Capitulo 10

Falsificações e imposturas perpetradas pela igreja católica romana

 

No curso dos séculos a igreja católica romana se fez culpada de muitas imposturas e falsificações. Ela, além de ter introduzido doutrinas perversas de todo o género (o primado do bispo de Roma, a sua infalibilidade, a imaculada conceição de Maria, o purgatório, para citar só algumas das muitas), fabricou documentos de vários géneros, introduziu livros não inspirados no cânon da Escritura, falsificou passagens da Escritura, falsificou os dez mandamentos no seu catecismo, as actas dos concílios, os escritos dos chamados pais, inventou relíquias de todo o género, inventou toda a sorte de lendas, toda a sorte de milagres e de revelações. Tudo isto para poder sustentar o seu poder temporal, o seu primado universal, e os seus dogmas. Vejamo-las de perto estas imposturas e falsificações.

 

 

AS FALSAS DECRETAIS (OU DECRETAIS PSEUDO-ISIDORIANAS)

 

As falsas decretais são formadas por uma colecção de decretos de um certo número de papas (de Clemente I a Gregório II) e de concílios sobre pontos doutrinais e de disciplina que tinham como objectivo o de engrandecer e sustentar a autoridade papal. Foram feitas por um certo Isidoro Mercator mas foram falsamente atribuídas a Isidoro bispo de Sevilha. Introduzidas no nono século, delas fez uso pela primeira vez o ambicioso Nicolau I (858-867) para provar a sua autoridade pontifícia. Destas decretais resultava que o papa tem a supremacia sobre todos os bispos, que os bispos postos sob acusação têm o direito de apelar ao papa, que o papa tem a ‘plena potestade’ sobre a Igreja, que a igreja de Roma, com base num único privilégio, tem o direito de abrir e fechar as portas do paraíso a quem ela quer. Estas decretais foram reconhecidas falsas pela igreja católica romana em 1789 por meio de Pio VI, mas fica o facto que enquanto não foram reconhecidas falsas foram declaradas autênticas e que na idade média contribuíram para aumentar a autoridade papal. Portanto o papado que nós hoje vemos se formou também com a ajuda destes falsos documentos.

 

 

A DOAÇÃO DE CONSTANTINO

 

Eis aqui uma outra impostura papal, a chamada doação de Constantino que serviu aos papas para reivindicar o aumento de territórios, a autonomia política e o predomínio sobre o Ocidente. Este documento (que constitui uma parte das decretais anteriormente citadas), redigido segundo alguns sob o pontificado de Estevão II (752-757), foi pela primeira vez divulgado em meados do século nono e por toda a idade média foi considerado genuíno. Foi demonstrado falso pelo humanista Lorenzo Valla, um assistente do papa, em 1440. Vejamos em breve o conteúdo deste falso: em 314 um padre de nome Silvestre foi consagrado bispo de Roma. Naquele tempo o imperador Constantino tinha proclamado a perseguição contra os Cristãos e o mesmo Silvestre teve que fugir e refugiar-se numa gruta nos arredores do monte Soratto. Aqui lhe chegou a notícia que o imperador tinha sido atingido pela lepra. O imperador doente de lepra foi então aconselhado pelos magos do império a mergulhar numa banheira cheia de sangue espremido do ventre de crianças recém-nascidas, mas ele recusou aceitar o conselho deles. E naquela mesma noite viu em sonho Pedro e Paulo que lhe deram o endereço de Silvestre. O imperador, crendo que fosse um médico, o mandou chamar, e Silvestre chegando a casa dele lhe falou da fé cristã e o batizou no palácio Lateranense. Quando o imperador saiu da banheira na qual tinha sido mergulhado estava completamente curado. A perseguição então foi por ele feita cessar e o cristianismo feito religião oficial do império. Quando depois Constantino abandonou Roma para ir para Bizâncio, deixou a jurisdição civil do Ocidente a Silvestre e sucessivamente reconheceu a supremacia do bispo de Roma sobre os patriarcados de Alexandria e Antioquia, Jerusalém e Constantinopola. O pontífice obteve também o manto purpúreo, o ceptro e a escolta a cavalo. Isto lhe conferia a autoridade temporal sobre o império do Ocidente e o tornava independente do império do Oriente.

 

 

A CARTA DE ESTEVÃO II A PEPINO REI DOS FRANCOS

 

Quando Astolfo, rei dos Longobardos, assediou Roma por volta da metade do oitavo século o então papa Estevão II (752-757) pediu ajuda aos Francos para que viessem libertar Roma dos Longobardos. Numa carta dirigida ao rei dos Francos Pepino, ele escreveu em nome do apóstolo Pedro. Eis as palavras:Eu Pedro, apóstolo de Deus, que vos tenho por meus filhos adoptivos para defender das mãos dos inimigos esta cidade de Roma e o povo me confiado por Deus e o templo em que repousa o meu corpo, vos conjuro a livrar da contaminação das gentes e a libertar a Igreja de Deus e mim confiada pelo divino poder sobretudo pelas grandes aflições que sofremos por parte da péssima raça dos Longobardos’ [1]. Qualquer confutação é supérflua.

 

 

FALSIFICAÇÕES TRAZIDAS À BÍBLIA

 

Uma das acusações que sempre foi feita pelos Católicos romanos aos Protestantes desde os tempos da Reforma é a de terem falsificado a Bíblia para sustentar as suas doutrinas erradas! Esta é a razão pela qual a cúria romana tinha dado ordem aos seus seguidores para não ler Bíbliasprotestantes’, e para lançá-las no fogo no caso de virem a entrar em posse delas. Esta naturalmente era e é uma calúnia para manter o povo longe das Bíblias traduzidas fielmente, mas também para evitar aos Católicos de ler Bíblias que não trouxessem nas margens as notas chamadas explicativas - mas que com efeito são desviantes - postas pelos tradutores católicos por ordem do papa nas suas Bíblias. Ora, com isto, não queremos dizer que as Bíblias traduzidas pelos Protestantes (uso este termo só para as distinguir das Bíblias católicas) sejam traduções perfeitas, mas somente que não é verdade que elas foram torcidas para sustentar heresias. Mas vamos agora demonstrar como foram, pelo contrário, os Católicos a falsificar a Bíblia e não os Protestantes. Antes de tudo farei referência a algumas Bíblias católicas de alguns séculos atrás. A publicada em Bordéus em 1686 por ordem do arcebispo e com o consenso dos doutores em Teologia da Universidade daquela cidade, e a de monsenhor De Sacy. E depois a italiana, chamada de Antonio Martini, arcebispo de Florença, que leva a data de 1799. Alguém dirá:Mas porquê recordá-las?’ Para fazer compreender como a igreja católica romana, para manter o povo na ignorância e longe da verdade e sepultado nas trevas das suas heresias, nos séculos passados fez recurso também à violação das Escrituras como fizeram no curso dos séculos muitos e muitos homens perversos para sua perdição.

 

Versão publicada em Bordéus em 1686, e a de De Sacy

 

Ÿ Em Lucas se lê:Son père et sa mère faisaient chaque année un pelerinage à Jérusalem’ ou seja ‘Seu pai e sua mãe faziam todos os anos uma peregrinação a Jerusalém’; enquanto o texto diz: "Ora, seus pais iam todos os anos a Jerusalém..." (Lucas 2:41). É evidente que os Católicos que liam estas palavras pensavam que as peregrinações que lhes eram prescritas como obras de penitência tinham uma certa base bíblica.

Ÿ Ainda em Lucas se lê:Tu serviras de latrie à lui seul’ ou seja ‘Tu servirás de latria só a ele’; enquanto Jesus respondeu a Satanás: "Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás" (Lucas 4:8). Com esta violação aos Católicos era feito crer que só Deus devia ser servido com o culto de latria, enquanto Maria e os santos não; estes podiam ser servidos mas com um outro culto! Maria com o de iperdulia e os santos com o de dulia, segundo os sofismas papistas.

Ÿ Nos Actos se lê:Or, comme ils offroient au Seigneur le sacrifice de la messe, et ils jeùnoient, le S. Esprit leur dit...’ ou seja ‘Ora enquanto eles ofereciam ao Senhor o sacrifício da missa e jejuavam, o Espírito Santo disse-lhes...’; enquanto a tradução fiel diz: "Enquanto eles faziam o público serviço do Senhor, e jejuavam, disse o Espírito Santo..." (Actos 13:2 Diod.). Assim os Católicos pensavam que a missa era celebrada também no tempo dos apóstolos, quando isso é falso.

Ÿ Na primeira epístola aos Coríntios está escrito:Si l’oeuvre de quelqu’un brule, il en portera la peine, mais il sera sauvé quant à luy, ainsi toute fois come par le feu du purgatoire’ ou seja ‘Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas será salvo de modo porém, que será como que pelo fogo do purgatório’; enquanto o texto diz: "Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo, todavia como que pelo fogo" (1 Cor. 3:15). E assim aqueles Católicos que liam aquele Novo Testamento criam que o apóstolo Paulo cria no purgatório da igreja romana, quando isso é falso.

Ÿ Ainda na primeira epístola aos Coríntios se lê:A ceux qui sont conjoints par le sacrement du mariage je leur commande..’ ou seja ‘Aos que estão casados pelo sacramento do matrimónio, mando-lhes...’; enquanto o texto diz: "Aos casados, mando..." (1 Cor. 7:10). Assim os Católicos criam que Paulo considerava o matrimónio um sacramento, quando isso não é verdade.

Ÿ Na segunda epístola aos Coríntios se lê:Ne vous joignez point par sacrement du mariage avec les infidèles’ ou seja ‘Não vos unais de modo algum pelo sacramento do matrimónio com os infiéis’; enquanto o texto diz: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis " (2 Cor. 6:14).

Ÿ Na primeira epístola de Paulo a Timóteo se lê:Or l’Esprit dit clairement qu’en derniers temps, quelques uns se separeront de la foy romaine, en se donnant aux esprits d’erreur et aux doctrines enseignées par les diables’ ou seja ‘Ora o Espírito diz claramente que nos últimos dias alguns se separarão da fé romana dando-se aos espíritos do erro e às doutrinas ensinadas pelos diabos’; enquanto o texto diz: ‘Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demónios" (1 Tim. 4:1). E assim aqueles Católicos que lessem essas palavras criam que os que se tinham separado da igreja católica romana (porque esta ensinava um outro Evangelho), tinham dado ouvidos a doutrinas de demónios!! Mais à frente se lê que homens proferirão mentiras tendo cauterizada a sua própria consciência ‘condamnant le sacrement du mariage’ ou seja ‘condenando o sacramento do matrimónio’; enquanto o texto diz; ‘proibindo o casamento" (1 Tim. 4:3). Desta maneira os reformadores que não aceitavam o matrimónio como sacramento eram feitos passar como os homens hipócritas de que tinha falado Paulo.

Ÿ Na carta de Paulo aos Gálatas se lê:O Galates insensés, qui vous a ensorcelés, pour faire que vous n’obéissiez pas à la verité? N’avez-vous pas Jésus Christ portrait devant vos yeux comme crucifix entre vous?’ ou seja ‘Ó insensatos Gálatas, quem vos fascinou, para não obedecerdes à verdade? Não tendes vós Jesus Cristo pintado diante de vossos olhos como crucificado entre vós?’; enquanto o texto diz: " Ó insensatos Gálatas! quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi representado Jesus Cristo como crucificado?" (Gal. 3:1). A violação tinha como objectivo o de fazer pensar que a imagem pintada de Cristo crucificado era usada nas igrejas fundadas pelo apóstolo Paulo.

Ÿ Na carta aos Hebreus se lê:les murs de Jéricho tombèrent après une procession de sept jours’ ou seja ‘caíram os muros de Jericó depois de uma procissão de sete dias’; enquanto o texto diz que "..caíram os muros de Jericó, depois de rodeados por sete dias" (Heb. 11:30). Portanto além da peregrinação que José e Maria faziam todos os anos a Jerusalém aqueles teólogos fizeram despontar também uma procissão. Naturalmente para sustentar a eficácia das procissões católicas romanas.

Ÿ Na primeira epístola de João se lê:Il y a quelque péché qui n’est pas mortel, mais véniel’ ou seja ‘Há pecado que não é mortal, mas venial’; enquanto o texto diz: ‘Toda a iniquidade é pecado; e há pecado que não é para a morte" (1 João 5:17). Esta violação tinha o objectivo de fazer crer que nem todos os pecados eram mortais, mas que haviam também pecados veniais.

Ÿ Na epístola de Judas se lê ‘..la foi qui a etè donnèe une fois aux saints par la tradition’ ou seja ‘..a fé, que de uma vez por todas foi dada aos santos pela tradição’; enquanto o texto diz: "..a fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos" (Judas 3). Esta violação tinha o objectivo de fazer crer quão importante era a tradição da igreja católica romana.

Ÿ Na carta de Paulo a Filemom se lê:je vous prie aussi de me préparer un logement. Car j’espére que Dieu me redonnera à vous encore une fois, par le mèrite de vòs prières’ ou seja ‘Vos rogo de preparar-me também pousada, porque espero que Deus me restituirá a vós ainda uma vez, pelo mérito das vossas orações’; enquanto o texto diz: "E ao mesmo tempo, prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações vos hei de ser concedido" (Filem. 22). Para os Católicos as orações que fazem adquirem méritos diante de Deus, em outras palavras elas são meios através dos quais se ganha a vida eterna; eis o porquê desta outra violação.

 

Velho e Novo Testamento segundo a Vulgata (Veneza 1799) traduzido por Antonio Martini

 

Ÿ No Evangelho escrito por Mateus se lê: ‘Ed egli non la conosceva sino a quando partorì il suo figliuolo primogenito, e chiamollo per nome Gesù’; ou seja ‘E ele não a conhecia até que deu à luz o seu filho primogénito, e chamou-o por nome Jesus’ enquanto o texto diz: "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogénito; e pôs-lhe por nome Jesus" (Mat. 1:25). A infidelidade está no verbo que em vez de estar no passado remoto foi posto no imperfeito.

Ÿ Em Marcos se lê:Ma dopo che Giovanni fu messo in prigione, Gesù andò nella Galilea, predicando il Vangelo del Regno di Dio, e dicendo: è compito il tempo, e si avvicina il Regno di Dio fate penitenza, e credete al Vangelo’; ou seja ‘Mas depois que João foi entregue à prisão, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho do Reino de Deus, e dizendo: está cumprido o tempo, e se aproxima o Reino de Deus fazei penitência, e crede no Evangelho’ enquanto o texto diz: "E, depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino de Deus, e dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho" (Mar. 1:14,15). "Arrependei-vos" tornou-se ‘fazei penitência’ na tradução de Martini para convencer as pessoas que Jesus exortava as pessoas a irem confessar-se como prescreve a igreja católica romana com base no seu sacramento da penitência. Mas além do facto de Jesus não ter instituído de modo algum aquele sacramento o verbo grego metanoeo não significa fazer penitência mas ‘sentir remorso’ ou ‘arrepender-se’ [2].

Ÿ Em Lucas se lê:Ed entrato l’Angelo da lei, disse: Dio ti salvi, piena di grazia: il Signore è teco’; ou seja ‘E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Deus te salve, cheia de graça: o Senhor é contigo’ e assim Maria torna-se cheia de graça ou seja sem pecado e dispensadora das graças. Mas o texto traduzido fielmente diz: "E, entrando o anjo onde ela estava, disse: salve (Te saúdo), agraciada; o Senhor é contigo" (Lucas 1:28). No texto grego, com efeito, está uma palavra que é um verbo passivo que significa ‘ter obtido graça, favor’. E que Maria obteu graça de Deus é confirmado pelas sucessivas palavras do anjo a Maria: "Não temas, Maria, porque achaste graça diante de Deus" (Lucas 1:30). Aqui o escritor usa o verbo heurisko que significa ‘achar’. O mesmo verbo é usado por Paulo quando escreve a Timóteo:O Senhor lhe conceda que naquele dia ache misericórdia diante do Senhor" (2 Tim. 1:18). A expressão grega que significa ‘cheia de graça’ está antes presente em João 1:14 onde se diz que a Palavra feita carne "habitou entre nós, cheia de (a palavra grega para ‘cheia’ usada aqui é pleres) graça".

Ÿ Nos Actos dos apóstolos se lê:E si adunarono gli Apostoli e i sacerdoti per disaminare questa cosa’ ou seja ‘E congregaram-se os Apóstolos e os sacerdotes para examinar esta coisa’; enquanto o texto diz: "Congregaram-se pois os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto" (Actos 15:6). Pouco depois se lê:Allora piacque agli Apostoli e ai sacerdoti con tutta la Chiesa...’ ou seja ‘Então agradou aos Apóstolos e aos sacerdotes com toda a Igreja’; enquanto o texto diz: "Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos com toda a igreja.." (Actos 15:22). Pouco depois se lê:Ponendo nelle loro mani questa lettera: gli Apostoli e i sacerdoti fratelli, ai fratelli gentili...’; ou seja ‘Pondo nas suas mãos esta carta: os Apóstolos e os sacerdotes irmãos, aos irmãos gentios…’ enquanto o texto diz: "E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos e os anciãos, irmãos, aos irmãos dentre os gentios" (Actos 15:23). Mais à frente ainda se lê:E passando di città in città raccomandavano di osservare le regole stabilite dagli Apostoli e dai sacerdoti che erano in Gerusalemme’; ou seja ‘E passando de cidade em cidade recomendavam observar as regras estabelecidas pelos Apóstolos e sacerdotes em Jerusalém’ enquanto o texto diz: "E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém" (Actos 16:4). Como podeis ver nestas passagens a palavra anciãos foi substituída por sacerdotes. O motivo é evidente; fazer crer que na Igreja primitiva haviam os sacerdotes papistas. Ainda nos Actos se lê:Ma uomini timorati fecero il funerale di Stefano, e fecero gran pianto sopra lui’; ou seja ‘Mas homens piedosos fizeram o funeral de Estevão, e fizeram grande pranto sobre ele’ enquanto ao invés o texto diz: "E uns homens piedosos sepultaram a Estêvão, e fizeram grande pranto sobre ele" (Actos 8:2). A razão desta violação era para sustentar os pomposos e custosos funerais da igreja católica romana que rendiam não pouco dinheiro aos padres. Ainda nos Actos se lê:Or mentre essi offerivano al Signore i sacri misteri, e digiunavano, disse loro lo Spirito Santo...’; ou seja ‘Ora enquanto eles ofereciam ao Senhor os sagrados mistérios, e jejuavam, disse-lhes o Espírito Santo’ enquanto o texto diz: "E enquanto celebravam o culto do Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo..." (Actos 13:2 Riveduta). A alteração de culto em sagrados mistérios foi feita para fazer crer aos Católicos que no tempo dos apóstolos se celebrava a missa quando isso não é de maneira nenhuma verdade.

Ÿ Aos Coríntios se lê:Né solo questo ma è stato anche eletto dalle Chiese compagno del nostro pellegrinaggio per questa beneficenza..’; ou seja ‘Nem só isto mas foi também escolhido pelas Igrejas companheiro da nossa peregrinação por esta beneficência’ enquanto o texto diz: "E não só isto, mas foi também escolhido pelas igrejas para companheiro da nossa viagem, nesta graça..." (2 Cor. 8:19). Assim os Católicos liam que os apóstolos dedicaram-se a uma peregrinação, e por isso eram encorajados a fazer as peregrinações prescritas pela igreja romana para obter o perdão dos seus pecados.

Ÿ Aos Efésios se lê:Questo sacramento è grande; io però parlo riguardo a Cristo ed alla Chiesa’; ou seja ‘Grande é este sacramento, eu porém falo em referência a Cristo e à Igreja’ enquanto o texto diz: "Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à igreja" (Ef. 5:32). Esta falsificação tinha o intento de sustentar que o matrimónio era um sacramento [3]. No grego está mysterion que significa ‘mistério’ e não sacramento. O mesmo termo grego é usado por Paulo quando diz aos Colossenses: "... deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória" (Col. 1:27).

Ÿ Aos Colossenses se lê:Nessuno vi supplanti a suo capriccio per via di umiltà col superstizioso culto degli angeli...’; ou seja ‘Ninguém vos suplante a seu capricho com pretexto de humildade com o supersticioso culto dos anjos’ enquanto o texto diz: "Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos..." (Col. 2:18). Pondo supersticioso culto dos anjos Martini procurou dar a entender aos Católicos que havia um culto rendido aos anjos que era errado, mas que havia também um outro que era justo; o errado era o supersticioso enquanto o justo era o prescrito pela igreja católica romana porque sincero e veraz e não supersticioso! Isto o se deduz da nota de Martini que diz:Tem em mira, os discípulos de Simão Mago, os quais antepunham a mediação dos anjos à de J.C.’, o que significa que antepor a mediação de Jesus Cristo à dos anjos, portanto não excluindo esta última, seja ao invés lícito!

Ÿ Na primeira epístola a Timóteo se lê:Fa adunque di mestieri che il vescovo sia irreprensibile, che abbia preso una moglie sola’; ou seja ‘É pois mister que o bispo seja irrepreensível, que tenha casado com uma só mulher’ enquanto a tradução fiel é: "É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher" (1 Tim. 3:2). ‘I diaconi abbiano preso una sola donna..’; ou seja ‘Os diáconos tenham casado com uma só mulher..’ enquanto o texto diz: "Os diáconos sejam maridos de uma só mulher..." (1 Tim. 3:12). É evidente a tentativa de anular o facto de os bispos e os diáconos deverem ser casados para poder assumir o ofício na Igreja. Ainda nesta epístola se lê:I preti, che governano bene siano reputati meritevoli di doppio onore’; ou seja ‘Os padres, que governam bem sejam estimados merecedores de duplicada honra’ enquanto o texto diz: "Os anciãos que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra" (1 Tim. 5:17). E também:contro di un prete non ammettere accusa se non con due o tre testimoni’; ou seja ‘contra um padre não admitas acusação senão com duas ou três testemunhas’ enquanto o texto diz: "Não aceites acusação contra um ancião, senão com duas ou três testemunhas" (1 Tim. 5:19). O motivo pelo qual Martini no lugar de anciãos e ancião pôs padres e padre é evidente; fazer crer que eles existiam aos dias dos apóstolos.

Ÿ Em Tito se lê a propósito do ancião:Uom, che sia senza taccia, che abbia avuto una sola moglie...’; ou seja ‘Homem, que seja sem má fama, que tenha tido uma só mulher’ enquanto o texto diz: "Alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher..." (Tito 1:6). Também aqui é evidente a tentativa de sustentar o celibato dos padres.

Ÿ Aos Hebreus se lê:E non vogliate dimenticarvi della beneficenza, e della comunione di carità, imperocchè con tali vittime si guadagna Dio’; ou seja ‘E não queirais esquecer-vos da beneficência, e da comunhão de caridade, porque com tais vítimas se ganha Deus’ enquanto o texto diz: "Mas não vos esqueçais da beneficência e de repartir com outros, porque com tais sacrifícios Deus se agrada" (Heb. 13:16). Eis como Martini falsificou esta passagem para fazer crer que com as boas obras se podia ganhar a vida eterna. Mas o texto não diz que com a beneficência se ganha Deus, mas que Deus tem prazer na beneficência e no repartir com outros sendo estes sacrifícios espirituais a ele aceitáveis.

Ÿ Em Tiago se lê:Havvi egli tra voi chi sia ammalato? Chiami i preti della Chiesa...’; ou seja ‘Há entre vós quem esteja doente? Chame os padres da Igreja’ enquanto o texto diz: "Está alguém entre vós doente? Chame os anciãos da igreja, e orem sobre ele..." (Tiago 5:14). O grego presbyteros significa anciãos e não padres, mas Martini pôs padres porque quis fazer crer que os padres existiam aos dias dos apóstolos.

Ÿ Na epístola de Pedro se lê:I sacerdoti adunque: che sono tra di voi, gli scongiuro, io consacerdote, e testimone dei patimenti di Cristo’; ou seja ‘Os sacerdotes pois, que estão entre vós, os conjuro, eu consacerdote, e testemunha dos padecimentos de Cristo’ enquanto o texto diz: "Aos anciãos, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também ancião com eles (em grego: sympresbyteros) e testemunha das aflições de Cristo..." (1 Ped. 5:1). Mais à frente se lê ‘Parimenti voi, o giovani, siate soggetti ai sacerdoti’; ou seja ‘Semelhantemente vós, jovens, sede sujeitos aos sacerdotes’ enquanto o texto diz: "Semelhantemente vós jovens, sede sujeitos aos anciãos" (1 Ped. 5:5). E assim aqueles Católicos de então criam que a sua casta sacerdotal tinha sido ordenada por Deus. Mas a palavra grega presbyteros - o repetimos - não significa sacerdotes, mas anciãos; portanto a tradução de Martini é infiel. Agora vejamos algumas falsificações operadas em Bíblias mais recentes.

 

Biblia traduzida por Eusebio Tintori (Chieri 1957)

 

Diversas passagens foram violadas da mesma maneira em que fez o Martini. Eis algumas delas:E entrando onde ela estava o anjo, disse: Salve, ó cheia de graça: o Senhor é contigo!’ (Lucas 1:28); ‘Fazei penitência porque o Reino dos céus está próximo’ (Mat. 3:2); ‘Desde então começou Jesus a pregar e a dizer: Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo’ (Mat. 4:17); ‘Semelhantemente vós, jovens, sede sujeitos aos sacerdotes’ (1 Ped. 5:5); ‘Os Apóstolos e os sacerdotes então se congregaram para examinar esta coisa’ (Actos 15:6); ‘Os padres, que governam bem sejam estimados dignos de duplicada honra’ (1 Tim. 5:17); ‘Contra um padre não recebas acusações, se não são provadas por duas ou três testemunhas’ (1 Tim. 5:19); ‘Está doente alguém entre vós? Faça chamar os padres da igreja, e eles orem sobre ele, ungindo-o com o óleo em nome do Senhor’ (Tiago 5:14); ‘Mas importa que o bispo seja irrepreensível, não tenha casado senão com uma só mulher...’ (1 Tim. 3:2); ‘Os diáconos tenham casado com uma só mulher...’ (1 Tim. 3:12); ‘Grande é este sacramento eu porém falo em referência a Cristo e à Igreja’ (Ef. 5:32); ‘Ninguém vos engane a seu capricho com afectação de humildade e supersticioso culto dos anjos...’ (Col. 2:18).

 

Novo Testamento traduzido por Fulvio Nardoni (Roma 1966)

 

Ÿ Em Marcos lê-se:Entretanto chegaram sua mãe e os seus primos (grego: adelfòi) e, estando fora, mandaram chamá-lo. Ora, uma grande multidão estava sentada ao redor dele, e lhe disseram: Eis que tua mãe e os teus parentes (o grego tem: os teus irmãos) estão lá fora e te procuram. Mas ele, respondendo-lhes, disse: Quem são minha mãe e os meus parentes (grego: adelfòi)? Depois lançando um olhar sobre os que estavam sentados ao redor dele, disse: Eis minha mãe e os meus parentes (grego: adelfòi). Qualquer que faz a vontade de Deus, ele é meu irmão (grego: adelfòs), minha irmã (adelphe) e minha mãe’. Mas o mesmo texto traduzido fielmente diz:Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando fora, mandaram-no chamar. E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora. E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe" (Mar. 3:31-35). Como podeis ver Nardoni traduziu o grego adelfos que significa ‘irmão’ de três modos diferentes, primeiro com primos [4], depois com parentes e por fim com irmão conforme a necessidade. A razão é evidente; não fazer ler que Jesus tinha irmãos e irmãs [5] filhos de Maria [6].

Ÿ Em Mateus lê-se:E sem que ele a tenha conhecido, deu à luz um filho, e o chamou Jesus’; enquanto o texto diz: "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogénito; e pôs-lhe por nome Jesus" (Mat. 1:25). O motivo da violação é o de fazer crer que Maria também depois de ter dado à luz Jesus não foi conhecida por José.

Ÿ Em Lucas lê-se:O Anjo, tendo entrado em casa dela, lhe disse: ‘Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo’; enquanto o texto diz: "E, entrando o anjo onde ela estava, disse: salve, agraciada; o Senhor é contigo" (Lucas 1:28). Aquele ‘cheio de graça’ foi posto para sustentar que Maria tinha nascido sem pecado, mas como já dissemos o grego desmente esta tradução. É claro que com estas palavras (‘cheia de’) que o anjo Gabriel nunca disse a Maria, os Católicos conseguem apresentar Maria como uma mulher que tinha em si toda a graça, incluindo aquela de estar sem pecado. Os que adulteraram estas palavras do anjo Gabriel definindo Maria ‘cheia de graça’ quiseram assim colocar Maria ao mesmo nível do Filho de Deus (mesmo se em palavras dizem que Maria tinha menos graça do que Jesus Cristo) porque de Jesus Cristo está dito que ele estava cheio de graça conforme está escrito em João: "E a Palavra se fez carne, e habitou entre nós, cheia de graça e de verdade" (João 1:14). Eis porque milhões de pessoas em todo o mundo estão convencidas que Maria estava cheia de graça e por isso também sem pecado; eis porque multidões de ovelhas desgarradas a invocam dizendo-lhe: ‘Ave Maria, cheia de graça....’, com a esperança de serem ouvidas! E se alguém lhes faz notar que também de Estevão está dito que estava cheio de graça? Neste caso respondem que o ‘cheia de graça’ que o anjo Gabriel lhe disse ‘aparece, em certo modo, como um nome característico que está no lugar de nome próprio; e é por isso que não se pode admitir alguma semelhança com S. Estevão (Actos 6,8)...’. Como podeis ver por vós mesmos os teólogos romanos têm uma astuta resposta a dar também a esta pergunta.

Ÿ Na primeira carta de Paulo a Timóteo lê-se:É necessário porém que o bispo seja irrepreensível, não tenha casado senão uma só vez’; enquanto o texto diz: "É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher..." (1 Tim. 3:2). O Nardoni na nota diz:Aqui é necessário entender que o bispo não deve ser um viúvo passado a segundas núpcias’; eis pois o motivo pelo qual violou essa passagem, para fazer crer que na Igreja primitiva só podiam ser eleitos bispos aqueles que estavam sem mulher, isto é, os solteiros ou os viúvos não recasados. O que nós sabemos não corresponde à verdade. Deve ser dito depois que a tradução de Nardoni faz crer que Paulo tenha dito que os bispos deviam ter sido maridos de uma só mulher, por isso um crente que tinha ficado viúvo duas vezes (ou seja, que tinha sido marido de duas mulheres) não podia aspirar ao ofício de bispo. Portanto como ele não fala de bispos que nunca tenham casado, se teria que deduzir que antigamente para ser recebido como bispo era necessário esperar ficar viúvo da primeira mulher! O que é uma loucura crê-lo porque se faz crer que enquanto um crente fosse casado não podia assumir o ofício de bispo.

Ÿ Na carta de Paulo a Tito lê-se:Mas quando se mostrou a bondade de Deus (Pai), nosso Salvador, e o seu amor para com o homem, ele então nos salvou, não por mérito das obras de justiça, que nós podíamos ter feito, mas pela sua misericórdia, pelo batismo de regeneração, em que o Espírito Santo nos renova, (fazendo-nos uma nova criatura, Espírito) que ele difundiu sobre nós...’; enquanto o texto diz: "Mas quando apareceu a benignidade e a caridade de Deus, nosso Salvador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós ...." (Tito 3:4-6). A razão pela qual Nardoni pôso batismo de regeneração em que o Espírito Santo nos renova’ é para comprovar a doutrina papista que diz que a água do batismo tem pelo Espírito Santo a virtude de fazer renascer quem o recebe (vede a parte onde confutei o seu batismo).

 

Bíblia católica, edições Paulinas, de 1971 (Torino)

 

Ÿ Em Lucas lê-se:O anjo, tendo entrado onde ela estava, lhe disse: Ave, ó cheia de graça..’ enquanto na realidade se deve ler que o anjo lhe disse: "Salve, agraciada...." (Lucas 1:28).

Ÿ Em Mateus puseram:E sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho, e o chamou Jesus’ enquanto o texto é: "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogénito; e pôs-lhe por nome Jesus" (Mat. 1:25).

Ÿ Nos Actos puseramFazei penitência e cada um de vós seja batizado..’ no lugar de: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado..." (Actos 2:38). O grego metanoeo significa sentir remorso ou arrepender-se (o que implica sentir desgosto pelo próprio modo de pensar ou agir errado) e não operar alguma obra de mortificação corporal ou algum jejum ou alguma obra de penitência prescrita pela igreja romana. Pondo ‘fazei penitência’ no lugar de ‘arrependei-vos’ a cúria romana se propôs assim a fazer crer aos leitores da sua Bíblia que para obter a expiação dos seus pecados devem fazer justamente obras de penitência, que vimos no que é que consistem, e não que eles se devem só arrepender e crer no Evangelho. O facto porém é que pondo ‘fazei penitência’ no lugar de arrependei-vos eles se contradisseram a eles mesmos, porque na teologia papista a penitência segue o batismo e não o precede, enquanto daquela maneira resulta que a penitência é prescrita antes do batismo! Ainda nos Actos se lê:Depois de ter orado e jejuado, ordenaram sacerdotes para cada Igreja..’; como podeis ver muitos Católicos lêem nas suas Bíblias que para as igrejas foram constituídos pelos apóstolos padres e não anciãos, e que eles não foram eleitos com a aprovação das igrejas como diz antes o texto original: "E, havendo-lhes feito eleger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor.." (Actos 14:23).

 

Bíblia de Jerusalém (Segunda ed. 1974)

 

Ÿ Estas palavras de Mateus: "Não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho; e pôs-lhe o nome de Jesus" (Mat. 1:25) foram violadas pelos seus tradutores a fim de defender a perpétua virgindade de Maria, de facto os seus tradutores tornaram o verso assim: ‘Sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho, que ele chamou Jesus’. Estamos de acordo que Maria deu à luz Jesus sem ter conhecido seu marido José; mas não se pode estar de maneira nenhuma de acordo com uma semelhante tradução que esconde aos Católicos que para Maria o não ser conhecida por José foi algo que durou somente por um tempo após o seu matrimónio, isto é, enquanto ela não deu à luz Jesus, e não para sempre.

Ÿ Ainda nesta Bíblia as palavras de Pedro: "Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal" (2 Ped. 1:20 NVI) foram mudadas em: ‘Sabei antes de tudo isto: nenhuma escritura profética está sujeita a uma explicação privada’. Como podeis ver os tradutores desta Bíblia católica violaram as Escrituras, de facto, da forma como traduziram estas palavras de Pedro emerge que Pedro teria dito que a Bíblia não a se pode interpretar por si porque a interpretação não pode ser subjectiva (mas a se deve interpretar como a interpreta o magistério da Igreja católica!). Esta é a explicação que os teólogos dão a esta torcida passagem, de facto a nota que explica esta passagem na edição Paulinas de 1971 diz: ‘Portanto os fiéis individuais não podem interpretar a capricho a Bíblia, mas devem receber a interpretação da Igreja’. Mas como vimos a referida passagem da epístola de Pedro traduzida correctamente diz:Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal" (2 Ped. 1:20 NVI), o que significa que aqueles que escreveram as profecias não as escreveram de sua vontade porque aquelas suas profecias foram pronunciadas pelo Espírito Santo por meio deles quando como e onde Ele quis. Portanto da forma como a traduziram os Católicos o seu significado é:A interpretação que o leitor dá à Escritura não deve ser subjectiva’ (mas deve ser a dada pelo magistério); e não mais o original, ou seja, que a Escritura não é o fruto de uma interpretação pessoal ou de visões particulares daqueles que a escreveram. Atenção; com este discurso não queremos dizer que as Escrituras se podem interpretar a próprio agrado, no sentido que um é livre de interpretá-las segundo os seus desejos; mas apenas que os crentes podem com a ajuda de Deus entender rectamente as Escrituras porque o Espírito de Deus os guia em toda a verdade.

 

Bíblia edições Paulinas de 1990 (Sexta ed.)

 

Ÿ Na segunda epístola de Pedro lê-se:Sabei antes de tudo isto: a nenhuma profecia da Escritura compete uma interpretação subjectiva’. Enquanto como dissemos pouco atrás a correcta tradução é: "Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal" (2 Ped. 1:20).

Nota do tradutor: foram citados tradutores italianos e edições italianas de bíblias católicas mas estas mesmas falsificações aqui referidas podem ser encontradas também em bíblias católicas de tradutores de língua portuguesa ou edições em português.

 

 

A MANIPULAÇÃO DOS DEZ MANDAMENTOS

 

Estes são os dez mandamentos que Deus pronunciou sobre o monte Sinai e que escreveu com o seu dedo em duas tábuas de pedra que deu ao seu servo Moisés.

Ÿ O primeiro: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim" (Ex. 20:2,3).

Ÿ O segundo: "Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos" (Ex. 20:4-6).

Ÿ O terceiro: "Não usarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que usar o seu nome em vão" (Ex. 20:7).

Ÿ O quarto: "Lembra-te do dia do sábado (ou do descanso), para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou" (Ex. 20:8-11).

Ÿ O quinto: "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá" (Ex. 20:12).

Ÿ O sexto: "Não matarás" (Ex. 20:13).

Ÿ O sétimo: "Não adulterarás" (Ex. 20:14).

Ÿ O oitavo: "Não furtarás" (Ex. 20:15).

Ÿ O nono: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Ex. 20:16).

Ÿ O décimo: "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Ex. 20:17).

A igreja romana os mutilou e modificou a assim torcidos os inculca aos seus fiéis, pequenos e grandes. Eis de facto como os encontramos escritos no Novo Manual do Catequista.

Ÿ O primeiro é:Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás outro Deus fora de mim’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 272);

Ÿ O segundo:Não nomear o nome de Deus em vão’ (ibid., pag. 290).

Ÿ O terceiro:Lembra-te de santificar as festas’ (ibid., pag. 297).

Ÿ O quarto:Honra pai e mãe’ (ibid., pag. 303).

Ÿ O quinto:Não matar’ (ibid., pag. 309).

Ÿ O sexto:Não cometer actos impuros’ (ibid., pag. 320).

Ÿ O sétimo:Não roubar’ (ibid., pag. 326).

Ÿ O oitavo: ‘Não dizer falso testemunho’ (ibid., pag. 335).

Ÿ O nono:Não desejar a mulher do próximo’ (ibid., pag. 343).

Ÿ O décimo:Não cobiçar as coisas alheias’ (ibid., pag. 344).

O segundo mandamento a cúria romana o tirou do decálogo para não fazer aparecer as chamadas estátuas e imagens sagradas como ídolos abomináveis a Deus. Assim fazendo transgrediu a ordem divina: "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela" (Deut. 4:2).

Pelo que antes respeita ao mandamento de Deus acerca do dia do descanso de sábado a cúria romana intentou modificá-lo desta maneira:Lembra-te de santificar as festas’ e isto para fazer lembrar aos seus seguidores de observar as festas de preceito que são, além de todos os domingos, ‘Natal, Circuncisão, Epifania, Ascensão, Corpus Domini; Imaculada Conceição e Assunção da Virgem Maria, S. José, os Santos Pedro e Paulo e Todos os Santos’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 299. No novo Código de direito canónico falta entre as festas de preceito a Circuncisão [cfr. can. 1246, § 1]). Ora, Deus na lei instituiu festas; elas eram a festa da Páscoa, a festa de Pentecostes, a festa dos Tabernáculos, e mandou aos Israelitas que as observassem, mas o mandamento de observá-las não foi posto por ele entre os dez mandamentos junto com o mandamento do sábado, o teria podido fazer mas está de facto que não o fez. (Tende presente porém que aquelas festas instituídas por Deus eram "sombras das coisas vindouras" [Col. 2:17]). Portanto se Deus não pôs entre os dez mandamentos o seu mandamento de observar as festas por ele instituídas, como se permitiram os Católicos a modificar o decálogo para introduzir a sua ordem de observar as suas festas? Por certo os que adulteraram os dez mandamentos de Deus se fizeram culpados de uma culpa diante de Deus porque fazem dizer a Deus o que Ele não disse. Mas não só Deus não disse no decálogo aos Israelitas: ‘Lembra-te de santificar as festas’, mas Ele agora não manda a ninguém de santificar as festas instituídas pela igreja romana (se tenha presente que é mandado aos Católicos honrar Deus com actos de culto exterior dos quais o acto essencial é a missa). Por que razão alguma vez se deveria santificar um dia em honra da mentira como a imaculada conceição, ou a assunção de Maria ao céu? Ou por que razão alguma vez se deveria honrar a festa do Corpus Domini na qual é feito crer que um pedaço de pão é Deus e por isso deve ser adorado? Ou por que razão alguma vez se deveria honrar o 25 de Dezembro como data do nascimento de Jesus quando esta festa tem origens pagãs? Ou a festa da circuncisão, ou da epifania, ou da ascensão, ou de José, de Pedro e Paulo, e de todos os santos? Porque a igreja romana o ordena? Mas estas são festas que fazem parte da tradição que não acham nenhuma confirmação na Escritura e por isso devem ser rejeitadas. Irmãos, abstei-vos de participar nestas festas instituídas pela igreja romana para não vos contaminardes e não provocar a ciúmes o Senhor [7].

Mas os Católicos romanos não fizeram só desaparecer o segundo mandamento do decálogo e modificaram o quarto, porque a respeito do mandamento de não usar o nome de Deus em vão e o de honrar pai e mãe não os ensinam como eles estão escritos porque cortaram uma parte deles. Por quanto respeita, de facto, ao terceiro mandamento Deus disse: "Não usarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que usar o seu nome em vão" (Ex. 20:7), enquanto os Católicos (para eles é o segundo mandamento) o ensinam assim: ‘Não nomear o nome de Deus em vão’, omitindo a segunda parte. Mas além disso é bom que saibais qual é o significado que eles dão às palavras ‘nome de Deus’. Eles dizem que com a palavra nome de Deus ‘se entende não só o nome de ‘Deus’ mas também todos os outros nomes com que Ele possa ser chamado e todas as outras pessoas e coisas que tenham relação directa com Ele, como Sacramento, Nossa Senhora, Santos, Alma, etc.’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 290). Como podeis ver para os Católicos este mandamento refere-se não só ao nome santo de Deus mas também a nomes de outras pessoas e de determinadas coisas. Isto significa verdadeiramente interpretar a Palavra de Deus arbitrariamente; assim fazem pensar às pessoas que o nome de Maria e dos seus santos é santo quanto o de Deus. Nós não queremos dizer com isto que seja lícito usar o nome de Maria ou o de algum dos seus chamados santos para praguejar, de maneira nenhuma! Mas só que não se deve fazer dizer à Palavra de Deus aquilo que ela não diz. Os Católicos assim fizeram alavanca também sobre esta ordem de Deus para exaltar a seu agrado e segundo os seus desejos Maria e os seus santos. É necessário reconhecer que onde podem e quando podem metem sempre o nome de Maria e o dos seus santos.

Por quanto respeita antes ao quinto mandamento que diz: "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá" (Ex. 20:12), que como diz Paulo, é "o primeiro mandamento com promessa" (Ef. 6:2), os Católicos o modificaram e mutilaram porque o ensinam assim: ‘Honra pai e mãe’. Também aqui a modificação e a mutilação foram feitas por um objectivo bem preciso; e isto se percebe quando se lê no seu catecismo que este mandamento não manda obedecer só aos próprios pais mas também obedecer aos próprios superiores eclesiásticos como o papa, o bispo e o pároco. Os chamam de pai, e por isso os devem honrar como os próprios genitores: a igreja romana é a sua mãe e por isso consequentemente a devem honrar submetendo-se a ela. Importa dizer portanto que eles também neste caso fazem dizer à Palavra de Deus a que ela não diz; e assim a cúria romana para sujeitar a si as populações fez recurso precisamente a tudo. Em verdade não há temor de Deus diante dos seus olhos. Os Católicos devem submeter-se antes de tudo à Palavra de Deus; assim fazendo entenderão como os seus superiores eclesiásticos não são dignos de serem obedecidos porque eles mesmos recusam em toda maneira e em todas as coisas obedecer a Deus. Todos os que no seu meio decidiram obedecer à Palavra de Deus em vez de aos homens saíram da igreja romana porque perceberam, graças a Deus, que a obediência que pretendia deles a cúria romana consistia em desobedecer a Deus e aos seus mandamentos.

 

 

A NEGAÇÃO DA BÍBLIA AO POVO

 

Houve um tempo em que a Bíblia foi por parte da cúria romana negada aos homens. No concílio de Tolosa de 1229 foi deliberado de facto quanto se segue:Proibimos ainda que seja permitido aos leigos possuir os livros do Velho e Novo Testamento, excepto o Saltério, ou o Breviário para dizer o Ofício divino, ou as Horas da Bem-aventurada Virgem a quem as desejar ter por devoção; porém proibimos estritamente que esses livros sejam em língua vulgar’ (Concílio de Tolosa, cap. 14). Mas porquê esta proibição? Porque os homens vulgares não eram considerados dignos de a ler; o cardeal Osio, no livro De Verbo Dei afirmou de facto: ‘Permitir aos leigos a leitura das santas Escrituras, é o mesmo que dar as coisas santas aos cães, e lançar pérolas aos porcos’ (Citado por Luigi Desanctis in Compendio di controversie, pag. 6). E também porque era afirmado que a Bíblia era demasiado difícil para ser compreendida pelo povo ignorante, e alguns lendo-a podiam interpretá-la mal e ser induzidos ao erro. E assim por diversos séculos a leitura da sagrada Escritura foi considerada uma coisa nociva para a Igreja e por isso a cúria romana estudou os modos para travar a sua difusão entre o povo; uma evidente prova disso é o seguinte facto histórico. Em 1553 Gian Maria Ciocchi del Monte (Júlio III: 1550-1555) encarregou três dos mais doutos bispos do tempo: Vicente De Durantibus, Egídio Falceta e Gherardo Busdrago, de estudar os meios para travar a difusão da Reforma. No documento conclusivo os três prelados assim se exprimiam: Finalmente - de todos os conselhos que nós possamos dar a Vossa Santidade, deixamos para o fim o mais necessário…- devem fazer-se todos os esforços para que se permita o menos possível a leitura do Evangelho, especialmente na língua vulgar, em todos os países sob vossa jurisdição. O pouco dele que se costuma ler na Missa, deve ser o suficiente; mais do que isso não devia ser permitido a ninguém. Enquanto os homens estiverem satisfeitos com esse pouco, os interesses de Vossa Santidade prosperarão, mas quando eles desejarem mais, então tais interesses declinarão. Em suma, aquele livro (o Evangelho), mais do que qualquer outro tem levantado contra nós esses torvelinhos e tempestades, dos quais meramente escapamos de ser totalmente destruídos. De facto, se alguém o examinar inteiramente e cuidadosamente, e depois confrontar as instruções da Bíblia com o que se faz nas nossas igrejas, logo descobrirá o desacordo, e verá que a nossa doutrina é muitas vezes diferente da doutrina dele, e em outras até contrária a ele; o que se o povo soubesse, não cessaria de reclamar contra nós, até que tudo não seja divulgado, e então seremos objectos de desprezo e de ódio em todo o mundo. Portanto, é necessário tirar a Bíblia das vistas do povo, mas com grande cuidado, para não provocar tumultos’ (O original deste documento com as assinaturas autografadas dos três bispos, e o título Direcções concernentes aos métodos adequados a fortificar a Igreja de roma, é datado Bolonha, 20 de Outubro de 1553. Conserva-se na Biblioteca nacional de Paris [fólio B. N. 1088, vol. 2, pag. 641-650]. Citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 15,16). Eis pois por que motivo a cúria romana proibiu a leitura da Bíblia ao povo, porque temia que o povo lendo-a se apercebesse dos abusos e das heresias presentes na igreja católica romana e se sublevasse contra ela.

Uma outra prova que atesta quanto os papas tinham em aversão que a Bíblia fosse lida por todos é a bula Unigenitus de Clemente XI em 1713 na qual eram condenadas como ‘falsas, escandalosas, perniciosas, sediciosas, ímpias, blasfemas e heréticas’ as seguintes proposições acerca da leitura da Bíblia: a proposição 79, que diz que é útil e necessário em todo tempo e em todo lugar para todas as pessoas estudar e aprender o espírito, a santidade e os mistérios das Sagradas Escrituras; a proposição 80, que diz que a leitura da Escritura é para todos; a proposição 84, que diz que tirar das mãos dos cristãos o Novo Testamento, ou mantê-lo fechado tirando-lhes os meios para compreendê-lo, significa fechar a boca de Cristo; a proposição 85, que diz que proibir aos Cristãos a leitura das Sagradas Escrituras, especialmente dos Evangelhos, é proibir aos filhos da luz o uso da luz, e é lançá-los numa espécie de excomunhão.

E como o papado então considerava coisa ímpia que todos lessem as sagradas Escrituras ele considerava também coisa ímpia a sua tradução na língua do povo pelo que os tradutores delas lhe eram abomináveis. Uma prova deste ódio que o papado nutria pelos tradutores de Bíblias na língua vulgar o temos nas seguintes palavras de Barnaba Chiaramonti (Pio VII 1800 - 1823):Declaro que as associações formadas na maior parte da Europa, para traduzir em língua vulgar e espalhar a lei de Deus, me causam horror, que elas tendem a transtornar a fé cristã desde seus fundamentos, que é necessário destruir esta peste com todos os meios possíveis, e desvendar as ímpias maquinações destes manobradores’ (Bula de 28 de Junho de 1816). E para concluir esta carrada de condenações e proibições recordamos que em 1820 foi posto no índice (pela Congregação do Índice) até um Novo Testamento traduzido por um Católico, mais precisamente ‘o Novo Testamento de monsenhor Martini’; a razão era por não possuir as notas.

Ninguém pois vos engane dizendo-vos que a igreja católica romana um tempo proibiu ao povo de ler apenas as Bíblias chamadas falsas traduzidas pelos Protestantes em língua vulgar depois da Reforma porque demonstrámos que a proibição de ler a Bíblia remonta a séculos antes da Reforma (naquele tempo era pois proibida ao povo a leitura das Bíblias traduzidas pelos Católicos) e depois porque em 1820 como provámos foi posto no índice um Novo Testamento de um famoso tradutor católico (que estando privado das notas constituía um sério perigo para o papado).

Mas hoje, como estão as coisas? Hoje, a tradução e a difusão da sagrada Escritura por parte da igreja romana são encorajadas porque o concílio Vaticano II decretou que "é necessário que os fiéis tenham largo acesso à Sagrada Escritura’ (Concílio Vaticano II, Sess. VIII, cap. VI), mas apesar de hoje a igreja romana não impedir a divulgação da Bíblia entre as pessoas e nem a sua leitura, ela continua mediante o seu magistério a dar erradas interpretações a muitas e muitas passagens da Escritura conseguindo assim com a sua habitual fraude e astúcia esconder a verdade aos Católicos. Mas graças sejam dadas a Deus porque também nesta geração Deus iluminou as mentes de muitos Católicos romanos fazendo-lhes compreender rectamente a Palavra da verdade e os resgatou do jugo opressor desta religião habilmente construída pelo diabo. Hoje, eles são nossos irmãos e juntos nos alegramos e louvamos a Deus, por nos ter feito conhecer a verdade; a verdade que nos fez livres do pecado.

 

 

A INTRODUÇÃO DOS LIVROS APÓCRIFOS NO CÂNON DA BÍBLIA

 

Na sessão de 8 de Abril de 1546 do concílio de Trento foram declarados canónicos, além dos sessenta e seis livros dos quais é formada a Bíblia, também outros livros que levam estes nomes: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e 1 e 2 Macabeus. Além disso foram feitos acréscimos ao livro de Ester e ao de Daniel porque foram também esses acréscimos considerados Escrituras inspiradas. No documento redigido naquele concílio, a propósito desta sua decisão, estão escritas entre outras coisas estas palavras:Se alguém não aceitar como sacros e canónicos estes livros na íntegra com todas as suas partes, como era costume serem lidos na Igreja Católica e como se encontram na edição antiga da Vulgata Latina; e desprezar conscientemente as preditas tradições, seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. IV, primeiro decreto.). Estes livros acrescentados são apócrifos (de apokryphos, termo grego que significa ‘oculto’ [8]) e são chamados pela igreja romana deuterocanónicos ou seja acrescentados ao cânon. Ora, os Católicos nos acusam de ter mutilado a Bíblia tirando-lhe os livros aqui acima enumerados com os acréscimos a Ester e a Daniel, mas isso não é de maneira nenhuma verdade porque nós não tiramos nada ao cânon das Escrituras. A verdade é que eles adulteraram o cânon das Escrituras acrescentando os livros que quiseram e nos acusam de tê-los tirado porque não nos conformámos à decisão do concílio de Trento. Em outras palavras eles não suportam que nós nos tenhamos abstido de incluir no cânon livros que desde que surgiram não foram declarados canónicos! As razões pela quais nós não reconhecemos os livros apócrifos como canónicos, isto é, como parte do cânon das Escrituras, são as seguintes.

 

Eles estão cheios de contradições e de erros, e disso há as seguintes provas

 

Ÿ No livro de Ester está escrito a propósito de quando Ester se apresentou após o jejum ao rei: "O rei estava assentado sobre o seu trono, na sala real, defronte da entrada. E sucedeu que, vendo o rei à rainha Ester, que estava em pé no pátio, ela alcançou favor dele; e o rei estendeu para Ester o cetro de ouro que tinha na sua mão. Ester, pois, chegou-se e tocou na ponta do cetro. Então o rei lhe disse: O que é, rainha Ester? qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará" (Est. 5:1-3). Nos acréscimos feitos a este livro encontramos escrito a propósito do mesmo episódio estas palavras: ‘Passou, pois, todas as portas e se apresentou diante do rei. Assuero estava assentado em seu trono, revestido de todos os ornamentos de sua majestade, coberto de ouro e de pedrarias e seu aspecto era imponente. Logo que o rei levantou a cabeça radiante de esplendor e dirigiu seu olhar cheio de cólera, a rainha, mudando de cor, desfaleceu e se deixou cair sobre os ombros da criada que a acompanhava’ (Boa Nova - Bíblia católica 2003 Ester 15: 9-10). Como podeis ver a descrição feita no acrescento contrasta a autêntica do livro inspirado, porque na primeira está dito que Ester alcançou o favor do rei enquanto na segunda está dito que o rei dirigiu um olhar de cólera para Ester e que ela até desfaleceu.

Ÿ No livro de Tobias, que está cheio de fábulas, verificamos uma mentira que o escritor faz dizer a um anjo de Deus de nome Rafael. Primeiro encontramos escrito que Tobias saiu à procura de um homem que conhecesse o caminho, que o acompanhasse até à Media, e logo que saiu, viu-se diante de Rafael, o anjo, mas não sabia que era um anjo de Deus, depois quando Tobit, seu pai, lhe perguntou: Meu irmão, de que família e tribo és? Diz-me, este lhe respondeu:Sou Azarias, filho do grande Ananias, um teu compatriota’ (Edição Pastoral cfr. Tobias 5:4-13). Os anjos de Deus são santos e não se põem a mentir quando falam porque eles fazem e dizem tudo o que Deus quer. Se o anjo se chamava Rafael deveria responder que se chamava Rafael; porque então disse de ser Azarias? Ainda neste livro verificamos também a superstição ensinada nada mais nada menos do que por um anjo de Deus! Está de facto nele escrito que uma noite Tobias desceu ao rio Tigre para lavar os pés, e um grande peixe saltou da água para devorar o pé do rapaz que se pôs a gritar. Então o anjo lhe disse para agarrar o peixe e tirar-lhe o fel, o coração e o fígado que podiam ser úteis como remédios, e mandou que deitasse fora os intestinos. Depois que Tobias assou uma parte do peixe e comeu, se puseram a caminho e durante o caminho o jovem perguntou ao anjo que remédio se pode fazer do coração e do fígado e do fel do peixe. O anjo então lhe respondeu:O coração e o fígado servem para serem queimados na presença de homem ou mulher atacados por algum demónio ou espírito mau. O fumo espanta o mal e faz com que o demónio desapareça para sempre’ (ibid., Tobias 6:8). Mas como se pode aceitar por inspirado um livro onde os anjos se põem a ensinar a superstição?

Ÿ No livro de Judite se faz remontar a história desta mulher a pouco depois do regresso dos Judeus do cativeiro de Babilónia, e numa passagem é dito:Os israelitas da Judeia ficaram a saber de tudo o que Holofernes, general de Nabucodonosor, rei da Assíria, tinha feito às nações, atacando os seus templos e entregando-os ao saque. Então ficaram aterrorizados com Holofernes e temeram por Jerusalém e pelo Templo do Senhor seu Deus. Eles tinham voltado do exílio havia pouco tempo, e todo o povo da Judeia havia-se reunido novamente. Os utensílios, o altar e o Templo haviam sido recentemente purificados da profanação.’ (ibid., Judite 4:1-3). Nestas poucas palavras há diversas mentiras porque quando os Judeus voltaram do cativeiro à Judeia não existia mais o rei Nabucodonosor, rei de Babilónia, porque já tinha morrido há muitos anos, e sobre o reino dos Medos e dos Persas naquele tempo reinava Ciro rei da Pérsia o qual tinha sido ele a reenviar livres os exilados Hebreus a fim de que voltassem à Judeia para construir o templo de Deus.

Ÿ O escritor do segundo livro dos Macabeus termina com estas palavras:Aqui encerro a minha narrativa. Se ficou boa e literariamente agradável, era o que eu queria. Se está fraca e medíocre, é o que fui capaz de fazer’ (ibid., 2 Macabeus 15:38). Um escritor inspirado por Deus nunca escreveria semelhantes palavras porque Deus não se pode desculpar com ninguém de não ter sido capaz de fazer melhor e porque no Escrito inspirado tudo é bom e tudo tem valor porque o que lá está escrito é Palavra de Deus. Ainda neste livro encontramos uma mentira que consiste nisto: O escritor diz que o profeta Jeremias foi à montanha em que Moisés subiu para contemplar a terra prometida e nesta montanha numa gruta escondeu o tabernáculo, a Arca e o altar do incenso e depois que tinha dito a alguns que o lugar ficaria desconhecido até que Deus reunisse novamente o seu povo, com efeito naquele tempo Deus revelaria onde estavam os objectos sagrados. (cfr. 2 Macabeus 2: 1-8). Mas as coisas não podem ser verdadeiras porque no livro do profeta Jeremias está escrito que a arca do pacto do Senhor não lhes viria mais ao pensamento, quando Deus os levasse a Sião, com efeito está escrito: "Vos levarei a Sião; e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência. E quando vos tiverdes multiplicado e frutificado na terra, naqueles dias, diz o Senhor, nunca mais se dirá: A arca do pacto do Senhor!; nem lhes virá ela ao pensamento; nem dela se lembrarão; nem a visitarão; nem se fará outra" (Jer. 3:14-16). Como podeis ver também esta aberta contradição faz perceber como este livro não pode ser inspirado por Deus. Outra contradição que faz dos livros dos Macabeus livros inconfiáveis é a descrição da morte de Antíoco Epifane que é feita de três maneiras completamente diferentes umas das outras. De facto numa passagem está escrito:Ao ouvir essas notícias, o rei ficou apavorado e totalmente atordoado, e caiu de cama, doente de tristeza, pois nada estava a acontecer como ele queria. Ficou lá muito tempo, cada vez mais deprimido. Percebendo que ia morrer’ (ibid., 1 Macabeus 6:8,9) (e mais à frente se diz que morreu); numa outra passagem se diz que o mesmo rei morreu apedrejado na Pérsia no templo da deusa Nanéia, de facto, encontramos escrito que os sacerdotes de Nanéia ‘fecharam o templo, abriram a porta secreta do sótão e mataram o rei à pedrada. Esquartejaram o rei e atiraram a cabeça dele aos que estavam do lado de fora’ (ibid., 2 Macabeus 1:16); e por fim numa outra passagem encontramos escrito que morreu comido pelos vermes em Ecbátana porque Deus o feriu com uma praga (ibid., cfr. 2 Macabeus 9:1-28).

Demonstrámos alguns dos numerosos erros que existem nestes livros os quais nos fazem compreender que os escritores que escreveram essas coisas não foram inspirados pelo Espírito Santo. Nos livros apócrifos há também histórias que servem de base a algumas doutrinas perversas presentes na igreja romana. Por exemplo nos Macabeus há passagens que falam de orações pelos mortos e de um sacrifício expiatório oferecido pelos mortos (cfr. 2 Macabeus 12:38-46) e de orações feitas por um sacerdote morto e pelo profeta Jeremias (morto também ele) em favor dos vivos na terra (cfr. 2 Macabeus 15:11-16).

Sim, é verdade da existência nos livros da Sabedoria e do Eclesiástico, por exemplo, de algumas coisas verdadeiras que não podem ser anuladas, mas não é por isso que os livros apócrifos podem ser considerados canónicos.

 

O Espírito da verdade que diz a verdade, não testifica em nós filhos de Deus que eles são Palavra de Deus porque nos faz sentir de maneira inequívoca que eles não devem ser aceites como Palavra de Deus

 

As ovelhas do Senhor conhecem a sua voz e ela não pode confundir-se com uma outra; e a voz com que falam estes livros não é a do Pastor das nossas almas.

 

Nem Jesus Cristo e nem ainda os apóstolos fizeram alguma vez referência a estes livros apócrifos

 

Este seu silêncio demonstra que eles não eram considerados por eles Palavra de Deus. Uma coisa podemos dizê-la: que se os Hebreus tivessem tirado dos livros canónicos aqueles que segundo os teólogos romanos são canónicos, se teriam feito culpados também desta culpa diante de Deus, e Jesus Cristo, Aquele por meio do qual são todas as coisas, não teria deixado de repreendê-los severamente também por este seu acto iníquo.

 

Os Hebreus primeiro e depois também os Cristãos dos primeiros séculos depois de Cristo nunca os reconheceram como canónicos

 

Os Hebreus, a quem (não esqueçamos isto) "foram confiados os oráculos de Deus" (Rom. 3:2) nunca reconheceram como canónicos esses livros e aqueles acréscimos a Ester e a Daniel; é por isso de facto que na Bíblia hebraica (que contém apenas os livros do Antigo Pacto) eles estão ausentes. A Igreja primitiva negou a canonicidade destes livros, de facto, nunca os pôs ao mesmo nível dos sagrados. E dado que a igreja católica romana se apoia assim tanto nos seus chamados antigos pais fazemos presente aos Católicos romanos que há diversos testemunhos de alguns deles que viveram nos primeiros séculos depois de Cristo que dizem que esses livros aos seus dias não eram considerados canónicos. Um destes, Jerónimo, tido em grande estima pela igreja católica, afirmou: ‘A Igreja lê o livro de Tobias, de Judite, dos Macabeus, de Baruc, de Susana, da Sabedoria, do Eclesiástico, o hino dos três jovens e as fábulas de Bel e o Dragão; mas ela não os recebe de modo algum no número das Escrituras autênticas’ (Jerónimo, Prólogo a Graciano) [9]. O concílio de Trento pois, reconhecendo por canónicos os apócrifos contrastou também Jerónimo que é o autor da tradução latina dita Vulgata que o concílio de Trento declarou dever ser aceite como a única autêntica dentre todas as versões. É verdade que Jerónimo disse também coisas perversas e que a tradução por ele feita continha muitos erros mas nessas suas palavras supracitadas afirma claramente que a Igreja no seu tempo não aceitava como canónicos os mesmos livros acrescentados pela igreja romana ao cânon. Então por que é que Jerónimo neste caso não é aceite pela cúria romana como antes o é quando sustém que é coisa boa a veneração das relíquias dos santos mártires, ou que o bispo de Roma é o sucessor de Pedro? A razão é evidente; ela toma dos seus pais o que lhe é cómodo; o que pelo contrário de justo eles disseram e que não sustém a sua tradição é rejeitado.

Por fim, queremos citar as seguintes Escrituras que testificam que é proibido tanto acrescentar como tirar alguma coisa à Palavra de Deus:

Ÿ "Toda palavra de Deus é pura... Nada acrescentes às suas palavras, para que ele não te repreenda e tu sejas achado mentiroso" (Prov. 30:5,6);

Ÿ "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela.." (Deut. 4:2);

Ÿ "Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão descritas neste livro" (Ap. 22:18,19).

Portanto aqueles que fizeram estes acréscimos à Palavra de Deus levarão a pena deles pela eternidade, porque se permitiram fazer passar às multidões palavras de homens e fábulas por Palavra de Deus.

 

 

AS FALSIFICAÇÕES DOS LIVROS DOS CHAMADOS PAIS

 

Depois que rebentou a Reforma o papado vendo que a Reforma se estava cada vez mais difundindo nas nações, e que os Protestantes para confirmar as suas doutrinas anticatólicas faziam apelo além de à Escritura por vezes também aos escritos dos chamados pais, o que fazia aparecer até os chamados pais contra certas doutrinas papistas, promulgou o Index librorum expurgandorum ou seja ‘O Índice dos livros a expurgar-se’ em que além dos livros dos chamados pais foram postos também certos livros de autores católicos nos quais haviam passagens não agradáveis aos papas porque iam a favor dos Protestantes. Nestes livros com base nas ordens dos inquisidores deviam ser feitas cancelações e interpolações. Eis alguns exemplos de como foram falsificados alguns escritos dos chamados pais.

No livro de Cipriano intitulado De Unitate Ecclesiae onde ele diz: ‘O resto dos apóstolos eram iguais em poder e honra a Pedro’ os papistas acrescentaram ‘E o primado foi dado a Pedro’; e onde ele diz: ‘Aquele que se opõe e resiste à igreja crê ele mesmo estar na igreja?’ puseram: ‘Aquele que abandona a cadeira de Pedro sobre a qual a igreja foi fundada, crê ele mesmo estar na igreja?’ (De Unitate Ecclesiae, cap. III. cfr. Thomas James, A Treatise of the Corruptions of Scripture, Councils, and Fathers, by the prelates, pastors, and pillars of the church of Rome for the maintenance of popery, [Um tratado das corrupções das Escrituras, dos Concílios e dos Pais, feitas pelos prelados, pelos pastores e pelas colunas da igreja de Roma para a manutenção do papado] London 1843, pag. 76-77. Revisto e corrigido das edições de 1612 e 1688) [10]. As referidas violações tinham o objectivo de fazer crer a origem divina do primado de Pedro sobre a Igreja, e que quem se opunha à sede de Roma não podia mais dizer-se membro da Igreja de Deus.

Uma outra distorção foi trazida às seguintes palavras de Gregório Magno. O texto original diz: ‘O rei do orgulho está próximo; e (que é uma maldade pronunciar) um inteiro exército de sacerdotes está se preparando para presenciar à sua vinda (Sacerdotum ei preparatur exercitus)’; mas os papistas o modificaram desta maneira: ‘O rei do orgulho está próximo; e, (que eu aborreço dizer) quando ele vier os sacerdotes serão condenados e mortos’ (Sacerdotum est proeparatus exitus) (cfr. Thomas James, op. cit., pag. 146). A violação tinha o objectivo de não fazer crer que - segundo Gregório Magno - quando viesse o anticristo muitos sacerdotes o aclamariam e defenderiam, mas que na sua vinda os sacerdotes seriam mortos.

Numa edição das obras de Agostinho feita em Veneza em 1584, os editores confessam abertamente ter tirado todas aquelas passagens que podiam favorecer as doutrinas dos Protestantes: in qua curavimus removeri ea omnia quae fidelium mentes haeretica pravitate possent inficere [11].

 

 

A FALSIFICAÇÃO DOS CÂNONES DOS CONCÍLIOS

 

Por quanto respeita à falsificação dos cânones conciliares queremos recordar estes factos históricos. Em 419 no concílio de Cartago (África) discutia-se o caso de Apiário, um padre de Sicca, que por causa da sua má conduta tinha sido deposto pelo seu bispo e tinha por isso apelado para Zózimo (417-418) bispo de Roma (ainda que com base nas leis dos sínodos africanos ele não pudesse apelar ao bispo de Roma. O concílio Melivetano tinha por exemplo decretado:Todo aquele que quiser apelar além mar, não seja recebido por alguém, em África, na comunhão’) o qual tinha aceite com alegria tomar a sua defesa e o tinha reenviado para a pátria com alguns seus legados. Os legados de Bonifácio I (o sucessor de Zózimo que tinha morrido há pouco) em Cartago apresentaram pois em nome do seu papa cânones do concílio geral (portanto que obrigava tanto as igrejas do Ocidente como as do Oriente) de Nicéia (325) que atribuíam ao bispo de Roma o direito de receber apelo por parte dos bispos das outras igrejas (quando na realidade aqueles cânones eram do concílio local de Sárdica de 343 que não tinha sido aceite pelas igrejas do Oriente). Mas os mais de duzentos bispos que formavam o concílio (entre os quais estava também Agostinho de Hipona) mandaram consultar as actas originais daquele concílio de Nicéia (nos arquivos de Alexandria, Antioquia e Constantinopola) e descobriram que aqueles cânones do concílio de Nicéia asseverados por Bonifácio I eram inexistentes. Portanto escreveram uma carta a Bonifácio I em que se lamentavam da tentativa de fraude feita pelos seus legados em relação a eles (que se tinham apresentado em seu nome). Na carta estava escrito:Nós esperamos que por divina misericórdia, enquanto Vossa Santidade presidir a Igreja Romana, não tenhamos mais que sofrer uma semelhante arrogância e que serão usados a nosso respeito modos de agir tais a não sermos mais obrigados a protestar’.

Este ilícito uso dos cânones de Sárdica foi feito também por Celestino (422-432), sucessor de Bonifácio I, cinco anos depois, em 424, ainda no caso de Apiário. Este se tinha ainda comportado mal e tinha sofrido uma outra excomunhão. Apelou de novo para Roma, o papa o ouviu e, como reconhecem até alguns historiadores católicos, ‘desgraçadamente’ tomou as suas defesas e o enviou a Cartago com um seu legado. Num concílio plenário, o bispo de Cartago, retomou o exame da causa. Foram referidas as queixas dos habitantes de Tabraca (junto dos quais tinha estado Apiário), mas isso não obstante o legado papal defendia com arrogância Apiário. Mas depois de alguns dias de discussão, sucedeu o imprevisto; Apiário confessou as suas próprias transgressões. A este ponto o legado papal foi obrigado a abandonar a sua defesa. A causa já estava julgada; foram enviadas a Celestino as actas do concílio e uma carta em que ‘o papa era exortado a não receber mais tão facilmente os querelantes vindos de África, tanto mais que os decretos de Nicéia prescreviam aos bispos respeitar as sentenças dos seus colegas e exigiam que os processos eclesiásticos fossem conduzidos a termo no lugar. Nenhum concílio autêntico permitia ao papa enviar legados, como tinha feito; os cânones alegados para tal fim não eram cânones de Nicéia, como os inquéritos tinham exaustivamente provado. Na Igreja de Cristo é necessário agir com simplicidade e humildade, sem recorrer aos modos arrogantes do século’.

 

 

OS FALSOS MILAGRES EUCARÍSTICOS

 

Os teólogos papistas, por vezes, para confirmar a doutrina da transubstanciação, ou seja, para confirmar que o pão e o vinho nas mãos do padre depois da benção tornam-se o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue do Senhor Jesus Cristo, citam diversos milagres eucarísticos. Segundo eleso milagre eucarístico, particularmente voltado para confirmar a fé no mistério da real presença, está portanto fora de discussão quanto à sua possibilidade e à sua eficácia probatória, mas está sujeito a todas as cauções, que uma sã crítica histórica impõe’.

Ora, nós por brevidade não queremos transcrever todos estes milagres eucarísticos ocorridos. Citaremos apenas dois deles que estão entre os mais conhecidos pelos Católicos romanos. O primeiro, que é citado também pelo teólogo Perardi no seu catecismo, é o seguinte: ‘Em 1453 foi saqueada a terra de Exilles (distrito de Susa), e foi roubado um rico Ostensório com o SS. Sacramento, e posto ao molho com outros objectos dentro de um saco. Chegados a Turim em 6 de Junho, os ladrões atravessavam a praça S. Silvestre, quando, o jumento caiu; as cordas que ligavam o saco se desataram, o invólucro se rompeu e o Ostensório elevou-se no alto, à vista de todos. O povo acorreu a adorar Jesus Cristo. O bispo Ludovico dos marqueses de Romagnano, reuniu o Capítulo, o Clero, e ordenou uma procissão, para o lugar do milagre. Chegado o Bispo, eis um novo prodígio: o Ostensório se abre e cai por terra, enquanto a Hóstia fica sozinha, a pairar no ar, resplandecente de luz vivíssima. Perante tal vista ouvem-se prantos, gritos, vozes de oração dos fiéis que suplicam e adoram: o Bispo elevando um cálice para a Hóstia, conjura o Senhor a descer entre os seus fiéis, repetind