18). Por que razão os tradutores puseram ‘sobre ti’ e não "sobre esta pedra"? Supérfluo dizê-lo, porque segundo os Católicos a Igreja de Cristo tem como pedra fundamental Pedro!!! Mesmo se a nota explicativa cita também esta tradução e faz presente que as igrejas não são concordes na explicação do texto, importa dizer que aquele ‘sobre ti’ cheira fortemente a catolicismo. É um compromisso, não há dúvida.

G) ‘Fratelli, vi ho parlato di me e di Apollo per darvi un esempio. Imparate a non andare oltre certi limiti’ ou seja ‘Irmãos, vos falei de mim e de Apolo para dar-vos um exemplo. Aprendei a não ir além de certos limites’ (1 Cor. 4:6). O texto revisto e actualizado de João Ferreira de Almeida afirma ao invés: "Ora, irmãos, estas coisas eu as apliquei figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito" (1 Cor. 4:6). Por que é que portanto não puseram ‘o não além do que está escrito’ mas ‘além de certos limites’? Porque assim os Católicos podem pôr os limites que eles quiserem e nós não podemos mais dizer-lhes que não se deve ir além daquilo que está escrito (e portanto que não se deve observar a sua tradição que não é parte da Escritura).

Ÿ ‘...A finalidade última do movimento ecuménico é o restabelecimento da plena unidade visível de todos os baptizados. Na perspectiva desta meta, todos os resultados conseguidos até agora não passam de uma etapa, embora prometedora e positiva (..) Desta unidade fundamental, mas ainda parcial, deve-se agora passar àquela unidade visível, necessária e suficiente, que se inscreva na realidade concreta, para que as Igrejas realizem verdadeiramente o sinal daquela comunhão plena na Igreja una, santa, católica e apostólica, que se há-de exprimir na concelebração eucarística. Este caminho para a unidade visível necessária e suficiente, na comunhão da única Igreja querida por Cristo, exige ainda um trabalho paciente e corajoso..’ (Il Regno, N° 752, pag. 410).

Eis aqui agora a última parte do discurso de João Paulo II. Como podeis ver nestas palavras o papa dos Católicos fala da finalidade a que se propõe o movimento ecuménico que consiste no restabelecimento visível de todos os batizados, ou seja, segundo ele, dos que foram batizados em adulto depois de se terem arrependido e dos que foram batizados em criança sem nunca terem nascido de novo. E este restabelecimento da unidade se concretizará, segundo ele, na celebração da missa; ou seja na celebração da pretensa repetição do sacrifício de Cristo! O papa dos Católicos reconhece que ainda há muitas divergências doutrinais que separam os Católicos das igrejas cristãs evangélicas, mas não obstante isso mostra-se optimista vistos os progressos que se fizeram no caminho do ecumenismo e encoraja os seus seguidores e aqueles que ele chama ‘os outros cristãos’ a prosseguir por este caminho. Que dizer? Diremos pela enésima vez que nós crentes não devemos de nenhuma maneira nos pôr a dialogar com pessoas que com doces e lisonjeiras palavras, com o pretexto de querer a unidade de todas as igrejas, não querem fazer mais que levar todos para debaixo do domínio do papado a celebrar aquele acto abominável que é a missa! Atentos irmãos, porque este papa dos Católicos é uma raposa! Alguém dirá: ‘Mas que dizes irmão?’ Digo que esta unidade visível de todas as igrejas é um desígnio maléfico que o papado bem preparou nas suas câmaras secretas para fazer desviar os crentes da verdade. Não vos deixeis enganar por estes lobos disfarçados de ovelhas!

Ÿ ‘...Entre todas as Igrejas e Comunidades eclesiais, a Igreja Católica está consciente de ter conservado o ministério do Sucessor do apóstolo Pedro, o Bispo de Roma, que Deus constituiu como « perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade », e que o Espírito ampara para que torne participantes deste bem essencial todos os outros. Segundo a feliz expressão do Papa Gregório Magno, o meu ministério é o de servus servorum Dei. Esta definição preserva o melhor possível do risco de separar a potestade (e particularmente o primado) do ministério, o que estaria em contradição com o significado de potestade dado pelo Evangelho: « Eu estou no meio de vós como aquele que serve » (Lc 22, 27), diz o Senhor nosso Jesus Cristo, Chefe da Igreja. (...) A missão do Bispo de Roma no grupo de todos os Pastores consiste precisamente em « vigiar » (episkopein) como uma sentinela, de modo que, graças aos Pastores, se ouça em todas as Igrejas particulares a verdadeira voz de Cristo-Pastor. Assim, em cada uma das Igrejas particulares a eles confiadas, realiza-se a una, sancta, catholica et apostolica Ecclesia. Todas as Igrejas estão em comunhão plena e visível, porque todos os Pastores estão em comunhão com Pedro, e, desse modo, na unidade de Cristo. Com o poder e autoridade sem os quais tal função seria ilusória, o Bispo de Roma deve assegurar a comunhão de todas as Igrejas. Por este título, ele é o primeiro entre os servidores da unidade. Tal primado é exercido a vários níveis, que concernem à vigilância sobre a transmissão da Palavra, a celebração sacramental e litúrgica, a missão, a disciplina, e a vida cristã. Compete ao Sucessor de Pedro recordar as exigências do bem comum da Igreja, se alguém for tentado a esquecê-lo em função dos próprios interesses. Tem o dever de advertir, premunir e, às vezes, declarar inconciliável com a unidade da fé esta ou aquela opinião que se difunde. Quando as circunstâncias o exigirem, fala em nome de todos os Pastores em comunhão com ele. Pode ainda — em condições bem precisas, esclarecidas pelo Concílio Vaticano I — declarar ex cathedra que uma doutrina pertence ao depósito da fé. Ao prestar este testemunho à verdade, ele serve a unidade.(ibid., pag. 412, 413). (...) Estou convicto de ter a este propósito uma responsabilidade particular, sobretudo quando constato a aspiração ecuménica da maior parte das Comunidades cristãs, e quando ouço a solicitação que me é dirigida para encontrar uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova. (....) A Igreja Católica, tanto na sua praxis como nos textos oficiais, sustenta que a comunhão das Igrejas particulares com a Igreja de Roma, e dos seus Bispos com o Bispo de Roma, é um requisito essencial — no desígnio de Deus — para a comunhão plena e visível. De facto, é necessário que a plena comunhão, de que a Eucaristia é a suprema manifestação sacramental, tenha a sua expressão visível num ministério em que todos os Bispos se reconheçam unidos em Cristo, e todos os fiéis encontrem a confirmação da própria fé. A primeira parte dos Actos dos Apóstolos apresenta Pedro como aquele que fala em nome do grupo apostólico e serve a unidade da comunidade — e isto no respeito da autoridade de Tiago, chefe da Igreja de Jerusalém. Esta função de Pedro deve permanecer na Igreja para que, sob o seu único Chefe que é Cristo Jesus, ela seja no mundo, visivelmente, a comunhão de todos os seus discípulos (ibid., pag. 414). (...) Eu, João Paulo, humilde servus servorum Dei, fazendo minhas as palavras do apóstolo Paulo — cujo martírio, unido ao do apóstolo Pedro, conferiu a esta Sé de Roma o esplendor do seu testemunho —, digo a vós, fiéis da Igreja Católica, e a vós, irmãos e irmãs das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, « trabalhai na vossa perfeição, confortai-vos mutuamente, tende um mesmo sentir, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco ... A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós » (2 Cor 13, 11.13)’ (ibid., pag. 415).

Para concluir o seu longo discurso o papa dos Católicos não podia ser mais claro sobre o papel que ele pensa ter neste restabelecimento da unidade entre as igrejas e qual é o seu propósito. Percebemos; ele, em substância, diz que não pode haver unidade sem ele porque ele é o fundamento visível desta unidade a quem Cristo confiou a tarefa de vigiar ovelhas e pastores; e depois faz claramente perceber que ele quer reunir todos sob ele, para que todos ouçam a verdadeira voz de Cristo que fala nele naturalmente! Eis por que nós declaramos o ecumenismo papal nada mais que uma maquinação do diabo para fazer voltar ao seio da igreja católica aqueles que pela graça de Deus saíram dela! Que não nos venhais dizer pois que somos impiedosos, sem amor fraterno e sectários em não querer aceitar dialogar com a cúria romana e em geral com os Católicos a fim de buscar a sua unidade; porque isso não é verdadeiro. A verdade é que nós amamos a verdade e queremos que ela não seja posta debaixo dos pés por amor desta pretensa unidade; mas os que procuram a todos os custos se porem de acordo com a cúria romana, quando é impossível fazê-lo sem sufocar a verdade, não amam a verdade e nem procuram a glória que vem de Deus mas procuram a glória que vem dos homens. Não nos importa como somos catalogados por causa desta nossa tomada de posição; sabemos porém não ter nenhum remorso e que a nossa consciência não nos repreende. Quem tem ouvidos para ouvir ouça.

 

 

O DIÁLOGO CATÓLICO/PENTECOSTAL

 

A nível internacional

 

Após algumas discussões preliminares iniciadas em 1970, discussões que tiveram como interlocutores por uma parte o Secretariado para a União dos Cristãos fundado por João XXIII em 1960 e pela outra singulares membros de igrejas pentecostais, em 1972 tiveram início os diálogos internacionais entre Católicos e Pentecostais. Originariamente, a delegação pentecostal foi escolhida pessoalmente por David Du Plessis [6], o qual tinha sido convidado anos antes para participar como observador no concílio Vaticano II [7], e mais tarde por seu irmão Justus, mas gradualmente algumas denominações pentecostais começaram a enviar delegados oficiais. Por quanto respeita às Assembleias de Deus dos Estados Unidos é preciso dizer que não é oficialmente representada, se bem que neste diálogo participam alguns seus membros como Cecil Robeck, Gary McGee e Del Tarr, ministros ordenados pela denominação americana. Antes de ter início o diálogo foi dito que o objectivo deste diálogo não era ‘interessar-se com problemas de uma união estrutural iminente’, mas era que ‘a oração, a espiritualidade e a reflexão teológica se tornassem uma preocupação a nível internacional, sob a forma de um diálogo entre o Secretariado para a União dos Cristãos da Igreja católica e os chefes de algumas igrejas pentecostais e alguns participantes dos movimentos carismáticos nas Igrejas protestantes e anglicanas’.

Durante o primeiro quinquénio de diálogos foram discutidos estes assuntos: batismo com o Espírito Santo (1972, Horgen, Suíça); a relação entre o batismo com o Espírito Santo e os ritos de iniciação, e o papel do Espírito Santo e os dons do Espírito Santo na tradição mística (1973, Roma, Itália); teologia da iniciação cristã, natureza da actividade sacramental e batismo das crianças e dos adultos (1974, Schloss Craheim, Alemanha Federal); culto público, com particular referência à celebração eucaristica, e dimensão humana no exercício dos dons espirituais e discernimento dos espíritos (1975, Veneza, Itália); oração e louvor (1976, Roma, Itália).

Durante o segundo quinquénio (em 1978 não foi realizado nenhum encontro por causa da morte de Paulo VI) foram antes discutidos os seguintes assuntos; falar em outras línguas e a relação da experiência com a fé (1977, Roma, Itália); relação entre Escritura e tradição, e o ministério de cura na igreja (1979, Roma, Itália); igreja como comunidade adorante e tradição e tradições (1980, Veneza, Itália); o papel de Maria, isto é, a sua intercessão, a sua veneração, a sua maternidade etc. (1981, Viena, Áustria); a propósito deste encontro é preciso dizer que Jerry L. Sandidge afirma que a locação deste diálogo ‘constituia uma particular preocupação para os Pentecostais. Foi decidido transferir-se para fora de Itália para favorecer as Assembleias de Deus italianas, que se tinham oposto a ele tanto em Roma como em Itália (Jerry L. Sandidge, Roman Catholic/Pentecostal Dialogue (1977-1982). A Study in developing ecumenism, [Diálogo Católico/Pentecostal [ 1977-1982] .. Um Estudo sobre o ecumenismo que se desenvolve] vol. I, Frankfurt am Main 1987, pag. 234). O último encontro desta segunda série de encontros foi realizado em Collegeville no Minnesota, em 1982 e foi discutido o ministério na igreja.

Durante o terceiro quinquénio foram discutidos os seguintes assuntos; a comunhão dos santos (1985, Riano, Roma); ‘o Espírito Santo e a visão neo-testamentária da koinonia’ (1986, Sierra Madre, Califórnia, U.S.A.); ‘Koinonia, Igreja e Sacramentos’ (1987, Veneza, Itália); ‘Koinonia e batismo’ (1988, Emmetten, Suíça); Koinonia, a Igreja como comunhão (1989, Roma).

No quarto quinquénio os temas discutidos foram: a evangelização (1990, Emmetten, Suíça); o bíblico e sistemático fundamento da evangelização (1991, Veneza, Itália); evangelização e cultura (1992, Rocca di Papa, Roma); evangelização e justiça social (1993, Paris); evangelização, testemunho e proselitismo (1994, Kappel am Albis, Suíça); testemunho comum (1995, Brixen, Itália).

O diálogo prossegue portanto há mais de vinte anos e ainda que da parte pentecostal (como também da parte católica) haja o reconhecimento que permanecem, depois de mais de vinte anos de diálogos, grandes divergências doutrinais sobre diversos pontos, ele não dá em nada sinal de parar. É verdadeiramente preocupante pois constatar que por parte destes membros influentes destas igrejas pentecostais não haja a resolução em abandonar este diálogo; mas como é possível que não tenham ainda percebido que com este diálogo não se podem e nem se poderão alguma vez pôr de acordo com os Católicos porque eles são inimigos da verdade e não amigos dela? Mas ainda não perceberam que as mentiras ensinadas pela igreja católica romana não têm nada a ver com a verdade que habita em nós? Mas ainda não perceberam que se querem andar de acordo com os Católicos devem renunciar mais cedo ou mais tarde à verdade e constituirem-se inimigos de Deus com todas as nefastas consequências que daí vêm? Não, parece mesmo que muitos deles ainda não o perceberam, ou melhor não querem de modo algum perceber porque tornaram-se duros de ouvido e de coração enganados pelos sorrisos e pelas lisonjas dos Católicos romanos. Querem a todo o custo estar de boas relações com os Católicos, querem a todo o custo ganhar a sua amizade e o seu respeito; em vez de exortá-los a se arrependerem e a sair do meio desta igreja idólatra. Ah, como são privados de discernimento estes crentes que empreenderam este esforço ecuménico com a igreja católica romana!

Da parte católica continua-se a ouvir dizer que ‘o objectivo do diálogo é o aprofundamento do respeito recíproco e da compreensão recíproca, não uma orgânica ou uma estrutural unidade’, mas temos que ainda uma vez dizer que da parte daqueles que se põem a falar com os Católicos romanos se por um lado deve haver o respeito pela pessoa, seja ela padre, bispo ou cardeal, por outro não pode haver e não deve haver nenhum respeito e nenhuma piedade em relação às heresias da igreja romana que já atiraram e estão ainda atirando milhões de pessoas para o inferno! As heresias importa destruí-las fazendo uso da Palavra de Deus; importa reprová-las com todas as forças, e as se devem chamar com o seu verdadeiro nome, isto é, heresias, doutrinas de demónios, e não com algum outro nome, como por exemplo, opiniões diferentes, visões diferentes, para não chocar o ânimo dos Católicos romanos! Não, não é o aprofundamento do respeito recíproco ou da recíproca compreensão o objectivo deste diálogo que a igreja romana quis também com as igrejas pentecostais após o concílio Vaticano II, porque o verdadeiro objectivo é o de induzir os Pentecostais (cuja evangelização ‘agressiva’ preocupava e preocupa a igreja católica romana porque afastou dela dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo) a reconhecer os seus sacramentos e as suas doutrinas, e a dissuadi-los assim de evangelizar os seus membros. Em suma, esta chamada compreensão recíproca e este chamado respeito recíproco que têm até aqui procurado aprofundar os Católicos com este diálogo são só pretextos de que ela se serve para dissuadi-los de confutar com vigor as suas doutrinas (coisa que com o passar do tempo, tanto na Europa como na América e sul América, se enfraqueceu notavelmente em comparação com décadas atrás), e arrancar-lhes mais membros das suas goelas. Talvez - ou melhor, seguramente - esta nossa atitude será considerada sectarismo ou demonstração de não querer a unidade da Igreja mas a sua destruição, mas com efeito não é assim porque a verdadeira unidade da Igreja a se pode buscar só andando na verdade, e portanto permanecendo apegados a todo o conselho de Deus assim como exposto na Escritura e andando com todos aqueles que depois de ter conhecido a verdade decidiram habitar na verdade, a custo de perder a própria vida e a estima e a amizade daqueles que antes os estimavam e amavam, em suma com aqueles que de puro coração invocam o Senhor, e não com pessoas que puseram a verdade não no seu coração mas por baixo dos seu pés e a espezinharam em vez de defendê-la. Por que chamar irmãos e amigos aos que contrastam e anulam com as suas heresias as doutrinas portantes do cristianismo como a justificação só pela fé, o batismo por imersão como símbolo da regeneração obtida pela fé, a mediação única e suficiente de Cristo, o senhorio de Cristo sobre a Igreja, e assim fazendo fecham o reino dos céus a si mesmos e aos que instruem? Mas não é isto uma loucura? No entanto isto é o que sucede nestes diálogos e nos encontros ecuménicos da parte pentecostal para com os Católicos! É hora destes Pentecostais serem de novo evangelizados, é hora de se arrependerem também eles para voltar a andar por veredas direitas porque com este seu comportamento demonstram de maneira inequívoca terem-se encaminhado por caminhos tortuosos.

Agora, além de dialogar estes falam até de se porem a evangelizar com os Católicos romanos; de facto a propósito do diálogo católico-pentecostal realizado em Brixen (Itália) de 15 a 22 de Julho de 1995, onde se discutiu a Evangelização em comum, se lê na revista Information Service: ‘O tema desta fase do diálogo é a Evangelização. A discussão de um comum testemunho revelou a necessidade por parte do mundo de ouvir o Evangelho, e as dificuldades dos Cristãos em testemunhar juntos a causa das suas divisões. Ao mesmo tempo foi feito notar que há casos em diferentes lugares onde o testemunho comum entre Cristãos, incluindo Pentecostais e Católicos Romanos, está-se já desenvolvendo. Todos os documentos apresentavam um número de sugestões que oferecem oportunidade por caminhos possíveis de testemunhar pelo Evangelho juntos no futuro. As discussões foram conduzidas num espírito de candura, recíproca confiança e apreço’. E quem eram os Pentecostais que participaram neste cordial encontro que procurou lançar as bases para uma futura evangelização em conjunto com os Católicos romanos? Os quero citar assim como os leio na revista supracitada: ‘Rev. Cecil M. Robeck, Jr. (Assemblies of God, Pasadena, California, U.S.A) (...) Rev. Cheryl Bridges Johns (Church of God, Cleveland, Tennessee, U.S.A.); Rev. Ronald Kydd (Pentecostal Assemblies of Canada, Keene, Ontario, Canada), Rev. Gary McGee (Assemblies of God); Rev. Francois Moller (Apostolic Faith Mission); Rev. Steve Overman (International Church of the Foursquare Gospel, Eugene, Oregon, U.S.A.); Rev. Raymond M. Pruitt (Church of God of Prophecy, Cleveland, Tennessee, U.S.A.); Rev. Del Tarr (Assemblies of God). [8] Da lista omiti os participantes como observadores. Que dizer? É necessário dizer que daqui irá resultar que muitos deixarão de evangelizar os Católicos romanos, para juntarem-se a eles na evangelização! [9]. Aqui, estamos na apostasia. Mas nós queremos perguntar a estes Pentecostais que participaram neste encontro em Brixen: mas alguma vez lestes os livros de catecismo da igreja romana? Mas alguma vez lestes algum dos seus livros de teologia dogmática? Mas sabeis o que é o catolicismo? Mas alguma vez lestes a história da Reforma e da contra-reforma? Mas não sabeis que hoje a igreja romana para sustentar as suas heresias, após mais de quatro séculos da Reforma, cita ainda o concílio de Trento que foi realizado para contrabater a Reforma, como o citava há cem ou duzentos anos atrás? Mas não vos dais conta que nada mudou na igreja romana desde os dias da Reforma até hoje? Vós direis: ‘Mudou algo na forma, na liturgia, e na atitude oficial que ela tem pelas Igrejas evangélicas surgidas da Reforma’. Sim, isso é verdade, mas na substância tudo ficou como era antes, porque as heresias de há cinco séculos existem ainda todas, antes aumentaram. O lobo mudou a cor do pelo, mas ainda é lobo e não se tornou uma ovelha. Mesmo que vós digais que o que é chamado papa, os cardeais, os bispos e os padres são ovelhas, porque os ouvis falar com uma voz doce e os vedes amigáveis, errareis grandemente, porque por detrás daquele seu hábito de ovelha permanecem lobos devoradores, como o eram os seus predecessores nos séculos passados. Não vos iludais. Mas porventura, alguns de vós dirão que há bispos e padres e muitos ‘leigos’ católicos que falam também eles em outras línguas! Mas nós dizemos: ‘Mas se eles receberam verdadeiramente o Espírito da verdade como podem permanecer apegados às doutrinas católicas romanas que anulam a verdade e estão conduzindo para as chamas do inferno centenas de milhões de pessoas em todo o mundo? Como podem permanecer na igreja romana, no meio da idolatria, quando ainda nesta geração tantos padres e Católicos romanos que saíram do seu meio para unir-se aos santos declararam de várias, mas inequívocas maneiras, que para eles depois que conheceram a verdade não foi mais possível permanecer no meio desta igreja idólatra e anticristã? Que deveremos dizer pois de todos estes ex-Católicos romanos? Que mentem quando dizem que Deus os tirou desta cova de perdição que é a igreja romana? Ou porventura deveremos dizer-lhes para voltar ao grémio da igreja romana porque também lá para eles é possível estar na verdade porque há alguns que falam em línguas? Não, nada disso; nós cremos que eles têm plena razão em declarar-se libertados, pela graça de Deus, do jugo da religião católica romana e que eles devem permanecer juntos a nós fora dela e procurar com a ajuda de Deus fazer sim que muitos outros saíam, pelo poder de Deus, de debaixo da potestade do papismo. Pois quê? Que todos aqueles que dizem ter recebido o Espírito Santo saíam imediatamente da igreja romana demonstrando assim com os factos possuir neles o Espírito de Deus que anseia os filhos de Deus até ao ciúme! E se forem vistos duvidosos ou relutantes a fazê-lo sejam conjurados pelos ministros do Evangelho a fazê-lo sem duvidar, mas não sejam de modo algum encorajados a permanecer no grémio desta igreja que se prostitui há séculos com os reis e os povos da terra para não serem participantes das suas pragas quando a ira de Deus se revelar contra ela. Não querem absolutamente fazê-lo estes Católicos romanos que dizem ter recebido o Espírito Santo este passo de sair da igreja romana, porque consideram que a igreja romana esteja na verdade porque tem o chefe visível da Igreja, ou seja, o chamado sucessor de Pedro? Isto significa que eles não receberam absolutamente nada de Deus, mas se enganaram crendo ter recebido o Espírito Santo.

Mas voltemos à questão da evangelização em comum entre Católicos e Pentecostais; uma coisa é certa, deste passo, no futuro muitos crentes nas Igrejas pentecostais começarão a ser mal vistos e perseguidos precisamente pelos seus irmãos com os quais iam ao culto e evangelizar juntos, e tudo isto porque se recusarão a colaborar na evangelização com os Católicos. Os pastores que deviam apascentá-los com entendimento, os expulsarão da sua presença, porque considerarão que eles sejam impedimento à evangelização; serão considerados escândalo e tropeço porque recusarão associar-se aos Católicos romanos na evangelização. Seguramente isso já sucede naqueles casos onde pastores de igrejas pentecostais se puseram a evangelizar com os padres. Cumpre-se assim a palavra do profeta Ezequiel: "Vós me profanastes entre o meu povo por punhados de cevada, e por pedaços de pão, matando aqueles que não haviam de morrer, e guardando vivos aqueles que não haviam de viver, mentindo ao meu povo que escuta a mentira... entristecestes o coração do justo com falsidade, não o havendo eu entristecido, e fortalecestes as mãos do ímpio, para que não se desviasse do seu mau caminho, e vivesse..." (Ez. 13:19,22). Mas a seu tempo Deus fará recair a injustiça destes pastores dados a este falso ecumenismo sobre as suas cabeças; eles levarão a pena deste seu comportamento. Eles semeiam vento e colherão tempestade; pensam semear trigo mas colherão espinhos e abrolhos por causa da sua teimosia de coração. Sim, são teimosos; recusam ouvir os preceitos de Deus para seguir o seu coração enganado pela cúria romana. Têm todo o interesse em fazê-lo, porque este seu comportamento complacente com os Católicos romanos aumenta o seu prestígio entre os Católicos romanos, e lhes permite enriquecer porque ecumenismo hoje é sinónimo de ganho. A igreja católica romana de facto constitui uma vasta clientela para estes faladores vãos e especuladores; livros, videocassetes e audiocassetes, conferências e muito mais. Não é isto para eles um bom motivo para prosseguir este esforço ecuménico? Eis pois o que leva estes a procurar a colaboração dos Católicos; o amor de fama e de dinheiro. Tudo menos amor pela verdade, tudo menos desejo de unidade!

 

Em Itália

 

‘Tudo começou quando o orador, o pastor Giovanni Traettino, traçou o seu discurso sobre o Pentecostes como necessidade de voltar ao Cenáculo em unidade e concórdia e em serviço amoroso e, para símbolo do serviço que os cristãos devem prestar no amor uns aos outros, lavou os pés a um frade (....) O que aproveitamos é o significado espiritual; que através da humilhação de Giovanni, começou um processo de cura entre as duas igrejas. Deste gesto, de facto, começou o diálogo oficial. Aconteceu naquele momento algo que mudou e mudará o curso da história. Há grandes feridas entre evangélicos e católicos, provocadas reciprocamente; basta recordar as distribuídas aos pentecostais no período do fascismo e pós-fascismo (...) Mas ali no estádio de Bari, com aquele gesto nos pareceu como se o mundo evangélico perdoasse os seus perseguidores’ (Tempi di Restaurazione [ Tempos de Restauração] , Junho 1994, pag. 24-25); são as palavras de Matteo Calisi, responsável nacional do Renovamento no Espírito Santo para o diálogo ecuménico, entrevistado por Ernesto D. Bretscher. Eis pois como começou oficialmente o diálogo entre os Católicos e os Pentecostais em Itália; através do lavar dos pés feito por Giovanni Traettino (pastor de uma Igreja em Caserta) a um frade no estádio San Nicola de Bari diante de uma multidão de milhares de Católicos. Mas deixemos falar o próprio Traettino (Traettino agora é Co-Presidente da Consultação Carismática Italiana juntamente com Matteo Calisi) sobre este ‘histórico’ encontro de 1992 a que ele aceitou participar como orador e sobre este gesto por ele praticado diante de assim tantos Católicos: ‘Giovanni, queremos honrar a dívida que temos com os nossos irmãos pentecostais. As nossas raízes estão no movimento pentecostal evangélico. Podes vir falar no 25° aniversário mundial do Renovamento no Espírito Santo? Cremos que o melhor modo seja o de convidar-te na qualidade de pastor pentecostal para ministrar a todos nós. Então o Senhor me disse: ‘Levanta-te…mata e come. As coisas que Deus purificou não as faças tu impuras... Levanta-te, vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei’ (Actos 10:13-15,20). Os meus irmãos confirmaram que a guia era do Senhor, e que era necessário responder ao convite. ‘Entra pela porta que o Senhor abre, e Ele confirmará’. Na véspera de Pentecostes, em Bari, Deus me encontrou ainda. ‘Amanhã lavarás os pés a um dos responsáveis do Renovamento carismático’. ‘Senhor - respondi - não é possível! O que significa? O que pensarão os católicos e como entenderão os meus irmãos evangélicos? Tu sabes, Senhor, que não é lícito a um evangélico conservador no nosso país associar-se aos católicos (cfr. Actos 10:28), e que já só isto será objecto de discussão e causa de confusão. Agora pedes-me até para lavar-lhes os pés?!’. ‘Sou eu que te o peço, filho meu’ disse-me então o Senhor. Procurei resistir ao Senhor, mas Ele me envolveu com a sua presença e com a Sua força de convencimento, e me conquistou. Me venceu e eu me deixei vencer. ‘Tu és meu servo, ama com o meu coração... reconhece a minha acção na sua vida: o novo nascimento, o batismo no Espírito Santo...’. Quem ama a seu irmão permanece na luz, e não há nada nele que o faça tropeçar’ (1° Jo. 2:10). A cura, uma cura profunda era para a obra na minha alma e no meu espírito. O Espírito de Deus me estava tocando, curando, iluminando, o meu coração estava intensamente alegre dentro de mim e estava envolvido pelo sentido tangível da presença de Deus. ‘Na verdade compreendo que Deus não faz acepção de pessoas; mas que em qualquer nação (e eu pensei: quanto mais se é uma denominação cristã’), quem o teme e pratica o que é justo lhe é agradável’ (Actos 10:34-35) Quando estava diante da multidão colorida do estádio de S. Nicola de Bari naquela tarde solarenga do dia de Pentecostes de ‘92, o Espírito de Deus desceu sobre mim. ‘O Pentecostes é fronteira; o Espírito Santo é espírito de fronteira. O movimento pentecostal evangélico e católico é nas suas raízes e na sua natureza mais profunda movimento de fronteira..’. A multidão estava em pé e aclamava Jesus Senhor e Rei da vida pessoal e da Igreja. As minhas mãos agora lavavam os pés de frade Antonio. As lágrimas me enchiam os olhos atónitos enquanto sentia o calor dos braços do meu irmão em torno das minhas costas e o seu rosto apoiado na minha cabeça. Chorava... Como chorava! Foi um instante longuíssimo. Nos encontravamos abraçados, intensamente unidos no coração. A multidão magnificava a Deus no Espírito e O louvava aplaudindo com todo o coração. Foi um encontro divino, Tinhamos entrado pela porta que o Espírito tinha aberto. A sua presença tangível e a obra profunda de cura operada em todos nós foram claro sinal da Sua aprovação. ‘Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que dera também a nós que cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu, para que pudesse resistir a Deus?’ (Actos 11:17)’ (ibid., pag. 3). Portanto segundo as palavras de Traettino tudo é obra de Deus; a porta que se abriu entre os Católicos foi Deus que lhe a abriu; notai de facto quantas vezes usa o nome do Senhor dizendo que ele lhe falou para fazer determinadas coisas entre as quais também lavar os pés a um responsável do Renovamento no Espírito Santo! E além disso ele se usa do relato de Lucas sobre como Deus chamou Pedro a casa de Cornélio para anunciar-lhe a Palavra, como semelhança, para sustentar a sua ida aos Católicos carismáticos. Desde então, isto é, desde 1992, se começaram a realizar anualmente encontros oficiais entre membros do Renovamento no Espírito Santo e pastores de Igrejas evangélicas. Além disso delegações de pastores de Igrejas evangélicas se dirigem após convite para as conferências do Renovamento no Espírito Santo. Queremos agora referir impressões de Ernesto D. Bretscher (um dos pastores a favor do diálogo instaurado) sobre a Convocação nacional do Renovamento no Espírito realizada em Rimini de 22 a 25 de Abril de 1994, para fazer compreender que sentimento paira no meio deste: ‘O padre Emiliano Tardif, depois de uma breve reflexão sobre a misericórdia de Deus expressa através de Jesus em que cita Isaías 53, põe o ênfase no arrependimento, transformando o convénio numa grande reunião de humilhação diante de Deus. Os corredores se enchem de pessoas, muitas das quais em lágrimas, que vão confessar os seus pecados aos muitos sacerdotes mobilizados para a ocasião. A delegação evangélica fica comovida ao observar estes sacerdotes que abraçam, oram, consolam, impõem as mãos e pronunciam a absolvição, enquanto o coro continua a adorar o Senhor (...) A teologia é essencialmente evangélica e cristocêntrica. Para usar as palavras de Giovanni Traettino, ‘encontro um pedaço de evangelismo pentecostal num contexto católico e não posso deixar de sentir-me como em minha casa’ (...) Faremos bem em pôr de parte as nossas desconfianças e o nosso espírito anticatólico...’ (ibid., pag. 12,13,14). Que dizer? Diremos que também aqui em Itália as coisas tomaram um mau caminho nas relações entre os crentes e os Católicos. Certamente Traettino e os que estão de acordo com ele em se porem a dialogar e a orar e a colaborar com os Católicos romanos são uma pequena fracção da irmandade espalhada nesta nação; mas ainda assim importa registar esta sua atitude em relação aos Católicos carismáticos e reconhecer que o catolicismo fez brecha também no meio do povo de Deus. De facto, este diálogo que se instaurou não é uma porta aberta para a Palavra no meio dos Católicos, mas uma frincha aberta ao catolicismo no meio do povo de Deus. Após ter exposto estas coisas queremos antes de mais dizer isto. Nós não cremos no que diz Traettino quando diz que o Senhor lhe falou e lhe disse todas aquelas coisas; porque se realmente tivesse sido o Senhor a chamá-lo para aquele estádio, como chamou Pedro a casa de Cornélio, ele teria pregado aos que ali estavam o arrependimento e a remissão dos pecados só pela fé no nome de Jesus (porque esta é a mensagem a levar aos Católicos romanos), e não uma mensagem ecuménica. Que fez de facto Pedro em casa de Cornélio? Anunciou-lhes a palavra da cruz e a remissão dos pecados em nome de Jesus; porque ele sabia que eles estavam ainda perdidos (embora Cornélio temesse a Deus com toda a sua casa) e necessitavam ser salvos dos seus pecados (cfr. Actos 10:38-43). O apóstolo não foi a uma reunião de irmãos, mas foi pregar a pessoas que tornaram-se irmãos a seguir; quando creram na sua mensagem (cfr. Actos 11:13,14). Se contradiz pois a si mesmo Traettino quando fala daquela maneira querendo dar a entender que lhe aconteceu algo de semelhante ao que tinha acontecido a Pedro. Por quanto respeita ao seu lava-pés feito ao frade; ele é fruto da sua imaginação e não uma ordem divina. Sem nada tirar ao gesto do lava-pés que é um gesto de humildade que também Jesus fez em relação aos seus discípulos; nós vemos nesse acto, um gesto astuto por ele praticado para açambarcar as simpatias dos Católicos. Gesto que lhe foi retribuído pelos Católicos na XIX Convocação Nacional do Renovamento no Espírito, realizada em Rimini em Abril de 1996, com o beijo dos pés [10].

Por quanto respeita por fim às palavras de Bretscher dizemos que o facto da delegação evangélica se ter comovido em ver os Católicos ir confessar-se aos padres e receber deles a absolvição naquela convocação, nos faz só desgostar. Mas como se pode ficar comovido em ver pessoas que em vez de ir directamente a Deus pedir perdão dos seus pecados vão a outros pecadores que julgam ser mediadores entre Deus e os homens? Que vão ler o que diz a teologia romana sobre o sacramento da confissão! Ou melhor, que se arrependam de se terem comovido diante da prática duma das abominações católicas romanas que mantém ligadas ao pecado e ilude centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Que despertem do sono em que caíram!! Quanto depois à exortação de Bretscher para pôr de parte as nossas desconfianças e a nossa aversão pelo catolicismo romano, isso nem pensar; porque assim fazendo nos enganaremos a nós mesmos. Como podemos abandonar as nossas desconfianças e a nossa aversão em relação ao catolicismo romano depois de ter lido os seus catecismos e outros seus livros? Como se pode fazer isso ao constatar que a igreja católica romana é a mesma na substância da dos tempos de Lutero e Calvino? Que também este caia em si mesmo e desperte do sono em que caiu e então não falará mais assim. Assim Traettino e a sua equipa se prenderam oficialmente com os Católicos romanos transgredindo a ordem de Paulo: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" (2 Cor. 6:14-16). Irmãos, guardai-vos desta gente e não vos deixeis enganar pelos seus vãos raciocínios. Porque atrás de todas estas proclamações de amor fraterno se escondem compromissos e muitas coisas ocultas e vergonhosas.

Concluímos dizendo que nós não excluímos que entre os carismáticos católicos de todo o mundo possam haver pessoas que tenham verdadeiramente provado a bondade de Deus e tenham sido salvas dos seus pecados e nem pessoas que tenham verdadeiramente recebido o batismo com o Espírito Santo; porque o Senhor se faz encontrar por todos os que o buscam com todo o coração no meio de todas as igrejas, mesmo nas pseudocristãs como no caso da igreja católica. E isto porque ele é justo, sem acepção de pessoas. Mas uma coisa é certa; estas pessoas serão movidas pelo Espírito Santo para fora do catolicismo romano, porque o Espírito tem intensos ciúmes pelos filhos de Deus e não quer que eles continuem a recitar o Rosário, a confessarem-se aos padres, a participar na missa e outras coisas abomináveis na presença de Deus. Esta é a obra do Espírito Santo que puderam sentir na sua vida todos aqueles Católicos visitados por Deus no seio da igreja católica romana. É necessário pois dizer a estes carismáticos católicos para saírem da igreja católica romana; para o seu bem, exclusivamente para o bem da sua alma.

Atenção para não dizer o que disse Geoffrej Allen: ‘..a minha esperança não é que os carismáticos saiam da Igreja Católica, é antes que o catolicismo, em todos os aspectos em que não é bíblico, saia dos carismáticos!’ (Tempi di Restaurazione [ Tempos de Restauração] , Junho 1994, pag. 29). Porque este é um falar contraditório dado que se alguém quer que o catolicismo não bíblico (que é a maior parte) saia dos carismáticos certamente quer que eles saiam da igreja católica romana e que não permaneçam nela. Enquanto se alguém quer que o catolicismo não bíblico saia dos carismáticos, mas ao mesmo tempo não quer que eles saiam da igreja católica romana; então ele quer que o catolicismo não bíblico permaneça neles, porque não é possível permanecer na igreja católica romana sem aderir - se não mesmo a todas - a muitas das doutrinas diabólicas que há nela. E para se dar conta disto veja-se de quantas doutrinas diabólicas é formado o catolicismo romano, e como elas estão estritamente ligadas entre si de maneira a não deixar alternativa; ou permanecer e dar ouvidos ao magistério, ou sair.

 

 

O PROJECTO ‘UNIDADE ATRAVÉS DA DIVERSIDADE’ DE OSCAR CULMANN

 

Oscar Culmann, eminente teólogo luterano, escreveu um livro de título Unidade através da diversidade. Neste livro fala de como segundo ele seja possível ter comunhão (em grego koinonia) com os Católicos romanos, de facto afirma: ‘..constatámos a necessidade de responder afirmativamente à questão de saber se esta comunhão é possível em via de princípio’ (Oscar Culmann, L’unità attraverso la diversità [ A unidade através da diversidade] , Brescia 1987, pag. 52. Oscar Culmann recebeu o prémio internacional Paulo VI 1993 pelo ecumenismo). Em outras palavras, para ele é possível a unidade com a igreja romana através da diversidade. Certo, ele reconhece no seu livro que permanecem divergências doutrinais não indiferentes entre a igreja católica romana e a luterana (isto se pode dizer também em relação às outras igrejas ‘protestantes’) que impedem ainda uma unidade visível e especialmente estrutural, mas todavia está convicto que esta unidade na diversidade (como ele a chama) é possível e sugere no segundo capítulo como actuar praticamente esta unidade por ele propugnada. Examinaremos os pontos fundamentais deste seu discurso por estas razões; antes de mais para demonstrar como após cinco séculos da Reforma que levou um dos seus protagonistas principais, ou seja Lutero, com muitos e muitos outros a separar-se da igreja católica romana por causa da corrupção e da mentira que ela perpetrava para prejuízo dos homens, hajam hoje homens, na Igreja chamada luterana, isto é, aquela Igreja que diz basear-se nos ensinamentos de Lutero (alguns dos quais porém são errados) e que ao tempo da Reforma foi excomungada e perseguida pela igreja romana porque afirmava que a justificação se obtém só mediante a fé sem as obras, e não aceitava o primado do ‘papa’, e o valor das indulgências, e a invocação de Maria e dos santos e outras doutrinas católicas, que hoje à diferença de Lutero, que um dia afirmou que eles se consideravam ‘separados pela eternidade’ da igreja católica romana, dizem que se pode e se deve colaborar com os Católicos romanos (mantendo estes todos os seus ensinamentos falsos) porque são também eles Cristãos. Mas há um outro motivo pelo qual queremos examinar e confutar este discurso de Culmann; que é o de alertar os crentes que se encontram nas diversas ‘denominações’ cristãs de semelhantes discursos vãos. É preciso dizer de facto que o discurso que faz Culmann o fazem, com alguma variante, muitos outros teólogos e não teólogos também em outras igrejas protestantes; o que constitui um impulso para esta pretensa unidade na diversidade, como é chamada, que com efeito, com base no ensinamento bíblico, em nada é uma unidade verdadeira, mas apenas uma armadilha, uma rede, um laço, algo de maléfico que tem como fim fazer esquecer a muitos crentes que a salvação se obtém somente crendo em Cristo Jesus e não fazendo boas obras, ou seja, a mensagem principal a levar aos homens, e fazê-los aliar com os que são inimigos declarados da justificação só pela fé, ou seja, com a igreja romana. Estamos persuadidos que este nosso discurso, neste tempo em que se fala tanto de ecumenismo, escandalizará muitos ou os fará ficar perplexos, mas não podemos falar doutra forma. Os factos falam claro como falavam também claramente há cinco séculos na Europa; a igreja católica romana é idólatra, funda a sua existência sobre a impostura, sobre a superstição, sobre a mentira e com ela os verdadeiros crentes não podem e não devem em nenhuma forma e medida aliar-se para não se corromperem também eles e se desviarem da simplicidade e da pureza que há em Cristo. Mas vejamos agora as palavras de Oscar Culmann.

Ÿ ‘A unidade na diversidade pode-se realizar visivelmente de dois modos: antes de mais graças a uma cooperação ecuménica em certos âmbitos particulares, sem que haja uma organização da comunhão das igrejas; secundariamente graças a uma estrutura especial (...) esta cooperação deverá ser continuamente intensificada e as manifestações individuais de solidariedade deverão ser cada vez mais numerosas’ (Oscar Culmann, op. cit., pag. 54-55). E entre as formas desta solidariedade que devem ser intensificadas Culmann lembra os diálogos teológicos ecuménicos com a finalidade de redigir textos comuns, pesquisas bíblicas comuns, liturgias e cultos comuns, institutos comuns, actividades sociais comuns; mas se detém em particular nos diálogos teológicos e nas celebrações ecuménicas. Depois diz que ‘no campo da teologia os maiores progressos ecuménicos foram feitos no campo da ciência bíblica’ e há ‘importantes colecções de comentários publicadas em comum. As sociedades cientificas de estudos do Antigo e do Novo Testamento incluem indiferentemente exegetas das três confissões cristãs. A elaboração de traduções ecuménicas da Bíblia deu resultados muito positivos’ (ibid., pag. 56-57), e logo depois fala da tradução ecuménica da Bíblia, a TOB (Traduction oecuménique de la Bible, Paris 1975), de que ele fala com satisfação.

Também neste caso, deve-se constatar um erro de fundo que é comum a todos estes teólogos quando falam dos Católicos romanos, que é o de considerá-los irmãos em Cristo. À parte o facto de segundo nós se alguém, mesmo se diz fazer parte de uma Igreja evangélica, se põe a chamar irmãos os Católicos romanos dados à idolatria e à superstição que afirmam que dizer ter a vida eterna é presunção, ter ele mesmo ainda que nascer de novo, porque está morto nas suas ofensas e nas suas transgressões, de facto isso significa que também ele é ainda um filho da desobediência a par dos Católicos romanos. Mas nós dizemos àqueles que falam como fala Culmann: ‘Mas como é que no tempo da Reforma estas formas de solidariedade com a igreja romana não eram de modo algum procuradas pelos reformadores? Como é que Lutero ou algum outro reformador nunca pensaram em instaurar um diálogo com os Católicos romanos para depois redigir um texto comum e nem traduzir a Bíblia junto com os Católicos, ou de estudar a Bíblia junto com os Católicos romanos? Não é porventura porque a igreja romana os excomungava e os insultava declarando-os heréticos e filhos da perdição, e os comparava à peste? E por que acontecia isso? Porque os reformadores, com todos os seus defeitos e ainda que por vezes tenham afirmado coisas erradas, eram dados à confutação das heresias católicas romanas que estavam levando para a perdição as almas, e desejavam fazer ter ao povo traduções da Bíblia na sua língua, coisa que a igreja romana não fazia e não queria fazer porque reputava a Bíblia muito perigosa nas mãos do povo por ela considerado ignorante. E o seu trabalho deu muito fruto, de facto muito, lendo os livros de controvérsia destes reformadores e a Bíblia em língua vulgar, se deram conta que a salvação era por graça e não era necessário fazer nada para merecê-la, e que portanto a igreja romana estava no erro e enganava as almas. Não existiam os diálogos ecuménicos com a redacção de textos comuns como hoje; não existia e não era buscada nenhuma colaboração com os Católicos romanos da parte protestante, porque os reformadores trabalhavam no intento de arrancar das goelas do papismo o maior número de almas possível. Pelo contrário, hoje, ainda que a igreja católica romana seja a mesma senão pior de como era no século dezasseis, muitos dos que beneficiaram da obra daqueles corajosos reformadores que pela sua obra expuseram a sua vida à morte, meteram na cabeça que se deve procurar a maneira de se unirem de alguma maneira à igreja católica romana. Portanto, a mensagem destes aos Católicos romanos não é mais a antiga, a saber: ‘Convertei-vos dos ídolos ao Deus vivo e saí dela’, mas: ‘Irmãos, as nossas igrejas se devem unir porque somos irmãos’; portanto ficai onde estais, porque estais em segurança. Eis, a que ponto chegaram as coisas hoje; mas eu digo: ‘Mas se Lutero ou Calvino e outros hoje fossem vivos, mudariam a sua mensagem em relação à igreja romana? Não creio de modo nenhum. E assim a Reforma após séculos, fica para muitos apenas um evento histórico que no fundo não ensina absolutamente nada; os reformadores são apenas pessoas cuja mensagem contra a igreja romana hoje não é mais válida! A mensagem a levar aos Católicos, para muitos Protestantes, é uma outra hoje! É triste constatar tudo isto, quando se recorda os sofrimentos e sacrifícios que tiveram que fazer tantos homens nos séculos passados aqui na Europa para levar o Evangelho aos Católicos romanos! No entanto, e isto o quero reiterar com força, a igreja católica romana, é a mesma de então!! No entanto, os anátemas do concílio de Trento contra todos aqueles que não aceitarem os seus sacramentos, os livros apócrifos como canónicos, a sua tradição como revelação de Deus, e tantas outras imposturas são ainda citados pelos teólogos romanos para sustentar as suas doutrinas!! No entanto, se se lêem os livros de teologia de Bellarmino que combateu muito contra os reformadores, e os livros dos modernos teólogos não há alguma diferença (quanto à substância bem entendido porque a linguagem se mitigou)!! Mas então o que não está bem? O que não está bem é que muitos daqueles que se dizem Protestantes ou Evangélicos estão ainda mortos nas suas ofensas, e nunca experimentaram o novo nascimento, nunca se converteram a Cristo como os Católicos romanos e por isso estão bem juntos. Sabe-se aliás que os perdidos estão bem juntos!

Ÿ ‘Quanto aos cultos comuns, os que são centrados na pregação não fazem problema a fim de manifestar a comunhão das igrejas. É com este espírito que papa João Paulo II pregou ao lado do pastor luterano na pequena igreja luterana de Roma. Actualmente existe um intercâmbio de pregadores entre numerosas comunidades. É preciso certamente vigiar, a este respeito, para que a pregação proclame as verdades cristãs fundamentais que unem todos os cristãos e evite ofender uns aos outros’ (ibid., pag. 58), prossegue Culmann.

Que vergonha, que loucura! nós dizemos. Mas alguém dirá: isto acontece só entre os Luteranos. Não, não é verdade que o intercâmbio de pregadores exista só entre eles. Eu pouco depois de me ter convertido participei num congresso do ‘pleno Evangelho’ em Lugano organizado pela associazione Uomini Nuovi (associação Homens Novos), onde foi convidado para pregar um padre católico romano. A razão da sua presença encontrava-se na abundância de carismáticos católicos romanos presentes naquele congresso os quais deviam também eles ter um seu representante e não se sentirem desconfortáveis. Há além disso diversas Igrejas evangélicas que permitem aos padres e aos bispos falar nos seus locais de culto também nesta nação. Aquilo que outrora era escândalo hoje para muitos não o é; e naturalmente este intercâmbio de pregadores pode acontecer apenas porque a parte não católica renunciou a denunciar as falsas doutrinas da igreja romana. ‘São mais as coisas que nos unem, que as que nos dividem’, se ouve frequentemente eles repetir. ‘Não, é o contrário’ respondemos nós. E depois, com efeito, o que une estes? O que está na base desta aliança? O amor pelo dinheiro; eis a cola que os une. Certamente não é o amor pela verdade ou pela justiça, porque quem ama a verdade e a justiça não pode aliar-se com um padre ou um bispo ou com um cardeal ou com o chamado papa.

Ÿ Culmann, fazendo depois notar como ainda, dado que permanecem divergências doutrinais sobre o significado da ceia do Senhor com a igreja romana, não é possível celebrar a eucaristia junto com ela diz: ‘De momento que hoje não é possível uma intercomunhão geral, queria voltar a uma sugestão já por mim outra vez avançada: a de retomar um uso da igreja antiga reintroduzindo, ao lado da celebração da eucaristia, a antiga celebração das ‘ágapes’ nas quais podem participar as igrejas separadas (...) Estas ágapes deveriam realizar-se nas salas paroquiais, ou melhor ainda, possivelmente em casas privadas e em turno entre católicos e protestantes’ (ibid., pag. 62).

E portanto, segundo este, nós crentes deveríamos organizar ágapes com os Católicos romanos porque eles são nossos irmãos. Não temos nada contra a ágape em si mesma, mas nós não nos sentimos de convidar os Católicos romanos que adoram estátuas e imagens para um ágape porque Paulo diz: "Agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for…idólatra (...) com o tal nem ainda comais" (1 Cor. 5:11). Outra coisa é antes o convidar um Católico romano para comer porque está em necessidade, com o objectivo naturalmente de ganhá-lo para Cristo.

Ÿ Passando depois a examinar a questão se ‘uma comunhão digna deste nome é possível sem um mínimo de estrutura’ (Culmann, op. cit., pag. 64), Culmann afirma: ‘..a comunidade de igrejas que projectamos, embora não seja por sua vez uma igreja, teria que ser dotada de uma supra-estrutura, mais ou menos flexível, respeitosa das estruturas particulares das igrejas acolhidas no seu seio. Também aqui: unidade na diversidade’ (ibid., pag. 65). Mas há um problema, que é o do papa que se considera o garante da unidade das igrejas cristãs porque segundo os Católicos Deus constituiu o sucessor de Pedro, ou seja, o bispo de Roma, ‘perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade’. Como resolver esta questão muito complicada? Em outras palavras Culmann pergunta: ‘De que modo a igreja católica, sem abandonar a sua pretensão de possuir já no ministério petrino a garantia da unidade, pode encontrar o lugar que lhe compete no seio de uma comunidade na qual as igrejas membros procuram em conjunto uma unidade?’ (ibid., pag. 77). E ele dá também a resposta: ‘A menos que se renuncie definitivamente a acolher a maior das igrejas cristãs, não é possível nenhuma estrutura comum sem uma concessão recíproca: de uma parte a concessão das igrejas não católicas na forma de uma aceitação limitada de certos elementos constitutivos da igreja católica para a criação de uma supra-estrutura, na condição que isso não esteja em contraste com a sua fé; da outra parte a concessão da igreja católica sob a forma de um reconhecimento desta limitação, sem abandono dos seus dogmas’ (ibid., pag. 77).

É claro pois o projecto de Culmann; procurar formar uma superestrutura fazendo concessões, isto é, reconhecendo num certo limite o papa, e da parte católica fazer a concessão de aceitar esta limitação! E tudo isto por qual motivo? Para não perder a maior das igrejas cristãs! Erro, grave erro o de Culmann em definir Igreja cristã a igreja católica romana. Isto significa que ele esqueceu o que é o cristianismo e o que faz cristã uma igreja, mas não só, ele também esqueceu que a igreja católica romana ao definir o seu papa sinal visível da unidade e princípio e fundamento da unidade, não faz mais que dizer: ou reconheceis o papa e vos submeteis a ele porque foi constituído por Deus para manter unida a Igreja de Cristo, ou doutra forma nunca tereis a unidade das igrejas. Em suma, sem o papa, a unidade não é possível, o seu serviço é indispensável!! Mas, prescindindo de o chamado sucessor de Pedro, ser um impostor, desde quando é que na Escritura se lê que Pedro fosse o princípio e o fundamento da unidade, como se fosse Pedro que mantinha unida a Igreja inteira no seu tempo? É o amor e não o papa que mantém ligados os crentes uns aos outros, de facto Paulo orando pelos Colossenses diz: "Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor..." (Col. 2:2). Portanto não há alguma necessidade deste pretenso serviço petrino para estar unido aos crentes das outras igrejas; basta amá-los como Cristo nos mandou fazer. Sim, os irmãos quando pelo amor servem uns aos outros se mantêm unidos, e não necessitam de João Paulo II e nem dos seus próximos sucessores. E depois, os papas sempre buscaram o seu interesse; a história o ensina; são ávidos de poder do primeiro ao último; mas que serviço podem jamais prestar à Igreja de Deus? No caso, procuram destruí-la, mas não procuram edificá-la! Isto ainda hoje, no século vinte. Muitos Protestantes hoje nos seus discursos ecuménicos dizem: ‘Com Pedro, mas não sob Pedro’; querendo assim dizer que estão dispostos a colaborar junto com o chamado sucessor de Pedro mas não a reconhecer nele o chefe da Igreja por um seu particular direito divino lhe concedido por Deus. Nós consideramos que com base no ensinamento bíblico, esta raposa não deva ser feita entrar na vinha de Deus porque com a sua astúcia e o seu poder a estragaria; é um dos de fora. O seu lugar não é no meio do povo de Deus resgatado com o sangue de Cristo, mas no meio dos idólatras, dos supersticiosos, dos filhos da desobediência como ele. Se arrependa, e creia no Evangelho, e saia da igreja romana abandonando a sua posição, então, e só então o poderemos acolher como um nosso irmão, mas não antes. Alguém dirá: ‘Mas que dizes? Olha que o papa quer o bem da Igreja’. Não, ele não quer o nosso bem, como não o quiseram os seus predecessores. Donde se compreende isto? Pelo facto dele no aprisco das ovelhas procurar entrar não pela porta mas por uma outra parte. E Jesus disse: "Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador" (João 10:1). E quem é a porta? Cristo. Mas ele esta porta a ignora; ele tem uma outra porta que é Maria, a ‘porta do céu’. Seguindo ela porém, da maneira em que prescreve a igreja romana, não se entra nem na Igreja de Deus e nem no céu, mas se fica na escuridão e vai-se para o inferno.

Para concluir; nós consideramos que é impossível ter comunhão com os Católicos romanos porque nós somos luz no Senhor enquanto eles são trevas e não há comunhão entre a luz e as trevas. Como podem pois alguns crentes pensar poder ter comunhão com as trevas? Nós falámos com muitos Católicos romanos até agora, mas com nenhum deles sentimos comunhão. O facto pois de alguns estarem bem junto a eles é sinal que eles ou primeiro andavam na luz e depois se corromperam porque as trevas lhes cegaram os olhos ou de outro modo estão nas trevas e nunca viram a luz na sua vida. Embora sejamos contra o ecumenismo, também somos pela verdade e buscamos o bem dos Católicos romanos; o nosso desejo de facto, ao escrever contra este falso ecumenismo, é que os Católicos romanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Dilectos, quis expor-vos brevemente estas coisas para alertar-vos dos que buscam seduzir-vos com as suas doces palavras ecuménicas; para que persevereis na fé, e retenhais firmemente até ao fim o que desde o princípio ouvistes para obter naquele dia do Senhor a coroa de justiça.

 

 

COISAS PASSADAS A NÃO ESQUECER

 

As perseguições contra os Valdenses, os Huguenotes, os Anabatistas e os Pentecostais

 

A este ponto irmãos quero falar-vos de diversas coisas que o papado no curso dos séculos passados e também neste nosso século fez e disse contra aqueles que se separaram da igreja católica por causa da sua fé no Evangelho. O tempo não chegaria se tivesse que falar de todas as perseguições que séculos atrás os papas aqui na Europa perpetraram contra tantos homens que pregaram a palavra da fé, que pregaram contra a tradição da igreja papista, que fizeram de tudo para fazer o povo ter as Escrituras traduzidas na sua língua. Me limitarei portanto a falar só de algumas destas perseguições excitadas por papas sanguinários, violentos e impiedosos. Mas antes de começar a falar delas quero citar algumas palavras de Agostinho de Hipona porque é sobre elas que a igreja católica romana se geralmente baseou no curso dos séculos para sustentar que é justo perseguir aqueles que ainda não fazem parte dela para que se convertam ao catolicismo e os que saem do seu seio para fazê-los voltar ao seu grémio. Em substância, segundo estas palavras de Agostinho é justo por parte da Igreja - por meio das autoridades estatais - fazer perseguir os incrédulos para que se convertam ao cristianismo e fazer perseguir os heréticos, ou seja, aqueles que se desviam da verdade para ir após as heresias, para fazê-los voltar ao seio da Igreja. Eis as suas afirmações a tal propósito: ‘Tu pensas que ninguém deve ser obrigado à virtude, embora tu leias que o pai de família disse aos servos: Obrigai a entrar todos os que achardes. Pensas assim, embora tu leias como Saulo, que depois passou a ser Paulo, foi impelido a conhecer e a abraçar a verdade com um acto de força praticado por Cristo, que o obrigou (...) E tu pensas que não se devem usar os meios coercitivos com as pessoas, para que se liberem da calamidade do erro, enquanto, pelos exemplos incontestáveis supra referidos, vês que age deste modo mesmo Deus, que nos ama de modo mais vantajoso para nós do que qualquer outro’ (Agostinho, As cartas, 93,2,5. Carta a Vicente, bispo de Cartena); ‘É de qualquer modo certo que os maus sempre perseguiram os bons, e os bons os maus, uns prejudicando com a injustiça, os outros favorecendo com as sanções disciplinares; agindo uns desumanamente, os outros moderadamente; servindo uns à cobiça, os outros ao amor. Quero dizer: o carnífice não cuida do modo como tortura, o médico, ao contrário, cuida do modo como corta; este com efeito procura obter a saúde, aquele antes a gangrena. Os ímpios mataram os Profetas, mas também os Profetas mataram os ímpios. Os Judeus flagelaram Cristo, mas também Cristo flagelou os Judeus (...) Seja no Evangelho, seja nos escritos dos Apóstolos, não se encontra algum caso em que aos reis da terra tenha sido pedido a intervenção em defesa da Igreja contra os seus inimigos. Quem o nega? É necessário porém ter presente que ainda não se tinha cumprido a profecia que diz: E agora, ó reis, fazei juízo; arrependei-vos, ó juízes da terra; servi ao Senhor com temor! Ainda, com efeito, se cumpria quanto se lê pouco antes no mesmo salmo: Por que as gentes se agitam e os povos meditam vãos desígnios? Erguem-se os reis da terra, os príncipes conspiraram contra o Senhor e contra o seu Cristo. Por outro lado porém, se os factos narrados pelos Livros proféticos eram figuras dos que aconteceriam no futuro, no monarca chamado Nabucadonosor estavam representados dois períodos da história: o período passado pela Igreja sob os Apóstolos é o prefigurado no período em que o mencionado rei obrigava os bons e os justos a adorar a sua estátua e mandava lançar no fogo os que se recusavam. Agora, ao contrário, se cumpre o que aconteceu no período sucessivo, prefigurado no mesmo rei, quando ele, convertendo-se ao culto do verdadeiro Deus, decretou que se alguém no seu reino tivesse blasfemado o Deus de Sidrac, Midrac e Abdenago, fosse punido com merecidos castigos. O primeiro período daquele rei indica por isso a primeira atitude dos reis pagãos, em que os Cristãos foram perseguidos pelos infiéis; o período sucessivo daquele rei, pelo contrário, prefigurou os tempos dos reis posteriores, já fiéis, nos quais pelos Cristãos, são perseguidos os infiéis. Mas sem dúvida para com aqueles Cristãos que erram porque foram seduzidos pelos heréticos, se usa uma severidade temperada, e de preferência a mansidão (...); mediante as penas do exílio e de multas procuramos chamá-los a considerar por que causa eles as sofrem, de modo que aprendam a preferir às tagarelices e às calúnias humanas as Sagradas Escrituras por eles lidas’ (Agostinho, op. cit., 93, 2,8; 3,9-10). Eis o que ensinava aquele que os Católicos romanos chamam o santo doutor ou o maior dos doutores da Igreja e que até muitos crentes têm em alta estima! Esta é uma heresia (uma das muitas suas) que se opõe nitidamente às palavras de Cristo e dos apóstolos. Os filhos de Deus não devem de modo algum recorrer às autoridades estatais para converter pela força os incrédulos ou para fazer voltar ao seu meio os que se desviaram da verdade; mas eles devem pregar-lhes o Evangelho, demonstrar-lhes toda a mansidão e orar por eles na esperança que Deus deia o arrependimento a ambos. Paulo conjurava Judeus e Gentios a se arrependerem e a crer no Senhor Jesus Cristo, e por eles orava, deixando-nos assim o exemplo; mas nunca ensinou a fazer uso ou ele mesmo fez uso directamente ou indirectamente da perseguição para convertê-los, porque ele sabia que Deus diz: "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito..." (Zac. 4:6). O apóstolo sabia que o arrependimento é Deus a concedê-lo segundo o beneplácito da sua vontade a quem quer e que a fé não é algo que um homem possa impor pela força ao seu semelhante porque ela é dom de Deus. E a mesma coisa vale para os que se desviaram da verdade: Ele diz de facto a Timóteo como deve comportar-se com eles: "Ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem a verdade, e que se desprendam dos laços do Diabo (por quem haviam sido presos), para cumprirem a vontade de Deus" (2 Tim. 2:24-26). Nenhuma força portanto é lícito à Igreja usar - nem directamente, e nem indirectamente recorrendo ao braço secular - para persuadir e converter os incrédulos e os desviados. E poderia tomar muitas e muitas outras Escrituras para demonstrar que Agostinho disse o falso quando diz que a Igreja faz bem em perseguir os infiéis e os heréticos para o bem, isto é, para persuadi-los que estão no erro e fazê-los voltar para a verdade. Mas eu digo: mas não é porventura verdade que Jesus disse para amar os nossos inimigos e para fazer bem aos que nos odeiam (os quais naturalmente não estão de acordo connosco em matéria de fé e doutrina), e que ele mesmo nos deixou o exemplo perfeito do que significa amar os próprios inimigos e orar por aqueles que são inimigos, e que este exemplo nós devemos seguir? Que têm a ver pois os ‘castigos merecidos’, que Agostinho diz que é justo infligir aos pagãos e aos heréticos apoiando-se na autoridade estatal, com o Evangelho? Nada. Como a noite não tem nada a ver com o dia, como a iniquidade não tem nada a ver com a justiça. Que dizer então dos raciocínios feitos por Agostinho para sustento do uso da força por parte da Igreja contra os seus inimigos? Eles são vãos, diabólicos, loucura [11]. O seu modo de raciocinar em substância é este: ‘O fim bom, isto é, a conversão dos incrédulos e a dos heréticos, justifica a perseguição por parte dos crentes (e portanto o mal praticado) em relação a eles’. Mas a Palavra de Deus não diz assim; ela condena os que pensam desta maneira. Paulo disse aos santos de Roma a respeito dos que atribuíam a ele e aos seus cooperadores a máxima: "Façamos o mal para que venha o bem? - como alguns caluniosamente afirmam que dizemos; a condenação dos quais é justa" (Rom. 3:8). Por isso sejam pois postos de lado os sofismas de Agostinho, os seus perversos raciocínios que no curso dos séculos serviram ao papismo, para perseguir e torturar - com as suas mãos ou por meio das mãos das autoridades - os não Católicos para fazê-los se tornar Católicos, e aqueles que ele chamava ‘heréticos’ para fazê-los voltar ao seu seio. Quem quiser verificar pessoalmente quais foram as nefastas consequências da errada interpretação agostiniana às palavras de Jesus: "Obriga-os a entrar" (Lucas 14:23), vá ler a história do papado de Agostinho em diante e sobretudo a história da Inquisição (que fez centenas de milhares de mortos). Mas, dizem agora os Católicos, a idade média fez mal em justificar os seus abusos com a doutrina agostiniana e de certo se Agostinho fosse vivo não teria aprovado aqueles abusos. Portanto, a doutrina é recta para os Católicos romanos, mas a igreja da idade média cometeu o erro de usá-la para defender os seus abusos! Mas aqui não se trata de estar a dizer que os abusos da idade média foram injustamente justificados com a doutrina agostiniana, o facto é que a doutrina agostiniana é torta em todo o caso, seja se é usada para justificar abusos ou se para justificar o que não é definido abusos. A força humana, a moléstia, o medo e o terror de ser torturado ou morto por outros homens, e todo o tipo de perseguição não deve ser usado por parte da Igreja de Deus em nenhuma medida contra os incrédulos ou contra aqueles que se desviam da verdade. Quem o faz é corrupto, reprovado quanto à fé; e embora diga ser de Deus é do diabo [12].

Mas vejamos agora quais foram algumas consequências práticas deste perverso e diabólico modo de pensar da cúria romana (que o repito se baseia muito nas palavras de Agostinho), que pessoalmente considero estar ainda presente nos corações daqueles que estão nos vértices da igreja romana pelo simples motivo que os decretos contra os heréticos emanados pelos concílios ecuménicos (que citaremos dentre em breve) são considerados irreformáveis e não podem ser desmentidos porque pronunciados sob a assistência infalível do Espírito Santo (e depois se a igreja católica declarasse esses decretos malvados teria que consequentemente pôr-se contra os seus ‘santos’ papas, o que não considero que eles estejam dispostos a fazer, e depois resultaria que a igreja errou no passado e por isso não é infalível como diz ser, o que iria contra a imagem que dá a igreja papista aos ignorantes). Em substância eu considero que se eles pudessem, isto é, se as circunstâncias fossem iguais àquelas de outrora, nos aprisionariam, nos torturariam e nos matariam queimando-nos vivos ou enforcando-nos ou cortando-nos a cabeça, apoiando-se ainda nas palavras de Agostinho, como fizeram com muitos outros nos séculos atrás. Sei que passo por grande pessimista dizendo estas coisas neste período de intenso ecumenismo, mas não posso falar doutra forma depois de ter estudado o comportamento da igreja católica romana no curso dos séculos passados.

Ÿ A perseguição contra os Valdenses.

Em 1179 o concílio de Latrão, sob Alexandre III, afirmou contra os heréticos: ‘...todos os fiéis devem opor-se energicamente a esta peste (cátaros, etc.) e também pegar em armas contra eles. Os bens desta gente serão confiscados e será permitido aos príncipes reduzi-los à escravidão. Todo aquele que, seguindo os conselhos dos bispos, etc., pegar em armas contra eles, terá uma remissão de dois anos de penitência e será, como todos os cruzados, posto sob a protecção da Igreja’ (Concílio do Latrão III, can. 27). E em 1208 por ordem de Inocêncio III, que se baseou no supradito cânone, houve uma dura perseguição contra os Cátaros e os Albigenses no sul da França: as vítimas segundo alguns amontaram a mais de sessenta mil pessoas [13]. É verdade que os Cátaros e os Albigenses, embora dissessem basear-se no Novo Testamento, ensinavam heresias (afirmavam por exemplo que o verdadeiro Deus não se tinha encarnado em Cristo e condenavam o matrimónio) mas isso não justifica de modo algum o comportamento para com eles da igreja papista porque não é esta a atitude que, com base na Escritura, se deve ter para com os heréticos. De sorte que, não se pode dizer que foram Cristãos a perseguir aqueles heréticos, mas outros heréticos, isto é, os Católicos romanos de então [14]. Mas entre os que foram objecto da perseguição de 1208 ordenada por Inocêncio III contra os heréticos, estiveram também os Valdenses que heréticos não eram (apesar de terem ainda algum resíduo de catolicismo). O movimento Valdense tinha feito a sua aparição em França durante o último quarto do século doze. Ele tinha tomado o nome de Pedro Valdo, um rico comerciante de Lião que convertido ao Evangelho por volta de 1176 organizou uma campanha conhecida com o nome de ‘Pobres de Lião’. Ele queria junto com os seus seguidores pregar o Evangelho permanecendo ‘leigo’, mas isso lhe foi proibido pelo papa que excomungou tanto ele como os seus seguidores porque eles se recusaram a deixar de pregar. Muitos deles, a seguir à grande perseguição que houve no sul da França sob Inocêncio III, se retiraram para a Itália setentrional; sobretudo para os vales do Piemonte. Mas também aqui continuaram a ser vistos com maus olhos pelo papado; e foram periodicamente perseguidos pelas autoridades que eram incitadas contra eles pelo clero romano que queria extirpá-los do Piemonte. Durante a perseguição que eles sofreram em alguns vales Piemonteses em 1655 (para citar apenas uma das muitas), eles foram ameaçados de morte e de confisca dos bens pelas autoridades no caso de não abjurarem a ‘Religião reformada’ e não voltarem para a igreja romana. Mas eles preferiram fugir e deixar os seus bens em vez de renegar a sua fé; eis como vem descrita esta sua fuga num livro que fala das suas perseguições sofridas em 1655: ‘Abandonaram as suas casas com mulheres e filhos, grandes e pequenos, sãos e doentes, arrastando-os debaixo da chuva, da neve, no gelo e na miséria, entre soluços e lamentos, como cada um pode imaginar. Todos estes milhares de pessoas, pobres e mal vestidas, obrigadas a fugir para as montanhas e para as cavernas para procurar um abrigo, sem poder levar quase nada dos seus bens, se recomendavam todavia a Deus e estavam resolvidas a chegar até ao extremo para não mudar de Religião. A coragem que Deus lhes deu de abandonar antes os bens terrenos do que os celestiais, foi de grande consolação para as outras igrejas e maravilhou os adversários: tanto mais que cada um conhece as grandes vantagens que são oferecidas naquelas terras a todos os que abjuram a Religião reformada, a saber, a graça para os criminosos, a libertação para os prisioneiros, a isenção da talha e todo outro imposto e agravo real e pessoal pela duração de cinco anos desde o dia da abjuração’ (Enea Balmas e Grazia Zardini Lana, La vera relazione di quanto è accaduto nelle persecuzioni e i massacri dell’anno 1655, [ A verdadeira relação de quanto aconteceu nas perseguições e os massacres do ano de 1655] Torino 1987, pag. 220-221). Mas houveram também os que foram trucidados pelas tropas de S.A.R, por seis Regimentos do exército francês, pela milícia do Piemonte e também por bandidos e malfeitores libertados das prisões. No livro recém citado vem dito também que ‘os confessores, depois, para entusiasmar o mais possível o povo para que acorresse a esta cruzada, tinham distribuído bilhetes imprimidos com a promessa de indulgência plenária para todo aquele que se fizesse útil para a destruição daqueles supostos heréticos’ (Enea Balmas, op. cit., pag. 223). No relato do extermínio daquelas pessoas em algumas localidades encontramos as seguintes palavras: ‘No dia seguinte 22 (Abril de 1655), os incendiários e os massacradores não ficaram certamente inertes: um monge da ordem de São Francisco e um padre, que quiseram ter a honra de ser os principais incendiários, podendo agir com as suas armas especiais com toda a tranquilidade, pegaram fogo ao templo de San Giovanni e a quase tudo o que permanecia em pé de casas em Torre e em parte de Angrogna. Ali onde encontravam ainda algum ângulo poupado pelos primeiros incêndios, o padre não fazia mais que disparar um golpe da sua carabina incendiária para completar a destruição. E os soldados, implacáveis, correram até aos pontos mais altos das montanhas, em lugares que pareciam inacessíveis, para matar todas as criaturas que encontravam, embora não opusessem alguma resistência (antes, teriam que com as suas lágrimas fazer cair as armas das mãos dos mais bárbaros canibais). Só em Tagliaretto, terra situada sobre uma das colinas mais altas de Torre, depois de ter feito mil opróbrios a 150 mulheres e crianças, cortaram-lhes a cabeça. Cozeram algumas e comeram o cérebro delas, mas depois pararam dizendo que era demasiado insípido e lhes faria mal ao estômago: disto se gloriou um homem de Cumiana na presença de três pessoas do Delfinado dignas de fé. Muitos depois foram feitos em pedaços e os carnífices os lançavam uns para os outros. A uma pobre mulher que fugiu deles e vive ainda, embora tenha sido horrivelmente mutilada, tomaram a criança em faixas e foram sacudi-la na orla de um precipício; outros meninos foram esmagados contra as rochas, outros mortos cruelmente debaixo do olhar das suas mães. Muitos foram destroçados e cortados a meio. Com efeito, dois soldados pegavam uma destas criaturas inocentes, um por uma parte e outro pela outra, puxavam cada um pela sua parte e depois a arremessavam um ao outro. Despiram inteiramente muitas pessoas sem distinção nem de idade, nem de sexo, retalharam os corpos deles de modo a fazer fremir só de ouvi-lo contar, depois espalharam sal e pó neles, os vestiram com camisas embebidas em álcool e, pegaram fogo, as fizeram arder sobre aqueles pobres corpos martirizados. A outros foram cravados pregos e cunhas na cabeça, outros foram ligados nus, a cabeça entre as pernas, e feitos rolar por precipícios sem poupar um tal Pierre Simond de Angrogna, centenário, nem sua mulher de noventa e cinco anos. Muitos foram queimados nas suas casas, sem os terem primeiro querido matar, coisa que eles invocavam como uma graça. Por exemplo em San Giovanni, numa fracção chamada os Brunerols, os soldados fizeram irrupção onde estava Maria de Praviglielmo e onde estava Margarida da Carrettera, que, pela fraqueza da sua idade e outras enfermidades, não tinham podido fugir: depois de tê-las solicitado a ir à missa, coisa que elas recusaram tenazmente, as queimaram vivas juntamente com as suas casas. Fizeram o mesmo a ‘Madona’ Lena da Torre, octogenária cega, a ‘Magna’ Jeanne, nonagenária, e a muitos outros tanto homens como mulheres. A alguns foi esquartejado o peito, a outros foram arrancadas as vísceras e cortadas as partes vergonhosas; depois de ter abusado de algumas mulheres cravaram-lhes no ventre muitas pedras e nesta posição foram arrastadas enquanto não exalaram o último suspiro’ (ibid., pag. 225, 226, 227). E tudo isto aconteceu porque o clero romano tinha feito pressão sobre as autoridades piemontesas para que destruísse os Valdenses.

Ÿ A perseguição contra os Huguenotes em França.

Os efeitos da Reforma iniciada na Alemanha se fizeram sentir também em França, onde muitos milhares de pessoas adoptaram os princípios da Reforma dando importância à Bíblia em questões de fé e de moral e à doutrina da justificação por fé. Também estes, como todos os que adoptaram estes princípios, foram chamados pela cúria romana Protestantes. Eles a seguir foram chamados Huguenotes. Contra eles foram urdidas perseguições por parte de Francisco I e de Carlos IX. A propósito da perseguição urdida por Carlos IX contra os Huguenotes há provas que foi o então papa Pio V (1566-1572) a fomentá-la e a encorajá-la. As provas são estas cartas que o próprio Pio V escreveu. Numa destas ele excita o rei Carlos IX ‘a exterminar todos aqueles perversos heréticos, a massacrar todos os prisioneiros de guerra, sem ter cuidado por algum, sem respeito humano, e sem piedade; pois que não pode nem deve haver alguma vez paz entre Satanás e os filhos da luz’. Eles tinham que ser inteiramente exterminados, ‘para que a raça dos ímpios não pululasse de novo, e também para agradar a Deus, o qual prefere a toda outra coisa que se persigam abertamente e piamente os inimigos da religião católica’. Numa outra carta ao mesmo rei, Pio V diz: ‘E isto obterás (a saber, o restabelecimento da França no seu esplendor), se nenhuma acepção de pessoas ou de coisas jamais puder induzir-te a perdoar aos inimigos de Deus (...) pois que de nenhum outro modo poderás aplacar Deus, se não punires severissimamente, com as penas devidas, as injúrias que estes homens abomináveis fazem a Deus’. Temendo que o rei Carlos IX não fosse suficientemente cruel, Pio V escreveu à rainha mãe: ‘Nos foi dito que aí há alguns que se empregam para que sejam libertados alguns daqueles heréticos prisioneiros, e procuram pô-los em liberdade impunes. Tu então deves fazer de tudo para que tais abomináveis homens sejam punidos com os devidos suplícios’, e numa outra carta: ‘Guarda-te bem, caríssima filha em Cristo, de crer que se possa fazer alguma coisa mais cara e mais aceita a Deus, além daquela de destruir os seus inimigos por amor da religião católica’. Foi desta maneira que Pio V (o qual é contado entre os santos da igreja romana e como santo é venerado e orado) preparou a chacina de milhares de Huguenotes dita da noite de Bartolomeu, ocorrida em Paris nas noites de 23 e 24 de Agosto de 1572 [15]. Vejamos agora como foi recebida em Roma a notícia da sucedida chacina. Jacques Auguste de Thou Presidente do parlamento de Paris, autor católico, no livro 53 da sua História Universal, conta a alegria que foi demonstrada pela corte de Roma ao primeiro anúncio da chacina executada. Eis as palavras de de Thou: ‘Chegada a Roma a notícia do massacre de Paris, a alegria que ela ali levou foi além de quanto possa dizer-se. As cartas do Núncio foram lidas a 6 de Setembro no consistório; e cedo foi resolvido que o papa (que era Gregório XIII sucedido a Pio V morto no mês de Maio de 1572) acompanhado pelos cardeais iria à Igreja de S. Marcos para agradecer a Deus solenemente pela graça singular que tinha feito à S. Sé e a toda a cristandade: que na segunda-feira seguinte se cantaria uma missa de acção de graças na Minerva com a assistência do papa e cardeais, e que se publicaria um jubileu universal; porque os inimigos da verdade e da Igreja tinham sido massacrados em França’. Além disso o papa mandou pintar os principais episódios da chacina pelo célebre pintor Vasari, na Sala Régia do Vaticano, e mandou cunhar uma medalha com o busto do papa de um lado, e do outro um anjo com a espada na mão direita, e uma cruz na esquerda, a matar os Huguenotes, com a legenda UGONOTTORUM STRAGES 1572 [16]. Lendo estas coisas nos vêm à mente as palavras de Jesus Cristo: "Vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim" (João 16:2,3).

Ÿ A perseguição contra os Anabatistas.

Foram chamados inicialmente Anabatistas porque rebatizavam aqueles que tinham sido batizados em meninos não considerando válido o batismo dos bebés. Apareceram na Europa no primeiro vinténio do século dezasseis; eram, além de contra o pedobatismo e outras imposturas do papado, contra o prestar juramento, eram antimilitaristas e contrários a qualquer uso de força ou para ofensiva ou para defesa [17]. E por estas razões eles foram cruelmente perseguidos pela igreja papista [18]. Muitos deles foram afogados nos rios, sepultados vivos, queimados vivos e outros decapitados. Entre os muitos testemunhos dos mártires destes nossos irmãos que se encontram no livro História popular dos batistas transcrevo estes: ‘Duas jovenzinhas, há pouco batizadas em Bamberg foram detidas, encarceradas e severamente torturadas. Mas elas não cederam diante dos sofrimentos. Quando foram levadas para a morte traziam na cabeça coroas de palha, lhes postas por zombaria. ‘Já que Cristo - disse uma delas à sua companheira - trouxe uma coroa de espinhos por nós, por que não devemos nós em sua honra trazer estas coroas de palha? O nosso Deus fiel, no lugar destas nos meterá na cabeça uma bela coroa de ouro, e de flores que não murcham’. Assim foram com alegria para a fogueira’ (W. Kemme Landels, Storia popolare dei Battisti [ História popular dos Batistas] , Torino 1918, pag. 83); ‘Filipe II, filho do imperador Carlos V, renovou o édito de 1550, com o acréscimo de alguns artigos em 1560 e de novo em 1563. Um resumo dele fará compreender a condição perigosa dos crentes daquela época nos Países Baixos: ‘Nenhuma pessoa devia deixar as Flandres e a Holanda sem permissão dos sacerdotes e dos magistrados. Todo imigrante era obrigado a dar provas do batismo dos seus filhos, segundo o rito da igreja de Roma. As parteiras, sob juramento, deviam assegurar o batismo de todo bebé, a cujo nascimento assistiam, e dar relação aos magistrados em todo caso de descuido. As reuniões protestantes deviam ser proibidas e suprimidas. Os pais deviam enviar os seus filhos para a Igreja e para a escola. Deviam ser feitas buscas às lojas dos livreiros, como aos embrulhos dos revendedores ambulantes, em busca de publicações heréticas. Cada um era obrigado a assistir à Missa todos os Domingos e todas as festas de preceito. A ausência de um mês levava uma pena à discrição dos juízes. Nenhum suspeito de heresia podia ocupar um lugar de confiança. Além de tudo isto permaneceram em vigor todas as disposições a respeito da destruição dos heréticos, com o fogo, com a decapitação, com o afogamento, etc.’ (W. Kemme Landels, op. cit., pag. 92); ‘No ano de 1551 Jeronimus Segerson e um outro foram queimados em Antuérpia. As cartas de Segerson, escritas enquanto estava na prisão, demonstram um espírito de profunda piedade e de viril firmeza: ‘Preferirei - ele disse - ser torturado dez vezes ao dia, e ser por fim assado na grelha, do que renunciar à fé que eu confessei’. A mulher dele foi afogada. A história do seu martírio é tão interessante que convém reproduzi-la aqui. (...) Ela abertamente e com grande coragem confessou a sua fé diante do tribunal, na presença dos magistrados e da multidão. Foi interrogada antes de tudo sobre o batismo. Ela disse: Eu reconheço um só batismo, o que era praticado por Cristo e pelos seus discípulos, e que foi transmitido a nós’. ‘O que julgais vós a respeito do batismo dos bebés?’ perguntou o xerife. A quem Lysken respondeu: ‘É nada mais que uma instituição humana!’ Então os magistrados se levantaram para consultarem entre si, enquanto Lysken explicava ao povo a razão da sua fé (...) Enquanto era conduzida para fora do tribunal ela disse ao povo: ‘Sabei que eu não sofro por desonestidade, nem por homicídio, nem por qualquer pecado, mas só pela incorruptível Palavra de Deus!’ Quando foi de novo encerrada no cárcere os frades tentaram em vão dissuadi-la da sua fé. Na manhã seguinte sofreu o martírio (...) conduziram aquela ovelha ao rio Scheldt, a puseram num saco, e a afogaram...’ (ibid., pag. 94-95.). Espero vivamente que estes testemunhos sirvam para despertar do sono aqueles que no meio das Igrejas evangélicas têm intenção de reconhecer o pedobatismo católico por amor da chamada unidade cristã embandeirada pela igreja papista.

Ÿ A perseguição contra os Pentecostais em Itália.

O movimento pentecostal italiano desde o seu ‘surgir’ no início deste século encontrou a forte oposição da igreja papista. Certamente, também os outros movimentos evangélicos nas primeiras décadas deste século em Itália encontravam a forte hostilidade do clero romano; porque também eles pregavam a palavra da fé e reprovavam as heresias da igreja romana (recordamos o batista, o metodista e o da Igreja dos Irmãos). Mas aqui quero deter-me brevemente sobre a perseguição que, a começar de 1935, sofreram aqueles nossos irmãos que eram chamados Pentecostais porque aceitavam e pregavam o batismo com o Espírito Santo que os antigos discípulos receberam no dia de Pentecostes; e também ‘tremolanti’ porque, debaixo do poder do Espírito Santo alguns eram vistos tremer. Dizemos de 1935 em diante, porque foi nesse ano que saiu da parte do Ministério do Interior do governo fascista capitaneado por Mussolini, a circular n. 600/158 que proibia o exercício do culto pentecostal, e que a perseguição contra os nossos irmãos se tornou muito mais dura. A circular foi difundida pelo subsecretário Buffarini-Guidi aos prefeitos do Reino, e nela a autoridade dizia que o culto professado pelos Pentecostais se concretizava ‘em práticas religiosas contrárias à ordem social e nocivas à integridade física e psíquica da raça’, e portanto se devia providenciar logo ao encerramento das salas de reunião, à dissolução das associações em nome dos pentecostais, e se devia vigiar ‘com a finalidade de evitar que mais reuniões e manifestações de actividade religiosa por parte dos adeptos possam ter lugar em qualquer outro modo ou forma’. Alguém dirá: ‘Mas onde entra a igreja católica romana em tudo isto’ Entra aqui, porque em 1929 tinha havido a concordata entre a igreja católica romana e o Estado, mediante a qual sobrevinha a reconciliação entre o Estado Italiano e a Cúria romana, e mediante a qual o governo Italiano se comprometia a favorecer os desejos e os objectivos da igreja romana. E entre estes desejos e objectivos da igreja romana estava também o de impedir aos Protestantes de difundir entre o povo católico romano aquelas que ela chama as ideias da Reforma ocorrida séculos atrás, mas que nós chamamos simplesmente a Boa nova da paz. Para confirmação que a igreja católica romana fez pressão sobre o regime fascista para que este travasse a propaganda pentecostal nesta nação exibimos as seguintes declarações contidas num fascículo, de distribuição reservada, sobre o tema O proselitismo dos protestantes em Itália que o Vaticano transmitiu ao governo italiano em 1934: ‘Particular sinalização merecem os pentecostais ou tremolanti. Nas suas congregações, os adeptos são excitados até ao paroxismo, com grande perigo sobretudo para as mulheres e crianças. Para certificar isto bastará enviar um médico psiquiatra a fazer, sem pré-aviso e cautamente, uma inspecção na sua sede de via Adige 20, em Roma. Os próprios protestantes não aprovam o seu sistema (...). É bom ter presente que a lei italiana admite cultos diferentes da religião católica, ‘desde que não professem princípios e não sigam ritos contrários à ordem pública e ao bom costume’. Portanto não se compreende como o culto pentecostal continua a ser admitido em Itália’ (Citado por Giorgio Rochat in Regime Fascista e Chiese evangeliche [ Regime Fascista e Igrejas evangélicas] , Torino 1990, pag. 37), e ainda: ‘Sua Excelência o chefe do governo, no grande discurso à segunda assembleia quinquenal do regime de 18 de Março passado último, declarou: ‘A unidade religiosa é uma das grandes forças de um povo. Comprometê-la e também somente rachá-la é cometer um delito de lesa-pátria’. Esta categórica afirmação, que quer ser um programa de conduta para todas as autoridades do estado, ficaria estéril se a um delito tão grave e tão autorizadamente qualificado não correspondessem na legislação medidas convenientes para preveni-lo e para reprimi-lo. Para todos os outros delitos de lesa-majestade, de lesa-regime, de lesa-pátria, a lei italiana tem proporcionados remédios’ (Citado por Giorgio Rochat in op. cit., pag. 37). Diante destas claras afirmações contra os Pentecostais e estas exigências feitas pelo Vaticano a Mussolini parece claro que a circular Buffarini-Guidi, emanada no ano seguinte pelo regime fascista contra os Pentecostais, não foi mais que a medida legislativa tão desejada da parte vaticana contra eles a fim de puni-los pelo seu delito. E qual era o seu delito? Comprometiam a unidade religiosa do Estado italiano além de que professavam ritos contrários ao bom costume [19]!! A história se repetiu; como nos séculos atrás muitos reis e príncipes para ter o apoio do papado favoreceram o mais possível os desígnios da igreja romana entre os quais também o de destruir os crentes que tinham saído dela, isto é, aqueles que ela chama os Protestantes (nunca se deve esquecer que a igreja romana no curso dos séculos na Europa se usou dos governos dos Estados para perseguir muitos irmãos), assim o governo fascista incitado pela igreja católica se atirou com veemência contra os nossos irmãos. Mas examinando de perto este modo de agir do governo fascista contra os nossos irmãos, se notará uma forte semelhança com o comportamento de Pôncio Pilatos em relação a Jesus. Quero dizer com isto que Pôncio Pilatos sentenciou que Jesus fosse açoitado e condenado para satisfazer o desejo do povo judaico que era o de tirar do meio Jesus, com efeito está escrito que "então Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam" (Lucas 23:24), e também: "Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado" (Mar. 15:15). Mas como esteve no plano de Deus que Pôncio Pilatos condescendesse ao que o povo Judaico lhe pedia para fazer contra Jesus, assim estava no plano de Deus que as autoridades fascistas condescendessem ao que a igreja romana lhe pediu para fazer contra os nossos irmãos. E como da morte de Cristo derivou muito bem, assim também da perseguição dos santos brotou muito bem, porque Deus converte o mal em bem. A Ele seja a glória eternamente. Amen.

Mas vejamos a perseguição que a igreja romana por mão da autoridade fascista fomentou contra os nossos irmãos, para ver quais foram os sofrimentos que os crentes suportaram por amor do Evangelho durante os anos que se seguiram à difusão da circular Buffarini-Guidi. (Esta circular permaneceu em vigor até 1955). Citamos a tal propósito palavras do irmão Roberto Bracco: ‘Famílias inteiras viveram desmembradas por anos e anos; dezenas e centenas de irmãos se consumiram no exílio ou nas prisões. Posições sociais destruídas, saúde destruída, afectos calcados; estas foram as consequências da perseguição (...) Diversos irmãos, fornecidos de bicicleta, se puseram a procurar nas zonas extremamente periféricas da cidade, campos desertos, caves, grutas, bosques que de qualquer modo nos pudessem acolher (...) Não posso esconder que o mal-estar e o cansaço eram notórios. Todas as noites era necessário enfrentar os mesmos perigos e o mesmo cansaço e depois das reuniões, se se conseguia reentrar nas nossas habitações, tinha-se que constatar que tínhamos ultrapassado notavelmente a meia-noite. (...) Também nestes vários lugares éramos alcançados sistematicamente pelas autoridades executivas e detidos e encarcerados’ (Roberto Bracco, Persecuzione in Italia. Ricordi e bozzetti [ Perseguição em Itália, Memórias e esbocetos] , Roma 1954, pag. 22, 46, 47, 48). Mas além destas palavras do irmão Bracco, queremos dizer outras coisas a propósito do tratamento que os nossos irmãos recebiam dos Católicos nos anos em que estava em vigor a circular Buffarini-Guidi. Estas são as coisas que nós que pertencemos a esta geração e que não vivemos aqueles anos ouvimos dos irmãos anciãos que viveram naquele período. Quem se convertia dos ídolos ao Deus vivo, isto é, quem abandonava a igreja romana após ter-se arrependido e após ter crido no Evangelho, era rejeitado na sua terra ou no seu bairro porque era considerado um apóstata, um que tinha dado ouvidos ao diabo, sem falar dos insultos e injustiças que recebia na sua vida privada de padres e dos seus fidelíssimos seguidores. Os próprios parentes os tratavam como se fossem empestados capazes de transmitir-lhes uma doença moral infecciosa. Quando os ouviam falar em outras línguas diziam que tinham o diabo e outras diabruras. As crianças eram mandadas pelos padres perturbar as reuniões de culto que se realizavam nas casas dos crentes lançando pedras contra as portas da casa ou sobre o telhado; por vezes estes pequenos emissários lançavam os insultos que o padre lhes mandava lançar contra os chamados evangelistas. Naqueles tempos as nossas Bíblias eram rejeitadas, com efeito, os padres ordenavam a todos aqueles que entravam em posse delas para não as ler, mas para as queimar ou para as levar a eles.

 

As torturas, as prisões, e as sentenças capitais infligidas ‘em nome de Deus’ pela Inquisição

 

Acenei anteriormente à Inquisição. Vamos explicar brevemente o que era e como agia. A Inquisição era um especial tribunal eclesiástico que tinha como objectivo o de combater e suprimir a heresia [20]. O papado o instituiu quando constatou a sua impotência perante os progressos dos Cátaros e dos Valdenses. O papa que a instituiu foi Gregório IX (1227-1241) o qual entre 1231 e 1234 instituiu pela Europa tribunais da Inquisição, presididos por inquisidores permanentes, os quais exerciam os seus poderes dentro de determinadas circunscrições [21]. Para tal objectivo Gregório IX escolheu os Franciscanos e os Dominicanos, os quais primeiramente foram designados para tal ofício pelos seus superiores e mais tarde pelo próprio papa. Este papa publicou uma decretal que se tornou o fundamento da legislação inquisitorial nos tempos posteriores; nesta decretal ele afirmava que os heréticos que eram condenados como tais, deviam ser entregues ao braço secular para receber um castigo exemplar, enquanto aqueles que regressavam à igreja católica deviam ser condenados à prisão perpétua. Em 1252 Inocêncio IV (1243-1254) com a bula Ad Extirpanda confirmou a Inquisição autorizando a tortura contra todos os heréticos. Em 1480 sobre licença papal foi instituída a Inquisição em Espanha, que no curso dos séculos exterminou milhares e milhares de pessoas (entre as quais também muitos Hebreus que, segundo a igreja católica, após terem-se convertido ao catolicismo apostataram voltando ao judaismo) [22]. Em 1542 Paulo III (1534-1549) com a bula Licet ab initio instituiu a Inquisição romana, que devia combater a heresia em todo o lugar [23], pondo sobre bases administrativas centralizadas a velha Inquisição medieval. Eis uma das passagens salientes desta bula: ‘Nós, enquanto esperamos o dia do Concílio agora convocado, querendo providenciar entretanto para que tudo não entre em ruína, e não podendo levar a cabo tudo quanto é preciso sozinhos, ocupados como estamos, por grandes tarefas, nomeamos e deputamos, com base na autoridade apostólica e no valor do presente decreto, os nossos dilectos filhos cardeais: João Pedro, João, Pedro Paulo, Bartolomeu, Dionísio e Tomás, comissários inquisidores gerais e generalíssimos em nossa vez e da sede apostólica, em matéria de fé em todas as particulares cidades, aldeias, terras e lugares da república cristã, seja aquém seja além dos montes, por toda a parte, incluindo a Itália e a Cúria romana. E confiamos na fé, na doutrina e na virtude dos preditos nossos dilectos filhos cardeais; João Pedro de San Clemente, João de San Sisto, Pedro Paulo de Santa Balbina, Bartolomeu de San Cesareo, Dionísio de San Marcello, e Tomás do título de San Silvestro. Damos a eles o poder de investigar contra quantos se afastarem do caminho do Senhor e da fé católica, ou a entendam de modo errado, ou sejam de um modo qualquer suspeitos de heresia (‘alias quomodolibet de haeresi suspectos’), e contra os seguidores, partidários, e defensores, e contra quem lhes presta auxílio, conselho e favores, abertamente ou em segredo, seja qual for o estado, grau, ordem, condição e classe a que pertença. E isto também independentemente dos ordinários do lugar, nas mesmas causas em que estes devam intervir por direito. Conferimos, além disso: o poder de proceder com o sistema da inquisição ou da investigação, ou com outro modo de ofício; de encarcerar todo aquele que resultar culpado ou suspeito com base nos indícios referidos; de proceder contra eles, incluindo a sentença final; de punir quem foi achado culpado; com penas adequadas em conformidade às sanções canónicas; e de confiscar, em norma de lei, os bens dos condenados à pena de morte’. A Inquisição romana apresentava novidades em relação à medieval: elas eram as seguintes. Antes de mais enquanto na idade média a acção penal era confiada aos bispos que ficavam os titulares dela mesmo quando eram auxiliados pelos inquisidores delegados, agora pelo contrário o poder de inquirir e julgar é transferido totalmente para os inquisidores gerais nomeados pelo papa. Em segundo lugar esta Inquisição pode proceder contra os bispos, os arcebispos, os metropolitas e até os cardeais (isto o afirmará com clareza Pio IV na sua bula Romanus pontifex). Outra novidade era a universalidade da esfera de competência desta Inquisição, porque enquanto na idade média os bispos podiam inquirir só no âmbito da sua diocese e os inquisidores só no território lhes fixado pelo papa agora os inquisidores gerais tinham jurisdição sobre todo o mundo. A Inquisição foi confirmada a seguir por Gregório XIII e Sisto V.

Vejamos agora como procedia a Inquisição contra os ‘heréticos’. Bastava um suspeito, uma denúncia, uma acusação para fazer que o inquisidor citasse as pessoas comprometidas perante ele ou as mandasse prender tanto pelas autoridades civis como pelos seus dependentes (sargentos, mensageiros, notários, carcereiros). Eram suficientes duas testemunhas para estabelecer a culpa do imputado (faço notar que os ‘mestres’ da Inquisição o chamavam réu porque para eles ele já era culpado desde o momento que era acusado e somente devia confessar as suas culpas); mas as acusações das testemunhas eram notificadas ao acusado somente quando lhe tinha sido extorquida a confissão ou quando o inquisidor considerava que o acusado já não mais confessaria, e isso acontecia sem lhe dar a conhecer os nomes das testemunhas. Uma vez diante do tribunal da Inquisição ao herético para escapar à morte restava só um caminho o de confessar a sua heresia e de abjurá-la. Deve ser dito porém que mesmo em caso de abjurar ele não obtia a liberdade porque era condenado à prisão perpétua que era considerada pela igreja uma penitência a fazer-lhe pagar para a ‘salvação’ da sua alma dado que tinha voltado, segundo eles, ao seio da verdadeira Igreja. Tanto no caso de ele confessar rejeitar dogmas da igreja católica romana e de não querer abjurar as suas convicções, como também no caso de ele não querer confessar ser um herético, para ele havia a morte porque era considerado um herético impenitente. No caso de o imputado, interrogado pelo inquisidor (esta parte do procedimento era chamada ‘exame simples’), não quisesse confessar ser um herético o tribunal fazia recurso contra ele a todos os meios para extorquir-lhe a confissão; o imputado era posto em celas estreitíssimas sem luz, com os cepos nos pés e as cadeias nos pulsos, era-lhe feito faltar a comida, não o deixavam dormir, ou se o deixavam dormir era feito dormir sobre a terra nua. Além disso ele era torturado com toda a espécie de torturas físicas porque a tortura (que era chamada ‘exame rigoroso’) era reputada um meio lícito a usar em vista da ‘salvação’ do acusado (recordai-vos sempre que o fim a que a igreja católica se propunha com a Inquisição era o de ‘purgar’ as almas da heresia para ‘salvá-las’ da perdição, pelo que segundo ela todos os meios que pudessem levar o herético a confessar os seus erros e a abjurar eram lícitos). Eis o que se encontra escrito no livro O Arsenal da S. Inquisição a propósito da utilidade da tortura a infligir: ‘O réu (notai que ainda antes que tivesse sido emanada a sentença o indivíduo era definido culpado), negando os delitos, e eles não sendo provados, se no tempo destinado para a defesa, não deu alguma razão convincente para sua desculpa, ou se, acabada a defesa, não se purgou dos indícios que se têm contra ele no processo, para tirar dele a verdade, é necessário vir contra ele no exame rigoroso; tendo sido inventada a tortura para suprir ao defeito dos testemunhos, quando eles não bastam para fornecer a prova inteira contra o réu; e isto não é de modo algum contrário nem à mansidão, nem à doçura eclesiástica; antes quando os indícios são legítimos, suficientes, claros e concludentes no seu género, o inquisidor pode e deve fazê-lo sem alguma censura, para que os réus, confessando os seus delitos, se convertam a Deus, e salvem a sua alma’ (L’Arsenale della S. Inquisizione [ O Arsenal da S. Inquisição] , Roma 1730, pag. 263) [24]. Por quanto respeita ao modo de ministrar a tortura eis as palavras do Directório dos inquisidores de Eymeric: ‘Imediatamente pronunciada a sentença de tortura, os ministros se dispõem a atormentar o réu: e enquanto eles preparam o que é preciso, o Bispo e o Inquisidor, ou pessoalmente, ou por meio de outros homens piedosos e zelosos na fé, induzem o réu a confessar livremente a verdade: que se ele não confessa, ordenam aos ministros para despi-lo (mesmo se for mulher), e eles obedecem prontamente, não alegres, mas quase perturbados (non laeti, sed quasi turbati), e o despem solicitamente, e enquanto o despem o induzem a confessar. Se ainda é obstinado, seja belo e nu apartado por homens probos, e se lhe prometa que salva a vida se confessar, desde que jure não recair no mesmo delito... se nem por promessas nem por ameaças quiser confessar, então seja atormentado etc.’ (De tertio modo procedendi in causa fidei per tormenta, pag. 480,481). A tortura durava meia hora e não se podia repetir, mas os inquisidores conseguiam eludir a lei. Eis o que o mesmo Directório dizia de facto: ‘Se, bastante atormentado, não quiser confessar a verdade, se lhe façam ver todos os outros tormentos, e se lhe diga que vai ter que os provar todos enquanto não confessar. Se nem de tal modo se assustar, então se destinará o dia seguinte, ou o dia depois deste para continuar a tortura, não para replicá-la; porque ela não deve ser repetida, mas não é proibido continuá-la’. Entre as torturas aplicadas estavam a da corda, a do fogo e a da água. A da corda era feita desta maneira: se dispunham os braços do imputado atrás das costas ligando-lhe os pulsos com uma corda que corria por uma roldana presa ao tecto. Puxando a corda se suspendia o torturado no ar, e o se deixava naquela posição por meia hora (assim lhe era provocada a luxação dos braços). A tortura do fogo era aplicada deste modo. Depois que o réu tinha sofrido a tortura da corda era levado a um caminho cheio de carvões em brasa e era firmemente atado a um cavalete de maneira que não pudesse fazer o mais pequeno movimento. Ali era atado com os pés descalços, ungidos com toucinho, retidos em cepos e a padecer por meia hora sobre o fogo aceso. A tortura da água consistia antes no estender a pessoa sobre uma espécie de cavalete feito como uma mangedoura e atada nela fortemente. Depois um carnífice com uma corda por meio de um garrote apertava as duas pernas nos tornozelos, retendo sempre na mão o garrote; um outro apertava da mesma maneira os dois pulsos. Se trazia um grande balde de água, e um terceiro carnífice, depois de ter com uma espécie de pequeno alicate de madeira fechado bem o nariz ao torturado, punha com a mão esquerda na boca do sofredor um funil, enquanto com a direita tirava com uma taça do balde a água que deitava no funil, e entretanto os outros dois carnífices apertavam o garrote.

Alguém porventura se perguntará se neste processo haviam advogados? Sim os advogados existiam mas de facto não defendiam o imputado porque colaboravam com os inquisidores. Antes de tudo não eram escolhidos pelo imputado mas pelos inquisidores e depois eram homens de confiança dos inquisidores. As suas tarefas eram estas: falar pouco com o imputado (e sempre na presença do inquisidor) e depois convencê-lo a confessar o seu crime. Não podiam trazer testemunhas para defesa do imputado porque isso era proibido. E depois deviam ser muito cautos em ‘defender’ o imputado porque toda a afirmação em favor de um herético podia ser tomada pela Inquisição como prova que também eles fossem heréticos e por isso deviam ser processados também eles por heresia. (Segundo o inquisidor Bernardo Gui aqueles advogados que tivessem a coragem de defender os heréticos se deviam considerar como culpados do delito de cumplicidade na heresia). Eis ao que se reduzia o papel do advogado na Inquisição.

Quando depois o tribunal eclesiástico sentenciava a condenação do herético e o entregava ao braço secular (isto é, à autoridade civil) fazia jurar este de que o iria tratar com doçura, que pouparia a sua vida e que não derramaria o seu sangue, mas resulta dos factos que esse juramento que era exigido era um juramento hipócrita. O motivo pelo qual a autoridade eclesiástica implorava a clemência das autoridades civis sobre o condenado era por ela não querer tomar parte abertamente na execução das penas capitais porque ‘a igreja aborrece o sangue’. Porque ela na realidade queria a morte do herético [25] e queria que a autoridade civil o matasse, de facto, ela tinha introduzido nos códigos as leis mais ferozes contra os heréticos e obrigava os funcionários públicos a executá-las sob pena de serem considerados também eles heréticos. Em 1244 o concílio de Narbona tinha declarado que em caso de uma pessoa revestida de poder temporal se demonstrasse preguiçosa em suprimir a heresia, seria declarada como cúmplice dos heréticos, e portanto ia de encontro às mesmas penas destes. A igreja católica reputava o matar um herético um acto piedoso tanto que concedia a indulgência plenária aos que traziam a lenha para erigir a fogueira. Declarar pois, como fazem alguns que defendem a Inquisição, que a exortação à clemência feita pelo tribunal da Inquisição era sincera e que a responsabilidade da morte do herético caía toda sobre o magistrado secular, é totalmente falso, é um sofisma usado para fazer crer que a igreja católica romana foi sempre inocente do sangue dos heréticos quando ela na realidade foi sempre sedenta do sangue daqueles que não se queriam submeter a ela e esse sangue um dia lhe será requerido.

Conduzido ao lugar do suplício, se o condenado declarava de arrepender-se e de renegar os seus erros o tribunal o restituía ao inquisidor, o qual o submetia a um interrogatório muito serrado no qual o penitente tinha que denunciar os seus cúmplices e renegar uma por uma as suas heresias. Depois disso ele era condenado ao cárcere perpétuo. No caso de pelo contrário o ‘réu’ permanecesse impenitente até ao fim então era queimado ou vivo ou depois de ter sido morto publicamente [26]. Quero citar agora três exemplos de homens queimados por ordem da Inquisição por causa da sua fé em Cristo Jesus e que portanto devem ser contados entre os mártires de Jesus, João Huss, Giaffredo Varaglia e Aonio Paleario.

Da execução contra Huss, que foi condenado à morte pelo concílio de Constança em 1415, uma testemunha ocular contou as seguintes coisas. Huss foi obrigado a ajoelhar-se sobre um montão de faxinas e foi atado firmemente com cordas ao poste; as cordas o mantinham fortemente apertado nos tornozelos, abaixo dos joelhos, acima dos joelhos, na virilha, na cintura e abaixo dos braços. Foi-lhe passada também uma cadeia à volta do pescoço. À volta dele foi acumulada lenha misturada com palha, até à altura do queixo. Então, o conde palatino Luís, o qual vigiava a execução, se aproximou em companhia do sargento de Constança e convidou Huss a retratar-se. Tendo-se ele recusado, se retiraram e bateram palmas; este era o sinal combinado com os carnífices que esperavam para acender a fogueira. Quando tudo foi consumido pelo fogo os carnífices destruíram completamente o corpo carbonizado, o qual foi feito em pedaços, os ossos foram quebrados, e os fragmentos e as vísceras lançados novamente sobre a fogueira.

Da morte de Giaffredo Varaglia, um crente que esteve presente na sua morte escreveu as seguintes coisas às igrejas. ‘Caríssimos irmãos, o portador da presente, querendo visitar as vossas Igrejas, não quis deixar de dar-vos aviso de quanto agradou a Deus que tenha acontecido estes dias entre nós para o progresso da sua palavra, chamando a si o nosso bom irmão e Ministro, M. Giaffredo Varaglia, pela cruz do martírio. O qual tendo-lhe sido anunciada a morte por um colateral da Corte, lhe respondeu que não a temia, e disse isto com uma constância admirável sem perturbar-se nada naquele primeiro encontro, contra a natureza quase de todos os homens. Depois, saindo fora da prisão, para ir ao lugar do suplício, um padre se lhe aproximou dizendo-lhe e exortando-o para que se convertesse. A quem ele rindo respondeu: Convertei-vos vós que eu sou por graça de Deus já convertido. Era conduzido ligado com aquele outro bom homem velho que conheceis; o qual também ele sofreu bastante pela mesma querela tendo sido condenado a assistir à execução do outro e a ser varrido, marcado pela marca do Rei, e banido. Ia pois M. Giaffredo consolando este, e recitando em alta voz o Salmo: In te Domine speravi. Mas tendo chegado ao lugar, com rosto sorridente disse ao seu companheiro: não deixeis de saudar em meu nome todas as igrejas onde passardes, vós ficais cá, e eu me vou para a glória de meu Pai. Finalmente subiu sobre o cadafalso, tendo uma corda ao pescoço, começou assim a dizer: Irmãos caríssimos, primeiramente eu perdoo a todos os que são causa da minha morte, com muito prazer, porque em verdade não sabem aquilo que fazem, e rogo a Deus que os queira iluminar. Quanto depois à causa, pela qual eu sou morto, é por ter feito uma mesma confissão de fé, que teve e fez S. Pedro e S. Paulo e todos os outros Santos Apóstolos e Mártires pela defesa do Evangelho de nosso Senhor Jesus Christo, que quer dizer boa nova, pela qual nos é anunciada a remissão dos pecados por ele Senhor Jesus, o qual Deus constituiu único Advogado, Mediador e Intercessor entre ele e nós pobres pecadores. Quando servia ao Diabo, eu morria todos os dias pelos meus enormes pecados, blasfemando o seu Santo nome, se eu morresse naquele tempo morreria condenado. Mas agora eu morro para viver eternamente com ele; não que eu pense que esta morte seja causa da minha saúde, consistindo ela só no sangue de Jesus Cristo. E se aqui se encontra alguém que tenha cognição do Evangelho e todos os outros ainda, vos exorto a procurar a S. Escritura e governar-vos segundo aquela, que contém a única regra do bem viver; deixando os pecados como são idolatrias e fornicações, detracções, furtos e outras semelhantes enormidades. Cuja regra sempre segui desde que Deus me iluminou e no presente a ratifico com a minha morte, esperando o galardão daquele que me fez tanta graça e honra que depois de ter sido Arauto da sua palavra, agora me fez um tanto Cavaleiro e dos seus mártires. E sabei que eu creio na S. Igreja Católica e não recebo nenhuma invenção humana, mas me apoio só na palavra de Deus. Cujas humanas invenções vos rogo não querer crer, porque são muito danosas. Depois de ter dito isto e alguma outra coisa pelo espaço de um quarto de hora, pediu a toda a multidão que se dignasse a orar a Deus junto com ele: depois ajoelhando-se, recitou a oração do Senhor e os artigos da fé em italiano vulgar, e em alta voz, distintamente, e sem aparência alguma de estar assustado. Porque ele não tinha nada mudado de cor, e tinha sempre o rosto alegre e quase sorridente: de maneira que a maior parte do povo se maravilhou, dizendo: ele parece que vai às núpcias. E quando recitava os artigos de fé se levantou um murmúrio da multidão, dizendo alguns: e como? se dizia que este não cria em Deus, e que dizia muitos males da Virgem Maria? O que vemos agora não ser verdade. Donde vem este? A seguir a todas estas coisas ele disse ao carrasco, que fizesse o seu ofício a seu agrado. O qual pedindo-lhe perdão, ele disse: Amigo meu, eu já te perdoei, e agora de novo te perdoo com todo o coração. E assim, tendo recomendado o espírito a Deus, foi pelo algoz estrangulado e queimado. E desta maneira passou a melhor vida M. Giaffredo Varaglia fiel servo e mártir do Senhor a 29 de Março em Turim de 58’ (ou seja 1558).

A propósito do suplício de Aonio Paleario é dito que depois de ter sido processado e condenado pelo tribunal da Inquisição aqui em Roma [27], na manhã de 3 de Julho de 1570 foi levado para Castel Sant’Angelo onde para ele tinha sido preparada uma forca e a fogueira [28]. Havia muita gente; chegando ao pé da forca um frade lhe gritou: ‘Reconcilia-te com Deus, ó herético: a hora da tua morte é chegada!’. O condenado o olhou com um olhar severo e foi ouvido pronunciar estas palavras com voz distinta: ‘Ouvi-me frade, eu já me reconciliei com Deus: nem necessito do teu ofício para que ele me ouça!... Quem és tu que te pões entre o Criador e a criatura? Pó como eu, humilha-te... e ora! Pouco depois subiu ao patíbulo e foi morto. Depois o seu corpo foi lançado nas chamas [29].

Alguém dirá: ‘Mas hoje a igreja católica romana como fala da Inquisição? A condena condenando aqueles que a promoveram? De maneira nenhuma; quando fala dela ou de um modo ou de outro a justifica (condenando apenas certos comportamentos de alguns inquisidores que ela chama ‘abusos’ [30]). Na Enciclopédia Católica por exemplo na palavra Inquisição no fim se lêem as seguintes palavras: ‘Os modernos julgaram severamente a instituição da Inquisição e a taxaram de ser contrária à liberdade de consciência. Mas esquecem que no passado se ignorava esta liberdade e que a heresia incutia horror nos bem pensantes, que eram certamente a grande maioria mesmo nos países mais infectados de heresia’ (Enciclopédia Católica, vol. 7, 47). Isto implicitamente significa que ela é ainda a favor do uso da força contra aqueles que não se queiram submeter a ela e que ameaçam de uma maneira ou de outra o seu prestígio e o seu poder. E que seja assim é confirmado pelo facto de, como vimos, a igreja católica romana ser pelo uso da violência face ao agressor. Se se considerar, de facto, o seu ensinamento sobre a legítima defesa se notará que é permitido a um grupo reagir com a violência a uma agressão. Eis quanto se lê no seu Dicionário de moral católica: ‘Até aqui se examinou o direito de legítima defesa em termos individuais: mas isto se aplica igualmente também a um grupo. Ameaçado (...) na sua identidade cultural (destruição do património cultural...).... um povo pode invocar o direito de legítima defesa’ (Jean-Louis Bruguès, op. cit., pag. 122). Façamos um exemplo: a igreja católica romana (que não vos esqueçais além de ser uma organização religiosa é uma organização política, um Estado como tantos outros) se sente ameaçada pela heresia, pelo que o seu ‘património cultural’ é posto em perigo. Como reagir a esta ameaça? Com a violência; se a igreja católica romana faria um uso directo da violência ou indirecto recorrendo, como tantas vezes fez, às autoridades civis, isso pouco importa. O importante para ela é travar os que ameaçam a sua existência. Pio IX (sob qual foi proclamado o dogma da infalibilidade papal) o fez perceber muito bem quando no Sílabo dos Erros condenou como herética a 24ésima proposição que diz: ‘A Igreja não tem poder de empregar a força nem poder algum temporal, directo ou indirecto’. Mas aliás como poderia o papado condenar a Inquisição quando ela foi instituída e confirmada por ‘infalíveis’ papas dos quais alguns foram também feitos santos? Como poderia condená-la sem condenar com ela os seus sustentadores o que significaria renegar a infalibilidade da igreja católica no curso dos séculos e por isso aparecer contraditória?

Cuidai pois de vós mesmos irmãos, porque este seu ensinamento sobre a legítima defesa pode ser por ela tomado em qualquer momento para voltar a inquirir os seus inimigos, entre os quais estamos todos nós que recusamos sujeitar-nos ao papa e aos dogmas papistas. Não vos iludais porque ela possui sempre algum ensinamento com que sustentar e justificar uma eventual sua violenta reacção contra os ‘heréticos’. Também porque, e aqui me repito, vos deveis lembrar que ela é um Estado com muitos embaixadores (os núncios) no mundo.

 

A astúcia e a maldade usada pelos Jesuítas para ‘a maior glória de Deus’

 

Quando se fala das perseguições que tantos nossos irmãos sofreram na Europa após ter rebentado a Reforma não se pode não falar dos Jesuítas, chamados também Companhia de Jesus e com razão sobrenomeados ‘os homens do papa’ pela sua cega obediência ao papa. E isto porque eles foram aqueles que mais do que outros se dedicaram a trabalhar para extirpar o ‘protestantismo’ a onde se tinha difundido e converter ao catolicismo aqueles que o tinham abandonado. Vamos portanto dar algum aceno histórico e doutrinal sobre esta ordem da igreja católica romana ainda hoje existente no seu seio e ainda hoje muito influente nela.

O fundador desta ordem foi um espanhol de nome Inácio Loyola (1491 ca. - 1556). Este junto com dez seus amigos que ele tinha recrutado para formar uma ordem que devia ter como objectivo a conversão dos infiéis, depois de ter juntamente com eles redigido os estatutos da sua Sociedade e tê-la chamado ‘Companhia de Jesus’ pediu a aprovação dela a Paulo III o qual lhe a concedeu a 17 de Setembro de 1540. Aos três votos ordinários de castidade, de pobreza e de obediência, a sociedade acrescentou a eles um outro. Ela jurava de ‘votar a sua vida ao serviço constante de Cristo e dos papas, de combater sob a bandeira da Cruz, de servir só o Senhor e o pontífice romano, seu vigário na terra; ela se comprometia a obedecer ao papa e seus sucessores em tudo quanto concernia à salvação das almas e à propagação da fé, qualquer que fossem os países onde os conduziriam as ordens de Sua Santidade’. Assim o papa encontrou à sua disposição uma ordem pronta a tudo para defender os seus interesses que naquele tempo eram fortemente atacados pelos Protestantes cujas ideias se tinham difundido por toda a Europa.

A ordem era estruturada hierarquicamente. No seu vértice estava o geral. Ele tinha o direito de fazer as constituições e as regras, conferia todos os cargos, regulava e ordenava a seu agrado toda a sociedade; toda a autoridade dos provinciais e dos outros superiores dependia dele; podia dispensar das constituições e dos votos; em suma era um monarca absoluto a quem todos deviam uma obediência cega. O primeiro geral foi Inácio Loyola.

O corpo da companhia era composto por quatro categorias ou graus. A primeira categoria ou grau era a dos padres professos que tinham pronunciado os três votos solenes de pobreza, castidade, e obediência e tinham feito um especial voto de obediência ao papa. Mesmo se todos os Jesuítas eram obrigados a obedecer ao papa os padres professos faziam este particular voto. Só os Jesuítas desta categoria podiam aceder ao cargo de geral e aos lugares imediatamente inferiores.

A segunda categoria ou grau era constituída por padres que tomavam os votos simples, não solenes, e que não pronunciavam o quarto voto ao papa. Eram chamados coadjutores espirituais.

O terceiro grau era o dos irmãos leigos; estes nunca se tornavam padres, mas tomavam os três votos simples e eram encarregados do trabalho manual nas casas: cozinhar, limpar, etc.

A quarta categoria era a dos jovens alunos, geralmente chamados escolásticos porque a sua preparação acontecia através das várias escolas do saber. No fim dos seus estudos eram ordenados padres e conforme os seus progressos entravam para os professos ou para os coadjutores espirituais.

Para entrar na ordem era preciso primeiro seguir um período de noviciado que durava dois anos durante o qual o noviço era submetido a uma dura disciplina porque devia perder a sua individualidade e pôr-se inteiramente nas mãos do seu superior. Quem conseguia superar o noviciado tomava os três votos simples; alguns ficavam irmãos leigos, outros continuavam como escolásticos para se tornarem professos ou coadjutores espirituais. No fim da instrução pronunciavam os votos finais; os professos acrescentavam também o quarto voto especial.

Os efectivos da companhia eram organizados em ‘províncias’ em que se encontravam as diversas casas da ordem que eram de seis tipos. As residências (para escritores, estudiosos, superiores locais, membros em repouso ou doentes); as casas de estudo (para jovens Jesuítas); um noviciado (onde eram examinados e preparados os aspirantes da província); e depois haviam escolas e colégios destinados à educação dos leigos e casas para o retiro espiritual onde os leigos iam à procura de ajuda espiritual ou para realizar devoções. Cada casa tinha um superior (abaixo do qual haviam outros superiores intermédios), e acima de todos os superiores das casas da província havia um provincial e acima de todos os provinciais havia um assistente que residia em Roma com o geral.

A cada Jesuíta era pedido para obedecer incondicionalmente ao seu superior em qualquer coisa que ele lhe ordenasse, de facto no livro das regras dos Jesuítas de título Regulae societatis Jesu na constituição número 36 se lê: ‘Cada um se persuada a si mesmo, que aqueles que vivem sob a obediência, são conduzidos e dirigidos pela divina providência; e que por isso devem deixar que os superiores o tratem como se fosse um cadáver, que deixa fazer tudo sem se queixar; ou como o bastão de um velho, o qual aquele que o tem na mão se serve dele quando, onde, e para tudo o que ele quer’. O Jesuíta devia ver na pessoa do superior o próprio Jesus: na regra n° 16 e 18 se lê: ‘Não olheis na pessoa do superior o homem sujeito a errar, e submetido às misérias humanas; mas cuidai nele a própria pessoa de Cristo, que é suma sabedoria, imensa bondade, e caridade infinita, o qual nem pode ser enganado, nem pode querer vos enganar. E estai certos que seguindo a vontade do superior, vós seguis com toda a certeza a divina vontade. Vós deveis firmemente crer que tudo o que o superior manda é preceito e querer de Deus’. Com semelhantes regras é claro que o Jesuíta considerava o seu superior infalível e por isso desobedecer-lhe para ele significaria desobedecer a Deus. E que o superior se encontrava em relação a estes que estavam nas suas dependências numa posição que lhe permitia fazer com que eles fizessem tudo o que queria sem ser contradito. Além disso, para que o superior conhecesse bem os seus escravos na constituição n° 40 era prescrito ao Jesuíta que entrava na companhia que ele ‘deve manifestar ao superior toda a sua consciência com grande humildade, pureza e caridade, não escondendo nada daquilo com que pudesse ofender a Deus, e preste a ele, ou a quem for por ele deputado, uma inteira conta da sua vida anterior; e a cada seis meses preste depois o mesmo conta começando do último’. O Jesuíta tinha além disso a ordem de não referir aos externos as coisas da ordem. As regras comuns n° 38 e 39 dizem de facto: ‘Ninguém refira aos de fora o que se faz ou se pensa fazer entre nós. Ninguém, sem expressa licença do superior, comunique as nossas constituições, os nossos livros, ou escritos nos quais se contêm as nossas ordenações ou privilégios. Ninguém dê ou deite fora as instruções espirituais, as meditações, ou os exercícios da sociedade’.

A ordem se propunha a converter os heréticos e os pagãos através da pregação, do ensinamento e da confissão. Ela afirmava fazer tudo ad majorem Dei gloriam (para maior glória de Deus) o que significava para maior glória do papado porque para os Jesuítas glorificar o papa - para eles o vigário de Cristo na terra - significava glorificar a Deus. Eis por que diversos papas lhes concederam tantos privilégios e os apoiaram; porque a sua obra tendia a consolidar e estender o domínio do papado no mundo. Mas ao mesmo tempo, e isto o se deve ter bem presente, a ordem buscava também os seus próprios fins que eram os de querer dominar o mundo e enriquecer-se.

Mas a ordem afirmava também que para alcançar os seus objectivos eram lícitos todos os meios mesmo os ilícitos (ou como ela afirmava todos os meios eram indiferentes), e portanto a mentira [31], a astúcia [32], o furto [33], a fraude [34] e a violência etc. era consentido. Tinham uma moral que justificava o pecado com toda a sorte de sofismas, de maneira que o aborto, o homicídio, o adultério, o furto, o duelo, a mentira, a falsidade, a idolatria, a impureza, era permitido em várias circunstâncias e se não se tornaram mesmo virtudes de certo eram feitas passar por leves culpas ou por coisas de nada. Em suma o pecado nas mãos dos Jesuítas tornou-se irreconhecível e nos seus livros impossível de encontrar. Pelo que com as suas lisonjas compraram o favor dos que tinham prazer em toda a sorte de pecado. Porque este era o seu objectivo, voltar muitas pessoas para eles para depois espoliá-las dos seus bens se eram ricas e se estavam em lugares de autoridade para usarem-se delas para estender a companhia no seu país. A diabólica máxima o fim justifica os meios era (e é) a essência do jesuitismo. Introduziram-se nas cortes dos reis e dos príncipes quer como pregadores quer como confessores e conseguiram com a sua astúcia ter deles a permissão de abrir colégios e outras instituições e persuadi-los a destruir aqueles que para eles eram heréticos. Em Itália abriram diversos colégios, foram protegidos pelos príncipes e tomaram parte nos massacres dos Valdenses tanto a norte como a sul de Itália. Também nas outras nações abriram colégios, e cativaram a amizade de imperadores e príncipes (fazendo-lhes crer que procuravam o seu interesse) para induzi-los a favorecer a sua sociedade e exterminar os Protestantes [35]. Quando algum rei demonstrava favorecer o protestantismo em prejuízo do catolicismo ou não apreciar a ‘Companhia de Jesus’ no seu país eles estavam prontos a tirá-lo do meio ou a encorajar outros a fazê-lo. Porque também isto era permitido ad majorem Dei gloriam. Suarez, um dos seus teólogos mais conhecidos disse de facto que um rei herético primeiro pode ser deposto, e depois, se continuar a reinar pode ser legalmente morto como um tirano. Eis as suas palavras: ‘Mas porém dada que está a sentença, (o Soberano) está decaído do trono, de maneira que por justiça, não pode mais possuí-lo. Desde então portanto pode ser tratado como um Tirano, e como tal por qualquer privado pode ser morto’ (Franc. Suarez, Def. Fid. Cathol. livro VI, cap. 4) (esta diabólica doutrina se chama regicídio). Alguns exemplos que confirmam este seu modo de agir são os seguintes. Baldassare Gèrard, o assassino de Guilherme de Orange, ‘confessou que tinha participado a sua intenção ao reitor do colégio dos Jesuítas de Trèves, o reitor a tinha aprovado, lhe tinha dado a benção, assegurando-lhe que onde perdesse a vida executando o atentado, seria incluído no número dos mártires’ (G. Huber, I Gesuiti [ Os Jesuítas] , Roma 1909, pag. 134). Mas nem sempre foram bem sucedidos os seus complôs contra o rei; por exemplo o rei de Portugal escapou ao atentado que os Jesuítas tinham urdido para matá-lo [36] e por isso foram expulsos pela força do país, embarcados em navios reais e desembarcados nas costas do Estado da igreja e todas as suas propriedades foram confiscadas (isto aconteceu entre 1759 e 1761). Também em Inglaterra uma tentativa de assassinar o rei não teve o resultado que eles queriam porque foi descoberta a mina que devia fazer explodir o parlamento na sua abertura a 7 de Fevereiro de 1605. Os três Jesuítas que estavam entre os conjurados fugiram, mas foram presos, processados e condenados à morte.

A ordem foi suprimida (mesmo se os Jesuítas na prática continuaram a subsistir na Prússia e na Rússia) por Clemente XIV em 1773 [37] mas foi restaurada por Pio VII em 1814. E no meio de muitas polémicas subsiste ainda no seio da igreja católica romana [38].

 

 

COMO ESTÃO HOJE AS COISAS

 

Mas hoje como estão as coisas? Ainda hoje nesta nação apesar de em certos aspectos as coisas estarem diferentes, na substância as coisas não mudaram desde então. Porquê? Porque a igreja romana, embora oficialmente tenha moderado o seu falar contra nós chegando a definir-nos comunidades eclesiais (não verdadeiras igrejas porque a única verdadeira Igreja é ela), nos factos nos detesta considerando-nos seitas formadas por obra de alguns saídos do seu meio ou do meio do protestantismo histórico. Certo, contra nós não há perseguições de morte como houveram contra muitos nossos irmãos nos séculos passados na Europa ou a prisão ou o desterro, mas a perseguição subsiste mesmo se é só verbal na máxima parte dos casos; e não pode ser de outro modo porque nós pregamos a Palavra da verdade e reprovamos as heresias e as obras infrutuosas da igreja romana como fizeram os nossos irmãos antigos. Mas nós não cessaremos de falar em defesa do Evangelho e contra as falsas doutrinas desta organização que conduz milhões de almas ao inferno. Somos odiados, escarnecidos, reputados loucos, fanáticos, por pessoas que se chamam ‘Cristãs que fazem parte da santa igreja apostólica’; sim irmãos é assim, mas somos felizes por sofrer estas suas injúrias porque Jesus disse: "Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós" (Mat. 5:11,12). Nós sabemos que os profetas foram perseguidos pelos Judeus desobedientes porque eles falaram da parte do Senhor. Os profetas reprovaram dentre as muitas obras más do povo também a idolatria à qual ele se tinha abandonado e por isso foram perseguidos, porque falaram contra aqueles espantalhos dos seus ídolos pelos quais os Israelitas andavam em delírio. Por que pois nos maravilharmos se os Católicos romanos nos odeiam e nos injuriam, e se pudessem nos tirariam do meio com a força porque falamos contra aqueles cadáveres dos seus ídolos que eles adoram, oram e levam aos ombros nas suas procissões? Por que nos maravilharmos dos seus insultos como se nos acontecesse algo de estranho, quando séculos atrás outras pessoas por ter reprovado e confutado as suas heresias foram escarnecidas, odiadas, e mortas? Irmãos, sabei que é inevitável que se seja perseguido por aqueles que jazem no erro quando se lhes diz a verdade.

Por fim queria dizer - e aqui volto ao dito anteriormente - que embora hoje a igreja católica romana oficialmente não se dirija mais em relação aos que saiem dela da mesma maneira em que falaram certos papas do passado e certos seus doutores nos séculos passados (apoiando-se nas palavras de Agostinho), isto é, declarando que é necessário usar a força para fazer voltar os apóstatas ao aprisco ou que é necessário exterminar de toda a maneira os heréticos para extirpar assim a heresia, ela conserva nela o mesmo sentimento de ódio pelos que, depois de terem conhecido o Senhor saem do seu meio e começam a reprovar as suas doutrinas diabólicas e a procurar arrancar da sua boca as almas. Basta que os olheis nos olhos e os ouçais falar depois de lhes terdes dito que a Maria não se deve orar e não se lhe deve prestar algum culto ou que o papa não é o chefe da Igreja ou que é inútil confessarem-se ao padre ou fazer batizar as crianças logo que nascem, para vos dardes conta disto. Só que à diferença de séculos atrás, está impossibilitada de usar a força contra eles para fazê-los voltar ao seu meio - isto é, não pode pôr de pé a Inquisição como tempos atrás e incitar as autoridades a perseguir-nos ou a exterminar-nos - porque os tempos e as circunstâncias não lhe o permitem. Mas eu estou convencido que esta situação seja só temporária, porque quando no futuro as circunstâncias mudarem por querer de Deus, então os papas da igreja católica romana voltarão a embriagar-se do sangue dos santos, fazendo-os trucidar ou queimar nas fogueiras, exactamente como fizeram Inocêncio III ou Júlio III. Ninguém se esqueça que a Escritura diz que "o que há de ser, também já existiu; e Deus procura de novo o que já se passou" (Ecl. 3:15). Destes milenares inimigos da cruz de Cristo só se pode esperar mal e não bem. Quem tem ouvidos para ouvir ouça. Alguém dirá porventura: ‘Mas então não crês que o renovamento em curso na igreja católica romana desembocará na sua conversão? Não, não creio de modo algum; apenas um pequeno número deles se converterão, mas a maioria permanecerá aquela que sempre foi, apegada à tradição pronta a defendê-la também com as armas fazendo recurso a todo o compromisso e a toda a astúcia. Da estrada que a igreja católica romana decidiu tomar, ela não voltará.

 

 

CONCLUSÃO

 

Irmãos, termino este meu escrito contra a igreja católica romana fazendo-vos participantes de algumas coisas.

 

Um apelo à irmandade

 

Estamos nos fins dos séculos, sabemos que deve vir a apostasia e que os seus albores já apareceram, mas muitos entre nós parece que tenham esquecido há muito tempo que se o Evangelho pôde chegar a nós como o recebemos o devemos à graça de Deus, o qual no curso dos recentes séculos passados iluminou homens aqui na Europa tirando-os das goelas do papado; homens corajosos que apesar de nem sempre terem afirmado coisas justas e verdadeiras tiveram em comum todos a doutrina da justificação pela fé. Eles formaram um poderoso exército contra o qual o papado se atirou de todas as maneiras; procurou primeiro persuadi-los que estavam afirmando o falso, depois vendo que se mantinham firmes nesta doutrina os excomungou e os perseguiu. Sim, os perseguiu de todas as maneiras porque os considerou heréticos e apóstatas, os amaldiçoou, alguns deles os entregou ao braço secular para que fossem mortos. Também aqueles que começaram a traduzir a Bíblia na língua vulgar para fazê-la conhecer ao povo foram perseguidos duramente pelo papado; e isto porque a cúria romana não queria que o povo lesse o que estava escrito por medo que se apercebesse dos erros por ela ensinados e perpetrados. Diversos factos históricos testificam isto. Mas graças sejam dadas a Deus porque apesar desta dura oposição do papado a Palavra de Deus se divulgou cada vez mais entre os Católicos romanos que nunca antes de então a tinham lido; e muitos deles persuadidos por ela que o papa não podia ser o vigário de Cristo e os seus bispos não podiam ser os sucessores dos apóstolos se separaram da igreja romana. Mas por que digo todas estas coisas? Para recordar-vos que naquele tempo quando ainda haviam as inquisições contra os que recusavam sujeitar-se ao papa e que proclamavam que se é justificado só pela fé, houveram os que não se deixaram intimidar de modo nenhum pelas ameaças do papado mas com a força que o Senhor lhes deu proclamaram o Evangelho e o defenderam. E se nós hoje temos a graça de ler a Bíblia nas nossas línguas é também porque homens no curso dos séculos passados pregaram a Palavra de Deus e a traduziram em língua vulgar quando enfurecia contra eles a perseguição do papado. Eles tiveram que enfrentar muitos escárnios, muitas lutas, e muitas perseguições da autoridade papal porque defenderam incansavelmente o Evangelho, confutaram publicamente as heresias católicas romanas também mediante escritos seus e não só em palavras. Hoje, porém, por aquilo que vejo, no seio da irmandade aqui em Itália as coisas estão em certos aspectos mudadas porque muito poucos fazem ouvir a sua voz de protesto em defesa do Evangelho e contra as heresias da igreja católica romana. No entanto as heresias de perdição da igreja romana não desapareceram nem diminuíram nestes séculos após a Reforma, antes aumentaram e não dão sinal de diminuir. Vos exorto irmãos, a não baixar a guarda, mas a vigiar em todas as coisas porque o diabo anda ainda em derredor dos santos, rugindo como leão procurando a quem possa tragar; hoje como há muitos séculos o diabo usa-se também da igreja romana para enganar as pessoas e para procurar extraviar os crentes. Por isso é necessário continuar a proclamar com toda a franqueza a palavra da fé, e a defender o Evangelho dos contínuos ataques que a cúria romana desfere contra ele. Hoje, mais do que nunca é necessário pregar de toda a maneira a palavra da cruz aos Católicos, e confutar publicamente as suas doutrinas maléficas que enganaram centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. É necessário fazê-lo sem medo e sem deixarmo-nos enganar por estes contínuos esforços que ela está fazendo para nos fazer aproximar a ela. Apesar de em alguns casos terem mudado a roupagem, e alguns seus actos cerimoniais e apesar de muitos deles se porem a cantar alguns dos nossos próprios cânticos, se porem a orar não mais mecanicamente como outrora, apesar de no seu seio ter surgido o movimento carismático cujos aderentes afirmam ter recebido o Espírito Santo e crer nas curas por meio do nome de Jesus, esta organização permanece ainda a mesma na substância. Mantém-se de pé com toda a sua bagagem de heresias, com toda a sua pompa e com todo o seu poder temporal; a sua arrogância é a mesma de séculos atrás, a sua astúcia também.

Faço apelo à vossa caridade para que se até agora tendes estado a olhar ou a escutar somente vos levanteis também vós em defesa do Evangelho, se antes o vosso esforço se enfraqueceu vos exorto a fortificar-vos na graça de Deus e a perseguir nesta boa luta com a ajuda que vem de Deus. Se antes sois indiferentes a tudo isto vos digo despertai-vos do vosso sono. Considerai por um momento os esforços que fazem os Católicos para difundir as suas heresias de perdição; ora, se eles que não se envergonham de proclamar tantas coisas tortas se afadigam para difundi-las e defendê-las incansavelmente não devemos nós que conhecemos a verdade demonstrar mais zelo ainda em proclamar a verdade? Se eles na sua ignorância procuram confutar inutilmente a verdade que nós proclamamos, não devemos nós que recebemos o conhecimento da verdade fazer de tudo para confutar as suas heresias? É uma guerra irmãos; uma guerra na qual cada um põe em campo as suas armas. Os nossos inimigos carnais enganados pelos nossos inimigos espirituais procuram com a mentira destruir a verdade que anunciamos pensando conseguir esquecendo que nada se pode fazer contra a verdade, porque o que se pode fazer é pela verdade. Nós, ao contrário, que fomos iluminados por Deus usamos a palavra da verdade para destruir os seus vãos raciocínios que se erguem contra o conhecimento de Deus; a vitória é nossa porque estamos em Cristo Jesus. Não é inútil esta guerra, não é tempo perdido combater pelo Evangelho procurando persuadir os Católicos romanos das coisas relativas ao reino de Deus; o tempo o se perde quando se procura o seu favor, não quando os se exorta a se arrependerem e a crer no Evangelho. Alguns porém se envergonham de combater esta guerra, como que se tratasse de andar em guerra contra irmãos! Mas quais irmãos? Outros ainda não querem polemizar - este é o verbo que usam - com os Católicos (isto o se ouve repetir infelizmente também na RadioEvangelo aqui em Roma). E aqui me encontro obrigado a dizer algumas coisas. Ora, polemizar significa, segundo o dicionário da língua italiana, ‘discutir pelo gosto de discutir, em vez de para chegar a uma conclusão’ e é um verbo que não está presente na sagrada Escritura. Todavia deve ser dito que se por não querer ser polémico se entende não querer litigar então também nós não queremos polemizar com ninguém porque a Escritura nos diz que o servo do Senhor não deve contender, ou seja, não deve ser litigioso mas manso para com todos. Mas se por não querer fazer polémica se entende que não se querem confutar (que significa demonstrar a falsidade de uma argumentação) mediante as sagradas Escrituras (e a sabedoria que Deus nos deu) publicamente ou privadamente as tantas doutrinas papistas que estão levando em perdição milhões de almas então nós queremos ser polémicos ou polemistas porque Jesus primeiro e os apóstolos depois confutaram as falsas doutrinas dos seus tempos e o fizeram também publicamente. Ou seja, eles rebateram os seus adversários com as Escrituras e com a sabedoria de Deus para demonstrar que eles erravam. Também Apolo fez isso, com efeito dele se diz que em Corinto confutava publicamente os Judeus. Mas por que é que estes não querem polemizar (entendido no segundo sentido)? Porque têm medo do papado, deste império que aqui em Itália tem a sua sede central e que ainda hoje é capaz de proporcionar ‘aborrecimentos’ àqueles que lhe dão abertamente fastio porque basta uma palavra do papa (que aqui em Itália tem quase todos aos seus pés) a algum ministro do Governo para desencadear uma ‘perseguição’ (mesmo se só verbal) contra eles [39]. E por isso eles procuram ter boas relações de vizinhança com o papado para não encontrar o governo italiano contra eles que poderia ameaçá-los de tirar-lhes certos privilégios obtidos do governo (obtidos naturalmente com a permissão do papa), preferindo calar ou se não calar evitar termos ou expressões que poderiam parecer ofensivos para a ‘santa igreja católica apostólica romana’. Por exemplo não dizem claramente que orar a Maria, a mãe de Jesus, é idolatria e que portanto os que a ela oram e invocam são idólatras sobre o caminho que leva ao inferno; que o papa definindo-se vigário de Cristo blasfema, e que com efeito não é um ministro de Cristo mas um ministro de Satanás, que as peregrinações, as procissões, e tantas outras devoções católicas são mentiras, que o purgatório é uma doutrina de demónios, e que a missa é um sacrilégio porque pretende ser a repetição do sacrifício de Cristo, e por aí fora. E se por vezes têm de reprovar alguma coisa do catolicismo o fazem ou em tom de brincadeira ou superficialmente (de fugida) ou indirectamente, mas nunca com aquela franqueza, gravidade e em plena convicção, que é preciso para fazer entender aos Católicos romanos que ouvem ou que estão presentes no local de culto que ficarem apegados ao papa, a certas doutrinas ou devoções significa ir para o inferno nas chamas. Lembro que um dia, durante o período em que a estátua de Maria em Civitavecchia começou repentinamente a ‘chorar’ sangue, me ocorreu ouvir por acaso um programa radiofónico na RadioEvangelo em que se falava destes fenómenos ‘miraculosos’. Bem, quando se tratou de ter que fazer referência à estátua de Maria de Civitavecchia não foi mencionada pelo nome, porém recordo que quando se tratou de fazer referência a um ídolo do Oriente (de quem se dizia que operava prodígios) que tinha contudo um nome muito complicado então o nome foi dado! A razão me parecia óbvia. Em suma, estes querem seguir aquela que alguns definem erradamente ‘pacífica convivência fraterna’. E se vêem as consequências negativas desta sua atitude, de facto muitos irmãos não sabem como confutar os Católicos romanos antes - quero dizer - em muitos casos não querem confutá-los porque não devem ‘polemizar’. Ah, se estes pastores, em vez de encher de piadas e de anedotas as suas pregações, ou se em vez de apresentar o Evangelho com discursos persuasivos de sabedoria humana, se pusessem a confutar publicamente as heresias papistas tão enraizadas nos corações das pessoas nesta nação fariam verdadeiramente uma coisa louvável e útil.

Eu, Giacinto, termino este meu escrito dizendo isto. Eu sou avesso a toda a doutrina perversa proclamada por esta organização religiosa, que se define falsamente a Igreja de Cristo, como o foram antes de mim e como ainda o são muitos outros nesta nação e no exterior: e esta minha aversão a manifestei nesta ocasião escrevendo contra as suas heresias com a esperança que vós irmãos no Senhor lendo estas confutações possais perceber melhor o que é o catolicismo, e confutá-lo mais eficazmente, e muitos Católicos lendo estas confutações sejam persuadidos pelo próprio Senhor de ter sido enganados e caindo neles mesmos saiam deste cárcere subterrâneo para se unirem aos santos que caminham à luz da Palavra de Deus.

 

Algumas coisas que se aprendem da igreja católica romana

 

Certamente do estudo da história e das doutrinas da igreja católica romana se tiram muitos ensinamentos a que nós todos faremos bem dar ouvidos para o nosso bem e o dos outros. Eu mencionarei só alguns deles; aqueles que considero serem os principais.

1) A Igreja de Deus não deve aliar-se por nenhuma razão com o Estado porque no momento que estipula esta aliança se desvia da simplicidade e da pureza que há em Cristo.

Bem vimos isto quando falámos da história do papado; quando a Igreja se aliou com o império romano permitindo ao poder civil intrometer-se nos assuntos internos da Igreja, em troca de honras e privilégios de todo o género, assumiu um outro rosto. E ainda hoje à distância de tantos séculos há muitas igrejas que se aliaram com o poder civil em troca de honras e privilégios, não tendo em nenhuma consideração nem a Palavra de Deus e nem a história da Igreja. Aliança que também para eles constituiu o início do declínio espiritual, da aridez espiritual, mas mais que o início queria dizer que foi uma etapa do seu extravio iniciado ainda antes de estipular a aliança com o Estado, porque estamos plenamente persuadidos que para se querer andar de braço dado com o Estado é necessário estar forçosamente já extraviado, já espiritualmente árido. Mas vejamos quais são os efeitos actuais que produz a aliança com o Estado. A aliança com o Estado, que se chama Acordo, provoca um ensoberbecimento nos crentes que a estipulam porque lhes traz privilégios e reconhecimentos de vários géneros dos quais não podem usufruir aqueles que não fazem parte do seu ‘grupo’. Por exemplo há o privilégio de casar, de ter os diplomas das suas escolas bíblicas reconhecidos pelo Estado, de ter a faculdade de pedir o adiamento do serviço militar no caso de estar inscrito na escola bíblica daquela denominação, de ter benefícios fiscais, de ter subsídios estatais no caso de um local de culto vir a ser danificado por um terramoto, de ter facilmente licenças de vários géneros, de ter os seus próprios locais de culto tutelados por leis, etc. É claro que os crentes que fazem parte deste grupo se sentirão protegidos pelo Estado; mas não só, poderão em qualquer momento invocar a ajuda dele no caso de alguém pôr em discussão os seus privilégios ou alguém lhes procurar tirá-los ou no caso de no seio duma Igreja suceder um tumulto em que uma facção tomasse posse do local de culto acordado à Entidade. Mas se por um lado a denominação consegue obter do Estado privilégios por outro ela tem de fazer concessões ao Estado porque este último não dá semelhantes privilégios em troca de nada. Antes de tudo o governo exigirá o sustento político daqueles que fazem parte da denominação objecto dos privilégios; não importa se o governo é fascista, democrático ou de alguma outra tendência, ele quererá o apoio político. Portanto os chefes da denominação procurarão de várias maneiras, mais ou menos explícitas, induzir os crentes a votar por este ou por aquele outro partido político conforme o partido em questão queira ou não manter-lhe os seus privilégios. Se meterão em suma a fazer política; e tudo para manter intactos todos os seus privilégios. Faço um exemplo: ponhamos o caso que um partido político de um certo peso na vida política desta nação queira tirar-lhe os benefícios fiscais ou abolir tanto a concordata com a igreja católica como os acordos com as denominações evangélicas e confiscar os bens da igreja católica e os das denominações evangélicas. Logo os chefes preocupados se porão a incentivar todos a votar contra esse partido. Estamos seguros de facto que mesmo que esse partido quisesse a abolição da concordata com a igreja católica e tirar-lhe o poder temporal eles se alinhariam neste caso junto com os Católicos contra esse partido. E porquê isto? Porque as denominações evangélicas são pequenos papados que têm também elas o seu ‘património’ que não chamam porém de São Pedro mas é contudo ainda um património que amam muito porque é o seu orgulho e a sua força; e têm também eles os seus papas que sabem como mover-se nas esferas políticas para tutelar os seus privilégios e os ingentes bens eclesiásticos dos quais são representantes perante o Estado. Eles estão em contacto com ministros, homens políticos de um certo peso, e sabem como apresentar a sua causa. Eis algumas razões pelas quais os crentes não devem formar denominações porque elas levam aqueles que fazem parte delas a ensoberbecer-se e acabam por tornar-se pequenos papados que se imiscuem nas questões políticas para tutelar os seus interesses e os seus privilégios. E depois nunca se deve esquecer da ingerência estatal nas igrejas que fazem parte de uma denominação. Eu sei que os que fizeram o acordo com o Estado afirmam que o Estado não se ingeriu nos assuntos espirituais das ‘suas’ igrejas, mas isso é falso e para demonstração disto basta ler o seu estatuto e o seu regulamento interno. De facto, puseram por escrito, para comprazer ao Estado, muitos preceitos e regras humanas que anulam a Palavra de Deus, contrastam e contristam o Espírito Santo. Naturalmente é necessário conhecê-la a Palavra de Deus e andar pelo Espírito para poder dizer que essas regras anulam a Palavra de Deus e contrastam e contristam o Espírito do Senhor, de outro modo acaba-se por não fazer nenhum caso. Deus querendo demonstraremos isto numa outra ocasião; não agora. Mas aliás o que se pode esperar da autoridade terrena deste mundo que jaz todo no maligno? Que deixe a Igreja de Deus organizar-se seguindo em toda maneira e em todas as coisas a Palavra de Deus? Não, mas que exija desta que é um organismo perfeitamente estruturado e ligado por Deus em toda a parte que se conforme (se ela quiser adquirir a personalidade jurídica) a um seu esquema bem preciso que é o das organizações humanas. O Estado terá todas as suas boas razões para oferecer a personalidade jurídica só às igrejas que decidam estruturar-se da maneira em que ele quer, isso não lhe o contestamos. Mas a Igreja de Deus deve recusar querer tornar-se uma entidade jurídica porque não necessita deste reconhecimento para servir a Deus neste mundo. Ela pode passar muito bem sem tal reconhecimento: basta considerar por exemplo que em Itália sob a perseguição fascista quando as igrejas eram definidas pelo governo seitas perigosas e não tinham todos estes privilégios e reconhecimentos de hoje conseguiram muito bem continuar a reunir-se para oferecer o culto a Deus, para ouvir a pregação da Palavra, e faziam boas obras. Se puderam servir a Deus aqueles nossos irmãos no meio de todas aquelas adversidades que lhes vinham do governo por que é que hoje quando o governo não nos persegue não poderemos servi-lo também nós sem ser reconhecidos entidade jurídica pelo Estado, sem todos os privilégios que outrora era impossível receber do Estado? Ah, dizem os sustentadores da Entidade Moral, mas com o reconhecimento jurídico se consegue servir melhor o Senhor? Não, vos enganais grandemente, porque não é com o apoio do Estado que se serve melhor a Deus mas com o apoio do Omnipotente quando há o seu testemunho que confirma o nosso. Ou seja, quando Deus opera sinais, prodígios e maravilhas várias e distribui os seus dons para confirmar a sua palavra. Eis em que condições se serve melhor o Senhor e as almas são abaladas pelo anúncio do Evangelho. Mas infelizmente hoje há na maior parte a corrida atrás dos reconhecimentos e dos privilégios estatais em vez do intenso desejo dos dons espirituais, da manifestação do Espírito Santo. E assim muitos acabaram por esquecer-se da utilidade dos dons do Espírito Santo, das revelações divinas, dos sinais e dos prodígios de Deus. Acabaram por esquecer-se que a Igreja em Jerusalém nos dias dos doze apóstolos multiplicava e prosperava não em virtude de reconhecimentos e favores estatais, porque destes não tinham antes eram duramente perseguidos, mas em virtude do poder de Deus que estava com ela, em virtude do amor que reinava no coração dos irmãos pelo Espírito Santo. Eis uma outra coisa que é necessário nunca esquecer que fazia prosperar a Igreja antiga, o amor verdadeiro e sincero presente no coração daqueles pobres e afligidos irmãos. Amor que estava presente porque eles estavam verdadeiramente cheios de Espírito Santo e andavam seguindo os seus desejos. E aqui devo dizer que é só quando se está cheio de Espírito e se anda por Ele que se pode ter esse amor abundante pelo Senhor e pelos irmãos. E hoje é precisamente isto que falta na maior parte; a plenitude do Espírito e o andar pelo Espírito, eis qual é a causa da falta de amor que tanto se sente no meio do povo de Deus nestes tempos tão difíceis. Não, não é portanto organizando-se como quer o Estado que se servirá melhor o Senhor; esta é uma ilusão, e desta ilusão colhem dela os frutos amargos todos aqueles, sejam anciãos ou jovens, que se apoiam sobre estes vãos raciocínios. Ninguém vos seduza irmãos; mantei-vos apegados ao ensinamento da Escritura; segui o exemplo dos apóstolos e Deus será convosco. Mas não desçais ao Egipto para receber o favor de Faraó, para vos refugiardes à sombra das suas asas; porque este vosso acto se vos tornaria em vossa vergonha [40]. Como a igreja católica romana muitas vezes ficou envergonhada precisamente por aqueles debaixo dos quais se tinha refugiado e a quem tinha oferecido dinheiro e apoio espiritual para salvaguardar os seus interesses patrimoniais, porque se sabe que à frente de uma nação não fica sempre o mesmo governo e até o mesmo governo pode revogar os favores concedidos a um grupo de pessoas [41], assim todos os que buscaram o favor do Estado do meio do povo de Deus virá o dia que verão o seu aliado virar-lhes as costas. Quando subir ao governo um homem como Mussolini ou Stalin vereis o que sucederá a todos os vossos privilégios e reconhecimentos. E isso o fará Deus para corrigir-vos e fazer-vos entender como a ajuda verdadeira e duradoura que nunca faltará é a sua e não a do Estado em quem vós confiais.

2) A Igreja de Deus deve vigiar continuamente para não cair nas armadilhas que o inimigo lhe prepara sobre a sua estrada.

Uma das maneiras em que o diabo tenta a Igreja é esta: procura fazer-lhe crer que a perseguição por parte do Estado é algo de desonroso e que por isso é necessário fazer apelo ao Estado para que deixe de ter esta atitude em relação a ela. Cuidai irmãos de vós mesmos, porque em nenhuma parte na Palavra de Deus se diz que é um mal para os santos serem perseguidos pelo mundo, antes o apóstolo Paulo dizia que ele sentia prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas perseguições, nas necessidades por amor de Cristo porque quando estava fraco então era forte. Hoje, ao invés muitos fazem o contrário; se lamentam das perseguições, das necessidades, das injúrias por causa de Cristo porque pensam que não convém a eles um tal tratamento por parte das autoridades (ou por parte daqueles que não são autoridades). E assim procuram forçar o governo a emanar leis em seu favor. E nestas tentativas aplicam o lema dos Jesuítas: ‘o fim justifica os meios’. A perseguição contra eles tem que acabar; também eles querem ter a ‘liberdade de culto’ que tem a igreja católica romana, ou os Maometanos ou os Budistas se estão em países muçulmanos ou budistas. Este é um grave erro em que caíram muitos no curso dos séculos porque é precisamente quando a Igreja é perseguida que se manifesta o poder de Deus em favor dos seus, quando todos estão contra ela, quando até as autoridades se alinham contra ela então Deus faz ver os sinais do seu favor em prol do seu povo; milagres, curas, libertações de endemoninhados, libertação do cárcere, libertação de perigos de morte de vários géneros. E depois normalmente quando se enfurece contra a Igreja a perseguição os crentes têm a possibilidade de comparecer perante as autoridades por causa das acusações movidas contra eles e têm a possibilidade assim de dar testemunho da sua fé diante de pessoas que não poderiam alcançar em tempo de paz. E mesmo que alguém fosse morto por causa da sua fé em Cristo, a sua morte levaria outros a crer em Cristo ou os crentes a se fortalecerem no Senhor. E depois a perseguição contra a Igreja é sempre uma oportunidade para a Igreja demonstrar ao mundo que ela procura o bem das pessoas e não o seu mal porque lhe fornece a ocasião de perdoar os inimigos, de fazer bem aos que a perseguem, o que contribui para a glória de Deus por um lado e por outro redundará também em louvor dos perseguidos naquele dia quando o Senhor Jesus se manifestar. E além disso a santa conduta dos perseguidos em relação aos seus inimigos servirá para tapar a boca aos adversários que caluniam a sua boa conduta. Mas depois, e isto o se tenha bem presente, a perseguição alimenta sempre o amor dos crentes porque os leva a se procurarem, a se ajudarem, a se achegarem em vez de a se desunirem. O que não acontece na maior parte dos casos quando pelo contrário a Igreja possui reconhecimentos e privilégios: é um dado de facto que ninguém pode desmentir. Uma outra armadilha que o inimigo prepara contra os crentes é a de procurar empurrá-los a aceitar preceitos humanos que se desviam da verdade como se aceita a Palavra de Deus. A reacção deve ser portanto a de rejeitar estes preceitos, não importa por quem foram introduzidos, não importa se por anos ou décadas ou por séculos se fez ou pensou assim, eles devem ser rejeitados porque fazem parte das tradições humanas que anulam a Palavra de Deus. É necessário desenraizá-las para impedir-lhes de continuar a dar os seus frutos venenosos porque são a ruína dos crentes. E não se esqueça que as tradições humanas têm nelas um gérmen que as leva a multiplicar-se automaticamente; a igreja católica romana ensina isto abundantemente. Portanto irmãos, se quereis que a Palavra de Deus não continue a ser sufocada por estes preceitos humanos, deveis logo rejeitá-los. Se quereis uma reforma dos costumes, se quereis ver o povo voltar ao Senhor, deveis portanto eliminar qualquer comportamento ou modo de raciocinar que não encontra confirmação na Palavra de Deus.

3) A Igreja de Deus não deve adequar a sua mensagem aos costumes da gente do mundo começando a tolerar este ou aquele outro pecado para açambarcar o seu favor e a sua amizade.

As pessoas do mundo jazem todas no maligno que é o príncipe deste mundo e por isso jazem nas trevas. Só o povo de Deus jaz na luz e portanto ele deve iluminar o mundo, quer pregando-lhe a sã doutrina quer praticando-a sem de modo algum misturá-la com as coisas corrompidas e perversas das gentes que são trevas. Se, pelo contrário, a Igreja se conforma ao mundo então a Igreja tornar-se-á como uma prostituta que gerará filhos de prostituição que levarão as pessoas do mundo a amaldiçoar a Palavra de Deus porque não a verão observada nem por aqueles que se dizem a assembleia dos eleitos de Deus.

4) A Igreja de Deus deve aborrecer a ignorância das sagradas Escrituras.

Isto o deve fazer porque a falta de conhecimento dos Escritos sagrados constitui para o diabo um forte apoio para a sua obra de sedução porque mantendo escondida a Palavra de Deus aos crentes pode fazer-lhes aceitar senão todas as suas mentiras pelo menos algumas, e vos asseguro que bastam poucas mentiras do diabo para pôr alvoroço na Igreja de Deus. Por isso irmãos vos exorto a investigar diligentemente as sagradas Escrituras e a examinar todas as coisas por meio delas. Aprendei a rejeitar tudo o que não é provável com a Escritura e a aceitar o que está em harmonia com o ensinamento dela.

5) A Igreja de Deus não se deve organizar como são organizadas as organizações humanas, ou seja hierarquicamente, em forma piramidal como se organizou a igreja católica romana.

Quando a Igreja se organiza sob forma de denominação com um presidente, um conselho geral, comités de zona etc. torna-se no falar um pouco como a igreja católica romana, no sentido que se põe a desprezar os que não fazem parte da sua mesma denominação dizendo ou fazendo perceber que fora da sua cerca não há salvação ou que os que não estão dentro do seu grupo denominacional e não querem entrar a fazer parte dele não são irmãos mas apenas amigos (e por vezes chegam a dizer que nem amigos são). O presidente de uma organização pentecostal italiana se permitiu a dizer a um irmão que se eles não entravam na sua denominação não os chamaria irmãos cristãos mas sim amigos cristãos. Não faz o mesmo a igreja católica romana para com os que não estão no seu interior? Não nos chama porventura os outros Cristãos mas fazendo presente que não possuímos a plenitude dos meios de salvação? Mas como no caso da igreja católica romana importa dizer que no seio destas denominações que tanto se gloriam da sua história secular ou decenal acontecem coisas horripilantes a todos os níveis. Já se perderam a conta dos escândalos tanto dos seus presidentes como dos pastores sob a sua direcção. Há um grande número de pessoas que raciocinam como os Jesuítas também no seio das ‘hierarquias eclesiásticas’ das denominações não importa se pentecostais, batistas, valdenses etc. O fim justifica os meios; a mentira, a falsidade, a duplicidade, os enganos, dinheiro dado por baixo da mesa, a tolerância dos homossexuais, do aborto, do divórcio e das segundas núpcias, e dos divertimentos são tudo coisas que se podem praticar basta que o fim seja o de trazer mais pessoas ao local de culto ouvir a Palavra de Deus, mais ofertas para levar avante a obra de Deus, etc. Os Jesuítas dizem fazer tudo ad majorem Dei gloriam, e eles dizem para a glória de Deus. Mas como se pode pensar praticar o mal para a glória de Deus? Ah, este jesuitismo que serpenteia no meio do povo de Deus quanto dano fez e continua a fazer! desde o menor até ao maior, cada um deles se dá à avareza, sedentos de poder temporal e não de poder espiritual (dons do Espírito Santo), estão em concorrência entre eles e fazem toda a sorte de agravo uns aos outros. Rasteiras, cotoveladas, são tudo coisas na ordem do dia na vida destes que correm atrás do vento. Sim, porque no fim a sua é uma corrida atrás do vento porque diz Moisés que o orgulho deles é canseira e enfado. Ai deles levarão a pena da sua iniquidade, da sua arrogância, da sua inveja, e da sua falsidade. De Deus ninguém pode escarnecer, porque a pedra voltará sobre aquele que a revolve, e o que cava uma cova cairá nela. Mas estes pensam que assim não aconteça. Se iludem, para dano da sua alma. Mas chegará o dia em que o Senhor trará à luz as suas obras iníquas e então todos verão que Deus nunca aprovou o modo de agir perverso destes ‘Jesuítas evangélicos’ mesmo se talvez durante as suas reuniões alguém se converteu ouvindo a Palavra de Deus e o local de culto em que presidiam ao Domingo estava cheio ou a abarrotar. Tudo isto faz parte dos frutos amargos que dá a organização eclesiástica quando esta reflecte cânones humanos e não a Palavra de Deus. Portanto, tenha-se presente isto: é preciso que haja organização na Igreja doutra forma cada um faria aquilo que bem lhe parece e agrada e reinaria a anarquia e a desordem em vez da ordem, da união e da paz. Mas esta organização deve ser conforme à organização da Igreja antiga assim como a encontramos escrita nos Actos, nas epístolas e no Apocalipse. Organização que é confirmada pelo Espírito Santo e portanto não o contrasta e não o contrista. Afastar-se desse exemplo significa fazer compromissos de todo o género e encher-se de ais e de dores. E creio que a igreja católica romana faça compreender claramente quais são as consequências amargas dos compromissos feitos para defender os próprios interesses e privilégios terrenos. Hoje muitos reconhecem que é preciso um avivamento no seio das denominações pentecostais porque vêem que já reina a formalidade e a mundanidade no seu meio, e este é um bom sentimento, se por avivamento não se entender apenas mais pessoas que se convertem e vêm ao local de culto mas também a presença do testemunho de Deus em acréscimo ao dos seus servos, ou seja, a presença de sinais, prodígios, maravilhas várias e dons do Espírito Santo, a presença do amor de Deus entre os irmãos, da prática da justiça de Deus, da santificação e da humildade tão rarefeita hoje. Mas eu quereria perguntar a estes: ‘Mas nunca pensastes que a organização denominacional seja um dos motivos que impedem os crentes de voltar a andar pelas veredas antigas? Reflecti nas consequências que trouxe a denominação com todos os privilégios estatais e vereis que enquanto não decidirdes renunciar também vós ao vosso papado não poderá haver nenhum retorno sincero ao Senhor porque este retorno será barrado por muitos e muitos impedimentos que encontram a sua raiz na organização humana. E mesmo que houvesse um princípio de retorno ao Senhor no seio de uma denominação por parte de uma comunidade de crentes isso não seria bem visto pela ‘cúria evangélica’ porque um verdadeiro retorno ao Senhor de uma Igreja significa perder o controlo dela. Os vértices procurariam logo sufocar o avivamento. Mas não conseguiriam porque o verdadeiro avivamento é incessante; poderão obstaculizá-lo mas não detê-lo. O vento soprará impetuoso; quem procurar detê-lo será definido um insensato. E assim tereis que sair da denominação; não haverá outra escolha. Permanecer dentro significaria a ruína do avivamento. Mas vigiai para que uma vez saídos não caiais na mesma armadilha da qual saístes; isto é, cuidai para não formar vós uma outra denominação. Permanecei organizados exclusivamente a nível local, com um pastor, anciãos e diáconos, e continuai a servir o Senhor na simplicidade do vosso coração sem o mínimo desejo de agradar a este mundo perverso.

6) Como os papas perseguiram os que punham em discussão a sua autoridade temporal e espiritual (quando por exemplo estes se arrogavam o direito de poder depor os reis e desligar os súbditos do juramento de fidelidade para com os seus soberanos, ou diziam ser infalíveis e não julgáveis por parte de ninguém, etc.) e se punham contra as doutrinas que não têm nenhum fundamento na Escritura porque eram invenções humanas e que a igreja católica romana pregava, e reprovavam a sua conduta dissoluta, assim também hoje os presidentes das denominações que são pequenos papas fazem o mesmo com os que reprovam a sua arrogância, que reprovam as doutrinas por eles ensinadas que não têm fundamento na Escritura.

Estão à cabeça de um império terreno, têm o apoio da autoridade estatal, e portanto se sentem em segurança e livres para poder difamar ou agir em outras maneiras contra todos aqueles que lhes dão fastio, que segundo eles põem em perigo com os seus escritos e as suas palavras a união da Igreja (um pouco como quando os papas se atiraram contra os reformadores acusados por eles de estragar a vinha de Deus). Ora, é verdade que alguns estão contra a Igreja porque pregam heresias de perdição e doutrinas que embora não sejam de perdição são sempre maléficas, e por isso devem ser admoestados severamente. Mas é também verdade que alguns não estão de modo algum contra a Igreja ensinando certas coisas mas apenas contra a mentira, a falsidade e a arrogância, e a mundanidade mas infelizmente aos olhos de alguns são gente que provoca divisões e que não amam os irmãos, quando não é assim. Estes naturalmente a quem dão fastio? Aos que querem que as coisas permaneçam de uma certa maneira e vão avante de uma precisa maneira por interesses pessoais e denominacionais. E por isso é inevitável que eles sejam perseguidos por esta categoria de pessoas. Considerai de perto o comportamento dos papas e vereis que também neste caso se encontram fortes semelhanças com o comportamento de alguns que se dizem Evangélicos.

7) Deus é maior do que o homem e como a seu tempo arranca das goelas do papa católico os que ele predestinou a serem justificados, assim a seu tempo arranca das mãos destes ‘papas evangélicos’ os que ele decidiu iluminar para fazer-lhes entender que eles foram resgatados por preço para servir a Deus na simplicidade do seu coração seguindo os seus mandamentos, e não para se tornarem de novo escravos de homens que têm a aparência de servidores de Deus mas na realidade são servos do seu ventre porque provocam escândalos de todo o género e as dissensões contra o ensinamento que recebemos dos santos apóstolos.

A Deus o nosso Salvador que na sua graça nos trouxe à obediência da fé e nela nos faz firmes seja a glória agora e eternamente. Amen.

 

 

 

NOTAS

 

[1] A palavra deriva do grego oikoumene que significa ‘terra habitada’. Por ecumenismo se entende o processo ou o esforço empreendido e levado avante por diferentes partes (tanto por parte católica como protestante) que tem como objectivo o de unir todas as igrejas.

 

[2] E para perceber que as coisas na realidade em nada mudaram, embora parecesse o contrário, basta considerar que a igreja católica romana após o concílio Vaticano II se recusou de entrar a fazer parte do Conselho Ecuménico que tem a sua sede em Genebra. Paulo VI na sua histórica visita ao Conselho ecuménico em Genebra (1969) declarou logo: ‘O meu nome é Pedro’.

 

[3] Porventura alguém dirá que em comum com os Católicos temos o Evangelho, mas não é assim porque eles não pregam o mesmo Evangelho que anunciou Cristo Jesus primeiro e depois os apóstolos, mas um outro Evangelho que não pode salvar ninguém. E creio isto tê-lo amplamente demonstrado.

 

[4] Robeck e todos os que pensam como ele enganam-se a si mesmos e demonstram não conhecer (ou fingir não conhecer) a doutrina católica sobre o batismo, e também de em nada ter em consideração o ensinamento da Palavra de Deus sobre o batismo.

 

[5] COLABORADORES. NOVO TESTAMENTO.

Tradutores:

a - católicos: Carlo Buzzetti, Carlo Ghidelli

b - evangélicos: Bruno Corsani, Bruno Costabel

Revisores:

a - católicos: Giovanni Canfora, Mario Galizzi, Carlo Maria Martini, Renzo Petraglio

b - evangélicos: Otto Rauch, Alberto Soggin

Consultores permanentes:

a - católicos: Sofia Cavalletti, Settimio Cipriani, Paolo De Benedetti, Franco Festorazzi, Enrico Galbiati, Massimo Giustetti, Michele Pellegrino, Maria Vingiani

b - evangélicos: Piero Bensi, Luciano Deodato, Edoardo Labanchi, Fausto Salvoni, Luigi Santini, Francesco Toppi.

Nota do tradutor: O papa dos católicos faz-nos saber que "foi precisamente a esta tradução que se recorreu, durante a celebração da XV Jornada Mundial da Juventude, realizada em Roma no mês de Agosto do ano passado (2000), assim como em muitas outras iniciativas ecuménicas levadas a cabo durante o Jubileu" (Discurso do santo padre a uma delegação da aliança Bíblica Universal e da Sociedade Bíblia Italiana, cidade do vaticano, 21 de Novembro de 2001)

 

[6] David Du Plessis (morto em 1987) em 1962, por causa da sua actividade ecuménica, tinha sido removido das Assembleias de Deus americanas que lhe tinham retirado as credenciais junto daquela denominação. Mas ele foi completamente readmitido nas Assembleias de Deus americanas em 1979 quando lhe foram restituídas as credenciais. Em 1981 David Du Plessis escreveu que se tinha posto a orar pelo papa quando soube da notícia que o ‘Vigário’ de Cristo tinha sido baleado. Em 1983 Du Plessis foi convidado a Roma para receber a medalha Benemerenti por João Paulo II e pelo cardeal Willebrands. No seu livro Simple and Profound (Simples e Profundo) ele chegou a dizer que depois de ter ido a Medjugorje e ter falado com as crianças que recebiam aparições de Maria ‘não tive mais alguma dúvida sobre a autenticidade e sobre a validade da aparição’ (David Du Plessis, Simple & Profound, Orleans Mass., 1986, pag. 202). Desgosta verdadeiramente constatar que um homem como David Du Plessis que um dia tinha nascido de novo e tinha também recebido o batismo com o Espírito Santo e visto o Senhor operar poderosamente na África do Sul tenha ficado seduzido pelas doces palavras ecuménicas do papado e por amor de ‘unidade’ tenha atirado para trás das costas parte do conselho de Deus. Mas isto aconteceu para nos servir de exemplo, para que compreendamos quanto seja perigoso e prejudicial dialogar (da maneira em que quer a igreja católica naturalmente) com os teólogos papistas partindo do pressuposto que também eles são irmãos em Cristo.

 

[7] Tinha sido o cardeal Bea, que era presidente do Secretariado para a união dos Cristãos, a convidá-lo como único observador pentecostal no concílio Vaticano.

 

[8] Assemblies of God = Assembleias de Deus; Church of God = Igreja de Deus; Pentecostal Assemblies of Canada = Assembleias Pentecostais do Canadá; Apostolic Faith Mission = Missão da Fé Apostólica; International Church of the Foursquare Gospel = Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular; Church of God of Prophecy = Igreja de Deus da Profecia

Se note que haviam três membros (de primeiro plano) das Assembleias de Deus americanas. Cecil Robeck é professor no Fuller Theological Seminary de Pasadena (Califórnia); Gary McGee é professor de História da Igreja no Seminário teológico das Assembleias de Deus em Springfield, Missouri; e Del Tarr é director da escola bíblica e da Faculdade de teologia das Assembleias de Deus americanas. Considerando portanto que esta denominação pentecostal americana condiciona de uma maneira ou de outra as Assembleias de Deus das outras nações entre as quais a presente em Itália, é de se esperar que no futuro se vejam entrar neste diálogo católico-pentecostal internacional (ou talvez inicialmente num diálogo oficial a nível nacional) também pastores das Assembleias de Deus italianas e das outras nações. Por agora nas Assembleias de Deus italianas tem prevalecido a parte mais prudente pelo que elas recusam aderir a um diálogo oficial com os Católicos romanos, mas infelizmente existem sinais que deixam os Católicos esperar que também elas de alguma maneira se abrirão ao diálogo. Matteo Calisi, responsável nacional do Renovamento no Espírito Santo e Co-Presidente da Consultação Carismática Italiana, afirmou de facto: ‘Noto que uma atitude mais sensível às razões do mundo carismático se vai desenvolvendo nas ADI sobretudo entre os jovens, e me parece que este seja um sinal positivo para o futuro. Alguns membros das ADI participaram em nossos encontros a título estritamente pessoal, sem representar oficialmente a sua denominação. Alguns músicos das ADI colaboraram com o Ministério nacional da música do Renovamento italiano, tanto tocando na orquestra como efectuando gravações discográficas. Também estes são pequenos sinais de esperança, e certamente desejo que um diálogo deste género possa prosseguir numa escala mais vasta no futuro’ (Massimo Introvigne, Aspettando la pentecoste, Padova 1996, pag. 58). Também o facto de o nome de Francesco Toppi, o actual presidente das ADI, comparecer entre os consultores permanentes que participaram na redacção da versão da Bíblia interconfessional (1986), que como vimos é inconfiável porque catolicizada, é um mau sinal que infelizmente deixa os Católicos romanos esperar uma futura abertura ao diálogo com as ADI.

 

[9] Em setembro de 1995 o Grupo Associado de Trabalho entre o Conselho Mundial das Igrejas e a Igreja Católica Romana apresentou um documento de título The Challenge of Proselytism and the Calling to Common Witness (O Desafio do Proselitismo e a Chamada ao Testemunho Comum) cujo objectivo ‘é encorajar todos os Cristãos a perseguir a sua chamada para dar um comum testemunho do objectivo salvífico e reconciliador de Deus no mundo de hoje e de ajudá-los a evitar toda a competição na missão que contradiz a sua comum chamada’ (The Ecumenical Review [A Revista Ecuménica] , 48,2, 1996, pag. 213). Faço presente que do Conselho Mundial das Igrejas fazem parte também algumas denominações pentecostais. A Iglesia Pentecostal de Chile e a Misión Iglesia Pentecostal (filiadas em 1961), The International Evangelical Church (A Igreja Evangélica Internacional, filiada em 1972), a Iglesia de Dios (denominação argentina filiada em 1980), a Missão Evangélica Pentecostal de Angola (filiada em 1985) e a Iglesia de Misiones Pentecostales Libres de Chile (filiada em 1991). A Igreja Evangélica Pentecostal ‘O Brasil para Cristo’ esteve filiada ao Conselho Mundial das Igrejas entre 1969 e 1986.

 

[10] O beijo dos pés não o recebeu só Traettino nesse encontro mas o receberam também outros pastores evangélicos; isto aconteceu no fim da procissão ecuménica em que também Traettino tinha levado a cruz. Reportamos a tal propósito quanto se lê no periódico Rinnovamento nello Spirito Santo [ Renovamento no Espírito Santo] de Maio-Junho 1996: ‘Momento de intensa comoção foi o da procissão ecuménica que apanhou na sequela da cruz, levada alternativamente por todos, os representantes das diversas confissões cristãs (mais de dez) presentes nesta Convocação. Este momento culminou no beijo dos pés e no abraço que o Comité Nacional de Serviço do Renovamento no Espírito Santo e os bispos Bregantini, Chiaretti e Casale trocaram com os irmãos reencontrados’ (pag. 7). Por quanto respeita aos nomes dos outros Evangélicos que participaram nesse encontro assinalo alguns destes, assim como os leio na supracitada revista: rev. Emilio Ursomando, pastor pentecostal da Comunidade Cristã de Reggio Calabria; Dr. Geoffrey Allen, ancião da Comunidade Cristã de Pavia; Dr. Ernesto Bretscher jr., pastor evangélico da Comunidade Cristã de Turim e secretário do Conselho das Igrejas de Turim; rev. Massimo Loda, pastor da Comunidade Cristã de Pavia, responsável das Igrejas evangélicas do norte de Itália (cfr. pag. 5).

 

[11] Mas como se pode afirmar que Jesus flagelou os Judeus? Jesus fez apenas um azorrague de cordéis e expulsou todos do templo, ovelhas e bois (cfr. João 2:15); isto não se pode chamar flagelação. A flagelação era uma coisa completamente diferente.

 

[12] Outras passagens que testificam que é contrário à doutrina de Cristo fazer algum mal aos que não obedecem ao Evangelho de Cristo por nós pregado (e portanto que se opõem a nós) ou que se desviaram da verdade são estas. Quando aqueles Samaritanos não quiseram receber Jesus na sua aldeia porque ele viajava em direcção a Jerusalém, e Tiago e João perguntaram a Jesus se queria que fizessem descer fogo do céu e os consumisse, Jesus "voltando-se, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-las" (Lucas 9:55,56). Paulo diz para não nos vingarmos a nós mesmos mas para dar lugar à ira de Deus porque a vingança pertence a Ele (cfr. Rom. 12:19); Tiago diz que " a ira do homem não opera a justiça de Deus" (Tiago 1:20); Pedro diz para não retribuir mal por mal ou injúria por injúria (cfr. 1 Ped. 3:9).

Os santos foram chamados a ser perseguidos e a sofrer pelo Senhor, e não para perseguir e fazer sofrer aqueles que não querem crer ou que se desviaram da fé e da verdade, para induzi-los a aceitar a verdade. ‘Perseguir’ estes cabe ao Senhor; quero dizer, que cabe ao Senhor usar a força e o terror contra aqueles que não lhe obedecem, a fim de corrigi-los, e fazer-lhes aceitar a verdade, mas a sua força, o seu terror. Ele sabe como fazer; vos recordais de Saulo de Tarso? Perseguia de morte os santos, era obstinado em seu coração, no entanto Deus conseguiu com a sua força e o seu terror, fazer-lhe aceitar a verdade? Nenhum homem alguma vez teria podido persuadir com a força o hebreu Saulo a aceitar o Evangelho, mas conseguiu o Senhor. Ora, se o Senhor conseguiu converter um semelhante homem nós cremos que conseguirá converter qualquer homem que não o conhece e o odeia, e qualquer crente que depois de ter conhecido a verdade se desviou dela. A nossa confiança está na sua força e não na do homem. Certamente nem todos os pagãos e nem todos os que se desviaram da verdade aceitarão a verdade, porque até ao fim haverão incrédulos e desviados; mas isto não desperta nenhuma preocupação em nós porque sabemos que Deus retribuirá aos impenitentes como merecem quer sobre a terra quer naquele dia; isto é, lhes fará achar o salário da sua conduta. Ele é o Deus das retribuições; tenhamos confiança na sua justiça.

 

[13] A propósito do massacre dos habitantes de Béziers, ocorrido em 1209, sucedeu que o legado do papa - abade Arnoldo da ordem dos Cistercienses - a quem se lhe perguntava se se deviam poupar os Católicos, temendo que os heréticos pudessem fugir fazendo-se passar por Católicos, deu esta resposta: ‘Matai-os todos. Deus saberá bem reconhecer os seus’. No relato que depois este abade fez ao papa se lê: ‘A cidade tomada de assalto, os habitantes todos massacrados; não poupámos nem posição, nem sexo, nem idade; cerca de 20.000 pessoas pereceram pela espada: a cidade inteira despida e queimada fervendo de modo maravilhoso contra ela a vingança de Deus’.

 

[14] Sob o impiedoso Inocêncio III, o concílio Latrão IV (1215), que é chamado sacrosanto porque é afirmado que ele se reuniu no Espírito Santo, a propósito do tratamento a reservar aos heréticos confirmou e reforçou o decreto do concílio de 1179, de facto, decretou quanto se segue: ‘Condenamos todos os heréticos, sob qualquer nome; eles têm rostos diferentes, mas as suas caudas estão fortemente unidas umas às outras, porque convergem todos num ponto: sobre a vaidade. Os heréticos condenados sejam abandonados às potestades seculares ou aos seus beleguins para serem punidos com penas adequadas (...) Sejam depois admoestadas e, se necessário, obrigadas com censura as autoridades civis, de qualquer grau, para que, se desejarem ser estimadas e cridas fiéis, prestem juramento de defender publicamente a fé; que eles, a saber, procurarão conscienciosamente, nos limites das suas possibilidades, exterminar das suas terras todos aqueles heréticos que tenham sido declarados tais pela igreja (...) Os católicos que, tomada a cruz, se armarem para exterminar os heréticos, gozam das indulgências e dos santos privilégios, que são concedidos aos que vão em auxílio da Terra Santa’. (Concílio Lateranense IV, cap. III). Eis qual era o sentimento do papado para com os que dissentiam dele sob Inocêncio III. Como se pode bem ver, pelas referidas declarações está ausente da maneira mais absoluta aquele sentimento de amor e de compaixão que a Igreja de Deus deve, por mandado do seu fundador, nutrir pelos que se desviam da verdade, na esperança que, utilizando as armas da nossa guerra que não são carnais mas espirituais, Deus lhes conceda o arrependimento e o reconhecimento da verdade.

 

[15] Quanto este papa era cruel e impiedoso com os Protestantes é testificado pelo facto de que quando mandou a França o conde de Santafiore à cabeça de um pequeno exército para ajudar os Católicos franceses deu a este a ordem ‘de não fazer prisioneiro nenhum huguenote, e de matar logo qualquer um que lhe caísse nas mãos’ (Leopold Von Ranke, Storia dei papi [ História dos papas] , Firenze 1959, pag. 269-270). Depois ele ‘se doeu do conde não ter observado a ordem dele de matar logo qualquer herético que lhe chegasse às mãos’ (Leopold Von Ranke, op. cit., pag. 285). Quanto ele se comprazia do extermínio dos Protestantes é testificado também pelo facto de ele ter enviado em recompensa o chapéu e a espada benzidos ao cruel duque de Alba, pelas suas chacinas praticadas nos Países Baixos no tempo de Filipe II (cfr. Leopold Von Ranke, op. cit., pag. 270, 428-430). Estima-se que durante os seis anos de governo do duque de Alba (1567-1573) teriam sido executadas de seis a oito mil condenações capitais.

 

[16] Estas cartas e estas notícias foram citadas por Luigi Desanctis in Roma papale, Firenze 1882, Terceira ed., pag. 293, 294, 295. Este mesmo papa sanguinário enquanto se regozijava pela morte de milhares de Huguenotes por outro tratava com longanimidade o padre Guercino, sobrenomeado ‘o rei da campanha’, que se tinha feito culpado de 44 homicídios mas não por ‘zelo religioso’ mas somente para roubar e pela vontade de matar. Guercino foi pelo papa absolvido tanto espiritualmente como corporalmente!

 

[17] A história diz que entre eles houveram também homens abomináveis que ensinavam coisas perversas, se abandonaram à violência e à imoralidade, mas isso não deve induzir a pensar que todos os Anabatistas fossem como estes.

 

[18] Deve-se dizer infelizmente que os Anabatistas foram perseguidos também pelos reformadores Lutero, Melanchton, Bucero e Zwingli. A propósito deste último aprovou um édito emanado pelo conselho de Zurique em 1526 que ordenava que os que se faziam batizar ou que batizavam outros ‘deviam ser afogados sem misericórdia’. Este seu comportamento foi diabólico a par do da igreja papista; nem mais e nem menos.

 

[19] O texto da circular dizia: ‘Existem em algumas províncias do reino simples associações de facto que, sob a denominação de pentecostais ou pentecostieri ou neumáticos ou tremolanti, atendem a práticas de culto em reuniões geralmente presididas por ‘anciãos’. O culto professado pelas referidas associações, não reconhecidas em norma do artigo 2 da lei de 24 de Junho de 1929, n. 1159, não pode mais ser admitido no reino, segundo o artigo 1 da citada lei, visto que ele se manifesta e concretiza em práticas religiosas contrárias à ordem social e nocivas à integridade física e psíquica da raça. Portanto as Suas Excelências proverão logo para a dissolução, onde quer que existam, das associações em seu nome, e para o encerramento dos relativos oratórios e salas de reunião, dispondo consequentemente também sobre uma oportuna vigilância, com a finalidade de evitar que mais reuniões e manifestações de actividade religiosa por parte dos adeptos possam ter lugar em qualquer outro modo ou forma. Se agradecerá solícita asseguração do cumprimento’.

 

[20] É supérfluo que eu diga que todos aqueles que afirmaram não querer se submeter ao papado mas só à Palavra de Deus, e por isso rejeitaram a salvação por méritos humanos, o purgatório, a confissão, as indulgências e outras doutrinas de demónios da igreja romana de modo algum foram heréticos. Os heréticos eram antes os Católicos romanos que perseguiam os que pela graça de Deus tinham compreendido os enganos papistas, eram eles que se deviam converter, eram eles que se deviam arrepender.

 

[21] Já antes de Gregório, de qualquer modo, alguns concílios (o do Latrão de 1179, de Verona de 1184, e do Latrão de 1215), tinham decretado a perseguição contra os heréticos e o seu extermínio, pelo que se pode dizer que de facto a Inquisição já existia antes que este papa instituísse os tribunais inquisitórios.

 

[22] Entre os grandes Inquisidores espanhóis o mais terrível foi o frade dominicano Torquemada que de 1483 a 1498 inquiriu mais de cem mil pessoas das quais cerca de 10.000 foram condenadas à fogueira e muitas outras a prisão perpétua.

 

[23] Faço presente que a Inquisição nos séculos XIV e XV perseguiu também os blasfemos, os feiticeiros, os sodomitas, os adúlteros, os incestuosos, os usurários, e também os violadores do domingo. Em 1908 a Inquisição mudou de nome e tomou o de Santo Ofício; mas desde 1965 leva o nome de Congregação para a Doutrina da Fé.

 

[24] Para sustentar com as sagradas Escrituras a ‘salutar’ tortura a que era submetido o herético os teólogos papistas tomavam o exemplo de Paulo que entregou o homem que vivia com a mulher de seu pai a Satanás para perdição (ou destruição) da carne para que o espírito fosse salvo no dia de Cristo (cfr. 1 Cor. 5:1-5). Mas nós dizemos: ‘Mas é preciso ser verdadeiramente do diabo para sustentar com este juízo pronunciado pelo apóstolo Paulo a prática da tortura da Inquisição contra os heréticos!’ O apóstolo Paulo com esse seu gesto não confirmou a tortura papista contra os heréticos tanto é verdade que a Tito a propósito do homem faccioso lhe diz: "Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado" (Tito 3:10,11); notai que não lhe disse: ‘Depois da primeira e segunda admoestação tortura-o ou fá-lo torturar fisicamente para que caia em si mesmo e reconheça a verdade’, mas "evita-o". Portanto Paulo ordenou a Tito de admoestar e não de torturar ou mandar torturar os facciosos. A conclusão pois a que se chega é esta: os papas e toda a cúria romana que sustentaram a Inquisição demonstraram de não ter em nenhuma conta a Palavra de Deus, de desprezá-la. A eles que eram homens violentos e sanguinários, filhos do diabo seu pai de quem queriam satisfazer os desejos, importava só manter os homens debaixo do seu domínio para encherem os bolsos com o seu dinheiro; a salvação das suas almas não lhes importava absolutamente nada. Mas Deus é justo e como não deixou impune o sangue de Abel, o de Nabote, e o sangue dos profetas, mas o vingou, assim vingará o sangue de todos aqueles santos mortos pela Inquisição papista. Eles derramaram o sangue dos santos e Deus lhes dará sangue a beber; disto são merecedores. E para que ninguém pense que estamos prontos a condenar só as transgressões da igreja católica romana mas não as dos Protestantes, reitero com força que nós como filhos de Deus condenamos qualquer acto de violência, qualquer prepotência, qualquer tortura, qualquer incitamento ao extermínio dos Católicos romanos e de heréticos (verdadeiros ou só de nome e não de facto), realizado pelos Protestantes não importa se Luteranos, Calvinistas, Anglicanos, Huguenotes ou outro, porque de gente homicida filha do diabo que usou a violência contra os seus inimigos há muita também entre aqueles que foram definidos Protestantes.

 

[25] Para confirmação que era assim há as seguintes afirmações papais. Urbano II (1088-1099) afirmou: ‘Nós não consideramos homicidas aqueles que, movidos de zelo pela sua Mãe Católica contra as pessoas excomungadas, mataram algumas delas’. Leão X com a sua bula Exurges condenou como herética a seguinte afirmação de Lutero: ‘É contra o desejo do Espírito Santo que heréticos sejam queimados’. E depois há a seguinte afirmação do seu doutor ‘angélico’ Tomás de Aquino: ‘... Os heréticos merecem não só ser expulsos da Igreja pela excomunhão; eles merecem também ser tirados da vida pela morte’ (Suma Teológica II, II quest. XI, art. 3). E por fim esta do cardeal Barônio: ‘Santo Padre, duplo é o ofício de Pedro: Apascentar e matar, como o dito: ‘Apascenta as minhas ovelhas’ e como esse outro: ‘mata e come’. Quando entretanto o Papa tem que lidar com os obstinados, e com os adversários, então é mandado a Pedro matá-los e degolá-los, e depois comê-los’ (Epist. ao Papa contra os Venezianos). Assim sendo, a igreja papista se pôs contra Crisóstomo um dos seus pais que tinha dito: ‘Matar um herético seria introduzir na terra um crime inexpiável...’ (Homelia XLVI in Mattheum cap. I). Outro exemplo este de como a igreja papista contradiz também os seus pais quando lhe é cómodo. Mas como faziam os papas e os seus teólogos para sustentar com as Escrituras que os heréticos deviam ser mortos? Tomando as palavras da lei de Moisés onde é dito para não ter piedade nem de um próprio familiar no caso deste ter pregado a apostasia mas de matá-lo (cfr. Deut. 13:6-11) para tirar o mal do meio de Israel, e as palavras de Lucas que diz que Ananias e Safira morreram por terem mentido ao Espírito Santo. Por quanto respeita à lei de Moisés dizemos que Jesus veio para completá-la com a ordem de amar os nossos inimigos e por isso debaixo da graça não é permitido a nós crentes matar alguém que abandonou a fé porque deu ouvidos a doutrinas de demónios. O amor não faz mal ao próximo, diz Paulo. Isto não quer dizer que os apóstatas devem ser tolerados, porque eles devem ser afastados da irmandade e considerados como o gentio e o publicano. Pelo que respeita a Ananias e Safira dizemos somente que não foram os apóstolos a fazê-los morrer ou a decretar a sua morte, mas Deus que é justo e santo. Foi um seu juízo pelo que os apóstolos de modo nenhum se fizeram responsáveis pela sua morte. Aceitamos os juízos de Deus portanto também quando são juízos de morte porque são justos e são exercitados pelo Juiz dos vivos e dos mortos. Mas não aceitamos como justa uma condenação à morte contra um crente que apostata, ou torna-se um sodomita ou um feiticeiro, de um tribunal de uma igreja não importa se formado por cardeais ou bispos ou padres, ou por pastores e anciãos, porque Jesus disse: "Não condeneis" (Lucas 6:37). E não aceitamos nem ainda que um semelhante tribunal entregue o condenado à morte às autoridades civis para o matarem pensando assim não poder ser depois inculpado pela morte dele porque de facto um semelhante tribunal se faz participante do homicídio do condenado como se fizeram participantes os membros do Sinédrio do homicídio de Jesus praticado pelas mãos dos Romanos.

 

[26] Se tenha presente que os inquisidores condenavam também os mortos, com efeito, exumavam também os cadáveres dos presumidos réus de heresia, e condenavam os despojos a ser enterrados num lugar não sagrado, ou queimados, confiscando os bens aos herdeiros da primeira ou da segunda geração.

 

[27] Os principais pontos de acusação movidos contra Paleario restringiram-se aos seguintes quatro artigos: 1° Que ele negava o purgatório; 2° desaprovava a sepultura nas basílicas; 3° punha em ridículo a vida monástica; 4° dizia que bastava só a fé em Jesus Cristo para salvar-se, sem necessidade dos ritos e do culto católico romano.

 

[28] Antes de ser levado ao suplício foi-lhe concedido escrever cartas à sua mulher e aos seus filhos. Eis a carta endereçada à sua mulher Marietta Paleari: ‘Minha consorte caríssima, Não queria que tu sentisses desprazer do meu prazer, e levasses a mal o meu bem. É chegada a hora de eu passar desta vida para o meu Senhor e patrão e Deus. Eu vos vou muito alegremente às bodas do Filho do grande Rei, o que sempre pedi ao meu Senhor pela sua bondade e liberalidade infinita me concedesse. De maneira que, minha consorte dilectíssima, confortai-vos da vontade de Deus, e do meu contentamento, e atendei à familiazinha espantada que ficará, criai-a e guardai-a com o temor de Deus, e sede-lhe mãe e pai. Eu era já de setenta anos velho e inútil. Importa que os filhos com a virtude e com o suor se forneçam para viver honradamente. Deus Pai e o nosso Senhor Jesus Cristo e a comunhão do Espírito Santo seja com o vosso espírito. Roma, no dia 3 de Julho de 1570. Teu marido Aonio Paleario.

 

[29] Para a igreja católica romana morreu também ele herético impenitente. O cardeal Barônio o confirma dizendo nos Anais da Igreja: ‘Quando se viu claramente que este filho de Belial era obstinado e refractário, e que não se podia de algum modo fazê-lo voltar das trevas do erro à luz da verdade, foi merecidamente exposto às chamas, para que depois de ter sofrido neste mundo penas momentâneas, fosse sofrer as eternas’.

 

[30] A propósito de alguns inquisidores que praticaram estes ‘abusos’ é verdade que o papado faz presente que os puniu e os excomungou, mas para que serve dizer isto quando o sistema inquisitorial instituído pelos papas, que se definiam os vigários de Cristo, era iníquo do início ao fim porque era contrário à palavra de Cristo de quem eles diziam fazer as vezes? Os teólogos papistas fariam melhor em condenar em bloco a Inquisição e afirmar que aqueles que a instituiram e a executaram eram do diabo e não de Deus em vez de se porem a defendê-la com semelhantes raciocínios vãos que não fazem mais que contribuir para a sua desonra.

 

[31] Eis como se deviam comportar os Jesuítas quando faziam uma nova fundação em algum lugar: ‘Se guardem os nossos religiosos de comprar propriedades no princípio da fundação, mas se julgarem necessário comprar alguma, isso se faça com um nome emprestado de algum amigo fiel e secreto; e para que melhor resplandeça a nossa pobreza, os bens que estão próximos aos lugares nos quais temos os colégios, se atribuam pelo provincial aos colegas distantes; pelo que sucederá que nunca o príncipe ou o magistrado terão certa notícia dos proventos da Companhia’ (Secreta monita societatis Jesu - Le norme segrete della società di Gesù -, capítulo I, 5).

 

[32] Se considere que quando no décimo sexto século os Jesuítas foram à China levar ali o catolicismo para conquistar os chineses para o catolicismo, sabendo que eles eram muito apegados à sua religião e que nunca aceitariam o catolicismo se lhes fossem proibidos os ritos da sua religião, pregavam que os chineses podiam tornar-se ‘cristãos’ continuando a celebrar os seus ritos em honra de Confúcio e dos seus antepassados. E por esta razão se desencontraram com os missionários Dominicanos que estavam na China que tinham condenado aqueles ritos e declarado que eram incompatíveis com o ‘cristianismo’. Clemente XI (1700-1721) condenou aqueles ritos e ordenou que todos os missionários da China tinham que jurar detestar os ritos chineses e prometer nunca tolerá-los. Mas, enésima contradição entre os papas, em 1939 sob Pio XII a Congregação de Propaganda Fide declarou que os tempos tinham mudado e que os que se convertiam ao ‘cristianismo’ não tinham que renunciar ao culto dos antepassados.

 

[33] Sobre o furto, Casnedi, um seu teólogo, afirmava: ‘Deus não proíbe o furto senão quando ele é reconhecido como mau; mas quando é considerado como bom, não é proibido’ (Casnedi, Giudizi teologici [ Juízos teológicos] , tomo I, pag. 278). Apoiando-se sobre este diabólico ensinamento os Jesuítas se apropriaram no curso dos séculos pelo mundo inteiro dos bens alheios com a astúcia, sempre naturalmente ad majorem Dei gloriam. Por exemplo muitas vezes arrancaram com o engano para prejuízo dos legítimos herdeiros (entre os quais muitos foram por eles caluniados e depois feitos lançar na prisão) doações e testamentos. Tendo a autoridade de confessar quando se apresentavam no leito dos ricos que estavam a ponto de morrer e que confessavam terem enriquecido ilicitamente lhes diziam que se queriam salvar-se deviam dar o seu dinheiro aos santos no céu. E para sustentar isto tomavam as palavras de Jesus: "Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos" (Lucas 16:9); que eles interpretavam astutamente desta maneira: se eles davam as suas riquezas adquiridas ilicitamente aos padres ou aos frades em honra dos santos (fazendo-se desta maneira amigos dos santos no céu) ganhariam o paraíso. E assim acontecia que o moribundo não era exortado a arrepender-se e a reparar os danos feitos restituindo os bens àqueles que tinham sido por ele defraudados mas eram exortados a deixar os seus bens aos Jesuítas (e os legítimos herdeiros naturalmente ficavam sem nada). Mas esta não é senão uma das várias maneiras em que os Jesuítas enriqueceram à custa das pessoas fazendo recurso à astúcia. Deles se pode bem dizer o que diz Jeremias: "Fortalecem-se na terra, mas não para a verdade; porque avançam de malícia em malícia, e a mim não me conhecem, diz o Senhor" (Jer. 9:3).

 

[34] Eis como os Jesuítas deviam comportar-se com as viúvas ricas e com os homens ricos: ‘...se estas viúvas aceitarem semelhantes ofertas e começarem a visitar as nossas igrejas, se provejam as mesmas de um confessor dos nossos para dirigi-las, particularmente para fazê-las perseverar no estado viuval, enumerando e louvando os efeitos e a felicidade deste estado, e se façam os nossos padres fiadores desse eterno mérito que virão elas a adquirir conservando um tal estado, e de ser também um remédio muito eficaz para evitar as penas do purgatório’ (Secreta monita societatis Jesu - Le norme segrete della società di Gesù -, cap. VI, 1); ‘...Se descrevam ainda os vícios e os maus costumes de outros que aspirassem às suas núpcias, sempre que se aperceba o director que tais pessoas agradam à viúva, para que possa com todos aborrecer as segundas núpcias’ (op. cit., capítulo VI, 9); ‘Se visitem frequentemente, e se recreiem, e se alegrem com alegres discursos, e histórias espirituais, e ainda com gracejos segundo o humor e inclinação de cada uma’ (ibid., capítulo VII, 4); ‘Finalmente, desde que não haja perigo destas viúvas deixarem a afecção à sociedade e nos virarem as costas, antes prossigam a nos ser cada vez mais fiéis e liberais, se lhes conceda tudo o que pedem para satisfazer o prazer, o luxo e a sensualidade, mas moderadamente e sem escândalo’ (ibid., capítulo VII, 7); ‘Para induzir a mesma viúva a testar de tudo o que possui a favor da nossa Sociedade se proponha a perfeição do estado dos homens santos, os quais, abandonando o mundo e os parentes, e renunciando a todos os bens, serviram a Deus com grande resignação e gozo. Se exponham para este efeito todas as coisas que se dizem e se enunciam na constituição e no exame da Sociedade acerca desta renúncia de todos os bens que se possuem. Se lhes mostre os exemplos das viúvas que assim em pouco tempo tornaram-se santas, com esperança de canonização, porque de tal maneira perseveraram até ao fim da vida; e se demonstre às mesmas que não faltará a autoridade dos nossos religiosos junto do papa para efectuar esta canonização’ (ibid., capítulo VII, 10); ‘Todas estas coisas que se disseram das viúvas deverão executar-se ainda em ordem aos comerciantes, aos ricos cidadãos, aos casados privados de prole, dos quais a sociedade não raras vezes adquirirá toda a herança, se prudentemente se executarem estas regras’ (ibid., capítulo IX, 4); ‘Se suceder que as viúvas ou os ricos, adeptos da Companhia, tiverem filhas, procurem os nossos religiosos encaminhá-las docemente a eleger a vida devota ou religiosa, para que, deixando-lhes algum dote, o resto dos seus bens passe pouco a pouco para a Sociedade. Se tiverem filhos convenientes para a Sociedade, se procure atraí-los para a mesma...’ (ibid., capítulo IX, 8).

 

[35] Eis como os Jesuítas eram instruídos a comportar-se com os príncipes das nações ad majorem Dei gloriam: ‘Ensinando a experiência, que os príncipes e os magnatas são especialmente apegados às pessoas eclesiásticas quando estas dissimulam as suas odiosas práticas, e interpretam as mesmas no melhor sentido, como seria nos matrimónios a contrairem com os afins e consanguíneos ou semelhantes, devendo-se em tal caso animar e encorajar esses senhores que mostram um tal desejo, e também esperançá-los que por meio dos nossos religiosos podem facilmente impetrar-se semelhantes dispensas do papa, o qual as concederá, se se explicarem as razões, se apresentarem casos análogos, e se levarem opiniões favoráveis, com o pretexto do bem comum e da maior glória de Deus, que é o objectivo da Sociedade’ (Secreta monita societatis Jesu - Le norme segrete della società di Gesù -, capítulo II, 2); ‘As pessoas mais particularmente favoritas e domésticas dos príncipes, das quais esses príncipes se servem familiarmente, deverão ganhar-se e obrigar-se por meio de pequenos presentes, e particularmente por meio de vários ofícios de piedade, para que informem os nossos religiosos fielmente dos humores e das inclinações dos príncipes e dos magnatas; e assim facilmente a Sociedade encontrará a maneira de acomodar-se ao ânimo dos mesmos príncipes’ (op. cit., capítulo II, 5); ‘Os nossos religiosos dirijam de tal maneira as consciências dos príncipes e da nobreza, que mostrem, que tudo o que seja por esses religiosos sugerido, tenda unicamente para a maior glória de Deus, e para a mesma autoridade de consciência, que os próprios príncipes requerem dos mesmos religiosos. Mas por quanto respeita à direcção dos mesmos senhores num externo e político governo, deverá fazer-se pelos nossos confessores e pregadores a pouco e pouco, e insensivelmente não menos na confissão, que nos discursos familiares’ (ibid., capítulo IV, 1); ‘Se recordem principalmente os nossos confessores e pregadores de tratar suavemente e brandamente os príncipes, de nunca repreendê-los nas pregações e nos colóquios privados, de expulsar deles todos os temores e de exortá-los particularmente na esperança, na fé e na justiça política’ (ibid., capítulo IV, 4).

 

[36] O cardeal Acciajuoli quando voltou de Portugal teria declarado ‘that the Jesuits were undoubtedly the authors of the attempted assassination of H. M. Dom. Joseph’ (‘que os Jesuítas eram sem dúvida os autores do tentado assassínio de H. M. Dom José’). Cfr. Leopold von Ranke, op. cit., pag. 1031.

 

[37] Luigi Desanctis conta in Roma papale que pouco depois da supressão dos Jesuítas achou-se uma manhã afixado nas portas do Vaticano um cartaz com estas letras I. S. S. S. V. Ninguém percebia o significado e o cartaz foi levado ao papa o qual o compreendeu imediatamente porque antes de se tornar papa tinha sido frade e conhecia os Jesuítas. Ele o leu assim: ‘In settembre sarà sede vacante’ (Em setembro será sede vacante) . A 22 de Setembro de 1774 o papa morreu. Quer da maneira em que morreu, quer no seu cadáver foram verificados os sinais de um envenenamento.

 

[38] A Pontifícia Universidade Gregoriana, o Pontifício Instituto bíblico, e o Pontifício Instituto de estudos orientais, que se encontram aqui em Roma são todos geridos pelos Jesuítas. Francis Sullivan e Carlo Maria Martini, ex-arcebispo cardeal de Milão, através de quem, é dito, o movimento carismático católico se difundiu aqui em Roma são Jesuítas. La Civiltà cattolica é um periódico dos Jesuítas. Pierre Teilhard de Cardin, muito apreciado no New Age, era um Jesuíta que no seu tempo foi condenado pela igreja católica pelas suas ideias panteístas mas hoje é reconhecido por muitos Católicos como ‘um teólogo na vanguarda dos seus tempos’ e como ‘o maior modelo para o pensador católico moderno’. Entre os canonizados santos da igreja católica Bellarmino, Francesco Saverio, Luís Gonzaga, eram Jesuítas.

Muitos Jesuítas de hoje ensinam abertamente coisas que se opõem à doutrina católica (por exemplo aprovam a homossexualidade, o aborto, o sacerdócio das mulheres, o envolvimento directo na política, põem em dúvida a divindade de Cristo, a infalibilidade papal, etc.) pelo que não são de modo nenhum bem vistos pelo papa. Se deve portanto dizer que os Jesuítas no seu conjunto não são mais os homens do papa (que eram por exemplo ao tempo de Loyola) em quem o papa pode confiar para manter e aumentar a sua autoridade no mundo. É guerra aberta já entre papa e Jesuítas. João Paulo I eleito papa a 26 de Agosto de 1978 tinha uma atitude desfavorável para a companhia de Jesus e se propunha pronunciar um duro discurso de admoestação para a Congregação geral dos Jesuítas que se realizaria em Roma a 30 de Setembro de 1978. O papa tinha em mente, se a Companhia não voltasse a assumir o papel que lhe tinha sido atribuído, liquidar definitivamente a ordem. Mas esse discurso não pôde fazê-lo porque na manhã de 29 de Setembro foi encontrado morto na sua cama. João Paulo II em 1981 depôs o então Geral da ordem Pedro Arrupe porque tinha fama de liberal (este, de facto, permitia a publicação de livros de autores Jesuítas que iam contra os ensinamentos tradicionais da igreja católica) e nomeou um outro para o seu lugar. O catolicismo permanece, de qualquer modo, fortemente impregnado de jesuitismo porque muitos institutos católicos estão na mão dos Jesuítas e lá os estudantes aprendem a ‘moral’ dos Jesuítas.

 

[39] Para vos fazer perceber como nesta nação quem fala abertamente contra o papado atrai inequivocamente também a inimizade do governo italiano e dos maiores partidos políticos, bastará considerar que no momento em que o honrável Umberto Bossi, disse da igreja católica romana que ela se deve ocupar de coisas espirituais e não de coisas temporais, e lembrou alguns factos históricos como a Inquisição que perseguiu também os ‘dissidentes’ políticos que eram avessos ao poder temporal do papado, se desencadeou contra ele uma tempestade porque começou a ser admoestado tanto por homens políticos como pelo papado. Devo dizer que citei este exemplo só para fazer-vos compreender como no momento em que se dizem publicamente à igreja católica romana certas coisas que são verdadeiras, então aquela que é chamada o ‘gigante bom’ se mostra aquela que sempre foi; a igreja que não admite que alguém lhe diga que não se deve ocupar de política ou que o poder temporal que ela possui não está em harmonia com o ensinamento do Evangelho, e tantas outras coisas. É verdade que o honrável Bossi falou como um homem político que leva avante certas ideias políticas que nós não apoiamos (como não apoiamos as ideias políticas de nenhum outro político porque não fazemos política), que também usou palavras injuriosas para a cúria romana que nós não somos chamados a usar contra os nossos inimigos, mas fica um dado de facto; ele também disse coisas verdadeiras contra as quais, quem conhece a história do papado, não pode dizer que sejam falsas, e que lembram como o papado no curso dos séculos fez uso da violência para aumentar e manter o seu poder. Reflecti irmãos sobre a reacção do papado aos discursos de Bossi, porque ela diz muitas coisas.

 

[40] Estudando a História dos Hebreus se verá que muitas vezes eles desceram ao Egipto em busca de socorro e isso se tornou em sua vergonha. Por exemplo como depois da destruição de Jerusalém quando os sobreviventes pensaram que descendo ao Egipto não veriam mais guerra, e não teriam mais fome, e desobedeceram a Deus que lhes tinha dito através de Jeremias para ficarem na terra de Judá porque seria com eles e não deveriam temer, e ao contrário, Deus os mandou punir lá no Egipto onde eles acreditavam estar em segurança (cfr. Jer. 42:1-22; 43:1-13; 44:1-30).

 

[41] A história do povo de Israel nos ensina isto. Por exemplo aos dias de José os Hebreus no Egipto tiveram o favor de Faraó, mas morto José surgiu um Faraó que os perseguiu. Se tenha presente porém que Jacó e os seus não desceram para refugiarem-se no Egipto porque não confiavam em Deus, mas porque Deus tinha operado de tal maneira em seu favor que eles não fizeram nada para receber todas aquelas ajudas de Faraó naquele tempo de necessidade.

 

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