Capitulo 6

O purgatório e doutrinas coligadas

 

O PURGATÓRIO

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

O purgatóro é um lugar de tormento para onde vão os que morrem em graça, para expiar a pena devida pelos seus pecados. A igreja vem em ajuda das almas que estão nele com o sufrágio, para que as suas penas sejam aliviadas e sejam libertadas do purgatório. A missa oferecida sobre o altar privilegiado tem o poder de fazer sair logo a alma do purgatório. A razão faz-nos sentir a necessidade de um purgatório; quem pode estar tão santo e puro no acto da morte a poder ir logo para o paraíso? A Enciclopédia Católica definiu o purgatório assim: ‘Estado ultraterreno, duradouro até ao último julgamento, em que as almas daqueles, que morreram em Graça, mas com imperfeições ou pecados veniais ou penas temporais a pagar pelos pecados graves perdoados, expiam e se purificam antes de entrar no paraíso’ (Enciclopédia Católica, vol. 10, 330). É bom precisar que segundo o que ensina a igreja romana actualmente sobre o purgatório, as almas que estão neste lugar sofrem sim penas intensíssimas para expiar as dívidas que têm para com Deus, mas ela mesma não sabe dizer em que consistem precisamente estas penas e nem se entre elas esteja o fogo. Perardi assim se exprimiu:As almas no Purgatório sofrem a privação de Deus e outras penas até que tenham satisfeito em tudo as dívidas que têm com a justiça de Deus (...) Não sabemos exactamente quais são as outras penas que, além da privação de Deus, se sofrem no Purgatório. Alguns pensam que tais penas sejam semelhantes às do Inferno (...) Não sabemos no que é que elas consistem, e nem se entre elas esteja o fogo’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 172, 175). A Enciclopédia Católica afirma de qualquer modo que segundo a doutrina comum dos teólogos católicos no purgatório se padecem ‘sofrimentos causados pelo fogo’ (Enciclopédia Católica, vol. 10, 337). Mas como fazem os teólogos romanos para sustentar o purgatório com as sagradas Escrituras? Principalmente (porque como veremos em seguida eles tomam outras passagens da Escritura) mediante estas palavras de Paulo: "Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquitecto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele; porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento edifica ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia de Cristo a declarará porque pelo fogo será descoberta e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo, todavia como que pelo fogo" (1 Cor. 3:10-15). Segundo os teólogos papistas este "será salvo, todavia como que pelo fogo" significa que o justo depois de ter penado no purgatório por um certo tempo, será salvo no paraíso de Deus, porque o fogo purificador o terá purificado de todo o resíduo de pecado. E para sustentar esta sua interpretação eles tomam diversos seus pais entre os quais Agostinho de Hipona que disse:Segundo esta opinião, no intervalo de tempo que corre da morte deste corpo até chegar o dia em que acontecerá a ressurreição dos corpos - dia do extremo juízo no qual se pronunciará a sentença do prémio ou do castigo - as almas dos defuntos que, durante a sua vida terrena, não tenham tido costumes e afectos tais a merecer ser consumidos como madeira, feno e palha, não sofrerão o fogo que queimará aquelas almas que não viveram de tal modo. Estas serão afligidas pelo fogo de uma tribulação passageira que queimará as construções de madeira, feno e palha, não merecedoras de eterna condenação; e as queimará ou sobre esta terra, ou aqui em baixo e no além, ou só na outra vida. A esta opinião não me oponho porque possivelmente é uma opinião verdadeira’ (Agostinho de Hipona, A cidade de Deus, Livro XXI, cap. XXVI) [1].

As almas que estão no purgatório podem ser ajudadas pelos vivos. O catecismo da igreja romana afirma de facto:Podemos socorrer e também libertar as almas das penas do Purgatório com os sufrágios ou seja com orações, indulgências, esmolas e outras boas obras, e sobretudo com a santa Missa (...) O fruto destas obras, aplicado às almas do Purgatório, toma o nome de sufrágio, porque sufraga, isto é, alivia as penas das almas do Purgatório e apressa a libertação delas’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 172, 173). Em outras palavras aos Católicos romanos é dito que com as orações, as esmolas, as indulgências, as boas obras e sobretudo com a missa eles concorrem para pagar as dívidas que as almas dos defuntos devem expiar no purgatório. Este sufrágio é muito sentido pelos Católicos romanos sobretudo a 2 de Novembro que é a festa dos mortos; uma festa que tem mil anos tendo sido instituída em 998 por Odilon abade de Cluny o qual se distinguia pelo seu zelo em orar pelas almas do purgatório. Para sustento deste chamado sufrágio, os teólogos romanos tomam diversas citações dos chamados pais entre as quais estas de Agostinho:Devemos admitir que as almas dos traspassados podem receber algum alívio pela piedade dos parentes, quando por elas oferecem o santo Sacrifício do Mediador, ou distribuem esmolas aos pobres. Mas estes sufrágios aproveitarão somente aos que, durante a sua vida, mereceram que estas boas obras possam lhes ser aplicadas. (...) Para os que podem ser proveitosos, eles tiram esta vantagem deles: ou recebem plena e inteira remissão das suas culpas, ou certamente algum alívio no rigor das suas penas’ (Agostinho de Hipona, Enchiridion, cap. CIX). E sobretudo a seguinte passagem dos Macabeus onde é dito que Judas Macabeu mandou oferecer um sacrifício pelos pecados de alguns Judeus mortos em batalha (sob cujas túnicas foram encontrados ‘objectos consagrados aos ídolos de Jâmnia’) (cfr. 2 Macabeus 12:38-40): ‘Por isso, mandou oferecer um sacrifício pelo pecado dos que tinham morrido, para que fossem libertados do pecado’ (2 Macabeus 12: 45).

O altar privilegiado, diz a Enciclopédia Católica, ‘é aquele que goza do indulto da indulgência plenária, a aplicar-se ao defunto pelo qual se celebra a Missa’ (Enciclopédia Católica, vol. 1, 925). Do altar privilegiado gozam os cardeais e aqueles aos quais foi concedido pelo papa. Na prática isto significa que todas as missas celebradas num destes altares liberta uma alma do purgatório. ‘... todos os altares são privilegiados no dia da comemoração dos defuntos’ (Lessico universale italiano, vol. 1, Roma 1968, pag. 464).

Mas qual é o fim desta doutrina do purgatório? O de tranquilizar os pecadores fazendo-lhes crer que também depois de mortos poderão ser purificados dos seus pecados e aceder depois desta purificação ao paraíso [2]. Eis como o teólogo Perardi procura tranquilizar os Católicos romanos falando do purgatório no seu Novo Manual do Catequista:Também a razão nos faz sentir a necessidade do Purgatório. Nada manchado pode entrar no Paraíso. Ora, quantas almas se guardaram do pecado mortal, mas todavia se carregaram de pecados veniais; quantas almas convertidas, levadas pelo hábito, recaíram em culpas graves, das quais se confessaram, mas não puderam fazer penitência delas; quantas almas se arrependeram somente no momento da morte! Elas não podem entrar logo no Paraíso. Deverão ser excluídas para sempre dele e ir para o Inferno? Se não existisse o Purgatório, a justiça de Deus nos pareceria demasiado assustadora; poderemos esperar nos encontrar, no momento da morte, tão puros, tão santos de forma a merecer logo o Paraíso? - A misericórdia de Deus nos pareceria demasiado escassa, demasiado limitada pois nunca poderia receber no céu as almas rés mesmo só de culpas veniais’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 175).

 

História

 

As origens desta doutrina do purgatório são antigas; ela de facto foi inventada primeiramente por Platão quatrocentos anos antes da vinda de Cristo (este filósofo cria também na reencarnação). Este filósofo dividia as almas em três categorias; na primeira estavam as almas justas que eram imediatamente recebidas nas ilhas dos bem-aventurados; na segunda estavam as almas dos sacrílegos, dos homicidas e dos outros maus que eram imediatamente condenadas aos suplícios eternos no Tártaro; à terceira categoria pertenciam as almas dos que não tinham sido suficientemente justos para serem admitidos nas ilhas dos bem-aventurados, nem suficientemente maus para serem condenados eternamente. Tais almas, segundo Platão, eram condenadas por um maior ou um menor tempo a diversas penas, segundo a qualidade dos seus pecados, até estarem purificadas para serem admitidas nas ilhas dos bem-aventurados. Esta doutrina platónica foi depois tomada pelo poeta Virgílio e embelezada. Também Orígenes (um dos chamados pais da igreja) sustentava o purgatório, de facto, ele dizia que todos deverão passar pelo fogo antes de ser admitidos no céu. O purgatório de Orígenes porém era diferente do actual da igreja romana porque ele era para todos os homens, ou seja, tanto para os justos como para os pecadores (porque para ele todos os homens um dia seriam salvos), enquanto o purgatório católico é só para osjustos’; e depois ele se iniciava no fim do mundo enquanto o católico romano já existe no além e durará até ao dia do juízo. A doutrina do purgatório foi depois sustentada por Agostinho de Hipona, e também por Gregório Magno o qual, na sua obra literária Os diálogos fala explicitamente do purgatório tomando passagens da Escritura entre as quais a de Paulo aos Coríntios: "... mas o tal será salvo, todavia como que pelo fogo" (1 Cor. 3:15). Mas segundo ele o purgatório se encontrava na terra. No livro quarto conta uma história, que ele diz tê-la ouvido de ‘grandes homens sábios e antigos’ segundo a qual um certo diácono de nome Pascasio durante o cisma que por alguns anos (a partir de 498) opôs dois papas, Símaco e Lourenço, alinhou pela parte do ‘falso’ papa Lourenço. E muito tempo depois de ter morrido, um certo Germano, bispo de Cápua foi curar-se às termas Angolanas (nos Abruzzi), após conselho dos médicos; e aqui com grande admiração encontrou Pascasio que servia os que ali se banhavam. À pergunta porque se encontrava ali, este Pascasio respondeu:Por nenhuma outra causa estou deputado neste lugar penal, senão porque demasiado pertinazmente defendi a parte de Lourenço contra Símaco’. E lhe disse de orar por ele e que se voltando ali não o encontrasse significaria que tinha sido atendido. Germano, movido de compaixão, orou muito por ele e poucos dias depois voltou àquelas termas e não encontrou lá Pascasio. Gregório acrescenta depois que se Pascasio pôde ser purgado do seu pecado após a morte foi porque tinha pecado por ignorância, e porque o tinha merecido com as suas muitas esmolas que fez quando vivo! Foi justamente este papa Gregório I a instituir por volta do ano 593 esta doutrina na igreja romana. Apesar de depois no curso dos séculos sucessivos o purgatório ter sofrido transformações ele foi definido dogma primeiro pelo concílio de Florença em 1439 [3], e depois pelo de Trento em 1563 nestes termos: ‘A Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, conforme as sagradas escrituras e a antiga Tradição, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecuménico, que existe o purgatório, e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, e de modo particularíssimo com o santo sacrifício do altar, prescreve o santo Concílio aos bispos que façam com que os fiéis mantenham e creiam a sã doutrina sobre o purgatório, aliás transmitida pelos santos Padres e pelos Sagrados Concílios, e que a mesma doutrina seja pregada com diligência por toda parte’ (Concílio de Trento, Sess. XXV, decreto sobre o purgatório).

 

Confutação

 

O purgatório não existe; os mortos vão ou para o céu com o Senhor se estão salvos ou para o inferno em tormentos se estão perdidos

 

Jesus Cristo no seu ensinamento nunca deixou entrever que além do paraíso e do inferno haja um terceiro lugar, ou seja, um caminho intermédio entre os dois, de facto ele disse: "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem" (Mat. 7:13,14). Portanto só há dois caminhos, e eles são o caminho da perdição e o caminho da salvação. Os que estão sobre o primeiro, estando cheios de pecados, quando morrem vão para o Hades em tormentos, para ali serem atormentados à espera do juízo (cfr. João 5:29; Dan. 12:2; Ap. 20:12-15). Para eles que morrem nos seus pecados, não resta mais alguma esperança conforme está escrito: "Pois qual é a esperança do ímpio, quando Deus o cortar, quando Deus lhe arrebatar a alma?" (Jó 27:8), e também: "Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo" (Heb 9:27), e ainda: "Os ímpios irão para o Sheol" (Sal. 9:17; cfr. Lucas 16:22-31; Is. 5:14). Por isso é verdadeiramente diabólico por parte da cúria católica romana fazer as pessoas crer no purgatório, porque assim fazendo ela não induz os pecadores (os seus batizados e crismados que se confessam regularmente ao padre, que segundo ela estão em graça) a arrepender-se e a crer em Cristo como prescreve a Palavra de Deus (cfr. Lucas 13:1-5), porque faz-lhes crer que também depois de mortos terão modo de serem purgados dos seus pecados e aceder ao paraíso. (De facto, se por exemplo não se arrependem dos seus pecados veniais terão modo de expiá-los no purgatório, e se cometem pecados mortais e os confessam ao padre sem sentir a necessidade de abandoná-los ou sem ter a força de abandoná-los, terão sempre modo de se purgarem no purgatório). Os que pelo contrário estão sobre o segundo caminho, sobre o da salvação, quando morrem vão logo habitar com o Senhor no céu. E nós estamos entre estes pela graça de Deus. O Católico romano dirá:Mas como fazeis para estar tão seguros que quando morrerdes ireis logo para o paraíso? O estamos porque fomos aspergidos com o sangue de Jesus conforme está escrito que fomos eleitos também "para a..aspersão do sangue de Jesus Cristo" (1 Ped. 1:2), e fomos purgados de todos os nossos pecados pelo sangue de Cristo Jesus conforme está escrito que ele "em seu sangue nos lavou dos nossos pecados" (Ap. 1:5). E além disso porque como diz João "se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (1 João 1:7). Eis por que temos a certeza de estar salvos e de ter a vida eterna e que quando morrermos iremos logo para o paraíso, sem fazer paragem alguma em nenhum purgatório, porque os nossos velhos pecados nos foram purgados plenamente com o sangue de Cristo, e os nossos pecados que confessamos ao Senhor nos são purgados plenamente ainda pelo sangue de Cristo. ‘Mas isso é presunção!’ dirá a este ponto o Católico romano. De maneira nenhuma, porque há diversas Escrituras que testificam claramente que os que morrem em Cristo vão logo habitar no céu com Jesus.

As almas daqueles que foram mortos por causa da Palavra de Deus que João viu, estavam debaixo do altar no céu diante do trono de Deus; eis como se exprime João: "Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram..." (Ap. 6:9).

Paulo disse que para ele a morte era ganho, de facto, ele tinha o desejo de partir e de estar com Cristo porque era coisa de longe muito melhor. Eis as suas palavras: "Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho… Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor; mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne" (Fil. 1:21,23). De certo se o apóstolo tivesse que ir antes para um purgatório sofrer penas atrozes não consideraria a sua morte um ganho mas uma perda.

E ainda Paulo disse aos Coríntios que ele e os seus cooperadores tinham confiança e desejavam antes deixar o corpo e habitar com o Senhor: "Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (2 Cor. 5:8). Mas dizei-me: como poderiam aqueles homens desejar assim tanto a partida do seu corpo se tivessem crido num purgatório para onde iam expiar mediante atrozes sofrimentos as suas dívidas insolúveis? Isto demonstra que eles de modo algum criam no purgatório.

No livro do Apocalipse se lê: "E ouvi uma voz do céu, que dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que repousem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem" (Ap. 14:13). Portanto o Espírito da verdade testifica que os que morrem na graça são bem-aventurados porque repousam dos seus trabalhos no céu. Isto exclui que eles se encontrem num purgatório a expiar as suas dívidas mediante sofrimentos atrozes pouco inferiores aos do inferno; porque neste caso não seriam mais felizes mas sim infelizes porque em vez de repousar dos seus trabalhos estariam sofrendo penas atrozes para punição das suas dívidas. Mas infelizmente existe também o espírito do erro neste mundo e ele diz que para os mortos em Cristo há um purgatório depois da morte.

Mas prossigamos com a confutação do purgatório. Jesus disse: "Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (João 5:24), e Paulo disse aos Romanos: "Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rom. 8:1). Portanto se para aqueles que estão em Cristo não há nenhuma condenação e Jesus disse que eles não entram em juízo é contraditório pensar que depois de mortos antes de entrar no reino de Deus eles necessitarão de ir para um purgatório satisfazer as dívidas que lhes restam para com a justiça de Deus. Porquê? Porque isto seria um contra-senso dado que no purgatório, segundo o catecismo romano, se vai para ser condenado, ainda que por um tempo e não para sempre, a penas atrozes para expiar as dívidas contraídas para com Deus! E a propósito destas chamadas dívidas que a cúria romana afirma que se devem expiar no purgatório nós dizemos: ‘Mas se, segundo a Escritura, Deus cancela ao homem que vai a ele confessar-lhe os seus pecados tanto os pecados como a pena eterna que ele merece não é diabólico afirmar que ele tem de ir depois de morto expiá-las num lugar de sofrimento?’ Certamente que o é. Mas não para os teólogos romanos que cegados pelo diabo têm prazer em ensinar coisas contrárias à sã doutrina. Afirmar que uma pessoa justificada por Deus quando morre tem que passar pelo purgatório para pagar as dívidas contraídas para com a justiça de Deus é o mesmo que dizer que um condenado a prisão perpétua se é agraciado e lhe é cancelada a sua pena, tem que continuar a ficar na mesma na prisão por alguns anos a sofrer para expiar as suas culpas depois poderá sair do cárcere!

Nós afirmamos, nos apoiando na sagrada Escritura, que ao pecador quando lhe são perdoados todos os seus pecados lhe é anulada a pena eterna e não lhe fica por pagar alguma culpa nem neste mundo e nem no que há de vir porque Cristo pagou todo o preço do resgate da sua alma. Para os que foram justificados pelo sangue de Cristo não restam mais dívidas a pagar porque Cristo sobre a cruz expiou todas as suas dívidas. Sabemos bem que o concílio de Trento lançou a seguinte maldição contra os que afirmam isto (contra nós portanto):Se alguém disser que, depois de ter recebido a graça da justificação, a todo pecador penitente, é perdoada a culpa e cancelada a dívida da pena eterna de tal modo que não lhe fica alguma dívida de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no futuro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus: seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 30) [4]. Mas que importa irmãos? Nós sabemos em quem temos crido e estamos persuadidos que aquele que nos lavou dos nossos pecados e nos fez a promessa da vida eterna não pode ter mentido. Continuaremos a gloriar-nos no Senhor por causa da total purgação dos nossos velhos pecados operado pelo sangue de Cristo, e por causa da vida eterna que ele nos doou na sua graça; lancem os seus anátemas os concílios, nós cremos na Palavra de Deus que testifica que quando os justos (ou seja os justificados pela graça de Deus) morrem vão logo para o paraíso com o Senhor Jesus, porque têm as suas vestes plenamente limpas pelo sangue do Cordeiro. A Cristo Jesus seja a glória eternamente. Amen.

 

Explicação das palavras de Paulo: "Será salvo, todavia como que pelo fogo "

 

Paulo disse aos Coríntios: "Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquitecto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele; porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento edifica ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia de Cristo a declarará porque pelo fogo será descoberta e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo, todavia como que pelo fogo" (1 Cor. 3:10-15).

Como vimos segundo os teólogos papistas este "será salvo, todavia como que pelo fogo" significa que o justo depois de ter penado no purgatório por um certo tempo, será salvo no paraíso de Deus, porque o fogo purificador o terá purificado de todo o resíduo de pecado. E como também vimos, para sustento desta interpretação eles citam Agostinho de Hipona. Dilectos, guardai-vos desta enganadora interpretação, porque estas palavras de Paulo não se referem de modo algum a um fogo purificador existente em algum lugar do mundo invísivel onde as almas dos homens vão para serem purificadas dos seus pecados para poder depois aceder ao paraíso, mas ao fogo do dia de Cristo o que é uma outra coisa. Damos a explicação destas palavras de Paulo. O apóstolo tinha pregado o Cristo em Corinto e muitos a seguir à sua pregação creram no Senhor, depois foram batizados. Foi ele portanto a pôr o fundamento (Cristo Jesus) daquela casa espiritual (a igreja) de Corinto. Mas depois dele a Corinto tinham chegado outros que tinham pregado e ensinado, ou seja, que tinham edificado material sobre o fundamento por ele posto. E ele a este propósito diz a cada um para cuidar de como edifica sobre o fundamento porque antes de tudo ninguém pode tirar o fundamento que é Cristo Jesus para pôr outro; e depois porque no dia de Cristo será galardoado só o trabalho empregue para edificar ouro, prata e pedras preciosas (doutrinas verdadeiras) porque estas coisas na prova do fogo permanecerão; enquanto o trabalho empregue para edificar madeira, feno, e palha (doutrinas estranhas) não será premiado porque este material será queimado no impacto pelo fogo, e aquele que edificou este material vão será salvo, porém como que pelo fogo. Em conclusão, no dia de Cristo o fogo fará a prova daquilo que um crente edificou, e tudo o que de bom e de justo ele disse e fez subsistirá e obterá o seu galardão, enquanto o que é sem valor e que ele edificou será queimado pelo fogo e por isso não obterá nenhum galardão. Ele passará como que pelo fogo, mas será salvo.

 

Explicação de outras passagens tomadas para sustentar o purgatório

 

Na Escritura de modo nenhum é revelada a doutrina do purgatório, mas os teólogos papistas conseguem fazer parecer a multidões de pessoas que a doutrina do purgatório está na Bíblia. Como vimos pouco atrás, uma das passagens tomadas pelos teólogos romanos para sustentar o purgatório é aquela de Paulo aos Coríntios; mas esta passagem não deixa entrever o mínimo purgatório católico. Mas há também outras passagens da Escritura que eles tomam para sustentar esta heresia de perdição.

Uma destas é esta escrita em Mateus: "Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mat. 12:32). Mas eu me pergunto: ‘Mas onde está o purgatório aqui?’ Ele não se entrevê minimamente. Jesus apenas diz que aquele que blasfema contra o Espírito Santo "nunca mais terá perdão, mas será réu de pecado eterno" (Mar. 3:29), e os teólogos lhe fazem dizer que há pecados que se devem expiar no purgatório! Esta é astúcia diabólica! Mas ponhamos mesmo o caso de haverem pecados perdoados no mundo vindouro, antes de mais por mundo vindouro Jesus não entendeu o purgatório, e depois segundo a doutrina do purgatório quem morre em graça vai sofrer penas graves para expiar as suas dívidas, portanto é condenado a um suplício e não perdoado!

Uma outra passagem é esta: "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil" (Mat. 5:25,26). Segundo os teólogos romanos este "não sairás dali enquanto não pagares o último ceitil", significa que da prisão do purgatório (que Bartmann preferiu chamaruma casa de tratamento, onde os doentes esperam com paciência completa cura’ [Bernardo Bartmann, Il Purgatorio, Milano 1934, pag. 110]) onde os que morrem em graça são lançados pelo Juíz por ordem do adversário que é Deus; eles não sairão enquanto não pagarem todas as suas dívidas que têm em relação a Deus. Mas esta é a enésima interpretação arbitrária dada pelos teólogos romanos. As palavras de Jesus referem-se antes de tudo a litígios entre irmãos porque antes de dizer aquelas palavras ele disse: "Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta" (Mat. 5:23,24). Portanto, se um irmão tem alguma coisa contra nós porque nós lhe fizemos um agravo, antes de oferecer os nossos sacrifícios espirituais a Deus devemos ir ao irmão ofendido e pedir-lhe perdão para nos reconciliarmos com ele. Porque se não fazemos assim Deus nos punirá pelo agravo cometido contra ele e nos fará pagar esta nossa dívida que contraímos com o irmão até ao último ceitil. Não a perdoará mas a fará pagar pela nossa obstinação. Mas isto acontecerá na terra, e não em algum lugar de sofrimento que não é o inferno e que se encontra nas vísceras da terra ou por alguma outra parte.

Uma outra passagem para sustentar o purgatório é esta escrita em Zacarias: "Ainda quanto a ti, por causa do sangue do teu pacto, libertarei os teus presos da cova sem água" (Zac. 9:11). Mas também aqui se deve dizer que não há a mínima alusão ao purgatório da igreja católica romana. Neste caso o Senhor predisse que faria sair das terras estrangeiras os Israelitas que estavam em cativeiro para os fazer voltar à sua terra; de facto ainda em Zacarias o Senhor diz: "Eis que salvarei o meu povo, tirando-o da terra do oriente e da terra do ocidente; e os trarei, e eles habitarão no meio de Jerusalém..." (Zac. 8:7,8). Estas palavras podem ter também o seguinte significado espiritual; o Senhor prometeu a Israel libertar os seus presos do pecado em virtude do sangue do Novo Pacto, ou seja em virtude do sangue de Cristo. Ele prometeu libertá-los da cova sem água onde eles se encontram.

 

Saber que o purgatório não existe em nada nos faz parecer demasiado limitada a misericórdia de Deus e demasiado assustadora a sua justiça

 

Em resposta ao discurso que Perardi faz para persuadir as pessoas que se não existisse o purgatório a misericórdia de Deus seria demasiado limitada e a sua justiça demasiado assustadora pelo motivo que muitas almas tendo morrido apenas com pecados veniais não podem ser enviadas por Deus para o inferno, como também não podem ser enviadas por Deus para o inferno as almas que se tendo confessado ao padre no momento da morte não puderam fazer penitência, queremos dizer as seguintes coisas. Antes de tudo começamos por dizer que esta distinção entre pecadosveniais’ (perdoáveis) e pecados ‘mortais’ que fazem os teólogos católicos romanos é uma doutrina falsa e muito danosa porque induz os pecadores (os batizados e crismados que se confessam ao padre e tomam regularmente a comunhão são ainda tais) que não cometem determinados pecados, isto é, os chamados mortais, e aqueles que os cometem e os vão confessar ao padre, a crer que depois de mortos terão a possibilidade depois de serem purgados no purgatório de entrar no paraíso à diferença daqueles que os cometem e não os confessam ao padre os quais irão para o inferno; os padres pois ensinando esta doutrina iludem além de eles mesmos também os outros pecadores. Mas nós, que procuramos não iludir ninguém mas de dizer a verdade em todas as coisas, dizemos que segundo a Escritura se quem está debaixo do pecado recusa crer no Filho de Deus (e portanto não nasce de novo) será condenado (e isto mesmo se ele não é um feiticeiro, um homicida, um adúltero ou um fornicador, mas um religioso dedicado aos ritos da sua religião - neste caso da igreja católica romana). Não importa a quais pecados ele é dado, se ele não crê em Cristo Jesus irá em perdição, de facto João Batista disse que "aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece" (João 3:36) e Jesus que "quem não crer será condenado" (Mar. 16:16).

Ninguém vos engane porque não importa que género de pecados tem o pecador; se ele morre nos seus pecados irá para o inferno sem a mínima possibilidade de ser salvo pelo Senhor! Para falar à maneira dos Católicos, não vai para o paraíso nem o Católico praticante ou não que comete apenas pecados veniais (como os chamam eles) ou comete os mais graves e os confessa ao padre, e nem quem comete pecados mortais (como os chamam eles) e não os confessa ao padre, porque todos estão mortos nas suas ofensas e nas suas transgressões, cheios de iniquidade na presença de Deus. Todos devem arrepender-se dos seus pecados e crer no Evangelho enquanto estão vivos sobre a terra; em caso contrário, quando morrerem o que os espera, é o ardor do fogo do lugar dos mortos! Não há nenhum purgatório para quem cometeu só pecadosveniais’ mas só o tormento do fogo do inferno, como também para quem cometeu pecados ‘mortais’ e morre com ou sem a confissão auricular. Seja posta de lado pois esta distinção entre pecados! O pecado é pecado, e o seu salário é a morte: e quem o comete é escravo dele e não pode entrar no Reino de Deus. Mas também pode ser libertado dele: como? Arrependendo-se e crendo no nome do Filho de Deus; então sim poderá entrar no Reino dos céus. Em caso contrário, quando morrer para ele não se abrirão as portas do céu mas se abrirá a boca do lugar dos mortos para engoli-lo junto com os seus pecados que pesam sobre ele.

Perardi afirma que a misericórdia de Deus seria demasiado escassa se não fizesse entrar no céu os que não se fizeram culpados de somente transgressões ‘veniais’. Mas isto não é verdade, porque não existem homens pecadores que merecem ir para o paraíso depois de ter ido para o purgatório porque são réus de apenas determinados pecados, porque todos merecem o inferno como salário da sua iniquidade. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, diz a Escritura, mas ainda a Escritura afirma que o nosso Deus é misericordioso e aqueles a quem Deus faz misericórdia são justificados pela fé no sangue de Cristo e por isso têm a certeza de ir directamente para o céu depois de mortos. A misericórdia de Deus é grande, sim, e ela se manifesta para com o homem pecador na terra salvando-o quando este se converte dos seus maus caminhos; mas ela não se manifestará de nenhuma maneira para com nenhum dos que morrem nas suas ofensas porque recusaram crer no Filho de Deus. Não é pois porque a sua misericórdia é demasiado escassa ou demasiado limitada que no céu não entrarão os pecadores ‘dos pecados veniais’, mas porque a sua justiça é excelsa. Quem pois despreza a benignidade de Deus sobre a terra não reconhecendo que ela o leva ao arrependimento; quem a despreza porque quer seguir o seu coração impenitente, saiba esse tal que está acumulando um tesouro de ira para o dia do juízo e que quando morrer irá onde há pranto e ranger de dentes. Não se deixe enganar pelas palavras doces e lisonjeiras dos padres porque o espera o inferno se não se arrepende. Não importa se foi batizado em criança, se foi crismado, se toma a comunhão, não importa se não é um adúltero ou um homicida ou um feiticeiro ou um bêbado e se confessa ao padre todos os dias ou uma só vez por ano; se não se arrepende de todos os seus pecados e crê com o seu coração no Evangelho quando morrer irá para a perdição!

Perardi diz também que se não existisse o purgatório a justiça de Deus pareceria demasiado assustadora. Nós, pelo contrário, dizemos que se existisse o purgatório Deus seria não só injusto mas também se contradiria. Seria injusto porque permetiria a uma categoria de pecadores entrar no céu (mesmo se antes têm que ir para o purgatório) porque se fizeram culpados, como dizem eles, só de determinadas culpas ‘veniais’ ou porque confessaram as suas transgressões ‘mortais’ ao padre, enquanto à outra não lhe o consentiria porque se fizeram culpados de culpas graves e morreram sem canfessá-las ao padre! Em outras palavras no céu Deus não faria lá entrar os salvos, os justificados com o sangue de Cristo, mas uma categoria de pecadores menos culpados do que aqueles que antes irão para o inferno! Mas não logo, mas só depois de ter penado (não se sabe quantos anos, séculos ou milénios) no purgatório. Portanto uma categoria de pecadores terá a possibilidade de ser purgada das suas transgressões também depois de mortos enquanto a outra não. A salvação portanto, se as coisas fossem assim, se poderia obter somente não cometendo certos pecados e não mais com o arrependimento e com a fé em Cristo. Bastaria dizer às pessoas, não mateis, não cometais adultério, não blasfemeis e fazei alguma boa obra e vereis que um dia entrareis no paraíso. Não seria portanto mais verdadeira a Escritura que diz que quem confessa as suas transgressões a Deus e as abandona obterá misericórdia (cfr. Prov. 28:13), porque também não confessando a Deus certos pecados se obterá dele na mesma misericórdia. Eis por que muitos Católicos romanos se iludem de poder entrar um dia no paraíso mesmo se pecadores: porque eles pensam que no fundo não são assim tão pecadores a merecer o inferno. Não são homicidas, adúlteros, feiticeiros, ou sodomitas que o merecem!! Dissemos antes que Deus se contradiria criando um purgatório: vejamos algumas contradições nas quais cairia Deus se tivesse criado a doutrina do purgatório. Perardi diz que as almas que se arrependeram no momento da morte não podem entrar logo no paraíso porque não têm a possibilidade de fazer penitência (ou seja de fazer as obras de satisfação). Mas nós dizemos: como fez então aquele ladrão arrependendo-se sobre a cruz no momento da morte (e portanto impossibilitado de fazer obras de satisfação) para entrar naquele mesmo dia no paraíso dado que Jesus lhe disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" (Lucas 23:43)? O expliquem os teólogos romanos como fez um homem que tinha sido condenado à crucificação porque era um malfeitor (portanto com base na teologia papista tinha cometido pecados mortais), para ir logo para o paraíso sem passar pelo seu purgatório! Porventura que Jesus mentiu ao ladrão dizendo-lhe aquelas palavras, uma espécie de ‘mentira oficiosa’, para tranquilizá-lo na sua agonia e não fazer-lhe pensar que tinha que, antes de ir para o paraíso, ir sofrer no purgatório? De maneira nenhuma; porque Jesus é a verdade. Ele falou àquele ladrão da parte de Deus. O dizemos nós aos teólogos romanos por que é que aquele ladrão pôde entrar no paraíso naquele mesmo dia logo depois que morreu; porque ele foi purificado plenamente dos seus pecados pelo sangue de Cristo Jesus que ele estava naquele momento derramando para a remissão também dos seus pecados. Aquele homem se arrependeu e creu n`Aquele que justifica o ímpio; eis por que recebeu de Jesus aquela resposta tão clara e tão consoladora. Para Jesus portanto não existia um purgatório depois de mortos para os que se arrependem dos seus pecados no momento da morte mas não podem fazer penitência; doutra forma se contradiria ao dizer aquelas palavras àquele homem em fim de vida. Uma outra contradição na qual Deus cairia é esta. Ele faria perceber aos que tinham sido por ele justificados que o sangue do seu Filho não era suficiente para os purgar plenamente na terra, portanto a sua justificação teria sido parcial e não completa. E por isso a obra expiatória de Cristo resultaria incompleta porque insuficiente para justificar plenamente o homem que crê nele. Dizendo de facto que os que morrem em Cristo ou na graça não podem ir logo para o paraíso porque não podem estar tão santos e puros, isto é, não podem estar privados de toda a mancha de pecado, Deus implicitamente negaria que o sangue de Jesus seu Filho pudesse purificar o homem de toda a mancha de pecado. Mas o facto é que também reconheceria que as penas do purgatório eram mais eficazes do que o sangue de Cristo, porque o que não podia fazer o sangue de Cristo sobre a terra o poderia fazer o fogo do purgatório, e isso seria um ultraje contra o sangue precioso de Cristo. E além disso Ele exigiria pela salvação do homem um duplo pagamento; um primeiro pagamento por parte de Cristo Jesus e um segundo pagamento por parte do crente n`Ele, o que contrasta abertamente com a sã doutrina que afirma que o preço do resgate foi pago plenamente por Cristo o qual pôde assim nos adquirir a redenção eterna. Não teríamos mais então em Jesus um Salvador morto no nosso lugar, que com o seu sacrifício vicário fez a purificação de todos os nossos pecados e os plenamente expiou permitindo-nos assim entrar no céu imediatamente após a morte, mas simplesmente um amigo que tinha feito o que era necessário para nos fazer escapar aos tormentos eternos da geenna mas ao mesmo tempo não tinha podido ou querido nos livrar dos tormentos temporários do purgatório. Esses os teríamos nós que padecer depois de mortos; porque não era justo que sofresse só ele pelos nossos pecados, também nós devíamos sofrer de algum modo por eles para poder aceder ao paraíso!!!

Perardi diz que se não existisse o purgatório a justiça de Deus pareceria demasiado assustadora; nós dizemos pelo contrário que a justiça de Deus é excelsa e perfeita precisamente porque Deus no mundo invisível não criou o purgatório mas o Hades (que um dia porém cessará de existir porque os pecadores ressuscitados serão lançados no fogo eterno, o outro lugar de tormento criado por Deus que espera ainda receber os que para ele estão destinados) e o paraíso. Ele pune o homem impenitente que segue a dureza do seu coração fazendo-o descer quando morre nas chamas do Hades à espera do juízo, mas salva o homem que se arrepende e crê nele (ainda que este possua defeitos e falhe em muitas coisas) fazendo-o, quando morre, subir ao céu na glória, e isto porque ele foi purificado de todos os seus pecados pelo sangue de Jesus e revestido da justiça de Deus que está em Cristo Jesus. As coisas são muito claras e perfeitamente justas. Mas por que é que os teólogos papistas falam desta maneira tão lisonjeira? A razão pela qual eles dizem que se não existisse o purgatório a justiça de Deus seria demasiado assustadora é porque eles mesmos ainda não experimentaram a purificação de todos os seus pecados e a sua consciência os acusa de serem pecadores perdidos e têm medo do juízo de Deus. Nós estamos seguros de facto que se eles tivessem sido purgados dos seus pecados pelo sangue de Cristo estariam seguros, como o estamos nós, de irem para o paraíso à sua morte, e não lhes pareceria ‘demasiado assustadora’ a justiça de Deus, sem o seu purgatório, mas lhes pareceria assim como é, perfeita sem mancha. Pelo seu modo de falar transparece claramente que eles têm medo da morte e do castigo e procuram apagar este medo mediante o purgatório: mas ai de mim, o purgatório não pode tirar de nenhuma maneira nem o medo da morte e nem o do castigo. Porque este medo o pode tirar só o sangue de Jesus do qual eles ainda não estão aspergidos.

Estas aqui acima expostas são as razões pelas quais nós dizemos que o purgatório não é uma doutrina de Deus, mas apenas uma invenção humana brotada do entendimento carnal de homens corruptos. O purgatório é uma doutrina de demónios.

 

O sufrágio é uma impostura papal que serve apenas para fazer enriquecer a cúria romana

 

A Escritura, negando o purgatório, nega também todos os sufrágios em favor dos que os teólogos papistas dizem lá estar a expiar as suas dívidas, portanto este sufrágio vai rejeitado sendo uma impostura ligada a uma outra impostura (vale dizer o purgatório). Mas admitamos mesmo por um momento que o purgatório papista exista; nunca leram os teólogos papistas que "cada qual levará a sua própria carga" (Gal 6:5) e que ninguém "de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele" (Sal. 49:7)? Como podem portanto eles ensinar que os vivos podem de alguma maneira oferecer a Deus um sacrifício expiatório pelos mortos que estão no purgatório? e qual seria depois este sacrifício? A missa. Mas se já para os vivos a missa de modo algum constitui um sacrifício propiciatório como poderá sê-lo para os mortos? Como podeis bem ver as imposturas (neste caso o purgatório com a missa) estão bem coligadas entre si na teologia romana [5].

O único sacrifício propiciatório que tem valor é o feito por Jesus Cristo quando se ofereceu a si mesmo sobre a cruz pelos nossos pecados; e ele foi feito uma vez para sempre e portanto é irrepetível. E além disso ele só pode ser útil aos vivos, no sentido que só os vivos podem beneficiar dele, para aqueles de facto que o aceitam há a remissão dos pecados assegurada pela eternidade.

Mas quanto aos que morreram nos seus pecados este sacrifício não pode mais de algum modo servir tendo caducado para eles o tempo em que podiam crer nele e serem assim perdoados. Eles morreram nos seus pecados e com os seus pecados e por eles deverão sofrer pela eternidade. Nenhum chamado sacrifício expiatório (que seja a missa, ou uma esmola, ou outro) oferecido em prol deles por aqueles que ficam sobre a terra jamais poderá lhes servir porque Deus não o terá em nenhuma conta.

A propósito das palavras tomadas do livro dos Macabeus em favor do sufrágio papista dizemos as seguintes coisas. Antes de tudo deve ser dito que os livros dos Macabeus não são Escritura inspirada por Deus embora figurem no cânon das Bíblias católicas e por isso é errado tomar aquelas passagens para sustentar o sufrágio pelos mortos. Depois deve ser dito que por aquilo que concerne ao sacrifício mandado oferecer por Judas Macabeu, na lei de Moisés não haviam sacrifícios a oferecer pelos pecados dos mortos, portanto mesmo que Judas tenha feito esse gesto ele não se ateve à lei dos seus pais. O que faz nulo o seu gesto porque não prescrito pela lei de Moisés dada por Deus ao seu povo. E portanto os Católicos tomam para sustento do seu sufrágio nada mais que um gesto sem valor de um Judeu.

Termino dizendo que este sufrágio consegue fazer só uma coisa, enriquecer os padres e toda a cúria romana porque as missas a oferecer pelos defuntos os Católicos romanos as devem pagar (ou melhor, devem fazer ofertas por elas). Por tudo isto se vê como a cúria romana recorre a tudo para enriquecer, mesmo aos sentimentos de tristeza que provam os homens (que não têm esperança) ao recordar dos seus queridos defuntos. E de facto os padres fazem crer aos seus paroquianos que os seus defuntos se encontram no purgatório de onde podem ser libertados dos sofrimentos mediante o seu dinheiro. O que constitui uma consolação para o povo enganado e ao mesmo tempo uma fonte de ganho para eles mesmos enganados e enganadores. Também pois para os mortos os padres são importantes, e não só para os vivos; para os mortos porque são eles que com a missa aliviam as suas penas e os libertam do purgatório, para os vivos porque são eles os intermediários de Deus na terra através dos quais se tornam Cristãos e são perdoados!!

Considerai irmãos por um momento com que astúcia o papado consegue manter ligadas as pessoas a si! Como é diferente antes a verdade que está em Cristo Jesus; os nossos parentes que morreram em Cristo estão no céu com o Senhor e lá esperam a ressurreição, e isto nos enche de consolação. Os nossos parentes que, ao contrário, morreram nos seus pecados estão no inferno em tormentos, e ainda que isto nos desagrade, nós não podemos fazer mais nada em seu favor.

Ó homens e mulheres que destes ouvidos aos padres, deixai de mandar oferecer missas pelos vossos parentes ou amigos mortos; elas de nada lhes podem valer.

 

O testemunho de um ex-padre sobre o sufrágio

 

Disse pouco atrás que o sufrágio que é constituído além de pelas orações também pela missa é uma fonte de dinheiro para os padres e para cúria romana em geral.

Para vos fazer compreender a que ponto chegaram alguns padres desta igreja falsamente chamada cristã para fazer pagar as missas aos seus paroquianos quero agora transcrever o eloquente testemunho de um nosso irmão de nome Chiniquy morto há cerca de um século, que antes de se converter tinha sido por longos anos sacerdote da igreja católica romana. Eis as suas palavras:Cerca das quatro da manhã gritos chegaram aos meus ouvidos. Reconheci a voz da minha mãe. ‘O que sucedeu cara mamã? ‘Oh, meu pequeno menino, tu não tens mais um pai! Ele morreu! Dizendo estas palavras ela perdeu a consciência e caiu ao chão! Enquanto um amigo que tinha passado a noite connosco lhe deu a conveniente atenção, eu me apressei ao leito de meu pai. Apertei-o ao meu coração, beijei-o, cobri-o com as minhas lágrimas, movi a sua cabeça, apertei-lhe as mãos, procurei levantá-lo sobre a sua travesseira: não podia crer que ele estava morto (...) Ajoelhei-me para orar a Deus pela vida do meu pai. Mas as minhas lágrimas e os meus gritos foram inúteis. ‘Ele tinha morrido!’ Estava já frio como o gelo! Dois dias após ele ter sido sepultado minha mãe estava tão oprimida pela dor que não pôde seguir a procissão funerária. Eu fiquei com ela como seu único auxílio terreno. Pobre mamã! (...) Apesar de ser então muito jovem, eu podia perceber a grandeza da nossa perda, e misturei as minhas lágrimas com as da minha mãe. Que caneta pode descrever o que acontece no coração de uma mulher quando Deus lhe tira de repente o marido na flor da sua vida, e a deixa sozinha, mergulhada na miséria, com três pequenas crianças das quais duas são até demasiado pequenas para conhecer a sua perda! Como são longas as horas do dia para a pobre viúva que foi deixada sozinha, e sem meios, entre os estranhos! Como são dolorosas as noites sem dormir para o coração que perdeu todas as coisas! Como é deixada vazia uma casa pela eterna ausência daquele que era o seu chefe, o seu suporte e o seu pai! (...) Oh, como são amargas as lágrimas que jorram dos seus olhos quando o seu mais pequeno menino, que ainda não percebe o mistério da morte, se lança nos seus braços e lhe diz: ‘Mamã, onde está o papá? Porque não volta? Eu me sinto só!’ A minha pobre mamã passou essas provas. Eu ouvia os seus soluços durante as longas horas do dia, e também durante as ainda mais longas horas da noite. Muitas vezes a vi cair de joelhos para implorar a Deus de ser misericordioso para com ela e os seus três infelizes orfãos. Não podia fazer mais que confortá-la, amá-la, orar com ela! Tinham passado apenas poucos dias desde o enterro de meu pai quando vi chegar a nossa casa Mr. Courtois o pároco (o que tinha procurado levar-nos a Bíblia). Ele tinha a reputação de ser rico, e dado que nós éramos pobres e infelizes desde que meu pai morreu, o meu primeiro pensamento foi que ele tivesse vindo para nos confortar e nos ajudar. Pude ver que minha mãe tinha as mesmas esperanças. Ela o recebeu como um anjo do céu. (...) Pelas suas primeiras palavras porém pude compreender que as nossas esperanças não se realizariam. Ele procurou ser compreensivo, e disse até algo acerca da confiança que nós devemos ter em Deus, especialmente nos períodos de prova; mas as suas palavras eram frias e áridas. Voltando-se para mim, disse:Continuas a ler a Bíblia, meu pequeno rapaz? ‘Sim, senhor,’ respondi, com uma voz tremente de ansiedade, porque temia que ele fizesse uma outra tentativa para nos levar aquele tesouro, e eu já não tinha um pai para defendê-lo. Depois, dirigindo-se à minha mãe, ele disse: - Eu te disse que não era justo para ti e para o teu menino ler aquele livro’. Minha mãe baixou os olhos e respondeu apenas com as lágrimas que corriam pelas suas faces abaixo. A pergunta foi seguida por um longo silêncio, e o padre depois continuou:Há algo a dar pelas orações que são cantadas, e pelos serviços que tu pediste sejam oferecidos para o repouso da alma do teu marido. Te ficaria muito grato se tu me pagasses essa pequena dívida.’ ‘Mr. Courtois’, respondeu minha mãe, ‘meu marido não me deixou nada mais que dívidas. Eu só tenho o trabalho das minhas mãos para tentar viver com os meus três meninos, dos quais o maior está diante de si. Por amor destes pequenos orfãos, se não pelo meu, não nos leve o pouco que nos resta. ‘Mas tu não reflectes. Teu marido morreu repentinamente sem nenhuma preparação; ele está portanto nas chamas do purgatório. Se tu queres que ele seja libertado, deves necessariamente unir os teus pessoais sacrifícios às orações da Igreja e às missas que nós oferecemos’. ‘Como te disse, meu marido me deixou absolutamente sem meios, e é impossível para mim dar-te dinheiro’, replicou minha mãe. (...)Mas as missas oferecidas pelo repouso da alma do teu marido devem ser pagas’, respondeu o padre. Minha mãe cobriu a face com o seu lenço e chorou. Pelo que me respeita, eu desta vez não misturava as minhas lágrimas com as suas. Os meus sentimentos não eram de dor, mas de raiva e de indescritível horror. Os meus olhos estavam fixos no rosto daquele homem que torturava o coração da minha mãe (...) Depois de um longo silêncio minha mãe levantou os olhos, avermelhados com as lágrimas, para o padre e disse: ‘Vês aquela vaca no prado, não longe da nossa casa? O seu leite e a sua manteiga que produzimos por ela formam a parte principal do alimento das minhas crianças. Eu espero que tu não a leves. Se de qualquer modo, um tal sacrifício deve ser feito para libertar do purgatório a alma do meu pobre marido, toma-a como pagamento das missas a oferecer para apagar aquelas chamas devoradoras’. O padre levantou-se no instante dizendo:Muito bem’, e saiu. Os nossos olhos o seguiram ansiosamente; mas em vez de se encaminhar para a pequena cancela que estava diante da casa, ele se dirigiu para o campo, e guiou a vaca diante dele na direcção da sua casa. Vendo aquilo eu gritei em desespero:Ó minha mamã! Ele está levando a nossa vaca! Que será de nós?’ O senhor Nairn nos tinha dado aquela esplêndida vaca quando ela tinha três meses (...) Eu a alimentava com as minhas próprias mãos, e tinha muitas vezes dividido o meu pão com ela. Eu a amava como uma criança ama sempre um animal que ela fez crescer. Parecia também que ela me compreendesse e me amasse. De qualquer distância que ela me visse, corria para mim para receber as minhas carícias e alguma coisa que eu pudesse ter para lhe dar. Minha própria mãe a mungia; e o seu rico leite era tão delicioso e substancioso para nós. (...) Também minha mamã gritou de dor quando viu o padre levar os únicos meios que o céu lhe tinha deixado para alimentar as suas crianças. Lançando-me nos seus braços, eu lhe perguntei: ‘Por que deste a nossa vaca? Que será de nós? Nós morreremos seguramente de fome’. ‘Querido filho’, ela respondeu, ‘Eu não pensava que o padre seria tão cruel de modo a levar-nos o último recurso que Deus nos tinha deixado. Ah! se eu acreditasse que ele seria assim tão impiedoso eu nunca lhe teria falado como fiz. Como tu dizes, meu querido filho, que será de nós? Mas não me leste tu muitas vezes na tua Bíblia que Deus é o Pai da viúva e do orfão? Nós oraremos àquele Deus que está disposto a ser teu Pai e o meu; Ele nos ouvirá, e verá as nossas lágrimas. Ajoelhemo-nos e peçamos-lhe de ser misericordioso para connosco, e de restituir-nos a ajuda de que o padre nos privou’. Nos ajoelhamos. Ela pegou a minha mão direita com a sua esquerda, e levantando a outra mão para o céu, ela ofereceu uma tal oração ao Deus das misericórdias pelas suas pobres crianças como eu nunca mais ouvi desde então’ (Pastor Chiniquy, Fifty years in the Church of Rome, [Cinquenta anos na Igreja de Roma] London 1908, pag. 39-42).

As palavras de Chiniquy fazem claramente perceber que esta diabólica doutrina do purgatório e do sufrágio tem levado muitos padres a devorar até as casas das pobres viúvas. E o que se podia esperar de bom dela?

 

O altar privilegiado é uma impostura

 

É supérfluo dizer que o altar privilegiado é uma das imposturas de que se usa a cúria romana para se apoderar do dinheiro das pessoas. Certo é que com base no poder que os altares privilegiados têm o purgatório deveria estar vazio; mas as coisas não estão assim porque o purgatório está ainda cheio de almas que esperam com ansiedade que os seus amigos e os seus parentes façam esmolas e façam dizer missas em seu favor! Portanto é do interesse dos papas manter o purgatório sempre cheio.

 

 

 

O JUÍZO PARTICULAR

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

Logo após a morte a alma de todo o homem sofre um juízo divino e é enviada com base no seu êxito ou para o paraíso ou para o purgatório ou para o inferno. O catecismo afirma: O juízo particular é aquele que a alma de todo o homem sofre, logo após a morte. Imediatamente após ela se separar do corpo, se apresenta diante de Jesus Cristo, para prestar contas da sua vida. É opinião de muitos piedosos escritores que o juízo particular se realiza no próprio lugar onde a pessoa vem a morrer; expirando, a alma encontra logo Jesus Cristo seu juiz, a quem deve prestar contas de todas as suas obras (....) Após o juízo particular, a alma, se está sem pecado e sem dívida de pena, vai para o Paraíso; se tem algum pecado venial ou alguma dívida de pena, vai para o Purgatório até que tenha satisfeito; se está em pecado mortal, como rebelde inconvertível a Deus, vai para o Inferno’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 166,170).

 

Confutação

 

Imediatamente depois da morte não acontece nenhum juízo particular

 

Esta doutrina papista é falsa porque quando uma pessoa morre seja ela um filho de Deus ou um filho do diabo, ela não vai perante Jesus Cristo para ser julgado e portanto declarado absolvido no primeiro caso ou condenado no segundo. Isto porque Jesus disse em referência aos que crêem nele: "Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (João 5:24), e também: "Quem crê nele não é julgado" (João 3:18); enquanto para os que recusam crer nele disse: "Quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (João 3:18).

Portanto, a pessoa quando morre se crente vai logo no paraíso à espera de receber o prémio do seu trabalho (na ressurreição), se incrédulo vai logo para o inferno em tormentos à espera do juízo e da relativa condenação (que receberá ainda na ressurreição); não há nenhum juízo particular que ela deve sofrer logo depois de morta, porque no acto da morte ou já está julgado ou não é julgado. Para concluir, pela fé a pessoa não é julgada mas justificada desde a terra; sem a fé, ao contrário, a pessoa já está julgada desde a terra.

 

 

O PECADO

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

Os pecados se distinguem em veniais e mortais; os primeiros não privam quem os comete da graça, enquanto os segundos sim. Os pecados veniais se expiam mesmo sem confissão; os mortais, pelo contrário, necessitam da confissão para serem perdoados. A doutrina sobre o pecado que ensina a igreja romana, isto é, a maneira como se é libertado dos pecados e a distinção dos pecados, está na base dos seus dois sacramentos indispensáveis para a salvação, mas ela está também na base do purgatório. Julgo pois útil expôr os seus pontos mais importantes para que possais compreender bem o porquê do purgatório ser uma doutrina indispensável na teologia papista.

Antes de tudo ela ensina que pelo batismo a criança torna-se um cristão, isto é, renasce espiritualmente para nova vida, porque lhe são cancelados os pecados pelo batismo; depois ela ensina a distinção entre pecados veniais e pecados mortais fazendo crer aos batizados que há pecados, os veniais, que não privam a alma da graça de Deus, e outros, os mortais, que privam a alma da graça de Deus. E para cada uma destas categorias de pecados a igreja romana excogitou este remédio. Ela diz que um batizado pode receber o perdão dos seus pecados veniais (do latim venialis que significa ‘perdoável’) durante a sua vida com arrependimento, com boas obras e sem a confissão ao padre, Perardi afirma de facto: ‘Pode ter deles o perdão com o arrependimento e com boas obras, mesmo sem a confissão sacramental’ (Giuseppe Perardi, op. cit. pag. 241) ou doutra forma os satisfará depois de morto com as graves penas do purgatório [6]; enquanto se comete um pecado mortal pode receber o perdão dele só confessando-o ao padre: ‘A graça de Deus, perdida pelo pecado mortal, se readquire com uma boa confissão sacramental’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 240) e diz que se morre sem ter feito confissão sacramental dele nunca poderá ter acesso ao paraíso porque irá para o Inferno! Eis como se exprime Perardi a tal respeito:Quem morre em estado de pecado mortal, vai para o Inferno’ (ibid., pag. 238) [7]. Em outros termos, para a igreja romana como as duas categorias de pecados têm efeitos espirituais diferentes sobre o indivíduo que os comete (o pecado venial não tira a graça enquanto o pecado mortal sim), por conseguinte muda também o modo em que se pode obter o perdão deles; mais fácil para o primeiro porque neste caso basta o arrependimento com alguma boa obra, mais difícil para o segundo porque neste caso é necessário a confissão ou a contrição perfeita! Mas não é tudo: porque dado que a penitência ‘perdoa a pena eterna, mas deixa ordinariamente uma temporal a pagar ou nesta vida ou na outra’ o penitente deve também ele dar a sua parte de satisfação para expiar toda a pena dos seus pecados cometidos. Para quem diz, ao contrário, que ‘toda a pena é sempre perdoada por Deus junto com a culpa e que a única satisfação dos penitentes é a fé, com a qual crêem que Cristo satisfez por eles’ há o anátema tridentino (Concílio de Trento, Sess. XIV, can. 12) Desta maneira, isto é, ensinando que o batizado, seja no caso de pecados veniais seja de pecados mortais, deve sempre fazer obras para obter a remissão da dívida da pena temporal merecida e que o arrependimento e a fé em Cristo não são suficientes para satisfazer, o purgatório encontra o seu lógico lugar, porquê? Porque é o lugar onde o penitente deve ir depois de morto para pagar qualquer dívida de pena temporal lhe ficada na terra: que todos têm, só que para alguns é maior e para outros menor. Para o paraíso de facto só vai aquele que está sem pecado venial sequer e sem dívida de pena, isto é, que já satisfez para toda a pena temporal devida pelos pecados graves, ou seja quem está puro de toda a mancha, e dado que no momento da morte ninguém pode esperar encontrar-se tão puro e tão santo a poder logo aceder ao paraíso - como eles dizem - porque todos têm alguma culpa por expiar, então o penitente deve ir primeiro no purgatório pagar a sua dívida para poder depois aceder ao paraíso! Compreendestes pois de que maneira o purgatório está estritamente ligado à doutrina do pecado ensinada pela igreja papista? Porque ele constitui aquele lugar pelo qual todos devem passar para expiar com os seus sofrimentos toda a dívida de pena temporal contraída na terra que eles não puderam ou quiseram pagar na terra com as suas obras. Em outras palavras ele constitui aquele lugar onde, dado que na terra só pela fé no sacrifício propiciatório de Cristo não se pode de nenhuma maneira obter a remissão de toda a pena merecida com os pecados (o que significa que o sangue de Cristo não a pode concelar), o penitente deve forçosamente ir para pôr-se finalmente em ordem diante de Deus, isto é, para pagar tudo o que lhe resta a pagar!

Para vos fazer compreender agora quais são para os teólogos católicos romanos os pecados veniais, que não são graves, e os mortais que, pelo contrário, são graves, vos citarei algumas palavras ainda do Novo Manual do Catequista:A lei de Deus, por exemplo, proibe roubar. Se eu roubo pouco dinheiro a um rico, o meu pecado não é mortal, mas venial; é mortal se roubo uma soma grande. Uma simples mentira é pecado venial, mas mortal a blasfémia’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 241) [8].

Por quanto respeita à mentira é necessário dizer que, segundo os teólogos romanos, ela é de três tipos, a saber, a mentira jocosa, a mentira oficiosa, e a mentira danosa (esta distinção foi introduzida por Tomás de Aquino). A mentira jocosa é quando se mente por brincadeira, sem algum objectivo sério, e só pelo prazer de mentir; a mentira oficiosa é quando se mente para desculpar-se, ou para produzir uma qualquer vantagem para si mesmo ou para outros, sem que porém o próximo seja prejudicado por ela; a mentira danosa é quando o próximo é injustamente prejudicado por ela. As primeiras duas classes de mentiras, segundo a teologia romana, não são senão pecado venial, enquanto a mentira danosa é um pecado grave. Citamos a tal propósito o que diz a Enciclopédia Eclesiástica na palavra ‘mentira’: ‘Só a mentira danosa pode ser culpa grave, como quando induzisse em erro sobre Deus, religião, moral, ou provocasse dano grave ao próximo na vida, nas riquezas ou na fama; em todos estes casos, de facto, é uma grave violação do preceito da caridade (...) A mentira oficiosa (isto é, a que aponta para alguma vantagem) e a jocosa, não são pecado grave (...) antes, a jocosa, segundo alguns, pode ser completamente inocente, ou seja, não ser sequer mentira. Esta doutrina sobre a culpabilidade de quem mente é comum na Igreja’ (Enciclopédia Eclesiástica, vol. 1, pag. 533). E se isto não basta para perceber que os teólogos da igreja romana admitem em algumas circunstâncias a mentira citamos também o que diz a Enciclopédia Católica na palavra mentira: ‘Em muitos casos, bastará o silêncio ou a frase evasiva para o objectivo de salvar o segredo, de eludir uma ameaça, de ser cortês. Mas muitas outras vezes o silêncio ou a frase evasiva são de tal forma que traem esses objectivos. Não se pode então nem calar nem evadir; é necessário dizer algo; aliás o próprio pensamento não pode dizer-se sem perigo. É lícita em semelhantes circunstâncias a resposta falsa? Com a grande maioria dos homens sãos, os doutores católicos respondem que sim’ (Enciclopédia Católica, vol. 8, 703) [9].

 

Confutação

 

Como os pecados são perdoados e a única distinção existente entre eles segundo a Escritura

 

A sagrada Escritura ensina que "o pecado é a violação da lei" (1 João 3:4) e que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rom. 3:23). Por que razão todos pecaram? Porque Adão, o primeiro homem, pecou e por meio dele o pecado passou sobre todos os homens; diz Paulo de facto que "pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores" (Rom. 5:19); portanto todos aqueles que vêm ao mundo nascem com o pecado conforme está escrito: "Em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sal. 51:5). Em outras palavras toda a criatura humana desde que nasce é inclinada por natureza a pecar contra Deus porque tem o pecado em si; e de facto nós todos "éramos por natureza filhos da ira, como os outros" (Ef. 2:3). Ora, o pecado, do qual está contaminada a consciência de todo o ser humano desde o seu nascimento, por meio do mandamento ganha vida e mata quem o serve porque como diz Paulo "sem a lei estava morto o pecado... mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri" (Rom. 7:8,9), e pode ser cancelado da sua consciência só pelo sangue de Jesus Cristo conforme está escrito: "Se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os contaminados, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?" (Heb 9:13,14). Mas quando acontece esta purificação? Quando o homem se reconhece pecador diante de Deus e lhe implora para que o perdoe e crê com o seu coração no Evangelho. Isto é testificado por estas palavras que o apóstolo Pedro dirigiu aos Judeus: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam cancelados os vossos pecados..." (Actos 3:19); portanto é completamente mentirosa a doutrina católica que afirma que o menino pelo batismo é limpo e libertado do seu pecado. Certamente, a criança após poucos dias do seu nascimento não cometeu ainda pecados, porém tem o pecado em si; mas este não pode desaparecer da sua consciência por meio da água chamada santa derramada sobre a sua cabeça. Aquela água o molha mas não o liberta do pecado que herdou dos seus antepassados [10].

Por quanto respeita antes aos pecados cometidos depois de termos sido purificados e libertados dos pecados cometidos na nossa ignorância, também eles são cancelados pelo sangue de Cristo e isso depois de termos feito a confissão deles a Deus conforme está escrito: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a iniquidade" (1 João 1:9). Não existem portanto segundo a Escritura duas categorias de pecados cujo perdão para obter é preciso seguir duas praxes diferentes, uma mais fácil e a outra mais difícil como na igreja papista. De todas as iniquidades que o crente comete, para obter delas o perdão de Deus, ele se deve arrepender diante de Deus e confessá-las a Deus abandonando-as porque está escrito: "O que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Prov. 28:13). Se note também que à diferença de quanto ensina a igreja católica sobra a remissão dos pecados depois do batismo, a Escritura não ensina que depois de ter obtido directamente do Senhor a remissão deles permanece uma pena temporal a pagar por eles porque isto está em plena contradição com o próprio conceito de remissão nos ensinado pela Palavra de Deus. De facto, dizer que o Senhor nos perdoa as nossas dívidas em virtude do nosso arrependimento e da nossa fé nele, mas nós devemos sempre dar a nossa parte de satisfação ou nesta vida ou na outra por eles significa atribuir a Deus este modo de agir. Que ele prometeu nos perdoar as nossas dívidas que contrairmos para com ele depois da nossa conversão em virtude do sacrifício propiciatório do seu Filho, mas nos factos exige de nós que demos um contributo para extinguir as nossas dívidas. Isto significaria que a remissão nos prometida pelo Senhor não é uma verdadeira remissão. E que portanto ele mentiu: mas não, ele não mentiu, são antes os teólogos papistas que mentem contra a verdade conforme está escrito: "Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso" (Rom. 3:4), fazendo dizer à Escritura o que ela não diz. A verdade é que o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado a nós crentes, e pode nos limpar e nos fazer mais brancos que a neve conforme diz Davi nos Salmos: "Lava-me, e ficarei mais branco do que a neve" (Sal. 51:7) no momento em que nos mancharmos. Em outras palavras, nós crentes por meio do precioso sangue de Cristo, o preço por ele pago pela remissão dos nossos pecados cometidos antes e depois da nossa regeneração, obtemos do Senhor na sua grande misericórdia a extinção total de toda a nossa dívida de maneira que depois da nossa confissão não fica absolutamente nada por pagar [11]. Eis por que estamos seguros de que quando morrermos iremos logo com o Senhor para o céu, porque quando nós confessamos as nossas ofensas a ele o seu sangue do qual nós fomos aspergidos nos embranquece de maneira tal a nos podermos apresentar puros de toda a mancha na presença de Deus a todo o instante. Portanto a nossa não é de modo nenhum presunção, mas simplesmente confiança no poder purificador do sangue de Jesus. Para quem está debaixo do sangue de Jesus não há condenação alguma, não há dívida de pena a expiar num purgatório, porque nesse sangue estão todos os méritos necessários para a satisfação de todas as suas dívidas contraídas depois da sua conversão.

Por quanto respeita depois à distinção geral entre pecados veniais e mortais que fazem os teólogos papistas dizemos as seguintes coisas. Tiago disse: "Qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos" (Tiago 2:10), e a Escritura diz que é "Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gal. 3:10); por isso nós consideramos completamente inútil mas também danosa a distinção entre pecados veniais e pecados mortais que fazem os teólogos católicos, porque sabemos que apesar de nem todos os Católicos romanos possam ser acusados de ter morto pessoas ou de cometer pecados contrários à natureza (que são pecados mortais para os teólogos papistas) todavia todos estão debaixo da maldição da lei e mortos nas suas ofensas e nas suas transgressões.

Também para nós crentes esta distinção entre os pecados que fazem os papistas não tem valor porque sabemos que "toda a iniquidade é pecado" (1 João 5:17) que ofende Deus, desonra a sua palavra e gera a morte. Tiago diz por exemplo que o pecado (e não faz nenhuma distinção entre os pecados) "sendo consumado, gera a morte" (Tiago 1:15). Por isso odiamos todos os pecados, mesmo aqueles que não parecem tão destrutivos, e procuramos não fazê-los e quando pecamos confessamos o nosso pecado a Deus para sermos por Ele purificados com o sangue do seu Filho. Como disse antes, torno a repeti-lo, não existem para nós crentes pecados menos graves para os quais é preciso seguir uma praxe mais despachada e mais simples para obter o perdão divino, e pecados graves para os quais é preciso seguir uma outra praxe mais difícil. Em outras palavras sabemos que Deus está pronto a nos perdoar os nossos pecados, não importa de que natureza sejam, na condição que nós nos arrependamos deles e lhe os confessemos. Quando Jesus nos ensinou a orar disse-nos para dizer ao Pai nosso: "Perdoa-nos as nossas dívidas" (Mat. 6:12) e não disse que para algumas dívidas basta fazer uma coisa enquanto para outras não basta!! Seja bem claro isto.

Deve ser dito porém que entre todos os pecados há um pecado que se um crente comete não pode ser perdoado porque é impossível levá-lo outra vez ao arrependimento; é o pecado para morte. As seguintes Escrituras confirmam isto.

Ÿ "Há pecado para morte, e por esse não digo que ore" (1 João 5:16);

Ÿ "Se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários" (Heb. 10:26,27);

Ÿ "Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério" (Heb. 6:4-6);

Ÿ "Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo" (Mar. 3:29).

Portanto, segundo a Escritura existe um pecado que leva à morte (à segunda morte) o crente que o comete, e ele consiste na renegação voluntária da sua profissão de fé, e para quem o comete é impossível arrepender-se de novo porque crucifica de novo por sua conta o Filho de Deus e o expõe ao vitupério. Esta é a única distinção entre os pecados que faz a Escritura: todos podem ser perdoados tirando o para morte porque quem comete este último crucifica de novo o Filho de Deus e o expõe ao vitupério.

A propósito antes da distinção particular vista em precedência dizemos: pelo que respeita a roubar a Escritura ensina que Deus diz: "Não furtarás" (Ex. 20:15), por isso não importa quanto alguém rouba a um rico, se pouco ou muito, porque quem rouba transgride a lei de Deus e recebe como retribuição do pecado a morte conforme está escrito: "O salário do pecado é a morte" (Rom. 6:23). A propósito do mentir a Escritura diz: "Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros" (Ef. 4:25), por isso não importa se alguém diz uma mentira para divertir ou para desculpar-se ou para difamar o seu próximo porque ele comete uma coisa abominável a Deus conforme está escrito: "Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor" (Prov. 12:22).

E a propósito da mentira por eles chamada jocosa a Escritura a condena porque afirma: "Como o louco que atira tições, flechas, e morte, assim é o homem que engana o seu próximo, e diz: Fiz isso por brincadeira!" (Prov. 26:18,19). Portanto, os doutores da igreja romana que falam daquele modo a respeito da mentira mentem eles próprios contra a verdade e induzem as pessoas a amar e praticar a mentira para dano da sua alma.

Compreendestes pois porque falando com os Católicos se ouve frequentemente dizer:Mas eu trabalho, não roubo (se entende, grandes somas de dinheiro) não blasfemo, não mato, não cometo adultério, do que me devo arrepender? Porque eles pensam que são dignos de receber o castigo eterno só por certos pecados, pelos outros não porque há o purgatório que lhes os purgará depois de mortos se deles não se arrependerem a tempo! Como podeis ver esta distinção entre pecados veniais e mortais teve e tem nefastas consequências sobre as pessoas porque as leva a subvalorizar uma certa categoria de pecados, precisamente a dos veniais, para dano da sua alma [12].

Ó Católicos, que recebestes o batismo infantil, sabei que se não vos arrependerdes dos vossos pecados e não crerdes no Evangelho quando morrerdes ireis para o inferno porque morrereis nos vossos pecados. Não importa se morreis nos pecadosveniais’ ou nos pecados ‘mortais’ (como os chamais vós), vós perecereis porque Jesus disse: "Se não crerdes que eu sou (o Cristo), morrereis em vossos pecados" (João 8:24), e também: "Se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis" (Lucas 13:3); e mesmo que antes de morrer vos confesseis ao padre não escapareis às chamas do inferno porque o padre não poderá de nenhuma maneira dar-vos a absolvição divina não tendo o poder de absolver os pecadores. Vos conjuramos portanto a vos arrependerdes de todos os vossos pecados e a pedir perdão directamente ao Senhor Deus porque só ele pode purificar-vos plenamente e no instante deles dando-vos assim a certeza absoluta de ir para o céu com Jesus Cristo imediatamente depois da morte.

 

 

AS ORAÇÕES PELOS MORTOS (PARTE DO SUFRÁGIO)

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

Orando pelas almas do purgatório se aliviam as suas penas. Os teólogos papistas afirmam que orando por aqueles que morreram, se podem atenuar as penas das almas merecedoras de salvação que estão no purgatório, e se pode também abreviar o tempo que lá devem ficar! Esta doutrina, como podeis ver, está estritamente ligada ao purgatório. Ela foi fabricada com palavras tiradas do livro dos Macabeus (um dos livros apócrifos não inspirados por Deus) que dizem que um certo Judas Macabeu junto com outros suplicaram a Deus para que perdoasse os pecados de alguns soldados Judeus caídos em batalha (cfr. 2 Macabeus 12:41,42), e que este Judas fez recolher dinheiro que enviou para Jerusalém a fim de que fosse oferecido um sacrifício expiatório pelo pecado daqueles mortos. A estas palavras foram acrescentadas diversas palavras dos seus chamados pais que eram a favor das orações pelos mortos. Entre estas ressaltam as de Agostinho: eles citam de facto muitas vezes estas palavras de Agostinho que ele dirigiu a Deus por sua mãe depois que esta morreu: ‘Perdoa também Tu a ela as suas dívidas, as que contraiu em tantos anos, após ter recebido a água da saúde. Perdoa-lhes, ó Senhor, perdoa-lhes, te suplico, não entres em juízo com ela...’ (Agostinho de Hipona, As Confissões, Liv. IX, cap. XIII); depois outras suas palavras com as quais ele diz a Deus de inspirar os seus servos para que se lembrem do altar de sua mãe Monica e de seu Pai Patrício, defuntos (cfr. Agostinho, op. cit., Liv. IX, cap. XIII); e esta sua citação do livro A cidade de Deus que diz: ‘A própria oração da Igreja ou de algum homem piedoso a favor de alguns defuntos é ouvida, mas somente para os que, regenerados em Cristo, não conduziram no seu corpo uma vida tão má de forma a ser julgados indignos desta misericórdia, mas nem uma vida tão boa de forma a não ter necessidade dessa misericórdia’ (Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, Liv. XXI, cap. 24,2).

 

Confutação

 

Os mortos não necessitam das nossas orações

 

Não julgo supérfluo dizer-vos de reprovar e confutar esta doutrina diabólica que faz crer a milhões de pessoas que os vivos podem de algum modo contribuir para a salvação das almas dos que morreram nas suas ofensas orando por eles. A Escritura afirma que quando morre um pecador ele vai para o lugar dos mortos onde há um fogo não atiçado por mão de homem e onde há pranto e ranger de dentes. Para ele não há mais nenhuma possibilidade de ser salvo; lhe restará só esperar o juízo do grande dia e a relativa condenação. Para quem, pelo contrário, morre no Senhor, isto é, morre reconciliado com Deus, há a glória, porque a sua alma parte do corpo e vai habitar com o Senhor lá em cima no céu. Portanto se o homem morre perdido, perdido ficará à espera do juízo e também depois de ser julgado, isto é, pela eternidade; se, ao contrário, morre salvo, estará salvo tanto na espera da ressurreição como também depois de Deus julgar o seu povo.

Segundo o ensinamento da Palavra de Deus não existem caminhos alternativos ao que leva à perdição e ao que leva à vida; mas não segundo o catecismo católico, de facto para ele existe, e é o purgatório onde segundo ele as almas dos defuntos com a ajuda das orações dos vivos recebem o aliviamento das suas penas e a libertação dele para poder aceder ao paraíso de Deus. Que engano que é este purgatório!

 

Nós devemos orar pelos vivos

 

A Escritura nos ensina que nós devemos orar por todos os homens para que sejam salvos, mas isto o devemos fazer enquanto eles ainda estão em vida, e não também depois deles terem morrido, de facto o apóstolo Paulo diz a Timóteo: "Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade" (1 Tim. 2:1,2). O próprio Paulo nisto nos deixou o exemplo, porque ele orava pelos incrédulos para que fossem salvos conforme está escrito: "O bom desejo do meu coração e a minha oração a Deus por Israel é para sua salvação" (Rom. 10:1), mas as suas orações ele as dirigia a Deus só por aqueles que ainda estavam em vida. Porque ele sabia que seria completamente inútil orar pela salvação dos pecadores mortos, porque não cria na existência de um purgatório no além de onde as almas com a ajuda das suas orações poderiam passar para o paraíso.

Também por quanto respeita aos crentes a Escritura nos ensina que nós devemos orar por eles enquanto estão em vida, porque uma vez que estão mortos nós com as nossas orações em seu favor não podemos fazer nada em seu favor. O Filho de Deus nos dias da sua carne orou pelos vivos, e assim também os apóstolos depois dele. Há muitas Escrituras que o confirmam; por isso também nós devemos orar pelos nossos irmãos só enquanto eles estão em vida, e não também depois que estão mortos porque no céu eles não necessitam mais das nossas orações.

 

CONCLUSÃO

 

A maneira como se formou esta maléfica doutrina do purgatório no curso do tempo e como ela foi aceite por muitos como boa para dano das suas almas nos faz compreender algumas coisas. Antes de tudo que se uma doutrina não pode ser confirmada pelos Escritos sagrados e vai contra a sã doutrina ela deve ser rejeitada e confutada sem demora alguma para não se ser envenenado espiritualmente. Em segundo lugar que não importa quanto antiga seja uma doutrina, ou quem tenham sido os seus sustentadores, se ela vai contra a Palavra de Deus deve ser rejeitada; em suma, não importa quem a sustentava na antiguidade, se Agostinho, Jerónimo, Ambrósio, etc. ela deve ser rejeitada. Ninguém se deixe enganar pelo facto de aqueles escritores terem vivido há muitos séculos; porque isso não tem nenhum valor, porque para estabelecer se uma doutrina é verdadeira não se deve olhar quanto antiga seja mas se é conforme ao ensinamento da Palavra de Deus tomada na sua globalidade. Vimos que os Católicos romanos citam várias vezes muitos dos chamados pais da igreja atribuindo às suas palavras igual importância que às palavras dos profetas e dos apóstolos e do Senhor Jesus. De facto, eles citam muitas vezes estes antigos escritores para sustentar as suas heresias. A nós não importa quanto tenham sido famosos e respeitados esses homens no tempo deles, e nem quanto eloquentes tenham sido, e nem ainda quantos livros tenham escrito; o que de torto eles disseram nós não o aceitamos. Para nós as suas estranhas doutrinas não têm de modo algum o mesmo valor da Palavra de Deus como, ao contrário, o têm para os Católicos, antes é melhor dizer que para nós crentes não têm nenhum valor porque elas se opõem nitidamente às sãs palavras do Senhor e dos apóstolos. O exemplo do purgatório confirma o quanto acabado de dizer: o purgatório de facto, que é parte da chamada venerável tradição passada de mão em mão, ataca o poder expiatório do sangue de Cristo, porque o anula. É pois uma doutrina de demónios, não uma doutrina dos apóstolos; demoníaca e não apostólica. É uma vã subtileza brotada de entendimentos carnais que importa rejeitar, destruir e desmascarar com as Escrituras. Sede ferverosos de espírito, zelosos nas Escrituras, levantai-vos também vós em favor da verdade destruindo esta fortaleza papista que iludiu até agora centenas de milhões de pessoas atirando-as para o inferno.

 

 

NOTAS

 

[1] Mesmo se Agostino por vezes é ambíguo no falar e parece estar incerto sobre o purgatório, todavia é preciso dizer que com justa razão a igreja papista o considera o verdadeiro pai do purgatório porque com as suas palavras lançou os fundamentos dele.

 

[2] Apesar da distinção entre pecados veniais e pecados mortais respeitar aos batizados da igreja católica, chamados por ela Cristãos, eu na minha confutação quando falo dela referindo-me a eles falo como se ela dissesse respeito aos pecados de pecadores porque é sabido que o seu batismo não faz tornar cristão absolutamente ninguém. Eles estão debaixo do pecado e não foram ainda libertados do pecado pelo sangue de Cristo.

 

[3] Em Florença alcançou-se a união sobre pontos essenciais da existência do purgatório e do valor dos sufrágios. Mas já no segundo concílio de Lião (1274) se encontra um artigo relativo ao purgatório: ‘Se suceder que algum fiel verdadeiramente arrependido morra em graça de Deus, mas antes de ter terminada a penitência (satisfactio) devida aos pecados, a sua alma é aperfeiçoada por penas purificadoras’.

 

[4] Quereria fazer notar aos leitores que no livro apócrifo dito a Sabedoria, que o próprio concílio de Trento incluiu no cânon declarando-o sagrado, se lê uma declaração que desmente um purgatório depois da morte. Ei-la:As almas dos justos, pelo contrário, estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado uma desgraça. Os insensatos pensavam que a morte dos justos fosse um aniquilamento, mas agora estão em paz’ (Sabedoria 3:1-3) Portanto até um dos livros apócrifos tão caros aos Católicos desmente o purgatório!

 

[5] É inevitável que este sufrágio em favor das almas que estão no purgatório favoreça os ricos e desfavoreça os pobres. A razão é porque os ricos conseguem, deixando muito dinheiro aos padres ou tendo parentes e amigos ricos, ter muitas missas em seu favor e assim terão a possibilidade de sair do purgatório primeiro do que os que são pobres e não deixaram nada ou que têm parentes pobres a não poderem mandar dizer muitas missas. Pelo que quem é mais abastado tem a esperança de passar no purgatório menos tempo que o desabastado, mesmo se porventura merecia permanecer lá muito mais tempo!! Não é porventura esta uma coisa entre muitas que faz perceber claramente como o purgatório e o sufrágio da missa não podem ser verdadeiros porque doutro modo resultaria que Deus é injusto? Ninguém depois vos engane dizendo que a missa o padre a diz também pelos pobres, porque na realidade os ricos continuam a ser favorecidos pelos padres no que concerne ao chamado sufrágio.

 

[6] Desta maneira a igreja católica se contradiz porque o concílio Latrão de 1215 impôs a confissão de todos os pecados e não apenas de uma parte; e depois porque estes pecados de ‘segunda categoria’ que segundo eles não privam a alma da graça de Deus são dignos da punição divina porque aqueles que os cometem sem tê-los expiado na terra os têm que expiar no purgatório com atrozes sofrimentos. Portanto, a igreja romana não considera indispensável a confissão dos pecados veniais ao padre que faz as vezes de Deus e depois afirma que por eles se terá que penar no purgatório; o que quer dizer que ela declara não grave o que Deus pune com a sua ira! Mas se Cristo tivesse verdadeiramente instituído a confissão ao padre e houvesse verdadeiramente o purgatório, não seria um contra-senso não obrigar as almas a confessar também os pecados veniais? Não seria tudo isto ir contra os interesses das almas que podem morrer com pecados veniais não perdoados?

 

[7] O facto é porém que o penitente mesmo depois de ter feito a confissão deles ao padre embora não vá para o inferno, vai sempre para um lugar de tormentos atrozes como é o purgatório. Uma pergunta portanto se impõe a este ponto: como é possível que a igreja romana que se gloria de ter as chaves do reino dos céus, porque possui o sucessor de Pedro e os sucessores dos apóstolos que a guiam, não pode fazer evitar o purgatório, que é um lugar de tormentos, àqueles que se confessam e fazem o que ela lhes diz? Como é possível que estas chamadas chaves conseguiriam fazer escapar do inferno mas não do purgatório? Não é porventura isto uma prova de quanto é ineficaz este poder das chaves?

 

[8] Também entre os pecados mortais há os mais graves e os menos graves; mas sobre esta sua distinção não me deterei para não alongar-me demasiado. Me limito a dizer que ela é arbitrária e denota quanta ignorância da Escritura há entre os teólogos papistas.

 

[9] Não é portanto de admirar se nesta nação tão católica a mentira é um hábito e não é considerada um pecado: a mentira chamada jocosa por exemplo está muito difundida porque a todos agrada mentir para zombar do próximo; também a mentira chamada oficiosa está muito difundida, de facto, muitos mentem para se desculparem e para esconder certas coisas, e muitos mentem às crianças desde a sua tenra idade para que não façam certas coisas ou para que façam outras; e tudo isto porque estas mentiras são consideradas mentiras ligeiras ou pecados veniais.

 

[10] Se Jesus tivesse crido que o batismo cancela automaticamente os pecados de quem o recebe certamente o teria imposto também ele aos bebés e não o teria prescrito só para aqueles que creriam nele. O facto pois de Jesus o ter mandado só para aqueles que creram nele exclui que ele lhe atribuísse a importância e a eficácia que lhe atribuem os teólogos papistas, e de facto para Jesus era a fé que salvava o homem do pecado e não o rito do batismo.

 

[11] A igreja católica atribui à água abençoada por ela usada sobre os seus batizados o poder de cancelar todo o pecado e toda a pena devida por eles, de facto, afirma que o batismo tira ‘o pecado original e os actuais se houverem, com toda a dívida de pena por eles devida’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 454); isto porque segundo ela aquela água recebeu de Deus o poder do Espírito Santo de cancelar toda a mancha do homem. E por isso ela afirma que se um adulto morre logo depois do batismo ele vai directamente para o paraíso. Mas então nós dizemos:Por que razão um crente depois de ter sido aspergido com o sangue abençoado de Cristo Jesus no momento da sua conversão e dado que é com ele lavado continuamente dos seus pecados não deveria em todo instante da sua vida ter a certeza de ir logo para o paraíso?’ Porventura porque o sangue de Jesus não tem o mesmo poder de cancelar plenamente os pecados do cristão e toda a pena devida por eles como pelo contrário o tem a sua chamada água santa? Se é assim, isso significa que a sua água ‘santa’ é mais poderosa do que o sangue de Jesus, porque ela é capaz de cancelar toda a dívida de pena, enquanto o sangue de Cristo não! Mas não, as coisas não são de maneira nenhuma assim, porque a água do padre não tem algum poder de purificar o pecador dos seus pecados porque este só o tem o sangue de Jesus. É no seu sangue que há a remissão dos pecados e não na água batismal da igreja papista. O sangue de Jesus sim dá a certeza de ir para o paraíso imediatamente, mas a sua água ‘santa’ não.

 

[12] É claro que mesmo no caso todos os pecados tivessem sido considerados mortais pela teologia romana pelo que deviam ser obrigatoriamente confessados ao padre, as coisas não seriam melhores, porque embora os que são definidos veniais fossem considerados dignos de castigo eterno todavia teriam que ser sempre confessados a um homem que de modo algum tem o poder de perdoá-los.

 

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