Capitulo 11

O Movimento Carismático Católico

 

Na parte dedicada à Igreja (cap. 3) acenei ao movimento carismático presente na igreja católica romana; e dado que dele se ouve muito falar também em alguns ambientes evangélicos, julgo oportuno expor-vos brevemente a história deste movimento (chamado também no âmbito católico Renovamento carismático católico) e algumas suas doutrinas e características, a fim de vos fazer compreender o que é e o que divulga. Tirei as notícias respeitantes à história e à doutrina deste movimento de duas revistas; a de título Alleluja do Renovamento carismático católico, e a de título Tempi di Restaurazione [Tempos de Restauração] do movimento Comunhão e Restauração (movimento evangélico pentecostal com sede em Caserta que se pôs a colaborar com os carismáticos católicos) [1].

 

 

A HISTÓRIA

 

‘O Renovamento carismático católico (denominação hoje corrente para designar o neo-pentecostalismo no âmbito católico) teve início em 1967. Dois estudantes católicos da Universidade de Duquesne em Pittsburg, participando numa assembleia de oração organizada por Pentecostais protestantes, fizeram a experiência típica de que falámos [o autor se refere ao batismo com o Espírito Santo], enquanto o grupo orava e lhes impunha as mãos. Pouco depois, durante um retiro de fim de semana para estudantes na Universidade Duquesne, estes dois ‘batizados no Espírito’ compartilharam a sua experiência com outros: formava-se o primeiro grupo neo-pentecostal católico pelo facto de numerosos estudantes terem começado igualmente a falar em línguas. Desta universidade, o movimento alcançou a de Notre Dame e outras; igualmente se acrescentaram rapidamente adeptos nas paróquias, conventos e mosteiros, um pouco por todo o lado nos Estados Unidos. O ‘Pentecostalismo católico’, como foi chamado, passou solicitamente para o Canadá, para a América Latina e para a Europa; chegou também a alguns países da Ásia e da África, graças a missionários regressados de umas férias na América do Norte ou na Europa (...) Para a maior parte dos católicos em questão, a participação no Renovamento carismático supõe que sejam membros de um grupo de oração que se reunem ordinariamente por uma hora e meia ou duas uma vez por semana. Em muitos grupos a assembleia de oração semanal é precedida ou seguida de uma celebração eucaristica que não substitui a celebração paroquial do domingo. O que distingue uns dos outros os grupos de oração do Renovamento carismático católico são elementos como: a proporção de não católicos que neles tomam parte; o grau de participação do clero católico local; a sua direcção por parte do laicado ou do clero; a sua relação com a paróquia local (ou seja, a pertença dos seus membros a uma ou mais paróquias); o lugar escolhido para a reunião (eventualmente ligado com uma igreja paroquial, uma casa religiosa, uma universidade etc.). Embora numerosos padres tenham parte activa nestes grupos de oração, todavia o papel preponderante na difusão do Renovamento na Igreja é desenvolvido pelo laicado. Em muitos casos, grupos de oração foram aviados por leigos e só a seguir encontraram um padre desejoso de fazer parte deles’ (Francis A. Sullivan S. J, ‘Pentecostalismo’ in Alleluja N°1, Janeiro - Fevereiro 1985, pag. 4. [2]). Por quanto respeita à sua difusão no mundo e em particular em Itália se lê em Tempi di Restaurazione: ‘Até 1990 o Renovamento carismático se difundiu em 240 países dos cinco continentes entre 82 milhões de católicos romanos (...) O Renovamento Carismático católico tem um Conselho Internacional denominado ICCRS (International Catholic Charismatic Renewal Services, reconhecido pela Santa Sé, no plano juridico-canónico, como Associação privada de fiéis da Igreja Católica de Direito Pontifício com um seu escritório hospedado na Chancelaria do Vaticano (...) Em Itália se difundiu de dois centros; em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana, obra de dois Padres Jesuítas, Francis Sullivan e Carlo Maria Martini, agora Arcebispo Cardeal de Milão, e em San Mauro Pascoli, em Romagna, obra do missionário canadense P. Valerien Gaudet que tinha feito a experiência na Universidade de Notre Dame em South Bend (Indiana) (...) O número total dos grupos carismáticos italianos é 1200, enquanto existem uma vintena de comunidades de várias espiritualidades (...) O número total dos membros do Renovamento no Espírito em Itália é de cerca de 250 mil, entre leigos, sacerdotes e bispos’ (Matteo Calisi, ‘Carismatici Cattolici: chi sono?’ [ Carismáticos Católicos: quem são?] in Tempi di Restaurazione, Junho 1994, pag. 8). Em Portugal, há cerca de 400 grupos de oração do Renovamento Carismático Católico que reúnem semanalmente cerca de 15.000 pessoas (Fonte: Agência Ecclesia). Segundo uma pesquisa da Datafolha de setembro de 1994, feita sobre uma amostra dos eleitores brasileiros (então quase 100 milhões), encontrou 74,9% de católicos, dos quais 3,8% (cerca de 4 milhões) pertenciam à Renovação Carismática (Cf. Antônio Flávio Pierucci – Reginaldo Prandi, A realidade social das religiões no Brasil. S.Paulo, Hucitec, 1996, p. 216)

 

O papa e o movimento carismático

 

O movimento carismático católico está sob o comando e a guia do papa. Paulo VI durante o seu pontificado encarregou o cardeal Suenens de vigiar sobre o renovamento carismático em todo o mundo; este mandato foi confirmado a Suenens (este cardeal morreu em 1996 e foi portanto substituído) também por Wojtyla. A necessidade de vigiar sobre este movimento é devido ao facto deste movimento para muitos Católicos tradicionais representar um perigo. Porquê um perigo? Porque temem que os adeptos deste movimento se tornem fundamentalistas, ou seja, que se ponham a interpretar certos textos da Escritura de modo demasiado literal ou arbitrário (segundo eles naturalmente). Dito em outras palavras temem que eles estudando as Escrituras se ponham a interpretar a Palavra de Deus rectamente e compreendam que na igreja católica romana há demasiadas coisas tortas que anulam a Palavra de Deus e por isso se separem dela como já fizeram milhões de Católicos nestas últimas décadas. Mas o papa teme também ‘o falso ecumenismo’, ou seja, que os carismáticos católicos minimizem as diferenças entre ‘cristãos’ negligenciando o que na fé e na praxe é propriamente católico; também aqui é evidente que o chamado papa teme que os carismáticos católicos frequentando ‘os Protestantes pentecostais’ sejam induzidos a pensar que a missa, o culto a Maria, a doutrina do purgatório e tantas outras doutrinas propriamente católicas comecem a ser reputadas por eles um nada e saiam da igreja católica romana.

Para fazer-vos compreender como os carismáticos católicos romanos estão sob o pleno controlo do papa o qual com as suas lisonjas faz de tudo para os fazer permanecer apegados à tradição católica romana sem se separarem em nada dela, porque se dá conta das inovações que trouxe em certos ambientes da igreja católica romana este movimento, e que a seguir, se não fossem travados, poderiam também entender as Escrituras como os Cristãos evangélicos, proponho à vossa atenção afirmações feitas por João Paulo II, pelo cardeal Suenens, e por outros. Por inovações me refiro ao facto de os adeptos deste movimento cantarem muitos dos nossos cânticos, orarem de maneira espontânea, baterem palmas, alguns lerem mais as Escrituras, outros buscarem a efusão do Espírito Santo e o falar em outras línguas, muitos chamados leigos se porem a orar pelos doentes em nome de Jesus com a imposição das mãos, e diversas outras coisas que eram impensáveis na igreja católica romana até a algumas décadas atrás.

Ÿ João Paulo II em 1981 disse: ‘O padre tem um papel único e indispensável a exercitar no e para o renovamento carismático assim como para o conjunto da comunidade cristã..’; e num discurso pronunciado a 15 de Novembro de 1986 na basílica de S. Pedro para cerca de quinze mil participantes do congresso do Renovamento do Espírito ele disse entre outras coisas: ‘Aderir à Igreja, permanecer a ela unido, partilhar a sua fé, obedecer às suas leis, colaborar na sua missão - também no âmbito das dioceses e das paróquias em que se distribui a família dos crentes em Cristo - é o caminho seguro para chegar ao coração da economia da graça e tirar da fonte do Espírito Santo as energias capazes de operar o renovamento das pessoas e das comunidades. A vossa presença, caríssimos irmãos e irmãs, perto do Sucessor de Pedro, cabeça visível da Igreja universal, e as repetidas demonstrações de comunhão sincera e laboriosa com ele e com os Bispos das vossas igrejas locais, significam que vós haveis compreendido bem o que o Evangelho ensina, o que o Espírito Santo presente nos corações inspira como princípio central da ‘Nova Lei’, como regra fundamental da acção e da oração eclesial, como segredo seguro de todo o renovamento e de todo o progresso; estar ao serviço do reino de Cristo segundo as indicações do Espírito em comunhão de fé, de pensamento e de disciplina com os Pastores da Igreja. Sobre esta estrada vos desejo que perseverem e progridam, enquanto sobre as vossas pessoas, sobre as vossas aspirações ao bem, sobre os vossos propósitos e o vosso trabalho invoco a benção divina, da qual seja penhor a minha benção!’ (Alleluja, N° 6, Novembro-Dezembro 1986, pag. 3).

Ÿ O cardeal Suenens no encontro de 24 de Junho de 1979 no santuário da Nossa Senhora de Oropa disse: ‘Agora quero dizer por que razão a Igreja é uma esperança para o renovamento. Porque o renovamento não será e não viverá senão no âmbito da Igreja, na plena integração na Igreja, na mediação da Igreja...’ (Alleluja, N° 5, 1979, pag. 4); Suenens em Oropa afirmou também ‘a necessidade de estudar atentamente o que é o ecumenismo e o que é o carismático autêntico, para que ninguém se deixe desviar pelos numerosos textos pentecostais circulantes, fundados sobre uma teologia não aceitável a nós católicos’ (ibid., pag. 4); e o mesmo cardeal no seu livro Ecumenismo e Renovamento afirma que ‘declarar como fundamental um Cristianismo que aceita o Cristo mas não a Igreja; a Palavra de Deus e não a Tradição viva que a sustém embora estando-lhe submissa; os carismas do Espírito mas não a estrutura ministerial e sacramental da Igreja, significa, desde o princípio, pedir a um católico que negue pontos essenciais da sua fé e levar o diálogo ecuménico a um impasse’. Como podeis ver por vós mesmos estes discursos falam muito claro; os carismáticos católicos segundo a cúria romana devem permanecer na igreja católica, estar apegados à sua tradição, e estar atentos para não se deixarem ‘extraviar’ pelos livros pentecostais porque se fundam sobre uma teologia que os Católicos não podem aceitar de nenhuma maneira. Todo o comentário é supérfluo!.

 

Maria no movimento carismático

 

Parecerá estranho; no entanto aqueles que entre os Católicos dizem de ter recebido o batismo com o Espírito Santo e de falar em línguas, de orar pelos doentes, de ter começado a viver de maneira diferente desde o seu encontro com o Senhor, digo estes oram e adoram a Maria. Citarei a tal respeito primeiro algumas afirmações do cardeal Suenens sobre Maria e depois outras de alguns membros deste movimento.

Suenens em Oropa disse: ‘Como Maria é bem-aventurada por ter crido, assim queria dizer a cada cristão: bem-aventurados os que crêem no Espírito Santo que opera em Maria: bem-aventurados os que crêem na mediação de Maria como instrumento do Espírito Santo (...) Mas na ordem espiritual o Senhor nos convida a entrar no mistério da dependência espiritual. Disse Jesus a Nicodemos: ‘Não se entra no Reino dos céus se não se nascer de novo’ e Nicodemos não percebia. É o segredo, direi místico, de entrar nesta dependência, de orar com a oração de Maria, de ter sempre Maria como medianeira de todos os nossos movimentos espirituais, de ver com os seus olhos, de orar com os seus lábios, de proceder com o seu coração (...) bem-aventurado o renovamento se hoje e nos tempos futuros permanecer fiel a Maria para ser fiel ao Espírito Santo operante (...) A presença de Maria é indispensável, como o era no Cenáculo no dia em que foi imprimido o impulso apostólico à Igreja (...) Que cada um de vós volte desta peregrinação com a alma cheia de Espírito Santo, com a força de Pentecostes; e que Maria seja o sorriso, a doçura da vossa vida’ (ibid., pag. 5).

Maria Cristina de Milão escreveu no Alleluja um artigo sobre a peregrinação do Renovamento carismático ocorrida a Lourdes de 29 de junho a 3 de julho; a respeito das palavras dos oratórios que mais tocaram o coração dos presentes cita estas sobre Maria: ‘Ela nos convida a celebrar ecumenicamente o Pentecostes numa comunhão fraterna que nos consente dizer a todos os irmãos, seja qual for a sua denominação, a palavra do Anjo a José: não temas receber Maria, porque o que nela nasceu é obra do Espírito Santo’ (Alleluja, N° 6, 1979, pag. 12).

Um escritor anónimo membro do Renovamento do Espírito Santo escreveu no Alleluja: ‘Como a Igreja está sob a protecção de Maria, assim está também o meu matrimónio e toda a minha vida de relação com o próximo. Início pois a segunda parte da minha oração com uma Ave Maria e, através da intercessão da Virgem, peço ao Senhor um segundo trecho para que me ponha nos lábios uma oração adequada à minha situação (....) Quando um facto me perturba, ou provo uma forte emoção, dirijo-me a Maria com uma Ave, com o objectivo de confiar a ela os meus sentimentos e pedir-lhe que interceda por mim....’ (Alleluja, N° 2, Março-Abril 1985, pag. 10).

 

 

A DOUTRINA E A PRAXE

 

1) O batismo com o Espírito Santo. ‘Batismo no Espírito’ - Podemos descrevê-lo como uma experiência religiosa que dá uma consciência indubitavelmente nova pela presença e pela acção de Deus na vida de quem o recebe: esta acção é em geral acompanhada por um ou mais dons carismáticos (.....) ‘Os batizados’ tomam consciência de ter uma força nova para viver cristianamente e para testemunhar o Evangelho; além disso, de possuir um dom que lhes consente orar a Deus e servir o próximo de maneira mais fácil e eficaz. Estas duas ordens de mudanças correspondem exactamente às duas características do renovamento: ‘pentecostal’ e ‘carismático’. (...) Se é verdade que Lucas distinguiu o rito batismal e a descida do Espírito como dois actos ou momentos distintos na iniciação cristã, todavia tudo quanto disse leva a juntá-los estritamente um ao outro; falta um sustento real para afirmar que o modo normal para os cristãos do Novo Testamento fosse serem batizados na água, ficando depois à espera e em oração com vista a uma second blessing que finalmente faria deles ‘cristãos cheios de Espírito’. O testemunho de Paulo é ainda mais radical: ele não reconhece ninguém como cristão se não recebeu o Espírito Santo e não admite alguma iniciação cristã independentemente do dom do Espírito. Quando os Católicos começaram a partilhar a experiência pentecostal, compreenderam ter que explicar claramente como tal experiência não estava de maneira nenhuma em contraste com a doutrina católica, segundo a qual o Espírito Santo já foi dado na iniciação cristã. Tinham que evitar sobretudo dar a impressão de considerar o sacramento do batismo como simples ‘batismo na água’ e que só através de uma experiência pentecostal se recebia efectivamente o Espírito. A solução mais comum proposta na literatura do renovamento carismático católico foi de considerar os sacramentos único ‘lugar’ do ‘dom’ ou da efusão do Espírito. Com efeito, falar de uma nova efusão do Espírito prescindindo da recepção de um sacramento não seria conforme a teologia católica. Esta solução explica o ‘batismo no Espírito’ pentecostal já não como um dom novo do Espírito, mas sim como uma tomada de consciência vivida da sua presença preliminar ou como uma libertação da sua força, concedida de facto nos sacramentos, mas ainda não experimentada. Donde a distinção entre ‘batismo no Espírito’ em sentido teológico (onde o Espírito é efectivamente doado, nos sacramentos) e experiência vivida (tomada de consciência do poder do Espírito já recebido)’ (Francis A. Sullivan S. J in op. cit., pag. 4,5,6). O mesmo Sullivan disse também: ‘Aquilo que é chamado ‘batismo no Espírito’ não está de algum modo necessariamente ligado à glossolalia [3] 1). É claro que isto não é uma recusa do dom das línguas como uma manifestação do Espírito, mas sim uma recusa do que foi, e com razão, chamado ‘a lei das línguas’ 2). Não é tampouco uma recusa da ideia que teria que haver alguma evidência concreta para demonstrar que uma pessoa foi realmente ‘batizada no Espírito’. Aliás os católicos, à diferença dos pentecostais, aceitam uma variedade considerável de sinais, e não necessariamente as línguas, como evidência que o Espírito santo começou a estar presente e a trabalhar de uma maneira nova na vida de uma pessoa’ (F. A. Sullivan,L’esperienza pentecostale nel Rinnovamento carismatico cattolico’ in Alleluja N° 2, 1977, pag. 7).

 

2) O orar e cantar em outra língua. ‘Há sem dúvida muitos pentecostais que explicariam as ‘línguas’ como uma aptidão sobrenatural de falar em algum idioma real mas desconhecido. Contudo, hoje se admite cada vez mais que se trata antes de uma entrada em acção de uma aptidão latente natural para emitir espontaneamente sons semelhantes a uma linguagem e isso não necessariamente por obra do Espírito Santo. Nem é limitada à experiência cristã: o mesmo fenómeno foi atestado em outras religiões. O se considera todavia um carisma [4], quando se manifesta como um dom ordenado à oração, particularmente de louvor. O seu valor parece consistir no facto de um tal dom libertar as profundezas do espírito humano para exteriorizar mediante a voz, de maneira audível (isto é, com o corpo como parte integrante do ‘eu’) o que não pode ser exprimido numa linguagem conceptual (...) Podemos aproximar o dom das línguas ao das lágrimas (..) Em ambos os casos não se trata de um dom que confira uma aptidão física antes inexistente; e como nem todos os modos de chorar podem assemelhar-se ao dom das lágrimas, assim não se pode relacionar ao dom das línguas toda a forma de glossolalia. Chorar é ‘dom das lágrimas’ quando significa e, juntamente, intensifica a atitude interior de contrição, de compaixão ou de alegria (e portanto com um tipo de eficácia quase sacramental)...’ (Francis A. Sullivan in Alleluja N° 2, Março-Abril 1985, pag. 2,3).

 

3) A interpretação das línguas. ‘Os que falam habitualmente em línguas fazem uso deste dom na oração de louvor seja privada seja comunitária. Mas às vezes numa assembleia, sobrevém que, enquanto os outros estão calados, alguém fala para exprimir o que parece não tanto uma oração em línguas quanto a transmissão de uma mensagem. Em geral, a isto segue-se um tempo de silêncio, depois alguém no grupo pode formular o que em outras circunstâncias se definiria uma ‘profecia’, mas que neste caso é a interpretação da mensagem transmitida em línguas. Aqui não se pode falar de tradução, como se o primeiro tivesse usado uma língua estrangeira traduzida pelo segundo em linguagem corrente; a melhor explicação parece ser que o falar em línguas foi uma espécie de sinal dado ao grupo para chamar a atenção dele enquanto espera uma profecia iminente; em outros termos, que o ‘falar em línguas’ e a posterior ‘interpretação’ constituem dois momentos de uma mesma profecia’ (ibid., pag. 3). Sullivan confirma este conceito também num outro seu escrito dizendo: ‘O falar em línguas é um sinal que o Senhor tem uma palavra a dizer ao grupo, e a interpretação é a palavra que o Senhor deseja que o grupo ouça. Ela é recebida e pronunciada da mesma maneira que uma profecia é recebida e pronunciada. Alguém perguntará: se ‘a interpretação’ é realmente igual à profecia, por que razão necessita de ser precedida do falar em línguas? Na minha opinião, a razão é que o anterior falar em línguas cria uma atmosfera de intensa escuta interior, de expectativa por uma palavra do Senhor. Ele avisa aqueles do grupo que profetizam a estarem prontos para receber uma inspiração para aquilo que o Senhor quer que o grupo ouça, e avisa todo o grupo a estar pronto a escutá-lo. Naturalmente, esta explicação das línguas com a interpretação dá por descontado que não há entre a mensagem em línguas e a mensagem que se segue o tipo de correspondência que haveria no caso de a interpretação das línguas fosse verdadeiramente uma tradução’ (Francis A. Sullivan, Charisms and charismatic renewal [Os carismas e o renovamento carismático], Michigan 1982. pag. 149).

 

4) A profecia. ‘A profecia é entendida no Renovamento como uma mensagem do Senhor ao grupo e já não como uma comunicação considerada boa por quem a transmite; portanto como uma mensagem que brota de uma espécie de inspiração divina. Isto implica antes de tudo que quem fala apresente ao grupo o seu dizer como profecia só se está convicto que a mensagem vem realmente do Senhor e não das suas reflexões pessoais, além disso, implica que a sua convicção subjectiva seja controlada pelo discernimento do grupo’ (Francis A. Sullivan S. J in Alleluja N° 2, pag. 3).

 

5) A oração de cura. ‘A oração de cura é praticada por todas as assembleias de oração neo-pentecostais. Aquilo que é notável numa oração deste género é a fé viva no poder que Deus tem de curar todos os nossos males, sejam físicos sejam espirituais, considerados normalmente curáveis ou incuráveis (...) A reiterada experiência de curas extraordinárias de pessoas pelas quais oraram, induziu alguns a se considerarem como chamados por Deus de modo especial para um ministério de oração pela cura. Em certos casos, o exercício deste ministério é marcado pelo fenómeno definido como ‘repouso no Espírito’: a pessoa pela qual se ora cai ao chão e ali fica por um pouco numa espécie de letargo’ (F. Sullivan, Alleluja, N° 2, pag. 3). A propósito do recorrer ao Senhor para obter a cura da doença Sullivan porém, que também afirma crer que o Senhor ainda cura, afirma quanto se segue: ‘É óbvio, portanto, que Deus quer que nós recorramos a qualquer ajuda médica que está disponível quando nós estamos doentes, e que seria presunçoso recusar tal ajuda com o fundamento de que isso mostraria uma falta de fé no poder de Deus para nos curar. Nós não temos alguma maneira, em nenhum particular caso, de saber se Deus tem intenção de operar um sinal do seu poder sobre a morte curando-nos sem a ajuda médica. A recusa da ajuda médica é verdadeiramente uma maneira para procurar forçar Deus a vir com um milagre - e esta não é uma atitude de uma fé religiosa genuína, mas uma tentativa de manipular Deus’ (F. Sullivan, Charisms and charismatic renewal, pag. 166-167).

Esta transcrição pormenorizada daquilo que ensinam os do Renovamento carismático católico, porventura a alguns pareceu demasiado longa ou inútil mas nós julgámos necessário fazê-la porque hoje muitos, no seio das Igrejas, não sabem o que com efeito ensinam os do movimento carismático católico sobre o batismo com o Espírito Santo e sobre alguns dons ligados ao batismo com o Espírito Santo. Estão ao ouvir dizer; e assim fazem a ideia que ensinam tudo o que é ensinado no nosso meio. Mas como vós mesmos pudestes constatar ao ler as declarações de Sullivan, que é um importante expoente do Renovamento carismático, eles não ensinam de modo nenhum rectamente acerca de diversas coisas que dizem respeito ao batismo com o Espírito Santo e à manifestação do Espírito Santo. Passamos portanto a demonstrar mediante as Escrituras a falsidade de certos ensinamentos transmitidos no seio deste movimento católico.

 

 

 

CONFUTAÇÃO

 

O batismo com o Espírito Santo recebe-se não quando se nasce de novo mas depois de ser nascido de novo; portanto é uma experiência distinta do novo nascimento

 

O batismo com o Espírito Santo é uma experiência que se faz depois de ter crido; quando dizemos depois de ter crido não queremos porém dizer forçosamente depois de ter sido batizado na água porque o caso de Cornélio demonstra que alguns podem ser batizados com o Espírito Santo também antes de serem batizados na água. Alguém dirá: ‘Depois de ter crido em quê?’ Depois de ter crido que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e que ele morreu sobre a cruz pelos nossos pecados, que foi sepultado, e que depois de três dias foi ressuscitado pela glória do Pai, e apareceu àqueles que ele tinha escolhido como suas testemunhas. Ora, como quando se crê com o próprio coração nisto que aqui acima disse acontece que se recebe a remissão de todos os pecados conforme está escrito: "Todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome" (Actos 10:43); se é justificado, isto é, feito justo por Deus porque está escrito: "Com o coração se crê para a justiça" (Rom. 10:10) e também: "Justificados pela fé, temos paz com Deus" (Rom. 5:1); se é vivificado pelo Espírito de Deus porque o Espírito Santo entra em nós trazendo a vida em lugar da morte porque João diz: "Para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (João 20:31); se recebe a vida eterna porque Jesus disse que "aquele que crê tem a vida eterna" (João 6:47); e se passa a ser filho de Deus conforme está escrito: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (João 1:12,13); digo, em virtude de todas estas coisas afirmamos que quando se crê se nasce de Deus. Aliás não disse porventura João: "Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus?" (1 João 5:1); portanto por que motivo ficar admirado ao ouvir dizer que se nasce de novo quando se crê no nome do Filho de Deus? Deve ser depois dito que quando se passa a ser filho de Deus, mediante exactamente o novo nascimento, está-se certo de ser tal por esta razão escrita por Paulo aos Romanos: "Recebestes o Espírito de adopção de filhos, pelo qual clamamos: Aba! Pai! O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (Rom. 8:15,16): por isso naqueles que crêem há o Espírito de Deus doutra forma não poderiam estar seguros de serem filhos de Deus e de pertencer a Cristo. Em outros termos uma pessoa que creu há poucos instantes tem o Espírito de Cristo nela e mediante ele sabe pertencer-lhe. De certo se ele não tivesse o Espírito de Cristo não poderia afirmar ser um filho de Deus lavado no precioso sangue do Cordeiro e ser um membro do corpo de Cristo, e de certo o próprio Deus não poderia chamá-lo seu filho; e nem nós poderíamos chamá-lo nosso irmão porque Paulo diz que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rom. 8:9). Dizendo isto excluímos que o Espírito Santo se receba quando se é batizado na água porque Ele se recebe quando há o arrependimento e se crê no Senhor, ou quando se nasce de novo (antes de ser batizado na água). Mas dizendo isto também excluímos que o Espírito Santo venha habitar na criança quando o padre derrama a chamada água santa sobre a cabeça da criança, e isto porque o bebé não tem a fé no Senhor, não tendo ainda a capacidade de crer; a água do padre não tem o poder de limpá-lo do pecado porque é só mediante a fé que os pecados são cancelados da consciência humana. Mas nós sabemos também que o Espírito Santo os meninos não o recebem nem com o crisma; e os motivos os expus quando falei do crisma. Portanto Sullivan erra quando afirma que o Espírito Santo se recebe na iniciação cristã, ou seja, quando se recebe o batismo e o crisma. Esta é a razão pela qual os carismáticos católicos falam de nova efusão do Espírito Santo em relação ao batismo com o Espírito Santo, porque eles sustentam que o Espírito Santo já está naqueles que foram batizados em meninos e depois crismados (no crisma segundo a teologia romana se recebe a plenitude do Espírito), mas com o batismo com o Espírito Santo se toma consciência do poder do Espírito já recebido. Tudo isto o dizem para procurar conciliar o batismo com o Espírito Santo com a teologia católica romana; conciliação que não pode haver. Como podeis ver das palavras de Sullivan se evidencia claramente que o Renovamento carismático católico permanece ainda apegado à teologia católica e não se separa nos seus pontos cardinais dela [5]. Quanto depois à sua afirmação segundo a qual falta um sustento real para afirmar que o modo normal para os Cristãos do Novo Testamento fosse serem batizados na água, ficando depois à espera e em oração para serem cheios de Espírito Santo, ela não é aceitável porque o sustento existe: é o dos discípulos em Jerusalém. Que fizeram de facto eles depois que Jesus foi elevado ao céu, eles que tinham sido batizados na água? Não oravam porventura juntos e esperavam receber o Espírito Santo? A Escritura diz que os apóstolos "perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele" (Actos 1:14); e isto aconteceu nos dias anteriores a terem sido batizados com o Espírito Santo. Não esperaram porventura ser batizados com o Espírito Santo? Certamente, de facto Jesus tinha lhes dito para que não se ausentassem de Jerusalém "mas que esperassem a promessa do Pai" (Actos 1:4).

Também o caso dos crentes de Samaria confirma que o batismo com o Espírito Santo o se recebe normalmente (há excepções) depois de ter crido e ter sido batizado na água, com efeito primeiro está escrito: "Mas, quando creram em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, batizavam-se homens e mulheres" (Actos 8:12), e depois que os apóstolos Pedro e João "tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo. Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo" (Actos 8:15-17).

Também no caso dos cerca de doze discípulos de Éfeso eles foram batizados com o Espírito Santo depois de terem sido batizados na água de facto está escrito: "E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam" (Actos 19:5,6).

E por fim citamos as palavras que Pedro no dia de Pentecostes dirigiu àqueles Judeus que compungiram-se em seu coração: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo" (Actos 2:38).

Portanto, por todas estas Escrituras se compreende que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência distinta do novo nascimento porque se recebe depois de ter crido, e que habitualmente, tirando em alguns casos, ele se recebe depois de ter sido batizado na água.

Depois de ter dito isto é inevitável que alguém pergunte: ‘Mas se quando as pessoas nascem de novo o Espírito Santo vem habitar nelas, por que razão é necessário que elas orem e esperem ser batizadas com o Espírito Santo?’ A razão é para serem revestidas de poder, de facto é necessário sempre recordar que quando Jesus Cristo batiza com o Espírito Santo quem creu nele, este é revestido de poder porque Jesus disse: "Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra" (Actos 1:8). Esta é a razão pela qual Jesus disse aos seus discípulos para que não se ausentassem de Jerusalém mas para que esperassem o cumprimento da promessa do Pai, isto é, para que esperassem ser batizados com o Espírito Santo. Seja bem claro: os discípulos antes de serem batizados com o Espírito Santo no dia de Pentecostes tinham uma medida de Espírito Santo de facto quando Jesus lhes apareceu disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo" (João 20:22), porém eles não estavam ainda revestidos de poder doutra forma Jesus não lhes teria dito para esperar serem revestidos de poder e que eles receberiam poder quando o Espírito Santo descesse sobre eles. Portanto o batismo com o Espírito Santo corresponde ao revestimento de poder.

Mas há uma outra questão a que responder e é esta: ‘Se os discípulos antes do dia de Pentecostes tinham o Espírito Santo, por que é que se diz que eles foram batizados com o Espírito Santo no dia de Pentecostes? Não é esta uma contradição? Ora, para compreender a diferença que houve entre a recepção do Espírito que eles experimentaram quando Jesus lhes apareceu e a recepção do batismo com o Espírito Santo que eles experimentaram no dia de Pentecostes é necessário ter presente que o batismo com o Espírito Santo é o enchimento de Espírito Santo do crente. Em outros termos os discípulos quando Jesus disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo" (João 20:22), receberam uma certa medida de Espírito Santo sem ser cheios dele, mas quando eles foram batizados com o Espírito Santo no dia de Pentecostes eles foram cheios dele conforme está escrito: "E todos foram cheios do Espírito Santo..." (Actos 2:4). Como podeis ver não há nenhuma contradição entre os dois eventos, porque o batismo com o Espírito Santo não é mais que a recepção de uma medida maior de Espírito Santo por parte do crente.

 

O falar em outra língua está estritamente ligado ao batismo com o Espírito Santo porque é o sinal exterior que testifica a sucedida recepção dele

 

Vejamos agora a tão debatida questão sobre o sinal das línguas. Sullivan afirma que aquilo que é chamado batismo com o Espírito Santo não está necessariamente ligado à glossolalia, isto é, ao falar em outras línguas. Isto é falso porque a Escritura ensina que o batismo com o Espírito Santo e o falar em outras línguas são duas coisas que não se podem separar uma da outra; queremos dizer com isto que não há um batismo com o Espírito Santo sem o relativo e consequencial falar em línguas, porque quando se é batizado com o Espírito Santo se começa a falar em outras línguas porque o Espírito Santo do qual se é cheio concede logo de falar em outra língua. Isto o faz o Espírito Santo automaticamente quando desce sobre o crente; por isso não há absolutamente necessidade de se perguntar: ‘Mas como farei para falar em outra língua?’ O Espírito Santo quando desce sobre um crente e o enche, se possui da boca do crente e da sua língua; e o move de dentro de maneira poderosa, mas ao mesmo tempo incompreensível, a proferir frases incompreensíveis com um som e uma sintaxe completamente diferente daquela da sua língua. O Espírito Santo o faz falar numa língua estrangeira, sem que o crente a tenha alguma vez estudado: a língua que lhe faz falar é perfeita, portanto tanto o som das palavras, a sua sintaxe como a gramática são perfeitas e não têm defeito nenhum. Tudo isto o opera o Espírito Santo, por isso não há defeito algum. As Escrituras que testificam que quando os crentes são batizados com o Espírito Santo (tende presente que se pode dizer também ‘quando recebem o Espírito Santo’, ‘quando recebem o dom do Espírito Santo’, ‘quando o Espírito Santo desce sobre eles’) se põem logo a falar em outra língua pelo Espírito Santo são estas:

Ÿ "E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem " (Actos 2:4);

Ÿ "E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus" (Actos 10:44-46);

Ÿ "E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam" (Actos 19:5-6).

Como podeis ver em todos estes três casos em que o Espírito Santo desceu sobre aqueles crentes eles se puseram a falar em outras línguas. No caso de Éfeso se puseram também a profetizar, o que confirma que quando se é batizado com o Espírito Santo se podem receber também dons de palavra (estes dons do Espírito Santo são a diversidade das línguas, a interpretação das línguas, e o dom de profecia) além de também outros dons do Espírito Santo. Mas é bom a este ponto fazer uma distinção no campo das línguas entre as línguas como sinal e as línguas como dom. O sinal das línguas começa a estar presente no crente no momento em que é batizado com o Espírito Santo, o dom das línguas, ao contrário, pode recebê-lo seja quando é batizado com o Espírito Santo ou tempo depois de ter recebido o batismo com o Espírito Santo, mas pode também não recebê-lo. O dom da diversidade das línguas é um dom do Espírito Santo mediante o qual o Espírito Santo concede ao crente de falar em várias línguas estrangeiras, e não está presente em todos os que foram batizados com o Espírito Santo porque Paulo diz: "Falam todos diversas línguas?" (1 Cor. 12:30) (ou seja ‘têm todos o dom da diversidade das línguas?’). Recapitulando; todos os que são batizados com o Espírito Santo falam em outra língua (pelo menos uma), mas nem todos são capazes de falar em várias línguas estrangeiras.

Examinemos agora a descrição do orar em outras línguas feita por Sullivan: ‘Uma entrada em acção de uma aptidão latente natural para emitir espontaneamente sons semelhantes a uma linguagem e isso não necessariamente por obra do Espírito Santo’. É conforme ao ensinamento da Escritura esta definição? Não, porque no falar em outras línguas, seja ele sinal ou dom, não há nada de natural porque ele é sobrenatural; esta é a razão pela qual não se pode compreender plenamente e porque o homem natural o considera uma loucura. As coisas que o crente diz em outra língua, apesar dele não as compreender, são coisas verdadeiras, coisas justas ditas numa língua estrangeira desconhecida. Não se trata de frases sem sentido, ditas e fabricadas pelo homem a seu agrado justamente porque é o Espírito que fala pela boca do crente. Há uma evidente prova disto no falar em línguas dos discípulos no dia de Pentecostes, de facto a Escritura diz que quando a multidão daqueles Judeus presentes em Jerusalém para a festa se reuniu na casa onde se encontravam os discípulos do Senhor que estavam falando em línguas estrangeiras movidos pelo Espírito Santo, "estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Asia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus" (Actos 2:6-11). Notai que aqueles homens Hebreus ouviram falar os discípulos do Senhor, também eles Hebreus mas provenientes da Galiléia, nas suas línguas das grandezas de Deus. Tudo pois menos do que sons semelhantes a uma linguagem; se tratava de verdadeiras e próprias línguas estrangeiras bem faladas por aqueles homens Galileus que não as tinham estudado e bem compreendidas por aqueles que vinham ao lugar onde elas eram faladas.

Nós compreendemos bem o que quer dizer Sullivan quando diz sons semelhantes a uma linguagem; ele quer dizer em definitivo palavras inventadas pelo homem que não têm nenhum significado, mas que parecem línguas estrangeiras. Estas são coisas que não têm nada a ver com a manifestação do Espírito e por isso as rejeitamos. Nós sabemos que quando o Espírito ora pelos santos o faz com gemidos inexprimíveis, que não são de maneira nenhuma ‘uma entrada em acção de uma aptidão latente natural’; mas uma inescrutável obra do Espírito Santo. Sejam postos portanto de lado todos aqueles discursos que tendem a fazer parecer o falar em outras línguas como uma qualquer coisa de natural e não de sobrenatural. Naturalmente este tipo de ensinamento errado produziu os seus efeitos no âmbito do movimento carismático católico; muitos e muitos Católicos romanos dizem ter recebido o Espírito Santo mas não receberam absolutamente nada; sim, proferem sílabas e palavras que aparentemente dão a impressão que eles foram batizados com o Espírito Santo, mas com efeito não é a manifestação do Espírito porque o Espírito está ausente, e por isso estão ausentes também o poder, a santidade, a verdade, o fruto do Espírito. Por que motivo pois ficar admirado se tantos Católicos deste movimento dizem ter recebido o Espírito Santo, dizem ter recebido ‘o Pentecostes’ na sua vida, mas ao mesmo tempo se mantêm mais do que nunca apegados ao seu papa, ao culto a Maria, à tradição da igreja católica romana? Dizem que o Espírito Santo desde que veio neles desta ‘maneira nova’ os convenceu mais da infalibilidade do papa, da eficácia da intercessão de Maria, e de muitas outras mentiras; não é de modo nenhum assim, porque se eles tivessem recebido o Espírito Santo há tempo não chafurdariam mais na idolatria e nas mentiras dos seus papas e dos seus concílios, mas sairiam delas, enquanto o facto deles estarem bem ali no meio do lamaçal da igreja católica romana quer dizer que ainda não são nascidos de novo.

 

A interpretação das línguas não é uma profecia porque quem fala em outra língua fala a Deus e não aos homens

 

Por quanto respeita depois à interpretação das línguas é preciso dizer que como Paulo diz que "o que fala em outra língua não fala aos homens, mas a Deus" (1 Cor. 14:2), assim por conseguinte também a interpretação deve corresponder a um falar a Deus e não pode ser uma profecia porque a profecia é um falar aos homens. Vejamos outras Escrituras que confirmam que quem fala em outra língua fala a Deus e não está profetizando em outra língua pelo que a interpretação não é uma profecia.

Ÿ Paulo diz aos Romanos: "E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos" (Rom. 8:26,27);

Ÿ Paulo diz aos Coríntios: "Porque se eu orar em outra língua, bem ora o meu espírito, mas o meu entendimento fica infrutífero. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o amém sobre a tua ação de graças aquele que ocupa o lugar de indouto, visto que não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado" (1 Cor. 14:14-17);

Ÿ Paulo diz aos Efésios: "Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica pelo Espírito" (Ef. 6:18).

Ÿ Judas diz: "Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando pelo Espírito Santo, conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus" (Judas 20,21).

Recapitulando; quem fala em outra língua ora a Deus, canta a Deus, dá graças a Deus, e por isso a interpretação corresponde ao específico falar a Deus por ele proferido pelo Espírito naquele momento. A interpretação não pode consistir numa profecia porque doutra forma a Escritura seria anulada.

Alguém então dirá: que dizer então das seguintes palavras de Paulo: "Quem profetiza é maior do que o que fala em outras línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação" (1 Cor. 14:5)? Diremos que com estas palavras Paulo de modo algum disse que o falar em línguas interpretado corresponde a uma profecia. Porquê? Porque Paulo anteriormente explicou que quem fala em outra língua fala não aos homens mas a Deus, enquanto quem profetiza fala aos homens, pelo que - explica ainda Paulo - "O que fala em outra língua edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja" (1 Cor. 14:4). Eis por que Paulo no início do seu discurso diz desejar principalmente o dom de profecia. Mas ainda assim, mesmo se quem fala em outra língua fala a Deus e não aos homens, e edifica-se a si mesmo, a Igreja pode receber também ela edificação por aquele falar em línguas, e isso acontece quando quem fala em línguas interpreta também, pelo Espírito, o quanto dito numa língua desconhecida. Por que razão a Igreja será edificada? Porque mediante a interpretação entenderá o quanto o Espírito proferiu em outra língua pela boca do crente. Se por exemplo o falar em outra língua consistia numa intercessão a favor de determinados irmãos que se encontravam em perigo de morte naquele momento, ou na necessidade de alguma coisa material ou espiritual, a igreja será edificada em saber que o Espírito orou por aqueles santos a eles desconhecidos com base na sua necessidade. Se depois o Espírito fez salmear o crente, a Igreja entenderá o salmo levantado em outra língua pelo crente. Neste caso portanto, mediante a interpretação a Igreja será edificada. O que infelizmente muitos ainda não perceberam é que a Igreja para ser edificada não tem de necessariamente ouvir uma profecia, mas pode ouvir também a interpretação de uma falar em língua. Ou melhor, que a Igreja também é edificada ao ouvir uma oração ou um salmo interpretado, mesmo se sabemos que a oração e os salmos são dirigidos a Deus. Como nós somos edificados ao ler as súplicas e os cânticos de Davi, que lembramos foram por ele levantados pelo Espírito em hebraico (atenção, para evitar equívocos, Davi não falava em outras línguas) e que alguém traduziu para nós, assim seremos edificados quando depois que alguém falou em outra língua a Deus, ele ou algum outro interpretar, pelo Espírito, aquele seu falar. De certo é assim.

Mas há a dizer algo mais na nossa confutação, a saber, que da forma como fala Sullivan o falar em outras línguas que precede ‘a interpretação’ não seria mais que um sinal que avisa o auditório que uma profecia está iminente. Em substância não um verdadeiro falar em outra língua que necessita ser seguido pela relativa interpretação para ser feito inteligível, mas uma espécie de aviso sonoro que não tem em si nenhum significado não sendo uma verdadeira e própria língua. E isto se liga à sua afirmação segundo a qual o falar em línguas consiste em ‘uma entrada em acção de uma aptidão latente natural para emitir espontaneamente sons semelhantes a uma linguagem e isso não necessariamente por obra do Espírito Santo’. Portanto é preciso dizer que no ambiente carismático católico aquela que é chamada interpretação das línguas para eles não é a interpretação da mensagem dada numa outra língua mas uma profecia que é dada após o ‘sinal de aviso’. Tudo isto é inaceitável à luz das sagradas Escrituras porque como vimos o falar em outras línguas é um verdadeiro falar numa ou mais línguas estrangeiras realizado por obra do Espírito Santo pela boca do crente; o falar é dirigido a Deus e portanto, se há quem interpreta, a interpretação corresponderá não a uma mensagem dirigida aos homens mas a uma oração ou a uma acção de graças. E depois porque quem profetiza não necessita de dar um sinal ou que outros deiam um sinal que avisa a iminente profecia, porque o dom de profecia se manifesta independentemente do falar em línguas, e por isso mesmo que não houvesse quem fala em outra língua numa reunião, quem tem o dom de profecia quando o Espírito Santo o move a profetizar o faz sem nenhum problema e se põe a profetizar mesmo se antes não houve nenhum falar em línguas. Portanto, para falar à maneira de Sullivan, dizemos que o falar em línguas e a sucessiva interpretação não constituem de modo algum dois momentos de uma mesma profecia.

Uma última coisa por fim; se o falar em línguas não consiste num falar num idioma real mas desconhecido mas apenas numa emissão de sons semelhantes a uma linguagem e isso não necessariamente por obra do Espírito Santo, não só não se pode definir falar em outras línguas, mas nem a interpretação das línguas se pode chamar assim, porque não seria em nada a interpretação de um real falar em línguas. Se de facto ele consiste na emissão de sons semelhantes a uma linguagem como se pode falar de interpretação de uma ou mais línguas? Portanto, quando se ouve dizer aos Católicos carismáticos que falam em outras línguas e que interpretam, é preciso ter presente qual é o real ensinamento que lhes é dado a propósito do falar em línguas e da interpretação; ensinamento que se destaca profundamente daquele dado pelo apóstolo Paulo. Certamente, porventura nem todos os carismáticos católicos aceitam os ensinamentos de Sullivan, mas permanece o facto que muitos os aceitam e por isso não se atêm à verdade nem sequer nisto. Estai muito atentos irmãos, porque no ambiente carismático católico há muita confusão, e muitos termos bíblicos que usam não têm em nada o significado que lhes é próprio.

 

A profecia é um falar aos homens da parte de Deus e portanto não um falar lisonjeiro que encoraja as pessoas a ficar apegadas à idolatria e à mentira

 

Por quanto respeita ao ensinamento sobre a profecia existente no seio do movimento carismático católico, é preciso dizer que, prescindindo do facto deles dizerem que antes de ser pronunciada necessita do aviso sonoro que é constituído pelo (seu) ‘falar em línguas’ (o que vimos não é algo que corresponde à verdade), e apesar dele ter partes integras e partes confusas (por exemplo por vezes a palavra de sabedoria e a palavra de ciência são definidas profecia), importa dizer que se realmente aquele falar profético presente no ambiente carismático católico procedesse do Espírito Santo, certamente seria cheio de exortações para fugir da idolatria presente na igreja católica, das superstições, e de muitas outras coisas abomináveis a Deus. Isto porque sabemos que quando se manifesta o dom de profecia o povo, se for dado ao pecado e à mentira, será exortado pelo Senhor a tornar para ele e a produzir frutos dignos do arrependimento. Para se dar conta disto basta ler os livros do Antigo Testamento onde vem dito qual era a mensagem dos profetas ao povo de Israel quando este corria atrás dos ídolos mudos. Alguns exemplos de profecias deste género clarificarão este conceito: Isaías disse: "Gastam o ouro da bolsa, e pesam a prata nas balanças; assalariam o ourives, e ele faz um deus, e diante dele se prostram e se inclinam. Sobre os ombros o tomam, o levam, e o põem no seu lugar; ali fica em pé, do seu lugar não se move; e, se alguém clama a ele, resposta nenhuma dá, nem livra alguém da sua tribulação. Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores!" (Is. 46:6-8). Jeremias disse: "Como fica confundido o ladrão quando o apanham, assim se confundem os da casa de Israel; eles, os seus reis, os seus príncipes, e os seus sacerdotes, e os seus profetas, que dizem ao pau: Tu és meu pai; e à pedra: Tu me geraste; porque me viraram as costas, e não o rosto; mas no tempo da sua angústia dirão: Levanta-te, e livra-nos. Onde, pois, estão os teus deuses, que fizeste para ti? Que se levantem, se te podem livrar no tempo da tua angústia; porque os teus deuses, ó Judá, são tão numerosos como as tuas cidades" (Jer. 2:26-28).

Não se podem pois aceitar como verdadeiras profecias as que induzem os carismáticos católicos a permanecer apegados à idolatria e à superstição e às outras mentiras papistas? Não se pode, porque nesse caso teria que se chegar à conclusão que o Espírito Santo não tem mais intensos ciúmes pelos filhos de Deus, que fica indiferente diante da idolatria a que se dá o povo de Deus, pelo que eles podem continuar muito bem a fazer o que é abominável a Deus. Eis por que nós definimos as suas profecias falsas profecias em que usam o nome do Senhor para encorajar as pessoas a manterem-se apegadas à idolatria e à mentira. Nisto se pode dizer que os que entre eles profetizam ao povo fazem o que faziam os falsos profetas nos dias antigos: "Dizem continuamente aos que me desprezam: O Senhor disse: Paz tereis; e a qualquer que anda segundo a dureza do seu coração, dizem: Não virá mal sobre vós" (Jer. 23:17). Podemos também dizer que estes se fossem verdadeiramente inspirados por Deus fariam ouvir as palavras de Deus aos carismáticos católicos, "e os teriam feito voltar do seu mau caminho, e da maldade das suas ações" (Jer. 23:22).

Ninguém se engane irmãos, porque o Espírito de Deus quando ainda hoje move alguém a profetizar lhe faz proclamar a verdade que se pode claramente ler na Escritura; Ele não pode portanto encorajar as pessoas a continuar a crer no purgatório, ou no poder de cancelar os pecados que teria a chamada água benta do padre, ou na transubstanciação, ou na missa como repetição do sacrifício de Cristo, ou na intercessão de Maria e dos santos no céu, ou no primado do chamado papa sobre a Igreja universal, ou na utilidade das chamadas imagens e estátuas sagradas que os Católicos têm um pouco por todo lado e a quem rendem culto, e em todas as outras mentiras e imposturas papistas. Aquele seu ‘assim fala o Senhor’ é pois falso. O repito, nenhum de vós se deixe enganar pela aparência.

 

O recorrer na doença exclusivamente ao Senhor para ser curado é uma simples manifestação da própria confiança na Palavra de Deus

 

Como vimos, Sullivan considera que quando se está doente é uma presunção não recorrer a alguma ajuda medicinal por se esperar ser curado pelo Senhor; e se tenha presente que a presunção segundo o dicionário da língua portuguesa é ‘acto ou efeito de presumir; vaidade; afectação; conjectura; suspeita’. Mas é mesmo como diz Sullivan? Ou seja é realmente uma presunção na doença esperar que o Senhor nos cure sem recorrer a nenhuma medicina?

Não, não é de maneira nenhuma presunção. Porquê? Porque o crente que recusa a ajuda médica porque pôs toda a sua confiança no poder de Deus e quer que seja Deus a curá-lo não faz mais que pôr em prática a Palavra de Deus e nós sabemos que o pôr em prática a Palavra de Deus não é de maneira nenhuma uma presunção. Antes podemos dizer que quem é presunçoso não põe em prática a Palavra de Deus justamente porque é vaidoso. Mas que palavra divina põe em prática o crente não recorrendo de maneira nenhuma a médicos e medicinas na sua doença, mas só ao Senhor? A que diz: "Confiai no Senhor perpetuamente..." (Is. 26:4) e a que diz: "Confia nele, e ele o fará" (Sal. 37:5). Que fará portanto na prática o crente doente que espera que seja o Senhor a levantá-lo? Fará o que diz para fazer Tiago na sua epístola, chamará os anciãos da Igreja, os quais orarão sobre ele ungindo-o com azeite em nome do Senhor, e a oração da fé o salvará e o Senhor o levantará (cfr. Tiago 5:14-15). Ele não chamará os médicos, mas os anciãos da Igreja; se apoiará em vez de nas medicinas no seu Deus; e não serão as medicinas a levantá-lo mas será a sua fé no Senhor, e portanto uma vez curado não recomendará aos outros esta ou aquela outra medicina, este ou aquele outro médico, mas encaminhará os doentes ao Senhor.

Termino esta parte recordando uma Escritura do Antigo Pacto que nos mostra como Deus não se compraz nos que na sua doença recorrem aos médicos em vez de a Ele. "E, no ano trinta e nove do seu reinado, Asa caiu doente de seus pés, a sua doença era em extremo grave; contudo, na sua enfermidade, não buscou ao Senhor, mas antes os médicos" (2 Cron. 16:12). Bem-aventurados os que na doença, como em qualquer outra necessidade, recorrem ao Senhor, tendo confiança que Ele os libertará da sua angústia.

 

O cair no Espírito não é escritural

 

Por quanto respeita a orar pelos doentes é necessário precisar que o chamado ‘repouso no Espírito’ de que fala Sullivan, dito também ‘o cair no Espírito’, não faz parte da manifestação do Espírito Santo, porque com efeito não é mais que uma queda produzida pela sugestão que alguns pregadores sabem exercitar sobre o auditório, e em muitos casos por verdadeiros e próprios empurrões de quem ora pelos doentes (que habitualmente é assistido por algumas pessoas ensinadas a amparar por detrás quem é empurrado para que caindo não se magoe). Para sustento do ‘cair no Espírito’ como eles o chamam, não há confirmações na Escritura por isso o rejeitamos. Consideramos de qualquer modo que em alguns casos os homens possam cair ao chão sob o poder de Deus porque isto é confirmado pela Palavra de Deus.

 

 

CONCLUSÃO

 

Vimos que o movimento carismático católico, embora fale do batismo com o Espírito, do falar em línguas, da oração da cura etc., continua a ser um movimento ancorado à tradição católica romana. Portanto quando se encontram os aderentes a este movimento é necessário anunciar-lhes o arrependimento das obras mortas e a remissão dos pecados em nome de Jesus Cristo. Nenhuma aliança é possível com eles, nenhuma comunhão porque eles jazem ainda nas trevas. Não vos iludais irmãos; não vos deixeis enganar pela aparência ou por aqueles pastores corruptos que colaboram com eles.

 

 

NOTAS

 

[1] Agora o seu nome é Chiesa Evangelica della Riconciliazione [ Igreja Evangélica da Reconciliação] .. Aderiu à Aliança Evangélica Italiana que é parte da Aliança Evangélica Europeia.

 

[2] O Sullivan é professor emérito da faculdade de teologia da Universidade Gregoriana de Roma, e actualmente ensina eclesiologia no Boston College.

 

[3] O termo técnico glossolalia deriva de glossais lalein, uma frase grega usada no Novo Testamento que significa literalmente ‘falar em línguas’ (1 Cor. 12:30). O termo glossa significa ‘língua’ e laleo é o verbo ‘falar’.

 

[4] Esta palavra deriva do grego charisma que significa ‘dom’ que é usado no Novo Testamento para indicar os dons do Espírito Santo. "Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual (charisma)" (Rom. 1:11); "... De maneira que nenhum dom (charisma) vos falta" (1 Cor. 1:7).

 

[5] Para confirmação de que para os carismáticos católicos (em virtude da sua doutrina sobre o batismo e sobre o crisma), o batismo com o Espírito Santo não tem o mesmo significado que lhe damos nós, quero citar algumas palavras de Serafino Falvo: ‘A expressão ‘batismo no Espírito’ a mutuámos dos Pentecostais fundamentalistas, os quais, não tendo uma teologia sacramentária, dão a ela o significado de uma verdadeira e própria efusão do Espírito Santo, sucessiva e distinta da regeneração. Para nós, ao contrário, tem um significado diferente, que, se não bem percebido, poderá prestar-se a equívocos. De qualquer modo, enquanto não se encontrar uma frase teologicamente mais precisa, também nós católicos continuaremos a falar de ‘batismo no Espírito’ (Serafino Falvo, L’ora dello Spirito Santo [ A hora do Espírito Santo] , Bari 1974, pag. 115). Atenção pois quando se ouve falar de batismo com o Espírito Santo aos carismáticos, porque para eles este batismo o receberam com o batismo e com o crisma (no crisma aconteceria uma nova infusão de Espírito Santo mais perfeita e mais abundante); e quando eles se põem ‘a falar em línguas’ tomam simplesmente consciência de algo que eles tinham já recebido com aqueles seus sacramentos; em outras palavras, tomam consciência do poder do Espírito que já tinham recebido.

 

Índice