Capitulo 4

O papado

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

O papa é o sucessor de Pedro, e portanto o chefe visível da Igreja de Cristo. Ele tem entre outros poderes, o de fazer santo alguém morto em fama de santidade, de abrir o reino dos céus e de fechá-lo a quem quer porque possui as chaves dele, e quando define doutrinas em matéria de fé e de moral é infalível. ‘O Papa é o sucessor de são Pedro na sede de Roma e no primado, ou seja, no apostolado e episcopado universal; portanto o cabeça visível, Vigário de Jesus Cristo cabeça invisível, de toda a Igreja, a qual por isso se diz Católica-Romana’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 198). Ele é definido bispo universal porque Jesus disse a Pedro para apascentar os seus cordeiros e as suas ovelhas (cfr. João 21:15-18); chefe da Igreja e príncipe dos apóstolos porque Jesus disse ainda a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mat. 16:18). Além destas passagens os teólogos papistas tomam outras, que citaremos e explicaremos em seguida, para sustentar o primado de Pedro. Mas por que motivo é dito que precisamente ele, o ‘bispo’ de Roma, e não um outro bispo duma outra cidade, é o sucessor de Pedro, e portanto o chefe da Igreja? Porque - diz a tradição papista - Pedro foi a Roma, lá fundou a Igreja, a pastoreou por mais de vinte anos deixando depois o seu ministério aos seus sucessores. Ainda este homem é chamado santo padre, tem o poder de declarar santo alguém que morreu e tem as chaves do reino dos céus.

O papa é definido também infalível quando fala ‘ex-catedra’. Eis o que diz o catecismo a tal respeito: ‘O Papa, sozinho, não pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus, ou seja, é infalível como a Igreja (quando como Pastor e Mestre de todos os cristãos, define doutrinas acerca da fé e costumes)’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 207). A infalibilidade papal foi declarada dogma pelo concílio Vaticano I em 1870 nestes termos: ‘Nós ensinamos, e definimos ser dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando cumprindo o seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, define que uma doutrina referente à fé ou costumes deve ser professada por toda a igreja, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de Pedro, goza daquela infalibilidade que o Redentor divino quis dotada a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé ou costumes. Portanto estas definições do Bispo de Roma são irreformáveis por virtude própria, e não pelo consenso da Igreja [1]. Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, - seja anátema.’ (Concílio Vaticano I, Sess. IV, cap. IV) [2].

 

Confutação

 

Aquele que é chamado papa não é o bispo universal

 

O título de bispo universal foi dado pela primeira vez pelo imperador Focas (que em 602 tinha subido ao trono de Constantinopola depois de ter morto o seu predecessor e a sua família) ao bispo de Roma Bonifácio III (607), título que contudo tinha sido recusado pelo seu predecessor Gregório I (590-604). Esta é a origem deste apelativo dado ao chefe da igreja romana. Passemos agora a demonstrar com as Escrituras que aquele que é chamado papa não é o bispo universal.

Ora, segundo a Escritura todos os crentes que estão sobre a terra têm sim bispos (os anciãos) que os vigiam e os apascentam por ordem de Deus, mas acima deles não está de modo nenhum o chefe do Estado do Vaticano, mas o nosso Senhor Jesus Cristo que Pedro chama o Pastor e Bispo das nossas almas. Eis quem é o Bispo universal, Jesus Cristo, o Filho de Deus que está sentado à direita de Deus. Mas então quem é este que definem papa? Certamente um impostor, que tomou um título que de modo nenhum lhe convém. As seguintes Escrituras testificam que Jesus Cristo é o Pastor da sua Igreja.

Ÿ Isaías disse dele: "Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente" (Is. 40:11);

Ÿ Deus disse através de Ezequiel do seu Cristo: "E suscitarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor" (Ez. 34:23);

Ÿ Miquéias disse do Cristo: "E ele permanecerá, e apascentará o seu rebanho com a força do Senhor.." (Mic. 5:3);

Ÿ Em Zacarias está escrito: "Assim diz o Senhor meu Deus: Apascenta as minhas ovelhas..." (Zac. 11:4);

Ÿ Jesus disse: "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido..." (João 10:14); e: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor" (João 10:16).

É verdade que Jesus, depois que foi ressuscitado dos mortos, disse a Simão Pedro: "Apascenta os meus cordeiros.... Apascenta as minhas ovelhas... Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:15,16,17), mas Pedro nunca se arrogou o título de bispo supremo da Igreja de Cristo, tanto é verdade que na sua primeira epístola diz aos santos: "Porque éreis desgarrados, como ovelhas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas" (1 Ped. 2:25) (que não era ele, mas Jesus Cristo). E aos anciãos ele diz: "Aos anciãos, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também ancião com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus..." (1 Ped. 5:1,2); depois diz-lhes como devem fazê-lo e por fim diz-lhes: "E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória" (1 Ped. 5:4). Pedro portanto de modo nenhum se considerava o bispo universal mas apenas um dos bispos (os anciãos) que apascentavam a Igreja de Deus naqueles dias. Para ele o Bispo universal era Cristo Jesus.

Estas são as razões pelas quais nós não aceitamos o chefe do Estado do Vaticano como Bispo supremo da Igreja, porque a Escritura testifica que o Pastor e Bispo das nossas almas é só Cristo Jesus, e que o apóstolo Pedro não foi constituído Pastor supremo da Igreja primitiva com a autoridade de transmitir aos seus sucessores esta dignidade; e portanto não é verdade que Pedro transmitiu o seu bispado a um seu sucessor (que segundo os teólogos católicos foi um bispo da Igreja de Roma do primeiro século depois de Cristo).

 

O apóstolo Pedro não foi constituído cabeça da Igreja e não deixou sucessores

 

O chefe do Estado do Vaticano não pode ser definido de nenhuma maneira o sucessor de Pedro. A razão é porque Jesus nunca conferiu a Simão Pedro o primado sobre os outros apóstolos e sobre a Igreja dizendo-lhe para depois transmiti-lo a outros; por conseguinte os que ensinam que ele estava à cabeça da Igreja de então e que o seu primado tenha sido por ele transmitido a algum outro ensinam uma falsa doutrina e enganam os que a aceitam. Agora demonstraremos pelas Escrituras o quanto acabado de dizer começando por explicar a passagem do "Tu és Pedro..." (Mat. 16:18) em Mateus, porque é sobre esta que os teólogos papistas se apoiam para explicar que Pedro foi constituído por Cristo cabeça e fundamento da Igreja, e portanto que foi o primeiro papa.

Ora, Jesus disse a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mat. 16:18,19). Estas palavras Jesus as dirigiu a Pedro depois que este lhe disse diante dos outros discípulos: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mat. 16:16), e nós cremos nele, com efeito, cremos que Jesus Cristo edificou a sua Igreja sobre a única pedra angular que existe em todo o templo de Deus e que é ele mesmo, o Filho de Deus, e não Pedro, nada tirando ao facto de Pedro ser uma parte do fundamento posto por Cristo sobre si. Que "esta pedra", a quem Jesus fez referência nessa resposta a Simão Pedro, é o próprio Jesus Cristo, e que o facto de pouco antes ele se ter dirigido a Pedro dizendo-lhe: "Tu és Pedro.." não significa que esta pedra é Pedro, o se deduz também pelo confronto com estas palavras que Jesus disse aos Judeus: "A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular... E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó" (Mat. 21:42,44). Porquê? Porque nestas palavras Jesus dizendo "sobre esta pedra" se referiu a ele mesmo e não a algum outro; certo não disse ‘sobre mim mesmo’, mas é evidente que falou dele e não de algum outro. Portanto, também o "sobre esta pedra" presente no discurso de Jesus a Pedro significa sobre Cristo e não sobre Pedro. Por isso, como Jesus quando disse "quem cair sobre esta pedra" não quis dizer: ‘Quem cair sobre Simão Pedro’, assim também quando ele disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" não disse: ‘Sobre Simão Pedro edificarei a minha igreja’, porque em ambos os discursos "esta pedra" é ele mesmo e nenhum outro.

As seguintes Escrituras testificam claramente que Pedro não foi constituído por Cristo nem o fundamento da Igreja, nem o príncipe dos apóstolos e nem o chefe supremo da Igreja.

Ÿ Paulo diz aos Efésios: "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra angular; no qual todo o edíficio, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor" (Ef. 2:19-21). A casa de Deus é uma casa espiritual formada por pedras vivas, isto é, por homens e mulheres vivificados por Cristo, e tem como fundamento na base dela Cristo Jesus, a pedra angular. Mas sobre Cristo foi posto um outro fundamento por Deus que é constituído pelos apóstolos e pelos profetas, e de facto nós filhos de Deus nos baseamos na nossa vida sobre os ensinamentos de Cristo Jesus, sobre os dos apóstolos e sobre as palavras dos profetas. Mas permanece o facto de a Cabeça e o Fundamento da Igreja permanecer sempre Cristo porque ele é o Salvador do corpo. Como podeis ver nas palavras de Paulo não se entrevê a mínima prova da supremacia do apóstolo Pedro sobre os outros apóstolos, precisamente porque Pedro é um dos apóstolos que formam o fundamento da Igreja e não o único apóstolo de que é formado o fundamento.

Ÿ O apóstolo Paulo diz aos Coríntios: "Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Cor. 3:10,11). Estas palavras de Paulo, junto com estas outras palavras suas escritas aos Romanos: "De maneira que desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo. E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio" (Rom. 15:19,20), confirmam que o fundamento da Igreja de Deus é Cristo Jesus, e não Pedro ou o seu presumido sucessor como antes afirma a igreja romana.

Ÿ O apóstolo Pedro na sua primeira epístola diz: "Chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual... Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido" (1 Ped. 2:4-6), e aos principais sacerdotes e aos anciãos disse do Cristo: "Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular" (Actos 4:11). Portanto Pedro definiu Jesus pedra viva, eleita e preciosa e também a pedra angular que Deus tinha prometido pôr em Sião depois de ter sido rejeitada pelos edificadores; portanto ele mesmo reconheceu que Cristo era a primeira pedra de toda a construção e que todos os crentes (ele incluído) eram como pedras vivas que se deviam chegar à pedra viva que é Cristo. Que fazem antes os teólogos católicos romanos? Desconhecem Cristo Jesus como a pedra angular, e de facto a igreja romana não tem como fundamento Cristo Jesus, mas o papado que funda a sua existência sobre a mentira e sobre a hipocrisia. Se a igreja romana estivesse verdadeiramente fundada sobre Cristo Jesus (como diz estar) ela se ateria às palavras de Cristo e não anularia o ensinamento de nosso Senhor Cristo Jesus e o dos apóstolos.

Ÿ Marcos diz: "Chegaram a Cafarnaum. E estando ele em casa, perguntou-lhes: Que estáveis discutindo pelo caminho? Mas eles se calaram, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles era o maior. E ele, sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos" (Mar. 9:33-35). Ora, se Pedro tivesse sido o príncipe dos apóstolos de certo Jesus o teria dito nesta ocasião em que os discípulos tinham discutido entre eles para saber quem era o maior; mas por aquilo que diz Marcos, Jesus não declarou Pedro o maior dos apóstolos. Ele disse que quem dentre eles queria ser o primeiro devia ser o servo de todos. E além disso, importa dizer que dado que esta disputa entre os discípulos aconteceu depois que Jesus declarou bem-aventurado Simão Pedro pela sua confissão de fé e lhe disse: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja..." (Mat. 16:18), é evidente que os discípulos a essas palavras de Jesus dirigidas a Pedro não lhes tinham de modo nenhum dado a interpretação que lhes dão os teólogos papistas. Porquê? Porque doutra forma eles não teriam discutido entre si quem era o maior, tendo sido a questão resolvida anteriormente por Jesus.

Ÿ Paulo aos Gálatas chama Tiago, Cefas, e João "aqueles que pareciam ser alguma coisa" (Gal. 2:6) e também aqueles "que gozam maior consideração" (Gal. 2:6 Riveduta), e diz que eles eram "considerados como as colunas" (Gal. 2:9) na Igreja. Também nestas palavras de Paulo, Pedro não ocupa uma posição de domínio sobre os outros apóstolos ou sobre a Igreja de Deus porque é contado entre as colunas da Igreja junto com outros dois apóstolos. Da forma como, pelo contrário, falam os teólogos católicos romanos Pedro era a coluna portante da inteira Igreja. Em quem crer pois? Em Paulo, de certo, porque ele falava da parte de Deus em Cristo

Ÿ Depois que Jesus foi elevado ao céu, antes que chegasse o dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro levantou-se no meio dos irmãos que estavam congregados, que chegavam quase a cento e vinte pessoas, e disse antes de tudo que tinha sido necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo tinha dito através de Davi acerca de Judas Iscariotes, depois disse estas palavras: "É necessário, pois, que, dos homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição" (Actos 1:21,22). E isso foi feito porque lançaram sortes entre Matias e José, e tendo sido sorteado Matias ele foi acrescentado aos onze. Notai que não foi Pedro a decidir quem devia tomar o lugar de Judas, mas a sorte. Isto confirma que Pedro no seio da Igreja não possuía o lugar de ‘chefe da Igreja’, como antes assegura a cúria romana, porque doutra forma teria escolhido ele o sucessor de Judas.

Ÿ Em Jerusalém quando se reuniram os apóstolos e os anciãos para discutir uma importante questão que tinha surgido, isto é, se circuncidar os Gentios e mandar-lhes observar a lei ou não, o apóstolo Pedro não ocupou a posição de príncipe dos apóstolos ou de bispo universal. Está escrito de facto: "E, havendo grande contenda levantou-se Pedro e disse-lhes: Varões irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem. E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; e não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós podemos suportar? Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles também" (Actos 15:7-11). Depois de Pedro falaram também Paulo e Barnabé, e por fim Tiago que foi o que julgou que não se devia perturbar os crentes dentre os Gentios, mas ordenar-lhes que se abstivessem das coisas sacrifícadas aos ídolos, da fornicação, das coisas sufocadas e do sangue. Ora, se Pedro tivesse tido a prioridade em todas as coisas seguramente isso se teria manifestado em Jerusalém naquela importante reunião, mas é necessário dizer que, ainda uma vez, da sua embandeirada supremacia não há a mínima prova. Pedro sim falou em primeiro, mas aquele que disse o que era necessário dizer aos Gentios evitar foi Tiago e não Pedro, de facto ele disse: "Pelo que julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus..." (Actos 15:19). E cuidai que o que Tiago disse não foi um conselho mas um juízo; digo isto porque os sustentadores do primado de Pedro tendem com os seus discursos a fazê-lo passar por uma simples sugestão.

Ÿ "Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João; os quais, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo. Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo" (Actos 8:14-17). Também neste caso não emerge da maneira mais absoluta que Pedro fosse o Príncipe dos apóstolos ou o chefe da Igreja. Notai de facto que Pedro foi enviado a Samaria juntamente com João pelos apóstolos que estavam em Jerusalém, e que tanto Pedro como João oraram pelos Samaritanos para que recebessem o Espírito Santo, o que está a indicar que ambos tinham o dom de impor as mãos aos crentes para que recebessem o Espírito Santo e não apenas Pedro.

Ÿ Pedro, tanto antes do dia de Pentecostes, como no dia de Pentecostes, como depois, e mais precisamente no caso da cura do coxo no templo, quando ele e João compareceram diante do Sinédrio, quando Ananias levou os denários aos pés dos apóstolos, e quando Simão ofereceu a ele e a João dinheiro para receber a autoridade de impor as mãos aos crentes para que recebessem o Espírito Santo, digo, em todas estas diferentes circunstâncias, ele se manifestou ser o primeiro a falar entre os apóstolos (cfr. Actos 1:15; 2:14; 3:12; 4:8; 5:3; 8:20), mas não o primeiro em importância entre os apóstolos. Vos recordo a tal propósito que Paulo e Barnabé tinham sido ambos separados por ordem do Espírito Santo em Antioquia, e ambos tinham sido enviados pelo Espírito Santo a fazer aquela obra, mas entre os dois Paulo era o primeiro a falar, de facto, em Listra as multidões depois de ter visto a cura feita por Paulo o chamaram Mercúrio "porque era o primeiro a falar" (Actos 14:12 Riveduta). Para confirmação disto vos recordo que em Antioquia da Psídia, quando os chefes da sinagoga mandaram dizer a Barnabé e Paulo que se tinham uma palavra de exortação a dizer ao povo a podiam dizer, foi Paulo a levantar-se e a falar em primeiro aos presentes (cfr. Actos 13:16). Mas tudo isto não nos leva a dizer que Paulo era superior a Barnabé ou o seu chefe. A mesma coisa se pode dizer do apóstolo Pedro em relação aos outros apóstolos; ele falava em primeiro, mas não tinha o primado nem sobre eles e nem sobre a Igreja.

Mas tudo isso que temos dito até aqui, embora seja provado pelas sagradas Escrituras, não encontra de modo algum o favor da igreja romana que lançou o seguinte anátema contra quem não reconhecer que o papa é por direito divino sucessor de Pedro sobre toda a Igreja: ‘Se, portanto, alguém disser que não é por instituição do próprio Cristo senhor, isto é, por direito divino que Pedro tem perpétuos sucessores no primado sobre toda a Igreja; ou que o Romano Pontífice não é o sucessor de Pedro neste primado; seja anátema’ (Concílio Vaticano I (1869-1870), Sess. IV, cap. II). Oh! quanto é verdadeira a palavra do profeta: "Nada sabem, nem entendem; porque se lhe untaram os olhos, para que não vejam, e o coração, para que não entendam" (Is. 44:18).

 

Explicação de algumas passagens tomadas para sustentar o primado de Pedro

 

Os teólogos romanos para sustentar que Jesus conferiu o primado do poder da Igreja a Pedro além das passagens mais conhecidas que são: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mat. 16:18), "Te darei as chaves do reino dos céus" (Mat. 16:19), e "Apascenta os meus cordeiros... Apascenta as minhas ovelhas... Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:15,16,17); tomam diversas outras passagens da Escritura que se referem a Simão Pedro. Vejamo-las, para ver se efectivamente estão a indicar que o apóstolo Pedro recebeu o primado sobre a Igreja primitiva.

Ÿ "Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lucas 22:31,32). Jesus disse estas palavras a Pedro na noite em que ele foi traido e os teólogos afirmam que este "confirma teus irmãos" está a indicar que Pedro recebeu a missão de reafirmar os seus irmãos, isto é, os apóstolos, entendendo com isto que também o papa, como é sucessor, recebeu a missão de confirmar os fiéis. Nós não temos nada a dizer sobre o facto de Jesus ter confiado a Simão Pedro a tarefa de confirmar os seus irmãos, pois isso é verdade. Mas com estas palavras Jesus não conferiu a Pedro nenhuma supremacia sobre os outros apóstolos, ou sobre a Igreja. Pedro recebeu de Jesus aquela particular missão naquela particular circunstância sabendo que os seus discípulos estariam dali a pouco dispersos e grandemente entristecidos por causa da sua morte; mas esta missão particular foi circunscrita no tempo e a Pedro. Queremos dizer com isto que a missão de confirmar os irmãos Jesus não a estendeu a presumidos sucessores de Pedro por todas as épocas vindouras, como antes afirmam os teólogos romanos. É sabido depois que os papas tomam estas palavras de Jesus para se arrogarem a todo o direito; entre os quais o direito de fazer todo tipo de leis eclesiásticas para confirmar os membros da igreja romana. E além disso queremos recordar, para sustento do facto de que não há uma particular pessoa (o chamado sucessor de Pedro) posta na Igreja pelo Senhor para confirmar todos os fiéis, que Paulo aos Coríntios diz que o Senhor os confirmaria conforme está escrito: "O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Cor. 1:8), e não Cefas, ou seja Simão Pedro, apesar de Cefas ainda estar vivo quando ele escreveu e tanto é verdade que na Igreja de Corinto haviam alguns que diziam ser de Cefas! Ora, ó teólogos romanos, à luz de quanto está escrito o que tendes a dizer? Se Pedro tinha que confirmar toda a Igreja como é que quando ainda estava vivo Paulo diz aos santos de Corinto que o Senhor os confirmaria? Certo, Deus se usa também dos seus ministros para confirmar os seus filhos, de facto, Paulo diz aos Tessalonicenses: "Enviamos Timóteo, nosso irmão, e ministro de Deus na propagação do evangelho de Cristo, para vos confirmar e vos confortar na vossa fé; para que ninguém seja abalado por estas tribulações" (1 Tess. 3:2,3); e Lucas diz que Paulo e Barnabé "tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio e Antioquia, confirmando os ânimos dos discípulos..." (Actos 14:21,22); mas de certo, e o dizemos com firmeza e clareza, Ele não se usará do papa dos Católicos para nos confirmar na fé, porque este não é um ministro de Cristo mas de Satanás. Não importa quanto os teólogos romanos embandeirem este versículo da Escritura que diz que Pedro deve confirmar os seus irmãos; este que se diz ser o sucessor de Pedro quer seduzir as mentes dos discípulos de Cristo e não confirmar as suas almas.

Ÿ "Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)" (João 1:42). Segundo os teólogos romanos Jesus lhe impôs o nome de Pedro para significar que se serviria dele como pedra sobre a qual depois constituiria, como sobre fundamento, a sua Igreja. Nós, pelo contrário, dizemos que se bem que Jesus lhe deu este sobrenome a Simão, que significa ‘rocha’, isso não deixa entrever da maneira mais absoluta que o apóstolo Simão Pedro foi constituído único fundamento da Igreja. Pedro como os outros apóstolos são parte do fundamento sobre o qual a Igreja foi edificada; também os outros apóstolos são portanto pedras como ele o é. E para confirmar que mesmo se Pedro recebeu este sobrenome não é o único fundamento da Igreja recordamos que João diz que o muro da nova Jerusalém "tinha doze fundamentos, e neles estavam os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro" (Ap. 21:14), e não o de Pedro somente. O facto de Jesus ter sobrenomeado Pedro Simão, tem de certo o seu motivo, porque Jesus não sobrenomeava as pessoas ao acaso ou sem motivo. Julgamos que Jesus tenha querido sobrenomeá-lo dessa maneira por causa da firmeza e da resolução vista neste seu discípulo. Tenhamos também presente que Jesus sobrenomeou igualmente Tiago e João, os filhos de Zebedeu, e não só Simão; Marcos diz de facto que Jesus lhes "pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão" (Mar. 3:17). Mas não é por Jesus ter posto este nome àqueles dois irmãos, que nós dizemos que eles receberam especiais poderes na Igreja.

Ÿ "E Entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco as multidões" (Lucas 5:3). Segundo os teólogos romanos também o facto de Jesus ter pregado do barco de Pedro e não do barco de um outro discípulo testifica o primado de Pedro. Louca dedução! Mas não é de admirar. Os teólogos romanos nos habituaram a ouvir coisas piores do que estas! Mas eu quereria dizer: ‘Mas então também o dono do jumento sobre o qual Jesus montou e entrou em Jerusalém teria que forçosamente ter uma posição altíssima na Igreja de Deus!’; e ainda: ‘Mas então também o dono da casa na qual Jesus escolheu comer a Páscoa teria que forçosamente ter uma eminente posição na Igreja, porque foi naquele aposento que Jesus instituiu a santa ceia!’. E desta passagem poderia prosseguir mas me fico por aqui.

Ÿ Mateus diz: "Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Felipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu" (Mat. 10:2-4). Com base na interpretação da cúria romana, o facto de Pedro ser nomeado em primeiro, e de estar escrito "o primeiro, Simão, chamado Pedro", significa que Pedro foi constituído por Cristo o príncipe dos apóstolos. Mas isso não pode ser verdade porque tempo depois, quando entre os discípulos surgiu a disputa para saber quem era o maior, Jesus não lhes disse: ‘Por que disputais? Não sabeis que o primeiro dentre vós é Pedro?’, mas lhes disse: "Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo" (Mat. 20:27). O facto de Pedro ser nomeado em primeiro na lista dos apóstolos não significa de modo nenhum que ele fosse o príncipe dos apóstolos porque este seu primado sobre os apóstolos não emerge das Escrituras. Se fosse assim como dizem os teólogos romanos Pedro deveria ser nomeado sempre em primeiro, mas ele nem sempre vem citado em primeiro: Paulo diz por exemplo: "E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão..." (Gal. 2:9), citando Pedro em segundo lugar, depois de Tiago; o anjo que apareceu às mulheres disse-lhes: "Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia..." (Mar. 16:7), citando Pedro depois dos outros discípulos.

Ÿ Paulo diz que Jesus Cristo "ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze..." (1 Cor. 15:4,5). Também isto, ou seja, que Jesus apareceu em primeiro a Pedro, e depois a todos os outros apóstolos, segundo os teólogos romanos, testifica o primado de Pedro. Mas nós consideramos antes que aqui não se vê nenhum primado, mas apenas o facto de Jesus ter aparecido primeiro a Pedro para que pudesse confirmar os seus irmãos, como lhe tinha dito antes de ser preso. E depois recordemos que se Pedro foi o primeiro dos discípulos a quem Jesus apareceu, é também verdade que ele "apareceu primeiramente a Maria Madalena" (Mar. 16:9) que foi anunciá-lo aos seus discípulos que, ouvindo que ele vivia e lhe tinha aparecido, não creram nela. Mas também aqui devemos dizer que o facto de Jesus ter aparecido primeiro a uma mulher do que a um homem não quer dizer que a mulher seja superior ao homem, ou que Maria Madalena por isso teve um qualquer primado entre as mulheres.

Ÿ Pedro disse em Jerusalém: "Irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem" (Actos 15:7). Deus escolheu entre os doze Pedro para fazer ouvir o Evangelho aos Gentios; esta escolha, para os teólogos romanos, testifica a supremacia de Pedro sobre os outros discípulos. Não é de modo nenhum verdade porque Deus não escolheu Pedro para aquela tarefa por ele ser o chefe dos apóstolos, mas por outros seus motivos. Recordemos que Pedro, embora Deus o tenha enviado àqueles Gentios para anunciar o Evangelho, foi constituído apóstolo da circuncisão e não apóstolo dos gentios porque neste ofício Deus constituiu Paulo. Aos Gálatas com efeito Paulo diz: "Aqueles que pareciam ser alguma coisa ... viram que o evangelho da incircuncisão me fora confiado, como a Pedro o da circuncisão" (Gal. 2:6,7); portanto Pedro foi enviado por Deus aos Judeus enquanto Paulo aos Gentios. Mas isso não indica nem que Pedro tivesse o primado na evangelização dos homens e nem que fosse príncipe sobre Paulo e sobre os outros apóstolos.

Fico-me por aqui com as passagens que se referem a Pedro que os teólogos romanos tomam para sustentar o primado de Pedro, mesmo se existem outras. Mas que lição tiramos nós de tudo isto? Pela enésima vez esta; que quando alguém quer sustentar uma falsa doutrina se usa também daquelas passagens da Escritura que segundo ele podem contribuir para confirmá-la dando-lhe as suas pessoais interpretações, mas também que ao fazer isso ele fica confuso. Neste caso os teólogos romanos para sustentar o primado de Pedro e a sucessão deste primado fazem acrobacias exegéticas verdadeiramente audazes; mas a sua estultícia é manifesta a todos os que conheceram a verdade e manejam bem a Palavra de Deus.

 

Aquele que é chamado papa não é o vigário de Cristo

 

Como vimos a igreja romana afirma que o chefe do Estado do Vaticano é o vigário de Cristo na terra, isto é, aquele que faz as vezes dele. Perardi exprime-se assim a tal respeito: ‘Este representa Jesus Cristo nesta terra, faz as vezes dele, e por isso rege e governa a Igreja em nome d`Ele’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 182).

A Escritura, pelo contrário, ensina que Cristo antes de voltar ao seu Pai não deixou o seu lugar a Pedro estebelecendo-o seu vigário na terra. O Senhor, antes de ir embora, prometeu aos seus discípulos que enviaria o Espírito Santo o qual os guiaria em toda a verdade e anunciaria muitas outras coisas, de facto disse: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há-de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar" (João 16:12-14). Jesus não disse aos seus: ‘Tendes convosco Pedro o qual vos guiará na verdade e vos fará saber as outras coisas que tenho a dizer-vos!’, portanto este que se define vigário de Cristo mente, porque na terra está o Espírito Santo que nos guia na verdade e nos faz entender qual seja a vontade do Senhor. Certo, Deus constituiu na sua Igreja os apóstolos, os profetas, os evangelistas, os pastores e doutores a fim de nos aperfeiçoar e de nos edificar mas também eles são guiados pelo Espírito da verdade. Enquanto o chamado papa não é guiado pelo Espírito da verdade mas é seduzido pelo diabo e isto é manifesto pelo facto de ele anular o Evangelho; portanto como pode ser considerado um ministro de Deus constituído por Deus para a edificação da sua Igreja?

 

Aquele que é chamado papa não é infalível ‘ex cathedra’

 

Começamos por dizer que os teólogos papistas dizem que o papa é infalível só quando ensina como papa, e não também quando ensina exprimindo o seu parecer pessoal; e que como homem, pode operar bem e operar mal, ou seja, pode pecar; mas em nosso juízo estas afirmações são só afirmações confortáveis que servem apenas para dizer, no caso do seu papa dizer alguma coisa de torto também aos olhos dos seus fiéis seguidores ou se fizer culpado de algum grave delito, que ele é um homem como todos os outros; portanto na substância constituem um escudo contra eventuais críticas. Mas nós dizemos: mas na prática qual é aquele Católico romano que não considera infalível as declarações do seu papa não feitas ‘ex catedra’? Mas qual é aquele fiel católico que ousa pôr em discussão as afirmações do seu papa feitas não ‘ex catedra’ quando o concílio Vaticano II disse que ‘esta Religiosa submissão da vontade e da inteligência deve ser, de modo particular, prestada ao autêntico magistério do Romano Pontífice mesmo quando não fala ‘ex catedra’ (Concílio Vaticano II, Sess. V. cap. III)? [3] E depois ainda: como fazem os teólogos para afirmar que o papa como homem pode pecar [4] e depois ao mesmo tempo afirmar que ninguém pode ‘reexaminar um juízo pronunciado pela sé apostólica - de quem não há autoridade maior -, como a ninguém é lícito julgar um juízo dado por ela’ (Concílio Vaticano I, Sess. IV, cap. III), quando a Escritura diz: "Não deixarás de repreender o teu próximo" (Lev. 19:17)? Como podeis ver nos encontramos pela enésima vez perante contradições que fazem compreender que o dogma da infalibilidade papal na realidade se estende também às declarações que não são catalogadas entre aquelas feitas ‘ex catedra’. Este seu dogma serve para incutir temor aos Católicos romanos fazendo-lhes crer que eles em Roma têm um chefe que possui uma particular assistência do Espírito Santo quando fala ‘ex catedra’, em virtude da qual não pode errar nessas suas declarações porque o Espírito Santo fala pela sua boca, e por isso quem se rebela às suas declarações é como se se rebelasse ao próprio Deus. Este dogma portanto é verdadeiramente uma arma poderosa nas mãos destes anticristos que se sucedem nos vértices da igreja católica romana porque mediante ele podem em qualquer momento confirmar ou introduzir a seu agrado tudo aquilo que mais lhes convier para dominar espiritualmente e materialmente as pessoas que estão debaixo deles. Eles sabem que qualquer coisa que digam ‘ex catedra’ haverão milhões de pessoas em todo o mundo que se terão que mostrar de acordo com eles senão quiserem incorrer na excomunhão por se terem rebelado ao chefe da Igreja e portanto a Cristo.

Mas a questão da infalibilidade papal, dado que ela foi declarada dogma só em 1870, faz surgir muitas perguntas como: ‘Mas se o papa desde 1870 em diante é declarado infalível quando fala em matéria de fé e de moral, como é que - e sobre isto estão de acordo muitos Católicos - muitos papas do passado quando falaram em matéria de fé erraram grandemente?’, e ainda: ‘Se as heresias que subscreveram os papas reconhecidos heréticos pelos próprios estudiosos católicos não eram declarações ex catedra quais eram as suas declarações ex catedra?’ Quando foi na substância que os papas falaram à inteira Igreja e de maneira definitiva? Alguns respondem a estes quesitos dizendo que os papas antes de 1854 não exercitavam a infalibilidade papal?! Como! - nós respondemos - então só desde 1854 em diante sob Pio IX o Espírito Santo começaria a assistir desta maneira o chefe da vossa igreja? Significa isso porventura que antes daquele tempo a Igreja de Deus sobre a face da terra não tinha um guia infalível em matéria de fé e de moral e que era necessário esperar Pio IX para tê-lo? Quis fazer este discurso para demonstrar quanto absurdo e contraditório é o dogma da infalibilidade papal. Agora demonstraremos antes de tudo como Pedro, de quem o chamado papa se diz o seu sucessor, não foi um homem infalível.

O apóstolo Pedro não foi infalível nem antes nem depois de Jesus lhe ter dito: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.." (Mat. 16:18), e disso exibimos as seguintes provas escriturais.

Ÿ Depois que Jesus dirigiu essas palavras a Simão Pedro, ele disse que tinha que ir a Jerusalém sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas e ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. "E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens" (Mat. 16:22,23). Pedro tinha crido que Jesus era o Cristo, mas como todos os outros Judeus pensava que o Cristo viria para restabelecer o reino em Israel e não para morrer pela nação de Israel; em outras palavras para reinar e não para se fazer meter na cruz. Esta é a razão pela qual quando ouviu dizer a Jesus que tinha que sofrer e ser morto se pôs a repreender o Senhor porque ele ainda não compreendia as coisas de Deus mas só compreendia as coisas dos homens. A compreensão das coisas de Deus ele adquiriu depois que Jesus Cristo ressuscitou. Jesus repreendeu severamente Pedro, chamando-o Satanás, porque aquelas palavras que ele disse as disse da parte de Satanás.

Ÿ Pedro negou o Senhor três vezes na noite em que Jesus foi traido (cfr. Lucas 22:54-62), mas depois se converteu.

Ÿ Paulo conta aos Gálatas como e por que se opôs a Pedro em Antioquia: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe na cara, porque era repreensível. Pois antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas quando eles chegaram, se foi retirando e se apartava deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimularam com ele, de modo que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam retamente conforme a verdade do evangelho, disse a Cefas na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, como é que obrigas os gentios a viverem como judeus?..." (Gal. 2:11-14). Pedro era repreensível, segundo Paulo, porque se pôs a dissimular e a obrigar os Gentios a viver como Judeus, e por isso Paulo o repreendeu perante todos.

Ÿ Quando Pedro em Jope teve a visão na qual o Senhor lhe disse: "Levanta-te, Pedro, mata e come" (Actos 10:14), ele respondeu: "De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda" (Actos 10:14), e por esta sua resposta o Senhor o repreendeu, de facto, lhe disse: "Não faças tu comum ao que Deus purificou" (Actos 10:15). Pedro sabia que Jesus tinha declarado todos os alimentos puros porque o tinha ouvido afirmar: "Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora?" (Mar. 7:18,19), mas naquela visão chamou imundos alimentos que Deus tinha purificado e por isso o Senhor o admoestou.

Como podeis ver também Pedro falhou em algumas coisas, mas aliás também ele era um homem da mesma natureza que nós. Tiago disse que "Todos falhamos [ ou tropeçamos] em muitas coisas" (Tiago 3:2) incluindo-se entre os que falham. E se ele, que era considerado uma coluna na Igreja de então, admitiu falhar, quem é este que foi definido infalível ex catedra? Certamente não um ministro de Cristo, mas um ministro de Satanás que engana as pessoas fazendo-lhes crer que ele quando fala em matéria de fé não pode errar.

Alguém dirá: Mas as epístolas de Pedro não são porventura infalíveis? Com certeza que o são, porque foram por ele escritas debaixo do impulso e guia do Espírito Santo. Mas certamente não se pode dizer que as epístolas dos papas sejam por eles escritas porque são movidos pelo Espírito Santo de Deus. E que dizer depois dos discursos de Pedro transcritos nos Actos dos apóstolos? Também esses são infalíveis porque foram pronunciados pelo Espírito Santo. Mas também neste caso não se podem de modo algum comparar os discursos solenes do papa a esses de Pedro porque eles estão cheios de todo o género de mentiras.

Ora, os teólogos católicos romanos ensinam que o papa ao ensinar as verdades reveladas por Deus - verdades de fé ou verdades de moral - é infalível como é infalível a igreja e dizem que o facto de o papa ser infalível resulta do Evangelho. Eis como se exprime Perardi no seu manual a tal respeito: ‘São Pedro (e na sua pessoa o Papa seu sucessor) é fundamento da Igreja; ele deve confirmar na fé os outros Pastores, deve apascentar todo o rebanho. Mas a Igreja não pode estar fundada sobre o erro; ela não estaria fundada sobre a verdade se o Papa não fosse infalível, pois é a pedra fundamental dela; nem o Papa poderia confirmar de modo certo os outros na fé, e em vez de apascentar o rebanho, ele poderia envenená-lo com o erro, se pudesse errar no ensinamento’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 208). Nós dizemos antes com o auxílio da sagrada Escritura que ele falha ao ensinar porque da sua boca saiem muitas mentiras mesmo quando ensina em matéria de fé e de costumes. E depois nos vêm dizer que ele foi estabelecido por Deus para confirmar na fé os pastores? Mas este não confirma na fé absolutamente ninguém porque em vez de pregar a palavra da fé como fazia Simão Pedro a anula com os seus preceitos. E depois nos vêm dizer que Deus o constituiu para apascentar o rebanho? Mas onde as conduz todas estas ovelhas que o seguem? Certamente não sobre o caminho da verdade que leva ao céu, mas sobre o da mentira que leva ao lago ardente de fogo e enxofre. A obra deste e dos seus bispos é uma obra de destruição porque ele destroi a vereda pela qual as ovelhas deveriam entrar para obter a vida de Deus. Bem profetizou o profeta Isaías deste quando disse: "Os que guiam este povo o desencaminham; e os que por eles são guiados são devorados" (Is. 9:16). Não, este não é de modo nenhum a pedra fundamental da Igreja, antes não é sequer uma das pedras vivas de que é composta a Igreja de Deus; não, nós não dizemos que ele poderia envenenar o povo se falhasse no ensinamento, mas dizemos que ele o envenena realmente porque a sua língua está cheia de peçonha mortal.

A verdadeira Igreja não sente de modo nenhum a necessidade deste chamado papa em matéria de fé ou de moral, ainda que este se declare infalível neste campo, porque ela possui o Espírito da verdade que a guia, a instrui, e a confirma: e nós sabemos que Ele não pode falhar. Também a Escritura constitui uma infalível guia para a Igreja. Isto porém não significa que não pode acontecer que os condutores ou aqueles por eles conduzidos introduzam na Igreja heresias de perdição. Porque isso pode acontecer, antes está estabelecido que aconteça nestes últimos dias porque se devem cumprir as seguintes Escrituras: "Dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas para atrair os discípulos após si" (Actos 20:30), "entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição" (2 Ped. 2:1); "importa que haja entre vós seitas, para que os aprovados se tornem manifestos entre vós" (1 Cor. 11:19); "Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios" (1 Tim. 4:1). Mas permanece o facto que o Espírito de Deus e a Palavra de Deus continuarão a guiar os fiéis que efectuam a sua salvação com temor e tremor de maneira a que não se percam. Podem vir a faltar ministros de Deus mas jamais virá a faltar a guia de Deus.

 

As provas da falibilidade dos papas

 

No curso dos séculos se sucederam centenas de papas na igreja romana. Ora, mediante os seguintes exemplos de papas que subscreveram heresias, se contradisseram e foram declarados heréticos, demonstraremos a falibilidade dos papas mesmo nas suas declarações oficiais:

Ÿ Libério (352-366) aderiu formalmente à heresia ariana (que negava a divindade de Jesus Cristo) [5], subscrevendo a profissão de fé herética do concílio de Sermio e chegando até a excomungar Atanásio que defendia a divindade de Cristo. Tanto os seus predecessores como ele próprio tinham já condenado a heresia de Ário; a seguir, os seus sucessores condenaram a heresia ariana.

Ÿ Inocêncio I (401-417) escreveu ao concílio de Milevis que os bebés estavam obrigados a receber a comunhão e que se morressem batizados mas não comungados, iriam igualmente para o inferno. A seguir, esta doutrina foi anulada pelo concílio de Trento em 1562 com a seguinte declaração: ‘Finalmente, o mesmo santo sínodo ensina que as crianças que carecem do uso da razão, por nenhuma necessidade estão obrigadas à comunhão sacramental da Eucaristia, porquanto, estando regeneradas e incorporadas em Cristo pelo lavacro do Batismo, não podem naquela idade perder a graça de filhos de Deus, que já adquiriram’ (Concílio de Trento, Sess. XXI, cap. IV), e ainda o concílio tridentino anatemizou quem a sustentar com a seguinte declaração: ‘Se alguém disser que a comunhão eucarística é necessária às crianças, antes de chegarem à idade da razão, seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. XXI, can. 4).

Ÿ Hormisdas (514-523) em 514 declarou heréticos certos monges da Scythia, porque sustentavam que um da Trindade tinha sofrido a morte da cruz; mas João II em 532 declarou aqueles monges ortodoxos (ou seja, pessoas que sustentavam uma doutrina recta) [6].

Ÿ Vigílio (537-555) em 553 com uma declaração oficial definiu conformes à doutrina católica alguns escritos denominados ‘Três capítulos’ (que ele próprio tinha condenado em 548). Mas o quinto concílio ecuménico (Constantinopolitano II) realizado em Constantinopola de 5 de Maio a 2 de Junho de 553 declarou solenemente que aqueles mesmos escritos deviam ser considerados heréticos. Mas Vigílio se resolveu a aceitar o concílio e as suas conclusões só a 8 de Dezembro. Ele retratou as suas recentes posições contrárias à condenação dos ‘Três capítulos’, de facto, escreveu ao patriarca de Constantinopola reconhecendo o seu erro e concluía dizendo-lhe: ‘Portanto o que fiz em defesa dos ‘Três capítulos’ é anulado com a definição do presente nosso escrito’ (Epístola a Eutíquio, Patriarca de Constantinopola, de 8 de Dezembro de 553).

Ÿ Gregório I dito Magno (590-604) disse que as crianças não batizadas vão direito para o inferno e lá em baixo sofrem pela eternidade. Ora, esta doutrina é condenada pela igreja romana porque ela diz que as crianças se morrerem não batizadas vão para um lugar chamado limbo (onde segundo eles não há alguma pena) e não mais para o inferno como antes afirmou Gregório I. Ainda Gregório afirmou que quem tomava o título de bispo universal era precursor do anticristo; enquanto Gregório VII (1073-1085) afirmou que o bispo de Roma é e deve ser chamado bispo universal; eis as suas palavras: ‘Só o pontífice romano tem o direito de ser chamado universal’ (Dictatus papae, ponto 2).

Ÿ Honório I (625-638) aprovou e ensinou a heresia dos monotelitas (os monotelitas afirmavam que em Cristo haviam duas naturezas, mas uma só vontade e uma só acção, a divina). Eis as suas palavras: ‘Nós confessamos uma vontade única de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque nele não estava vontade alguma da carne, nem repugnante ao querer divino’. Por esta sua tomada de posição foi condenado como herético pelo sexto concílio ecuménico em 681. Os papas sucessivos, confirmaram a condenação: entre estes Leão II que em 682 escreveu ao imperador Constantino dizendo ‘excomungar todos os heréticos, entre os quais Honório que não fez resplandecer a doutrina apostólica nesta igreja de Roma, mas que por uma profana traição tentou subverter a fé imaculada e todos os que morreram no seu erro’.

Ÿ Adriano II (867-872) declarou válido o matrimónio civil, enquanto Pio VII (1800-1823) o condenou.

Ÿ Pascoal II (1099-1118) e Eugénio III (1145-1153) autorizaram o duelo, enquanto Júlio II (1503-1513) e Pio IV (1559-1565) o proibiram.

Ÿ João XXII (1316-1334) em 1331 ensinou que as almas dos santos não tinham a visão de Deus antes da ressurreição da carne. Esta heresia foi condenada pelo seu sucessor Bento XII (1334-1342). E ainda João XXII na Bula Cum inter nonnullos de 1323 afirmou: ‘Dizer que Cristo e os apóstolos não possuíam nada significa falsear as Escrituras’ (citado por Peter de Rosa em Vicari di Cristo [ Vigários de Cristo] , Milano 1989, pag. 226) [7]; segundo ele portanto Cristo e os apóstolos não tinham vivido pobres. Isto antes de tudo contrasta a Palavra de Deus, e em segundo lugar está em plena contradição com o que tinham afirmado os seus predecessores Honório III, Inocêncio IV, Alexandre IV, Bonifácio VIII.

Ÿ Sisto V (1585-1590) em 1590 mandou publicar uma edição da Vulgata (que ele pessoalmente tinha reescrito para corrigir os erros que existiam nas edições publicadas até àquele tempo) e com uma bula declarou: ‘Na plenitude do poder apostólico, decretamos e declaramos que esta edição... aprovada pela autoridade Nos concedida pelo Senhor, deve ser recebida e considerada como verdadeira, legítima, autêntica e incontestada em todas as discussões públicas e privadas, nas leituras, nas pregações e nas explicações’. Pouco tempo depois da publicação da ‘sua’ Vulgata Sisto V morreu. Mas a Vulgata por ele publicada foi achada cheia de erros. O cardeal Bellarmino então para salvar a honra de Sisto V sugeriu ao seu sucessor Gregório XIV (1590-1591) corrigi-la e apresentá-la ao público com o nome de Sisto apresentando desculpas. Eis o que ele declarou na sua autobiografia Bellarmino: ‘Algumas, pessoas, cuja opinião tinha grande peso, consideravam que devia ser publicamente proibida; eu não era da mesma opinião e demonstrei ao Santo Padre que, em vez de proibir a versão da Bíblia em questão, seria melhor corrigi-la de modo tal a podê-la publicar sem prejuízos para a honra do papa Sisto. Isso se podia fazer eliminando o mais rápido possível as modificações desaconselháveis e publicando depois o volume com o nome de Sisto e um prefácio em que se explicava que na primeira edição se tinham verificado alguns erros devidos à pressa dos tipógrafos e de outras pessoas’ (em substância o cardeal lhe sugeriu para mentir). A Vulgata de Sisto depois de ter sido corrigida foi publicada em 1592 por Clemente VIII (1592-1605) que foi obrigado a retirar as cópias da anterior Vulgata que tinham sido introduzidas no mercado.

Ÿ Paulo V (1605-1621) em 1616 mandou admoestar Galileu Galilei o qual sustentava que a terra além de mover-se sobre si mesma gira em torno do sol. Num documento do Santo Ofício datado de 25 de Fevereiro de 1616 se lê: ‘O Ilustríssimo Senhor Cardeal Millino notificou ao Acessor e ao Comissário do Santo Ofício, que referida a censura dos Padres Teólogos sobre a proposição do matemático Galileu, que o sol seja o centro do mundo e imóvel de movimento local, e que a terra se move também de movimento diurno, o Santíssimo (Paulo V) ordenou ao Ilustríssimo Senhor Cardeal Bellarmino, de chamar perante si o predito Galileu, e de admoestá-lo a abandonar a dita opinião; e se recusar obedecer, o Padre Comissário, em frente de um notário e de testemunhas, o intime para que se abstenha totalmente de ensinar, defender ou de qualquer modo tratar essa doutrina ou opinião; se não consentir seja encarcerado’. E assim fez Bellarmino, e Galileu deu as garantias exigidas. Mas em 1632 (sob Urbano VIII) Galileu fez imprimir o livro Diálogo de Galileu Galilei sobre os dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolemaico e o Copernicano no qual sob a forma de um diálogo sustentava as convicções que não deveria difundir. E assim a Inquisição o chamou a Roma e o processou condenando-o de heresia. No veredicto emanado contra ele em 1633 se lê: ‘...Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileu supradito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste para este Santo Ofício veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura...’. E Galileu foi obrigado a abjurar as suas convicções e de facto afirmou jurando sobre o Evangelho: ‘...abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja...’. Em 1822 Pio VII ratificou um decreto da Inquisição autorizando todos os tratados copernicanos sobre astronomia, enquanto em 1835 as obras de Copérnico, Kepler e Galileu foram tiradas do Índice dos livros proibidos. Isto equivale a dizer que Paulo V e Urbano VIII, ao ensinar que a terra era imóvel e que o sol girava em torno dela e ao condenar como herética a tese de Galileu segundo a qual a terra roda em torno de si mesma e em torno do sol, erraram.

Ÿ Pio IX (1846-1878) em 1854 decretou a imaculada conceição de Maria, doutrina esta que vai abertamente contra a Escritura que ensina que só Jesus foi concebido sem pecado. Mas o que queremos fazer notar é que ela foi condenada por diversos predecessores de Pio IX (como Gelásio I, Gregório dito Magno, Inocêncio III e Leão Magno) e é contrária ao unânime consenso dos chamados pais.

Estes não são senão alguns dos exemplos de heresias e de contradições papais que anulam a doutrina da infalibilidade do papa. Como pode portanto afirmar Giuseppe Perardi no seu Manual que ‘nunca houve Papa que tenha ensinado uma doutrina que tenha merecido censura; o Papa ensinou sempre a verdade, reprovou o erro nos outros chamando-os à verdade’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 209) e que ele não pode errar quando define doutrinas acerca da fé [8]? Como pôde este teólogo fazer tais afirmações quando Adriano VI (papa da igreja romana) em 1523 disse: ‘Se por Igreja romana se entende o seu chefe ou pontífice, é indiscutível que ele possa errar mesmo sobre assuntos concernentes a fé. O faz quando prega a heresia nos seus juízos ou nas suas decretais. Na verdade muitos pontífices romanos foram heréticos, e o último deles foi papa João XXII (1316-1334)’ (citado por Peter de Rosa in op. cit., pag. 217)?

E ainda dizemos: ‘Mas como pôde Pio IX, perante tantos exemplos de papas que ensinaram coisas falsas, declarar errada a seguinte afirmação: ‘Os Pontífices Romanos (...) erraram, mesmo nas definições de fé e de moral’ (Sílabo dos Erros, XXIII)? É preciso verdadeiramente ou muita ignorância ou muita má-fé para fazer semelhantes afirmações.

E depois, não acabou, os teólogos romanos dizem também que as decisões dos papas são parte da tradição que deve ser venerada a par da Escritura! Mas como podem dizer isso quando os próprios papas se contradisseram entre eles e foram excomungados? Como podem confiar nesta sua tradição que se contradiz a si mesma e se anula a si mesma e contradiz e anula a Palavra de Deus? O expliquem os teólogos católicos romanos! Vede, para mais confirmações sobre a inatendibilidade da tradição, a parte onde confutei a tradição).

 

Aquele que é chamado papa não é de modo nenhum o santo Padre (ou Pai)

 

Que dizer depois do facto de o chefe do Estado do Vaticano se fazer chamar pai santo? Dizemos que tanto ele que se faz chamar assim como os que o chamam assim estão no erro. Jesus disse: "A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus" (Mat. 23:9); portanto o nosso Pai está no céu e não sobre a terra. Para confirmação que nenhum outro, além de Deus, é digno de ser chamado Pai santo vos recordo que o Filho de Deus nos dias da sua carne chamou "Pai santo" (João 17:11) o seu Pai que está no céu; portanto imitemos Cristo.

 

Aquele que é chamado papa não tem o poder de fazer santo ninguém

 

A Enciclopédia Católica na palavra ‘canonização’ afirma: ‘A canonização é um acto ou sentença definitiva, com a qual o Sumo Pontífice decreta que um servo de Deus, já contado entre os beatos, seja inscrito no catálogo dos santos e se venere na Igreja universal com o culto devido a todos os canonizados’ (Enciclopédia Católica, vol. 3, 569) [9]. Aquele que é chamado papa portanto tem também o poder de declarar santos alguns que durante a sua vida se distinguiram por virtudes heróicas ou por qualidades suas particulares. Mas que diz a Escritura? Antes de tudo a Escritura diz que Aquele que santifica e declara santos é Cristo conforme está escrito: "Pois tanto o que santifica como os que são santificados, vêm todos de um" (Heb. 2:11); e depois ela ensina que todos os crentes são santos (tanto os que vivem sobre a terra como os que morreram e estão agora na presença do Senhor), porque eles foram santificados "pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre" (Heb. 10:10).

As seguintes Escrituras testificam que nós filhos de Deus fomos santificados e por isso somos os santos que estão sobre a terra.

Ÿ Paulo escreveu aos Coríntios: "Paulo, chamado para ser apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus" (1 Cor. 1:1,2), e ainda: "Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus" (1 Cor. 6:9-11);

Ÿ aos Filipenses: "Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos" (Fil. 1:1);

Ÿ aos Colossenses: "Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo que estão em Colossos.." (Col. 1:1,2);

Ÿ aos Romanos: "Aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos" (Rom. 8:27), e também: "Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos" (Rom. 15:25).

Como podeis ver por vós mesmos os santos não são os canonizados pelo chefe do Estado do Vaticano mas os feitos tais por Deus pelo Espírito, por isso a canonização feita no seio da igreja romana é uma prática que se opõe à Escritura e que não tem nenhum valor. (Vede também ‘Aqueles que a igreja católica romana faz santos não eram mais do que pecadores que agora estão no inferno’ e ‘Os falsos milagres operados pelas relíquias dos seus santos’).

 

Aquele que é chamado papa não tem as chaves do reino dos céus

 

Jesus disse um dia a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mat. 16:19). Estas palavras são tomadas pelos teólogos católicos romanos para sustentar que como o chefe do Estado do Vaticano é o sucessor de Pedro, por conseguinte ele possui as chaves do reino de Deus, e por isso quem quer entrar no reino de Deus deve forçosamente entrar a fazer parte da igreja romana (e isto pode acontecer reconhecendo o chefe do Estado do Vaticano como chefe da Igreja); porque fora dela (a igreja romana), eles dizem, está a perdição, dentro, pelo contrário, há a salvação! Ora, as referidas palavras de Jesus ao apóstolo Pedro foram mal interpretadas pelos Católicos romanos: naturalmente eles esta errada interpretação (como muitas outras) têm todo o interesse em fazê-la e em conservá-la porque ela serve-lhes para fazer parecer aos homens que o chefe do Estado do Vaticano está investido de uma autoridade particular como o esteve o seu (presumido) predecessor Pedro! Já demonstrámos amplamente que aquele que eles chamam papa é um impostor, e não o sucessor de Pedro, porque Pedro não foi o primeiro vigário de Cristo que antes de morrer deixou o seu vicariato a um seu sucessor. Ora, vamos explicar a questão das chaves do reino dadas a Pedro.

Nós cremos firmemente que Jesus deu as chaves do reino dos céus a Pedro mas isso não significa que Pedro recebeu a autoridade de fazer santo quem ele queria, ou de salvar e perder quem ele queria ou que recebeu uma particular autoridade que o elevava acima de todos os outros apóstolos e da Igreja inteira ou a de depôr os reis anticristãos dissolvendo os seus súbditos do juramento de fidelidade. Ora nós, usando-nos de outras Escrituras, faremos algumas considerações sobre as palavras de Jesus a Pedro, a fim de explicar o que são estas chaves do reino dos céus que Jesus deu a Pedro e no que consiste este poder de ligar e desligar.

Ÿ Jesus, o Filho de Deus, estava com o Pai no reino dos céus antes da fundação do mundo: ele desceu do céu. Se pois falou de chaves do reino dos céus, quer dizer que o reino de Deus tem uma porta pela qual lá se entra, doutra forma não se explica a imagem das chaves usada por Jesus.

Ÿ Jesus quando repreendeu os escribas e os Fariseus disse-lhes: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar os que procuram entrar" (Mat. 23:13), e também: "Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam" (Lucas 11:52). Destas palavras emerge claramente que os escribas com os Fariseus fechavam o acesso ao reino dos céus tanto a eles como aos que procuravam lá entrar. Ora, para fechar o reino dos céus a eles e aos outros deviam necessariamente ter à sua disposição uma chave; e esta chave era a chave da ciência que eles tinham tirado. Eles sentavam-se na cadeira de Moisés e instruíam o povo mediante a lei mas com os seus ensinamentos tinham feito cair muitos no pecado porque eles eram preceitos de homens que anulavam a Palavra de Deus. Portanto os escribas e os Fariseus tinham tirado à Palavra de Deus o seu verdadeiro significado e a sua eficácia porque a tinham anulado com a sua tradição. É claro que falseando o sentido da Palavra de Deus, não só eles não entravam no reino dos céus como não entravam também os que eles instruíam. Jesus os chamou "guias cegos" (Mat. 23:16) precisamente por isso, porque, tendo anulada a Palavra de Deus, não eram idóneos para guiar o povo. Explicamos este conceito com um exemplo tirado das Escrituras: vós sabeis que um dia Jesus disse àquele jovem rico que lhe perguntou o que devia fazer de bom para herdar a vida eterna, que se queria entrar na vida devia guardar estes mandamentos: "Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mat. 19:18,19). Como podeis ver entre os mandamentos enunciados por Cristo está também o de honrar pai e mãe, que era um dos mandamentos que os escribas e os Fariseus tinham anulado dizendo: "Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe" (Mat. 15:5,6). Portanto, como poderiam entrar na vida os escribas e os Fariseus e aqueles por eles guiados não guardando o mandamento de honrar o pai e a mãe como ensinava a lei do Senhor? Resumindo: a lei era a chave que os escribas e os Fariseus tinham para aceder eles próprios e para fazer aceder os outros ao reino dos céus, mas eles a tiraram porque anularam a lei com a sua tradição. Mas os escribas e os Fariseus fecharam o reino dos céus a eles próprios e às pessoas também porque não reconheciam em Jesus de Nazaré o Messias. Diziam de Jesus: "Este homem não é de Deus.." (João 9:16), e: "Nós sabemos que esse homem é pecador" (João 9:24), e ainda: "Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios" (Mat. 12:24); e como eles se sentavam na cadeira de Moisés estas coisas que eles diziam sobre Jesus eram aceites por muitos Judeus, os quais por isso eram impedidos pelas suas palavras de entrar no reino de Deus, dado que nele só se pode entrar reconhecendo em Jesus o Cristo de Deus.

Ÿ As chaves do reino dos céus de que falou Jesus a Pedro eram constituídas pelas sãs palavras do Senhor Jesus Cristo; palavras que ele tinha recebido do Pai e que deu também a Pedro. Dizemos também a Pedro e não só a Pedro porque Jesus deu a Palavra de Deus (as chaves para ligar e desligar) também aos outros apóstolos conforme está escrito: "Lhes dei as palavras que tu me deste, e eles as receberam..." (João 17:8).

Ÿ Pedro, por meio das chaves que recebeu de Jesus, no dia de Pentecostes permitiu a muitos Judeus entrar no reino de Deus. Naquele dia muitos Judeus, depois que o ouviram pregar, compungiram-se em seu coração e disseram a Pedro e aos outros apóstolos: "Que faremos, irmãos? Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar" (Actos 2:37-39). Notai que aqueles Judeus na substância perguntaram o que tinham que fazer para entrar no Reino de Deus e que Pedro o lhes disse com toda a franqueza. A resposta que Pedro lhes deu era a Palavra do Reino e para aqueles Judeus foi a chave que lhes permitiu entrar no Reino de Deus. Como podeis ver Pedro não fechou o reino dos céus àqueles Judeus, como faziam antes os escribas e os Fariseus, porque ele disse-lhes que Deus tinha feito Senhor e Cristo aquele Jesus que eles tinham crucificado (cfr. Actos 2:36) e o que eles tinham que fazer para entrar no reino dos céus segundo as palavras recebidas de Cristo Jesus.

Ÿ Segundo o que ensina a Escritura, todos os crentes possuem a chave para fazer entrar os pecadores a fazer parte da Igreja de Deus, porque todos os crentes conhecem a maneira em que se entra a fazer parte dela e a podem referir aos de fora. Quando um filho de Deus diz a alguém que ainda está perdido: ‘Arrepende-te dos teus pecados, crê no Senhor Jesus e serás salvo’, não está fazendo mais do que dizer-lhe aquilo que deve fazer para entrar no reino dos céus e por isso é um instrumento do qual Deus se usa para conduzir a ovelha perdida ao aprisco do Sumo Pastor.

Ÿ O facto de desligar e ligar está presente também nestas palavras que Jesus dirigiu a todos os seus discípulos: "Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada. Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu; e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu" (Mat. 18:15-18). Neste caso o ligar na terra consiste em excluir da comunidade um irmão que peca contra um outro irmão e recusa ouvir tanto o irmão a quem fez o agravo, como as testemunhas, como também a Igreja; neste caso Jesus disse: "Considera-o como gentio e publicano" para significar que não se devem mais ter relações com este. O desligar na terra consiste antes em voltar a ter relação com um irmão que pecou contra um outro irmão e que depois de ter sido repreendido se arrepende do seu pecado. Pelas palavras de Jesus tanto o que ligarmos como o que desligarmos é ligado e desligado também no céu. Queria fazer-vos notar que o ligar está relacionado com a obstinação e o desligar com o arrependimento do irmão que depois de ter pecado é repreendido; a mesma coisa se pode dizer também do ligar e do desligar em relação aos que estão fora do reino de Deus, porque se o pecador ao ouvir a palavra da salvação se obstina em seu coração e não a aceita, ele é ligado por aquele que lhe anuncia o caminho da salvação, ou seja, é mantido fora do Reino porque os seus pecados lhe são retidos; enquanto se o pecador se arrepende e aceita a Palavra então é desligado da sua ligação ao pecado pela Palavra e é feito entrar no Reino de Deus porque os seus pecados lhe são perdoados. Em relação à autoridade de desligar recebida por Pedro, recordamos que tanto no dia de Pentecostes como no dia em que Pedro curou o coxo à porta do templo dita ‘Formosa’, muitos Judeus foram por ele ‘desligados’ da forte ligação da lei pela palavra da pregação porque eles, aceitando a palavra que ele lhes pregou, obtiveram de Deus a remissão dos seus pecados. Também a respeito de Cornélio e dos seus parentes se pode dizer que eles foram por ele ‘desligados’ pela palavra da sua pregação; porque o anjo que tinha aparecido a Cornélio lhe tinha dito que Simão lhe falaria de coisas pelas quais seria salvo ele e a sua casa. Em relação à autoridade de ligar é necessário antes dizer que os que durante a sua vida rejeitaram a palavra por ele pregada foram por ele ligados e permaneceram fora porque, rejeitando-a, os seus pecados lhes foram retidos. Por quanto respeita à autoridade de ligar e de desligar no interior da Igreja que também Pedro tinha recebido de Cristo, recordamos o caso de Simão em Samaria. Este crente, quando viu que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro dizendo-lhes que dessem também a ele aquela autoridade. Mas Pedro o repreendeu severamente pelo seu pecado dizendo-lhe: "Arrepende-te, pois, dessa tua maldade... pois vejo que estás em fel de amargura, e em laços de iniquidade" (Actos 8:22,23); ele fez o que o Senhor tinha dito que se devia fazer em relação a um irmão que tinha pecado, com efeito o repreendeu. Ora, nós não sabemos se Simão se arrependeu e foi desligado, ou se obstinou-se e foi ligado; certo é que se se arrependeu foi perdoado e ganho, mas se se obstinou em seu coração foi ligado e excluído da comunidade dos santos de Samaria.

No passado houveram chefes do Estado Pontifício que excomungaram homens que proclamaram a verdade. Foram por eles excomungados pregadores do Evangelho, tradutores da Bíblia, e muitos outros; porque segundo os guias desta organização religiosa eles ameaçavam o cristianismo e queriam destruir a Igreja mediante os seus ensinamentos. Os guias cegos pensaram assim ter excluído da única e verdadeira Igreja homens perversos; mas as coisas não eram de modo nenhum assim, porque aqueles que eles chamavam perversos ou pestes, não saíram da Igreja de Deus mas sim entraram nela depois de saírem daquele cárcere subterrâneo que é a chamada santa igreja apostólica que é tal só de nome mas não de facto porque não é nem uma santa assembleia de resgatados e nem apostólica, porque os seus aderentes ainda não foram resgatados do poder de Satanás e ela de modo nenhum se atém à doutrina dos apóstolos. Graças sejam dadas a Deus, por meio de Cristo Jesus, por ter iluminado a mente de muitos destes ‘excomungados’ da igreja romana; porque por meio deles a palavra da fé começou a ser pregada com franqueza e com força, as sagradas Escrituras começaram a ser traduzidas na língua do povo e muitos puderam ser salvos pelo Evangelho.

O chefe do Estado do Vaticano que neste momento é João Paulo II pretende ter as chaves do reino dos céus, mas os factos demonstram que ele não as possui e portanto não pode permitir o acesso ao reino de Deus a nenhum dos que confiam nas suas palavras. Ele ensina que Maria é ‘a porta do céu’, ‘a dispensadora dos dons celestes’ ‘a co-redentora com nosso Senhor’; portanto induz as pessoas a confiar em Maria para a sua salvação enganando-as. Ele ensina também que a vida eterna a se deve merecer fazendo boas obras enquanto a Escritura afirma que a vida eterna é dom de Deus. Como pode portanto afirmar ter as chaves do reino dos céus? De certo, este ensinando tais mentiras aos homens, fecha a ele próprio e aos outros o reino de Deus. A verdade é que este homem, junto com os seus colaboradores dispersos pelo mundo inteiro, está conduzindo milhões de almas à perdição. E depois os teólogos romanos se escandalizam quando nos ouvem pregar contra a tradição católica romana porque com ela eles anulam a Palavra de Deus; se escandalizam como se escandalizaram os Fariseus quando ouviram dizer a Jesus que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai dela. E por que é que os Fariseus se escandalizaram? Porque Jesus com aquelas palavras fez compreender às multidões que a tradição dos Fariseus era mentira. Mas que disse Jesus aos seus discípulos, quando soube por eles que os Fariseus tinham ficado escandalizados pelo seu discurso? "Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Mat. 15:13,14). Estas palavras são aplicáveis à cúria romana.

 

O luxo, as riquezas e o poder temporal daquele que se diz o vigário de Cristo e o sucessor de Pedro confirmam que ele não pode ser um servo de Deus

 

Quando se fala do falso doutor que tem a sua residência aqui em Roma, mais precisamente na Cidade do Vaticano, e me refiro àquele que falsamente é chamado sumo pontífice, não se pode não falar do luxo, das riquezas e do poder temporal que ele possui. Ora, o papa dos Católicos romanos diz de fazer as vezes de Cristo na terra e de ser o sucessor de Pedro. Portanto seria de esperar ver um homem que segue as pisadas de Jesus Cristo e as do apóstolo Pedro, isto é, que andasse em toda a humildade como fizeram Jesus e Pedro. Mas nós dizemos: Onde está esta humildade nele? Nós não a vemos de modo nenhum. Vemos só altivez e luxo. Jesus era pobre e viveu humildemente na terra e isso o demonstrou abertamente, de facto, não tinha um lugar onde reclinar a cabeça, não andou vestido com trajes magníficos, e não viveu em delícias como faz aquele que se faz chamar o seu vigário que habita num palácio no Vaticano composto por centenas de divisões, veste vestimentas feitas com tecidos preciosos e adornadas de ouro e vive nas delícias. Um dia Jesus depois de ter morto a fome a uma multidão com apenas cinco pães e dois peixes, como soube que estavam vindo para arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se para o monte sozinho, portanto recusou ser consagrado rei pelos homens, enquanto aquele que se proclama o seu vigário na terra quando se torna papa se faz declarar soberano de um Estado. Jesus diante de Pilatos disse que o seu reino não era deste mundo, mas o papa que se diz seu vigário antes demonstra procurar o poder temporal em todo o tempo e de querê-lo estender sempre mais sobre a terra de toda a maneira e não se envergonha de viver e de falar como um poderoso da terra. Jesus entrou em Jerusalém sobre um jumentinho mas ele viaja gozando de todo o conforto e de todo o luxo, exactamente como qualquer rei da terra, senão mais. Jesus veio para servir e para dar a sua vida por nós e portanto não tinha consigo guardas a protegê-lo para que os Judeus não lhe fizessem algum mal, mas este é escoltado por guarda-costas que têm ordem para matar caso a sua vida seja posta em perigo, e além disso é servido por um exército de guardas suíços; é verdadeiramente um príncipe da terra e não um homem que segue as pisadas de Cristo Jesus.

Também Pedro era um homem humilde e pobre que não fazia de modo algum o tipo de vida que faz aquele que se diz o seu sucessor. À porta do templo dita ‘Formosa’, ele disse ao coxo: "Não tenho prata nem ouro...." (Actos 3:6), portanto não possuía sequer dinheiro para fazer uma esmola naquela ocasião, mas aquele está à cabeça de um império que ostenta enormes riquezas e como diz o Código de direito canónico ‘é o supremo administrador e dispensador de todos os bens eclesiásticos’ (Código de direito canónico, can. 1273). Parece um rei Salomão dos tempos modernos em riquezas (não em sabedoria), e não um apóstolo de Cristo que vive humildemente com o seu Deus como o foi Pedro. Em casa de Cornélio, quando Cornélio se lhe fez ao encontro e se lançou aos seus pés e o adorou, Pedro o tornou a levantar dizendo: "Levanta-te, que eu também sou homem!" (Actos 10:26), mas da forma como age este chamado sucessor de Pedro, é como se ele dissesse às pessoas: ‘Abaixai-vos diante de mim porque eu sou Deus para vós’. Sim, com efeito o papa dos Católicos considera ser Deus na terra. E tal o consideram os Católicos romanos porque é por eles adorado, beijado, e cantam-lhe cânticos. A cerimónia de coroação é um claro exemplo de como com efeito este homem é considerado ser Deus. Se lê por exemplo na Enciclopédia Católica que durante esta cerimónia ‘o pontífice vai ao trono onde recebe a última adoração. Os cardeais beijam o pé e a mão do papa que os abraça duas vezes, os patriarcas, os arcebispos e os bispos beijam-lhe o pé e o joelho direito, os abades mitrados e os penitenciários lhe beijam o pé’ (Enciclopédia Católica, vol. 6, 1781) [10]. Ou melhor, o papa é considerado maior do que Deus porque o cardeal Bellarmino, feito santo, declarou que os homens devem obedecer ao papa, mesmo se este ensina coisas tortas, antes que a Deus. Eis as suas palavras: ‘Se porém o Papa errasse, ordenando os vícios, ou proibindo as virtudes, a Igreja é obrigada a crer que os vícios sejam coisa boa, e as virtudes más, senão se quiser pecar contra a consciência. Se é obrigado ainda, nas coisas dúbias, estar ao juízo do Sumo Pontífice, e fazer aquilo que ele manda, e não fazer aquilo que ele proíbe, e para que não se aja contra consciência, se é obrigado a crer que seja bom o que ele manda, e mau o que ele proíbe’ (Bellarmino, De Rom. Pontifice, Lib. IV, cap. 23). Notai que no caso de o papa ensinar a perversão o Católico é obrigado a obedecer-lhe para não pecar contra a consciência! Mas nós dizemos: Mas não é porventura verdade o contrário? Isto é, não é porventura verdade que se o papa diz uma mentira, porque tal se demonstra à luz da Escritura, os homens não devem obedecer-lhe por causa da consciência? Certamente que assim é: mas não para muitos Católicos romanos cegados pelo diabo. Não há dúvida, das palavras de Bellarmino se evidencia que importa antes obedecer ao papa do que a Deus, que entre o que diz o papa e o que diz a Palavra de Deus, o que diz o primeiro é superior. E nós não podemos senão exprimir o nosso ódio por essas loucas palavras, que repito são produzidas pela boca de um ‘santo’ da igreja católica romana (o que significa que também as suas palavras são consideradas santas).

Não se pode pois de modo nenhum dizer que este homem seja um exemplo de vida para os crentes como o foram os apóstolos. Paulo pôde bem dizer aos santos de Corinto: "Sede meus imitadores" (1 Cor. 11:1), e aos de Filipos: "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco" (Fil. 4:9), porque ele era imitador de Cristo e não de um qualquer déspota da terra, mas aquele que afirma ser nada menos que o vigário de Cristo não pode de modo algum dizer aos homens para viverem como ele vive para serem um exemplo neste mundo porque faz uma vida que se adequa a um príncipe e não a um ministro de Cristo. Como podem dizer portanto os Católicos que nós falamos mal do seu chefe sem razão quando ele com a sua conduta demonstra abertamente de não ter em nenhuma consideração os mandamentos de Cristo mas de exaltar-se contra Cristo? Se nós fôssemos caluniadores de um ministro de Cristo que se conduz de modo digno de Deus sem dar motivo de escândalo em coisa alguma certamente seríamos envergonhados pela sua própria conduta porque seria irrepreensível mas este de modo algum tem em consideração as palavras de Pedro: "Assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos" (1 Ped. 2:15). Se ele portanto fizesse a vontade de Deus (como pretende fazê-la), e se nós fôssemos insensatos teríamos a nossa boca tapada; mas nós não somos homens insensatos que têm prazer em dizer mal da recta conduta de alguém e por isso a nossa boca não pode ser de alguma maneira tapada porque diz a verdade. Jesus um dia disse estas palavras ao guarda do sumo sacerdote que o feriu: "Se falei mal, dá testemunho do mal" (João 18:23); portanto, se nós que dizemos a propósito daquele (que foi chamado pelo cardeal Bellarmino com quinze nomes diferentes que são: ‘Papa, Padre dos padres, Pontífice dos cristãos, Sumo Sacerdote, Príncipe dos sacerdotes, Vigário de Cristo, Cabeça do corpo da Igreja, Fundamento da Igreja, Pastor do aprisco de Cristo, Pai e Doutor de todos os fiéis, Reitor da casa de Deus, Guarda da Vinha de Deus, Esposo da Igreja, Primaz da Sede apostólica, Bispo universal’ [Bellarmino, De Rom. Pontif. lib. II, cap. 31]) que é um anticristo dizemos uma coisa não verdadeira o demonstrem os teólogos papistas que falámos mal.

 

O apóstolo Pedro não fundou a Igreja de Roma e não foi bispo dela

 

Os teólogos Católicos romanos, apoiando-se na tradição, afirmam que Pedro veio a Roma, fundou a Igreja de Roma exerceu o ofício de bispo universal em Roma por vinte e cinco anos (de 42 a 67) e antes de morrer transmitiu o seu cargo aos seus sucessores.

Comecemos com a vinda de Pedro a Roma: a Escritura não fala dela como, pelo contrário, faz da vinda de Paulo, portanto não podemos confirmá-la com a Escritura. Isto não nos leva porém a dizer que Pedro nunca veio a Roma; pode também ser verdade que Pedro tenha vindo a Roma. Mas no caso de ter vindo é recusável o facto que ele tenha sido o fundador dela porque a Igreja de Roma já existia antes que ele lá fosse, de facto se presume que ela foi fundada por aqueles adventícios Romanos que no dia de Pentecostes depois de ter ouvido a pregação de Pedro se converteram a Cristo. Se Pedro tivesse sido o pastor dela ou um dos anciãos certamente Paulo na sua epístola à Igreja de Roma não teria omitido o seu nome quando no fim dela diz para saudar os santos referindo o nome deles, enquanto, ao contrário, o nome de Pedro não está incluído naquela lista (cfr. Rom. 16:3-15). Pode alguma vez ser que o primeiro papa, o primeiro bispo universal, o vigário de Cristo, assim como o chama a igreja católica romana, o primeiro bispo de Roma não tenha sido citado minimamente por Paulo embora estivesse em Roma? Como se explica tudo isso. Explica-se com o facto que Pedro não estava nem em Roma naquele tempo e muito menos era bispo universal como antes querem fazer crer os Católicos. Mas os Católicos não se rendem perante a evidência, e dizem que a prova de que Pedro foi a Roma está na Escritura e se encontra na primeira epístola de Pedro onde ele diz: "A igreja que está em Babilónia eleita como vós, vos saúda.." (1 Ped. 5:13); onde por Babilónia se entende Roma. Não estamos por nada de acordo com esta interpretação dada a Babilónia, porque aqui por Babilónia deve-se entender a cidade de Babilónia e não a cidade de Roma. Por que é que Pedro alguma vez chamaria a Roma Babilónia? Mas quem é que também hoje escrevendo desde Roma diria que os santos que estão em Babilónia dão as suas saudações? Nós consideramos que se Paulo nas suas epístolas tinha chamado Roma desta maneira (cfr. Rom. 1:7; 2 Tim. 1:17), também Pedro se tivesse citado Roma a chamaria assim. O facto pois de falar de Babilónia quer dizer que naquele tempo quando escrevia aquela epístola se encontrava em Babilónia (no Oriente portanto) com os santos daquela cidade. Com isto porém não queremos dizer que Pedro nunca tenha estado em Roma, mas apenas que Babilónia é Babilónia, e não Roma.

Depois de ter demonstrado que Pedro não foi constituído por Cristo cabeça da Igreja, e que não se sabe se tenha vindo a Roma mas sabe-se que se alguma vez veio a Roma não fundou aqui a Igreja, mas quando aqui veio a Igreja já existia e tinha um colégio de anciãos a conduzi-la, resulta claro pois que a chamada sucessão apostólica, que os teólogos católicos dizem possuir ininterrupta desde Pedro até agora, é uma invenção papista para fazer parecer verdadeiro o primado do chamado papa. Mas não é só uma invenção, demonstra-se também interrompida muitas vezes no curso da história; porque houveram períodos em que a sede de Roma esteve vacante [11] e períodos em que disputaram o papado dois e até três papas; sem depois falar do chamado ‘cativeiro de Avignon’ e dos papas declarados perversos pelos próprios historiadores católicos.

 

Breve história do papado

 

Demonstrámos portanto pelas Escrituras como aquele que é chamado papa não é nem o bispo universal, nem o sucessor de Pedro porque Pedro não foi bispo de Roma e não deixou sucessores, nem o chefe da Igreja de Deus, e nem o vigário de Cristo, e outras coisas a seu respeito. Queremos agora examinar em seus pontos mais importantes a história do papado a fim de compreender como tenha podido acontecer que da antiga Igreja de Roma, cuja fé era publicada por todo o mundo, tenha surgido este pequeno Estado comandado por aquele que se diz o bispo de Roma e o sucessor de Pedro o qual possui um enorme poder espiritual sobre centenas de milhões de pessoas de todo o mundo. Traçarei a história do papado falando tanto da origem do poder espiritual como do temporal detendo-me de quando em vez sobre aqueles eventos que mais contribuíram para desenvolver estes poderes; me deterei também a falar de alguns papas que se distinguiram pela sua arrogância, falsidade, impiedade, sede de dinheiro e de sangue, e pela sua dissolução e de algumas chacinas e guerras ocorridas por obra dos papas ou para a conquista do assento papal ou para a conservação do trono pontifício, ou para a salvaguarda dos interesses e dos territórios do papado ou para aumentar o seu território de jurisdição. Decidi inserir neste livro esta parte histórica sobre o papado porque cheguei à conclusão depois de ter estudado o catolicismo romano que sem ela faltaria no livro uma parte importante para a compreensão do catolicismo. Com efeito, considero que se um crente quer perceber bem o que é o catolicismo romano além de conhecer a fundo as suas doutrinas, deve conhecer a história do papado, senão toda, pelo menos uma parte. Só assim ele pode ter um quadro completo do catolicismo e pode demonstrar aos Católicos, além de com as sagradas Escrituras, também com os factos históricos registados pelos seus próprios historiadores e escritores que aquela instituição sobre a qual eles fundam todas as suas esperanças não é mais que uma instituição humana que não se baseia de modo nenhum sobre as palavras de Jesus a Pedro (como é afirmado por eles na sua ignorância) porque é apenas fruto de circunstâncias históricas verificadas nos primeiros oito séculos que permitiram o nascimento e o crescimento dela [12]; instituição que uma vez nascida para poder conservar-se viva e desenvolver-se recorreu a compromissos de variados géneros, a mentiras, à violência, à guerra, a prepotências de todo o género; cujos chefes que se sucederam no seu vértice fomentaram guerras e injustiças de todo o género, abençoando os malvados e amaldiçoando os justos, aprovando a iniquidade e reprovando a justiça, e introduzindo e dando aval a toda a sorte de falsas doutrinas.

 

Do segundo ao quarto século

 

Por volta do fim do segundo século o bispo de Roma começou a atribuir-se prerrogativas de supremacia sobre os outros bispos. O então bispo Vítor (189-199), com efeito, na controvérsia que existia acerca da Páscoa entre as igrejas do Oriente e as do Ocidente (os Orientais diziam que era necessário festejá-la a 14 de Nisan qualquer que fosse o dia em que calhasse, enquanto os Romanos diziam que era necessário festejá-la no Domingo mais próximo ao 14 de Nisan) pediu às comunidades da Ásia para se aterem à praxe romana que remontava, a seu dizer, à tradição apostólica; e no caso de recusa ameaçou a exclusão da comunhão eclesial. Mas as igrejas do Oriente se opuseram a Vítor por meio de Policrates bispo de Éfeso [13].

Também no terceiro século o bispo de Roma continuou a considerar-se num certo sentido superior aos outros bispos, com efeito, Calisto I (217-222) considerava apoiando-se sobre "Tu és Pedro" ter o poder de ligar e desligar e portanto de acolher na igreja também os adúlteros porque a sua igreja estava perto do sepulcro de Pedro. Mas a Calisto se lhe opôs Tertuliano dizendo-lhe: ‘Quem és tu que (de tal modo) subvertes e deformas a intenção manifestada pelo Senhor, que conferia tal poder pessoalmente a Pedro?’ (Tertuliano, De pudicitia 21).

Depois foi a vez de Estevão I (254-257) a considerar-se em posse de algo que os outros bispos não tinham, e portanto superior aos outros bispos, com efeito ele reivindicou a sucessão de Pedro por causa do lugar onde ele era bispo e de ter portanto a autoridade de acolher na igreja também os batizados pelos heréticos. Em outras palavras Estevão, apoiando-se na tradição, aceitava o batismo ministrado pelos heréticos pelo que aqueles que deixavam uma seita para entrar a fazer parte da Igreja, segundo ele, não necessitavam ser rebatizados, mas apenas que o bispo lhes impusesse as mãos. Mas a Estevão se opôs Cipriano, bispo de Cartago, o qual não considerava válido o batismo dos heréticos e por isso se um herético se convertia devia ser rebatizado. Ele não dizia porém rebatizado mas simplesmente batizado porque para ele aquele batismo não era verdadeiro. Cipriano disse numa sua carta a Quinto a propósito desta controvérsia: ‘Não é, aliás, caso de ditar uma norma em força de um costume [o evocado por Estevão]: toca à razão prevalecer’ (Carta 71, III. 1) [14]. E por se ter recusado a dar razão a Estevão foi por ele excomungado.

Estas oposições recebidas por três bispos romanos no espaço de pouco mais de meio século testificam claramente que as igrejas naquele período não reconheciam que o bispo de Roma tivesse um primado jurisdicional de instituição divina sobre a Igreja universal; uma coisa do género era completamente estranha às igrejas de então. (É necessário dizer porém que nas relações com o bispo de Roma muitas igrejas tinham começado a mostrar um certo respeito, isto é, tinham começado a mostrar-lhe uma honra especial). O contrário, isto é, que as igrejas dos primeiros séculos depois de Cristo considerassem o bispo de Roma o seu chefe ou o bispo dos bispos, de quem elas dependiam e a quem deviam uma absoluta submissão, cujos juízos eram inapeláveis e não criticáveis porque pronunciados pelo vigário de Cristo na terra, não se pode demonstrar nem com os escritos do Novo Testamento e nem sequer com os escritos dos chamados pais tanto é verdade que até um escritor católico é obrigado a afirmar: ‘Não se pode assegurar para o período dos primeiros três séculos uma supremacia jurídica do bispo de Roma sobre a Igreja universal’.

Mas por que motivos o bispo de Roma começou a considerar-se (e a ser considerado por alguns) superior aos outros bispos ou de qualquer modo digno de especial honra em relação a eles? Os motivos são os seguintes: 1) Roma era a capital do Império Romano e portanto a cidade mais importante de todo o Império e portanto também o bispo daquela cidade devia ser objecto de particular honra; 2) em Roma no tempo dos apóstolos havia uma Igreja famosa por todo o mundo pela sua fé à qual Paulo, o apóstolo dos Gentios, tinha escrito uma das suas mais longas epístolas, e segundo muitos uma das suas mais importantes; 3) a Igreja de Roma gozava fama de ser apegada à sã doutrina (chamada por muitos tradição apostólica) e adversa à heresia (por exemplo tinha-