Capitulo 9

A tradição

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

A tradição é parte da revelação de Deus e por isso deve ser respeitada a par da Escritura. 'A tradição é o ensinamento de Jesus Cristo e dos apóstolos, feito a viva voz, e pela Igreja transmitido até nós sem alteração' (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 375) [1]; 'Fontes principais da Tradição são os Concílios da Igreja [2], os Livros litúrgicos, as Actas dos Mártires, as antigas inscrições nos túmulos e nos monumentos, as orações públicas, as obras dos Pais e dos Doutores da Igreja. - O título de Pais dá-se aos Escritores sagrados até ao século XII; o de Doutor dá-se tanto aos Pais como a outros Escritores eminentes, especialmente Santos cuja doutrina é aprovada pela Igreja e geralmente seguida' (ibid., pag. 377) [3]. Portanto, segundo a Igreja Papista a sua tradição é constituída por preceitos que Jesus deu por palavra aos seus apóstolos, que por sua vez transmitiram por palavra a outros fiéis servidores do Senhor que por sua vez ainda oralmente a fizeram chegar inalterada a eles que são, segundo eles, a verdadeira e única igreja depositária de toda a revelação divina! Em substância a tradição é parte da revelação de Deus e como tal portanto deve ser respeitada a par da Escritura: Perardi afirma de facto que 'nós devemos ter pela doutrina nos transmitida por Tradição, o mesmo respeito e a mesma fé que temos pela doutrina da Sagrada Escritura, pois uma e outra são verdade revelada por Deus' (ibid., pag. 375-376) [4]. Os teólogos papistas para sustentar que toda a sua tradição, apesar de não estar escrita na Escritura, deve ser aceite da mesma maneira em que é aceite a Escritura porque também ela foi revelada por Deus fazem um discurso todo particular apoiando-se em certas passagens da Escritura. Nós agora vos proporemos este seu discurso assim como o encontramos no catecismo de Perardi. Uma só vez é declarada útil a sagrada Escritura, vale dizer quando Paulo diz a Timóteo: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e útil [ ou proveitosa] para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2 Tim. 3:16,17). Mas não é declarada útil para os fiéis mas 'para os sagrados ministros como auxílio a eles para ensinar, educar e corrigir (...) Útil e não já necessária' (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 376). E ainda: 'Não só nunca se impõe a leitura da Bíblia, mas se insiste para que se recordem, se conservem e se transmitam os ensinamentos aprendidos oralmente, que se tornam Tradição viva da Igreja' (ibid., pag. 376), e cita os seguintes versículos da Escritura para confirmar isso: "Ora, eu vos louvo, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os meus ensinamentos assim como vo-los transmiti" (1 Cor. 11:2); "Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai os ensinamentos que vos foram transmitidos, seja por palavra, seja por epístola nossa" (2 Tess. 2:15); "Manda estas coisas e ensina-as.... até que eu volte, aplica-te à leitura, à exortação, e ao ensino.... Tem cuidado de ti mesmo e do ensinamento; persevera nestas coisas" (1 Tim. 4:11,13,16); "Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido na fé e no amor que há em Cristo Jesus; guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós" (2 Tim. 1:13,14); "Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. E o que de mim ouviste na presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros" (2 Tim. 2:1,2). E a respeito de Timóteo Perardi diz: 'Timóteo não escreveu as coisas ouvidas de S. Paulo, as ensinou segundo a ordem dele e as transmitiu por tradição' (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 376).

A teoria do gérmen. O cardeal Newman (1801-1890) no seu livro O desenvolvimento da doutrina cristã, para defender a tradição, propugnou a teoria do gérmen. Segundo esta teoria a tradição da igreja católica romana ainda que não esteja contida tal e qual nos ensinamentos de Jesus todavia está contida em forma de gérmen; depois com o passar do tempo ela se desenvolveu até tomar as dimensões e a forma que hoje possui. Em outras palavras, para este cardeal houve uma evolução da doutrina de Cristo, evolução representada pela tradição. Eis algumas palavras suas tiradas deste livro que fazem perceber muito bem esta teoria do gérmen: 'E ainda no mesmo capítulo de são Marcos lê-se: 'O Reino de Deus é semelhante a um homem que lançou a semente à terra. Depois dorme e acorda, noite e dia, e a semente vai brotando e crescendo, mas o homem não sabe como isso acontece. porque a terra produz fruto por si mesma'. Indica-se aqui uma força vital interior, seja ela um princípio ou uma doutrina, em vez de uma simples manifestação exterior. Além disso, observamos que aqui se faz entender o carácter espontâneo e juntamente progressivo do crescimento (...) A parábola do Reino de Deus descreve também o desenvolvimento da doutrina sob um outro aspecto, a saber, indica o seu poder activo, que se traduz num processo de integração e de interpretação (....) Tendo firme que o cristianismo vem de Deus, de Deus vem necessariamente também tudo o que está nele de modo implícito e o que dele se desenvolve (...) Pela doutrina da Mediação consegue a da Expiação, da missa, dos méritos dos santos e dos mártires, as invocações a eles dirigidas e o seu culto (....) Dentre os sacramentos, depois, o batismo se desenvolve por uma parte no crisma e depois na doutrina da penitência, do purgatório e das indulgências. E a Eucaristia se desenvolve na doutrina da Presença real, na adoração da Hóstia, na ressurreição dos corpos e na virtude das relíquias (...) Estes individuais desenvolvimentos não se põem de modo independente uns dos outros, mas se entrelaçam uns com os outros e, vindo de um só gérmen crescem juntos' (John H. Newman, Lo sviluppo della dottrina cristiana, [O desenvolvimento da doutrina cristã] Bologna 1967, pag. 82, 83,103,104).

 

Confutação

 

A tradição católica romana não pode proceder de Cristo porque anula a Palavra de Deus e por isso deve ser rejeitada

 

Ora, os teólogos papistas afirmam que a sua tradição procede de Cristo; mas então, como se explica o facto de esta sua tradição anular abertamente as coisas que Jesus Cristo primeiro e os apóstolos depois ensinaram e que nós encontramos escritas tão claramente na Escritura? Como é que esta sua tradição é amarga ao nosso paladar enquanto a Palavra de Deus escrita é mais doce do que o mel? Como é que a sua tradição é torta enquanto a Palavra de Deus é direita? A razão pode ser e é só uma; ela não procede de Deus. Mas então de quem procede? Do inimigo de Deus, do diabo que é mentiroso e pai da mentira: não pode ser de outro modo. Por isso não se deve ter por ela nenhum respeito mas apenas ódio, e nela não é necessário repôr alguma confiança. A tradição católica romana assemelha-se em muitos aspectos à tradição que tinham os escribas e os Fariseus no tempo de Jesus; de facto como aquela tradição, de que os escribas e os Fariseus andavam orgulhosos, anulava a lei de Moisés, ou seja a lei que Deus tinha dado ao seu povo no monte Sinai (vos recordo que os escribas e os Fariseus diziam, entre outras coisas, que se alguém dizia a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor, ele não era mais obrigado a honrar seu pai e sua mãe, enquanto a lei diz: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe seja punido de morte) (cfr. Mat. 15:4,5; Mar. 7:10-12); assim a tradição da igreja católica romana, de que os papas e os seus seguidores estão tão orgulhosos de ter, anula o Evangelho de Cristo, ou seja, a palavra da graça que Deus nos transmitiu por meio do seu Filho. E isso o temos amplamente demonstrado no decorrer da nossa confutação. Mas o que fez Jesus ao constatar que os escribas e os Fariseus com a sua tradição tinham anulado a Palavra de Deus, e tinham assim fechado o reino dos céus às pessoas impedindo-lhes de lá entrar? Ele os repreendeu severamente, como mereciam. Ele disse-lhes: "Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens" (Mat. 15:7-9). Estas são palavras de Cristo que trovejam contra todos aqueles que estão à cabeça desta pseudo-igreja os quais preferem observar e fazer observar aos outros preceitos humanos que se desviam da verdade, em vez de a Palavra de Deus. Mas além de repreender os escribas e os Fariseus Jesus pôs de sobreaviso os seus discípulos da doutrina dos Fariseus que tinha anulado a Palavra de Deus dizendo aos seus discípulos: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus" (Lucas 12:1; cfr. Mat. 16:6-12), e assim ainda hoje ele nos manda para nos acautelarmos do fermento da igreja romana para não nos corromper. "Um pouco de fermento faz levedar toda a massa" (1 Cor. 5:6), diz a Palavra, por isso estai atentos para não assimilar nenhuma das heresias da igreja romana. Irmãos, "não vos escrevi porque não soubésseis a verdade, mas porque a sabeis, e porque nenhuma mentira vem da verdade" (1 João 2:21).

 

A teoria do gérmen de Newman é uma mentira a par da teoria da evolução de Darwin

 

Jesus disse um dia explicando a parábola do semeador que "a semente é a palavra de Deus" (Lucas 8:11); portanto ele comparou o seu ensinamento à semente semeada pelo semeador. Ora, como todo o ensinamento de Jesus é bom, deve-se dizer que toda a semente de que ele falou era em tudo e para tudo boa, privada de qualquer gérmen mau. E portanto do seu puro ensinamento não podiam e não podem brotar doutrinas que contrastam e anulam as suas próprias palavras, ou seja, heresias. Queremos dizer com isto que Jesus não semeou da semente que continha no interior gérmens maus que depois com o tempo se desenvolveram até se tornarem plantas venenosas. Não, de modo nenhum. Mas com o passar do tempo homens ou na sua ignorância sem se darem conta ou por má-fé para enganar os outros, na boa semente introduziram gérmens maus, representados pelas suas interpretações falsas, pelas suas opiniões erradas, e por doutrinas estranhas, que por sua vez fazem brotar inevitavelmente outras perversidades porque "um abismo chama outro abismo" (Sal. 42:7) e porque "um pouco de fermento faz levedar toda a massa" (1 Cor. 5:6). Esta foi uma obra do diabo, que é o enganador de todo o mundo, chamado "o inimigo" (Mat. 13:39) de Jesus porque tem em aversão a verdade, que conseguiu portanto a pouco e pouco introduzir no meio do Evangelho estranhas doutrinas, fazendo-as passar por tradições apostólicas, as quais acabaram por anular o Evangelho da graça de Deus. E assim a verdade começou a ser semeada junto com muitos erros. Mas enquanto a verdade, a boa semente da Palavra de Deus, continuou a fazer bem aos que a aceitaram assim como é, ou seja, sem qualquer adulteração, o erro (o gérmen mau introduzido pelo diabo com a sua astúcia) gerou muitos outros erros que são precisamente os preceitos da tradição católica romana que causaram danos e delitos em número infinito durante os séculos. Basta tomar o diabólico preceito que impede aos padres de se casarem (desenvolvido também a seguir a uma errada interpretação dada à ceia do Senhor) para dar conta das nefastas consequências que ele tem tido sobre a sociedade e sobre eles mesmos; mas a mesma coisa se pode dizer da missa (desenvolvida também ela pelo errado significado dado à ceia do Senhor), das indulgências (cuja origem está num errado significado dado às palavras de Jesus: "Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados" (João 20:23) que deu vida ao sacramento da penitência), e de todas as outras heresias da igreja romana. Portanto, a tradição católica romana que anula o Evangelho da graça não estava de modo algum contida em gérmen no ensinamento de Jesus; porque ela derivou dos gérmens maus e enganadores brotados dos corações de bispos, papas, cardeais, e muitos outros. É pois nestes gérmens que importa procurar as origens das tradições da igreja católica romana que não estão, segundo a cúria romana, explicitamente contidas na Palavra de Deus, e não na Palavra de Deus, pura de toda a escória. E de facto não é na Palavra de Deus que eu encontrei as tradições da igreja católica romana que tenho confutado até aqui, mas nas interpretações erradas dadas pelos seus chamados pais e papas; lendo a Palavra de Deus guiados pelo Espírito da verdade não se pode minimamente entrever nela a tradição católica romana, nem sequer contida em gérmen. Mas então como é que os católicos conseguem pelo contrário ver nela a tradição? Porque eles não se fazem guiar pelo Espírito de Deus na leitura da Palavra, mas sim pelo magistério da igreja católica que sabe como transformar a luz em trevas, e fazer dizer a Jesus e aos apóstolos o que eles nunca disseram. Por um certo lado esta teoria do gérmen avançada por Newman assemelha-se à teoria de Darwin que 'afirmou que o homem estava ligado à vida animal por meio de tipos ancestrais comuns', ou seja, que descendia de animais. O que nós sabemos não poder ser verdadeiro porque a Escritura ensina que o homem é uma criatura de Deus formada por Deus à sua imagem e semelhança enquanto os animais não foram feitos à sua imagem e semelhança, e porque o homem foi formado separadamente dos animais e subsequentemente a eles. Não há pois nenhuma conexão entre o homem e os animais; como também não há nenhuma conexão entra a Palavra de Deus e a tradição perversa da igreja católica romana. Afirmar que a tradição católica romana se tenha espontaneamente desenvolvido da semente da Palavra de Deus é como afirmar que a verdade pode gerar a mentira; que a Palavra de Deus tem o poder de desenvolver doutrinas diabólicas. Mas o que tem a ver a mentira com a verdade? Nada. Jesus Cristo é a verdade, ele é a Palavra de Deus e um dia disse referindo-se ao diabo, que é pai da mentira: "Ele nada tem em mim" (João 14:30); portanto é impossível pensar que das palavras de Jesus tenham podido a seguir sair - isto é desenvolver-se - o purgatório, a missa, o papado, as indulgências, o culto a Maria e aos santos, as orações pelos mortos (para citar só algumas); todas doutrinas que contrastam a Palavra de Deus porque foram geradas pelo diabo que é mentiroso e pai da mentira. Se fosse de outro modo teríamos que afirmar que na verdade que era Cristo Jesus estava escondida também a mentira!! Em suma que o diabo tivesse alguma coisa em Jesus!! é portanto diabólico o raciocínio de Newman; porque também ele se opõe à verdade. Ninguém vos engane irmãos com os seus sofismas.

 

O discurso feito com as Escrituras para sustento da tradição é falso

 

Como vimos Perardi afirma que uma só vez a Escritura é declarada útil (proveitosa) e depois que ela é declarada útil para os sagrados ministros e não para todos os fiéis e depois que ela é útil e não necessária. Como replicamos nós? Assim. Antes de mais dizemos que é falso que só uma vez a Escritura é declarada útil, porque Paulo a Tito na parte final da epístola lhe diz: "Estas coisas são boas e úteis [ ou proveitosas] aos homens" (Tito 3:8). Quais são estas coisas úteis de que Paulo fala senão as coisas que lhe escreveu? E depois é necessário dizer que há muitas outras passagens que fazem perceber claramente que as coisas que foram escritas por inspiração do Espírito Santo são úteis; entre estas citamos esta: "Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança" (Rom. 15:4). Como podeis ver o discurso de Perardi é vão. Vejamos agora a questão da passagem a Timóteo se referir aos ministros de Deus e não a todos os fiéis; mas que significa isto? Que para os que receberam um ministério de Deus, como o tinha recebido Timóteo, a Escritura é útil enquanto para os que não têm um ministério não é útil? Mas isto é loucura. Paulo diz aos Romanos que "tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito" (Rom. 15:4), portanto para ensinar não só os ministros de Deus mas também os que não têm um ministério, em suma para todos os membros do corpo de Cristo. E citando ainda as palavras de Paulo a Tito "estas coisas são boas e úteis [ ou proveitosas] aos homens" (Tito 3:8), ele não diz 'são úteis aos homens de Deus', mas "aos homens" em geral sem nenhuma distinção. Mas que vão tagarelando esses guias cegos? O facto depois de Perardi dizer que a Escritura é útil mas não necessária, é a enésima prova de quanto astutos são os teólogos papistas no expor as suas doutrinas. Mas então se a Escritura não é necessária por que é que Deus quis que fosse escrita? Mas então a Escritura para os teólogos romanos é só um auxílio para os homens e nada mais! Mas então nos expliquem como é que Moisés disse ao povo: "Porque esta palavra não vos é vã, antes é a vossa vida" (Deut. 32:47)! É claro que o seu discurso tende para não fazer aparecer a Escritura como a única Palavra de Deus existente sobre a terra!

Vejamos agora as afirmações de Perardi segundo as quais nunca se impõe a leitura da Bíblia mas se devem recordar conservar e transmitir os ensinamentos aprendidos oralmente, (e para fazer isso cita as passagens que vimos) que constituem a tradição da igreja. As coisas não são de modo nenhum assim como ele diz. Antes de mais é errado dizer que não se impõe a leitura da Bíblia, porque está escrito na lei a respeito do rei: "Será também que, quando se assentar sobre o trono do seu reino, então escreverá para si num livro, uma cópia desta lei, do original que está diante dos sacerdotes levitas. E o terá consigo, e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, e a guardar todas as palavras desta lei, e estes estatutos, a fim de os cumprir; para que o seu coração não se exalte sobre os seus irmãos, e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; e prolongue assim os seus dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel" (Deut. 17:18-20). Ainda na lei está escrito que Moisés, depois de ter escrito num livro a lei do Senhor, a deu aos sacerdotes levitas e deu-lhes esta ordem: "Ao fim de cada sete anos, no tempo determinado do ano da remissão, na festa dos tabernáculos, quando todo o Israel vier a comparecer perante ao Senhor teu Deus, no lugar que ele escolher, lereis esta lei diante de todo o Israel, para todos ouvirem" (Deut. 31:10,11). Deus disse a Josué: "Não se aparte da tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido" (Josué 1:8). O profeta Isaías diz: "Buscai no livro do Senhor, e lede" (Is. 34:16). O profeta Jeremias depois de ter escrito por ordem de Deus as palavras que Deus lhe tinha revelado, por ordem de Deus disse a Baruque: "Eu estou impedido; não posso entrar na casa do Senhor. Entra pois tu e, pelo rolo que escreveste enquanto eu ditava, lê as palavras do Senhor aos ouvidos do povo, na casa do Senhor..." (Jer. 36:5,6). O apóstolo Paulo escreveu aos Colossenses: "E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses..." (Col. 4:16); e aos Tessalonicenses disse: "Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os irmãos" (1 Tess. 5:27). E João diz: "Bem-aventurado aquele que lê e bem-aventurados os que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.!" (Ap. 1:3).

Depois de ter citado todas estas passagens que ordenam a leitura (pública e privada) da Bíblia para o nosso bem e as palavras de João que afirmam que quem a lê é bem-aventurado, se compreende o porquê de na igreja romana vigorar uma grande ignorância das Escrituras; porque eles descuram a leitura privada e pública da Palavra de Deus. A começar pelo chamado papa, e depois prosseguindo com os cardeais, com os bispos, com os padres, com os frades, com as freiras e por fim os simples membros da igreja romana todos jazem na ignorância da Palavra de Deus porque descuram a leitura da Bíblia. Sim, é verdade que hoje a leitura da Bíblia não é mais proibida ao povo como outrora; mas permanece o facto de a sua leitura ser pilotada pela cúria romana que sabe como fazê-la ineficaz. Nas Bíblias católicas se encontram de facto muitas notas 'explicativas' que têm como fim o de anular muitos e muitos versículos da Palavra de Deus [5] escritos tão claramente que destroem as pretensões da igreja romana. Prova esta eloquente de que a cúria romana na realidade não ama a Palavra de Deus e não quer que os homens a leiam para entendê-la rectamente mas só a fim de reter os seus falsos ensinamentos que levam à perdição quem os aceita. Mas então por que é que agora ela permite a leitura da Bíblia ao povo seja todavia com notas, com o perigo sempre porém de alguém não se apoiar nelas para a perceber? Se eles agora permitem a leitura da Bíblia aos seus membros é porque não puderam fazer de outro modo depois da Reforma; foram obrigados mal-grado seu a permiti-la para não parecer malvados. Senão que figura fariam os papas diante da divulgação da Bíblia operada pelos Protestantes? Mas permanece o facto de estes detestarem a Bíblia como a detestavam séculos e séculos atrás ao tempo das inquisições. Parecerá um contra-senso tudo isto mas é assim; este é o comportamento dos hipócritas. Mas nós queremos levantar a nossa voz para que os Católicos leiam a Palavra de Deus e a entendam rectamente para que possam ser libertados das amarras desta religião e chegar ao conhecimento da verdade que está em Cristo Jesus. Ó Católicos romanos, vos conjuramos a ler a Palavra de Deus (sem vos apoiardes nas explicações desviantes do vosso magistério) porque ela fala da grande salvação que Cristo Jesus veio dar aos homens; Ele pode salvar-vos perfeitamente se vós abrirdes o vosso coração ao amor da verdade!

Mas vejamos agora as passagens que Perardi toma para sustentar que a tradição católica romana não é mais que o ensinamento oral de que se fala nelas. Ora, começamos por fazer esta premissa; nós não excluímos que Jesus ou o apóstolo Paulo ou outros apóstolos, tenham dirigido ensinamentos ou dito coisas que não estão escritas. Me explico melhor; nós não sabemos com precisão quais foram as coisas que Jesus disse aos seus discípulos nos quarenta dias que precederam a sua ascensão; sabemos que Jesus naqueles dias falou "das coisas concernentes ao reino de Deus" (Actos 1:3); mas não podemos dizer mais. Também quando está escrito que Jesus instruía as multidões e nada mais nós não podemos dizer com certeza absoluta quais eram os seus particulares ensinamentos naquelas circunstâncias (cfr. Mat. 4:23; Lucas 4:15; 5:3) (mesmo se estamos convencidos que ele repetiu mais vezes os ensinamentos que estão transcritos). Está dito que Jesus, quando lhe foi levada aquela mulher apanhada em adultério, "inclinando-se, começou a escrever com o dedo na terra" (João 8:6); mas não sabemos até ao presente o que foi que ele escreveu. João diz que "Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro" (João 20:30), e também que "há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem" (João 21:25); e como quando Jesus operava milagres ou curas muitas vezes proferia também palavras com a sua boca, é necessário dizer que nós não sabemos quais foram estas palavras que Jesus disse quando operou aqueles milagres e as curas que não estão escritas nem por Mateus, nem por Marcos, nem por Lucas e nem por João. Diversas vezes está escrito que Jesus se retirava sozinho para lugares desertos e orava; mas não está escrito o conteúdo de todas as orações que Jesus dirigiu ao seu Pai.

Também por quanto respeita ao apóstolo Paulo é necessário dizer que não podemos dizer que na Bíblia estão escritas todas as coisas que ele pregou, ensinou por palavra e por escrito, e fez; basta recordar que ele diz aos Coríntios: "Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os fornicadores" (1 Cor. 5:9), e que esta carta nós não a possuímos; ou que diz aos Colossenses para lerem a Epístola "que veio de Laodicéia" (Col. 4:16), que nós não possuímos, para entender como estas duas epístolas de Paulo não são parte do Cânon porque não chegaram a nós. Podemos acrescentar também o facto de ele aos coríntios dizer: "Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for" (1 Cor. 11:34) e nós não sabemos quais foram as coisas e como ele as ordenou porque isso não está escrito. O facto de não sabermos o que em particular ele discutiu em Éfeso com os discípulos na escola de Tirano (cfr. Actos 19:9), ou qual foi o seu discurso que ele dirigiu aos crentes de Trôade na noite em que Êutico caiu do terceiro andar (Actos 20:7-11). Mas além destes exemplos poderíamos fazer muitos outros.

Mas este discurso por nós feito exclui da maneira mais absoluta que Jesus ou os apóstolos tenham transmitido por palavra ensinamentos errados como os que tem a igreja romana. Me explico; mesmo se não está escrito de que coisa específica Jesus falou aos seus durante os quarenta dias, ou às multidões quando está só escrito que ele as instruía, é de excluir-se que Jesus tenha transmitido aos seus discípulos ou às multidões o batismo e a ceia do Senhor como a cúria romana os ensina ao povo, e os outros cinco sacramentos ensinados pela cúria romana, ou a doutrina sobre o purgatório, ou a de nos devermos dirigir em oração aos anjos ou a Maria sua mãe ou aos apóstolos quando estivessem mortos, ou a do celibato forçoso para os ministros do Evangelho e assim por aí fora; porquê? Porque não são verdade! Também por quanto respeita a Paulo não se pode dizer que nas coisas que ele transmitiu por palavra aos fiéis de Tessalónica ou de alguma outra cidade, ou a Timóteo, estivessem o purgatório, as indulgências, a transubstanciação, a Via Crucis, o culto a Maria, aos santos, aos anjos, e tantas outras coisas. Porquê? Ainda pela mesma razão: porque elas não são verdade que procedem de Deus, mas mentiras que procedem do diabo. Jesus nunca se contradisse, Paulo, Pedro e os outros apóstolos nunca se contradisseram a eles, nem entre eles, e nunca contradisseram os ensinamentos de Jesus; os seus ensinamentos formam um todo bem compacto. Portanto todas as doutrinas que são atribuídas ou a Jesus ou aos apóstolos, mas que contradizem os ensinamentos do próprio Jesus e dos apóstolos devem ser rejeitadas sem hesitação porque são imposturas. O modo de falar da cúria romana acerca da tradição, isto é, as suas palavras que atribuem a sua tradição aos apóstolos, é muito semelhante ao de alguns falsos doutores que surgiram no meio do povo de Deus depois da morte dos apóstolos (vale dizer nos primeiros séculos depois de Cristo), os quais para sustentar as suas heresias de perdição se apegavam à tradição apostólica dizendo que se bem que as suas doutrinas não estivessem na Bíblia eles as tinham recebido por tradição de alguns que tinham estado em contacto com os apóstolos de Cristo. Não há pois nada de novo debaixo do sol; os factos demonstram que a igreja romana, não podendo demonstrar as suas doutrinas não bíblicas com as Escrituras porque estas as condenam ou não fazem menção delas, recorre ao velho engano, ou seja, diz ter recebido estas suas doutrinas não directamente dos apóstolos mas indirectamente deles. E para sustentar a autenticidade das suas heresias cita as mesmas palavras de Jesus que usavam os falsos doutores nos primeiros séculos depois de Cristo, a saber: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade... vos anunciará as coisas vindouras" (João 16:12,13). Querendo com isto dizer que Jesus não tinha dito tudo aos apóstolos, com efeito, tinha-lhes prometido que por meio do Espírito lhes revelaria outras coisas, entre as quais precisamente estão as suas tradições. Mas nós confutamos esta sua asserção dizendo isto: sim, é verdade que o Espírito da verdade revelaria aos apóstolos outras coisas; e em verdade o fez e para dar conta disso basta ler as epístolas dos apóstolos: mas eles esquecem que o Espírito é a verdade, e que diria o que ouviria de Jesus, de facto receberia do que é seu e lhes o anunciaria (cfr. João 16:14,15). Enquanto as coisas que eles dizem não podem ter sido reveladas pelo Espírito da verdade, porque são mentiras que procedem do diabo. O adversário contrasta a verdade, ele contradiz o que está escrito; ele comunicou aos teólogos Católicos romanos as heresias que venderam por Palavra de Deus.

À cúria romana que resiste à verdade como fizeram Janes e Jambres são dirigidas estas palavras da parte do Espírito: "Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos pais, assim fazeis também vós" (Actos 7:51); e também estas: 'Ó filhos do diabo, cheios de todo o engano e de toda a malícia, inimigos de toda a justiça, não cessareis de perverter os caminhos rectos do Senhor?'

Para vós homens e mulheres que sois arrastados atrás da árida e mortífera tradição católica romana que leva à perdição é dito: "Não andeis nos estatutos de vossos pais, nem guardeis as suas ordenanças, nem vos contamineis com os seus ídolos" (Ez. 20:18); não vades a Lourdes, não subais a Fátima, nem vos dirijais a Loreto porque de certo estas viagens não vos levam à salvação, estes lugares serão atingidos pelo furor de Deus e destruídos; "buscai o Senhor, e vivereis" (Amós 5:6), circuncidai os vossos corações para que o furor de Deus não vos consuma por causa da vossa idolatria. Vos conjuramos ó homens a sair desta organização na qual estais encerrados para que não sejais participantes dos seus pecados e não tenhais parte nas suas pragas. Hoje, se ouvirdes a sua voz não endureçais os vossos corações!

 

O que disseram alguns chamados pais da igreja sobre o que não está expressamente escrito

 

Como vimos os escritos daqueles que a igreja católica chama pais da igreja são parte da sua tradição. Eles são tão altamente considerados que o concílio de Trento na sua quarta sessão declarou que ninguém deve ousar interpretar a Escritura 'contra o unânime consenso dos pais'. Ora, como a igreja romana afirma que a verdade não está contida só na Bíblia mas também na tradição, e como nós sabemos que a tradição católica romana não é sustentada pela Escritura, queremos ver o que alguns destes antigos escritores que ela chama pais da Igreja e que tem em grandíssima estima disseram se dever fazer a propósito do que não pode ser confirmado pela Escritura ou que não faz parte da Escritura e contradiz a Escritura.

Ÿ Basílio (330-379) disse: 'Rejeitar alguma coisa que se encontra nas Escrituras, ou receber algumas coisas que não estão escritas, é um sinal evidente de infidelidade, é um acto de orgulho... o fiel deve crer com plenitude de espírito todas as coisas que estão nas Escrituras sem tirar ou acrescentar nada' (Basílio, Lib. de Fid. -- regul. moral. reg. 80; citado por Luigi Desanctis em La tradizione, terceira ed. Firenze 1868, pag. 19);

Ÿ Ambrósio (340 ca. -397) disse: 'Quem ousará falar quando a Escritura cala?... Nós nada devemos acrescentar à ordem de Deus; se vós acrescentais ou tirais alguma coisa sois réus de prevaricação' (Ambrósio, Lib. II de vocat. Gent. cap. 3 et lib. de parad. cap. 2; citado por Luigi Desanctis in op. cit., pag. 19).

Ÿ Jerónimo (347 ca. - 419-20 ca.) disse: 'Se vós quereis clarificar as coisas em dúvida, ide à lei e ao testemunho da Escritura; fora dali estais na noite do erro. Nós admitimos tudo o que está escrito, rejeitamos tudo o que não está. As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica sem a autoridade da Escritura são feridas pela espada de Deus' (Jerónimo, In Isaiam, VII; In Agg., I; citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 28).

Ÿ Cipriano (200 ca. - 258) disse: 'Que orgulho e que presunção é igualar tradições humanas às ordenanças divinas...!' (Cipriano, Epist. 71; citado por Teofilo Gay em Arsenale antipapale, Firenze 1882, pag. 204-205);

Ÿ Justino Mártir (morto em 165 ca.) disse: 'Não temos algum mandamento de Cristo que nos obrigue a crer nas tradições e nas doutrinas humanas, mas somente naquelas que os bem-aventurados profetas promulgaram e que Cristo mesmo ensinou, e eu tenho cuidado de referir todas as coisas às Escrituras e pedir a elas os meus argumentos e as minhas demonstrações' (Justino Mártir, Diálogo com Trifão)

Ÿ Tertuliano (160 ca. - 220 ca.) disse: 'Mostre-nos a escola de Hermógenes que o que ela ensina está escrito: se não está escrito, trema em vista do anátema fulminado contra aqueles que acrescentam à Escritura, ou tiram alguma coisa dela' (Tertuliano, Contra Hermógenes, cap. 22).

Ora, lendo todas estas declarações se deduz que os mesmos escritores que a igreja romana toma para sustentar algumas das suas falsas doutrinas (porque com efeito os supracitados escritores ensinaram doutrinas falsas, contradizendo-se) eram contra as doutrinas e práticas que não podiam ser demonstradas com as Escrituras e que eram feitas passar por tradição apostólica (reiteramos porém com força ainda que estes se contradisseram aceitando e ensinando doutrinas que não são prováveis com a Escritura e vão abertamente contra ela, e isso o demonstraremos mais tarde). Portanto, a igreja católica romana não se atém nem ela a tudo aquilo que disseram os seus pais porque não rejeita tudo o que não está escrito nas sagradas Escrituras como sugerem (contradizendo-se porém na prática) que se faça estes seus pais. Ela, pela enésima vez se contradiz (como fizeram os seus pais) porque por um lado diz que é necessário interpretar as Escrituras por meio dos pais e depois que é necessário aceitar as tradições da mesma maneira em que se aceita a Escritura (o concílio Vaticano II declarou de facto que a Escritura e a tradição 'devem ser aceites e veneradas com igual sentimento de piedade e respeito' [Concílio Vaticano II, Sess. VIII, cap. II]) o que vai abertamente contra o consenso destes seus pais. Por que motivo pois a igreja romana fala e age desta maneira contraditória? A razão é porque ela não quer absolutamente rejeitar e renegar a sua tradição. Rejeitá-la de facto significaria ter que renunciar ao poder temporal e a uma inexorável fonte de dinheiro.

 

A igreja romana rejeita o ensinamento do milénio dos seus chamados pais

 

Segundo a Escritura Jesus Cristo quando voltar à terra instaurará um reino milenário de facto João diz: "E vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos" (Ap. 20:4-6). Esta doutrina foi crida e proclamada por alguns destes ditos pais da igreja, como por exemplo Papias, Ireneu, Tertuliano, Justino mártir, Lactâncio, Melitão e Metódio (Agostinho primeiro a aceitou e depois a rejeitou).

Mas a igreja romana a rejeita porque a considera uma heresia; lê-se de facto na Enciclopédia Católica na palavra milenarismo: 'Erro escatológico, segundo o qual Jesus Cristo deve reinar visivelmente mil anos sobre esta terra, no fim do mundo' (Enciclopédia Católica, vol. 8, 1008-1009). Assim dizendo ela vai contra aqueles mesmos escritores que ela considera os pais da igreja. Assim fazendo contradiz os seus pais e se contradiz a si mesma. Isto demonstra que se a cúria romana decide rejeitar algo de justo que disse Ireneu ou Lactâncio ou Justino Mártir ou Tertuliano, ela o faz com a mesma desenvoltura com a qual aceita as suas falsas doutrinas sem cuidar de parecer contraditória. A este ponto é lícito perguntar-se: como fazem eles para declarar que as Escrituras devem-se interpretar segundo o consenso dos pais e depois ela mesma rejeita abertamente justas interpretações suas dadas a respeito das palavras de João no Apocalipse a respeito do milénio (aqui me refiro à interpretação de um reino milenário visível, e não a convicções suas fantasiosas a propósito do milénio)? A resposta é que ela da sua chamada venerável e autorizada tradição retém o que lhe é cómodo (de Papias por exemplo aceita que Pedro veio a Roma mas não o milénio) mas rejeita o que a contraria. É pois absurdo ouvi-la dizer que a tradição é também ela Palavra de Deus e ela mesma mostra em alguns casos não tê-la de modo algum em consideração. Como pode ela então dizer aos Católicos para venerarem uma tradição que ela mesma despreza quando quer? E como podem os Católicos confiar numa tradição que não só se contradiz a si mesma mas é contradita pela actual igreja católica romana? Por que pois os católicos deveriam aceitar a tradição quando os seus próprios guias demonstram rejeitar uma parte dela?

Ó Católicos romanos, é hora de reflectirdes sobre este modo de agir dos vossos guias cegos; é hora de cairdes em vós mesmos e de rejeitardes em bloco esta tradição que anula a Palavra de Deus mas que vos é feita passar por infalível Palavra de Deus.

 

Casos em que os chamados pais vão contra a tradição católica romana

 

Vamos agora ver como os chamados pais eram contra algumas das doutrinas que hoje são parte da tradição romana.

Ÿ Ireneu (150 ca.- 200 ca.) reprovou o culto das imagens, com efeito, afirmou que os primeiros a introduzir na Igreja o culto das imagens foram os Gnósticos: 'Denominam-se gnósticos e têm algumas imagens pintadas, outras também fabricadas com outro material, dizendo que são a imagem de Cristo feita por Pilatos no tempo em que Jesus estava com os homens. E as coroam e as expõem com as imagens dos filósofos do mundo, a saber, com a imagem de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e dos outros, e reservam a elas todas as outras honras, precisamente como os pagãos' (Ireneu, Contra as heresias, Livro I, cap. 25,6).

Ÿ Atenágoras (II sec.) era contra o oferecer incenso a Deus: 'O artífice e o pai deste universo não precisa nem de sangue, nem de gordura, nem de perfume de flores ou de aromas..' (Atenagora, Supplica per i cristiani [ Súplica pelos cristãos] , Alba 1978, pag. 62).

Ÿ Tertuliano (160 ca. - 220 ca.) era contra o primado do bispo de Roma sustentado pela igreja romana, com efeito, escrevendo ao bispo de Roma que tinha apelado ao "Tu és Pedro" para sustentar a sua própria autoridade diz: 'Quem és tu que (de tal modo) subvertes e deformas a intenção manifestada pelo Senhor, que conferia tal poder pessoalmente a Pedro?' (Tertuliano, De pudicitia 21); Tertuliano era contra a perpétua virgindade de Maria, com efeito, ele sustentava que Maria não permaneceu virgem após ter dado à luz Jesus [6]. E ainda Tertuliano era contrário à doutrina da transubstanciação, com efeito, afirmou: 'Depois de ter declarado, portanto, desejar fazer a ceia de Páscoa que Lhe pertencia, - teria sido indigno se Deus tivesse desejado algo que não lhe pertencia - tomou o pão e o distribuiu aos seus discípulos e fez dele, o seu corpo, dizendo: 'Isto é o meu corpo ', isto é, 'a forma do meu corpo'. Mas não poderia ser a forma do corpo, se não tivesse havido o corpo de realidade. De resto, uma coisa vazia, isto é um fantasma, não teria podido admitir uma figuração. Ou se Cristo figurou o corpo no pão por este motivo, da falta da realidade do corpo, então deveria ter dado o pão por nós' (Tertuliano, Contra Marcião IV, 40). Tertuliano era também contra o uso do incenso no culto: 'A nossa oferta não consiste já em grãos de incenso de pouco preço, em lágrimas de planta arábica...' (Tertuliano, Apologético, Bologna 1980, pag. 123); e contra o fazer-se estátuas e imagens: 'O diabo introduziu no mundo os artistas que fazem as estátuas e as imagens e todas as outras representações (...) dizendo Deus: tu não farás alguma semelhança das coisas que estão no céu nem na terra nem no mar, proibiu aos seus servos em todo o mundo de se abandonarem ao exercício dessas artes' (Tertuliano, Sobre a idolatria, livro 3, IV). Ele era também contra o batismo dos bebés: 'Por isso, embora tendo em conta as situações, as disposições e também a idade de cada pessoa, adiar o batismo apresenta maior utilidade, sobretudo quando tem a ver com crianças. Se não há casos graves, que necessidade há de também pôr os padrinhos em risco de não poder manter, em caso de morte, as promessas que fizeram ou de ficarem frustrados se aquelas crianças crescem depois com más tendências? Certamente o Senhor disse: Não impeçais as crianças de virem a mim (Mt 19,14). Venham, mas quando forem maiores e poderem ser instruídas, venham quando poderem saber onde vão; tornem-se cristãs, quando forem capazes de conhecer Cristo! Por que é que crianças inocentes deveriam ter tanta pressa de receber o perdão dos pecados? Para os negócios da nossa vida ordinária no mundo nos comportamos com bastante prudência e cuidado; a uma criança ninguém confia a administração de bens terrenos, por que então lhe confiar a responsabilidade de bens divinos? Aprendam também elas a pedir a salvação para que se veja com clareza que tu a salvação a dás a quem a pede!' (Tertulliano, Il battesimo [ O batismo] , Roma 1979, pag. 162-163).

Ÿ Orígenes (185 ca. - 254) era contra o primado de Pedro: 'Se tu imaginas que só sobre Pedro tenha sido fundada a Igreja o que poderias tu dizer de João, o filho do trovão, ou de qualquer outro apóstolo? Todo aquele que faz sua a confissão de Pedro pode ser chamado um Pedro' (Orígenes, Comentário a Mateus 12: 10-11: citado por Fausto Salvoni em Da Pietro al papato [ De Pedro ao papado] , pag. 92).

Ÿ Cipriano (200 ca. - 258) era contrário a atribuir o primado a Pedro por causa das palavras que Jesus lhe dirigiu, com efeito, escreveu: 'Jesus falou a Pedro, não porque lhe atribuísse uma autoridade especial, mas apenas porque revelando-se a um só fosse visível o facto de a igreja dever ser toda unida na fé de Cristo. Pedro é apenas o 'símbolo', o 'tipo' de todos os apóstolos e de todos os bispos' (Cipriano, De catholica ecclesiae unitate c. 4-5; citado por Fausto Salvoni in op. cit., pag. 93) [7].

Ÿ Eusébio (260 ca. - 340) era contra a imaculada conceição de Maria, com efeito, disse: 'Ninguém está isento da mancha do pecado original, nem a mãe do Redentor do mundo. Só Jesus está isento da lei do pecado, apesar de ter nascido de uma mulher sujeita ao pecado' (Eusébio, Emiss. in Orat. II de Nativ.; citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 129).

Ÿ Ambrósio (340 ca. -397) de Milão era contrário ao primado de Pedro, com feito, disse: 'Pedro... recebeu um primado, mas um primado de confissão e não de honra, um primado de fé e não de ordem' ('Petrus... primatum egit, primatum confessionis utique non honoris, primatum fidei non ordinis'. Ambrósio, De incarnationis dominicae sacramento IV; citado por Fausto Salvoni in op. cit., pag. 96). Ambrósio era também contra a imaculada conceição de Maria, com efeito, afirmou: 'Jesus é o único que os laços do pecado não prenderam; nenhuma criatura concebida pelo acoplamento do homem e da mulher, foi isenta do pecado original; Só foi isento dele Aquele que foi concebido, sem o acoplamento, de uma virgem por obra do Espírito Santo' (Ambrósio, In Psalm. 118; citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 129).

Ÿ Lactâncio (sec. III-IV) era contra as estátuas e as imagens: 'Portanto não há dúvida que onde quer que haja uma estátua ou uma imagem não há religião. Porque se a religião consiste de coisas divinas, e se não há nada de divino excepto em coisas que são celestes, as imagens carecem de religião, dado que não pode haver nada de celeste naquilo que é feito de terra' (Lactantius, The Divine Institutes [Instituições divinas], Washington 1964, Liv. II, cap. 18, pag. 162).

Ÿ Epifánio (nascido após 310 e morto em 403), bispo de Chipre, era contra as imagens, com efeito, na sua carta ao bispo João afirma: 'Eu encontrei um véu suspenso nas portas desta mesma igreja, o qual estava colorido e pintado, ele tinha uma imagem, a imagem de Cristo pode ser ou de algum santo; eu não recordo mais quem ela representava. Eu pois tendo visto este sacrilégio; que numa igreja de Cristo, contra a autoridade das Escrituras, a imagem de um homem estava suspensa, lacerei aquele véu' (Jerome, Lettres, Paris 1951, pag. 171). E ele era também contra o culto a Maria, com efeito ao confutar a seita das Coliridianas que tinha começado a oferecer um culto a Maria, ele escreveu: 'Não se deve honrar os Santos além do seu mérito, que Deus é Aquele a quem devemos servir. A Virgem não foi proposta à nossa adoração, porque ela própria adorou Aquele que segundo a carne nasceu dela. Ninguém pois adore Maria. Só a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, pertence este mistério, e não a qualquer homem ou mulher. Por conseguinte, cessem certas mulheres néscias de perturbar a Igreja, deixem de dizer: Nós honramos a Rainha do céu', é por isso que com estes discursos e com o oferecer-lhe os seus bolos, cumprem o que foi dantes anunciado: 'Alguns apostatarão da fé, dando-se a espíritos sedutores e às doutrinas dos demónios'. Não, este erro do povo antigo não prevalecerá sobre nós, para nos fazer afastar do Deus vivo e adorar as criaturas' (Epiph. liv. III, Coment. II, tom. 2, Haeres 79: citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 136).

Ÿ João Crisóstomo (344-407) afirmou: 'S. Paulo escreveu para tapar a boca aos heréticos que condenam o matrimónio, e para mostrar que o matrimónio não só é coisa inocente, mas também que é tão honrável que com ele se pode passar a ser bispo' (Crisóstomo, Hom. II, in Ep. Tit. cap. II; citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 52); portanto Crisóstomo era contrário ao proibir o matrimónio aos bispos. Crisóstomo era também contrário à confissão auricular, com efeito, na nona Homilia da penitência, comentando as palavras de Davi: "Contra ti, contra ti somente pequei" (Sal. 51:4), disse: 'Só a Deus pois manifesta o teu pecado e ele te será perdoado' e na 'Homilia 20 sobre o Gênesis escreveu: 'Se Lameque não desdenhou de confessar os seus pecados às suas mulheres, como seremos nós dignos de perdão, se não queremos confessá-los Àquele que conhece os nossos delitos mais ocultos?'. E ainda Crisóstomo era contra a transubstanciação, com efeito, escreveu: 'Antes da consagração o chamamos pão, mas depois... perde o nome de pão e torna-se digno que o se chame o Corpo do Senhor, embora a natureza do pão continue tal nele' (Crisóstomo, Epístola a Cesário: citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 79). Por fim Crisóstomo era contra o primado de jurisdição de Pedro: 'Teve por isso Pedro um primado? Sim! Porque foi o primeiro a confessar o Cristo, tornou-se também o primeiro apóstolo no início da Igreja' (Crisóstomo, Or. 8,3 Adv. Jud.; citado por Fausto Salvoni in op. cit., pag. 95).

Ÿ Agostinho (354-430) não considerava de modo nenhum como coisa certa que Pedro fosse a pedra sobre a qual foi edificada a Igreja de Cristo como antes afirma a igreja papista. Ele teve com efeito a dizer: 'Num certo lugar do livro, falando do Apóstolo Pedro, disse que a Igreja está fundada nele como sobre a pedra, como é cantado também por muitos, nos versos do beatíssimo Ambrósio, onde diz do galo: Com o canto deste a própria pedra da Igreja chorou a sua culpa. Mas a seguir porém expus muitíssimas vezes as palavras ditas pelo Senhor: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; como se por, sobre esta pedra, se devesse entender o que Pedro afirmou quando exclamou: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo; e que Pedro recebeu nome desta pedra, porque representa a pessoa da Igreja edificada sobre esta pedra, e recebeu as chaves do reino dos céus. Não lhe foi dito de facto: Tu és pedra, mas Tu és Pedro; pedra era o Cristo, e Simão que o tinha reconhecido como o reconhece toda a Igreja, foi por isso chamado de Pedro. O leitor escolha qual é a mais provável das duas sentenças' (Agostino, I due libri delle ritrattazioni [ Os dois livros das retratações] , Firenze 1949, Livro primeiro, cap. XXI, pag. 117-118). Como se pode bem ver Agostinho primeiro tinha afirmado que a pedra era o apóstolo Pedro e depois tinha mudado de opinião dizendo que a pedra era a confissão feita por Pedro, e deixa ao leitor a escolha entre as duas interpretações por ele sugeridas. Agostinho era contra a transubstanciação: parafraseando as palavras de Jesus afirmou: 'Compreendei em sentido espiritual o que vos disse: Não comereis este corpo que vedes, e não bebereis este sangue que será derramado por aqueles que me crucificarão. Vos recomendei um sacramento que vos dará a vida, se o entenderdes espiritualmente, e ainda que seja necessário celebrá-lo de modo visível, importa todavia entendê-lo espiritualmente' (Agostinho, Enarrationes in Psalmos 98, 9: citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 79). Agostinho era também contra o permitir um novo matrimónio ao marido ou à mulher enquanto ambos ainda eram vivos porque para ele o vínculo matrimonial só se quebrava com a morte de um dos dois. Ele escreveu: '... à mulher não é permitido casar com um outro homem enquanto for vivo o marido do qual se separou,...' (Agostino, Il sermone del Monte [ O sermão do Monte] , Firenze 1928, cap. XIV; pag. 48), e ainda: '...o homem está ligado enquanto a mulher está na vida corporal (...) se uma mulher se separa de um adúltero, não se una a um outro: na verdade continua ligada ao marido, enquanto ele vive, e não se liberta da lei do marido senão quando ele morrer; então não se tornará adúltera, se se liga com um outro' (Agostinho, Os Conúbios adulterinos , 2, 5). Pelo que ele, também no caso de um dos dois cônjuges se tornar um cristão e o infiel deixasse o fiel por causa da sua fé, não permitia que o cristão passasse a novas núpcias. '..o recasar depois de ter deixado o seu cônjuge, não é lícito, nem ao homem nem à mulher, nem sequer por qualquer forma de fornicação, seja da carne, seja do espírito, e nesta última importa entender também a falta de fé. Com efeito, o Senhor sem fazer nenhuma excepção diz: Se a mulher deixa o seu marido e toma um outro, é adúltera, e: Todo o homem que repudia a sua mulher e toma uma outra, é adúltero' (Agostinho, Os Conúbios adulterinos, 1, 31). A igreja católica romana o contradiz abertamente porque, como vimos, o seu chefe considera podê-lo dissolver e dar a autorização para um novo matrimónio em diversos casos, entre os quais está também o do privilégio da fé (chamado erradamente privilégio paulino) [8].

Ÿ Gelásio I (foi papa de 492 a 496), que é contado também entre os papas, afirmou contra os Maniqueus que é errado comungar-se sob uma única espécie: 'Descobrimos que alguns tomam somente o sagrado corpo e se abstêm do sangue sagrado, é necessário que estes ou recebam ambas as partes ou sejam privados de ambas, pois a divisão de um só e mesmo sacramento não pode fazer-se sem um grande sacrilégio' (citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 39). Portanto a doutrina que priva os leigos do cálice, doutrina que foi promulgada pelo concílio de Constança em 1415, era considerada por Gelásio um sacrilégio. Ainda Gelásio não aceitava a transubstanciação, com efeito, escreveu: 'O sacramento do corpo e do sangue de Cristo é verdadeiramente coisa divina; mas o pão e o vinho permanecem na sua substância e natureza de pão e vinho' (Gelásio, Das duas naturezas).

Ÿ Gregório de Nissa (335 ca. - 394 ca.) denunciou com força, numa das suas epístolas, a vaidade e loucura das peregrinações aos lugares santos (Gregório de Nissa, Epist. II, De euntibus Hieros, Opera, III, 1010, ed. Migne).

Ÿ Jerónimo (347 ca. - 419-20 ca.) não considerava a peregrinação a Jerusalém um acto meritório: numa sua carta a Paulino afirma com efeito: 'Não é um título de honra o facto de ter estado em Jerusalém (...) Os crentes são apreciados, pessoalmente, não com base no diferente lugar em que residem, mas com base no mérito da sua fé. Os verdadeiros adoradores não adoram o Pai nem em Jerusalém nem no monte Garizim, porque Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e verdade' (Girolamo, Le lettere [ As cartas] , Roma 1962, vol. 2, Carta a Paulino, pag. 94,95).

Ÿ Arnóbio (que viveu no século IV) era contra o oferecer incenso: 'Resta dizer algo, sem alongar demasiado, do incenso e do vinho que são ungidos e fazem parte das cerimónias e são muito usados para o culto. Antes de mais, precisamente a respeito do incenso, vos perguntamos onde e em que tempo pudestes conhecê-lo para considerar com razão que se deve oferecê-lo aos deuses e que é muito agradável aos seus gostos' (Arnobio, I sette libri contro i pagani [Os sete livros contra os pagãos] , Torino 1962, Livro VII, 26, pag. 227).

Ÿ Leão I (foi papa de 440 a 461) era contra a imaculada conceição de Maria: 'Só Cristo entre os homens foi inocente, porque só Ele foi concebido sem a imundícia e a cobiça carnal' (Citado por Teofilo Gay in op. cit., pag. 130).

Ÿ Gregório Magno (foi papa desde 590 a 604) não aceitava como canónico o livro dos Macabeus, com efeito, citando uma passagem dos Macabeus, adverte que ele cita 'um livro não canónico, mas escrito somente para a edificação dos fiéis'. Ele era também contra a assunção do título de bispo universal por parte de um qualquer bispo, com efeito, afirmou: 'Aquele que quer fazer-se chamar pontífice universal torna-se pelo seu orgulho o precursor do anticristo; nenhum cristão deve tomar este nome de blasfémia...' (Greg. Ep. Liv. VI, 80: citado por Puaux em Anatomia del papismo, Firenze 1872, pag. 65); e escrevendo a João, patriarca de Constantinopola, que se tinha proclamado bispo universal, lhe disse: '..que dirás tu João a Cristo que é cabeça da Igreja universal no prestar de contas no dia do juízo final? Tu que te esforças de te antepor a todos os teus irmãos bispos da Igreja universal e que com um título soberbo queres pôr debaixo dos teus pés o seu nome em comparação do teu? Que vais tu fazendo com isso, senão repetir com Satanás: Subirei ao céu e exaltarei o meu trono acima dos astros do céu de Deus? Vossa fraternidade quando despreza (os outros bispos) e faz todos os esforços possíveis para os subjugar, não faz senão repetir quanto já disse o velho inimigo: Me exaltarei acima das nuvens mais excelsas (...) Possa pois tua Santidade reconhecer quanto é grande o teu orgulho pretendendo um título que nenhum outro homem verdadeiramente pio jamais se arrogou' (Gregório, Epistolarum V, Ep. 18, PL 77, pag. 739-740; citado por Fausto Salvoni in op. cit., pag. 330).

Ÿ Teodoreto, bispo de Ciro (393-458), era contra a transubstanciação, com efeito, afirmou: 'Os símbolos místicos (o pão e o vinho) não abandonam a sua natureza depois da consagração, mas conservam a substância e a forma em tudo como antes' (Teodoreto, Dialogus, Liber II; citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 79).

Ÿ Vigílio (foi papa de 537 a 555), era contra a transubstanciação, com efeito, afirmou: 'Quando a carne de Jesus Cristo estava na terra, ela certamente não estava no Céu; e agora que ela está no Céu, não está seguramente na terra' (Vigílio, Cont. Eutich. Liv. IV: citado por Luigi Desanctis em La tradizione, pag. 55).

Eis pois as provas que estes chamados pais supracitados eram contrários a algumas das doutrinas que a igreja católica romana ensina hoje. Alguém perguntará então: Mas então qual é o critério que usa a igreja católica romana no aceitar algumas tradições e no rejeitar outras dos seus chamados pais? Como faz pois para definir tradições apostólicas coisas a que eram contrários até seus chamados pais? Por que é que nestes casos não considera autorizados estes seus pais como faz em outros casos? As respostas se podem resumir nesta frase: quando os chamados pais afirmam coisas agradáveis à igreja romana então são dignos de confiança mas quando se afastam da sua linha e vão abertamente contra ela então não devem ser ouvidos mas rejeitados. Nestes casos é preciso dizer que a igreja romana por vezes procura esconder estas contradições dos seus pais, e outras vezes dá-lhes explicações estranhas, aduzindo outras passagens suas em que parece que disseram uma outra coisa. Isto se pode bem constatar lendo os seus livros de controvérsia. É por isso que quando se tem que confutar as heresias da igreja católica romana não é de modo nenhum aconselhável citar contra eles os seus próprios pais porque eles por sua vez tomam - em alguns casos - outras passagens suas em que fazem ver que eles não queriam dizer o que disseram. E importa dizer que por vezes tem-se realmente que reconhecer que estes seus pais eram ambíguos no falar. A Escritura, só a Escritura se tome para destruir os seus vãos raciocínios; porque ela não é ambígua, não se contradiz sobre nenhum ponto, e não pode ser por eles tomada para sustento das suas heresias.

Para concluir esta parte dizemos isto: uma das fontes de que a igreja romana tirou a sua tradição, vale dizer os seus chamados pais, não pode por ela ser toda citada para sustento de todas as suas doutrinas porque alguns deles eram nitidamente contrários a algumas delas. Por isso quando se ouve dizer à igreja romana que a sua tradição se funda sobre os pais não se pense de modo nenhum que todos aqueles escritores estavam de acordo com tudo o que ela hoje diz a respeito de Maria, da eucaristia, do batismo, do purgatório, do primado de Pedro, do primado do bispo de Roma, da confissão, das orações pelos mortos, do culto das imagens e de muitas outras coisas, porque com efeito sobre diversas destas doutrinas alguns deles falaram rectamente confutando-as e não são de modo nenhum repreensíveis mas antes imitáveis.

 

Casos em que os chamados pais ensinaram doutrinas falsas não aceites pela igreja católica romana hoje

 

Acenámos várias vezes ao facto de os chamados pais da igreja terem ensinado também doutrinas falsas. Estes exemplos o confirmam:

Ÿ Ireneu ensinava que os santos não vão logo para o céu imediatamente após a morte porque só entrarão nele depois da ressurreição: 'Porque o Senhor 'foi à sombra da morte', onde estavam as almas dos mortos, depois ressuscitou corporalmente e depois da ressurreição foi elevado ao céu, é claro que também as almas dos seus discípulos, pelos quais o Senhor fez estas coisas, irão para a região invísivel, lhes atribuída por Deus, e ali estarão até à ressurreição, esperando a ressurreição; depois retomarão os seus corpos e ressuscitarão integralmente, isto é corporalmente, como ressuscitou o Senhor, e assim irão à presença de Deus. (...) Como pois o nosso Mestre para lá não foi logo que se ausentou do corpo, mas foi elevado ao céu depois de ter esperado o tempo da sua ressurreição estabelecido pelo Pai, o tempo indicado anteriormente por meio de Jonas, e ser ressuscitado depois de três dias, assim também nós devemos esperar o tempo da nossa ressurreição estabelecido por Deus e dantes anunciado pelos Profetas para depois ressuscitar e ser elevados ao céu, os que o Senhor julgar dignos disso' (Ireneu, Contra as heresias, Livro V, 31,2). A igreja católica não aceita esta doutrina de Ireneu, porque para ela para o céu vão logo (isto é sem passar pelo purgatório) aqueles que estão puros de toda a culpa, que não têm nenhuma pena temporal a pagar no purgatório; e depois de um certo tempo as almas que foram purificar-se no purgatório, e por isso ambas as categorias de almas, para ela, vão para o céu antes da ressurreição corporal..

Ÿ João Damasceno (VII - VIII sec.) contava os chamados Cânones apostólicos (uma colecção de 85 cânones, a maior parte deles disciplinares e tomados de concílios locais Orientais do quarto século) entre os livros inspirados do Novo Testamento (cfr. John of Damascus, Writings - Orthodox Faith, Liv. IV, cap. 17, New York 1958, pag. 376).

Ÿ Orígenes afirmou a preexistência das almas, isto é, que a alma do homem não foi criada juntamente com o corpo mas antes do corpo e depois foi inserida no corpo pelo exterior. Ele portanto sustentava que os homens na terra eram premiados ou punidos por Deus com base nos seus méritos ou deméritos da sua vida anterior. Nos Princípios afirmou a respeito de Jacó e Esaú: 'Então, depois de ter examinado mais a fundo as escrituras a respeito de Jacó e Esaù, achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão (...), se crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por Deus por merecer ser preferido ao irmão..' (Origene, I Principi, Torino 1968, Livro II, 9, 7). Orígenes ensinava também que todos os pecadores, o diabo e os demónios um dia serão salvos, com efeito, falando do facto de que um dia todos os inimigos de Cristo serão postos debaixo dos seus pés disse: 'De que modo os inimigos do salvador são postos pelo pai como escabelo dos seus pés, convém entendê-lo dignamente, segundo a bondade de Deus (...) Com efeito, não devemos crer que Deus ponha os inimigos de Cristo como escabelo dos seus pés do mesmo modo em que os inimigos são postos debaixo dos pés dos reis terrenos que os exterminam (...) Pelo contrário, Deus põe os inimigos de Cristo como escabelo dos seus pés não para a destruição deles mas para a salvação deles (...) Vede por isso que para todos estes sujeição significa salvação dos submetidos' (Ser. Mat., 8; in op. cit., pag. 201). Esta doutrina é denominada apocatástase [9]. E ainda Orígenes sustentava que as penas para os malvados não são eternas. Para ele no fim também os pecadores, após um período de purificação, serão salvos.

Ÿ Gregório de Nissa ensinava a apocatástase como Orígenes; eis quanto ele disse comentando as palavras de Paulo: "Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra" (Fil. 2:10): 'A meu parecer o Apóstolo divino, tendo presente na sua profunda sabedoria estas três condições que se notam nas almas, quis aludir ao acordo no bem que um dia se estabelecerá entre todas as naturezas racionais (...) Com estas suas palavras ele alude ao facto que, uma vez destruído o mal depois de um longuíssimo período de tempo, não ficará mais do que o bem. Também estas naturezas, de facto, reconhecerão concordemente o senhorio de Cristo' (Gregorio di Nissa, L'anima e la risurrezione [ A alma e a ressurreição] , Roma 1981, pag. 77), e num outro lugar diz: 'O propósito de Deus é um só: tornar possível a todos a participação nos bens que se encontram nele logo o número natural de nós homens alcançará a sua plenitude - falo seja dos homens que se purificaram do vício já nesta vida, como daqueles que, depois desta vida, foram curados pelo fogo por um período de tempo conveniente, como daqueles que nesta vida não conheceram nem o bem nem o mal' (Gregorio di Nissa, op. cit., pag. 132).

Ÿ Hilário de Poitiers (nascido entre 310 e 320 e morto em 367) afirmou que Jesus Cristo na cruz não sentiu dor: 'Sobre esta sua humanidade, embora caíssem os golpes ou chegassem as feridas ou se envolvessem os nódulos ou o corpo fosse pendurado, todas estas coisas mostravam a violência da paixão, todavia não produziam a dor da paixão (..) o corpo de Cristo, por sua virtude, sofreu a violência dos maus tratos que lhe eram infligidos sem sentir a dor' (Ilario, La Trinità [ A Trindade] , Torino 1971, Liv. 10,23, pag. 539,540).

Ÿ Arnóbio ensinava que Deus não era o criador das almas: 'E depois? Só nós ignoramos, só nós não conhecemos quem criou as almas, quem as formou...? (Arnobio, op. cit., Livro II, 58; pag. 79)' e dizia que as almas dos pecadores eram mortais: 'E na verdade são precipitadas em baixo e, reduzidas a nada, desaparecem pela acção inutilizante de uma destruição irremediável. São, com efeito, de média qualidade como se sabe pelo ensinamento de Cristo, de tal forma que podem morrer se não conhecem a Deus (..) a alma, ignorando Deus, será consumida mediante tormentos de longuíssima duração pelo fogo tremendo... Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais...' (ibid., Liv. II, 14-15; pag. 51).

Ÿ Justino Mártir ensinava que as almas dos crentes na morte não vão logo para o céu: 'Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no acto de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos' (Diálogo com Trifão, LXXX) [10]. Justino Mártir ensinava também que as penas para os condenados não serão eternas, porque depois de um certo período de tempo serão aniquilados.

Ÿ Taciano (II sec.) ensinou um geral dissolvimento de todo o homem entre a morte e a ressurreição;

Ÿ Clemente de Alexandria (II-III sec.) disse que a filosofia conduzia ao conhecimento de Deus, com efeito, depois de ter citado algumas declarações de alguns filósofos disse: 'Bastam também estas afirmações escritas por pagãos por inspiração de Deus e por nós escolhidas, para conduzir ao conhecimento de Deus quem é capaz mesmo em pequena medida de descobrir a verdade' (Clemente Alessandrino, Il protrettico [ O protréptico] , Torino 1971, Cap VI, 72,5; pag. 142). Ainda ele afirmou que Jesus não teve nem fome nem sede porque se ele comeu e bebeu o fez apenas para demonstrar a sua natureza humana e não por necessidade, eis o que diz de facto no seu livro Stromata: 'O 'gnóstico' é tal que sujeita-se só às paixões que são em função do mantimento do corpo, como fome, sede e semelhantes. Quanto ao Salvador, pelo contrário, seria ridículo pensar que o corpo, enquanto corpo, exigisse os necessários serviços para o mantimento; não é que Ele comesse por causa do corpo, que era mantido vivo por um santo poder, mas para que em quem o frequentava não se insinuassem falsos pensamentos acerca dele, como com efeito alguns depois creram que Ele se tivesse manifestado apenas em aparência. Na realidade Ele era absolutamente imune a paixões; nenhum movimento de paixão penetrava a sua pessoa, nem prazer nem dor' (Clemente Alessandrino, Stromata, Torino 1985, Livro VI, cap. 9; pag. 706). Clemente dizia também que os apóstolos na sua morte evangelizaram as almas no Hades: '..os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se tornassem imitadores do Mestre também lá..' (Clemente Alessandrino, op. cit., Livro VI, 45,5: pag. 688-689). Uma outra estranha doutrina de Clemente era a de sustentar que o pecado que cometeram os nossos progenitores no jardim do Éden, foi de natureza sexual.

Ÿ Tertuliano ensinava o traducianismo materialista, ou seja, a teoria segundo a qual as almas são transfundidas aos filhos pelos genitores mediante a semente material. Eis a sua declaração: 'De que modo pois foi concebido o ser vivo? Tendo-se formado simultaneamente a substância tanto do corpo como da alma ou formando-se primeiro uma destas duas? Nós afirmamos que ambas estas substâncias são concebidas, feitas e acabadas no mesmo momento, como no mesmo momento são também feitas nascer, e dizemos também que não há algum momento no acto da concepção em que venha estabelecida uma ordem de precedência (...) A alma inseminada no útero junto com a carne recebe junto com ela também o sexo..' (Tertulliano, L'anima [ A alma] , Venezia 1988, 27,1; 36,2; pag. 125,157). A igreja católica romana rejeita esta doutrina, com efeito, afirma: '..um católico não pode sustentar nenhuma espécie de traducianismo: o materialista porque é herético (ele nega de facto a espiritualidade da alma)...' (Enciclopédia Católica, vol. 12, 415). Ainda Tertuliano ensinava que só as almas dos fiéis mortos mártires iam logo para o céu, as almas dos outros, ao contrário, desciam aos infernos mais precisamente ao seio de Abraão. Eis o que ele disse: 'Enquanto a terra estiver intacta, para não dizer fechada, ela não abre a ninguém o céu. O reino dos céus de facto será aberto com o fim do mundo (...) Quantos experimentam esta nova morte em nome de Deus, violenta exactamente como a de Cristo, são recebidos num lugar diferente e particular (...) A única chave do paraíso é o teu sangue. Há também um livro meu sobre o paraíso, em que mostrei que todas as outras almas ficam nos infernos até ao dia da segunda vinda do Senhor' (Tertulliano, op. cit., 55:3,5; pag. 207). Tertuliano afirmava que para os crentes o homicídio, a idolatria, a fraude, o adultério e a fornicação e qualquer outra profanação do templo de Deus são pecados imperdoáveis (cfr. Tertullien, La Pudicité, Paris 1993, XIX 25,26; pag. 261). Tertuliano afirmava que todos aqueles que não se tinham ainda casado deviam adiar o batismo: 'Por motivos não menos sérios deveriam adiar o seu batismo todos aqueles que ainda não se casaram; muitos perigos e muitas provas estão diante deles, trata-se de gente ainda virgem que está crescendo nos anos ou de gente viúva que não sabe ainda que peixes apanhar..; estes deveriam adiar o batismo enquanto não se decidirem ou a casar ou a se empenharem com coragem na castidade' (Tertulliano, Il battesimo [ O batismo] , Roma 1979, pag. 163).

Ÿ Agostinho afirmou que as crianças que não comungavam sob as duas espécies não podiam ser salvas; 'Ninguém sem o Batismo e o sangue do Senhor pode esperar a salvação e a vida eterna; em vão, sem estes sacramentos, a vida eterna é prometida às crianças' (Agostinho, De pec. mer. et remiss. 1,24,34: citado por Bernardo Bartmann, Teologia Dogmatica, vol. III. pag. 193. Recordo que esta doutrina foi condenada pelo concílio de Trento). Agostinho sustentava o traducianismo espiritualista, que se diferenciava do materialista de Tertuliano visto que segundo ele a alma do filho derivava da alma do pai. Eis como se exprimiu: 'Como um facho acende um outro sem que a chama comunicante nada perca da sua luz, assim a alma se transmite do pai para o filho' (Agostinho, Ep., 190, 15: citado na Enciclopédia Católica, vol. 12, 415). Também este tipo de traducianismo é rejeitado pela igreja católica romana: '..um católico não pode sustentar nenhuma espécie de traducianismo... o espiritualista (seja que faça derivar a alma do filho de uma semente espiritual, seja que atribua à acção dos genitores uma actividade criadora) porque é erróneo' (Enciclopédia Católica, vol. 12, 415). Agostinho ensinava que as relações carnais no âmbito matrimonial só eram legítimas se tinham o fim de procriar doutra forma constituíam pecados. Ele, com efeito, teve a dizer: 'Quanto ao facto de os cônjuges cederem à concupiscência usando a sua relação matrimonial além daquilo que é necessário para a procriação dos filhos, também isso o ponho entre as coisas pelas quais todos os dias nós oramos: Perdoa as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido' (Agostino, Discorsi [ Discursos] , Roma 1989, Discorso 354/A), e também: '...pagar a dívida conjugal não é de modo nenhum uma culpa, exigi-la além da necessidade de procriar é um pecado venial' (Agostino, La Dignità del matrimonio [ A Dignidade do matrimónio] , Roma 1982: pag. 100) [11]. A igreja papista actualmente contradiz o seu pai Agostinho porque não considera pecado as relações carnais que não têm como fim a procriação (enquanto Agostinho como vimos as considerava pecados) e é a favor do controle dos nascimentos (a que Agostinho se opunha porque era pela procriação a todos os custos). Porém de um controle dos nascimentos que não se baseia em meios como o aborto, a interrupção do acto, esterilização e contraceptivos químicos e mecânicos (estes meios são declarados por ela ilícitos), mas em outros meios como a abstenção do acto conjugal para sempre (continência absoluta) ou por um tempo determinado (continência temporária) ou somente periodicamente nas presumíveis épocas de fecundidade. Estes meios, quando são acompanhados por 'motivos morais suficientes e seguros, fazem lícita uma regulação da prole' (Pio XII, Discurso às parteiras de 29 de outubro de 1951, em Civ. Catt. 1951, IV, p. 53; citado na Enciclopédia Católica na palavra 'nascimentos controle' (vol. VIII, 1663). cfr. Jean-Marie Aubert, Compendio della morale cattolica, Cinisello Balsamo (MI) 1989, pag. 354-355).

Ÿ Atenágoras definiu adultério as segundas núpcias: 'A norma da nossa vida não consiste no exercício das palavras mas em demonstrar e ensinar com as obras: se permaneça como se nasceu ou não se contraia mais do que um matrimónio. As segundas núpcias não são mais do que um decoroso adultério (...) E quem se separa da primeira mulher, mesmo se esta já morreu, é um adúltero dissimulado e age contra a mão de Deus porque Deus ao princípio formou um só homem e uma só mulher, transgride de tal modo a comunhão de carne com carne, segundo a unidade que se realiza na união das pessoas' (Atenagora, Le opere [ As obras] , Siena 1974, XXXIII, pag. 64) [12].

Ÿ Lactâncio negou a divindade de Cristo. No seu livro Instituições divinas fez as seguintes afirmações: 'Deus, que é o Modelador e o Fundador das coisas, como dissemos no segundo livro, antes de empreender esta obra do mundo, gerou o santo e incorruptível espírito que Ele chamou Seu Filho. E embora Ele depois tenha criado inumeráveis outros seres, que nós chamamos anjos, só este é o Seu Primogénito Filho, digno do apelativo do Divino Nome, isto é, Ele possui o poder e a majestade do Pai' (Lactantius, The Divine Institutes, Washington 1964, Livro 4, cap. 6: pag. 255); 'Em primeiro lugar nós testificamos que Ele nasceu duas vezes; primeiro, no espírito, mais tarde, na carne' (Lactantius, op. cit., Livro 4, cap. 8: pag. 258-259); 'Porque no primeiro nascimento espiritual Ele foi sem uma mãe dado que foi gerado por Deus o Pai somente, sem a função de uma mãe. No segundo, o segundo a carne, Ele foi sem um pai, dado que foi formado num ventre virgem sem a função de um pai...' (ibid., Livro 4, cap. 13: pag. 273). Lactâncio ensinava também que depois da morte todas as almas 'são retidas numa custódia comum, até chegar o tempo em que o Grande Juiz fará o exame dos méritos' (ibid., Livro 7, cap. 21: pag. 526).

Ÿ Jerónimo para desencorajar uma viúva de nome Furia de voltar a casar lhe escreveu: 'Quantos espinhos traz consigo o matrimónio, o constataste às tuas custas durante a vida matrimonial. Te saciaste deles até à náusea, como os Hebreus da carne de codorniz. O teu paladar provou a amargura infinita do fel, vomitaste alimentos ácidos e malsãos, mitigaste o ardor do estômago; por que queres outra vez ingerir coisas que te prejudicaram? Como um cão que volta aos alimentos vomitados, ou um porco ao lamaçal onde se revolveu? Até os animais que não têm razão, incluindo as aves migratórias, não vão recair nas mesmas armadilhas e redes! (...) O homem que uma mãe leva em casa aos filhos não é um padrinho mas um inimigo; é tudo menos um pai; é um tirano (....) Confessa abertamente os teus desejos pouco limpos! Nenhuma mulher, justamente, se casa para depois não dormir com o marido' (Girolamo, Le lettere [ As cartas] , Roma 1962, vol. 2, pag. 37,50). Eis com que termos depreciativos se exprimia Jerónimo acerca do matrimónio que uma viúva queria contrair. Ainda Jerónimo no comentário aos Gálatas disse que Paulo quando reprovou Pedro dizendo-lhe: "Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como o judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?" (Gal. 2:14) usou uma mentira estratégica. Para confirmar isto citamos uma afirmação do próprio Jerónimo tomada de uma sua carta escrita a Agostinho: 'Em segundo lugar me perguntas por que nos Comentários sobre a carta aos Gálatas disse que Paulo não pôde repreender Pedro por um facto praticado também por ele mesmo, isto é, repreender um outro por dissimulação, de que ele mesmo era culpado. Tu, pelo contrário, susténs que a repreensão do Apóstolo não foi fingida, mas autêntica e que por isso eu não deverei ensinar que ali se trata de mentira, mas que tudo o que está escrito na Bíblia deve ser entendido como está escrito' (Le Opere di sant'Agostino. Le Lettere, 1969, 75, 3,4, pag. 601). Mas Jerónimo, para defender a conduta de Pedro em Antioquia, se incita a acusar Paulo de ter dissimulado também ele, em outras palavras de ter agido em algumas circunstâncias também ele como Pedro, e por isso ele não devia reprovar Pedro como fez, com efeito, depois de ter citado as passagens da Escritura onde Lucas conta que Paulo voltando a Jerusalém, após conselho dos irmãos, tomou quatro irmãos que tinham feito um voto e, depois de se ter purificado, entrou no templo anunciando querer cumprir os dias da purificação, até à apresentação da oferta por cada um deles, Jerónimo afirma: 'Oh, Paulo! Também a propósito deste facto te pergunto: 'Por que é que rapaste a cabeça? Por que é que fizeste a procissão descalço segundo o rito judaico? Por que é que ofereceste sacrifícios e por ti foram imoladas vítimas prescritas pela Lei mosaica?' Certamente responderás: 'Para que não se escandalizassem os Judeus convertidos'. Te fingiste pois Judeu para salvar os Judeus. E esta dissimulação te foi ensinada por Tiago e pelos outros seniores: mas não conseguiste evitá-la (...) Vimos que Pedro e Paulo fingiram tanto um como outro observar os preceitos da Lei por medo dos Judeus. Com que cara, então, com que moral pôde Paulo condenar o outro por uma falta cometida também por ele mesmo?' (op. cit., 75, 3,10-11; pag. 613) [13]. Em outras palavras, para Jerónimo, Pedro em Antioquia apenas fingiu observar a lei para não fazer afastar os Judeus da fé em Cristo (e portanto se comportou bem), e Paulo usou uma mentira estratégica para acalmar os ânimos porque também ele outras vezes fingia que observava a lei para não escandalizar os Judeus crentes.

Ora, estas estranhas doutrinas aqui supracitadas nem a igreja católica romana as aceita, mas fica o facto que elas eram proclamadas por aquelas mesmas pessoas que ela toma para sustentar a sua tradição. Portanto a tradição dos seus pais, segundo ela, se subdivide numa parte boa e numa má; numa parte verdadeira e numa outra mentirosa; a primeira é aceitável a segunda não. Portanto nem ela venera a sua tradição a par das Escrituras, porque não aceita tudo quanto o que os seus pais disseram. E isso naturalmente ela é obrigada a fazê-lo porque reconhece as contradições que daí derivariam se tivesse que aceitar tudo aquilo que eles disseram. Decidiu por isso aceitar só aqueles seus ensinamentos que agradam a ela e que lhe servem para confirmar as suas presentes tradições. O facto é porém que também aqueles ensinamentos dos chamados pais que ela tomou para sustentar a sua tradição são mentirosos e são de rejeitar, mas ela os professa e os venera porque são para ela uma fonte de ganho.

Pelo que nos respeita, as heresias dos chamados pais supracitadas mostram-nos como aqueles homens não se podem citar de modo nenhum como autoridades, como é feito pela igreja romana, e não são de modo algum dignos de confiança como, pelo contrário, são os profetas e os apóstolos. Certo, é verdade que nem tudo aquilo que eles disseram é falso mas permanece o facto de que ninguém de modo algum se deve apoiar neles para a compreensão das Escrituras se não quiser ser enganado pelos seus erros tão difundidos nos seus escritos. Recordai-vos que os Católicos romanos foram enganados não pelas Escrituras, porque elas não enganam ninguém, mas pelas interpretações arbitrárias dadas às Escrituras dos seus chamados pais. Por isso vos exorto a ser muito prudentes no caso de terdes que ler os escritos de Agostinho, de Jerónimo, de Tertuliano, de Clemente de Alexandria, de Orígenes e dos outros chamados pais da igreja.

 

Casos em que as doutrinas falsas dos chamados pais são aceites pela igreja católica romana hoje

 

Façamos agora alguns exemplos de falsas doutrinas ensinadas pelos chamados pais que a igreja romana aceita.

Ÿ Ireneu.

A superioridade da igreja de Roma. Ele disse: 'Mas porque seria demasiado longo nesta obra enumerar as sucessões de todas as Igrejas, tomaremos a Igreja grandíssima e antiquíssima e a todos conhecida, a Igreja fundada e estabelecida em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Mostrando a tradição recebida dos Apóstolos e a fé anunciada aos homens que chegou até nós através das sucessões dos bispos confundamos todos aqueles que de alguma maneira, ou por enfatuação ou por vanglória ou por cegueira e por erro de pensamento, se reúnem além do que é justo. De facto com esta Igreja, em razão da sua origem mais excelente, deve necessariamente estar de acordo toda a Igreja, isto é, os fiéis que são de toda a parte - ela na qual por todos os homens sempre foi conservada a tradição que vem dos Apóstolos' (Ireneu, Contra as heresias, Livro III, pag. 218).

Ÿ Tertuliano.

A tradição. Depois de ter dito que aos seus dias por costume se batizava por tríplice imersão, que depois do batismo os crentes comiam uma mistura de leite e mel e que a partir daquele dia não tomavam banho por toda a semana sucessiva, que as oblações pelos defuntos eram feitas no aniversário da sua morte e que jejuar ou adorar a Deus de joelhos ao domingo era considerado uma impiedade e que 'todas as vezes que iniciamos ou terminamos alguma coisa, todas as vezes que entramos ou saímos de casa, quando nos vestimos, nos calçamos, vamos tomar banho, nos pomos à mesa, acendemos as luzernas, vamos para a cama, nos sentamos, qualquer que seja a ocupação para a qual nos preparamos, façamos frequentemente na nossa testa um pequeno sinal da cruz', ele diz: 'Para estas e outras semelhantes praxes da disciplina cristã, se tu pretendes normas bíblicas, não encontrarás nenhuma. Sobre a sua fonte te será antes mostrado a tradição que causou a origem delas, o costume que motivou a continuidade delas e a fidelidade que leva a observá-las' (Tertulliano, La Corona [ De Corona] , Roma 1980, 3-4; pag. 153,155.) [14]. Estas palavras de Tertuliano (que como podeis ver contradizem as suas próprias palavras citadas antes) são tomadas pela cúria romana para sustento da tradição não escrita. Para eles naturalmente são uma confirmação que uma coisa para ser aceite pelos crentes não necessita estar forçosamente escrita na Bíblia. Para nós elas confirmam antes que já nos tempos de Tertuliano muitos crentes se tinham posto a fazer certas coisas por tradição sem se preocuparem com o facto de elas serem práticas não escriturais, e a elas naturalmente se acrescentaram muitas e muitas outras com os séculos que acabaram por anular o Evangelho. É necessário fazer notar porém a propósito destas chamadas tradições apostólicas referidas por Tertuliano nos seus escritos que a igreja católica romana muitas hoje não as aceita, o que significa desmentir um dos seus pais e cair na enésima contradição. De facto ela diz que a tradição apostólica é Palavra de Deus a se respeitar como a Escritura e ela rejeita algumas partes dela!

Ÿ Agostinho.

Perpétua virgindade de Maria. Ele disse: 'Virgem concebeu, virgem deu à luz, virgem permaneceu' (Agostinho, Serm. 51, 18; citado em La vergine Maria, de Michele Pellegrino, Alba 1954, pag. 21) e: 'Quando portanto ouvirdes falar de irmãos do Senhor, pensai em consanguíneos de Maria , não imagineis uma prole vinda de um posterior parto dela. Como, de facto, no sepulcro onde foi posto o corpo do Senhor, não esteve nem antes nem depois algum morto, assim o seio de Maria nem antes nem depois concebeu algum ser mortal' (Agostinho, Tract. in Io. 28, 3; citado in op. cit., pag. 71).

A missa como repetição do sacrifício de Cristo. Ele disse: 'Cristo porventura não se imolou a si mesmo uma só vez? Contudo no mistério litúrgico se imola pelos fiéis não só em cada recorrência pascal, mas todos os dias. E não mente de certo quem, interrogado se Cristo verdadeiramente se imola, responde que sim' (Agostinho, As Cartas, 98,9: pag. 927).

O jejum eucarístico. 'Disso se pode compreender que foi ele (Paulo) a estabelecer o jejum eucarístico que não é modificado por alguma diversidade de costumes' (ibid., 54, 6,8: pag. 447).

A tradição. 'Quanto às prescrições não escritas mas que nós conservamos transmitidas por via da tradição e são observadas em todo o mundo, nos é fácil perceber que são mantidas enquanto estabelecidas e recomendadas pelos próprios Apóstolos ou pelos Concílios plenários, cuja autoridade é utilíssima para a salvação da Igreja; de tal género são as festas celebradas na recorrência aniversária da Paixão, Ressurreição e Ascensão do Senhor, a descida do Espírito Santo, e outras recorrências similares que se observam pela Igreja Católica por toda a parte onde ela está difundida' (ibid., 54,1,1: pag. 437) [15].

Negação que a primeira ressurreição no apocalipse é a ressurreição dos justos e negação do reino milenário de Cristo sobre a terra na sua vinda. 'Há duas ressurreições: a primeira, que acontece agora e é a ressurreição das almas, que não permite cair na segunda, que não acontece agora mas acontecerá no fim do mundo, e que não diz respeito às almas, mas aos corpos (...) O evangelista João falou destas duas ressurreições no livro do Apocalipse de modo que a primeira das duas, não compreendida por alguns dos nossos, foi trocada por uma ridícula fábula (...) Aqueles que na base das palavras deste livro hipotizaram que a primeira ressurreição será a ressurreição do corpo, foram sobretudo influenciados pelo número de mil anos (...) ele falou de mil anos para indicar precisamente todos os anos deste mundo, querendo evidenciar com um número perfeito a própria plenitude do tempo (...) por isso o número mil indica a totalidade, pois é o quadrado de dez que se converte num sólido' (Agostinho, A cidade de Deus, Livro XX, cap. 6,2; 7,1,2). Em outras palavras, a primeira ressurreição de que fala João no Apocalipse é a ressurreição espiritual que segundo Agostinho se experimenta com o batismo; os mil anos são o período de tempo que decorre entre a primeira vinda de Cristo e a sua volta, e a segunda ressurreição é a ressurreição corporal.

Negação do facto que nem todos morrerão. '..consideramos que também quantos o Senhor encontrar vivos naquele breve espaço de tempo sofrerão a morte e adquirirão a imortalidade...' (Agostinho, op. cit., Livro XX, cap. 20,2).

Negação da destruição deste céu e desta terra. 'Uma vez feito este julgamento, então este céu e esta terra cessarão de existir e começarão a existir um céu novo e uma terra nova; de facto este mundo passará por uma transformação das coisas, não por um total aniquilamento' (ibid., Livro XX, cap. 14); 'Quanto depois às palavras: O mar já não existia (....) Então de facto não existirá este mundo agitado e borrascoso, que é a vida dos mortais, indicado com o nome de mar' (ibid., Livro XX, cap. 16).

O batismo dos infantes. 'A criança portanto é feita fiel não por um acto voluntário da fé semelhante aos dos fiéis adultos, mas pelo sacramento da própria fé. Porque, do mesmo modo que o padrinho responde que ele crê, assim também se chama fiel não por dar o consentimento pessoal da sua inteligência, mas por receber o sacramento da própria fé. Quando depois ele começar a perceber, não necessitará de um novo batismo, mas compreenderá o sacramento recebido e se conformará, com o consenso da vontade, à realidade espiritual por ele representada' (Agostinho, As Cartas, 98, 10: pag. 927, 929).

O batismo cancela os pecados. 'O sacramento do Batismo, instituído contra o pecado original, a fim de cancelar, pela regeneração espiritual, a mancha da geração carnal, cancela também os pecados actuais que encontra em nós e que poderemos cometer com pensamentos, com palavras e com obras' (Agostino, Enchiridion, Firenze 1951, cap. LXIII, pag. 86).

O poder de perdoar os pecados do batismo de sangue em ausência do com água. 'Mesmo se não se recebeu o lavacro de regeneração, a morte devida à profissão de fé em Cristo tem o mesmo poder de perdoar os pecados que a água do santo batismo' (Agostinho, A cidade de Deus, Livro XIII, cap. 7).

O purgatório. 'Se o menino recebeu os sacramentos do Mediador, isto é, se tiver sido transferido do poder das trevas para o reino de Cristo, mesmo se morrer nessa idade, não só evitará as penas eternas, mas não sofrerá sequer as penas do purgatório' (Agostinho, op. cit., Livro XXI, cap. 16) [16]; 'Segundo esta opinião, no intervalo de tempo que corre da morte deste corpo até chegar o dia em que acontecerá a ressurreição dos corpos - dia do extremo juízo no qual se pronunciará a sentença do prémio ou do castigo - as almas dos defuntos que, durante a sua vida terrena, não tenham tido costumes e afectos tais a merecer ser consumidos como madeira, feno e palha, não sofrerão o fogo que queimará aquelas almas que não viveram de tal modo. Estas serão afligidas pelo fogo de uma tribulação passageira que queimará as construções de madeira, feno e palha, não merecedoras de eterna condenação; e as queimará ou sobre esta terra, ou aqui em baixo e no além, ou só na outra vida. A esta opinião não me oponho porque possivelmente é uma opinião verdadeira' (ibid., Livro XXI, cap. 26) [17].

As orações pelos mortos. 'A própria oração da Igreja ou de algum homem piedoso a favor de alguns defuntos é ouvida, mas somente para os que, regenerados em Cristo, não conduziram no seu corpo uma vida tão má de forma a ser julgados indignos desta misericórdia, mas nem uma vida tão boa de forma a não ter necessidade dessa misericórdia' (ibid.,, Livro XXI, cap. 24, 2).

O sufrágio em favor dos mortos. 'Devemos admitir que as almas dos traspassados podem receber algum alívio pela piedade dos parentes, quando por elas oferecem o santo Sacrifício do Mediador, ou distribuem esmolas aos pobres. Mas estes sufrágios aproveitarão somente aos que, durante a sua vida, mereceram que estas boas obras possam lhes ser aplicadas. Há homens cuja vida não foi nem suficientemente boa para não ter necessidade de sufrágios, nem suficientemente má para não poder receber algum alívio. Há outros tão santos que não necessitam deles, ou tão maus que não podem tirar nenhum proveito deles' (...) Para os que podem ser proveitosos, eles tiram esta vantagem deles: ou recebem plena e inteira remissão das suas culpas, ou certamente algum alívio no rigor das suas penas' (Agostinho, Enchiridion, cap. CIX. Se note que destas últimas palavras transparece o purgatório).

Os santos mártires que estão no céu fazem milagres. 'Aqueles mártires, pois, que agora podem alcançar tais graças do Senhor por cujo nome foram mortos, morreram pela fé na ressurreição; por ela sofreram com admirável paciência, e agora podem manifestar um semelhante poder em obter milagres (...) Cremos pois que eles dizem a verdade e que fazem muitos milagres, porque os mártires morreram proclamando a verdade e é por isso que podem fazer os milagres que nós vemos' (Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, Livro XXII, cap. IX, X).

O reconhecimento da canonicidade dos livros apócrifos. No seu livro A Instrução Cristã Agostinho enumerando os livros canónicos do Antigo Pacto inclui lá também Tobias, Judite, os dois livros dos Macabeus e o Eclesiástico e a Sabedoria (cfr. Agostino, L'Istruzione cristiana [ A Instrução cristã] , Verona 1994, Livro II, VIII 13; pag. 89, 91) [18]. Portanto quando se ouve dizer que Agostinho dizia submeter-se aos livros canónicos deve-se ter presente que entre eles para ele - à diferença de Jerónimo - estavam também os livros apócrifos.

A autoridade da igreja. 'Não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica' (Agostinho, Contra Epist. Man.).

Ÿ João Damasceno.

A adoração das imagens. 'Sucede certamente frequentemente que algumas vezes quando não temos a Paixão do Senhor na mente nós podemos ver a imagem da sua crucificação e, recordando-nos assim a sua Paixão redentora, nos prostramos e adoramos. Mas não é o material que nós adoramos, mas o que é representado (...) Esta é a tradição escrita, como é o adorar virado para oriente, adorar a cruz, e assim muitas outras coisas semelhantes' (John of Damascus, op. cit., Liv. IV, cap. 16; pag. 372); 'Esta madeira deveras preciosa e digna de veneração, por isso, sobre a qual Cristo se sacrificou por nós, deve justamente tornar-se objecto da nossa adoração, já que foi como que santificada pelo contacto com o santíssimo corpo e sangue do Senhor' (João Damasceno, Exposição da fé ortodoxa, 4, 11: citado em La teologia dei padri [ A teologia dos pais] , Roma 1974, vol. II; pag. 144).

A assunção ao céu de Maria. 'Os anjos junto com os arcanjos te transportaram (...) As potências celestes se te fazem ao encontro com sacros cânticos e um festivo ritual, dizendo: Quem é esta que avança como a aurora, bela como a lua, eleita como o sol? (...) O rei te fez entrar no seu aposento, onde as potestades velam por ti, os principados te bendizem, os tronos te fazem festa, os querubins ficam pasmados pela alegria e o espanto, os serafins cantam louvores por ti, que fostes realmente a mãe do Senhor (...) O teu corpo, imaculado e isento de qualquer contaminação, não foi deixado na terra, mas tu, ó rainha, senhora e patroa, verdadeira mãe de Deus, foste assunta à real morada celeste. O céu atraiu a si aquela cuja grandeza era superior à dos céus' (João Damasceno, Homilia sobre o trânsito de Maria: citada em La teologia dei padri, vol. II, pag. 171-172).

Ÿ Jerónimo.</