Capitulo 12

O ecumenismo [1]

 

A MUDANÇA DE ATITUDE DA IGREJA CATÓLICA EM RELAÇÃO AO ECUMENISMO

 

Na encíclica Mortalium Animos (1928) de Pio XI (1922-1939) se lê: ‘Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja recto. Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade? Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem "UM"? (...) Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem (...) Oxalá todos os cristãos fossem "UM", acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho. Os chamados "pancristãos" espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos. Esta iniciativa é promovida de modo tão activo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadãos e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grémio (...) os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeito a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos (...) Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembleias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo (...) Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objecto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros? E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina? Como os que crêem instituída por Deus a hierarquia com Bispos, padres e ministros, e os que a dizem introduzida a pouco e pouco em diferentes circunstâncias de tempo e de factos? Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo? Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor? Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo - Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar - e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo? (...) Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos (...) Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos porquanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos (...) Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica (...) para que se entreguem a seu magistério e regime. (...)’ (Tutte le encicliche dei sommi pontefici [ Todas as encíclicas dos sumos pontífices] , vol. 1, Milano 1979, pag. 803-811).

Eis como há setenta anos o papado pensava sobre o ecumenismo. Em substância ele considerava difícil, ou melhor impossível, uma união com os que negavam grande parte dos dogmas essenciais da igreja católica, e portanto considerava que toda a tentativa de se juntarem seria vã e por isso os Católicos deviam abster-se de participar em iniciativas que não podiam dar algum resultado. Agora porém as coisas mudaram notavelmente, no sentido que agora é a própria igreja católica a encorajar iniciativas ecuménicas para a reunificação de todos os Cristãos (esta viragem se verificou com o concílio Vaticano II que foi convocado por João XXIII, 1958-1963, e depois prosseguido por Paulo VI, 1963-1978). Portanto ela não considera mais inúteis as tentativas em vista da unificação das igrejas como então fazia o seu chefe Pio XI. Unificação que em substância consiste em levar os chamados dissidentes para o seu grémio, sob a guia do seu magistério, em outros termos, em um retorno ao ‘aprisco’ daqueles que se afastaram dele (mesmo se hoje a se ouve falar raramente do grande retorno porque agora fala não mais de absorvimento das igrejas separadas mas de uma sua unidade com Roma na diversidade e no respeito das particularidades históricas, litúrgicas e doutrinais de cada igreja). Perante esta sua nova atitude me encontro pois obrigado, irmãos, a falar-vos do ecumenismo por ela embandeirado (e infelizmente também por algumas Igrejas evangélicas) a fim de vos advertir sobre os perigos que se escondem por detrás dele e para que saibais como responder aos que em fingidos semblantes e com palavras doces vêm a vós propor-vos este ecumenismo.

 

O decreto do concílio Vaticano II sobre o ecumenismo

 

Proponho agora à vossa atenção algumas passagens do decreto sobre o ecumenismo do concílio Vaticano II datado de 21 de Novembro de 1964, decreto que para muitos constitui uma viragem histórica da igreja romana porque ela por meio dele se declarou aberta ao diálogo com ‘as outras igrejas cristãs’ para restabelecer a unidade dos Cristãos abandonando assim a sua posição passada. Também por nossa parte reconhecemos que uma viragem se verificou realmente no âmbito da igreja católica porque ela se pôs a dialogar com os que ela agora chama ‘os irmãos separados’; mas apenas isso, porque na substância a igreja romana não rompeu de modo nenhum com o passado mas permaneceu a mesma dos séculos passados. Por isso estamos de acordo com as seguintes palavras do cardeal Gabriel-Marie Garrone (que participou no concílio Vaticano II) por ele ditas em 1985, segundo as quais o quanto emerge do Vaticano II às vezes ‘não sublinha de modo adequado o elemento de continuidade com o passado. Alguém poderia ler nele até uma recusa das concessões anteriores. Enquanto não há nada de mais falso que ler o Concílio em chave de rotura com o passado’ (Entrevista a ‘30 giorni’, Março de 1985, pag. 23) [2]. Mas vejamos as palavras do decreto sobre o ecumenismo (Concílio Vaticano II, (1962-1965), Sess. V - 21 de Novembro de 1964).

Ÿ ‘Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II. Pois Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja. Todavia, são numerosas as Comunhões cristãs que se apresentam aos homens como a verdadeira herança de Jesus Cristo. Todos, na verdade, se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura. O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano de sua graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espírito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado ecuménico. Participam dele os que invocam Deus Trino e confessam a Cristo como Senhor e Salvador, não só individualmente mas também reunidos em assembleias. Cada qual afirma que o grupo onde ouviu o Evangelho é Igreja sua e de Deus. Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus. (ibid., Do proémio ) (...) E o Filho, antes de oferecer-se no altar da cruz, como vítima imaculada, rogou ao Pai pelos crentes, dizendo: «Para que todos sejam um, como tu, Pai, és em mim e eu em ti; para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste» (Jo. 17,21). E na Sua Igreja instituiu o admirável sacramento da Eucaristia, pelo qual é tanto significada como realizada a unidade da Igreja (...) Para estabelecer esta Sua Igreja santa em todo mundo até à consumação dos séculos, Cristo outorgou ao colégio dos doze o ofício de ensinar, governar e santificar. Dentre eles, escolheu Pedro, sobre quem, após a profissão de fé, decidiu edificar a Sua Igreja. A ele prometeu as chaves do reino dos céus e, depois da profissão do seu amor, confiou-lhe a tarefa de confirmar todas as ovelhas na fé e de apascentá-las em perfeita unidade, permanecendo eternamente o próprio Cristo Jesus a suma pedra angular e o pastor das nossas almas. Jesus Cristo quer que o Seu Povo cresça mediante a fiel pregação do Evangelho, administração dos sacramentos e governo amoroso dos Apóstolos e dos seus sucessores os Bispos, com a sua cabeça, o sucessor de Pedro, sob a acção do Espírito Santo; e vai aperfeiçoando a sua comunhão na unidade: na confissão duma só fé, na comum celebração do culto divino e na fraterna concórdia da família de Deus. (.....) Nesta una e única Igreja de Deus já desde os primórdios surgiram algumas cisões, que o Apóstolo censura asperamente como condenáveis. Nos séculos posteriores, porém, originaram-se dissensões mais amplas. Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens dum e doutro lado. Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterno respeito e amor. Pois que crêem em Cristo e foram devidamente baptizados, estão numa certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica. De facto, as discrepâncias que de vários modos existem entre eles e a Igreja católica - quer em questões doutrinais e às vezes também disciplinares, quer acerca da estrutura da Igreja - criam não poucos obstáculos, por vezes muito graves, à plena comunhão eclesiástica. O movimento ecuménico visa a superar estes obstáculos. No entanto, justificados no Baptismo pela fé, são incorporados a Cristo, e, por isso, com direito se honram com o nome de cristãos e justamente são reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor.(....) Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de instrumentos de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica. Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só por meio da Igreja católica de Cristo, que é o instrumento geral da salvação, pode-se obter toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, à cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus (...) Por «movimento ecuménico» entendem-se as actividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime (...) É, sem dúvida, necessário que os fiéis católicos na empresa ecuménica se preocupem com os irmãos separados, rezando por eles, comunicando com eles sobre assuntos da Igreja, dando os primeiros passos em direcção a eles. Sobretudo, porém, examinem com espírito sincero e atento aquelas coisas que na própria família católica devem ser renovadas e realizadas para que a sua vida dê um testemunho mais fiel e luminoso da doutrina e dos ensinamentos recebidos de Cristo, através dos Apóstolos. Embora a Igreja católica seja enriquecida de toda a verdade revelada por Deus e de todos os meios da graça, os seus membros, contudo, não vivem com todo aquele fervor que seria conveniente. E assim, aos irmãos separados e ao mundo inteiro o rosto da Igreja brilha menos e o seu crescimento é retardado. Por esse motivo, todos os católicos devem tender à perfeição cristã e, cada um segundo a própria condição, devam procurar que a Igreja, levando em seu corpo a humildade e mortificação de Jesus, de dia para dia se purifique e se renove, até que, Cristo a apresente a Si gloriosa, sem mancha e sem ruga. (ibid., cap. 1). (...) Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. (...) Em algumas circunstâncias especiais, como por ocasião das orações prescritas «pela unidade», e em reuniões ecuménicas, é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos separados na oração. Tais preces comuns são certamente um meio muito eficaz para impetrar a graça da unidade. São uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados (....) Os Católicos devidamente preparados devem adquirir um melhor conhecimento da doutrina e história, da vida espiritual e litúrgica, da psicologia religiosa e da cultura própria dos irmãos. Muito ajudam para isso as reuniões de ambas as partes para tratar principalmente de questões teológicas, onde cada parte deve agir de igual para igual, contanto que aqueles que, sob a vigilância dos superiores, nelas tomam parte, sejam verdadeiramente peritos (.....) Ademais, no diálogo ecuménico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade. Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou «hierarquia» das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente. Assim se abre o caminho pelo qual, mediante esta fraterna emulação, todos se sintam incitados a um conhecimento mais profundo e a uma exposição mais clara das insondáveis riquezas de Cristo. (ibid., cap. 2). (...) Embora falte às Comunidades eclesiais de nós separadas a unidade plena connosco proveniente do Baptismo, e embora creiamos que elas não tenham conservado a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem, contudo, quando na santa Ceia comemoram a morte e a ressurreição do Senhor, elas confessam ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam o Seu glorioso advento. É, por isso, necessário que se tome como objecto do diálogo a doutrina sobre a Ceia do Senhor, sobre os outros sacramentos, sobre o culto e sobre os ministérios da Igreja.’ (ibid., cap. 3).

Como podeis ver nós nos encontramos diante de um documento onde o erro é misturado habilmente à verdade; e onde as mentiras, a falsidade e as hipocrisias são apresentadas com doçura e lisonjas pela cúria romana. Notai como nas referidas palavras vem reiterado que a igreja católica romana é a Igreja constituída por Cristo porque possui o sucessor de Pedro e os sucessores dos apóstolos, isto é, os bispos; e depois também porque possui todos os meios da graça, isto é, os sacramentos através dos quais é conferida a graça aos homens, e que a unidade dos Cristãos passa obrigatoriamente por ela. Isto basta para entender que efectivamente a igreja católica romana é a mesma de séculos atrás, porque - mesmo se por vezes de maneira um pouco diferente do quanto fazia outrora - continua a considerar ser o ponto de referência para todos os Cristãos, e que portanto na realidade ela não está de modo algum a favor do ecumenismo verdadeiro, mas está apenas concentrada em seguir o seu domínio temporal e em impor a sua vontade aos outros. Ela é a mãe das igrejas, todas as outras são suas filhas e por isso estas últimas se devem reconciliar com ela e voltar a amamentar-se dela porque esta, segundo eles, é a vontade de Deus! E esta reconciliação - naturalmente - pode acontecer somente reconhecendo a autoridade papal, o magistério católico, os seus sacramentos, e toda a sua tradição; isto é em substância a mensagem de fundo que leva avante a igreja católica romana neste esforço ecuménico, desde 1964 em diante. Alguns Evangélicos porém consideram que a igreja católica romana se tenha aberto com este decreto sobre o ecumenismo; mas nós dizemos; ‘Mas o que abriu? De certo os Católicos não abriram o coração ao amor pela verdade para serem salvos; mas abriram uma cova bem profunda e bem camuflada para na qual fazer cair os simples; eis o que abriram os Católicos diante de nós.

Ora, já confutei em precedência as afirmações feitas da parte católica segundo as quais o papa é sucessor de Pedro, e a igreja romana o instrumento de salvação para o género humano; por isso aqui me limitarei a fazer considerações à luz das Escrituras sobre a unidade de que fala a Escritura; considero imperioso fazê-las, sabendo que o Vaticano está intensificando os seus esforços para instaurar um diálogo cada vez mais ‘frutuoso’ com muitos crentes, que tem como fim o de fazê-los cair da graça, fazê-los desviar da verdade, e corrompê-los. Na verdade importa dizer que o diabo está tentando mais do que nunca nestes últimos fins dos tempos fazer apostatar os crentes da fé, e nós reconhecemos que um dos meios de que se está usando para fazer isso é justamente este ecumenismo assim como o entende a igreja romana e infelizmente também algumas Igrejas evangélicas que se deixaram seduzir pelas suas lisonjas. Aquilo a que nós assistimos é isto, a saber, durante o tempo em que houve a Reforma protestante a igreja romana enfurecida sobremodo ao constatar que muitos seus membros saíam dela porque persuadidos que as coisas que ela ensinava e praticava eram contrárias ao ensinamento de Cristo e dos apóstolos, procurou com a sua força brutal (a Inquisição) fazer regressar ao seu meio aqueles que ela tinha perdido, hoje ela mudou de táctica. Ela deixou de usar a espada material - ou seja a Inquisição - contra os filhos de Deus e embraçou a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus mas ainda com o fim de nos fazer cair no pecado. Não é de admirar o facto de ela procurar nos fazer entrar a fazer parte dela (repito que este é o seu pensamento e objectivo final, mesmo se o seu falar por vezes pode não ser assim tão explícito sobre este ponto) servindo-se precisamente da Palavra de Deus (que ela detesta porque nos factos a anulou esvaziando-a da sua eficácia). Porquê? Porque também Satanás, o tentador, quando tentou Jesus para fazê-lo pecar se usou da Palavra de Deus. E quem pode dizer que o Diabo ama a Palavra de Deus? O certo porém é que fez uso dela, mas com o único fim de induzir Jesus Cristo a desobedecer ao seu Pai! Mas nós não ignoramos as maquinações de Satanás urdidas contra a Igreja do Deus vivo, coluna e base da verdade, por isso respondemos aos Católicos, que nos embandeiram as passagens da Escritura concernentes a unidade da Igreja, da mesma maneira em que fez Jesus em relação ao diabo; nós dizemos-lhes: "Também está escrito..." (Mat. 4:7). Ora, eles dizem que está escrito que Jesus Cristo, o Senhor orou pela unidade da Igreja, e isso é verdade; mas também está escrito que Jesus disse: "E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?" (Lucas 6:46). Portanto, por que chamam eles Jesus, Senhor, chefe da Igreja, mas recusam dobrar o pescoço sob ele mas o têm bem rígido? Com a boca reconhecem o Senhorio de Cristo mas com as suas obras negam as suas palavras porque mostram não ter nenhuma intenção de renunciar a todas as suas heresias de que se gloriam também de serem guardas. Como diz o profeta Ezequiel eles ouvem as palavras de Deus mas não as põem em prática porque com a boca fazem mostra de muito amor, mas o seu coração segue a avareza (cfr. Ez. 33:31-33), o seu coração segue os ídolos.

Eles devem antes de tudo reconhecer-se pecadores e não mais os membros da Igreja de Deus; devem depois implorar a misericórdia de Deus para que Ele tenha piedade deles; e depois devem produzir frutos dignos do arrependimento os quais estão ainda completamente ausentes neles. Ora, nós sabemos que quando um Católico romano se arrepende e crê no Evangelho deixa logo de adorar e orar a Maria, deixa de orar a Paulo, a Pedro, a João, a Luís, a José etc., e aos anjos; ele deixa de participar na missa, deixa de ter pendurado ao pescoço e em casa crucifixos, imagens e ídolos de qualquer tipo e grandeza, deixa de ir em peregrinação a qualquer santuário, deixa de chamar o papa ‘santo padre’, e de considerá-lo o chefe da Igreja na terra, deixa de participar nas funções religiosas de todo o tipo e género realizadas nos lugares de culto da igreja católica romana, deixa em substância de observar a tradição católica romana e de crer em todas as suas heresias. E tudo isto acontece nele porque Cristo vem morar nele e lhe renova a mente. Ele começa a estimar a Palavra de Deus como única guia da sua vida pondo de lado toda a tradição de homens que se opõe a ela; para ele a Palavra de Deus não é mais um livro qualquer ou um livro que deve ser posto ao mesmo nível dos decretos conciliares do Vaticano ou da secular tradição da igreja romana; e por isso começa a amá-la e a respeitá-la como nunca tinha feito antes. Isto é o que sucedeu em todos os nossos irmãos que encontraram o Senhor e saíram do seio desta organização religiosa; portanto nós estamos persuadidos que estes Católicos romanos que ainda não deixaram ou não têm nenhuma intenção de deixar de professar a religião católica romana - porque de facto a ela querem ficar apegados a todo o custo -, embora falem do senhorio de Cristo e da sua oração pela unidade dos crentes, ainda não se arrependeram e não creram no nome de Cristo Jesus, e por conseguinte ainda não fazem parte do corpo de Cristo e com eles não podemos ter comunhão de espírito. Seja bem claro portanto: enquanto o papa dos Católicos romanos e os seus bispos e todos os seus seguidores se mostrarem surdos à voz do Senhor nosso Jesus Cristo recusando converterem-se dos seus ídolos ao Senhor e recusando reconhecer só na Escritura a única regra de fé pondo de lado a sua perversa tradição secular não poderá haver nenhuma comunhão entre nós e eles, como não pode haver comunhão entre alguém que adora a Deus e alguém que adora a Satanás. ‘Mas mesmo nenhuma?’ alguém dirá. Sim, mesmo nenhuma. Estais certos? Sim, estamos certos. Vós nos direis então: ‘Mas por que não deixais de ser tão rígidos e não vos tornais mais flexíveis e mais razoáveis? Não vedes que esta vossa tomada de posição impede a comunhão com os Católicos? Mas não vedes que este vosso modo de falar impede uma qualquer forma de diálogo com eles? Por que não reconheceis também vós na igreja católica romana uma igreja co-irmã que está também ela na verdade ainda que permaneçam nela tradições humanas? Por que, pois, não reconheceis também vós os seus sacramentos e a autoridade do papa na Igreja?’ Não; nós não desceremos a nenhum compromisso, não consentiremos em pôr de parte nenhuma parte do conselho de Deus porque amamos a verdade que nos fez livres, mas com firmeza e com força lhes reiteramos até ao fim todo o conselho de Deus para que os Católicos romanos tornem para nós. Eles tornarão para nós, mas nós não tornaremos para eles, porque sabemos que eles todos jazem nas trevas e num charco de lodo feito de preceitos de homens que voltam as costas à verdade. A eles que nos acusam de não observar a sua tradição diremos ainda o que Jesus disse aos Fariseus: "E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mat. 15:3). Mas então - nos dirão alguns - não vos importa nada do ecumenismo que quer a igreja católica romana? Não, da sua amizade não nos importa nada, da sua chamada comunhão também não, de dialogar com surdos também não, porque sabemos bem que para obter estas coisas é necessário condescender em alguma coisa a ela, é necessário atermo-nos às suas directivas! E quais directivas? Evitar a polémica, evitar os juízos contra as suas falsas doutrinas que podem comprometer o diálogo, estimá-los irmãos e não inimigos da verdade, e por aí fora. Com isto queremos dizer que nós passamos muito bem sem a amizade e a aparente e falsa comunhão que nos oferecem os Católicos romanos, mas não podemos passar nem sem fazer habitar em nós a verdade que está em Cristo Jesus porque dela depende o bem da nossa alma nesta nossa peregrinação terrena e a sua salvação eterna, e nem sem combater em sua defesa como fizeram os apóstolos antes de nós porque este nosso combate é útil para a salvação das almas e para a edificação da Igreja. Declarai-nos também fanáticos, declarai-nos também sectários; lembrai-vos porém que aqueles que nesta nação nos precederam para nos fazerem chegar a mensagem da salvação pela graça mediante a fé tiveram que sofrer muitas coisas precisamente dos Católicos romanos; sim precisamente deles que dizem ser Cristãos. E que se eles tivessem descido a algum compromisso com a cúria romana nos teriam anunciado não o verdadeiro Evangelho que se funda sobre a graça de Deus, mas o subvertido da cúria romana fundado nas obras meritórias que não pode trazer nenhuma salvação a quem o aceita. Acordai pois!

 

 

A UNIDADE DA IGREJA SEGUNDO A ESCRITURA

 

Vejamos agora algumas Escrituras que nos mostram o que entende Deus por unidade. Mas antes de fazer isso, vos recordo que a unidade de que falou Jesus e também os apóstolos se refere a uma unidade no âmbito da irmandade, e não de uma unidade que os crentes devem buscar com os que ainda não são nascidos de novo. Digo isto para vos fazer compreender que é impossível buscar unidade com os Católicos romanos ou falar de unidade com eles porque eles ainda se devem arrepender e crer no Evangelho como antes já fizemos nós. O facto porém é que se fossem os Budistas ou os Hinduístas a chamar-se Cristãos e a procurar unir-se a nós ou fazer-nos unir a eles, logo muitos responderiam que não se pode dialogar com eles de algum modo enquanto não se converterem dos ídolos ao Deus vivo, mas como esta chamada unidade e este chamado diálogo fraterno connosco é procurado pelos Católicos romanos que se dizem Cristãos porque falam também eles de Jesus, dizem crer em Jesus, na sua divindade, na sua morte e na sua ressurreição, (mas nos factos renegam o Evangelho porque são dados à idolatria e escravos do pecado da mesma maneira que tantos outros pagãos), então parece que muitos dentre nós tenham perdido o discernimento porque começaram a chamar irmãos os idólatras e os pecadores. Ora, enquanto são os Católicos romanos a chamarem-nos irmãos separados é compreensível porque são cegos e pensam ser a única e verdadeira família de Deus iludindo-se, mas quando são alguns dentre nós que começam a chamá-los irmãos então a coisa é muito preocupante porque é sinal que alguns não sabem sequer o que se entende pelo termo irmão. Jesus um dia disse: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam" (Lucas 8:21); portanto não se podem chamar irmãos de Jesus pessoas que não se arrependeram ainda dos seus pecados, que não creram no Evangelho e recusam observar os mandamentos de Cristo. E dado que não são ainda irmãos de Jesus Cristo, não são também nossos irmãos porque não fazem parte da família de Deus. Mas dizei-me? Como podemos chamar irmãos os Católicos romanos quando eles nos factos antepõem a sua tradição à Palavra de Deus, pisam a Palavra de Deus de todas as maneiras? Como podemos chamar irmãos pessoas que dizem crer mas ao mesmo tempo dizem não ter a vida eterna? Porventura não disse Jesus: "Aquele que crê tem a vida eterna" (João 6:47)? Então como é que eles afirmam não possuir a vida eterna como antes o afirmamos nós pela graça de Deus? A razão é porque eles ainda não creram no Evangelho! Ouviram falar do Evangelho, alguns deles até o ensinam, mas o certo é que ainda não creram nele. Como é que somos acusados por eles de sermos presunçosos porque dizemos ter a vida eterna e que o Senhor nos salvou e que quando morrermos iremos viver com Jesus Cristo no paraíso de Deus? A razão é ainda a mesma: eles ainda não provaram e nem viram a bondade de Deus como antes a vimos e provámos nós pela graça de Deus. (Seja bem claro porém também isto: não se podem chamar irmãos também a todos aqueles Evangélicos que frequentam o local de culto mas não são ainda nascidos de novo).

Bastaria este discurso até aqui feito para chegar à conclusão que é totalmente errado chamar irmãos aos que ainda são escravos do pecado e que buscar a unidade com eles que estão no erro então nem se fala, mas quero prosseguir neste exame escritural sobre a unidade entre os crentes de que fala a Palavra para que ninguém vos engane. Citarei a respeito algumas passagens que são frequentemente citadas pelos teólogos papistas quando falam de unidade entre os Cristãos.

Ÿ Jesus na noite em que foi traído disse ao Pai: "E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim" (João 17:20-23). Antes de mais Jesus orou por futuros crentes, e em particular por aqueles que creriam nele por meio da palavra pregada pelos seus apóstolos; portanto esta unidade que ele pediu ao Pai a pediu para filhos de Deus. Ele não orou para que os crentes e os incrédulos fossem unidos, isto é, para que andassem de acordo porque isso é impossível que aconteça dado que não há comunhão alguma entre a luz e as trevas. Isto é o que ainda alguns dentre nós não perceberam, que aqueles que verdadeiramente creram não podem andar de acordo com os que ainda não creram, e por isso toda a tentativa de se porem de acordo é tempo perdido. Explico este conceito desta maneira: Jesus não procurou pôr-se de acordo com os escribas e os Fariseus acerca dos preceitos da lei que eles tinham anulado com a sua tradição, para não parecer alguém que não queria a unidade dos Judeus, mas os repreendeu chamando-os cegos, insensatos, raça de víboras, hipócritas porque eles mereciam isso. Eles tinham anulado a Palavra de Deus e Jesus não poderia comprazer aos escribas e aos Fariseus em mostrar-se de acordo com os seus mandamentos por meio dos quais tinham anulado a Palavra de Deus. Não procurou minimamente mostrar-se tolerante para com eles mas os repreendeu severamente. Jesus não comprazeu nem ainda aos Saduceus que não criam na ressurreição dos mortos, com efeito os admoestou dizendo-lhes que eles erravam porque não conheciam as Escrituras e nem o poder de Deus e lhes tapou assim a boca. Da mesma maneira nós seus discípulos não podemos nos pôr a trocar a verdade pela unidade que nos oferecem estes guias cegos da igreja romana; mas com força devemos repreendê-los como fez Jesus com os Fariseus e os Saduceus exortando-os a se arrependerem e a crer no Evangelho. Demonstrei anteriormente como a igreja romana tenha anulado em muitíssimos pontos a Palavra de Deus e como ela recusa crer em todo o conselho de Deus, e como os seus guias ensinam aos seus seguidores muitas coisas tortas e más: como se pode portanto pensar em colaborar ou em discutir com eles que partem com o pressuposto de ter razão e que a sua igreja é a fundada por Cristo, a que possui a verdade, a correcta interpretação das palavras de Jesus e dos apóstolos? Não é porventura o caso de admoestá-los como fez Jesus com os Fariseus e os Saduceus? Certamente, isso havemos de fazer.

É claro, lendo o decreto do concílio Vaticano, que nós crentes somos por eles considerados como os seguidores daqueles que decidiram sair do seu meio, mas os factos são outros. Nós somos seguidores de Cristo Jesus porque nele cremos, a ele seguimos e a ele amamos; o nosso cabeça ou fundador não é Calvino, nem Lutero, e nem nenhum outro além de Cristo Jesus. Sendo considerados como pessoas que se separaram deles e fazendo-nos parecer aos olhos da opinião pública como pessoas num certo sentido rebeldes à ordem de Cristo porque recusamos nos sujeitar ao presumido sucessor de Pedro, é inevitável que sejamos feitos passar como aqueles que ainda devem perceber que a única e verdadeira Igreja é a católica romana e que fora dela não há esperança de sermos salvos! (A propósito, sabei que eles estão rezando por nós para que voltemos para a igreja mãe!) Mas aliás este é o tratamento que espera todos os que decidem obedecer ao Evangelho, mas nós nos regozijamos quando ouvimos dizer aos Católicos que somos sectários que perderam o juízo e que não percebemos nada porque este é um vitupério que sofremos por causa de Cristo. Ouvimos chamarem-nos ‘os irmãos separados’, como se fôssemos membros da mesma família mas vivêssemos por nossa conta. Mas nós não somos os seus irmãos separados e não sentimos de modo nenhum a necessidade de nos reconciliarmos com eles. A consciência de todos aqueles que se separaram deles em nada os repreende, mas lhes testifica pelo Espírito Santo que fizeram bem em separar-se deles. Eles se devem primeiro reconciliar com Deus; tudo menos ecumenismo! A eles se deve ainda falar de arrependimento das obras mortas, se lhes deve dizer para se converterem dos ídolos mudos ao Deus vivo e verdadeiro!

Agora, lendo as referidas palavras que Jesus dirigiu em oração ao Pai por aqueles que creriam nele por meio da palavra dos apóstolos, não podemos não reconhecer que nós estamos entre aqueles que creram em Cristo Jesus por meio da palavra dos apóstolos, porque ainda que não tenhamos conhecido pessoalmente os apóstolos do Senhor todavia foi mediante as palavras escritas também por Mateus, por João e por Pedro que nós cremos no Senhor. Após ter dito isto perguntemo-nos: Foi atendida a oração de Jesus? Certamente que foi atendida porque com efeito nós crentes formamos um corpo único, somos membros de uma só família, e fazemos parte de uma só casa. O facto de entre nós existirem diversas denominações que têm nomes diversos e tenham convicções diversas sobre algumas coisas relativas ao reino de Deus (que importa dizer não anulam a justificação pela fé) não significa que os irmãos que fazem parte de uma denominação cessam por causa disso de ser membros do corpo de Cristo ou membros da família de Deus. De maneira nenhuma, porque nós continuamos a ter em comum a mesma esperança, o mesmo batismo, o mesmo Espírito, a mesma fé, o mesmo Deus e o mesmo Senhor. Na realidade há uma só Igreja na terra, que é a Igreja de Deus, da qual fazem parte todos os que são nascidos de novo mediante a acção do Espírito Santo e da Palavra de Deus. Certo, reconhecemos que em Cristo somos um conforme está escrito aos Gálatas: "Todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gal. 3:26-28), mas reconhecemos também que entre nós persistem divergências doutrinais pelo que não podemos dizer que somos perfeitamente unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo falar e parecer. Os motivos pelos quais existem estas divergências que algumas vezes são marginais, outras vezes mais substanciosas, são de variado género. Não os examinarei nesta ocasião; o certo é que estas diferentes convicções doutrinais que têm os outros não são tais a fazê-los desconhecer como irmãos. Será bom recordar que também a Igreja de Corinto era uma Igreja de Deus no tempo dos apóstolos, porém como é conhecido no seu seio haviam divisões, de facto haviam os que diziam: "Eu sou de Paulo", e outros: "Eu sou de Apolo", e outros ainda: "Eu de Cefas". Mas que fez o apóstolo quando lhes escreveu? Deixou porventura de chamá-los irmãos, ou não reconheceu mais neles irmãos? De maneira nenhuma; tanto é verdade que se dirige a eles ainda como a irmãos chamando-os precisamente irmãos. Para confirmação disso eis as seguintes expressões de Paulo: "Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer. Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós" (1 Cor. 1:10,11); "E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo" (1 Cor. 3:1); "Não escrevo estas coisas para vos envergonhar; mas para admoestar-vos como meus filhos amados" (1 Cor. 4:14). Foi precisamente aos Coríntios em cujo meio haviam dissensões que Paulo disse: "Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular" (1 Cor. 12:27); portanto não era por haverem aquelas divergências entre aqueles crentes que eles não eram mais filhos de Deus. Mas eles tinham crido; eles eram nascidos de novo! Mas no caso da igreja romana nos encontramos diante não de homens que têm como fundamento Cristo Jesus mas o papado, a tradição que anula a Palavra de Deus, o culto a Maria, aos anjos e aos seus santos, portanto não se podem definir irmãos. Como se podem definir membros da Igreja de Deus pessoas que dizem que o paraíso o se deve ganhar fazendo o nosso melhor? Ou que depois de mortos se deve ir no purgatório para expiar a pena dos nossos pecados que o sangue de Cristo não pôde cancelar?

Ÿ Jesus disse: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor" (João 10:16). Também estas palavras são tomadas pela cúria romana quando fala de ecumenismo; mas o significado que dão a elas é verdadeiramente arbitrário, de facto, segundo eles o rebanho é ‘a igreja católica romana’, e o pastor é o chefe do Estado do Vaticano. Se enganam grandemente dando-lhe esta interpretação; sim são ovelhas também eles, mas estão perdidas, de facto, eles seguem o seu próprio caminho e necessitam voltar ao Sumo Pastor que é Cristo Jesus. Mas o que eles esquecem ou fingem ignorar é que Jesus disse das suas outras ovelhas que agregaria dentre os Gentios: "E elas ouvirão a minha voz" (João 10:16), portanto uma ovelha do Senhor se reconhece pelo facto dela ouvir a voz de Cristo Jesus. Não disse porventura Jesus mais adiante: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz" (João 10:27)? Não me parece propriamente que os Católicos ouçam a voz do Senhor Jesus; eles ouvem a voz do seu magistério, do seu chefe, dos seus sacerdotes mas não ouvem a de Jesus porque não a conhecem. Engano-me porventura? Não, porque os factos falam muito mais claro do que quanto faça o decreto do concílio Vaticano. Ora, não é difícil ouvir membros (também influentes) da igreja romana fazer-nos este discurso: ‘Mas o que são estas divisões que há entre nós? Não somos porventura todos Cristãos? Por que pois estar divididos se temos um mesmo Pai?’ O que eles na substância nos propõem é que nos associemos com eles e que ponhamos de parte certas nossas convicções. Mas como respondemos nós a estas suas propostas lisonjeiras? Nós respondemos que não consentiremos de modo algum em atirar para um canto ou em sufocar a verdade por amor de unidade; bem entendido, a sua unidade. Não, nós não nos associaremos com todos aqueles que também dizendo-se Cristãos são idólatras porque Deus o ordenou por meio do apóstolo Paulo com estas palavras: "Agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for…idólatra.." (1 Cor. 5:11), e: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" (2 Cor. 6:14-16). O ecumenismo proclamado pela igreja romana não é um jugo para os santos; como muitos crentes que se uniram em matrimónio com infiéis, após não muito tempo, senão logo, abandonaram a comum congregação e lançaram para trás das costas os mandamentos de Deus porque levados pelas palavras doces e lisonjeiras do seu cônjuge incrédulo, assim muitos crentes tendo-se unido em um matrimónio espiritual com os infiéis que têm a aparência de fiéis, se corromperam e pouco a pouco voltaram a revolver-se no lamaçal das heresias católicas romanas. Cometeram adultério diante de Deus, por isso são gente adúltera; falam e agem como os adúlteros, de facto, para eles é necessário procurar estar junto com os Católicos romanos a todos os custos, mesmo a custo de pôr de parte uma parte do conselho de Deus. Não, nós não estamos dispostos a descer a nenhum compromisso nem com eles e nem com outros. Se arrependam primeiro das suas obras mortas, creiam no Evangelho e produzam frutos dignos do arrependimento. O papa, os bispos, os cardeais, os monsenhores, os padres e as freiras e todos os seus consócios se arrependam e demonstrem com os factos de se terem tornado Cristãos: palavras ouvimos muitas deles, mas frutos dignos do arrependimento da parte destes que falam tanto de ecumenismo e de unidade dos Cristãos não vemos nenhuns. Querem verdadeiramente unir-se a nós ou que nós nos unamos a eles? Pois bem, convertam-se dos ídolos ao Deus vivo crendo no Evangelho da graça, (o que significa reconhecer que a salvação se obtém só por fé em virtude dos méritos de Cristo sem nenhuma obra meritória); e depois destruam todos os seus ídolos que figuram Maria, José, Pedro e todos os outros, todas as suas imagens chamadas santas, os desfaçam em pedaços e vão deitá-los à lixeira; deixem de adorar e orar a Maria, de adorar a cruz, de venerar as relíquias, de fazer procissões, peregrinações e de realizar qualquer prática que se opõe ao Evangelho; em suma deixem de observar a sua tradição, e depois poderemos nos juntar para orar, para adorar a Deus, para servir a Deus. Mas eles não querem fazer isto, querem ter os cadáveres dos seus ídolos, e ficar apegados à sua tradição, por isso não se pode de nenhuma maneira chamá-los irmãos e colaborar com eles. O Espírito que Deus fez habitar em nós anseia por nós até ao ciúme irmãos, sabei-o, por isso não vos deixeis enganar por aqueles que em fingidos semblantes vêm a vós falar-vos de ecumenismo mas não querem ouvir falar de todo o conselho de Deus. Sim, falam de unidade, e fazem alarde também de versículos da Escritura que falam de unidade; mas nós cremos na unidade da Igreja, mas na fundada sobre a verdade, e não na fundada sobre uma mistura feita de verdade e de heresias que proclama a igreja romana, porque essa não é unidade mas confusão. Dilectos, permanecei apegados à fiel Palavra de Deus, permanecei unidos ao Senhor para andar unidos a ele até ao fim; ninguém vos engane com os seus doces discursos. Recordai-vos que na Igreja sempre se insinuaram ministros de Satanás transfigurados de ministros de Cristo a fim de trazer heresias de perdição e confusão; "o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz" (2 Cor. 11:14), diz Paulo. A antiga serpente seduziu Eva com a sua astúcia, de facto lhe disse que não morreria se comesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal; ela não lhe disse explicitamente: ‘Come o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para desobedecer a Deus e te afastares dele’, mas: "Certamente não morrereis". E as seguintes palavras de Paulo VI: ‘Nós abrimos os braços a todos aqueles que se glorificam do nome de Cristo, os chamamos com o doce nome de irmãos; saibam que encontrarão em nós compreensão e benevolência, que encontrarão em Roma a casa paterna que valoriza e exalta com novo esplendor os tesouros da sua história, do seu património cultural, da sua herança espiritual’ (Citado por Leonard Emile G. in Storia del protestantesimo [ História do protestantismo] , Milano 1971, vol. 3, pag. 367), tendem na substância precisamente a fazer-nos fazer a mesma coisa que a antiga serpente com as suas doces palavras induziu Eva a fazer, ou seja, fazer-nos desobedecer a Deus associando-nos com os infiéis e fazer-nos assim morrer espiritualmente.

 

 

A ENCÍCLICA UT UNUM SINT DE JOÃO PAULO II

 

Agora quero comentar a encíclica de João Paulo II intitulada Ut unum sint (Que sejam todos um) datada de 25 de Maio de 1995 e que tem como tema o empenho ecuménico da igreja católica, os frutos do diálogo entre a igreja católica romana e as outras igrejas e também a maneira em que se pode alcançar a unidade visível entre a igreja católica e as outras igrejas. O fim que me proponho com este exame, irmãos, é o de vos fazer compreender o que entende por ecumenismo e por unidade das igrejas a igreja católica romana, que esta unidade que eles estão buscando aparentemente com as Igrejas evangélicas é uma armadilha, e como falar com eles significa falar com pessoas que têm ouvidos mas não ouvem e por isso é inútil procurar dialogar com eles. Antes de começar este exame, quero fazer esta premissa; na encíclica de João Paulo II há muitas referências ao decreto sobre o ecumenismo do concílio Vaticano II (de que citei algumas partes antes); além disso de quando em vez serei obrigado a repetir, ainda que de maneira diferente, conceitos já explicados antes. Advirto o leitor que não tomarei toda a encíclica mas só uma parte dela, que embora sendo consistente, julgo ser necessário transcrever e confutá-la publicamente a fim de mostrar a todos a astúcia deste homem.

Ÿ ‘Juntamente com todos os discípulos de Cristo, a Igreja Católica funda, sobre o desígnio de Deus, o seu empenho ecuménico de reunir a todos na unidade. De facto, a Igreja não é uma realidade voltada sobre si mesma, mas aberta permanentemente à dinâmica missionária e ecuménica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, actualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui: a fim de reunir a todos e tudo em Cristo; ser para todos "sacramento inseparável de unidade". Já no Antigo Testamento, referindo-se à situação do povo de Deus de então, o profeta Ezequiel, recorrendo ao símbolo simples de duas varas, primeiro separadas e depois juntas uma à outra, exprimia a vontade divina de « reunir de toda a parte » os membros do seu povo dividido: « Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Então as nações reconhecerão que Eu sou o Senhor que santifica Israel » (cf. 37, 16-28). Por sua vez, o Evangelho de S. João, pensando na situação do povo de Deus daquele tempo, vê na morte de Jesus a razão da unidade dos filhos de Deus: « Devia morrer pela Nação. E não somente pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos » (11, 51-52). De facto, como explicará a Carta aos Efésios, « destruindo o muro de inimizade que os separava (...), pela Cruz levando em Si próprio a morte à inimizade », Ele fez a unidade entre o que estava dividido (cf. 2, 14.16). A vontade de Deus é a unidade de toda a humanidade dispersa. Por este motivo, enviou o seu Filho a fim de que, morrendo e ressuscitando por nós, nos desse o seu Espírito de amor. Na véspera do sacrifício da Cruz, Jesus mesmo pede ao Pai pelos seus discípulos e por todos os que acreditarem n'Ele, para que sejam um só, uma comunhão viva. Daqui deriva o dever e a responsabilidade que incumbe, diante de Deus e do seu desígnio, sobre aqueles e aquelas que, através do Baptismo, se tornam o Corpo de Cristo: Corpo no qual se deve realizar em plenitude a reconciliação e a comunhão. Como é possível permanecer divididos, se, pelo Baptismo, fomos « imersos » na morte do Senhor, ou seja, naquele mesmo acto pelo qual Deus, através do seu Filho, abateu os muros da divisão? A « divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura » (Il Regno, N° 752, Anno 1995, pag. 395).

João Paulo II, da forma como fala, parece que tenha o coração quebrantado em constatar que as igrejas cristãs estão divididas entre elas; naturalmente entre as igrejas cristãs está também a igreja católica romana, e não poderia ser doutra forma, porque ela se reputa a Mãe das igrejas. Ele afirma que Deus através de Ezequiel fez conhecer a sua vontade que era a de reunir o seu povo de toda a parte, e através de João de reunir os filhos de Deus dispersos através da morte do seu Filho; e que Cristo morrendo destruiu o muro da divisão para fazer uma unidade. Depois passa a dizer que Deus quer reunir toda a humanidade dispersa por estas divisões, e que Jesus orou pela unidade dos seus discípulos e dos crentes. Daqui o dever, segundo ele, que têm todos os que pelo batismo se tornam membros do corpo de Cristo, de buscar a reconciliação interna dos crentes. E depois diz que a divisão é escândalo para o mundo e prejudica a causa de Cristo. Ele pois inclui a igreja católica entre as igrejas cristãs; nós, ao contrário, não a incluímos porque ela com a sua tradição anulou a palavra de Cristo metendo-a debaixo dos pés. Vimos isto quando confutamos as suas doutrinas; portanto é supérfluo que eu me alonge mais sobre este aspecto da questão. Dizem-se filhos de Deus porque receberam o batismo por infusão em criança; mas nós sabemos que não se passa a ser filho de Deus dessa maneira, mas arrependendo-se e crendo no nome do Filho de Deus. Eles pensam ter entrado a fazer parte do corpo de Cristo mediante aquele rito batismal; o que não é verdade. Além disso, eles junto com nós formam, segundo ele, o corpo de Cristo, sepultado na morte de Cristo; por isso é contraditório que hajam no nosso meio divisões quando Jesus morreu para reunir num os filhos de Deus. A divisão é escândalo, ele diz. Mas a este ponto é necessário fazer esta precisão: os nossos irmãos antes de nós, não deram de modo nenhum motivo de escândalo saindo da igreja católica romana; antes saíram dela por querer de Deus. Mas não saíram do corpo de Cristo, ou separaram-se dele; mas se retiraram de idólatras, de supersticiosos, de pessoas que abominam a santa Palavra de Deus. Em outras palavras eles foram resgatados de uma assembleia pseudocristã, como é a igreja católica romana; a par daqueles nossos irmãos que antes estavam entre os chamados Testemunhas de Jeová, ou entre os Mórmons. Mas para sermos ainda mais claros, nós consideramos que entre os nossos irmãos que saíram da igreja católica romana e os que saíram do Budismo ou do Hinduísmo, ou do Sintoísmo, a única diferença é que eles se retiraram de pessoas que se dizem Cristãs (coisa que não dizem ser os Budistas, os Hinduístas e os Sintoístas), porque na realidade são idólatras como os Budistas, os Hinduístas e os Sintoístas porque vão também eles após os ídolos mudos. Com isto nós queremos dizer que a divisão que se veio a criar entre a igreja católica romana e todos aqueles que conheceram a verdade e saíram dela, de modo algum é algo de contraditório, mas algo de inevitável, de justo, que entra na vontade de Deus. Também quando no tempo dos apóstolos se convertiam Judeus acontecia uma divisão entre os Judeus que consideravam que se era justificado pelas obras da lei e os que pelo contrário diziam que se é justificado pela fé somente, sem as obras da lei. Temos um exemplo disto, naquilo que aconteceu em Éfeso: "Mas, como alguns deles se endureciam e não obedeciam, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano" (Actos 19:9); e também naquilo que aconteceu em Antioquia da Psídia: "E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé" (Actos 13:43). Eis a divisão inevitável! Mas tudo isto é normal, porque os crentes em todas as idades são chamados a separar-se dos incrédulos conforme está escrito: "Saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor..." (2 Cor. 6:17). Mas qual é o escândalo de que aqueles Judeus crentes se fizeram culpados separando-se daqueles Judeus duros de coração, que contradiziam a palavra da verdade? E assim, qual é o escândalo de que se fizeram culpados os que tendo crido entre os Católicos se separaram deles? Nenhum, por isso seja pois posta de lado a definição de escândalo dada à divisão que se veio a criar entre a igreja católica romana e todas as igrejas que se atêm ao Evangelho da graça; porque esta não é uma obra da carne, mas uma obra poderosa realizada pelo nosso Deus. Nós podemos dizer dela: "Pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos" (Mat. 21:42). No decreto sobre o ecumenismo está escrito: ‘Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterno respeito e amor’ (Concílio Vaticano II, Sess. V, cap. 7). Isto quer dizer que os que se separaram antigamente da igreja católica romana por causa da sua fé, podem ser acusados do pecado de separação. Não, não é de modo nenhum assim, porque Lutero e muitos outros quando se separaram da igreja católica não cometeram algum pecado de separação; nisso, temos que dizer, eles não operaram um escândalo. O escândalo se alguém o operava era a igreja católica romana com os seus ministros à cabeça que se entregavam à dissolução, que em vez de apascentar o rebanho apascentavam-se a si mesmos, vendendo indulgências e apropriando-se dos bens do povo de todas as maneiras. Por quanto respeita depois a este fraterno respeito e amor com que a igreja católica diz abraçar-nos, nós não o vemos; antes vemos o contrário. Vemos seja nos padres, como nas suas ovelhas uma particular aversão por nós filhos de Deus. Lisonjas, falsidades, hipocrisias; eis o que são tais frases. Não é a divisão que se veio a criar entre Católicos e Evangélicos o que escandaliza as pessoas, mas é antes o luxo, a arrogância, o amor pelo poder e o amor pelo dinheiro que há na igreja católica romana; começando pelo seu chefe carismático. Quis assim pôr as coisas em claro, antes de prosseguir o exame deste discurso; para que ninguém pense que nós provamos ou tenhamos que provar algum sentido de culpa pela nossa aversão ao papado, à tradição católica romana. Mas qual sentido de culpa? Nós, pelo contrário, provamos uma grande alegria em defender o Evangelho confutando as heresias da igreja católica romana; temos a graça de poder combater pelo Evangelho como a tiveram antes de nós muitos outros; e isto faremos até termos um hálito de vida.

Ÿ ‘...Cheia de esperança, a Igreja Católica assume o empenho ecuménico como um imperativo da consciência cristã, iluminada pela fé e guiada pela caridade. Também aqui se podem aplicar as palavras de S. Paulo aos primeiros cristãos de Roma: « O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido »; assim a nossa « esperança não nos deixa confundidos » (Rm 5, 5). Esta é a esperança da unidade dos cristãos, que encontra a sua fonte divina na unidade trinitária do Pai e do Filho e do Espírito Santo.’ (Il Regno, N° 752, pag. 395).

A igreja católica, da forma como fala João Paulo II, deseja ardentemente a unidade visível de todas as igrejas; este é o seu desígnio e o seu papa se fez porta-voz e promotor deste ecumenismo; mas ela jamais verá realizar-se este desígnio de unidade visível que está com grande vigor perseguindo; a sua esperança nesta unidade será frustrada porque o seu é um astuto desígnio que tende a fazer confluir os filhos de Deus na igreja católica romana sob o seu papa, e Deus fará sim que os que conheceram a verdade não fiquem enganados pelas lisonjas papais. Ele "aniquila os desígnios dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito" (Jó 5:12), diz a Palavra, por isso estamos confiantes que o astuto desígnio da cúria romana irá à falência. Ficarão grandemente desiludidos, estamos seguros disso; Deus sempre teve em todo o tempo servos fiéis que se recusaram em condescender com a mentira e com a idolatria. No tempo de Elias, embora o povo tivesse abandonado o pacto de Deus e muitos daqueles que falavam da parte de Deus tivessem sido mortos pelo povo rebelde, todavia Deus tinha conservado um resíduo de sete mil homens que não tinham dobrado os seus joelhos diante de Baal e não o tinham beijado. E assim no povo de Deus embora alguns apostatarão da fé e se deixarão seduzir pelas lisonjas papais também ficarão sempre os que recusarão até ao fim dobrar os seus joelhos diante do papa e beijar-lhe o pé ou a mão. Alguns dirão: ‘Mas por que falas assim? O papa nos quer bem e se está empenhando grandemente para juntar todos os Cristãos!’ Eu digo: Vós não sabeis o que dizeis; dentro em pouco podereis por vós mesmos constatar que este, que vós dizeis que nos quer bem, embora fale com voz graciosa tem sete abominações no seu coração e um grande ódio pela verdade que porém consegue camuflar muito bem. Ele diz que o amor de Deus foi derramado nos seus corações pelo Espírito Santo; mas a Escritura diz que: "Este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos" (1 João 5:3), e nós este guardar de mandamentos da parte deles não o vemos. Eles deixaram os mandamentos de Deus por amor da sua tradição, e depois tomam as palavras de Paulo para sustentar que nos seus corações está o amor de Deus. Mas qual amor de Deus têm? O fingido certamente, porque se tivessem o verdadeiro guardariam a Palavra de Deus e nós teríamos comunhão com eles. Ninguém vos engane irmãos, João diz: "Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade" (1 João 2:4). O que procura fazer João Paulo II não é unir, mas seduzir por via de lisonjas os que não fazem parte da igreja católica romana a fim de que entrem a fazer parte dela, ou que pelo menos se aliem com ela para servir junto com ela os ídolos mudos pelos quais entra em delírio. Veremos a seguir qual é o desígnio e o desejo de João Paulo II; tudo menos unidade, tudo menos desígnio de Deus; tudo menos verdade, tudo menos amor de Deus!

Ÿ ‘...Passando dos princípios, do imperativo da consciência cristã à realização do caminho ecuménico rumo à unidade, o Concílio Vaticano II põe em relevo sobretudo a necessidade da conversão do coração. O anúncio messiânico — « completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto » —, e o consequente apelo — « convertei-vos e crede no Evangelho » (Mc 1, 15) —, com os quais Jesus inaugura a sua missão, indicam o elemento essencial que deve caracterizar qualquer novo início: a exigência fundamental da evangelização em cada etapa do caminho salvífico da Igreja. Mas isso aplica-se de modo particular ao processo desencadeado pelo Concílio Vaticano II que incluiu, no âmbito da renovação, a tarefa ecuménica de unir os cristãos divididos entre si: « Não existe verdadeiro ecumenismo sem conversão interior ». O Concílio apela tanto à conversão pessoal, como à conversão comunitária. O anseio de cada Comunidade cristã pela unidade cresce ao ritmo da sua fidelidade ao Evangelho. Ao referir-se às pessoas que vivem a sua vocação cristã, o Concílio fala de conversão interior, de renovação da mente. Assim, cada um tem que se converter mais radicalmente ao Evangelho e, sem nunca perder de vista o desígnio de Deus, deve rectificar o seu olhar. Com o ecumenismo, a contemplação das « maravilhas de Deus » (mirabilia Dei) enriqueceu-se de novos espaços onde o Deus Trino suscita a acção de graças: a percepção de que o Espírito age nas outras Comunidades cristãs, a descoberta de exemplos de santidade, a experiência das infindáveis riquezas da comunhão dos santos, o contacto com aspectos surpreendentes do compromisso cristão (.....) Assim, toda a vida dos cristãos está marcada pela solicitude ecuménica e, de certo modo, eles são chamados a deixarem-se plasmar por ela (...) Pelo que diz respeito à Igreja Católica, várias vezes, como, por exemplo, por ocasião do aniversário do Baptismo da Rus', ou da comemoração, ao cumprirem-se onze séculos, da acção evangelizadora dos Santos Cirilo e Metódio, chamei a atenção para tais exigências e perspectivas. Mais recentemente, o Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo, publicado com a minha aprovação pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, aplicou-as no campo pastoral. Relativamente aos outros cristãos, os documentos principais da Comissão Fé e Constituição e as declarações de numerosos diálogos bilaterais forneceram já às Comunidades cristãs úteis instrumentos para discernir o que é necessário ao movimento ecuménico e à conversão que este deve suscitar. Tais estudos são importantes sob dois aspectos: mostram os notáveis progressos já alcançados e infundem esperança por constituirem uma base segura para a busca da unidade que se há-de continuar e aprofundar...’ (Il Regno, N° 752, pag. 396-397).

Agora, João Paulo II passa a falar das coisas que são precisas para alcançar o verdadeiro ecumenismo; começa a falar da conversão interior e da renovação da mente porque, segundo ele, sem elas não se pode alcançar a perfeita unidade entre as igrejas. Mas em que consistem na prática esta conversão interior e renovação da mente? Consistem, para os Católicos, em se porem a pensar que é necessário procurar incansavelmente a unidade visível com todas as igrejas; e por isso devem dedicar-se a procurar o diálogo com os outros Cristãos, como nos chamam eles. Naturalmente este diálogo eles o devem procurar, como veremos também depois, permanecendo apegados à sua Tradição; portanto à idolatria, à mentira e à superstição. Portanto com efeito, os Católicos não querem um verdadeiro ecumenismo mas um falso ecumenismo; porque eles partem do pressuposto de estar na verdade e que se têm que converter mais radicalmente ao Evangelho, o que significa que eles pensam já se terem convertido ao Evangelho mas esta conversão tem de ser mais radical. Nós, do nosso canto, dizemos que eles ainda não se converteram de modo algum ao Evangelho, e disso temos deles as seguintes provas irrefutáveis. Oram e adoram a Maria, oram e adoram aos santos (os verdadeiros e os falsos) e aos anjos, prostram-se diante de estátuas e imagens; participam na missa que para eles é a repetição do sacrifício de Cristo, crêem em toda a espécie de superstição; não crêem no Filho de Deus porque dizem não estarem certos de terem a vida eterna e de terem sido salvos pelo Senhor. Com efeito, eles para ter comunhão connosco têm de arrepender-se dos seus pecados, crer no Evangelho e abandonar a sua tradição, e toda a sorte de idolatria; mas isto para os Católicos, é claro, não entra de modo nenhum nas coisas necessárias para o alcançar deste ecumenismo, antes para eles, destas coisas não se deve sequer falar se se quiser ter diálogos frutuosos com eles. Portanto; que diálogo pode haver com surdos? Naturalmente esta conversão interior e esta renovação da mente deve ser recíproca, segundo João Paulo II, o que significa que nós, segundo ele, teremos que nos converter à causa do ecumenismo, mas àquele ecumenismo como o entendem eles. Mas esta não seria uma conversão mais radical ao Evangelho para nós, mas uma verdadeira e própria traição; em outras palavras nós estamos convictos, que se começássemos a ver as coisas como as vêem os Católicos nos desviaríamos e nos prejudicaríamos a nós mesmos. Porquê? Porque da forma como falam os Católicos romanos, nós se queremos o ecumenismo não devemos polemizar com eles; dito em outras palavras, não devemos reprovar as suas heresias de perdição, a sua idolatria e tantas outras coisas tortas, porque isso não se adequa a pessoas que procuram estar juntas. Mas então isto significa que nós teríamos que deixar de combater o bom combate que a Escritura nos diz para combater! Então nós não deveríamos mais defender o Evangelho, mas condescender com as suas heresias por amor de unidade visível. Mas então teríamos que nos pôr à mesa com eles e dizer-lhes: ‘Respeitemo-nos reciprocamente, nós respeitamos as vossas doutrinas e vós respeitais as nossas!’ Mas eu pergunto a vós: ‘Mas Jesus quando se encontrou à mesa com os Fariseus que fez? Disse porventura: ‘Ouvi, procuremos nos pôr de acordo sobre a lei, vós dizeis isto mas eu digo esta outra coisa sobre estes mandamentos; porém temos em comum Moisés, a religião judaica, portanto não demos motivo de escândalo aos Gentios; estamos juntos mas não polemizemos; eu não vos julgo, mas vós também não deveis julgar-me’? De maneira nenhuma, mas os censurou pela sua hipocrisia, e por eles terem anulado a Palavra de Deus com a sua tradição. Eis o que devem fazer os discípulos de Cristo que amam a verdade; admoestar os que embora dizendo-se Cristãos anularam com a sua tradição os mandamentos de Deus. Tudo menos não polemizar; tudo menos não ser anticatólicos! Nós somos anticatólicos; porque sabemos que as doutrinas da igreja católica romana até agora levaram para o fogo do inferno multidões de pessoas. Elas estão lá em tormentos, e nós teríamos que procurar reconhecer as doutrinas católicas que as conduziram para lá? Não pode ser; nos persigam, nos olhem mal; nós continuaremos a destruir os vãos raciocínios da cúria romana. Mas sobre este facto do diálogo voltaremos mais adiante, porque há mais a dizer.

Ÿ ‘...Retomando uma ideia que o próprio Papa João XXIII tinha expresso na abertura do Concílio, o Decreto sobre o ecumenismo menciona a forma de expor a doutrina, entre os elementos de reforma contínua. Não se trata, neste contexto, de modificar o depósito da fé, de mudar o significado dos dogmas, de banir deles palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de uma época, de eliminar certos artigos do Credo com o falso pretexto de que hoje já não se compreendem. A unidade querida por Deus só se pode realizar na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada. Em matéria de fé, a cedência está em contradição com Deus, que é a Verdade. No Corpo de Cristo — Ele que é « Caminho, Verdade e Vida » (Jo 14, 6) —, quem poderia considerar legítima uma reconciliação levada a cabo à custa da verdade? (...) Portanto um « estar juntos » que traísse a verdade, estaria em oposição com a natureza de Deus, que oferece a sua comunhão, e com a exigência de verdade que vive no mais profundo de todo o coração humano....’ (ibid., pag. 397).

Neste trecho João Paulo II diz em substância que da parte dele não se deve modificar o depósito da fé, os dogmas dos papas, como o da imaculada conceição, da infalibilidade papal, e por aí fora, porque a unidade dos Cristãos só se pode realizar com a adesão à integridade da fé revelada, em outras palavras aderindo a todas as suas tradições (recordai-vos que eles consideram a tradição como verdade revelada por Deus a par da Escritura). Portanto, ainda uma vez, eles reputam a sua tradição verdade; e dizem em substância que a unidade deve ser fundada sobre esta verdade. Mas nós crentes edificámos a nossa vida sobre a verdade e não temos nenhuma intensão de mudar o fundamento verdadeiro com um falso. Fiquem com a sua ‘verdade’, se apascentem das suas mentiras; nós de certo não trocaremos a verdade que conhecemos pelas suas falsidades. Mas como podem pensar eliminar o abismo que nos separa deles sem de modo algum se arrependerem e sem abandonar a sua tradição? Parecerá inacreditável, mas isso é o que estão procurando fazer. Há dois modos de nos comportarmos em relação aos Católicos. O primeiro é o de abandonar a verdade que conhecemos e aderir às suas mentiras; o segundo é o de lhes pregar o arrependimento das obras mortas e a remissão dos pecados pela fé no nome de Jesus, e orar a Deus que lhes conceda o arrependimento, neste caso os arrependidos deixarão de ser membros da igreja romana para unir-se a nós. Nós somos pelo segundo que é o que faz enfurecer o papado; aliás nós sabemos em quem temos crido, e que este no qual estamos é o caminho que leva à vida, enquanto o que eles batem é o caminho que leva à perdição. E não pareça a alguém que seguir este comportamento não é sinal de amor pelos Católicos romanos; porque as coisas são precisamente ao contrário. Somente dizendo aos Católicos romanos para se arrependerem e para crer no Senhor e produzir frutos dignos de arrependimento, se mostra verdadeiro amor por eles. Lisonjeando-os e procurando chegar a compromisso com eles antes é sinal de não querer a sua salvação mas só de querer a sua amizade. O apóstolo disse: "Como fomos aprovados por Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações" (1 Tess. 2:4); seja este o sentimento de todos aqueles que foram aprovados por Deus e chamados à pregação do Evangelho. Certamente, os Católicos não gostam que nós falemos contra as suas doutrinas e pensam que nós os odiamos; mas essa é a inevitável reacção de quem jaz ainda no erro contra quem lhe mostra o caminho da salvação sem lisonjeá-lo.

Ÿ ‘...Assim acreditava na unidade da Igreja o Papa João XXIII, e desse modo contemplava ele a unidade de todos os cristãos. Ao referir-se aos outros cristãos, à grande família cristã, constatava: É muito mais forte aquilo que nos une do que quanto nos divide ’ (Il Regno, N° 752, pag. 398).

Quereria deter-me brevemente sobre estas últimas palavras; mas eu digo: ‘Mas como podem dizer tais coisas quando entre nós e eles não há nada que nos une? Nós perguntamos como o apóstolo Paulo: "Que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?" (2 Cor. 6:14-16). Mas queremos também responder a estas perguntas dizendo que não há nenhuma sociedade entre a justiça e a injustiça, nenhuma comunhão entre a luz e as trevas, nenhuma concórdia entre Cristo e Belial, e nada de comum entre o fiel e o infiel, e nenhum consenso entre o templo de Deus e os ídolos. Portanto, irmãos, não vos deixeis levar também vós dizendo que com os Católicos é mais forte aquilo que nos une do que aquilo que nos divide; porque isso é falso. Entre nós e eles não há nada em comum [3], entre nós e eles não há concórdia, e nem comunhão, como não há com os Budistas, os Hinduístas e os Muçulmanos; mesmo se aparentemente parecesse o contrário. Não olheis à aparência; não julgueis pela aparência.

Ÿ ‘...Quando os irmãos que não estão em perfeita comunhão entre si, se reúnem em comum para rezar, esta sua oração é definida pelo Concílio Vaticano II como alma de todo o movimento ecuménico. Essa oração comum é « um meio muito eficaz para impetrar a graça da unidade », « uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados ». Mesmo quando não se reza formalmente pela unidade dos cristãos, mas por outros motivos como, por exemplo, pela paz, a oração torna-se, por si própria, expressão e confirmação da unidade. A oração comum dos cristãos convida o próprio Cristo a visitar a comunidade dos que Lhe rezam: « Pois onde estiverem reunidos, em meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles » (Mt 18, 20). Quando os cristãos rezam juntos, a meta da unidade fica mais próxima (...) No caminho ecuménico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se congregam à volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as debilidades e limitações humanas (...) A oração « ecuménica » está ao serviço da missão cristã e da sua credibilidade. Por isso, deve estar especialmente presente na vida da Igreja e em cada actividade que tenha a finalidade de favorecer a unidade dos cristãos (...) É motivo de alegria constatar como os vários encontros ecuménicos incluem, quase sempre, a oração, antes, culminam nela (...) Durante estes anos, numerosos dignos representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais me visitaram em Roma, e pude rezar com eles em ocasiões públicas e privadas’ (Il Regno, N° 752, pag. 398, 399).

Agora, João Paulo II põe muito ênfase na oração pela unidade dos Cristãos; segundo ele esta oração ecuménica é muito importante para alcançar a unidade. O Directório para o ecumenismo, orgão católico, constituído para dirigir os católicos neste caminho do ecumenismo encoraja os católicos a participar das reuniões de oração com os membros das Igrejas evangélicas. Naturalmente, a tal respeito, ele dá-lhes claras directivas como por exemplo estas: A) ‘Tal oração teria que ser preparada de comum acordo, com o contributo dos representantes de igrejas, comunidades eclesiais ou outros grupos. É em conjunto que conviria precisar o papel de uns e de outros e escolher os temas, as leituras bíblicas, os hinos e as orações a utilizar’; B) ‘Embora a própria igreja seja o lugar em que uma comunidade tem o hábito de celebrar normalmente a sua liturgia, as celebrações comuns, de que agora se falou, podem ter lugar na igreja de uma ou de outra das comunidades interessadas, com o consenso de todos os participantes. Qualquer que seja o lugar de que se serve, é preciso que seja a todos agradável, que possa ser convenientemente arrumado e que favoreça a devoção’; C) É necessário que se preste sempre séria atenção tanto ao que foi dito sobre o reconhecimento das reais diferenças de doutrina que existem, quanto ao ensinamento e à disciplina da igreja católica sobre a condivisão sacramental’; D) Dado que a celebração da eucaristia no dia do Senhor é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico, os católicos, sem prejuízo do direito das igrejas orientais, têm a obrigação de participar na missa ao domingo e nos dias de preceito. Por este motivo se desaconselha a organizar serviços ecuménicos ao domingo e se lembra que, mesmo quando católicos participam em serviços ecuménicos e em serviços de outras igrejas e comunidades eclesiais, nos dias supraditos permanece a obrigação de participar na missa’ (Il Regno, N° 718, anno 1994, pag. 24). Qual é a nossa convicção a respeito desta oração ecuménica com os Católicos que o seu papa tanto encoraja? Esta; que nós não podemos nos pôr a orar com os Católicos romanos para que Deus nos una a eles; porque oramos por eles para que sejam salvos e se tornem assim Cristãos. É verdadeiramente absurdo orar com incrédulos para que Deus una nós com eles quando antes é necessário orar pela sua salvação. Paulo era Judeu de nascença, mas não ia orar com os Judeus desobedientes que contrastavam as coisas que ele dizia, mas orava pela sua salvação, de facto disse aos Romanos: "Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação" (Rom. 10:1). Por isso também nós não pensamos em reunir-nos com o papa, os bispos, os padres, as freiras e os outros Católicos romanos para orar com eles pela nossa unidade; porque sabemos que eles estão perdidos e oramos a Deus para que os salve. E dado que estamos em tema de oração, recordamos a famosa jornada mundial de oração organizada por João Paulo II em Assis no ano de 1986. Naquele dia, ele diz, que ‘os cristãos das várias Igrejas e Comunidades eclesiais invocaram, a uma só voz, o Senhor da história pela paz no mundo. Naquele dia, de modo distinto mas paralelo, rezaram pela paz também os hebreus e os representantes das religiões não cristãs, numa sintonia de sentimentos que fizeram vibrar as cordas mais profundas do espírito humano’ (Il Regno, N° 752, pag. 410). Naquele dia se reuniram os chefes de 62 religiões para orar; os Peles-vermelha, os Budistas, os Hinduístas, os Muçulmanos e muitos outros com no meio João Paulo II se puseram a orar. Que confusão! Tudo menos vibração das cordas mais profundas do espírito humano; aqui assistimos a uma manifestação de hipocrisia. Naquele dia todas aquelas personalidades reunidas a orar nos lembraram as palavras de Jesus: "E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão" (Mat. 6:5). E seria esta a oração ecuménica que ele considera eficaz para a unidade dos Cristãos e para a paz no mundo? Mas por quanto respeita em específico à oração dos Católicos pela unidade é necessário dizer também que eles se apoiam na mediação de Maria quando oram pela unidade, com efeito se lê na revista Alleluja: ‘Maria ora pela unidade das igrejas, conduzindo-nos a seu filho para pronunciar juntos o nome de Jesus. Ela nos convida a celebrar ecumenicamente o Pentecostes numa comunhão fraterna....’ (Alleluja, N° 6, anno 1979, pag. 12).

Portanto concluindo, o facto de eles se porem a orar com os Muçulmanos, com os Budistas, com os Hinduístas, e com muitos outros pagãos, e o facto de eles se apoiarem na mediação de Maria confirmam claramente que eles estão debaixo do poder das trevas, e que é impensável orar com eles. João Paulo II diz estar contente que várias reuniões ecuménicas terminem com a oração comum; nós do nosso canto estamos entristecidos em constatar não só que alguns dos nossos, iludidos pela igreja católica romana, se puseram a dialogar com os representantes católicos para alcançar não sabemos qual acordo com estas pessoas que não têm nenhuma intenção de renunciar às suas heresias, mas também que se põem a orar com eles.

Ÿ ‘...Se a oração é a alma da renovação ecuménica e do anseio pela unidade, sobre ela se baseia e dela recebe apoio tudo aquilo que o Concílio define « diálogo » . (...) O diálogo não é apenas uma troca de ideias; de algum modo, é sempre um « intercâmbio de dons ». Por este motivo, também o Decreto conciliar sobre o ecumenismo põe em primeiro plano todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles. Tal documento enfrenta a questão do ponto de vista da Igreja Católica, referindo-se ao critério que ela deve aplicar em relação aos outros cristãos. Em tudo isso, porém, há uma exigência de reciprocidade. Ater-se a tal critério é compromisso de cada uma das partes que quer dialogar, e é condição prévia para o iniciar. É preciso passar de uma posição de antagonismo e de conflito para um nível onde um e outro se reconheçam reciprocamente como partner. Quando se começa a dialogar, cada uma das partes deve pressupor uma vontade de reconciliação no seu interlocutor, de unidade na verdade. Para realizar tudo isso, devem desaparecer as manifestações de confrontação recíproca. Somente assim o diálogo ajudará a superar a divisão e poderá aproximar da unidade. (....) O diálogo ecuménico tem uma importância essencial. « Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reunem-se em oração unânime’ (Il Regno, N° 752, pag. 399,400).

Eis aqui o diálogo a que acenei antes, e que o Vaticano considera muito importante ter connosco. Antes de tudo importa dizer que o Vaticano decidiu, para fazer frutuosos os seus diálogos com algumas igrejas cristãs evangélicas, eliminar dos seus discursos todas as palavras e juízos e comportamentos que tornam mais difícil o seu diálogo com elas; de facto é de notar que quando fala oficialmente dos Protestantes não os define nem seitas e nem heréticos e apóstatas; mas os chama ‘irmãos separados’, ‘os outros cristãos’, ‘comunidades eclesiais’, e ‘as outras igrejas’ que são tudo termos que fazem parecer a igreja católica romana alegre pela nossa existência, e fazem crer que ela nos reconhece como Cristãos mesmo se não fazemos parte dela. Certo, à diferença de muitos papas do passado, João Paulo II é um dos que usa belas palavras para connosco. Porém, ainda que a igreja romana use estes termos para connosco ela afirma que as mesmas igrejas e comunidades separadas, têm defeitos porque, como diz o decreto sobre o ecumenismo, ‘só por meio da Igreja católica de Cristo, que é o instrumento geral da salvação, pode-se obter toda a plenitude dos meios de salvação’. E aqui cai de novo em contradição! Mas o que quer dizer com estas palavras? Que nós não possuímos toda a plenitude dos meios de salvação, porque esta só ela a possui! Mas então estamos perdidos? De maneira nenhuma, porque nós conhecemos Cristo Jesus, o Salvador do mundo. Ele está em nós e recebemos da sua plenitude e graça sobre graça. Nele nós temos tudo plenamente; porque "Cristo é tudo em todos" (Col. 3:11). Certo, nós não possuímos os sete sacramentos que tem a igreja católica e que ela define os meios da salvação, mas queremos recordar que a salvação se obtém por meio de uma pessoa, Cristo Jesus, que é o instrumento da salvação de Deus. É a fé nele que salva, não a prática dos sacramentos católicos. Mas vejamos este diálogo. João Paulo II faz claramente perceber que o diálogo com ‘as outras igrejas’, para ser frutuoso, exige que também ‘os outros cristãos’ eliminem palavras e juízos que possam chocar os ânimos dos Católicos e tornar difícil o diálogo. Que significa isto? Significa que nós se queremos dialogar com eles temos que nos pôr a chamá-los irmãos, Igreja de Deus; não devemos dizer-lhes que a doutrina do purgatório é uma heresia, que o culto a Maria é idolatria, que o papa não é nem o chefe da Igreja e nem o sucessor de Pedro; que a salvação é impossível obtê-la por meio dos seus sacramentos e tantas outras coisas. Em suma nos deveremos pôr a discutir coisas relativas ao reino de Deus à sua maneira, dizendo-lhes que têm razão também eles e que nós reconhecemos que também neles há a verdade, e porquê? Para não feri-los, e para não pôr obstáculos ao diálogo!! Seja bem claro irmãos; com os Católicos não se pode e não se deve nunca passar de uma posição de antagonismo para um nível no qual se aceitam como irmãos ou se reconhecem os seus sacramentos e outras suas heresias. Quem se põe a fazê-lo se corrompe; quem o faz torna-se sal insípido que para nada mais serve. Cuidai pois de vós mesmos. Não vos deixeis enganar por estes seus sofismas. A verdade é uma; e não se encontra nos ritos e nas doutrinas da igreja católica; portanto há pouco a dialogar. É necessário exortá-los a se arrependerem e a crer no Evangelho! Nós não estamos de modo algum dispostos a baixar a guarda e a deixar de nos contrapor à arrogância e às mentiras da igreja católica romana. Paulo disse a Timóteo: "Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé ; assim o faço agora" (1 Tim. 1:3,4); e a Tito disse que o bispo deve "reter firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos rebeldes, faladores vãos e enganadores… aos quais convém tapar a boca.." (Tito 1:9-11); portanto todo o ministro de Deus é chamado a convencer os contradizentes, e a tapar a boca aos que ensinam coisas perversas por torpe ganância. Não me parece que Paulo tenha dito a Timóteo ou a Tito para se porem a dialogar à volta de uma mesa com os rebeldes para procurar um acordo com eles, e para conhecer melhor as suas doutrinas para ser enriquecido espiritualmente! Quando o procônsul Sérgio Paulo, chamando a si Barnabé e Saulo, pediu para ouvir a Palavra de Deus, está dito que Elimas, um falso profeta Judeu, procurava apartar da fé o procônsul. Mas que fez Paulo? Disse-lhe fraternamente: ‘Escuta caro irmão Elimas, procuremos dialogar, e assim perceberás que nós estamos dizendo a verdade? De maneira nenhuma, mas disse-lhe: "Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor? Agora eis a mão do Senhor sobre ti, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. Imediatamente caiu sobre ele uma névoa e trevas e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão" (Actos 13:10,11). Quando Estevão falou diante do Sinédrio, disse-lhes: "Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos pais, assim fazeis também vós. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que dantes anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e homicidas, vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes" (Actos 7:51-53). Eis como se exprimiram homens cheios de Espírito Santo para com os que contrastavam o Espírito Santo. Elimas pervertia os caminhos rectos do Senhor e procurava apartar o procônsul da fé; e o Sinédrio contrastava o Espírito Santo, tudo coisas que faz também a cúria romana; porque também ela procura apartar as pessoas da fé e contrasta o Espírito Santo e perverte os caminhos rectos do Senhor; e nós que faremos? Deixaremos que eles digam tudo o que querem, sem levantar a nossa voz de protesto contra eles? Assim, não seja! Não nos calaremos; não deixaremos de nos contrapor a estes; mas com a graça de Deus queremos tapar a sua boca para que as pessoas compreendam ter sido enganadas por eles. Cuidai de vós mesmos, ó ministros do Evangelho porque a igreja católica romana procura com as suas doces palavras de todas as maneiras tornar-vos maleáveis; para dirigir as coisas na direcção que ela quer. Sabei que vós estais na verdade e eles estão no erro; vós estais na luz e eles nas trevas; vós estais salvos e eles perdidos; vós podeis enriquecê-los mas eles apenas podem roubar-vos a vossa riqueza! Levai a mensagem do Evangelho aos Católicos; mas com toda a franqueza; sem lhes encobrir nada; não os lisonjeeis de outro modo Deus requererá o sangue deles da vossa mão. São eles que devem reconhecer que nós estamos na verdade; são eles que devem tornar para nós e não nós para eles. São eles que devem reconhecer as nossas ordenanças e não nós os seus sacramentos! Nós o dizemos claramente: nós já conhecemos a fundo as doutrinas católicas, e não temos necessidade de dialogar com eles para adquirir um conhecimento mais verdadeiro delas, e muito menos para adquirir um apreço mais justo delas. Mas eu pergunto aos que são a favor destes diálogos ecuménicos: ‘Mas que apreço mais justo pensais se poder adquirir pelas heresias da igreja católica romana que conduziram ao Hades dezenas e dezenas de milhões de pessoas de todo o mundo até este presente dia? Não, nós não podemos adquirir nenhum apreço pelas heresias da igreja católica romana; podemos e devemos somente confutá-las e reprová-las privadamente e publicamente. Não há alternativas!

Ÿ ‘...O diálogo é também instrumento natural para confrontar os diversos pontos de vista e, sobretudo, examinar aquelas divergências que são obstáculo à plena comunhão dos cristãos entre si. O Decreto sobre o ecumenismo detém-se, em primeiro lugar, a descrever as disposições morais com que se hão-de enfrentar os colóquios doutrinais: « No diálogo ecuménico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade ».... ‘ (Il Regno, N° 752, pag. 401).

Continuamos a falar deste diálogo que a igreja católica romana depois do concílio Vaticano II instaurou com muitas Igrejas evangélicas, entre as quais também diversas igrejas pentecostais (o diálogo com os Pentecostais teve início oficialmente em 1972 e prossegue ainda hoje). Como podeis ver à distância de trinta anos do concílio Vaticano II (que marcou o início do esforço ecuménico católico) o chefe da igreja católica romana se exprime a respeito deste diálogo dizendo que os teólogos romanos devem permanecer sempre fiéis à doutrina católica romana neste diálogo com os ‘irmãos separados’. Isto significa que não devem ceder sobre nenhum ponto, mas levar avante as suas doutrinas sem vacilar; e já passaram bem trinta anos desde o fim do concílio Vaticano II! Mas então é inevitável fazer-se a pergunta; ‘Mas se falam desta maneira por que procuram de todas as maneiras o diálogo com as Igrejas evangélicas? Conhecem bem quais são as abissais divergências doutrinais que nos separam deles; portanto, segundo nós, é falsa a sua afirmação segundo a qual eles procuram o diálogo connosco para conhecer melhor o que nós ensinamos e para adquirir um apreço mais justo pela doutrina que professamos. João Paulo II definiu também o diálogo com os Cristãos evangélicos um intercâmbio de dons; mas quais são estes dons que durante estas últimas três décadas tomaram dos Evangélicos? Nenhum; de facto no Catecismo da igreja católica de 1993, de Rino Fisichella, que é apresentado aos Católicos por ele mesmo estão as mesmas doutrinas que estão no Novo manual do catequista de Giuseppe Perardi de 1939. Os factos falam claro; tiveram muitos e muitos diálogos e permaneceram sempre firmes sobre todos os seus pontos doutrinais! Não é isto um sinal suficiente para perceber que este seu diálogo que querem ter com os Evangélicos tem como fim o de lhes arrancar concessões e de oferecer-lhes a sua amizade e ‘fraternidade’ na condição de eles fazerem um qualquer compromisso? Façamos um exemplo para fazer compreender isto; o Vaticano quer o reconhecimento recíproco dos batismos, de facto o próprio João Paulo II disse: ‘O Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo almeja um reconhecimento recíproco e oficial dos Baptismos. Isto está muito para além de um simples acto de cortesia ecuménica e constitui uma afirmação básica de eclesiologia’ (ibid., pag. 403). Que significa tudo isto? Significa que se nós reconhecermos o seu batismo eles reconhecerão oficialmente também o nosso; mas para reconhecer o seu batismo por infusão teremos não só que dar um outro significado ao batismo pois teremos que dizer que ele cancela os pecados, mas teremos que também afirmar que ele pode ser ministrado aos infantes e por infusão porque é válido na mesma. Portanto é de se excluir da maneira mais absoluta que nós nos ponhamos a negociar a verdade sobre o batismo em troca da ‘fraternidade’ católica. Mas nem todos estão dispostos a desconhecer o batismo por infusão da igreja católica romana, porque sabem que o diálogo ecuménico neste caso se interromperia ou sofreria um grande golpe. Entre estes está Cecil M. Robeck Jr. que é um membro de destaque das Assembleias de Deus americanas que há anos dialoga a nível oficial com a igreja católica romana. Num seu escrito (redigido juntamente com Jerry L. Sandidge que já morreu mas que ao tempo era membro também ele das Assembleias de Deus americanas) afirma quanto se segue: ‘Nós cremos que os paralelos que existem entre a prática Pentecostal da dedicação dos infantes e a prática Católica Romana do batismo dos infantes possuem uma grande promessa para a apreciação e a compreensão recíproca (hold great promise for mutual understanding and appreciation). Nós sugerimos portanto que o batismo dos crentes (seja ele de crianças de idade apropriada ou de adultos) continue a ser afirmado na teologia e na prática Pentecostal e que o batismo dos infantes realizado numa outra família confessional Cristã possa ser visto como uma alternativa aceitável e equivalente baseada em considerações históricas e teológicas. Assim, se uma pessoa que se une a uma igreja Pentecostal tiver sido batizada em infante ou em criança e se esse batismo foi vivificado e feito pleno de significado através de um subsequente encontro espiritual com Cristo, os Pentecostais não necessitam insistir no batismo na água em adulto’ (Cecil M. Robeck, Jr., and Jerry L. Sandidge, ‘The ecclesiology of Koinonia and baptism: a pentecostal perspective’, [A eclesiologia da koinonia e do batismo: uma perspectiva pentecostal] in Journal of Ecumenical Studies [Jornal de estudos ecuménicos], 27:3. Summer 1990, pag. 531). [4] E então que farão? Cedo o veremos; porque a igreja católica romana está fazendo força para que as Igrejas evangélicas com quem dialoga reconheçam o seu batismo e a sua doutrina sobre o batismo. Mas seja como for não importa se algumas Igrejas evangélicas reconhecerão o batismo católico; nós continuaremos a reiterar que o batismo católico romano é nulo. Mas o facto é que se a igreja católica romana arrancar a certas Igrejas evangélicas o reconhecimento do seu batismo, então será encorajada a prosseguir nesta linha, e procurará logo arrancar um outro reconhecimento ainda mais importante para ela que é o da sua missa. Vós sabeis que a missa, ou eucaristia, segundo a doutrina católica é a repetição do sacrifício de Cristo; portanto se alguma Igreja evangélica reconhecer a sua missa quer dizer que reconhecerá nela a repetição do sacrifício de Cristo, o que significa dizer ‘amen’ a uma blasfémia. Não vos iludais vós que sois pelo ecumenismo com a igreja católica romana; porque o fim a que se propõe o Vaticano é o de levar os Evangélicos a reconhecer a sua missa e a participar nela. O disse claramente o próprio João Paulo II quando disse: ‘É como se tivéssemos sempre de voltar a reunir-nos no Cenáculo de Quinta-Feira Santa, embora a nossa presença juntos, em tal lugar, aguarde ainda a sua completa realização até quando, superados os obstáculos que se interpõem à perfeita comunhão eclesial, todos os cristãos possam reunir-se na única celebração da Eucaristia’ (Il Regno, N° 752, pag. 398). Portanto não vos deixeis enganar pelas suas doces palavras; porque esta sua chamada fraternidade que eles embandeiram e vos oferecem tem um preço: a verdade. Que fareis pois? Vendereis a verdade em troca da sua amizade, ou direis: ‘Não, nós não podemos remover os limites postos pelos apóstolos’? Eu vos digo: Não vendais a verdade; defendei-a incansavelmente também diante dos Católicos: desconhecei todas as suas heresias; tapai-lhes a boca e retirai-vos deste diálogo que haveis empreendido com eles inutilmente.

Ÿ ‘Tudo o que atrás foi dito a propósito do diálogo ecuménico, desde a conclusão do Concílio para diante, leva a dar graças ao Espírito de verdade, prometido por Jesus Cristo aos Apóstolos e à Igreja (cf. Jo 14, 26). Foi a primeira vez na história, que a acção em prol da unidade dos cristãos assumiu proporções tão amplas e se estendeu num âmbito tão vasto. Isto já é um dom imenso que Deus concedeu, e que merece toda a nossa gratidão (..) Uma visão de conjunto dos últimos trinta anos ajuda-nos a compreender melhor muitos frutos desta conversão comum ao Evangelho, cujo instrumento usado pelo Espírito de Deus foi o movimento ecuménico. Acontece, por exemplo, que — segundo o espírito mesmo do Sermão da Montanha — os cristãos pertencentes a uma confissão já não consideram os outros cristãos como inimigos ou estranhos, mas vêem neles irmãos e irmãs. Por outro lado, mesmo a expressão irmãos separados, o uso tende hoje a substituí-la por vocábulos mais orientados a ressaltar a profundidade da comunhão — ligada ao carácter baptismal — que o Espírito alimenta, não obstante as rupturas históricas e canónicas. Fala-se dos « outros cristãos », dos « outros baptizados », dos « cristãos das outras Comunidades ». O Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo designa as Comunidades a que pertencem estes cristãos como « Igrejas e Comunidades eclesiais que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica’ (...) Numa palavra, os cristãos converteram-se a uma caridade fraterna que abraça todos os discípulos de Cristo’ (ibid., pag. 402).

Nesta parte do seu discurso, João Paulo II mostra a sua alegria pelos progressos que se fizeram neste diálogo ecuménico com muitas Igrejas evangélicas começado há cerca de trinta anos. Ele tem razão ao dizer que ‘foi a primeira vez na história, que a acção em prol da unidade dos cristãos assumiu proporções tão amplas e se estendeu num âmbito tão vasto’, porque com efeito nunca houve assim tantas igrejas cristãs evangélicas de todas as denominações, incluindo também denominações pentecostais, que entretiveram este diálogo ecuménico com os Católicos romanos, como há hoje. No início eram poucas, mas agora são verdadeiramente muitas. Nós, pelo contrário, estamos grandemente entristecidos ao ver isto, mas também preocupados por muitos nossos irmãos cujos pastores os arrastam para esta cova do ecumenismo com os Católicos romanos. Mas este sinal não é mais que um dos albores da apostasia que tem de haver antes da vinda do Senhor; têm que acontecer estas coisas; por isso não nos admiramos delas. Paulo disse que "um pouco de fermento faz levedar toda a massa" (1 Cor. 5:6); por isso não é de admirar se este cancro do ecumenismo se difundiu assim tanto no corpo de Cristo. Ora, nós consideramos um dado muito preocupante que os Católicos, a nível oficial, se tenham posto a chamar muitos Cristãos evangélicos ‘irmãos separados’; e já não heréticos, ou apóstatas; porque isso demonstra como muitos dos que se baseiam nos pontos cardinais da sua doutrina na Reforma, deixaram de protestar contra a igreja católica romana, deixaram de combater pelo Evangelho como fizeram alguns séculos atrás os reformadores. Mas por que chegamos a esta conclusão? Porque no tempo da Reforma, isto é, há cerca de quatrocentos anos, na Europa e no mundo os papas não chamavam ‘irmãos separados’ a Calvino, Lutero e muitos outros, mas os chamavam com todo o tipo de apelativo vil! Basta ir desempoar alguns dos livros dos teólogos católicos daquele tempo, ou também ler discursos dos papas de então para se dar conta disso. Por que então esta mudança de expressões da parte católica, quando as suas doutrinas de demónios permaneceram na substância as mesmas, antes acrescentaram muitas outras e nós nos atemos ainda em diversos pontos às doutrinas proclamadas pelos reformadores? É simples; porque muitos daqueles que ela chama Protestantes, não protestam mais contra ela, como faziam os seus predecessores! Mas o motivo é também um outro; a igreja católica romana com o passar do tempo se deu conta que muitas pessoas saíam dela para unir-se a nós, e que pela força não conseguiam fazê-las voltar para o seu seio; portanto mudou de táctica. Hoje usa as lisonjas, os reconhecimentos e várias outras astúcias a eles ligados para fazer voltar para ela aqueles que a deixaram. Esta mudança de atitude formal por parte da igreja católica não é uma coisa a subvalorizar, porque com ela, em muitos casos, conseguiu amaciar e por vezes fazer desaparecer o protesto de muitos Cristãos evangélicos. Isto o se pode constatar também pelo facto de hoje muitos, precisamente por a igreja católica romana aparentemente se humilhar e dizer reconhecer em nós Cristãos, não quererem mais polemizar com ela, ou seja, não querem que se confutem com vigor e com toda a franqueza as suas doutrinas, como se fazia outrora; porque isso poderia refrear o diálogo que instauraram com os rebeldes. Onde estão hoje os livros onde são postas a nu as heresias da igreja romana e são anuladas pela Escritura? Onde estão hoje os pregadores que denunciam do púlpito com toda a franqueza as doutrinas desta organização como faziam séculos atrás os reformadores? Se podem verdadeiramente contar; porque se tornam cada vez mais raros com o tempo. Eis uma das coisas que produziu este diálogo ecuménico! Mas a este ponto, importa dizer também que é muito preocupante e entristecedor constatar que muitos daqueles que se dizem Cristãos evangélicos se puseram a chamar os Católicos, ‘cristãos’, ‘irmãos’; porquê? É caso para se perguntar: Mas então não há mais necessidade de pregar o arrependimento e a fé aos Católicos, se eles são todos nossos irmãos? Já estão salvos; portanto que necessidade há de conjurá-los a salvarem-se? Mas aqui o facto é que é necessário pregar o arrependimento e a fé a esses pretensos Cristãos evangélicos que ou nunca nasceram de novo ou que perderam o discernimento. A vós que levais o nome de Cristãos evangélicos mas que não sois de modo nenhum Cristãos, eu vos digo; Arrependei-vos e crede no Evangelho para obter a remissão dos vossos pecados e escapar à ira vindoura’; e a vós irmãos que pelo contrário fostes enganados pelas lisonjas papais dizemos antes: Arrependei-vos e tornai ao Senhor do qual vos afastastes para procurar o favor dos Católicos romanos.

Ÿ ‘...Acontece cada vez mais frequentemente os responsáveis das Comunidades cristãs assumirem posição conjunta, em nome de Cristo, acerca de problemas importantes que dizem respeito à vocação humana, à liberdade, à justiça, à paz, ao futuro do mundo. Agindo assim, eles « comungam » num dos elementos constitutivos da missão cristã: lembrar à sociedade, de modo realista, a vontade de Deus, alertando as autoridades e os cidadãos para que não sigam pelo declive que os conduziria a espezinhar os direitos humanos (....) Numerosos cristãos de todas as Comunidades, motivados pela sua fé, participam juntos em projectos corajosos que se propõem mudar o mundo no sentido de fazer triunfar o respeito pelos direitos e necessidades de todos, especialmente dos pobres, humilhados e desprotegidos. Na Carta encíclica Sollicitudo rei socialis, constatei, com alegria, esta colaboração, ressaltando que a Igreja Católica não se lhe pode subtrair (...) Hoje constato com satisfação que a rede já ampla de colaboração ecuménica se estende cada vez mais. Também pelo influxo do Conselho Ecuménico das Igrejas se realiza um grande trabalho neste campo’ (Il Regno, N° 752, pag. 403).

Mudar o mundo para fazer triunfar a justiça! Este é pois o projecto da igreja católica romana, e para este seu projecto arrastou e está arrastando também muitas Igrejas evangélicas. Começamos por dizer que é um engano pensar que se pode mudar este mundo e fazer triunfar a justiça nele; Jesus quando veio a este mundo não mudou o mundo, no sentido que aos seus dias continuaram a haver os pobres, os perseguidos por causa da justiça, e os que sofriam todo o tipo de prepotências, e por conseguinte continuaram a haver aqueles que buscavam o mal do seu próximo. Também nos dias dos apóstolos, o mundo continuou a ser o mesmo; de facto continuaram a haver as injustiças sociais. Mas tanto Jesus como os apóstolos não se empenharam na luta social para fazer triunfar a justiça social. Eles pregaram o Evangelho e muitos se arrependeram e creram nele, fizeram bem aos homens; mas não meteram na cabeça que podiam mudar o mundo e fazer triunfar o respeito pelos direitos de todos. Eles próprios eram pobres e foram perseguidos por causa da justiça; sofreram todo o tipo de injustiças, foram abandonados, escarnecidos pelos seus inimigos e estiveram em necessidade; no entanto suportaram tudo isto com paciência sabendo terem sido chamados para isso. E também nós não nos iludimos; se queremos seguir as pisadas de Cristo e as dos apóstolos, também os nossos direitos serão espezinhados pelos homens; também nós sofreremos injustiças de todo o género dos homens que não conhecem a Deus porque Jesus disse: "Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós" (João 15:20), e Paulo disse que "todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tim. 3:12). A Igreja de Deus que quer conduzir-se de modo digno do Evangelho será perseguida; não pode ser de outro modo. Estas são as razões pelas quais nós cremos que, em qualquer caso, não se deve meter na cabeça o pensamento que se nos juntamos todos, poderemos levantar a nossa voz em favor da justiça de maneira mais forte e transformar este mundo de trevas. Mas isto é precisamente o que a igreja romana quer fazer os outros pensar. Estai atentos porque este modo de falar da igreja romana tem como fim o de distrair-vos do bom combate e envolver-vos na política. Sim, na política a que ela desde há muitos séculos se dá; não esqueçais que a igreja romana é política. Nós crentes não temos nenhuma intenção de nos darmos à política ou de fazer política para procurar fazer triunfar o direito neste mundo. Nós, a política a deixamos fazer aos que Deus encarregou de fazê-la, e por eles oramos para que Deus os guie e os ajude. João Paulo II está à cabeça de um império temporal; portanto fala e se comporta à homem poderoso da terra; por isso não fala e não vive como Jesus Cristo ou como o apóstolo Pedro de quem se diz o sucessor. E sendo chefe de um Estado também ele procura salvaguardar os interesses do seu Estado, e estender de uma maneira ou de outra o seu poder no mundo; exactamente aquilo que fizeram os seus predecessores durante os séculos passados. Portanto é compreensível que ele fale de luta social e de iniciativas que têm como fim o de persuadir as autoridades de um Estado a fazer ou não fazer alguma coisa. Tem o poder de fazê-lo e o faz. Mas o facto é que ele está procurando envolver nesta luta política, porque tal é, também nós que da política devemos estar fora e longe dela para não corremper-nos. Mas cuidai que o fim a que ele se propõe não é o de fazer triunfar o respeito pelos direitos; mas o respeito por ele e pela igreja católica romana. Isto é manifesto, quem tem os olhos abertos vê bem tudo isto. Aquilo que nós antes queremos fazer é anunciar o arrependimento e a palavra da fé à igreja católica romana e denunciar as suas heresias, as suas hipocrisias, as suas falsidades, que mantêm milhões de pessoas longe da justiça de Deus que está em Cristo Jesus. Esta é a luta que nós perseguimos. Certo, sabemos que nem toda a igreja católica romana se converterá ao Senhor; de qualquer modo, queremos fazer de tudo para que muitos seus encarcerados cheguem ao conhecimento da verdade e sejam assim libertados do jugo desta religião organizada. Portanto, para concluir; o papa dos Católicos está contente por muitas Igrejas evangélicas se empenharem, como faz ele e junto com ele, a nível político para fazer triunfar o respeito pelos direitos; ou melhor para estender o seu poder temporal sobre a terra esquecendo que o reino de que Cristo, o chefe da Igreja, está à cabeça não é deste mundo. Nós por isso entristecemo-nos ao constatar que também Igrejas evangélicas querem constituir o seu papado sobre a terra, e reprovamos este seu comportamento feito de compromissos, de interesses pessoais, de mentiras e de hipocrisias. A Igreja de Deus deve pregar o Evangelho aos homens e orar pela sua salvação; porque só se os homens aceitarem o Evangelho poderão pôr-se a seguir a justiça e o bem alheio.

Ÿ ‘Os progressos da conversão ecuménica são significativos também noutro sector, o relacionado com a Palavra de Deus. Penso, antes de mais, num facto tão importante para os vários grupos linguísticos como são as traduções ecuménicas da Bíblia (....) Tais traduções, obra de especialistas, oferecem geralmente uma base segura para a oração e a actividade pastoral de todos os discípulos de Cristo. Quem recorda como influíram nas di