Capitulo 4

O papado

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

O papa é o sucessor de Pedro, e portanto o chefe visível da Igreja de Cristo. Ele tem entre outros poderes, o de fazer santo alguém morto em fama de santidade, de abrir o reino dos céus e de fechá-lo a quem quer porque possui as chaves dele, e quando define doutrinas em matéria de fé e de moral é infalível. ‘O Papa é o sucessor de são Pedro na sede de Roma e no primado, ou seja, no apostolado e episcopado universal; portanto o cabeça visível, Vigário de Jesus Cristo cabeça invisível, de toda a Igreja, a qual por isso se diz Católica-Romana’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 198). Ele é definido bispo universal porque Jesus disse a Pedro para apascentar os seus cordeiros e as suas ovelhas (cfr. João 21:15-18); chefe da Igreja e príncipe dos apóstolos porque Jesus disse ainda a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mat. 16:18). Além destas passagens os teólogos papistas tomam outras, que citaremos e explicaremos em seguida, para sustentar o primado de Pedro. Mas por que motivo é dito que precisamente ele, o ‘bispo’ de Roma, e não um outro bispo duma outra cidade, é o sucessor de Pedro, e portanto o chefe da Igreja? Porque - diz a tradição papista - Pedro foi a Roma, lá fundou a Igreja, a pastoreou por mais de vinte anos deixando depois o seu ministério aos seus sucessores. Ainda este homem é chamado santo padre, tem o poder de declarar santo alguém que morreu e tem as chaves do reino dos céus.

O papa é definido também infalível quando fala ‘ex-catedra’. Eis o que diz o catecismo a tal respeito: ‘O Papa, sozinho, não pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus, ou seja, é infalível como a Igreja (quando como Pastor e Mestre de todos os cristãos, define doutrinas acerca da fé e costumes)’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 207). A infalibilidade papal foi declarada dogma pelo concílio Vaticano I em 1870 nestes termos: ‘Nós ensinamos, e definimos ser dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando cumprindo o seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, define que uma doutrina referente à fé ou costumes deve ser professada por toda a igreja, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de Pedro, goza daquela infalibilidade que o Redentor divino quis dotada a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé ou costumes. Portanto estas definições do Bispo de Roma são irreformáveis por virtude própria, e não pelo consenso da Igreja [1]. Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, - seja anátema.’ (Concílio Vaticano I, Sess. IV, cap. IV) [2].

 

Confutação

 

Aquele que é chamado papa não é o bispo universal

 

O título de bispo universal foi dado pela primeira vez pelo imperador Focas (que em 602 tinha subido ao trono de Constantinopola depois de ter morto o seu predecessor e a sua família) ao bispo de Roma Bonifácio III (607), título que contudo tinha sido recusado pelo seu predecessor Gregório I (590-604). Esta é a origem deste apelativo dado ao chefe da igreja romana. Passemos agora a demonstrar com as Escrituras que aquele que é chamado papa não é o bispo universal.

Ora, segundo a Escritura todos os crentes que estão sobre a terra têm sim bispos (os anciãos) que os vigiam e os apascentam por ordem de Deus, mas acima deles não está de modo nenhum o chefe do Estado do Vaticano, mas o nosso Senhor Jesus Cristo que Pedro chama o Pastor e Bispo das nossas almas. Eis quem é o Bispo universal, Jesus Cristo, o Filho de Deus que está sentado à direita de Deus. Mas então quem é este que definem papa? Certamente um impostor, que tomou um título que de modo nenhum lhe convém. As seguintes Escrituras testificam que Jesus Cristo é o Pastor da sua Igreja.

Ÿ Isaías disse dele: "Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente" (Is. 40:11);

Ÿ Deus disse através de Ezequiel do seu Cristo: "E suscitarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor" (Ez. 34:23);

Ÿ Miquéias disse do Cristo: "E ele permanecerá, e apascentará o seu rebanho com a força do Senhor.." (Mic. 5:3);

Ÿ Em Zacarias está escrito: "Assim diz o Senhor meu Deus: Apascenta as minhas ovelhas..." (Zac. 11:4);

Ÿ Jesus disse: "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido..." (João 10:14); e: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor" (João 10:16).

É verdade que Jesus, depois que foi ressuscitado dos mortos, disse a Simão Pedro: "Apascenta os meus cordeiros.... Apascenta as minhas ovelhas... Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:15,16,17), mas Pedro nunca se arrogou o título de bispo supremo da Igreja de Cristo, tanto é verdade que na sua primeira epístola diz aos santos: "Porque éreis desgarrados, como ovelhas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas" (1 Ped. 2:25) (que não era ele, mas Jesus Cristo). E aos anciãos ele diz: "Aos anciãos, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também ancião com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus..." (1 Ped. 5:1,2); depois diz-lhes como devem fazê-lo e por fim diz-lhes: "E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória" (1 Ped. 5:4). Pedro portanto de modo nenhum se considerava o bispo universal mas apenas um dos bispos (os anciãos) que apascentavam a Igreja de Deus naqueles dias. Para ele o Bispo universal era Cristo Jesus.

Estas são as razões pelas quais nós não aceitamos o chefe do Estado do Vaticano como Bispo supremo da Igreja, porque a Escritura testifica que o Pastor e Bispo das nossas almas é só Cristo Jesus, e que o apóstolo Pedro não foi constituído Pastor supremo da Igreja primitiva com a autoridade de transmitir aos seus sucessores esta dignidade; e portanto não é verdade que Pedro transmitiu o seu bispado a um seu sucessor (que segundo os teólogos católicos foi um bispo da Igreja de Roma do primeiro século depois de Cristo).

 

O apóstolo Pedro não foi constituído cabeça da Igreja e não deixou sucessores

 

O chefe do Estado do Vaticano não pode ser definido de nenhuma maneira o sucessor de Pedro. A razão é porque Jesus nunca conferiu a Simão Pedro o primado sobre os outros apóstolos e sobre a Igreja dizendo-lhe para depois transmiti-lo a outros; por conseguinte os que ensinam que ele estava à cabeça da Igreja de então e que o seu primado tenha sido por ele transmitido a algum outro ensinam uma falsa doutrina e enganam os que a aceitam. Agora demonstraremos pelas Escrituras o quanto acabado de dizer começando por explicar a passagem do "Tu és Pedro..." (Mat. 16:18) em Mateus, porque é sobre esta que os teólogos papistas se apoiam para explicar que Pedro foi constituído por Cristo cabeça e fundamento da Igreja, e portanto que foi o primeiro papa.

Ora, Jesus disse a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mat. 16:18,19). Estas palavras Jesus as dirigiu a Pedro depois que este lhe disse diante dos outros discípulos: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mat. 16:16), e nós cremos nele, com efeito, cremos que Jesus Cristo edificou a sua Igreja sobre a única pedra angular que existe em todo o templo de Deus e que é ele mesmo, o Filho de Deus, e não Pedro, nada tirando ao facto de Pedro ser uma parte do fundamento posto por Cristo sobre si. Que "esta pedra", a quem Jesus fez referência nessa resposta a Simão Pedro, é o próprio Jesus Cristo, e que o facto de pouco antes ele se ter dirigido a Pedro dizendo-lhe: "Tu és Pedro.." não significa que esta pedra é Pedro, o se deduz também pelo confronto com estas palavras que Jesus disse aos Judeus: "A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular... E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó" (Mat. 21:42,44). Porquê? Porque nestas palavras Jesus dizendo "sobre esta pedra" se referiu a ele mesmo e não a algum outro; certo não disse ‘sobre mim mesmo’, mas é evidente que falou dele e não de algum outro. Portanto, também o "sobre esta pedra" presente no discurso de Jesus a Pedro significa sobre Cristo e não sobre Pedro. Por isso, como Jesus quando disse "quem cair sobre esta pedra" não quis dizer: ‘Quem cair sobre Simão Pedro’, assim também quando ele disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" não disse: ‘Sobre Simão Pedro edificarei a minha igreja’, porque em ambos os discursos "esta pedra" é ele mesmo e nenhum outro.

As seguintes Escrituras testificam claramente que Pedro não foi constituído por Cristo nem o fundamento da Igreja, nem o príncipe dos apóstolos e nem o chefe supremo da Igreja.

Ÿ Paulo diz aos Efésios: "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra angular; no qual todo o edíficio, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor" (Ef. 2:19-21). A casa de Deus é uma casa espiritual formada por pedras vivas, isto é, por homens e mulheres vivificados por Cristo, e tem como fundamento na base dela Cristo Jesus, a pedra angular. Mas sobre Cristo foi posto um outro fundamento por Deus que é constituído pelos apóstolos e pelos profetas, e de facto nós filhos de Deus nos baseamos na nossa vida sobre os ensinamentos de Cristo Jesus, sobre os dos apóstolos e sobre as palavras dos profetas. Mas permanece o facto de a Cabeça e o Fundamento da Igreja permanecer sempre Cristo porque ele é o Salvador do corpo. Como podeis ver nas palavras de Paulo não se entrevê a mínima prova da supremacia do apóstolo Pedro sobre os outros apóstolos, precisamente porque Pedro é um dos apóstolos que formam o fundamento da Igreja e não o único apóstolo de que é formado o fundamento.

Ÿ O apóstolo Paulo diz aos Coríntios: "Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Cor. 3:10,11). Estas palavras de Paulo, junto com estas outras palavras suas escritas aos Romanos: "De maneira que desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo. E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio" (Rom. 15:19,20), confirmam que o fundamento da Igreja de Deus é Cristo Jesus, e não Pedro ou o seu presumido sucessor como antes afirma a igreja romana.

Ÿ O apóstolo Pedro na sua primeira epístola diz: "Chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual... Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido" (1 Ped. 2:4-6), e aos principais sacerdotes e aos anciãos disse do Cristo: "Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular" (Actos 4:11). Portanto Pedro definiu Jesus pedra viva, eleita e preciosa e também a pedra angular que Deus tinha prometido pôr em Sião depois de ter sido rejeitada pelos edificadores; portanto ele mesmo reconheceu que Cristo era a primeira pedra de toda a construção e que todos os crentes (ele incluído) eram como pedras vivas que se deviam chegar à pedra viva que é Cristo. Que fazem antes os teólogos católicos romanos? Desconhecem Cristo Jesus como a pedra angular, e de facto a igreja romana não tem como fundamento Cristo Jesus, mas o papado que funda a sua existência sobre a mentira e sobre a hipocrisia. Se a igreja romana estivesse verdadeiramente fundada sobre Cristo Jesus (como diz estar) ela se ateria às palavras de Cristo e não anularia o ensinamento de nosso Senhor Cristo Jesus e o dos apóstolos.

Ÿ Marcos diz: "Chegaram a Cafarnaum. E estando ele em casa, perguntou-lhes: Que estáveis discutindo pelo caminho? Mas eles se calaram, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles era o maior. E ele, sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos" (Mar. 9:33-35). Ora, se Pedro tivesse sido o príncipe dos apóstolos de certo Jesus o teria dito nesta ocasião em que os discípulos tinham discutido entre eles para saber quem era o maior; mas por aquilo que diz Marcos, Jesus não declarou Pedro o maior dos apóstolos. Ele disse que quem dentre eles queria ser o primeiro devia ser o servo de todos. E além disso, importa dizer que dado que esta disputa entre os discípulos aconteceu depois que Jesus declarou bem-aventurado Simão Pedro pela sua confissão de fé e lhe disse: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja..." (Mat. 16:18), é evidente que os discípulos a essas palavras de Jesus dirigidas a Pedro não lhes tinham de modo nenhum dado a interpretação que lhes dão os teólogos papistas. Porquê? Porque doutra forma eles não teriam discutido entre si quem era o maior, tendo sido a questão resolvida anteriormente por Jesus.

Ÿ Paulo aos Gálatas chama Tiago, Cefas, e João "aqueles que pareciam ser alguma coisa" (Gal. 2:6) e também aqueles "que gozam maior consideração" (Gal. 2:6 Riveduta), e diz que eles eram "considerados como as colunas" (Gal. 2:9) na Igreja. Também nestas palavras de Paulo, Pedro não ocupa uma posição de domínio sobre os outros apóstolos ou sobre a Igreja de Deus porque é contado entre as colunas da Igreja junto com outros dois apóstolos. Da forma como, pelo contrário, falam os teólogos católicos romanos Pedro era a coluna portante da inteira Igreja. Em quem crer pois? Em Paulo, de certo, porque ele falava da parte de Deus em Cristo

Ÿ Depois que Jesus foi elevado ao céu, antes que chegasse o dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro levantou-se no meio dos irmãos que estavam congregados, que chegavam quase a cento e vinte pessoas, e disse antes de tudo que tinha sido necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo tinha dito através de Davi acerca de Judas Iscariotes, depois disse estas palavras: "É necessário, pois, que, dos homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição" (Actos 1:21,22). E isso foi feito porque lançaram sortes entre Matias e José, e tendo sido sorteado Matias ele foi acrescentado aos onze. Notai que não foi Pedro a decidir quem devia tomar o lugar de Judas, mas a sorte. Isto confirma que Pedro no seio da Igreja não possuía o lugar de ‘chefe da Igreja’, como antes assegura a cúria romana, porque doutra forma teria escolhido ele o sucessor de Judas.

Ÿ Em Jerusalém quando se reuniram os apóstolos e os anciãos para discutir uma importante questão que tinha surgido, isto é, se circuncidar os Gentios e mandar-lhes observar a lei ou não, o apóstolo Pedro não ocupou a posição de príncipe dos apóstolos ou de bispo universal. Está escrito de facto: "E, havendo grande contenda levantou-se Pedro e disse-lhes: Varões irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem. E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; e não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós podemos suportar? Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles também" (Actos 15:7-11). Depois de Pedro falaram também Paulo e Barnabé, e por fim Tiago que foi o que julgou que não se devia perturbar os crentes dentre os Gentios, mas ordenar-lhes que se abstivessem das coisas sacrifícadas aos ídolos, da fornicação, das coisas sufocadas e do sangue. Ora, se Pedro tivesse tido a prioridade em todas as coisas seguramente isso se teria manifestado em Jerusalém naquela importante reunião, mas é necessário dizer que, ainda uma vez, da sua embandeirada supremacia não há a mínima prova. Pedro sim falou em primeiro, mas aquele que disse o que era necessário dizer aos Gentios evitar foi Tiago e não Pedro, de facto ele disse: "Pelo que julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus..." (Actos 15:19). E cuidai que o que Tiago disse não foi um conselho mas um juízo; digo isto porque os sustentadores do primado de Pedro tendem com os seus discursos a fazê-lo passar por uma simples sugestão.

Ÿ "Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João; os quais, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo. Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo" (Actos 8:14-17). Também neste caso não emerge da maneira mais absoluta que Pedro fosse o Príncipe dos apóstolos ou o chefe da Igreja. Notai de facto que Pedro foi enviado a Samaria juntamente com João pelos apóstolos que estavam em Jerusalém, e que tanto Pedro como João oraram pelos Samaritanos para que recebessem o Espírito Santo, o que está a indicar que ambos tinham o dom de impor as mãos aos crentes para que recebessem o Espírito Santo e não apenas Pedro.

Ÿ Pedro, tanto antes do dia de Pentecostes, como no dia de Pentecostes, como depois, e mais precisamente no caso da cura do coxo no templo, quando ele e João compareceram diante do Sinédrio, quando Ananias levou os denários aos pés dos apóstolos, e quando Simão ofereceu a ele e a João dinheiro para receber a autoridade de impor as mãos aos crentes para que recebessem o Espírito Santo, digo, em todas estas diferentes circunstâncias, ele se manifestou ser o primeiro a falar entre os apóstolos (cfr. Actos 1:15; 2:14; 3:12; 4:8; 5:3; 8:20), mas não o primeiro em importância entre os apóstolos. Vos recordo a tal propósito que Paulo e Barnabé tinham sido ambos separados por ordem do Espírito Santo em Antioquia, e ambos tinham sido enviados pelo Espírito Santo a fazer aquela obra, mas entre os dois Paulo era o primeiro a falar, de facto, em Listra as multidões depois de ter visto a cura feita por Paulo o chamaram Mercúrio "porque era o primeiro a falar" (Actos 14:12 Riveduta). Para confirmação disto vos recordo que em Antioquia da Psídia, quando os chefes da sinagoga mandaram dizer a Barnabé e Paulo que se tinham uma palavra de exortação a dizer ao povo a podiam dizer, foi Paulo a levantar-se e a falar em primeiro aos presentes (cfr. Actos 13:16). Mas tudo isto não nos leva a dizer que Paulo era superior a Barnabé ou o seu chefe. A mesma coisa se pode dizer do apóstolo Pedro em relação aos outros apóstolos; ele falava em primeiro, mas não tinha o primado nem sobre eles e nem sobre a Igreja.

Mas tudo isso que temos dito até aqui, embora seja provado pelas sagradas Escrituras, não encontra de modo algum o favor da igreja romana que lançou o seguinte anátema contra quem não reconhecer que o papa é por direito divino sucessor de Pedro sobre toda a Igreja: ‘Se, portanto, alguém disser que não é por instituição do próprio Cristo senhor, isto é, por direito divino que Pedro tem perpétuos sucessores no primado sobre toda a Igreja; ou que o Romano Pontífice não é o sucessor de Pedro neste primado; seja anátema’ (Concílio Vaticano I (1869-1870), Sess. IV, cap. II). Oh! quanto é verdadeira a palavra do profeta: "Nada sabem, nem entendem; porque se lhe untaram os olhos, para que não vejam, e o coração, para que não entendam" (Is. 44:18).

 

Explicação de algumas passagens tomadas para sustentar o primado de Pedro

 

Os teólogos romanos para sustentar que Jesus conferiu o primado do poder da Igreja a Pedro além das passagens mais conhecidas que são: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mat. 16:18), "Te darei as chaves do reino dos céus" (Mat. 16:19), e "Apascenta os meus cordeiros... Apascenta as minhas ovelhas... Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:15,16,17); tomam diversas outras passagens da Escritura que se referem a Simão Pedro. Vejamo-las, para ver se efectivamente estão a indicar que o apóstolo Pedro recebeu o primado sobre a Igreja primitiva.

Ÿ "Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lucas 22:31,32). Jesus disse estas palavras a Pedro na noite em que ele foi traido e os teólogos afirmam que este "confirma teus irmãos" está a indicar que Pedro recebeu a missão de reafirmar os seus irmãos, isto é, os apóstolos, entendendo com isto que também o papa, como é sucessor, recebeu a missão de confirmar os fiéis. Nós não temos nada a dizer sobre o facto de Jesus ter confiado a Simão Pedro a tarefa de confirmar os seus irmãos, pois isso é verdade. Mas com estas palavras Jesus não conferiu a Pedro nenhuma supremacia sobre os outros apóstolos, ou sobre a Igreja. Pedro recebeu de Jesus aquela particular missão naquela particular circunstância sabendo que os seus discípulos estariam dali a pouco dispersos e grandemente entristecidos por causa da sua morte; mas esta missão particular foi circunscrita no tempo e a Pedro. Queremos dizer com isto que a missão de confirmar os irmãos Jesus não a estendeu a presumidos sucessores de Pedro por todas as épocas vindouras, como antes afirmam os teólogos romanos. É sabido depois que os papas tomam estas palavras de Jesus para se arrogarem a todo o direito; entre os quais o direito de fazer todo tipo de leis eclesiásticas para confirmar os membros da igreja romana. E além disso queremos recordar, para sustento do facto de que não há uma particular pessoa (o chamado sucessor de Pedro) posta na Igreja pelo Senhor para confirmar todos os fiéis, que Paulo aos Coríntios diz que o Senhor os confirmaria conforme está escrito: "O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Cor. 1:8), e não Cefas, ou seja Simão Pedro, apesar de Cefas ainda estar vivo quando ele escreveu e tanto é verdade que na Igreja de Corinto haviam alguns que diziam ser de Cefas! Ora, ó teólogos romanos, à luz de quanto está escrito o que tendes a dizer? Se Pedro tinha que confirmar toda a Igreja como é que quando ainda estava vivo Paulo diz aos santos de Corinto que o Senhor os confirmaria? Certo, Deus se usa também dos seus ministros para confirmar os seus filhos, de facto, Paulo diz aos Tessalonicenses: "Enviamos Timóteo, nosso irmão, e ministro de Deus na propagação do evangelho de Cristo, para vos confirmar e vos confortar na vossa fé; para que ninguém seja abalado por estas tribulações" (1 Tess. 3:2,3); e Lucas diz que Paulo e Barnabé "tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio e Antioquia, confirmando os ânimos dos discípulos..." (Actos 14:21,22); mas de certo, e o dizemos com firmeza e clareza, Ele não se usará do papa dos Católicos para nos confirmar na fé, porque este não é um ministro de Cristo mas de Satanás. Não importa quanto os teólogos romanos embandeirem este versículo da Escritura que diz que Pedro deve confirmar os seus irmãos; este que se diz ser o sucessor de Pedro quer seduzir as mentes dos discípulos de Cristo e não confirmar as suas almas.

Ÿ "Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)" (João 1:42). Segundo os teólogos romanos Jesus lhe impôs o nome de Pedro para significar que se serviria dele como pedra sobre a qual depois constituiria, como sobre fundamento, a sua Igreja. Nós, pelo contrário, dizemos que se bem que Jesus lhe deu este sobrenome a Simão, que significa ‘rocha’, isso não deixa entrever da maneira mais absoluta que o apóstolo Simão Pedro foi constituído único fundamento da Igreja. Pedro como os outros apóstolos são parte do fundamento sobre o qual a Igreja foi edificada; também os outros apóstolos são portanto pedras como ele o é. E para confirmar que mesmo se Pedro recebeu este sobrenome não é o único fundamento da Igreja recordamos que João diz que o muro da nova Jerusalém "tinha doze fundamentos, e neles estavam os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro" (Ap. 21:14), e não o de Pedro somente. O facto de Jesus ter sobrenomeado Pedro Simão, tem de certo o seu motivo, porque Jesus não sobrenomeava as pessoas ao acaso ou sem motivo. Julgamos que Jesus tenha querido sobrenomeá-lo dessa maneira por causa da firmeza e da resolução vista neste seu discípulo. Tenhamos também presente que Jesus sobrenomeou igualmente Tiago e João, os filhos de Zebedeu, e não só Simão; Marcos diz de facto que Jesus lhes "pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão" (Mar. 3:17). Mas não é por Jesus ter posto este nome àqueles dois irmãos, que nós dizemos que eles receberam especiais poderes na Igreja.

Ÿ "E Entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco as multidões" (Lucas 5:3). Segundo os teólogos romanos também o facto de Jesus ter pregado do barco de Pedro e não do barco de um outro discípulo testifica o primado de Pedro. Louca dedução! Mas não é de admirar. Os teólogos romanos nos habituaram a ouvir coisas piores do que estas! Mas eu quereria dizer: ‘Mas então também o dono do jumento sobre o qual Jesus montou e entrou em Jerusalém teria que forçosamente ter uma posição altíssima na Igreja de Deus!’; e ainda: ‘Mas então também o dono da casa na qual Jesus escolheu comer a Páscoa teria que forçosamente ter uma eminente posição na Igreja, porque foi naquele aposento que Jesus instituiu a santa ceia!’. E desta passagem poderia prosseguir mas me fico por aqui.

Ÿ Mateus diz: "Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Felipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu" (Mat. 10:2-4). Com base na interpretação da cúria romana, o facto de Pedro ser nomeado em primeiro, e de estar escrito "o primeiro, Simão, chamado Pedro", significa que Pedro foi constituído por Cristo o príncipe dos apóstolos. Mas isso não pode ser verdade porque tempo depois, quando entre os discípulos surgiu a disputa para saber quem era o maior, Jesus não lhes disse: ‘Por que disputais? Não sabeis que o primeiro dentre vós é Pedro?’, mas lhes disse: "Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo" (Mat. 20:27). O facto de Pedro ser nomeado em primeiro na lista dos apóstolos não significa de modo nenhum que ele fosse o príncipe dos apóstolos porque este seu primado sobre os apóstolos não emerge das Escrituras. Se fosse assim como dizem os teólogos romanos Pedro deveria ser nomeado sempre em primeiro, mas ele nem sempre vem citado em primeiro: Paulo diz por exemplo: "E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão..." (Gal. 2:9), citando Pedro em segundo lugar, depois de Tiago; o anjo que apareceu às mulheres disse-lhes: "Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia..." (Mar. 16:7), citando Pedro depois dos outros discípulos.

Ÿ Paulo diz que Jesus Cristo "ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze..." (1 Cor. 15:4,5). Também isto, ou seja, que Jesus apareceu em primeiro a Pedro, e depois a todos os outros apóstolos, segundo os teólogos romanos, testifica o primado de Pedro. Mas nós consideramos antes que aqui não se vê nenhum primado, mas apenas o facto de Jesus ter aparecido primeiro a Pedro para que pudesse confirmar os seus irmãos, como lhe tinha dito antes de ser preso. E depois recordemos que se Pedro foi o primeiro dos discípulos a quem Jesus apareceu, é também verdade que ele "apareceu primeiramente a Maria Madalena" (Mar. 16:9) que foi anunciá-lo aos seus discípulos que, ouvindo que ele vivia e lhe tinha aparecido, não creram nela. Mas também aqui devemos dizer que o facto de Jesus ter aparecido primeiro a uma mulher do que a um homem não quer dizer que a mulher seja superior ao homem, ou que Maria Madalena por isso teve um qualquer primado entre as mulheres.

Ÿ Pedro disse em Jerusalém: "Irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem" (Actos 15:7). Deus escolheu entre os doze Pedro para fazer ouvir o Evangelho aos Gentios; esta escolha, para os teólogos romanos, testifica a supremacia de Pedro sobre os outros discípulos. Não é de modo nenhum verdade porque Deus não escolheu Pedro para aquela tarefa por ele ser o chefe dos apóstolos, mas por outros seus motivos. Recordemos que Pedro, embora Deus o tenha enviado àqueles Gentios para anunciar o Evangelho, foi constituído apóstolo da circuncisão e não apóstolo dos gentios porque neste ofício Deus constituiu Paulo. Aos Gálatas com efeito Paulo diz: "Aqueles que pareciam ser alguma coisa ... viram que o evangelho da incircuncisão me fora confiado, como a Pedro o da circuncisão" (Gal. 2:6,7); portanto Pedro foi enviado por Deus aos Judeus enquanto Paulo aos Gentios. Mas isso não indica nem que Pedro tivesse o primado na evangelização dos homens e nem que fosse príncipe sobre Paulo e sobre os outros apóstolos.

Fico-me por aqui com as passagens que se referem a Pedro que os teólogos romanos tomam para sustentar o primado de Pedro, mesmo se existem outras. Mas que lição tiramos nós de tudo isto? Pela enésima vez esta; que quando alguém quer sustentar uma falsa doutrina se usa também daquelas passagens da Escritura que segundo ele podem contribuir para confirmá-la dando-lhe as suas pessoais interpretações, mas também que ao fazer isso ele fica confuso. Neste caso os teólogos romanos para sustentar o primado de Pedro e a sucessão deste primado fazem acrobacias exegéticas verdadeiramente audazes; mas a sua estultícia é manifesta a todos os que conheceram a verdade e manejam bem a Palavra de Deus.

 

Aquele que é chamado papa não é o vigário de Cristo

 

Como vimos a igreja romana afirma que o chefe do Estado do Vaticano é o vigário de Cristo na terra, isto é, aquele que faz as vezes dele. Perardi exprime-se assim a tal respeito: ‘Este representa Jesus Cristo nesta terra, faz as vezes dele, e por isso rege e governa a Igreja em nome d`Ele’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 182).

A Escritura, pelo contrário, ensina que Cristo antes de voltar ao seu Pai não deixou o seu lugar a Pedro estebelecendo-o seu vigário na terra. O Senhor, antes de ir embora, prometeu aos seus discípulos que enviaria o Espírito Santo o qual os guiaria em toda a verdade e anunciaria muitas outras coisas, de facto disse: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há-de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar" (João 16:12-14). Jesus não disse aos seus: ‘Tendes convosco Pedro o qual vos guiará na verdade e vos fará saber as outras coisas que tenho a dizer-vos!’, portanto este que se define vigário de Cristo mente, porque na terra está o Espírito Santo que nos guia na verdade e nos faz entender qual seja a vontade do Senhor. Certo, Deus constituiu na sua Igreja os apóstolos, os profetas, os evangelistas, os pastores e doutores a fim de nos aperfeiçoar e de nos edificar mas também eles são guiados pelo Espírito da verdade. Enquanto o chamado papa não é guiado pelo Espírito da verdade mas é seduzido pelo diabo e isto é manifesto pelo facto de ele anular o Evangelho; portanto como pode ser considerado um ministro de Deus constituído por Deus para a edificação da sua Igreja?

 

Aquele que é chamado papa não é infalível ‘ex cathedra’

 

Começamos por dizer que os teólogos papistas dizem que o papa é infalível só quando ensina como papa, e não também quando ensina exprimindo o seu parecer pessoal; e que como homem, pode operar bem e operar mal, ou seja, pode pecar; mas em nosso juízo estas afirmações são só afirmações confortáveis que servem apenas para dizer, no caso do seu papa dizer alguma coisa de torto também aos olhos dos seus fiéis seguidores ou se fizer culpado de algum grave delito, que ele é um homem como todos os outros; portanto na substância constituem um escudo contra eventuais críticas. Mas nós dizemos: mas na prática qual é aquele Católico romano que não considera infalível as declarações do seu papa não feitas ‘ex catedra’? Mas qual é aquele fiel católico que ousa pôr em discussão as afirmações do seu papa feitas não ‘ex catedra’ quando o concílio Vaticano II disse que ‘esta Religiosa submissão da vontade e da inteligência deve ser, de modo particular, prestada ao autêntico magistério do Romano Pontífice mesmo quando não fala ‘ex catedra’ (Concílio Vaticano II, Sess. V. cap. III)? [3] E depois ainda: como fazem os teólogos para afirmar que o papa como homem pode pecar [4] e depois ao mesmo tempo afirmar que ninguém pode ‘reexaminar um juízo pronunciado pela sé apostólica - de quem não há autoridade maior -, como a ninguém é lícito julgar um juízo dado por ela’ (Concílio Vaticano I, Sess. IV, cap. III), quando a Escritura diz: "Não deixarás de repreender o teu próximo" (Lev. 19:17)? Como podeis ver nos encontramos pela enésima vez perante contradições que fazem compreender que o dogma da infalibilidade papal na realidade se estende também às declarações que não são catalogadas entre aquelas feitas ‘ex catedra’. Este seu dogma serve para incutir temor aos Católicos romanos fazendo-lhes crer que eles em Roma têm um chefe que possui uma particular assistência do Espírito Santo quando fala ‘ex catedra’, em virtude da qual não pode errar nessas suas declarações porque o Espírito Santo fala pela sua boca, e por isso quem se rebela às suas declarações é como se se rebelasse ao próprio Deus. Este dogma portanto é verdadeiramente uma arma poderosa nas mãos destes anticristos que se sucedem nos vértices da igreja católica romana porque mediante ele podem em qualquer momento confirmar ou introduzir a seu agrado tudo aquilo que mais lhes convier para dominar espiritualmente e materialmente as pessoas que estão debaixo deles. Eles sabem que qualquer coisa que digam ‘ex catedra’ haverão milhões de pessoas em todo o mundo que se terão que mostrar de acordo com eles senão quiserem incorrer na excomunhão por se terem rebelado ao chefe da Igreja e portanto a Cristo.

Mas a questão da infalibilidade papal, dado que ela foi declarada dogma só em 1870, faz surgir muitas perguntas como: ‘Mas se o papa desde 1870 em diante é declarado infalível quando fala em matéria de fé e de moral, como é que - e sobre isto estão de acordo muitos Católicos - muitos papas do passado quando falaram em matéria de fé erraram grandemente?’, e ainda: ‘Se as heresias que subscreveram os papas reconhecidos heréticos pelos próprios estudiosos católicos não eram declarações ex catedra quais eram as suas declarações ex catedra?’ Quando foi na substância que os papas falaram à inteira Igreja e de maneira definitiva? Alguns respondem a estes quesitos dizendo que os papas antes de 1854 não exercitavam a infalibilidade papal?! Como! - nós respondemos - então só desde 1854 em diante sob Pio IX o Espírito Santo começaria a assistir desta maneira o chefe da vossa igreja? Significa isso porventura que antes daquele tempo a Igreja de Deus sobre a face da terra não tinha um guia infalível em matéria de fé e de moral e que era necessário esperar Pio IX para tê-lo? Quis fazer este discurso para demonstrar quanto absurdo e contraditório é o dogma da infalibilidade papal. Agora demonstraremos antes de tudo como Pedro, de quem o chamado papa se diz o seu sucessor, não foi um homem infalível.

O apóstolo Pedro não foi infalível nem antes nem depois de Jesus lhe ter dito: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.." (Mat. 16:18), e disso exibimos as seguintes provas escriturais.

Ÿ Depois que Jesus dirigiu essas palavras a Simão Pedro, ele disse que tinha que ir a Jerusalém sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas e ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. "E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens" (Mat. 16:22,23). Pedro tinha crido que Jesus era o Cristo, mas como todos os outros Judeus pensava que o Cristo viria para restabelecer o reino em Israel e não para morrer pela nação de Israel; em outras palavras para reinar e não para se fazer meter na cruz. Esta é a razão pela qual quando ouviu dizer a Jesus que tinha que sofrer e ser morto se pôs a repreender o Senhor porque ele ainda não compreendia as coisas de Deus mas só compreendia as coisas dos homens. A compreensão das coisas de Deus ele adquiriu depois que Jesus Cristo ressuscitou. Jesus repreendeu severamente Pedro, chamando-o Satanás, porque aquelas palavras que ele disse as disse da parte de Satanás.

Ÿ Pedro negou o Senhor três vezes na noite em que Jesus foi traido (cfr. Lucas 22:54-62), mas depois se converteu.

Ÿ Paulo conta aos Gálatas como e por que se opôs a Pedro em Antioquia: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe na cara, porque era repreensível. Pois antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas quando eles chegaram, se foi retirando e se apartava deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimularam com ele, de modo que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam retamente conforme a verdade do evangelho, disse a Cefas na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, como é que obrigas os gentios a viverem como judeus?..." (Gal. 2:11-14). Pedro era repreensível, segundo Paulo, porque se pôs a dissimular e a obrigar os Gentios a viver como Judeus, e por isso Paulo o repreendeu perante todos.

Ÿ Quando Pedro em Jope teve a visão na qual o Senhor lhe disse: "Levanta-te, Pedro, mata e come" (Actos 10:14), ele respondeu: "De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda" (Actos 10:14), e por esta sua resposta o Senhor o repreendeu, de facto, lhe disse: "Não faças tu comum ao que Deus purificou" (Actos 10:15). Pedro sabia que Jesus tinha declarado todos os alimentos puros porque o tinha ouvido afirmar: "Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora?" (Mar. 7:18,19), mas naquela visão chamou imundos alimentos que Deus tinha purificado e por isso o Senhor o admoestou.

Como podeis ver também Pedro falhou em algumas coisas, mas aliás também ele era um homem da mesma natureza que nós. Tiago disse que "Todos falhamos [ ou tropeçamos] em muitas coisas" (Tiago 3:2) incluindo-se entre os que falham. E se ele, que era considerado uma coluna na Igreja de então, admitiu falhar, quem é este que foi definido infalível ex catedra? Certamente não um ministro de Cristo, mas um ministro de Satanás que engana as pessoas fazendo-lhes crer que ele quando fala em matéria de fé não pode errar.

Alguém dirá: Mas as epístolas de Pedro não são porventura infalíveis? Com certeza que o são, porque foram por ele escritas debaixo do impulso e guia do Espírito Santo. Mas certamente não se pode dizer que as epístolas dos papas sejam por eles escritas porque são movidos pelo Espírito Santo de Deus. E que dizer depois dos discursos de Pedro transcritos nos Actos dos apóstolos? Também esses são infalíveis porque foram pronunciados pelo Espírito Santo. Mas também neste caso não se podem de modo algum comparar os discursos solenes do papa a esses de Pedro porque eles estão cheios de todo o género de mentiras.

Ora, os teólogos católicos romanos ensinam que o papa ao ensinar as verdades reveladas por Deus - verdades de fé ou verdades de moral - é infalível como é infalível a igreja e dizem que o facto de o papa ser infalível resulta do Evangelho. Eis como se exprime Perardi no seu manual a tal respeito: ‘São Pedro (e na sua pessoa o Papa seu sucessor) é fundamento da Igreja; ele deve confirmar na fé os outros Pastores, deve apascentar todo o rebanho. Mas a Igreja não pode estar fundada sobre o erro; ela não estaria fundada sobre a verdade se o Papa não fosse infalível, pois é a pedra fundamental dela; nem o Papa poderia confirmar de modo certo os outros na fé, e em vez de apascentar o rebanho, ele poderia envenená-lo com o erro, se pudesse errar no ensinamento’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 208). Nós dizemos antes com o auxílio da sagrada Escritura que ele falha ao ensinar porque da sua boca saiem muitas mentiras mesmo quando ensina em matéria de fé e de costumes. E depois nos vêm dizer que ele foi estabelecido por Deus para confirmar na fé os pastores? Mas este não confirma na fé absolutamente ninguém porque em vez de pregar a palavra da fé como fazia Simão Pedro a anula com os seus preceitos. E depois nos vêm dizer que Deus o constituiu para apascentar o rebanho? Mas onde as conduz todas estas ovelhas que o seguem? Certamente não sobre o caminho da verdade que leva ao céu, mas sobre o da mentira que leva ao lago ardente de fogo e enxofre. A obra deste e dos seus bispos é uma obra de destruição porque ele destroi a vereda pela qual as ovelhas deveriam entrar para obter a vida de Deus. Bem profetizou o profeta Isaías deste quando disse: "Os que guiam este povo o desencaminham; e os que por eles são guiados são devorados" (Is. 9:16). Não, este não é de modo nenhum a pedra fundamental da Igreja, antes não é sequer uma das pedras vivas de que é composta a Igreja de Deus; não, nós não dizemos que ele poderia envenenar o povo se falhasse no ensinamento, mas dizemos que ele o envenena realmente porque a sua língua está cheia de peçonha mortal.

A verdadeira Igreja não sente de modo nenhum a necessidade deste chamado papa em matéria de fé ou de moral, ainda que este se declare infalível neste campo, porque ela possui o Espírito da verdade que a guia, a instrui, e a confirma: e nós sabemos que Ele não pode falhar. Também a Escritura constitui uma infalível guia para a Igreja. Isto porém não significa que não pode acontecer que os condutores ou aqueles por eles conduzidos introduzam na Igreja heresias de perdição. Porque isso pode acontecer, antes está estabelecido que aconteça nestes últimos dias porque se devem cumprir as seguintes Escrituras: "Dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas para atrair os discípulos após si" (Actos 20:30), "entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição" (2 Ped. 2:1); "importa que haja entre vós seitas, para que os aprovados se tornem manifestos entre vós" (1 Cor. 11:19); "Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios" (1 Tim. 4:1). Mas permanece o facto que o Espírito de Deus e a Palavra de Deus continuarão a guiar os fiéis que efectuam a sua salvação com temor e tremor de maneira a que não se percam. Podem vir a faltar ministros de Deus mas jamais virá a faltar a guia de Deus.

 

As provas da falibilidade dos papas

 

No curso dos séculos se sucederam centenas de papas na igreja romana. Ora, mediante os seguintes exemplos de papas que subscreveram heresias, se contradisseram e foram declarados heréticos, demonstraremos a falibilidade dos papas mesmo nas suas declarações oficiais:

Ÿ Libério (352-366) aderiu formalmente à heresia ariana (que negava a divindade de Jesus Cristo) [5], subscrevendo a profissão de fé herética do concílio de Sermio e chegando até a excomungar Atanásio que defendia a divindade de Cristo. Tanto os seus predecessores como ele próprio tinham já condenado a heresia de Ário; a seguir, os seus sucessores condenaram a heresia ariana.

Ÿ Inocêncio I (401-417) escreveu ao concílio de Milevis que os bebés estavam obrigados a receber a comunhão e que se morressem batizados mas não comungados, iriam igualmente para o inferno. A seguir, esta doutrina foi anulada pelo concílio de Trento em 1562 com a seguinte declaração: ‘Finalmente, o mesmo santo sínodo ensina que as crianças que carecem do uso da razão, por nenhuma necessidade estão obrigadas à comunhão sacramental da Eucaristia, porquanto, estando regeneradas e incorporadas em Cristo pelo lavacro do Batismo, não podem naquela idade perder a graça de filhos de Deus, que já adquiriram’ (Concílio de Trento, Sess. XXI, cap. IV), e ainda o concílio tridentino anatemizou quem a sustentar com a seguinte declaração: ‘Se alguém disser que a comunhão eucarística é necessária às crianças, antes de chegarem à idade da razão, seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. XXI, can. 4).

Ÿ Hormisdas (514-523) em 514 declarou heréticos certos monges da Scythia, porque sustentavam que um da Trindade tinha sofrido a morte da cruz; mas João II em 532 declarou aqueles monges ortodoxos (ou seja, pessoas que sustentavam uma doutrina recta) [6].

Ÿ Vigílio (537-555) em 553 com uma declaração oficial definiu conformes à doutrina católica alguns escritos denominados ‘Três capítulos’ (que ele próprio tinha condenado em 548). Mas o quinto concílio ecuménico (Constantinopolitano II) realizado em Constantinopola de 5 de Maio a 2 de Junho de 553 declarou solenemente que aqueles mesmos escritos deviam ser considerados heréticos. Mas Vigílio se resolveu a aceitar o concílio e as suas conclusões só a 8 de Dezembro. Ele retratou as suas recentes posições contrárias à condenação dos ‘Três capítulos’, de facto, escreveu ao patriarca de Constantinopola reconhecendo o seu erro e concluía dizendo-lhe: ‘Portanto o que fiz em defesa dos ‘Três capítulos’ é anulado com a definição do presente nosso escrito’ (Epístola a Eutíquio, Patriarca de Constantinopola, de 8 de Dezembro de 553).

Ÿ Gregório I dito Magno (590-604) disse que as crianças não batizadas vão direito para o inferno e lá em baixo sofrem pela eternidade. Ora, esta doutrina é condenada pela igreja romana porque ela diz que as crianças se morrerem não batizadas vão para um lugar chamado limbo (onde segundo eles não há alguma pena) e não mais para o inferno como antes afirmou Gregório I. Ainda Gregório afirmou que quem tomava o título de bispo universal era precursor do anticristo; enquanto Gregório VII (1073-1085) afirmou que o bispo de Roma é e deve ser chamado bispo universal; eis as suas palavras: ‘Só o pontífice romano tem o direito de ser chamado universal’ (Dictatus papae, ponto 2).

Ÿ Honório I (625-638) aprovou e ensinou a heresia dos monotelitas (os monotelitas afirmavam que em Cristo haviam duas naturezas, mas uma só vontade e uma só acção, a divina). Eis as suas palavras: ‘Nós confessamos uma vontade única de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque nele não estava vontade alguma da carne, nem repugnante ao querer divino’. Por esta sua tomada de posição foi condenado como herético pelo sexto concílio ecuménico em 681. Os papas sucessivos, confirmaram a condenação: entre estes Leão II que em 682 escreveu ao imperador Constantino dizendo ‘excomungar todos os heréticos, entre os quais Honório que não fez resplandecer a doutrina apostólica nesta igreja de Roma, mas que por uma profana traição tentou subverter a fé imaculada e todos os que morreram no seu erro’.

Ÿ Adriano II (867-872) declarou válido o matrimónio civil, enquanto Pio VII (1800-1823) o condenou.

Ÿ Pascoal II (1099-1118) e Eugénio III (1145-1153) autorizaram o duelo, enquanto Júlio II (1503-1513) e Pio IV (1559-1565) o proibiram.

Ÿ João XXII (1316-1334) em 1331 ensinou que as almas dos santos não tinham a visão de Deus antes da ressurreição da carne. Esta heresia foi condenada pelo seu sucessor Bento XII (1334-1342). E ainda João XXII na Bula Cum inter nonnullos de 1323 afirmou: ‘Dizer que Cristo e os apóstolos não possuíam nada significa falsear as Escrituras’ (citado por Peter de Rosa em Vicari di Cristo [ Vigários de Cristo] , Milano 1989, pag. 226) [7]; segundo ele portanto Cristo e os apóstolos não tinham vivido pobres. Isto antes de tudo contrasta a Palavra de Deus, e em segundo lugar está em plena contradição com o que tinham afirmado os seus predecessores Honório III, Inocêncio IV, Alexandre IV, Bonifácio VIII.

Ÿ Sisto V (1585-1590) em 1590 mandou publicar uma edição da Vulgata (que ele pessoalmente tinha reescrito para corrigir os erros que existiam nas edições publicadas até àquele tempo) e com uma bula declarou: ‘Na plenitude do poder apostólico, decretamos e declaramos que esta edição... aprovada pela autoridade Nos concedida pelo Senhor, deve ser recebida e considerada como verdadeira, legítima, autêntica e incontestada em todas as discussões públicas e privadas, nas leituras, nas pregações e nas explicações’. Pouco tempo depois da publicação da ‘sua’ Vulgata Sisto V morreu. Mas a Vulgata por ele publicada foi achada cheia de erros. O cardeal Bellarmino então para salvar a honra de Sisto V sugeriu ao seu sucessor Gregório XIV (1590-1591) corrigi-la e apresentá-la ao público com o nome de Sisto apresentando desculpas. Eis o que ele declarou na sua autobiografia Bellarmino: ‘Algumas, pessoas, cuja opinião tinha grande peso, consideravam que devia ser publicamente proibida; eu não era da mesma opinião e demonstrei ao Santo Padre que, em vez de proibir a versão da Bíblia em questão, seria melhor corrigi-la de modo tal a podê-la publicar sem prejuízos para a honra do papa Sisto. Isso se podia fazer eliminando o mais rápido possível as modificações desaconselháveis e publicando depois o volume com o nome de Sisto e um prefácio em que se explicava que na primeira edição se tinham verificado alguns erros devidos à pressa dos tipógrafos e de outras pessoas’ (em substância o cardeal lhe sugeriu para mentir). A Vulgata de Sisto depois de ter sido corrigida foi publicada em 1592 por Clemente VIII (1592-1605) que foi obrigado a retirar as cópias da anterior Vulgata que tinham sido introduzidas no mercado.

Ÿ Paulo V (1605-1621) em 1616 mandou admoestar Galileu Galilei o qual sustentava que a terra além de mover-se sobre si mesma gira em torno do sol. Num documento do Santo Ofício datado de 25 de Fevereiro de 1616 se lê: ‘O Ilustríssimo Senhor Cardeal Millino notificou ao Acessor e ao Comissário do Santo Ofício, que referida a censura dos Padres Teólogos sobre a proposição do matemático Galileu, que o sol seja o centro do mundo e imóvel de movimento local, e que a terra se move também de movimento diurno, o Santíssimo (Paulo V) ordenou ao Ilustríssimo Senhor Cardeal Bellarmino, de chamar perante si o predito Galileu, e de admoestá-lo a abandonar a dita opinião; e se recusar obedecer, o Padre Comissário, em frente de um notário e de testemunhas, o intime para que se abstenha totalmente de ensinar, defender ou de qualquer modo tratar essa doutrina ou opinião; se não consentir seja encarcerado’. E assim fez Bellarmino, e Galileu deu as garantias exigidas. Mas em 1632 (sob Urbano VIII) Galileu fez imprimir o livro Diálogo de Galileu Galilei sobre os dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolemaico e o Copernicano no qual sob a forma de um diálogo sustentava as convicções que não deveria difundir. E assim a Inquisição o chamou a Roma e o processou condenando-o de heresia. No veredicto emanado contra ele em 1633 se lê: ‘...Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileu supradito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste para este Santo Ofício veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura...’. E Galileu foi obrigado a abjurar as suas convicções e de facto afirmou jurando sobre o Evangelho: ‘...abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja...’. Em 1822 Pio VII ratificou um decreto da Inquisição autorizando todos os tratados copernicanos sobre astronomia, enquanto em 1835 as obras de Copérnico, Kepler e Galileu foram tiradas do Índice dos livros proibidos. Isto equivale a dizer que Paulo V e Urbano VIII, ao ensinar que a terra era imóvel e que o sol girava em torno dela e ao condenar como herética a tese de Galileu segundo a qual a terra roda em torno de si mesma e em torno do sol, erraram.

Ÿ Pio IX (1846-1878) em 1854 decretou a imaculada conceição de Maria, doutrina esta que vai abertamente contra a Escritura que ensina que só Jesus foi concebido sem pecado. Mas o que queremos fazer notar é que ela foi condenada por diversos predecessores de Pio IX (como Gelásio I, Gregório dito Magno, Inocêncio III e Leão Magno) e é contrária ao unânime consenso dos chamados pais.

Estes não são senão alguns dos exemplos de heresias e de contradições papais que anulam a doutrina da infalibilidade do papa. Como pode portanto afirmar Giuseppe Perardi no seu Manual que ‘nunca houve Papa que tenha ensinado uma doutrina que tenha merecido censura; o Papa ensinou sempre a verdade, reprovou o erro nos outros chamando-os à verdade’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 209) e que ele não pode errar quando define doutrinas acerca da fé [8]? Como pôde este teólogo fazer tais afirmações quando Adriano VI (papa da igreja romana) em 1523 disse: ‘Se por Igreja romana se entende o seu chefe ou pontífice, é indiscutível que ele possa errar mesmo sobre assuntos concernentes a fé. O faz quando prega a heresia nos seus juízos ou nas suas decretais. Na verdade muitos pontífices romanos foram heréticos, e o último deles foi papa João XXII (1316-1334)’ (citado por Peter de Rosa in op. cit., pag. 217)?

E ainda dizemos: ‘Mas como pôde Pio IX, perante tantos exemplos de papas que ensinaram coisas falsas, declarar errada a seguinte afirmação: ‘Os Pontífices Romanos (...) erraram, mesmo nas definições de fé e de moral’ (Sílabo dos Erros, XXIII)? É preciso verdadeiramente ou muita ignorância ou muita má-fé para fazer semelhantes afirmações.

E depois, não acabou, os teólogos romanos dizem também que as decisões dos papas são parte da tradição que deve ser venerada a par da Escritura! Mas como podem dizer isso quando os próprios papas se contradisseram entre eles e foram excomungados? Como podem confiar nesta sua tradição que se contradiz a si mesma e se anula a si mesma e contradiz e anula a Palavra de Deus? O expliquem os teólogos católicos romanos! Vede, para mais confirmações sobre a inatendibilidade da tradição, a parte onde confutei a tradição).

 

Aquele que é chamado papa não é de modo nenhum o santo Padre (ou Pai)

 

Que dizer depois do facto de o chefe do Estado do Vaticano se fazer chamar pai santo? Dizemos que tanto ele que se faz chamar assim como os que o chamam assim estão no erro. Jesus disse: "A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus" (Mat. 23:9); portanto o nosso Pai está no céu e não sobre a terra. Para confirmação que nenhum outro, além de Deus, é digno de ser chamado Pai santo vos recordo que o Filho de Deus nos dias da sua carne chamou "Pai santo" (João 17:11) o seu Pai que está no céu; portanto imitemos Cristo.

 

Aquele que é chamado papa não tem o poder de fazer santo ninguém

 

A Enciclopédia Católica na palavra ‘canonização’ afirma: ‘A canonização é um acto ou sentença definitiva, com a qual o Sumo Pontífice decreta que um servo de Deus, já contado entre os beatos, seja inscrito no catálogo dos santos e se venere na Igreja universal com o culto devido a todos os canonizados’ (Enciclopédia Católica, vol. 3, 569) [9]. Aquele que é chamado papa portanto tem também o poder de declarar santos alguns que durante a sua vida se distinguiram por virtudes heróicas ou por qualidades suas particulares. Mas que diz a Escritura? Antes de tudo a Escritura diz que Aquele que santifica e declara santos é Cristo conforme está escrito: "Pois tanto o que santifica como os que são santificados, vêm todos de um" (Heb. 2:11); e depois ela ensina que todos os crentes são santos (tanto os que vivem sobre a terra como os que morreram e estão agora na presença do Senhor), porque eles foram santificados "pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre" (Heb. 10:10).

As seguintes Escrituras testificam que nós filhos de Deus fomos santificados e por isso somos os santos que estão sobre a terra.

Ÿ Paulo escreveu aos Coríntios: "Paulo, chamado para ser apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus" (1 Cor. 1:1,2), e ainda: "Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus" (1 Cor. 6:9-11);

Ÿ aos Filipenses: "Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos" (Fil. 1:1);

Ÿ aos Colossenses: "Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo que estão em Colossos.." (Col. 1:1,2);

Ÿ aos Romanos: "Aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos" (Rom. 8:27), e também: "Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos" (Rom. 15:25).

Como podeis ver por vós mesmos os santos não são os canonizados pelo chefe do Estado do Vaticano mas os feitos tais por Deus pelo Espírito, por isso a canonização feita no seio da igreja romana é uma prática que se opõe à Escritura e que não tem nenhum valor. (Vede também ‘Aqueles que a igreja católica romana faz santos não eram mais do que pecadores que agora estão no inferno’ e ‘Os falsos milagres operados pelas relíquias dos seus santos’).

 

Aquele que é chamado papa não tem as chaves do reino dos céus

 

Jesus disse um dia a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mat. 16:19). Estas palavras são tomadas pelos teólogos católicos romanos para sustentar que como o chefe do Estado do Vaticano é o sucessor de Pedro, por conseguinte ele possui as chaves do reino de Deus, e por isso quem quer entrar no reino de Deus deve forçosamente entrar a fazer parte da igreja romana (e isto pode acontecer reconhecendo o chefe do Estado do Vaticano como chefe da Igreja); porque fora dela (a igreja romana), eles dizem, está a perdição, dentro, pelo contrário, há a salvação! Ora, as referidas palavras de Jesus ao apóstolo Pedro foram mal interpretadas pelos Católicos romanos: naturalmente eles esta errada interpretação (como muitas outras) têm todo o interesse em fazê-la e em conservá-la porque ela serve-lhes para fazer parecer aos homens que o chefe do Estado do Vaticano está investido de uma autoridade particular como o esteve o seu (presumido) predecessor Pedro! Já demonstrámos amplamente que aquele que eles chamam papa é um impostor, e não o sucessor de Pedro, porque Pedro não foi o primeiro vigário de Cristo que antes de morrer deixou o seu vicariato a um seu sucessor. Ora, vamos explicar a questão das chaves do reino dadas a Pedro.

Nós cremos firmemente que Jesus deu as chaves do reino dos céus a Pedro mas isso não significa que Pedro recebeu a autoridade de fazer santo quem ele queria, ou de salvar e perder quem ele queria ou que recebeu uma particular autoridade que o elevava acima de todos os outros apóstolos e da Igreja inteira ou a de depôr os reis anticristãos dissolvendo os seus súbditos do juramento de fidelidade. Ora nós, usando-nos de outras Escrituras, faremos algumas considerações sobre as palavras de Jesus a Pedro, a fim de explicar o que são estas chaves do reino dos céus que Jesus deu a Pedro e no que consiste este poder de ligar e desligar.

Ÿ Jesus, o Filho de Deus, estava com o Pai no reino dos céus antes da fundação do mundo: ele desceu do céu. Se pois falou de chaves do reino dos céus, quer dizer que o reino de Deus tem uma porta pela qual lá se entra, doutra forma não se explica a imagem das chaves usada por Jesus.

Ÿ Jesus quando repreendeu os escribas e os Fariseus disse-lhes: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar os que procuram entrar" (Mat. 23:13), e também: "Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam" (Lucas 11:52). Destas palavras emerge claramente que os escribas com os Fariseus fechavam o acesso ao reino dos céus tanto a eles como aos que procuravam lá entrar. Ora, para fechar o reino dos céus a eles e aos outros deviam necessariamente ter à sua disposição uma chave; e esta chave era a chave da ciência que eles tinham tirado. Eles sentavam-se na cadeira de Moisés e instruíam o povo mediante a lei mas com os seus ensinamentos tinham feito cair muitos no pecado porque eles eram preceitos de homens que anulavam a Palavra de Deus. Portanto os escribas e os Fariseus tinham tirado à Palavra de Deus o seu verdadeiro significado e a sua eficácia porque a tinham anulado com a sua tradição. É claro que falseando o sentido da Palavra de Deus, não só eles não entravam no reino dos céus como não entravam também os que eles instruíam. Jesus os chamou "guias cegos" (Mat. 23:16) precisamente por isso, porque, tendo anulada a Palavra de Deus, não eram idóneos para guiar o povo. Explicamos este conceito com um exemplo tirado das Escrituras: vós sabeis que um dia Jesus disse àquele jovem rico que lhe perguntou o que devia fazer de bom para herdar a vida eterna, que se queria entrar na vida devia guardar estes mandamentos: "Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mat. 19:18,19). Como podeis ver entre os mandamentos enunciados por Cristo está também o de honrar pai e mãe, que era um dos mandamentos que os escribas e os Fariseus tinham anulado dizendo: "Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe" (Mat. 15:5,6). Portanto, como poderiam entrar na vida os escribas e os Fariseus e aqueles por eles guiados não guardando o mandamento de honrar o pai e a mãe como ensinava a lei do Senhor? Resumindo: a lei era a chave que os escribas e os Fariseus tinham para aceder eles próprios e para fazer aceder os outros ao reino dos céus, mas eles a tiraram porque anularam a lei com a sua tradição. Mas os escribas e os Fariseus fecharam o reino dos céus a eles próprios e às pessoas também porque não reconheciam em Jesus de Nazaré o Messias. Diziam de Jesus: "Este homem não é de Deus.." (João 9:16), e: "Nós sabemos que esse homem é pecador" (João 9:24), e ainda: "Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios" (Mat. 12:24); e como eles se sentavam na cadeira de Moisés estas coisas que eles diziam sobre Jesus eram aceites por muitos Judeus, os quais por isso eram impedidos pelas suas palavras de entrar no reino de Deus, dado que nele só se pode entrar reconhecendo em Jesus o Cristo de Deus.

Ÿ As chaves do reino dos céus de que falou Jesus a Pedro eram constituídas pelas sãs palavras do Senhor Jesus Cristo; palavras que ele tinha recebido do Pai e que deu também a Pedro. Dizemos também a Pedro e não só a Pedro porque Jesus deu a Palavra de Deus (as chaves para ligar e desligar) também aos outros apóstolos conforme está escrito: "Lhes dei as palavras que tu me deste, e eles as receberam..." (João 17:8).

Ÿ Pedro, por meio das chaves que recebeu de Jesus, no dia de Pentecostes permitiu a muitos Judeus entrar no reino de Deus. Naquele dia muitos Judeus, depois que o ouviram pregar, compungiram-se em seu coração e disseram a Pedro e aos outros apóstolos: "Que faremos, irmãos? Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar" (Actos 2:37-39). Notai que aqueles Judeus na substância perguntaram o que tinham que fazer para entrar no Reino de Deus e que Pedro o lhes disse com toda a franqueza. A resposta que Pedro lhes deu era a Palavra do Reino e para aqueles Judeus foi a chave que lhes permitiu entrar no Reino de Deus. Como podeis ver Pedro não fechou o reino dos céus àqueles Judeus, como faziam antes os escribas e os Fariseus, porque ele disse-lhes que Deus tinha feito Senhor e Cristo aquele Jesus que eles tinham crucificado (cfr. Actos 2:36) e o que eles tinham que fazer para entrar no reino dos céus segundo as palavras recebidas de Cristo Jesus.

Ÿ Segundo o que ensina a Escritura, todos os crentes possuem a chave para fazer entrar os pecadores a fazer parte da Igreja de Deus, porque todos os crentes conhecem a maneira em que se entra a fazer parte dela e a podem referir aos de fora. Quando um filho de Deus diz a alguém que ainda está perdido: ‘Arrepende-te dos teus pecados, crê no Senhor Jesus e serás salvo’, não está fazendo mais do que dizer-lhe aquilo que deve fazer para entrar no reino dos céus e por isso é um instrumento do qual Deus se usa para conduzir a ovelha perdida ao aprisco do Sumo Pastor.

Ÿ O facto de desligar e ligar está presente também nestas palavras que Jesus dirigiu a todos os seus discípulos: "Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada. Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu; e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu" (Mat. 18:15-18). Neste caso o ligar na terra consiste em excluir da comunidade um irmão que peca contra um outro irmão e recusa ouvir tanto o irmão a quem fez o agravo, como as testemunhas, como também a Igreja; neste caso Jesus disse: "Considera-o como gentio e publicano" para significar que não se devem mais ter relações com este. O desligar na terra consiste antes em voltar a ter relação com um irmão que pecou contra um outro irmão e que depois de ter sido repreendido se arrepende do seu pecado. Pelas palavras de Jesus tanto o que ligarmos como o que desligarmos é ligado e desligado também no céu. Queria fazer-vos notar que o ligar está relacionado com a obstinação e o desligar com o arrependimento do irmão que depois de ter pecado é repreendido; a mesma coisa se pode dizer também do ligar e do desligar em relação aos que estão fora do reino de Deus, porque se o pecador ao ouvir a palavra da salvação se obstina em seu coração e não a aceita, ele é ligado por aquele que lhe anuncia o caminho da salvação, ou seja, é mantido fora do Reino porque os seus pecados lhe são retidos; enquanto se o pecador se arrepende e aceita a Palavra então é desligado da sua ligação ao pecado pela Palavra e é feito entrar no Reino de Deus porque os seus pecados lhe são perdoados. Em relação à autoridade de desligar recebida por Pedro, recordamos que tanto no dia de Pentecostes como no dia em que Pedro curou o coxo à porta do templo dita ‘Formosa’, muitos Judeus foram por ele ‘desligados’ da forte ligação da lei pela palavra da pregação porque eles, aceitando a palavra que ele lhes pregou, obtiveram de Deus a remissão dos seus pecados. Também a respeito de Cornélio e dos seus parentes se pode dizer que eles foram por ele ‘desligados’ pela palavra da sua pregação; porque o anjo que tinha aparecido a Cornélio lhe tinha dito que Simão lhe falaria de coisas pelas quais seria salvo ele e a sua casa. Em relação à autoridade de ligar é necessário antes dizer que os que durante a sua vida rejeitaram a palavra por ele pregada foram por ele ligados e permaneceram fora porque, rejeitando-a, os seus pecados lhes foram retidos. Por quanto respeita à autoridade de ligar e de desligar no interior da Igreja que também Pedro tinha recebido de Cristo, recordamos o caso de Simão em Samaria. Este crente, quando viu que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro dizendo-lhes que dessem também a ele aquela autoridade. Mas Pedro o repreendeu severamente pelo seu pecado dizendo-lhe: "Arrepende-te, pois, dessa tua maldade... pois vejo que estás em fel de amargura, e em laços de iniquidade" (Actos 8:22,23); ele fez o que o Senhor tinha dito que se devia fazer em relação a um irmão que tinha pecado, com efeito o repreendeu. Ora, nós não sabemos se Simão se arrependeu e foi desligado, ou se obstinou-se e foi ligado; certo é que se se arrependeu foi perdoado e ganho, mas se se obstinou em seu coração foi ligado e excluído da comunidade dos santos de Samaria.

No passado houveram chefes do Estado Pontifício que excomungaram homens que proclamaram a verdade. Foram por eles excomungados pregadores do Evangelho, tradutores da Bíblia, e muitos outros; porque segundo os guias desta organização religiosa eles ameaçavam o cristianismo e queriam destruir a Igreja mediante os seus ensinamentos. Os guias cegos pensaram assim ter excluído da única e verdadeira Igreja homens perversos; mas as coisas não eram de modo nenhum assim, porque aqueles que eles chamavam perversos ou pestes, não saíram da Igreja de Deus mas sim entraram nela depois de saírem daquele cárcere subterrâneo que é a chamada santa igreja apostólica que é tal só de nome mas não de facto porque não é nem uma santa assembleia de resgatados e nem apostólica, porque os seus aderentes ainda não foram resgatados do poder de Satanás e ela de modo nenhum se atém à doutrina dos apóstolos. Graças sejam dadas a Deus, por meio de Cristo Jesus, por ter iluminado a mente de muitos destes ‘excomungados’ da igreja romana; porque por meio deles a palavra da fé começou a ser pregada com franqueza e com força, as sagradas Escrituras começaram a ser traduzidas na língua do povo e muitos puderam ser salvos pelo Evangelho.

O chefe do Estado do Vaticano que neste momento é João Paulo II pretende ter as chaves do reino dos céus, mas os factos demonstram que ele não as possui e portanto não pode permitir o acesso ao reino de Deus a nenhum dos que confiam nas suas palavras. Ele ensina que Maria é ‘a porta do céu’, ‘a dispensadora dos dons celestes’ ‘a co-redentora com nosso Senhor’; portanto induz as pessoas a confiar em Maria para a sua salvação enganando-as. Ele ensina também que a vida eterna a se deve merecer fazendo boas obras enquanto a Escritura afirma que a vida eterna é dom de Deus. Como pode portanto afirmar ter as chaves do reino dos céus? De certo, este ensinando tais mentiras aos homens, fecha a ele próprio e aos outros o reino de Deus. A verdade é que este homem, junto com os seus colaboradores dispersos pelo mundo inteiro, está conduzindo milhões de almas à perdição. E depois os teólogos romanos se escandalizam quando nos ouvem pregar contra a tradição católica romana porque com ela eles anulam a Palavra de Deus; se escandalizam como se escandalizaram os Fariseus quando ouviram dizer a Jesus que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai dela. E por que é que os Fariseus se escandalizaram? Porque Jesus com aquelas palavras fez compreender às multidões que a tradição dos Fariseus era mentira. Mas que disse Jesus aos seus discípulos, quando soube por eles que os Fariseus tinham ficado escandalizados pelo seu discurso? "Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Mat. 15:13,14). Estas palavras são aplicáveis à cúria romana.

 

O luxo, as riquezas e o poder temporal daquele que se diz o vigário de Cristo e o sucessor de Pedro confirmam que ele não pode ser um servo de Deus

 

Quando se fala do falso doutor que tem a sua residência aqui em Roma, mais precisamente na Cidade do Vaticano, e me refiro àquele que falsamente é chamado sumo pontífice, não se pode não falar do luxo, das riquezas e do poder temporal que ele possui. Ora, o papa dos Católicos romanos diz de fazer as vezes de Cristo na terra e de ser o sucessor de Pedro. Portanto seria de esperar ver um homem que segue as pisadas de Jesus Cristo e as do apóstolo Pedro, isto é, que andasse em toda a humildade como fizeram Jesus e Pedro. Mas nós dizemos: Onde está esta humildade nele? Nós não a vemos de modo nenhum. Vemos só altivez e luxo. Jesus era pobre e viveu humildemente na terra e isso o demonstrou abertamente, de facto, não tinha um lugar onde reclinar a cabeça, não andou vestido com trajes magníficos, e não viveu em delícias como faz aquele que se faz chamar o seu vigário que habita num palácio no Vaticano composto por centenas de divisões, veste vestimentas feitas com tecidos preciosos e adornadas de ouro e vive nas delícias. Um dia Jesus depois de ter morto a fome a uma multidão com apenas cinco pães e dois peixes, como soube que estavam vindo para arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se para o monte sozinho, portanto recusou ser consagrado rei pelos homens, enquanto aquele que se proclama o seu vigário na terra quando se torna papa se faz declarar soberano de um Estado. Jesus diante de Pilatos disse que o seu reino não era deste mundo, mas o papa que se diz seu vigário antes demonstra procurar o poder temporal em todo o tempo e de querê-lo estender sempre mais sobre a terra de toda a maneira e não se envergonha de viver e de falar como um poderoso da terra. Jesus entrou em Jerusalém sobre um jumentinho mas ele viaja gozando de todo o conforto e de todo o luxo, exactamente como qualquer rei da terra, senão mais. Jesus veio para servir e para dar a sua vida por nós e portanto não tinha consigo guardas a protegê-lo para que os Judeus não lhe fizessem algum mal, mas este é escoltado por guarda-costas que têm ordem para matar caso a sua vida seja posta em perigo, e além disso é servido por um exército de guardas suíços; é verdadeiramente um príncipe da terra e não um homem que segue as pisadas de Cristo Jesus.

Também Pedro era um homem humilde e pobre que não fazia de modo algum o tipo de vida que faz aquele que se diz o seu sucessor. À porta do templo dita ‘Formosa’, ele disse ao coxo: "Não tenho prata nem ouro...." (Actos 3:6), portanto não possuía sequer dinheiro para fazer uma esmola naquela ocasião, mas aquele está à cabeça de um império que ostenta enormes riquezas e como diz o Código de direito canónico ‘é o supremo administrador e dispensador de todos os bens eclesiásticos’ (Código de direito canónico, can. 1273). Parece um rei Salomão dos tempos modernos em riquezas (não em sabedoria), e não um apóstolo de Cristo que vive humildemente com o seu Deus como o foi Pedro. Em casa de Cornélio, quando Cornélio se lhe fez ao encontro e se lançou aos seus pés e o adorou, Pedro o tornou a levantar dizendo: "Levanta-te, que eu também sou homem!" (Actos 10:26), mas da forma como age este chamado sucessor de Pedro, é como se ele dissesse às pessoas: ‘Abaixai-vos diante de mim porque eu sou Deus para vós’. Sim, com efeito o papa dos Católicos considera ser Deus na terra. E tal o consideram os Católicos romanos porque é por eles adorado, beijado, e cantam-lhe cânticos. A cerimónia de coroação é um claro exemplo de como com efeito este homem é considerado ser Deus. Se lê por exemplo na Enciclopédia Católica que durante esta cerimónia ‘o pontífice vai ao trono onde recebe a última adoração. Os cardeais beijam o pé e a mão do papa que os abraça duas vezes, os patriarcas, os arcebispos e os bispos beijam-lhe o pé e o joelho direito, os abades mitrados e os penitenciários lhe beijam o pé’ (Enciclopédia Católica, vol. 6, 1781) [10]. Ou melhor, o papa é considerado maior do que Deus porque o cardeal Bellarmino, feito santo, declarou que os homens devem obedecer ao papa, mesmo se este ensina coisas tortas, antes que a Deus. Eis as suas palavras: ‘Se porém o Papa errasse, ordenando os vícios, ou proibindo as virtudes, a Igreja é obrigada a crer que os vícios sejam coisa boa, e as virtudes más, senão se quiser pecar contra a consciência. Se é obrigado ainda, nas coisas dúbias, estar ao juízo do Sumo Pontífice, e fazer aquilo que ele manda, e não fazer aquilo que ele proíbe, e para que não se aja contra consciência, se é obrigado a crer que seja bom o que ele manda, e mau o que ele proíbe’ (Bellarmino, De Rom. Pontifice, Lib. IV, cap. 23). Notai que no caso de o papa ensinar a perversão o Católico é obrigado a obedecer-lhe para não pecar contra a consciência! Mas nós dizemos: Mas não é porventura verdade o contrário? Isto é, não é porventura verdade que se o papa diz uma mentira, porque tal se demonstra à luz da Escritura, os homens não devem obedecer-lhe por causa da consciência? Certamente que assim é: mas não para muitos Católicos romanos cegados pelo diabo. Não há dúvida, das palavras de Bellarmino se evidencia que importa antes obedecer ao papa do que a Deus, que entre o que diz o papa e o que diz a Palavra de Deus, o que diz o primeiro é superior. E nós não podemos senão exprimir o nosso ódio por essas loucas palavras, que repito são produzidas pela boca de um ‘santo’ da igreja católica romana (o que significa que também as suas palavras são consideradas santas).

Não se pode pois de modo nenhum dizer que este homem seja um exemplo de vida para os crentes como o foram os apóstolos. Paulo pôde bem dizer aos santos de Corinto: "Sede meus imitadores" (1 Cor. 11:1), e aos de Filipos: "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco" (Fil. 4:9), porque ele era imitador de Cristo e não de um qualquer déspota da terra, mas aquele que afirma ser nada menos que o vigário de Cristo não pode de modo algum dizer aos homens para viverem como ele vive para serem um exemplo neste mundo porque faz uma vida que se adequa a um príncipe e não a um ministro de Cristo. Como podem dizer portanto os Católicos que nós falamos mal do seu chefe sem razão quando ele com a sua conduta demonstra abertamente de não ter em nenhuma consideração os mandamentos de Cristo mas de exaltar-se contra Cristo? Se nós fôssemos caluniadores de um ministro de Cristo que se conduz de modo digno de Deus sem dar motivo de escândalo em coisa alguma certamente seríamos envergonhados pela sua própria conduta porque seria irrepreensível mas este de modo algum tem em consideração as palavras de Pedro: "Assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos" (1 Ped. 2:15). Se ele portanto fizesse a vontade de Deus (como pretende fazê-la), e se nós fôssemos insensatos teríamos a nossa boca tapada; mas nós não somos homens insensatos que têm prazer em dizer mal da recta conduta de alguém e por isso a nossa boca não pode ser de alguma maneira tapada porque diz a verdade. Jesus um dia disse estas palavras ao guarda do sumo sacerdote que o feriu: "Se falei mal, dá testemunho do mal" (João 18:23); portanto, se nós que dizemos a propósito daquele (que foi chamado pelo cardeal Bellarmino com quinze nomes diferentes que são: ‘Papa, Padre dos padres, Pontífice dos cristãos, Sumo Sacerdote, Príncipe dos sacerdotes, Vigário de Cristo, Cabeça do corpo da Igreja, Fundamento da Igreja, Pastor do aprisco de Cristo, Pai e Doutor de todos os fiéis, Reitor da casa de Deus, Guarda da Vinha de Deus, Esposo da Igreja, Primaz da Sede apostólica, Bispo universal’ [Bellarmino, De Rom. Pontif. lib. II, cap. 31]) que é um anticristo dizemos uma coisa não verdadeira o demonstrem os teólogos papistas que falámos mal.

 

O apóstolo Pedro não fundou a Igreja de Roma e não foi bispo dela

 

Os teólogos Católicos romanos, apoiando-se na tradição, afirmam que Pedro veio a Roma, fundou a Igreja de Roma exerceu o ofício de bispo universal em Roma por vinte e cinco anos (de 42 a 67) e antes de morrer transmitiu o seu cargo aos seus sucessores.

Comecemos com a vinda de Pedro a Roma: a Escritura não fala dela como, pelo contrário, faz da vinda de Paulo, portanto não podemos confirmá-la com a Escritura. Isto não nos leva porém a dizer que Pedro nunca veio a Roma; pode também ser verdade que Pedro tenha vindo a Roma. Mas no caso de ter vindo é recusável o facto que ele tenha sido o fundador dela porque a Igreja de Roma já existia antes que ele lá fosse, de facto se presume que ela foi fundada por aqueles adventícios Romanos que no dia de Pentecostes depois de ter ouvido a pregação de Pedro se converteram a Cristo. Se Pedro tivesse sido o pastor dela ou um dos anciãos certamente Paulo na sua epístola à Igreja de Roma não teria omitido o seu nome quando no fim dela diz para saudar os santos referindo o nome deles, enquanto, ao contrário, o nome de Pedro não está incluído naquela lista (cfr. Rom. 16:3-15). Pode alguma vez ser que o primeiro papa, o primeiro bispo universal, o vigário de Cristo, assim como o chama a igreja católica romana, o primeiro bispo de Roma não tenha sido citado minimamente por Paulo embora estivesse em Roma? Como se explica tudo isso. Explica-se com o facto que Pedro não estava nem em Roma naquele tempo e muito menos era bispo universal como antes querem fazer crer os Católicos. Mas os Católicos não se rendem perante a evidência, e dizem que a prova de que Pedro foi a Roma está na Escritura e se encontra na primeira epístola de Pedro onde ele diz: "A igreja que está em Babilónia eleita como vós, vos saúda.." (1 Ped. 5:13); onde por Babilónia se entende Roma. Não estamos por nada de acordo com esta interpretação dada a Babilónia, porque aqui por Babilónia deve-se entender a cidade de Babilónia e não a cidade de Roma. Por que é que Pedro alguma vez chamaria a Roma Babilónia? Mas quem é que também hoje escrevendo desde Roma diria que os santos que estão em Babilónia dão as suas saudações? Nós consideramos que se Paulo nas suas epístolas tinha chamado Roma desta maneira (cfr. Rom. 1:7; 2 Tim. 1:17), também Pedro se tivesse citado Roma a chamaria assim. O facto pois de falar de Babilónia quer dizer que naquele tempo quando escrevia aquela epístola se encontrava em Babilónia (no Oriente portanto) com os santos daquela cidade. Com isto porém não queremos dizer que Pedro nunca tenha estado em Roma, mas apenas que Babilónia é Babilónia, e não Roma.

Depois de ter demonstrado que Pedro não foi constituído por Cristo cabeça da Igreja, e que não se sabe se tenha vindo a Roma mas sabe-se que se alguma vez veio a Roma não fundou aqui a Igreja, mas quando aqui veio a Igreja já existia e tinha um colégio de anciãos a conduzi-la, resulta claro pois que a chamada sucessão apostólica, que os teólogos católicos dizem possuir ininterrupta desde Pedro até agora, é uma invenção papista para fazer parecer verdadeiro o primado do chamado papa. Mas não é só uma invenção, demonstra-se também interrompida muitas vezes no curso da história; porque houveram períodos em que a sede de Roma esteve vacante [11] e períodos em que disputaram o papado dois e até três papas; sem depois falar do chamado ‘cativeiro de Avignon’ e dos papas declarados perversos pelos próprios historiadores católicos.

 

Breve história do papado

 

Demonstrámos portanto pelas Escrituras como aquele que é chamado papa não é nem o bispo universal, nem o sucessor de Pedro porque Pedro não foi bispo de Roma e não deixou sucessores, nem o chefe da Igreja de Deus, e nem o vigário de Cristo, e outras coisas a seu respeito. Queremos agora examinar em seus pontos mais importantes a história do papado a fim de compreender como tenha podido acontecer que da antiga Igreja de Roma, cuja fé era publicada por todo o mundo, tenha surgido este pequeno Estado comandado por aquele que se diz o bispo de Roma e o sucessor de Pedro o qual possui um enorme poder espiritual sobre centenas de milhões de pessoas de todo o mundo. Traçarei a história do papado falando tanto da origem do poder espiritual como do temporal detendo-me de quando em vez sobre aqueles eventos que mais contribuíram para desenvolver estes poderes; me deterei também a falar de alguns papas que se distinguiram pela sua arrogância, falsidade, impiedade, sede de dinheiro e de sangue, e pela sua dissolução e de algumas chacinas e guerras ocorridas por obra dos papas ou para a conquista do assento papal ou para a conservação do trono pontifício, ou para a salvaguarda dos interesses e dos territórios do papado ou para aumentar o seu território de jurisdição. Decidi inserir neste livro esta parte histórica sobre o papado porque cheguei à conclusão depois de ter estudado o catolicismo romano que sem ela faltaria no livro uma parte importante para a compreensão do catolicismo. Com efeito, considero que se um crente quer perceber bem o que é o catolicismo romano além de conhecer a fundo as suas doutrinas, deve conhecer a história do papado, senão toda, pelo menos uma parte. Só assim ele pode ter um quadro completo do catolicismo e pode demonstrar aos Católicos, além de com as sagradas Escrituras, também com os factos históricos registados pelos seus próprios historiadores e escritores que aquela instituição sobre a qual eles fundam todas as suas esperanças não é mais que uma instituição humana que não se baseia de modo nenhum sobre as palavras de Jesus a Pedro (como é afirmado por eles na sua ignorância) porque é apenas fruto de circunstâncias históricas verificadas nos primeiros oito séculos que permitiram o nascimento e o crescimento dela [12]; instituição que uma vez nascida para poder conservar-se viva e desenvolver-se recorreu a compromissos de variados géneros, a mentiras, à violência, à guerra, a prepotências de todo o género; cujos chefes que se sucederam no seu vértice fomentaram guerras e injustiças de todo o género, abençoando os malvados e amaldiçoando os justos, aprovando a iniquidade e reprovando a justiça, e introduzindo e dando aval a toda a sorte de falsas doutrinas.

 

Do segundo ao quarto século

 

Por volta do fim do segundo século o bispo de Roma começou a atribuir-se prerrogativas de supremacia sobre os outros bispos. O então bispo Vítor (189-199), com efeito, na controvérsia que existia acerca da Páscoa entre as igrejas do Oriente e as do Ocidente (os Orientais diziam que era necessário festejá-la a 14 de Nisan qualquer que fosse o dia em que calhasse, enquanto os Romanos diziam que era necessário festejá-la no Domingo mais próximo ao 14 de Nisan) pediu às comunidades da Ásia para se aterem à praxe romana que remontava, a seu dizer, à tradição apostólica; e no caso de recusa ameaçou a exclusão da comunhão eclesial. Mas as igrejas do Oriente se opuseram a Vítor por meio de Policrates bispo de Éfeso [13].

Também no terceiro século o bispo de Roma continuou a considerar-se num certo sentido superior aos outros bispos, com efeito, Calisto I (217-222) considerava apoiando-se sobre "Tu és Pedro" ter o poder de ligar e desligar e portanto de acolher na igreja também os adúlteros porque a sua igreja estava perto do sepulcro de Pedro. Mas a Calisto se lhe opôs Tertuliano dizendo-lhe: ‘Quem és tu que (de tal modo) subvertes e deformas a intenção manifestada pelo Senhor, que conferia tal poder pessoalmente a Pedro?’ (Tertuliano, De pudicitia 21).

Depois foi a vez de Estevão I (254-257) a considerar-se em posse de algo que os outros bispos não tinham, e portanto superior aos outros bispos, com efeito ele reivindicou a sucessão de Pedro por causa do lugar onde ele era bispo e de ter portanto a autoridade de acolher na igreja também os batizados pelos heréticos. Em outras palavras Estevão, apoiando-se na tradição, aceitava o batismo ministrado pelos heréticos pelo que aqueles que deixavam uma seita para entrar a fazer parte da Igreja, segundo ele, não necessitavam ser rebatizados, mas apenas que o bispo lhes impusesse as mãos. Mas a Estevão se opôs Cipriano, bispo de Cartago, o qual não considerava válido o batismo dos heréticos e por isso se um herético se convertia devia ser rebatizado. Ele não dizia porém rebatizado mas simplesmente batizado porque para ele aquele batismo não era verdadeiro. Cipriano disse numa sua carta a Quinto a propósito desta controvérsia: ‘Não é, aliás, caso de ditar uma norma em força de um costume [o evocado por Estevão]: toca à razão prevalecer’ (Carta 71, III. 1) [14]. E por se ter recusado a dar razão a Estevão foi por ele excomungado.

Estas oposições recebidas por três bispos romanos no espaço de pouco mais de meio século testificam claramente que as igrejas naquele período não reconheciam que o bispo de Roma tivesse um primado jurisdicional de instituição divina sobre a Igreja universal; uma coisa do género era completamente estranha às igrejas de então. (É necessário dizer porém que nas relações com o bispo de Roma muitas igrejas tinham começado a mostrar um certo respeito, isto é, tinham começado a mostrar-lhe uma honra especial). O contrário, isto é, que as igrejas dos primeiros séculos depois de Cristo considerassem o bispo de Roma o seu chefe ou o bispo dos bispos, de quem elas dependiam e a quem deviam uma absoluta submissão, cujos juízos eram inapeláveis e não criticáveis porque pronunciados pelo vigário de Cristo na terra, não se pode demonstrar nem com os escritos do Novo Testamento e nem sequer com os escritos dos chamados pais tanto é verdade que até um escritor católico é obrigado a afirmar: ‘Não se pode assegurar para o período dos primeiros três séculos uma supremacia jurídica do bispo de Roma sobre a Igreja universal’.

Mas por que motivos o bispo de Roma começou a considerar-se (e a ser considerado por alguns) superior aos outros bispos ou de qualquer modo digno de especial honra em relação a eles? Os motivos são os seguintes: 1) Roma era a capital do Império Romano e portanto a cidade mais importante de todo o Império e portanto também o bispo daquela cidade devia ser objecto de particular honra; 2) em Roma no tempo dos apóstolos havia uma Igreja famosa por todo o mundo pela sua fé à qual Paulo, o apóstolo dos Gentios, tinha escrito uma das suas mais longas epístolas, e segundo muitos uma das suas mais importantes; 3) a Igreja de Roma gozava fama de ser apegada à sã doutrina (chamada por muitos tradição apostólica) e adversa à heresia (por exemplo tinha-se oposto com força às heresias dos Gnósticos) [15], e ao cisma e a este propósito se fazia presente a carta do bispo romano Clemente (88-97) por ele escrita à Igreja de Corinto quando no seio dela jovens se tinham rebelado aos seus condutores: nesta carta Clemente exortava os crentes a submeterem-se aos anciãos constituídos pelos apóstolos [16]; 4) a tradição dizia que em Roma tinha morrido o apóstolo Paulo; 5) a tradição dizia que Pedro tinha ido a Roma e ali tinha ficado diversos anos a apascentar a Igreja daquela cidade (como bispo) e ali tinha também morrido mártir pelo que quem era bispo daquela cidade era automaticamente sucessor de Pedro. Mas entre todos os motivos aqui supracitados aquele que mais do que outro levou os bispos de Roma a se considerarem superiores aos outros foi este último citado, e de facto é sobre este que ainda hoje insistem os Católicos para sustentar o primado do seu bispo romano sobre toda a Igreja.

Mas este primado (sobre a Igreja universal) do chamado sucessor de Pedro era preciso demonstrá-lo com as Escrituras, ou seja, era preciso demonstrar que Pedro tinha sido por Cristo constituído chefe da sua igreja na terra porque só assim o seu ‘sucessor’ poderia reivindicar ter um primado de origem divina. Eis pois que os bispos de Roma começaram a declarar, primeiro timidamente e depois cada vez com mais clareza, que em virtude das palavras de Jesus a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja... eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mat. 16:18-19) [17], o apóstolo Pedro tinha sido constituído Príncipe dos apóstolos, cabeça e fundamento da Igreja, e que o bispo de Roma, dado que era o seu sucessor (porque Pedro tinha estado em Roma e aqui tinha morrido), tinha por conseguinte recebido em herança o primado dado por Cristo a Pedro. Pode-se portanto dizer que as palavras de Jesus ditas a Pedro "tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja..." (e repito, junto com as palavras da tradição que afirmavam que Pedro tinha estado a Roma e ali tinha morrido mártir, sem as quais as palavras de Jesus não poderiam ser aplicadas ao bispo de Roma) começaram a um certo ponto da história da Igreja (desde o século III em diante) a servir aos bispos de Roma para sustentar o seu primado sobre toda a Igreja, em outras palavras eles se puseram a interpretar daquela maneira errada essas palavras de Jesus a Pedro, fazendo ao mesmo tempo sempre presente que a sua sede estava perto do sepulcro de Pedro, porque impelidos pelo seu orgulho e pela sua sede de poder. Queriam em suma ter o primado sobre a Igreja universal presente em todo o lugar. Que arrogância, que presunção! Mas esta sua ambição de dominar sobre toda a Igreja encontrou a oposição de muitos que justamente viram naquela atitude do bispo de Roma uma demonstração de arrogância. Mas a semente má tinha já sido semeada pelos bispos de Roma e com o passar do tempo ela, com a ajuda dos imperadores e dos reis, cresceria até fazer o bispo de Roma tornar-se o soberano de um Estado.

A supremacia do bispo de Roma recebeu um forte impulso no quarto século. Vejamos alguns acontecimentos que o demonstram. Constantino (306-337), depois de ter subido ao poder concedeu aos Cristãos a ‘liberdade’ de professar a sua fé com o édito de Milão (313) em que se dizia: ‘Desde longo tempo pensamos que não se deve negar a liberdade de religião; antes, a todo o homem deveria ser garantida a liberdade de manifestar os seus pensamentos e os seus desejos, permitindo-lhe assim considerar as coisas do espírito segundo a sua escolha. É por este motivo que ordenamos de permitir a qualquer um observar as suas crenças e a sua religião’. A Igreja podia finalmente, depois de tantos anos de perseguição [18], gozar da ‘liberdade de culto’ a par dos pagãos. Constantino restituiu às igrejas as propriedades que lhes tinham sido confiscadas pelos seus predecessores durante as perseguições, ele mandou também construir muitas basílicas [19] e concedeu-lhes vastíssimos latifúndios [20]. Os bispos por isso ficaram com enormes propriedades para administrar [21]. Além disso os bispos foram isentos de diversos tributos; as suas propriedades estavam isentas. Foi também permitido deixar os seus bens às igrejas, e os deixados não eram sujeitos a nenhuma taxa. Mas Constantino desta maneira tornou-se uma espécie de ‘cabeça visível’ da Igreja porque começou a comandar em matéria de fé e doutrina também sobre os bispos que eram obrigados a inclinar-se diante das suas decisões também nas coisas espirituais se não quisessem perder os seus privilégios. Vejamos algumas destas suas ingerências nos assuntos internos da Igreja.

Nos primeiros anos do século IV rebentou a controvérsia donatista. Tinha sucedido que naqueles anos na África setentrional um certo Ceciliano tinha sido ordenado bispo por um certo Félix. Mas como - era sustentado por alguns - este Félix debaixo da perseguição que havia de Diocleciano tinha cedido diante dos pagãos (pelo que era um traidor), muitos não aprovaram a ordenação de Ceciliano porque segundo eles o comportamento de Félix a invalidava. À cabeça destes se pôs um certo Donato, daqui o nome de Donatistas dado aos adversários de Ceciliano, que apelaram ao imperador pedindo a deposição de Ceciliano. Em 314 (enquanto estava em curso a controvérsia donatista) o imperador mandou convocar um concílio em Arles, no qual participaram bispos ou seus delegados da Gália, da Itália, de África, da Espanha e da Britânia. Neste concílio não participou porém Silvestre (314-335) bispo de Roma (tido por papa). Este concílio tomou posição contra a posição donatista porque aboliu o uso africano de rebatizar os heréticos convertidos, desde que o seu primeiro batismo tivesse sido administrado em nome da Trindade e aprovou as ordenações feitas por indígenas. Os Donatistas, ao contrário, faziam depender a validade das ordenações da conduta daquele que as fazia. Em 316 Constantino declarou definitivamente Ceciliano inocente e emanou uma lei muito severa contra os Donatistas: eles eram condenados ao exílio com a confisca dos bens, as basílicas por eles ocupadas deviam ser-lhes tiradas e dadas aos Católicos. Esta sentença não fez mais do que exacerbar os ânimos dos Donatistas. Em Cartago em 317 três basílicas donatistas foram ocupadas a preço de atrozes massacres; os soldados se abandonaram a toda a espécie de violência. Por toda a parte na África proconsular houveram saques, assassinatos de bispos, ultrajes às virgens. Em 321 porém o imperador concedeu aos Donatistas liberdade de culto anulando assim as decisões do concílio de Arles [22]. Ainda Constantino mandou convocar o concílio geral (ou ecuménico) de Nicéia (em 325) que condenou a heresia ariana e Ário [23] (com os bispos que a pensavam como ele) ao exílio; ele o abriu e ele tomou parte nele dominando sobre a assembleia reunida. Também neste concílio não participou o bispo de Roma porque enviou dois seus delegados.

Em 330 Constantino quis deslocar-se para Bizâncio, que chamou Constantinopola, para fazer dela a capital do Império, em Roma criou-se assim um vazio político que foi imediatamente tomado pelo bispo, que assim além de desempenhar funções religiosas começou a exercer também funções políticas tornando-se a pessoa mais poderosa da cidade [24]. Como veremos a seguir, no oitavo século nos ambientes papistas será redigido um falso documento chamado Donatio Constantini (a Doação de Constantino) em que se dizia que Constantino ao deslocar-se para Bizâncio deixava a jurisdição de Roma e de outros territórios ao bispo de Roma; documento que na idade média servirá aos papas para confirmar o seu poder temporal. A controvérsia ariana continuava porém ainda a perturbar a Igreja porque os Arianos tornavam-se cada vez mais. Ário conseguiu captar o favor do imperador o qual convidou Atanásio (295 ca. - 373), bispo de Alexandria, a readmitir Ário na Igreja, mas este se recusou a fazê-lo. Então Constantino em 335 mandou convocar um concílio em Tiro (que se transferiu depois para Jerusalém) em que fez reabilitar Ário, declarar ortodoxa a sua doutrina, e fez depôr Atanásio, que defendia incansavelmente a divindade de Cristo Jesus. Atanásio foi portanto exilado (este foi o seu primeiro exílio e durou até à morte de Constantino ocorrida em 337).

Sob o reinado de Constantino aconteceu assim que a Igreja se aliou com o imperador permitindo-lhe intrometer-se nos assuntos espirituais em troca de privilégios, e desde aquele momento em diante não seria mais a mesma porque de perseguida tornar-se-á perseguidora, de facto se servirá do braço secular para punir com o exílio e por vezes para exterminar os que dissentirão dela [25].

Em 343 se realiza um concílio em Sárdica (a actual Sófia), em que ainda uma vez não esteve presente o bispo de Roma, que então era Júlio (337-352), que absolveu Atanásio e condenou Ário. Em um dos cânones deste concílio é recordado o costume de um bispo não poder ser julgado senão pelo concílio da sua província e é dito que em caso de o bispo condenado não ficar satisfeito com a sentença dada, os comprovinciais devem escrever ao bispo de Roma. Em outras palavras dá-se a faculdade a um bispo condenado de apelar para Roma. É o cânone terceiro o citado que precisamente diz: ‘Se nalguma província, alguém dentre os Bispos tem uma questão com um seu irmão e colega no episcopado, nem um nem outro deve apelar dela ao Bispo de outra província. Mas se um Bispo julga ser condenado injustamente, e considera a sua causa ser não fraca mas boa, a dever-se renovar o julgamento, - se agrada à vossa Caridade, honremos a memória de Pedro apóstolo, e se mande notícia, acerca daqueles juízes, a Júlio o Bispo de Roma, de maneira que por meio dos Bispos das províncias adjacentes, se renove, se for necessário, o tribunal, e ele (Júlio) estabeleça juízes instrutores...’. O cânone quinto depois acrescenta que em caso de apelo, o Bispo de Roma pode ordenar que a causa seja de novo examinada pelos Bispos provinciais. Este concílio porém foi abandonado pelos bispos orientais nele presentes, e os seus cânones não foram por eles reconhecidos. O concílio de Sárdica reveste-se de uma importância notável, direi fundamental, na evolução do poder espiritual de Roma porque pela primeira vez num concílio a sede de Roma era manifestamente exaltada acima das outras. E não é por acaso que os defensores do poder espiritual do papa ainda hoje citam muito o concílio de Sárdica para sustento do primado do bispo de Roma sobre a Igreja universal.

Em 355 o imperador Constâncio mandou convocar um concílio em Milão. Este concílio condenou de novo Atanásio, o qual sofreu assim o enésimo exílio que desta vez durou até 362 [26]. Junto com ele foram exilados outros bispos que sustentavam a divindade de Cristo entre os quais também o bispo de Roma que então era Libério (352-366) o qual não tinha querido submeter-se ao imperador aceitando o arianismo e condenando Atanásio. Mas poucos anos depois, Constâncio, vendo que Libério durante o exílio tinha cedido, o fez voltar do exílio em ocasião do concílio de Sirmio (358) e o obrigou a subscrever a heresia ariana para poder voltar a Roma. Aconteceu assim que o imperador Constâncio fez voltar Libério a Roma. Mas entretanto em Roma tinha sido eleito bispo Félix. Se tinha pois vindo a criar uma situação difícil e embaraçosa porque haviam agora dois bispos de Roma, o velho e o novo. O imperador então mandou escrever a Roma pelos bispos do concílio de Sirmio, onde tinha sido aprovada pela enésima vez a heresia ariana, uma carta em que se dizia que ‘os dois bispos ocupariam em conjunto a sede apostólica e fariam de comum acordo as funções sacerdotais; e que era necessário esquecer todos os dolorosos acontecimentos verificados a propósito da ordenação de Félix e da ausência de Libério’. Mas as coisas não correram como queria o imperador porque em Roma se criaram duas facções que se combateram por diversos anos; houveram tumultos mesmo sangrentos segundo o que dizem alguns. Félix levou a pior e teve que ir embora dali, e hoje é considerado um antipapa [27].

A Libério depois sucedeu Dámaso (366-384) o qual tornou-se bispo de Roma com a força e a violência. Eis como este se tornou bispo. Quando morreu Libério no ano 366, apresentaram-se como candidatos ao papado o diácono Ursino e o padre espanhol Dámaso. Ambos foram eleitos bispos pelos respectivos partidos. Mas quando se tratou de tomar posse da sede episcopal, os partidários de um e os partidários de outro pegaram em armas para decidir quem era o verdadeiro sucessor de Pedro. O combate fez-se pelas ruas e pelas basílicas; depois de muitas batalhas os seguidores de Ursino fecharam-se na basílica de Sicinnio (que depois será chamada por Sisto III ‘S. Maria Maior’). Os seguidores de Dámaso então treparam ao telhado, praticaram um foro e começaram a lançar contra os seguidores de Ursino pedras e telhas, enquanto os outros atacavam o portão central. Quando o portão cedeu, rebentou uma luta sangrenta no fim da qual se contaram 137 cadáveres entre os seguidores de Ursino. Este foi depois mandado para o exílio pelo representante do imperador. Dámaso sujou portanto as suas vestes de sangue para tomar posse do bispado romano. E agora este é contado entre os santos (Dámaso é o que sugeriu a Jerónimo para fazer uma nova tradução da Bíblia que agora leva o nome de Vulgata). E não foi a única vez que aconteceu que alguém se tornou bispo de Roma derramando ou fazendo derramar sangue pois destas lutas sangrentas entre os partidários de dois candidatos ao papado seguiram-se muitas delas no curso dos séculos sucessivos. Aliás, é necessário ter presente que o lugar de bispo de Roma tinha-se tornado muito ambicionado porque conferia um grande poder sobre as almas e privilégios e honras em grande número. Quem se tornava bispo de Roma tornava-se uma espécie de rei que poderia viver no luxo e nas delícias. Para perceber quanto isso era verdade há o testemunho de Amiano Marcelino (escritor pagão), que viveu no século IV, o qual falando do clero romano e em particular dos bispos diz: ‘Eu devo confessar que, vendo quanta pompa e magnificência acompanha a dignidade, não me admiro que aqueles que a ambicionam, tenham usado todos os meios possíveis para obtê-la (o cargo de bispo). Obtendo-a, podiam estar seguros de se tornarem ricos e poderosos pelos presentes que lhes davam as damas romanas. Não era mais mister que andassem a pé, mas faziam uso de tripulações magníficas e ricamente adornadas. Sobre as suas mesas haviam em abundância as comidas mais delicadas; eles ultrapassavam mesmo o próprio imperador em magnificência e dispêndio’. Jerónimo escreveu que quando Dámaso pediu ao prefeito de Roma, um pagão com muitos títulos sacerdotais, para se converter, este lhe respondeu: ‘Com todo o gosto, se me nomeares Bispo de Roma’. Eis pois o que se tinha tornado o bispo de Roma aos olhos dos pagãos; um príncipe, um rei da terra.

Em 380 o imperador Teodósio emanou um édito que fazia do cristianismo a religião oficial do Império Romano; e em 381 o concílio de Constantinopola reconhecia o primado da sede romana, e estabelecia que o patriarca de Constantinopola tinha o primado de honra segundo logo depois ao do bispo de Roma. Portanto foi ainda uma vez um concílio a declarar a sede de Roma superior às outras; apesar disso o então bispo de Roma, Dámaso, declarava num concílio romano de 382: ‘A Santa Igreja de Roma tem a precedência sobre todas, não graças à deliberação deste ou daquele concílio, mas porque o primado lhe foi conferido pela frase de Nosso Senhor e Salvador reportada no Evangelho’!

 

Do quinto ao sétimo século

 

Também o bispo romano Inocêncio I (401-417) reforçou o primado do bispo de Roma; ele disse por exemplo: ‘Quem não conhece ou não vê que aquilo que foi declarado à Igreja de Roma por Pedro, Príncipe dos Apóstolos e que ainda aqui se conserva, deveria ser por todos observado? E que nada se deveria acrescentar ou introduzir sem a sua autoridade ou que parecesse provir de outras partes sendo manifesto que todas as igrejas de Itália, das Gálias, de Espanha, de África, de Sicília e das ilhas intermédias foram estabelecidas por ofício do venerável apóstolo Pedro e dos seus sucessores’.

Em 445 o imperador Valentiniano III reconheceu o primado do bispo de Roma nas coisas espirituais, e decretou que o que decidia aquele bispo devia ser lei para todos. ‘Tudo o que a autoridade da sede apostólica sancionou ou vier a sancionar, seja lei para eles e para todos’. Este ulterior reconhecimento imperial não fez mais que reforçar ulteriormente o primado do bispo de Roma. E de facto o então bispo de Roma Leão I dito Magno (440-461) - que muitos chamam o primeiro ‘papa’ - sustentava abertamente e com grande força que Jesus concedeu a Pedro o primado da dignidade apostólica, que passou depois ao bispo de Roma ao qual compete o cuidado de todas as igrejas. Este Leão tinha tão estreitas relações com o imperador Valentiniano que obteve dele a promulgação de leis extremamente severas contra os Maniqueus [28]. Isto demonstra ainda uma vez como o bispo de Roma podia livremente, em virtude da sua posição privilegiada que gozava junto do imperador, usar o poder civil para perseguir os heréticos. O primado de Roma recebeu uma ulterior confirmação por um facto acontecido no concílio de Calcedónia de 451, convocado pelo imperador Marciano, que os papistas fazem notar com orgulho para sustentar o primado do bispo de Roma. Leão tinha enviado àquele concílio uma carta em que confutava a heresia de Eutiques (este era um monge de Constantinopola que dizia que a natureza humana e divina em Cristo se tinham fundido numa só, a divina). E o comentário da assembleia a essa carta foi: ‘Pedro falou pela boca de Leão!’ [29]. Mas apesar disso a chamada supremacia da sede de Roma recebeu um redimensionamento por esse mesmo concílio de Calcedónia porque ele decretou no seu vigésimo oitavo cânone: ‘Os Pais atribuiram em bom direito o primado à sede da antiga Roma, porque esta cidade é soberana; com o mesmo intento os cento e cinquenta e três bispos teofilos outorgaram o mesmo primado à santíssima sede da nova Roma, pensando com razão que a cidade honrada (pela presença) do imperador e do senado, e que tem os mesmos privilégios da antiga Roma imperial, é grande como essa nas coisas eclesiásticas, sendo a segunda depois dela’ [30]. Os legados de Leão presentes no concílio (note-se ainda uma vez que o bispo de Roma não esteve presente pessoalmente num concílio da Igreja antiga) protestaram contra este cânone; para eles constituia uma injúria à ‘sede apostólica’. Leão I não aceitou o vigésimo oitavo cânone mas se lançou com veemência contra ele. À imperatriz Pulquéria escreveu até: ‘..pela autoridade de S. Pedro, ele anulava absolutamente o decreto de Calcedónia’.

Durante o século V contribuiram para aumentar o poder temporal do bispo de Roma também as invasões barbáricas. Por volta de 410 desceram os Godos sob Alarico os quais por três dias devastaram Roma, em 452 os Hunos sob Átila e em 455 os Vândalos sob Genserico. No caso do saque de Roma feito pelos Godos de Alarico aconteceu que Inocêncio I se tinha deslocado com uma embaixada romana a Ravena para pedir ao imperador Honório de tratar com os Godos e condescender às suas exigências para que Roma não fosse saqueada; mas a missão se revelou infrutuosa porque Alarico entrou em Roma e a saqueou por três dias. De qualquer modo, o bispo de Roma aos olhos do povo cresceu em importância porque era olhado como um defensor. No caso de Átila é dito que quando ele ameaçava atacar Roma e saqueá-la Leão I foi ao seu encontro e conseguiu convencê-lo (depositando-lhe nas mãos um conspícuo tributo) de não tocar Roma. No caso de Genserico (que provinha da África setentrional), Leão I conseguiu convencê-lo a poupar Roma do fogo e do sangue; mas teve que consentir-lhe saquear com as suas hordas a cidade por duas semanas. Os Vândalos espoliaram os templos das suas coisas preciosas e transportaram para África como escravos de guerra milhares de romanos. Desta maneira o bispo de Roma adquiriu aos olhos da população romana um maior prestígio. Uma outra devastação bárbara verificou-se em 472 sob Rechimero [31]. O império Romano do Ocidente caiu sob os ataques das invasões barbáricas em 476 quando Odoacro depôs Rómulo Augusto e recebeu o título de rei de Itália. A sua queda permitirá ao papado desenvolver-se ulteriormente porque ele não será mais controlado e governado pelo imperador do Ocidente. O bispo de Roma caído o império do Ocidente tornar-se-á ainda mais importante.

Em 492 tornou-se papa Gelásio I (492-496) que contribui para reforçar o poder espiritual do bispo de Roma, com efeito escreveu ao imperador Anastásio: ‘Dois são os poderes, augusto imperador, que principalmente governam este mundo; o poder sagrado dos bispos e o temporal do rei. Destes dois poderes o ministério dos bispos tem maior peso, porque eles devem prestar contas ao tribunal de Deus também pelos reis dos mortais’, e ainda Gelásio reafirmou o primado de Roma dizendo: ‘E se convém que todos os fiéis se submetam aos bispos, os quais rectamente dispensam as coisas sagradas, quanto mais é necessário proceder com o chefe da sede que Deus constituiu sobre a todas as outras e pela Igreja universal foi sempre venerada com devoção filial’.

Em 498 morreu o bispo de Roma Anastásio II. Na eleição do novo papa aconteceu que uma parte do clero e a maioria do senado elegeram papa o arcipreste Lourenço na basílica de Santa Maria Maior. Entretanto porém os adversários de Lourenço elegiam o diácono Símaco na basílica de Latrão. Rebentaram portanto tumultos entre as duas facções porque ambos se consideravam o legítimo sucessor de Pedro. As coisas chegaram a tal ponto que o rei ostrogodo Teodorico, que era ariano, interveio na disputa e fez vir os dois contendentes a Ravena. Foi reconhecido o direito de Símaco. Regressado a Roma Símaco fez convocar um concílio; Lourenço se submeteu a Símaco e foi-lhe entregue a diocese de Nocera na Campania. Mas a calma durou pouco, porque os adversários de Símaco o atacaram acusando-o de vários delitos considerando-o indigno de ocupar a ‘sede apostólica’. Teodorico convocou de novo Símaco a Ravena, mas este chegando a Rimini, decidiu fugir e voltar para Roma onde se fechou em São Pedro. A Teodorico este seu comportamento pareceu uma confissão. Os adversários se aproveitaram então desta situação e obtiveram que fosse enviado para Roma um visitante para governar temporariamente a igreja. Foi enviado Pedro bispo de Altino que chegando a Roma recusou ter relações com Símaco. Símaco protestou contra esta intrusão. Todos os bens eclesiásticos e todos os edifícios religiosos (excepto São Pedro) foram entregues ao visitante. O rei então para acabar com esta situação convocou um certo número de bispos italianos para julgar Símaco. O êxito do concílio foi que Símaco não podia ser considerado culpado e era necessário portanto reconhecê-lo como legítimo pastor. Os edifícios religiosos e os bens foram reentregues a Símaco. Os adversários de Símaco então a este ponto (dado que não se tinham rendido e queriam expulsar a todos os custos Símaco) obtiveram do rei o regresso de Lourenço. Lourenço voltou a Roma e aconteceram grandes tumultos. O Liber Pontificalis (a colecção das biografias dos bispos de Roma ‘de Pedro’ a Pio II) fala de padres e clérigos massacrados e mulheres queimadas. O rei Teodorico interveio de novo e Lourenço teve que retirar-se. Ficou portanto papa Símaco; à sua morte sucedeu no trono pontifício Hormisdas (514-523). Hormisdas foi seguido por João I (523-526). Durante o primeiro ano de pontificado de João aconteceu que o imperador Justino emanou um édito contra os Arianos; muitos deles por medo abjuraram, outros sofreram o martírio e diversas basílicas foram-lhes tiradas e dadas aos Católicos. Mas este édito fez indignar o rei Teodorico, que era também ele ariano, o qual convocou a Ravena o bispo de Roma e lhe ordenou ir a Constantinopola com uma embaixada composta por alguns bispos e quatro senadores. A missão que lhe tinha sido confiada era a de induzir Justino a retirar o édito contra os Arianos, restituir-lhes as suas basílicas e permitir aos que se tinham retratado poder voltar a professar a doutrina ariana. João foi a Constantinopola mas não pediu ao imperador para permitir aos que se tinham retratado de voltar ao arianismo; a coisa por isso não agradou a Teodorico que quando os componentes da embaixada voltaram a Ravena os mandou todos prender. João morreu assim na prisão.

O imperador Justiniano (527-565) contribuiu para reforçar o primado de Roma porque afirmou que o papa de Roma é o primeiro de todos os sacerdotes. ‘Ordenamos, após a definição de quatro concílios, que o santíssimo papa da velha Roma seja o primeiro dos bispos, e que o altíssimo arcebispo de Constantinopola, que é a nova Roma, seja o segundo’. Este imperador emanou leis contra os heréticos. Foram por ele perseguidos tanto os Montanistas [32] como os Arianos. Também este imperador se imiscuiu nas coisas espirituais da Igreja de facto condenou com um édito os ‘Três capítulos’ [33] e depois em 553 fez convocar em Constantinopola um concílio para condená-los. E obrigou o então bispo de Roma Vigílio (537-555) a aceitar a decisão do concílio que Vigílio num primeiro momento tinha considerado nula. Ainda uma vez se pode ver com que desenvoltura os imperadores naquele tempo obrigavam os bispos a aceitar as suas opiniões em matéria de fé. Mas vejamos como se tinha tornado papa este Vigílio. Vigílio, diácono de nobre família, tornou-se papa - por quanto nos é dito - comprando o cargo e mandando matar o papa precedente Silvério (536-537). Este tinha sido feito papa pelo rei godo Teodato em 536. Pouco depois Teodato morreu e tomou o seu lugar o rei Vitige que pensou retirar-se com o grosso do exército para Ravena para preparar uma ofensiva contra Belisário, general bizantino, que já se encontrava em Nápoles. Belisário entrava portanto em Roma e as tropas godas saíam. E o papa se aliou com Belisário. Em março de 537 porém o rei godo voltou para tentar a reconquista da cidade e pôs sob assédio Roma. Então aconteceu que Vigílio deu dinheiro ao general bizantino Belisário para que depusesse pela força o papa Silvério e consagrasse ele como novo papa. Silvério foi assim deposto (a acusação era que ele tinha traido Belisário invocando a ajuda do rei godo para que libertasse Roma dos Bizantinos) e relegado ao estado de simples monge em Patara na Lícia, enquanto Vigílio foi consagrado papa pelo Senado e pelo clero aterrorizado por Belisário. A sua consagração teve lugar a 29 de Março de 537. Mas Silvério encontrou em Patara quem o defendia; era o bispo de Patara que obteve assim do imperador Justiniano que Silvério fosse reenviado a Roma para ser ali de novo julgado (como dissemos, de facto tinha sido acusado e condenado por traição para com Belisário). Mas Belisário, induzido por Vigílio, deportou Silvério para a ilha de Palmaria (Pôncia) debaixo da vigilância de dois mensageiros de Vigílio; e dado que Vigílio para ser reconhecido papa legítimo por todo o clero precisava que Silvério morresse, acelarou a sua morte privando-o de comida, em outras palavras deu ordens aos seus mensageiros para o fazerem morrer de fome (isto com base naquilo que diz o Liber Pontificalis). Ainda uma vez se pode ver ao que estavam prontos a recorrer os pretendentes ao trono pontifício; à corrupção e ao homicídio.

À morte de Vigílio foi eleito papa Pelágio I (556-561). Deste deve ser dito que antes de se tornar papa tinha incitado Vigílio a resistir ao imperador Justiniano não alinhando contra os ‘Três capítulos’. E por esta sua posição foi posto na prisão, de onde continuou a defender os ‘Três capítulos’ opondo-se ao édito de Justiniano e à decisão do concílio de 553 e acusando Vigílio de ser volúvel e venal. Mas uma vez morto Vigílio e em liberdade ei-lo voltar a Roma mas com outras ideias, de facto condenou os ‘Três capítulos’ e aceitou o concílio de Constantinopola. Este volte-face explica-se com o facto de em virtude dele Pelágio ter tido o favor do imperador Justiniano para se tornar papa.

Pelo ano de 590, em virtude dos eventos que se tinham sucedido até àquele tempo, os dois expoentes eclesiásticos mais importantes eram o bispo de Roma e o patriarca de Constantinopola. Porém enquanto o patriarca de Constantinopola estava sob o controlo directo do imperador, o bispo de Roma não o estava porque em Roma estava ele que mandava tanto nos assuntos religiosos como nos civis [34]. Por volta desse ano o patriarca de Constantinopola que era João dito o jejuador, se auto-definiu ‘bispo universal’; mas Gregório dito Magno, bispo de Roma, se indignou por causa desta sua arrogância, e escreveu-lhe uma carta de admoestação entre cujas palavras estão estas: ‘...Possa pois tua Santidade reconhecer quanto é grande o teu orgulho pretendendo um título que nenhum outro homem verdadeiramente pio jamais se arrogou’. Deve ser dito porém que Gregório Magno enquanto por um lado não queria ser chamado ‘bispo universal’ (como não queria também que outros bispos se proclamassem tais) porque ele preferia ser chamado ‘servo dos servos de Deus’, por outro nos factos exerceu o poder papal de monarca que era. Pouco depois, em 602, o imperador Maurício (juntamente com os seus filhos) foi morto por Focas (de quem é dito que era particularmente cruel para com os seus inimigos) que tomou o lugar dele, e Gregório Magno enviou-lhe uma carta de congratulação na qual dizia: ‘Glória a Deus nos lugares excelsos (...) Ouvimos com vivo prazer que a benignidade de vossa piedade é chegada ao poder imperial. Os céus exultam e a terra festeja, e toda a cristandade até agora tristemente afligida, jubila pelas vossas benignas obras’ (Epist. XIII, 31). Gregório tornou-se pois amigo do imperador Focas; as suas relações apesar de terem durado só cerca de dois anos foram óptimas. Focas, em 607, para retribuir a amizade e as adulações que lhe dirigia o bispo de Roma reconheceu a supremacia da ‘sede apostólica de Pedro sobre todas as igrejas’ (caput omnium ecclesiarum) e proibiu ao patriarca de Constantinopola usar o título de ‘universal’ que desde aquele momento devia ser reservado só ao bispo de Roma, que então era Bonifácio III e que à diferença de Gregório Magno, e esquecendo o que o seu predecessor tinha declarado a tal propósito, não recusou de modo nenhum de fazer-se chamar ‘bispo universal’. Este reconhecimento Focas o concedeu porque se encontrava em polémica com o patriarca bizantino Ciríaco e quis desta maneira desacreditá-lo em Roma, e dado que era odiado em Bizâncio procurava ser amado em Roma. Era tido em tão grande honra Focas pelos Romanos que estes em 608 elevaram aos pés do Campidoglio uma coluna montando em cima uma estátua de Focas em bronze dourado, tendo na base uma inscrição em honra do 'clementíssimo e piíssimo imperador, triunfador perpétuo, coroado por Deus sempre Augusto'.

 

Do oitavo ao décimo século

 

No oitavo século houveram tumultos no império por causa das estátuas e das imagens: o bispo de Roma teve uma parte principal neles. Eis como correram as coisas. O imperador do Oriente Leão III (717-741) por volta do ano 726 emanou um édito com o qual proibia o culto das imagens. Este édito fez enfurecer o bispo de Roma que então era Gregório II (715-731) o qual excomungou o imperador declarando-o herético e atiçou o povo romano, os Venezianos, o rei dos Longobardos, e todos os duques Longobardos contra o imperador bizantino. O povo em Itália se recusou a abandonar o culto das imagens e se revoltou contra os soldados imperiais; e por ambos os lados foi derramado sangue. Também o patriarca de Constantinopola se opôs ao édito imperial. Em 730, o imperador do Oriente, vendo que o culto das imagens não tinha sido abandonado, decretou que todas as imagens fossem destruídas por toda a parte começando por Constantinopola. Aqui rebentou entre o povo um motim sangrento atiçado pelos monges que foi reprimido pela guarda imperial. O imperador deu a mesma ordem também ao bispo de Roma que lhe respondeu para primeiro aprender melhor o seu catecismo e o chamou ‘um homem tolo, imbecil, um ignorante, um louco, que não sabia mais distinguir entre verdade e mentira, pior do que um herético’. O bispo lhe escreveu também: ‘Todos os povos ocidentais olham com antiga devoção para aquele do qual com ostentação tu ameaças abater a efígie, para S. Pedro quero dizer, que os reinos do Ocidente honram como Deus na terra. Desiste pois do teu propósito; a tua raivosa violência nada pode contra Roma, contra a cidade, contra as suas costas ou os seus navios. A Europa inteira venera o santo príncipe dos apóstolos; se tu mandares destruir a sua imagem, nós nos declaramos desde agora inocentes do sangue que será derramado e declaramos que ele cairá inteiramente sobre a tua cabeça’. O imperador lhe escreveu outras vezes, mas o papa sustentou sempre a sua opinião e concluiu dizendo que ‘Cristo envie em corpo ao imperador o diabo’ (invocamus Christum, ut immittat tibi daemonem). Depois ele convocou um concílio em Roma no qual foi ordenado o culto das imagens e foram declarados heréticos e excomungados todos os que se opusessem. E segundo Bellarmino o bispo de Roma ordenou que os súbditos do imperador aqui em Itália não lhe deviam mais pagar algum tributo. Também o bispo sucessivo, Gregório III (731-741), permaneceu obstinado e não quis obedecer ao édito imperial. Convocou um concílio em Roma e excomungou os iconoclastas [35]. O imperador então, vendo a obstinação do bispo de Roma, tomou posse dos bens eclesiásticos na Sicília e Calábria. O imperador depois fez uma nova tentativa que foi a última, para obrigar o bispo a obedecer. Ele enviou em 734 a Itália uma frota; mas esta foi destruída por uma tempestade no mar Adriático. O que aconteceu neste período mostra até que ponto já se exaltavam os bispos de Roma e como estavam prontos a reagir às ordens imperiais quando estas se opunham às suas ideias (mesmo se erradas) ou aos seus interesses. Mas este comportamento dos bispos de Roma para com os reis se repetiria no curso dos séculos: haverão de facto bispos de Roma que deporão reis, desligarão os súbditos do juramento de fidelidade para com o seu soberano, e enviarão os seus exércitos ou exércitos estrangeiros contra eles para puni-los.

Por volta da metade do oitavo século o papado se consolidou sobretudo porque o bispo de Roma conseguiu estender o seu poder temporal. Em 752 foi eleito pontífice romano Estevão II (752-757) o qual tinha à disposição um património imobiliário enorme. Este património chamado de São Pedro (Patrimonium Petri) compreendia muitos edifícios e vastos campos de terra que estavam em diversas províncias da Itália e nas regiões vizinhas, campos que eram cultivados por colonos e por escravos e dos quais a sede de Roma extraia grandes rendas. Ele tinha aumentado cada vez mais desde o tempo de Constantino em diante porque reis, rainhas, altos funcionários do Estado, e também privados tinham deixado antes de morrer os seus bens à sede de Roma para assegurarem a salvação eterna. Naturalmente entre as doações e os legados houveram os que foram voluntários e espontâneos e também os que foram extorquidos com a astúcia e as lisonjas. Por quanto respeita ao uso que deste património fazia a igreja deve ser precisado que uma parte era utilizado para satisfazer a glutonaria e a soberba dos bispos e dos seus colaboradores e uma parte era utilizado para socorrer às necessidades dos doentes e dos pobres e para fazer frente às diversas despesas que a igreja de Roma tinha que enfrentar para a manutenção das basílicas e do culto. Ora, Estevão estava à cabeça de um império imobiliário e o medo de cair sob o domínio dos Longobardos (os quais se tinham estabelecido em Itália depois do ano 568) que com Astolfo tinham ocupado os estados imperiais em Itália, conquistado Ravena e se preparavam para conquistar também Roma, o induziu a ir a França pedir ajuda militar a Pepino rei dos Francos. Não era a primeira vez, e nem foi a última, que um papa pedia ajuda militar a um soberano ocidental para que defendesse o seu território dos seus inimigos; de facto antes dele Gregório III tinha enviado ao rei dos Francos Carlos Martelo uma embaixada com ricos presentes a fim de obter uma ajuda militar contra os Longobardos, mas o rei franco tinha recusado atender o papa porque não queria renunciar à amizade com os Longobardos. Mas prossigamos com Estevão II. Cronistas históricos dizem que Estevão II se ajoelhou diante de Pepino rei dos Francos [36] e com lágrimas nos olhos lhe suplicou para ‘defender a causa de Pedro e da república romana’. Neste encontro o papa mostrou ao rei dos Francos a Donatio Constantini (documento que seria a seguir demonstrado falso) em que vinha dito que o imperador Constantino o Grande tinha entregado ao bispo de Roma todas as províncias e bairros da cidade de Roma e da Itália e das regiões ocidentais, e a supremacia sobre os patriarcas de Antioquia, Alexandria, Constantinopola e Jerusalém. E que ele, o imperador, reservava para si o Oriente com capital Bizâncio, para onde se mudava com o consentimento papal, não considerando justo que um imperador terreno exercesse a sua potestas na mesma sede do imperador celeste. O rei dos Francos prometeu ao papa a ‘restituição’ [37] dos territórios lhe subtraídos por Astolfo (como retribuição pelo favor que o seu predecessor Zacarias lhe tinha feito) e por ter tomado este compromisso foi nomeado por Estevão patricius Romanorum ou seja ‘patrício dos romanos’. Em 755 Pepino para manter o seu solene juramento desceu a Itália e assediou Astolfo em Pavia, capital dos Longobardos. Astolfo então prometeu com juramento ‘restituir’ ao papa o Exarcado de Ravena, a Pentápole e os territórios pontifícios ocupados. Mas logo que Pepino partiu de volta para França, Astolfo não manteve a promessa, antes foi e assediou Roma. Então o papa angustiado escreveu (imaginando ser o apóstolo Pedro em pessoa) ao rei dos Francos invocando a ajuda dele, e ameaçando-lhe a privação da vida eterna no caso de ele se recusar a socorrê-lo: ‘Se, embora nós não o acreditemos, vos fizerdes culpado de demoras ou alegardes pretextos, e não obedecerdes com solicitude ao nosso aviso de libertar esta cidade, o povo que nela mora, a Igreja apostólica nos entregue por Deus e o seu sumo sacerdote, sabei que por querer da Santíssima Trindade, em virtude da graça do apostolado nos concedido por nosso Senhor, sereis privado, por ter desobedecido às nossas intimações, do reino de Deus e da vida eterna’. Pepino então desceu de novo a Itália contra os Longobardos, arrancou-lhes os territórios que iam de Roma a Ravena e os concedeu em doação ao papa como uma possessão eterna [38]. Esta concessão, ocorrida em 756, marcou o nascimento do Estado pontifício [39] que duraria até 1870.

Em 795 tornou-se papa Leão III que contribuiu para aumentar o prestígio do bispo de Roma coroando, no ano 800, Carlos Magno como Imperador do chamado sacro império romano. Carlos Magno confirmou a doação feita ao papa por Pepino em 756, e segundo alguns acrescentou mais territórios a ela.

Por volta da metade do nono século nos dizem os documentos católicos, sob Leão IV (847-855), um grupo de falsificadores papistas produziu as falsas decretais, uma colecção de decretos de um certo número de papas (de Clemente I a Gregório II) e de concílios sobre pontos doutrinais e de disciplina que tinham como objectivo o de engrandecer e sustentar a autoridade papal. Destas decretais resultava que o papa tem a supremacia sobre todos os bispos, que os bispos postos sob acusação têm o direito de apelarem ao papa, que o papa tem o ‘pleno poder’ sobre a Igreja, que a igreja de Roma, com base num único privilégio, tem o direito de abrir e fechar as portas do paraíso a quem ela quer. Estas decretais, deste período em diante, serviram aos papas para reivindicar a sua suprema autoridade sobre a Igreja universal. Elas contribuiram muito para o reforço do poder papal durante a idade média.

Em 896 torna-se papa Estevão VI (896-897). Este papa foi definido pelo cardeal Barônio ‘um intruso’. Ele fez desenterrar o cadáver do seu predecessor Formoso (891-896), o vestiu com as suas vestes pontificais, e o levou perante uma assembleia de cardeais, bispos e padres, e o pôs sentado para julgá-lo. Estevão começou então a acusar aquele cadáver de muitos delitos [40] e o incitava a responder em sua defesa. Mas como aquele morto não podia responder respondia um outro no seu lugar. No fim foi julgado culpado, foram-lhe cortados da sua mão direita três dedos, o polegar, o indicador e o médio, com os quais o papa costuma abençoar, foi despido das suas vestes e depois de ter sido arrastado pelas ruas de Roma foi lançado no Tibre por ordem de Estevão VI. Este papa foi depois preso por uma parte do povo romano e lançado na prisão onde segundo alguns foi depois estrangulado.

À morte de Estevão foi eleito papa Romano (897) o qual foi papa por cerca de três meses durante os quais anulou os decretos de Estevão e reabilitou a memória de Formoso. Platina (católico) diz deste comportamento de Romano: ‘Esses papudos (pontificuli) não pensavam em mais nada senão em destruir e em desaprovar o que tinham feito os seus predecessores; o que é demonstração de pequena mente e de mau coração’. A Romano sucede Teodoro II (897), o qual viveu apenas poucos dias. Depois de Teodoro foi eleito papa Sérgio mas o partido contrário pegou em armas, expulsou Sérgio que se retirou para casa de Marózia, filha de Teodora I mulher de Teofilato, e fez papa João IX (898-900) que pensou também ele em reabilitar a memória de Formoso. A João sucede Bento IV o qual viveu poucos anos (900-903) [41]. A este sucede Leão V (903) o qual poucos dias depois da sua eleição foi lançado na prisão e ali morto pelo padre Cristóvão que se proclamou papa. Mas isto desagradou a Sérgio que fez prender Cristóvão e encerrar na prisão onde foi morto, e se declarou papa. Sérgio torna-se papa com a ajuda da poderosa família Teofilato, cujas duas filhas Teodora II e Marózia com as suas intrigas dominariam o papado por muitos anos de tal maneira a fazer nomear este período do papado a época do regime das prostitutas. Marózia era a amante de Sérgio e lhe tinha dado um filho que seria feito depois papa com o nome de João XI. O cardeal Barônio, de Sérgio III (904-911) [42] disse que não havia delito, por mais infame que fosse, de que não tivesse sido manchado papa Sérgio, que era escravo de todos os vícios, e o mais perverso de todos os homens [43]. Sérgio III foi seguido no trono pontifício primeiro por Anastácio III (911-913) e depois por Lando (913-914). Depois foi a vez de João X (914-928) que foi posto no trono pela família Teofilato. Durante o seu pontificado Marózia e Alberico (com quem ela se tinha casado) seu marido foram como que patrões dele. Ficando viúva de Alberico, Marózia se casou com Guido marquês de Toscana; depois por ordem sua João X foi lançado na prisão onde foi depois morto sufocado com uma almofada. Enquanto João desfalecia na prisão Marózia fez papa Leão VI (928) que vive apenas poucos meses. Morto este outro papa Marózia fez papa Estevão VII (928-931). À sua morte ela pôs sobre o trono papal seu filho João XI (931-935) a propósito do qual Barônio diz: ‘A santa Igreja, isto é, a romana, teve que vilmente ser pisada por um tal monstro’. Entretanto morria o segundo marido de Marózia, e logo ela pensou casar-se com Hugo rei de Itália. Mas havia um problema; Hugo era o cunhado de Marózia e as leis canónicas não permitiam tais uniões. Mas a dificuldade foi superada por João XI que concedeu a permissão para o matrimónio. E assim Marózia se casou com Hugo; a cerimónia nupcial aconteceu em Castel Sant’Angelo na presença de João XI. Mas a cerimónia foi seguida por um facto que marcou o fim de Marózia. Hugo se pôs a ofender Alberico II, o filho de Marózia e de Alberico de Camerino. Alberico que já não via bem aquele novo matrimónio de sua mãe saiu dali para fora e incitou o povo contra o rei Hugo. O povo então tomou de assalto o castelo e o rei fugiu. Alberico II então mandou lançar na prisão sua mãe e pôr sob apertada vigilância o seu meio-irmão João XI. Foi feito papa então Leão VII (936-939) a quem sucedeu Estevão VIII (939-942). Morto este Alberico fez papa Marino II (942-946). A Marino sucede Agapito II (946-955). Morto este torna-se papa João XII (955-964). Não tinha ainda vinte anos quando foi feito papa, e demonstrou uma conduta escandalosa porque era dado aos prazeres da carne e brutalmente violento. É afirmado que o Latrão durante o seu pontificado tornou-se um covil de prostitutas. Em 960 ofereceu a coroa imperial a Otto que aceitou com todo o gosto prometendo que defenderia os patrimónios da igreja. E assim a 2 de Fevereiro de 962 Otto foi coroado junto com sua mulher. À coroação seguiu-se um pacto chamado Privilegium Ottonianum mediante o qual Otto confirmava a João XII e aos seus sucessores todos os direitos e patrimónios da igreja, e João por seu lado prestava juramento de fidelidade ao imperador prometendo que nunca o trairia. Também a nobreza e o povo romano fizeram o seu juramento de fidelidade. Mas logo que Otto partiu João lançou para trás das costas o juramento feito e se aliou com Berengário. Otto sabendo-o acorreu a Roma, mas João recolheu os tesouros da igreja e fugiu dele primeiro para Tivoli e depois para a Córsega. Entretanto Otto tomava posse da cidade. Poucos dias depois o imperador convocou um concílio para julgar João por causa dos delitos de que era acusado. João sabendo-o fez saber que declarava nulo aquele concílio. João foi julgado culpado e no seu lugar Otto pôs um outro papa de nome Leão VIII (963-965). Entretanto João desde Córsega fomentava revoltas, a primeira foi sufocada em sangue por Otto (foi uma verdadeira e própria chacina), a segunda, rebentada após a partida de Otto pôs em fuga Leão VIII enquanto João voltava a Roma pronto a vingar-se. João fez convocar um concílio em que declarou nulo o anterior concílio e depôs Leão VIII. João se vingou dos seus adversários cortando-lhes o nariz e a língua. Otto então decidiu acabar com João e se pôs em marcha para Roma, mas durante a viagem lhe chegou a notícia que João tinha morrido. Tinha sido assassinado por um marido que o tinha surpreendido em flagrante adultério com a sua mulher. O teria lançado pela janela fora. O cardeal Bellarmino deste papa afirmou que foi quase o mais iníquo dos papas. Mas antes que Otto pudesse chegar a Roma o povo romano, não reconhecendo Leão VIII, quis eleger um novo papa de nome Bento V (964-965). Chegando a Roma, o imperador a assediou e a tomou pela fome. Depois Otto fez convocar um concílio que depôs Bento V. Neste concílio em que presidia Leão VIII, Bento V foi acusado de ter usurpado o trono papal. Bento reconheceu a sua culpa dizendo: ‘Se pequei, tende piedade de mim’, e depois se lançou aos pés do papa e do imperador declarando ser antipapa e verdadeiro papa Leão VIII. Mas enquanto Otto estava comovido, Leão estava antes enfurecido contra ele. Para comprazer ao imperador que intercedia por ele lhe impôs o exílio. Assim Otto o levou para a Alemanha onde morreu. Ficou papa Leão VIII que morreu em 965. Os romanos então enviaram uma embaixada a Otto para pedir-lhe um papa; foi por ele escolhido João, bispo de Narni, que tomou o nome de João XIII (965-972). Mas este não era bem visto pelo povo romano pelo que pouco tempo depois da sua eleição houve uma revolta contra ele, mas o papa conseguiu fugir indo-se pôr debaixo da protecção do conde Pandolfo de Capua. Algum tempo depois João XIII voltava a Roma com uma escolta de soldados capuanos, seguido dali a pouco por Otto o qual chegando a Roma a saqueou e puniu os revoltosos enforcando alguns e cegando outros. Morto João, o imperador fez eleger Bento VI (973-974). Mas o povo se revoltou também contra ele, o lançou na prisão e fizeram papa Bonifácio VII. Bento foi depois estrangulado na prisão (alguns dizem que foi por mão do próprio Bonifácio). Mas eis que a um certo ponto Bonifácio teve que fugir de Roma, e não o fez de mãos vazias porque levou muitos tesouros da igreja, e se refugiou em Constantinopola. Entretanto, tendo ficado vazia a sede, o imperador fez eleger papa Bento VII (974-983). Morto Bento foi feito papa João XIV (983-984). Mas eis reaparecer Bonifácio VII o qual reentrando em Roma vai de novo ocupar o trono pontifício e encerra na prisão João XIV onde depois o fará morrer envenenado. Mas Bonifácio cerca de um ano depois será preso e assassinado pelos seus inimigos. O seu cadáver arrastado pelas ruas de Roma foi lançado aos pés da estátua equestre de Marco Aurélio. O papa sucessivo foi João XV (985-996) que se distinguiu pelo seu forte nepotismo e por ter sido o primeiro a canonizar santo alguém. Morto também este o imperador fez papa seu primo (ou sobrinho segundo outros) Bruno que tomou o nome de Gregório V (996-999). Mas logo que Otto partiu de Itália houve uma revolta que obrigou Gregório a fugir de Roma. No seu lugar o povo elegeu o papa João XVI mas dali a pouco eis reentrar em Roma Otto, que tinha sido chamado por seu primo, e vingar-se dos que se tinham revoltado contra Gregório. João XVI foi preso e por ordem de Otto lhe foram cortados o nariz e a língua e arrancados os olhos e lançado a sangrar numa cela de um mosteiro romano. Mas Gregório V não contente pegou o moribundo e pondo-o ao contrário na garupa de um burro o fez percorrer as estradas de Roma para que fosse insultado pelo povo. O chefe da revolta foi decapitado. A Gregório sucedeu Silvestre II (999-1003). Os cronistas do décimo primeiro e décimo segundo século dizem deste que ele tornou-se papa graças a um pacto com o demónio ao qual tinha vendido a sua própria alma. É recordado por diversos cronistas e historiadores medievais como o papa mago porque tinha aprendido magia, astrologia, necromancia e todas as ‘ciências’ proibidas a um cristão.

Eis pois alguns episódios da história do papado do décimo século; o século de ferro e de densas trevas para o papado como os próprios historiadores católicos reconhecem. Papas libertinos, homicidas, ávidos de ganho desonesto, elevados e depostos por imperadores, por mulheres intrigantes levando a vida na luxúria e na cobiça. Por vezes depois haviam dois deles, e outras vezes três papas ao mesmo tempo dos quais os historiadores católicos não conseguem dizer com certeza quem era o verdadeiro papa e quem eram os antipapas porque cada um tem a sua opinião. Diante destes factos históricos não se percebe pois como os teólogos papistas podem demonstrar a sua sucessão apostólica mas sobretudo como aqueles perversos podem ter sido servos de Deus constituídos para a edificação da sua Igreja.

 

Do décimo primeiro ao décimo terceiro século

 

Saltemos alguns anos para chegar a Bento IX (1032-1044) porque este é o único papa a ter reinado três vezes! Este torna-se papa segundo alguns na idade de cerca de onze anos. Durante o seu pontificado se abandonou a toda espécie de iniquidade. Pier Damiani (prelado católico) disse dele: ‘Aquele miserável chafurdou na imoralidade do início do seu pontificado até ao fim dos seus dias’. E um outro observador escreveu: ‘A Cátedra de Pedro foi ocupada por um diabo do inferno disfarçado de padre’. Desidério de Montecassino, o futuro papa Vitor III, nos seus Diálogos escreve de Bento: ‘...um certo Bento (pelo nome e não de certeza pelas obras) filho do cônsul Alberico, seguindo as pisadas de Simão Mago em vez das de Simão Pedro, prodigalizado pelo pai não pouco dinheiro entre o povo, se arrogou o sumo sacerdócio. Qual tenha sido a vida dele após a ascensão ao sólio, como torpe, como indecente, cruel e execranda não posso contar sem horrorizar’. As extorsões, os roubos, as violências e as matanças de Bento IX irritaram a tal ponto os romanos que o expulsaram de Roma. Mas este apoiado pelo imperador Corrado que estava então em Itália conseguiu reentrar em Roma. Mas os Romanos, ainda porque estavam cansados de suportar Bento IX, o expulsaram de novo e elegeram papa Silvestre III. Mas Bento IX não se deu por vencido e apoiado pelos seus parentes conseguiu retomar o trono papal (1045), obrigando Silvestre III (que foi reconhecido por alguns como verdadeiro papa enquanto por outros um antipapa) a ir embora. No fim Bento IX decide demitir-se vendendo o cargo que ocupava ao arcipreste romano João Graciano que torna-se papa com o nome de Gregório VI. Bento se retirou para a casa paterna; mas depois de um pouco de tempo voltou ao assalto do trono papal com armas e a sediar-se em Roma como papa. Eis pois três papas reinar ao mesmo tempo e a dizerem-se todos, os três, os sucessores de Pedro! Mas o imperador Henrique III quis pôr fim a este escândalo e desceu a Itália com o seu exército para pôr as coisas em ordem. Ele convocou um concílio em Sutri, concílio que decretou a deposição de Silvestre III e de Gregório VI. Poucos dias depois o imperador fez convocar um concílio em Roma e declarar deposto Bento IX e eleger papa Clemente II (1046-1047). Este morreu poucos meses depois (é afirmado que foi envenenado por Bento IX); sucede então que Bento IX, vendo que o imperador tinha partido, retomou o papado pela enésima vez (isso aconteceu em 1047, mas isso não agradou aos romanos). Mas o imperador Henrique III expulsou Bento IX de Roma, e fez subir ao trono papal Poppo, bispo de Bressanone, que tomou o nome de Dámaso II (1048) que porém morreu muito cedo, após 23 dias do seu assentamento sobre o trono papal (também desta vez é afirmado por obra do veneno de Bento IX).

Passemos agora a falar de Gregório VII (1073-1085) porque sob este papa o poder temporal sofreu um ulterior potenciamento. Mas antes de começar a falar de Gregório VII é bom ter presente que em 1054 houve um cisma entre a igreja católica romana e a igreja greco-ortodoxa. Antes desse ano tinham havido diversas disputas entre a Igreja do Ocidente e a do Oriente. Aquela sobre a data da Páscoa em que os Ocidentais diziam que era necessário festejá-la no Domingo mais próximo do dia catorze do mês de Nisan, enquanto os Orientais diziam que era necessário festejar a festa no dia décimo quarto do mês de Nisan, qualquer que fosse o dia em que calhasse. A disputa sobre o celibato; a Igreja do Ocidente o tinha proibido aos diáconos, aos padres e aos bispos; enquanto a Igreja do Oriente tinha permitido aos diáconos e aos padres manter a sua mulher depois da ordenação, proibindo o matrimónio aos bispos. A disputa sobre a barba na qual os eclesiásticos ocidentais podiam cortar a barba enquanto os orientais deviam ter barba. Mas a disputa que fez chegar as coisas à rotura foi aquela sobre a eucaristia. O patriarca de Constantinopola Miguel Cerulário (1043-1048) tinha condenado a Igreja do Ocidente pelo uso do pão não levedado na Eucaristia e tinha ordenado o encerramento dos mosteiros e das basílicas latinas de Constantinopola. Para pôr fim à disputa Leão IX enviou ao Oriente o cardeal Humberto com outros dois legados mas as discussões chegaram a tal ponto que em 16 de Junho de 1054 os legados romanos puseram sobre o altar da catedral de Santa Sofia um decreto de excomunhão contra o patriarca e os seus seguidores. Por sua vez também o patriarca de Constantinopola excomungou o papa e os seus seguidores. Estas excomunhões serão depois por ambas as partes retiradas em 1965 no tempo de Paulo VI. Permanece porém o facto de a igreja oriental continuar a não reconhecer o primado do papa sobre a Igreja universal e a ter divergências doutrinais com a igreja do Ocidente.

Mas prossigamos com a história do papado falando de Gregório VII. Este tornou-se papa em 1073; ele considerava que só o bispo de Roma devia ser chamado bispo universal, que o papa como vigário de Deus na terra devia exercer não só o poder espiritual mas também o temporal, que a igreja não devia estar submissa ao poder civil antes o devia controlar, e que o papa tinha o poder de depôr os soberanos e de desligar os súbditos da obrigação de fidelidade aos seus príncipes. Estes seus princípios os expôs no Dictatus papae: eis algumas proposições deste documento: ‘Só o pontífice Romano tem o direito de ser chamado universal (...) O papa é a única pessoa a quem os príncipes devem beijar o pé (..) O seu nome é único no mundo. Só a ele é lícito depôr os imperadores (...) A sua sentença não pode ser anulada por alguém, mas ele pode anular as de todos os outros (...) Ele não pode ser julgado por ninguém (...) O papa pode desligar os súbditos do juramento de fidelidade feito aos soberanos indignos’ (Dictatus Papae; citado por Fausto Salvoni em Da Pietro al Papato, pag. 305-306). Gregório durante o seu pontificado procurou suprimir o matrimónio dos eclesiásticos ordenando aos sacerdotes casados que demitissem as suas mulheres [44], e se bateu também contra a investidura dos eclesiásticos por parte dos leigos e contra a simonia. Ele por isso se desencontrou com o rei Henrique IV que concedia investiduras após compensação em dinheiro. Além de conceder investiduras após remuneração Henrique IV se intrometeu nos assuntos internos do clero italiano, o que fez indignar mais o papa que o convidou a comparecer em Roma para desculpar-se sob pena de excomunhão. Henrique lhe respondeu convocando no início de 1076 um concílio em Worms que declarou papa ilegítimo Gregório. Gregório então lhe lançou a excomunhão libertando os seus súbditos da obrigação de fidelidade para com ele. Esta foi a decisão mais audaz tomada até então por um papa contra um soberano. Henrique então, temendo perder o reino porque havia o perigo de uma guerra civil, atravessou os Alpes e foi ao castelo de Canossa (no Appennino emiliano) onde se encontrava naqueles dias o papa. Chegando ao castelo em Janeiro de 1077 ele se humilhou diante do papa pedindo-lhe perdão (o papa não o fará entrar logo no castelo mas o fará estar três dias e três noites debaixo da neve, ao frio). E o papa por este seu acto de humilhação o libertou da excomunhão. Mas regressado à pátria Henrique IV atraiu de novo as iras de Gregório que o excomungou de novo. Henrique então invadiu a Itália e pôs sobre o trono um novo pontífice de nome Guiberto (1084) que tomou o nome de Clemente III. Gregório então se refugiou em Castel Sant’Angelo. Aconteceu então que Gregório chamou em sua ajuda os Normandos que vieram a Roma encontrando-a indefesa porque Henrique IV se tinha ido embora poucos dias antes porque considerava não poder enfrentar com o seu exército as forças dos Normandos. E os Normandos se dedicaram à violência contra a população de Roma exterminando milhares de pessoas, violando muitas mulheres, e saqueando as casas e incendiando-as. Depois que os Normandos devastaram Roma, Gregório teve que sair da cidade por causa da fúria dos sobreviventes (e com ele foram as tropas normandas), e assim ficou no trono pontifício Clemente III (que é definido porém antipapa). Gregório fugiu para Salerno onde morreu em 1085. As suas últimas palavras teriam sido: ‘Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio’ [45]. Gregório VII foi canonizado santo.

Depois da sua morte em 1086 foi eleito papa Desidério, abade de Montecassino, que tomou o nome de Vítor III. Os historiadores dizem que ele era privado do espírito de pontífice que os tempos exigiam porque não tinha o espírito de guerreiro como o tinha tido o seu imediato predecessor. Morreu em 1087.

A Vítor sucedeu Urbano II (1088-1099) cujo nome está ligado à primeira cruzada contra os Turcos. Reunido um concílio em Clermont em 1095 Urbano II exortou o povo que se dizia cristão a partir armado em direcção à Palestina para ir libertar os lugares sagrados das mãos dos Turcos. Em troca ele ofereceu uma indulgência plenária pelos pecados. Ao cruzado eram também concedidas imunidades de taxas e impostos. O povo cegado pelas trevas se pôs a caminho para a Palestina ao grito de: ‘Deus o quer!’. Os cruzados durante a viagem se deram a violências, prepotências e a exterminar também muitos Hebreus (cronistas históricos dizem milhares) considerados infiéis a exterminar a par dos Turcos. Chegados a Jerusalém conquistaram a cidade massacrando também ali muitas pessoas; e tudo isto com a benção papal.

Eugénio III (1145-1153) foi o papa que convocou a segunda cruzada contra os Muçulmanos que teve lugar em 1147, mas esta cruzada se demonstrou um insucesso.

Clemente III (1187-1191) proclamou solenemente em 1188 a terceira cruzada que não conseguiu reconquistar Jerusalém das mãos de Saladino. Ricardo de Inglaterra (o rei que chegou à Palestina como chefe dos cruzados) porém obteve de Saladino que fosse permitido aos peregrinos o acesso a Jerusalém.

Passemos agora a Inocêncio III (1198-1216) o papa que juntamente com Gregório VII mais contribuiu dentre todos para reforçar o papado naquele tempo. Inocêncio III foi eleito papa em 1198. Segundo ele o papa era superior ao rei em virtude da autoridade recebida de Deus, e por isso tinha o poder de excomungar os reis e de depô-los. Para ilustrar este conceito usava-se de uma semelhança toda particular; dizia que Deus tinha posto dois luminares no firmamento para iluminar o dia e a noite, e estes eram o sol, o luminar maior, e a lua o luminar menor. O sol era a autoridade pontifícia enquanto a lua era a autoridade legal. ‘Por isso a lua recebe a sua luz do sol, e é portanto inferior ao sol tanto na grandeza como no calor, tanto na sua posição como nos seus efeitos. Do mesmo modo o poder régio deriva a sua dignidade da autoridade pontifícia e quanto menos se subpõe a ela, tanto menor luz recebe dela. Mas quanto mais lhe se submete, tanto mais aumenta o seu fulgor’ (citado por Fausto Salvoni in op. cit., pag. 310). Para sustentar a sua autoridade absoluta sobre os reinos da terra, Inocêncio fez uso também das seguintes palavras que Deus dirigiu ao profeta Jeremias: "Ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares" (Jer. 1:10). De facto Inocêncio III causou muitas turbulências em vários estados; em 1200 ele pôs sob interdito a França quando Filipe se recusou a deixar a sua segunda mulher Agnese e de retomar a sua legítima mulher Ingeborg. Este interdito do papa provocou um tumulto em França pelo que Filipe se submeteu ao papa, e de má vontade mandou embora Agnese e retomou consigo Ingeborg. Entre 1205 e 1213 Inocêncio III se desencontrou com João de Inglaterra porque este último não tinha querido reconhecer o arcebispo que Inocêncio tinha nomeado para a sede vacante de Canterbury. Inocêncio o excomungou e pôs também a Inglaterra sob interdito. Os seus súbditos então se opuseram ao rei o qual foi obrigado a humilhar-se diante de Inocêncio [46]. Em 1213 João declarou que desde então em diante ele e os seus súbditos considerariam os seus domínios feudais papais e pagariam todos os anos mil marcos ao papa. Eis como Inocêncio III conseguiu humilhar os dois mais poderosos soberanos daquele tempo fazendo alavanca no seu poder temporal. Mas Inocêncio III além de tudo isto promoveu a cruzada contra os Albigenses no sul da França exterminando, segundo dizem os historiadores, dezenas de milhares deles. Segundo Inocêncio também os heréticos se deviam dobrar diante do papa, e a heresia devia ser extirpada com a força. Também Gregório IX (1227-1241) reprimirá os heréticos como tinha feito Inocêncio; ele de facto instituirá na Europa entre 1231 e 1234 os tribunais da Inquisição, confiando a direcção deles aos Dominicanos (vede a parte onde falei da Inquisição).

O poder temporal dos papas sofreu um declínio sob Bonifácio VIII eleito papa em 1294. Durante o seu pontificado aconteceu que Filipe de França e Eduardo I de Inglaterra impuseram ao clero uma taxa para sustentar as despesas militares que eles estavam sustentando na guerra que os opunha um ao outro. Bonifácio então emanou a bula Clericis Laicos com a qual proibia aos leigos, sob a ameaça de excomunhão e interdito, impor qualquer taxa e imposto aos eclesiásticos sem o consentimento da igreja de Roma, e proibia aos padres, sob pena de excomunhão por parte da igreja romana, de pagar tais contributos a um chefe temporal. Eduardo reagiu declarando fora da lei o clero e fazendo aprovar pelo parlamento uma lei que proibia a ele de dar ouvidos às pretensões papais de autoridade temporal em Inglaterra. E Filipe reagiu proibindo as exportações de dinheiro da França para Itália, privando assim o papado das suas rendas francesas. Então Bonifácio se encontrou em grande dificuldade e decidiu chegar a uma acomodação da lei emanada na Clericis Laicos, autorizou portanto Filipe a cobrar os impostos do clero em caso de extrema necessidade, mesmo sem consulta papal. O rei por sua parte revogou as disposições contra o papado. E assim foi restabelecida a paz entre o rei de França e o papa. Bonifácio era um papa sedento do sangue dos seus inimigos de facto mandou destruir em 1299 a cidade de Palestrina, em mão dos Colonna seus inimigos (os cardeais Colonna afirmavam abertamente que a sua eleição era ilegítima), exterminando, segundo os cronistas, alguns milhares de pessoas. Ele era também sedento de dinheiro; sede que o levou a inventar o Jubileu (que se realizou em 1300) que segundo as estimativas dos cronistas levou a Roma centenas de milhar de peregrinos que naturalmente o enriqueceram notavelmente e aumentaram o seu prestígio. As relações entre Filipe e Bonifácio voltaram de novo a não ser boas quando em 1301 Filipe mandou prender um legado pontifício por traição contra o rei. O papa ordenou a Filipe soltá-lo, mas Filipe se opôs à ordem de Bonifácio. Então o papa emanou em 1302 a bula Unam Sanctam na qual sustentava que fora da igreja romana não havia salvação e nem remissão dos pecados e que o papa tinha autoridade espiritual e temporal sobre todos e que para ser salvo era necessário estar sujeito ao pontífice romano. Filipe reagiu violentamente à bula papal, e dado que em França estavam presentes junto do rei os cardeais Colonna (que excomungados e expulsos por Bonifácio se tinham refugiado junto de Filipe) que acusavam o papa dizendo que era ilegítimo, herético e simoníaco, ele aproveitou a ocasião para ordenar a Guilherme de Nogaret ir prender o papa e conduzi-lo a Paris onde seria depois processado. Nogaret chegando a Itália organizou junto com a família dos Colonna (inimiga acérrima de Bonifácio) uma conjura contra o papa que se encontrava então em Anagni. Entrando na cidade assaltaram o palácio pontifício; o papa foi preso, mas após três dias de prisão os habitantes de Anagni se revoltaram contra os conjurados expulsando-os e libertando Bonifácio. Regressado a Roma morreu em 1303. Dele foi dito por historiadores católicos que ‘entrou no pontificado como uma raposa, reinou à leão e morreu como um cão’.

 

Do décimo quarto ao décimo sexto século

 

A Bonifácio VIII sucedeu Bento XI (1303-1304), e depois Clemente V (1305-1314) que em 1309 transferiu a corte papal para Avignon, onde estava sob o directo controlo do rei de França. Iniciou assim aquilo que foi definido o cativeiro de Avignon que durou até 1377 quando Gregório XI levou novamente a sede papal para Roma. O poeta Petrarca, durante a sua permanência em Avignon, descreveu a corte papal como ‘a vergonha do género humano, um receptáculo de vícios, uma cloaca onde se recolhe toda a imundícia do mundo. Lá se despreza Deus e se adora somente o dinheiro, e se espezinham as leis humanas e divinas’. Depois que morreu Gregório XI (1378) houve um período de tempo em que houveram dois papas, Urbano VI e Clemente VII que se diziam ambos o legítimo papa e o verdadeiro sucessor de Pedro. Urbano VI estava em Roma enquanto Clemente VII levou a capital para Avignon pela segunda vez. Aconteceu assim que algumas nações reconheceram como verdadeiro papa o primeiro enquanto outras o segundo. O cisma se prolongou até ao início do século sucessivo quando se reuniu o concílio de Pisa (1409) que declarou ilegítimo o então papa de Avignon Bento XIII e o de Roma Gregório XII (eles foram declarados decaídos do seu cargo pontifício como cismáticos e excluídos da comunhão da Igreja), e elegeu papa Alexandre V. Mas como as decisões do concílio de Pisa não tiveram uma aprovação geral aconteceu que passou haver não mais dois papas, mas três papas que reivindicavam a autoridade suprema sobre a Igreja e excomungavam solenemente os outros dois. Cada um deles tinha os seus apoiantes a nível internacional; Gregório XII tinha pela sua parte a Itália, a Alemanha e o norte da Europa; Bento XIII tinha a Espanha, a Escócia, a Sardenha, a Córsega e parte da França; Alexandre V a maior parte da França e numerosas ordens religiosas.

Morto Alexandre V (1410) lhe sucedeu João XXIII que foi deposto pelo concílio de Constança (1415-1418) juntamente com Bento XIII; Gregório XII ao invés abdicou. No seu lugar foi eleito papa Martinho V.

Durante o período que vai do início do chamado cativeiro de Avignon ao concílio de Constança a corte papal foi sobremaneira corrupta, os papas se abandonavam a toda a dissolução, à impureza e se faziam culpados de toda espécie de delitos, e não obstante tudo isso se proclamavam vigários de Cristo; por isso se começaram a levantar de várias partes vozes de protesto. Entre os que reprovaram a conduta dos papas, o seu poder temporal e muitos dos seus dogmas estiveram João Wycliffe (1320-1384). Ele sustentava que o chefe da Igreja era Cristo e não o papa romano, que a única autoridade para o crente era a Bíblia e não a igreja romana, e que a igreja romana devia conformar-se aos preceitos do Evangelho dos quais se tinha profundamente afastado. As suas ideias foram condenadas em Londres em 1382. Além dele esteve também João Huss (1369-1415) que contestou ao papa o primado; este último foi excomungado e condenado à fogueira pelo concílio de Constança em 1415.

Mas vejamos o que diz Ludovico Von Pastor, que é um historiador católico, sobre alguns papas que viveram neste período histórico a fim de perceber quais eram os costumes daqueles que se diziam os vigários de Cristo na terra.

De Clemente VI (1342-1352) ele afirma: ‘Com o enriquecer e favorecer os seus amigos e com o luxo principesco da sua Corte ele trouxe prejuízos muito sensíveis aos interesses da Igreja (...) Para continuar os hábitos de uma vida esplêndida e esbanjadora Clemente VI precisou de novas fontes de dinheiro, e soube encontrá-las, mas em detrimento dos interesses da Igreja, pois aumentou os perniciosos artifícios financeiros de Clemente V e de João XXII (....) Quando lhe eram feitos protestos pelos abusos que derivavam disso e se assinalava que os seus antecessores não se teriam permitido tais coisas, respondia: Os meus antecessores não souberam ser papas’ (Ludovico Von Pastor, Storia dei papi [ História dos papas] , Roma 1910, vol. I, pag. 84-85, 87).

De Bonifácio IX (1389-1404) Pastor afirma: ‘Os meios usados por Bonifácio IX para encher as caixas da Câmera apostólica prejudicaram grandemente o prestígio e a veneração da suprema dignidade eclesiástica. Densas sombras lança sobre a memória de Bonifácio IX também o seu nepotismo’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., pag. 152).

E por fim de João XXIII (1410-1415) ele afirma: ‘Este astucioso político era de tal maneira tocado pela corrupção do seu tempo que não podia responder nem de longe aos deveres da suprema dignidade na Igreja (...) É seguramente fundada a acusação de imoralidade pessoal contra o papa pisano; numa bula de Alexandre V, quanto sei não tomada até agora em consideração, eu encontro a prova documental de um filho publicamente reconhecido e de uma filha de Baldassarre Cossa’ (ibid., pag. 177). O concílio de Constança disse de João XXIII quando o depôs: ‘..ele foi e é simoníaco notório, dilapidador público dos bens e dos direitos não só da igreja romana, mas também de outras igrejas (...) Com a sua vida e os seus costumes detestáveis e desonestos, notoriamente escandalosos para a igreja e para o povo cristão antes da sua assunção ao papado, e também depois até a estes dias, ele escandalizou e escandaliza abertamente, com o seu modo de viver descrito, a igreja de Deus e o povo cristão (...) enquanto indigno, inútil, danoso deve ser afastado, privado e deposto do papado e de todo o seu governo espiritual e temporal’ (Concílio de Constança, Sess. XII).

De Martinho V (1417-1431) depois, que foi papa que como vimos foi eleito pelo concílio de Constança no lugar dos três existentes naquele tempo, Pastor diz: ‘Um olhar para as possessões dos Colonna faz ver que em favorecer os parentes e amigos Martinho V ultrapassou os limites do lícito e que foi além daquilo que as coisas exigiam’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., pag. 209-210).

Vamos agora falar de outros dois papas deste século, Sisto IV e Alexandre VI.

Sisto IV (1471-1484) foi, como muitos outros papas nepotista e cheio de homicídio. Pastor diz dele: ‘O nepotismo excessivo de Sisto IV, que bem se pode explicar, mas não justificar, forma a grande ignominiosa praga deste pontificado (...) Resta uma verdade deplorável, que Sisto IV (...) no exaltar os seus parentes ultrapassou todas as medidas e entrou em muitos aspectos por caminhos completamente mundanos...’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., Roma 1911, vol. II, pag. 612, 621). Ele teve também uma parte na conjura contra os Medici (na qual foi morto Juliano dos Medici e Lourenço escapou) de facto ainda Von Pastor afirma que: ‘De todo o modo se terá que deplorar profundamente, que um papa tenha sustentado uma parte na história desta conjura’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., pag. 513); (a conjura foi aprovada pelo papa porque os Medici naquele tempo constituíam um obstáculo aos seus objectivos expansionistas). Foi o primeiro papa a legalizar as casas de prostituição de Roma que lhe rendiam milhares de ducados ao ano e impôs uma taxa aos sacerdotes que tinham um amante. Todos os meios para recolher dinheiro lhe pareciam bons tanto que era habitual dizer: ‘O papa não necessita senão de caneta e tinta para a soma que quer’. O nome deste papa está ligado também ao terrível tribunal da Inquisição porque foi ele com uma bula de 1478 a instituir em Espanha a Inquisição que ceifaria milhares de vítimas.

Eis aqui agora a Alexandre VI (1492-1503). Depois que Rodrigo Bórgia tornou-se papa (comprando os votos dos cardeais) com o nome de Alexandre VI, João dos Medici disse ao cardeal Cybo: ‘Agora estamos nas garras do lobo porventura mais selvagem que o mundo tenha alguma vez visto; ou fugimos, ou nos devorará’. Era dado à fornicação e ao adultério e teve diversos filhos. Nomeava os cardeias em troca de fortes somas de dinheiro e depois os envenenava para favorecer a alternância. Mandou além disso expropriar os latifúndios das grandes famílias romanas - os Colonna, os Caetani, os Savelli - e confiscar os seus patrimónios. Contra os seus escândalos pregou o frade dominicano Jerónimo Savonarola que Alexandre VI tentou calar oferecendo-lhe o chapéu de cardeal, mas tendo o frade recusado o mandou processar e condenar à forca e à fogueira. Dele alguns dizem que morreu de malária enquanto outros que morreu envenenado por engano com o veneno que ele próprio tinha destinado a um cardeal de quem queria confiscar os bens.

Chegamos assim ao décimo sexto século: as coisas iam de mal a pior. A corrupção e toda a sorte de iniquidades dominavam a todos os níveis na igreja católica romana. Os papas não procuravam mais que divertir-se e estender o seu poder temporal.

Um exemplo desta vontade de dominar sobre um território cada vez mais vasto o temos em Júlio II (1503-1513). Este papa dentre todas as paixões possuía a da guerra. Infringindo a lei canónica vestiu a armadura e montado sobre o seu cavalo à testa do seu exército subiu ao norte para combater em nome de Deus e do Estado pontifício. Conseguiu estender o território do Estado pontifício anexando a ele diversos territórios que se tinham separado dele. Criou assim um vasto Estado pontifício, que ia desde Piacenza a Terracina, cujas dimensões permaneceriam praticamente inalteradas até Oitocentos. Júlio II tinha também a mania da grandeza, com efeito quis mandar começar a reconstrução da basílica de São Pedro.

Um outro exemplo de papa que dos preceitos do Evangelho não queria ouvir porque era dado às paixões enganadoras o temos no sucessor de Júlio II, vale dizer Leão X (1513-1521). Eis algumas coisas que diz Pastor deste papa: ‘Várias vezes Leão X adquiriu instrumentos de música preciosos, ornados de ouro e de prata (...) Muitas vezes tomava parte em pessoa nos elegantes e espirituosos concursos, que decoravam a sua mesa de louça preciosa, de comidas seleccionadas e de vinhos finos (...) Permaneceu porém suficientemente filho do seu tempo para também achar sumo contentamento nas brincadeiras triviais dos bobos de profissão (...) Os contemporâneos revelam o nome de toda uma série de semelhantes bobos, mediante cujas brincadeiras e argúcias por vezes triviais Leão X passava o tempo, convencido que este alegre entretenimento lhe alongaria a vida (....) Leão X tratava esplendidamente os seus hóspedes. O seu sucessor ficou maravilhado pelas colossais despesas de cozinha, nas quais em espécie figurava fortemente um prato de línguas de pavão (...) Mais compreensível do que o prazer que provava pela arte dos bobos, é a grande predilecção do Mediceo pelo nobre passatempo da caça. Apesar da proibição da Igreja muitos cardeais, a partir dos tempos do Scarampo, aderiram a este desporto, ao qual agora dedicou-se também um papa (...) Nem chuva e vento, nem frio nem a seriedade da situação política conseguiam demovê-lo deste deleite’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., Roma 1908, vol. IV, pag. 380, 381, 382, 385, 386.). A corte de Leão X estava cheia para além de bobos também de meretrizes [47]. Foi ele a decretar a venda das indulgências para a reconstrução da chamada basílica de São Pedro. E ainda ele disse a um dos seus cardeais: ‘Quanto bem nos fez essa fábula do Evangelho’. Quando foi descoberta uma conjura que o cardeal Petrucci tinha urdido contra ele para o matar, Leão X mandou estrangular este cardeal e esquartejar outros dois conjurados.

Durante o pontificado de Leão X rebentou aquela que foi e ainda é chamada a Reforma. Mais que dizer rebentou a Reforma sob Leão X seria necessário porém dizer que sob este papa o protesto contra a igreja católica romana que se tinha manifestado no curso dos séculos anteriores de variadas maneiras e por parte de grupos diversos que tinham os mais variados nomes (Valdenses [os que se baseavam nos ensinamentos de Pedro Valdo, comerciante rico de Lião convertido por volta de 1176], Lolardos [os que se baseavam nos ensinamentos de João Wycliffe], Hussitas [os que se baseavam nos ensinamentos de João Huss], etc.) assumiu proporções muito grandes, nunca alcançadas anteriormente, porque a favor dele se alinharam ou sinceramente ou só por pretexto príncipes e reis (para eles de facto aceitar as ideias da Reforma significava implicitamente sacudir de cima o domínio do papado nos seus territórios de jurisdição, como também significava entrar em possessão dos bens eclesiásticos da igreja romana) que com a sua autoridade favoreceram nos territórios sobre os quais dominavam a difusão da Reforma. Deve ser dito porém que este movimento de reforma não só censurava ao papa e à cúria romana os escândalos perpetrados em desonra do Evangelho (como já tinham feito muitos) mas punha ênfase também na justificação só pela fé, ou seja, declarava com força que o homem para ser justificado por Deus deve somente crer no Senhor Jesus não podendo ser justificado por via de jejuns, de orações, de peregrinações, e outras obras prescritas pela igreja papista. Antes de começar a falar de Martinho Lutero, que foi o homem que em virtude de variadas circunstâncias preparadas por Deus foi o que se tornou, se assim podemos defini-lo, o iniciador deste vasto movimento de protesto, é bom referir algumas palavras do cardeal Bellarmino, cujos escritos são considerados pelos Católicos privados de erros porque foi feito ‘santo’, que dão bem a ideia de qual era a situação da igreja católica romana antes que ‘rebentasse’ a Reforma através de Lutero. Este alto prelado papista disse: ‘Alguns anos antes da explosão da heresia luterana e calvinista, já não havia nem severidade nos tribunais eclesiásticos, nem pureza de costumes, nem conhecimento das santas escrituras, nem respeito pelas coisas divinas; numa palavra, já não havia religião’. Estando assim as coisas não surpreende que as ideias de Lutero tenham logo encontrado terreno fértil em toda a Europa e se tenham difundido como um furacão porque, apesar de não partilharmos diversas doutrinas de Lutero, este homem procurou levar as pessoas a rejeitar o papado pelas suas iniquidades, superstições e abusos de todo o género, a ler a sagrada Escritura na sua língua (coisa que a igreja católica romana naquele tempo de facto proibia) e a rejeitar muitas heresias da igreja católica que não eram mais que uma fonte de ganho desonesto para os papas e toda a cúria romana (purgatório, missa como repetição do sacrifício de Cristo e sacrifício expiatório, indulgências, etc.). Mas sobretudo este homem pondo-se a pregar que o homem é justificado só pela fé sem a necessidade das obras de satisfação prescritas pela igreja católica romana, que constituíam para os homens cargas difíceis de transportar que não conseguiam trazer paz à sua atormentada alma porque impotentes para justificá-los das suas transgressões, fez reaparecer por baixo daquele cúmulo de imundícias papistas a boa notícia da graça de Deus para alegria de todos os que queriam ser justificados por Deus mas que, dado que até àquele momento tinham sido enganados pelos vãos raciocínios dos teólogos papistas, não tinham podido obter esta tão anelada justificação que dá vida.

Lutero (1483-1546) era um monge agostiniano que procurava seguir escrupulosamente as regras da sua ordem submetendo o seu corpo a um duro regime de mortificações. Em 1510 ele foi a Roma para tratar de assuntos da sua ordem, e aqui acreditava encontrar um clero e um povo profundamente religioso, mas pelo contrário, ali encontrou sacerdotes ignorantes que celebravam a missa rapidamente e sem alguma devoção, e mulheres que nos lugares de culto da igreja católica tinham um comportamento vergonhoso. Vendo isso ficou indignado, desgostoso e convencido da necessidade de uma reforma no seio da igreja católica romana. Depois de ter voltado à pátria, entre 1513 e 1517 meditando as Escrituras foi persuadido pelo Senhor que só a fé em Cristo podia justificar o homem diante de Deus, e ao aceitar esta verdade se sentiu renascer. Eis o que escreverá a seguir Lutero sobre essa experiência que mudará o curso da sua vida: ‘Tinha ficado inflamado pelo desejo de entender bem um vocábulo usado na Epístola aos Romanos, no primeiro capítulo, onde é dito: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho’; porque até então o considerava com terror. Esta palavra: ‘justiça de Deus’ eu a odiava, porque o costume e o uso que habitualmente fazem dela todos os doutores me tinham ensinado a entendê-la filosoficamente. Entendia a justiça que eles chamam formal ou activa, aquela pela qual Deus é justo e pune os culpados. Apesar da irrepreensibilidade da minha vida de monge, sentia-me pecador diante de Deus; a minha consciência estava extremamente inquieta, e não tinha alguma certeza que Deus fosse aplacado pelas minhas obras satisfatórias. Por isso não amava aquele Deus justo e vingador, antes, o odiava (...). Estava fora de mim, de tão perturbada que estava a minha consciência; e reflectia sem trégua aquela passagem de Paulo, desejando ardentemente saber o que Paulo tinha querido dizer. Finalmente, Deus teve compaixão de mim. Enquanto meditava dia e noite e examinava a conexão destas palavras: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho como está escrito: ‘O justo viverá por fé’, comecei a compreender que a justiça de Deus significa aqui a justiça que Deus doa, e por meio da qual o justo vive, se tem fé. O sentido da frase é pois este: o Evangelho nos revela a justiça de Deus, mas a justiça passiva, por meio da qual Deus, na sua misericórdia, nos justifica pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá por fé’. De repente me senti renascer, e me pareceu que se abriram para mim as portas do paraíso. Desde então toda a Escritura ganhou para mim um significado novo (...). Quanto tinha odiado o termo: ‘justiça de Deus’, igualmente agora amava, exaltava aquele doce vocábulo. Assim aquela passagem de Paulo tornou-se para mim a porta do paraíso’. Lutero percebeu então que todos os seus esforços que tinha feito como monge para ser justificado por Deus, isto é, os jejuns, as orações, as vigílias, tinham sido inúteis porque bastava somente a fé para obter a justificação [48]. Lutero, depois de ter feito este preciosa descoberta, se desencontrou em 1517 com o dominicano Tetzel que se tinha posto a vender indulgências nos arredores de Wittenberg onde ele ensinava [49]. A mensagem do Dominicano era: ‘A alma sai do purgatório no preciso momento em que a moeda ressoa na caixa’. Naquele mesmo ano Lutero afixava na catedral de Wittenberg as suas 95 teses com as quais condenava os abusos do sistema das indulgências e se declarava pronto para um debate sobre o assunto. Inicialmente portanto, Lutero atacou os abusos do sistema das indulgências pensando reformá-lo (com efeito, lendo as suas 95 teses pode-se ver que ele não negou ao papa o poder de conceder indulgências como nem o direito por parte do povo de adquiri-las; de modo que deve-se concluir que ainda não lhe era plenamente claro o caminho de Deus) [50], e por isso se deduz que ele inicialmente não tinha em mente separar-se da igreja católica romana mas somente reformá-la no seu interior. Mas pouco tempo depois, convencido que para operar uma reforma que permitisse aos homens voltar ao Evangelho era necessário separar-se do sistema instaurado pela igreja romana, ele atacou o primado do papa, a doutrina dos sete sacramentos como meios para receber a graça porque afirmava que se é justificado só pela fé, e o sistema hierárquico na igreja porque dizia que em virtude da fé todo o crente é um sacerdote. Foi então que o papa reagiu emitindo, em Junho de 1520, contra Lutero a bula Exurge Domine (com a qual o papa condenava os ‘erros’ e os escritos de Lutero e o ameaçava de excomunhão se não se retratasse dentro de 60 dias), que foi queimada publicamente (e com ela queimou os livros de direito canónico) por Lutero na praça de Wittenberg, dizendo: ‘Porque tu perturbaste o Santo do Senhor, assim o fogo eterno te moleste e consuma’. Em seguida, no princípio de Janeiro de 1521 Roma emanou a bula Decet Romanum Pontificem com a qual Lutero era excomungado. Lutero foi convocado pelo imperador Carlos V à Dieta imperial de Worms em 1521 para responder em mérito às suas teorias e retratar as suas afirmações. Lutero lá foi mas não quis abjurar, permaneceu firme. Ao pedido referente à sua retratação ele respondeu: ‘Nos meus escritos não há nada de censurável: Roma exercita na Alemanha a tirania’ e concluiu dizendo: ‘Não posso e não quero retratar-me, porque não é nem seguro nem sincero agir contra a própria consciência. Que Deus me ajude. Amen’. No caminho de regresso da Dieta foi raptado por alguns seus amigos e posto no castelo Wartburg de propriedade de Frederico o Sábio, um príncipe que o defendia e protegia. Aqui permanecerá cerca de dezoito meses, durante os quais traduzirá em alemão o Novo Testamento, depois voltará a Wittenberg e se porá novamente a pregar contra as doutrinas papistas.

Depois da sua partida de Worms a Dieta imperial emanou um édito com o qual Lutero era, juntamente com os seus escritos, banido do Império, e quem o encontrasse era exortado a entragá-lo nas mãos da autoridade imperial. Mas este édito contra Lutero por vários motivos nunca foi executado.

Mas apesar da oposição do papa e do imperador a Reforma continuou a propagar-se na Alemanha (com a ajuda de diversos príncipes) e dali se difundiu rapidamente para as outras nações da Europa. O luteranismo fora da Alemanha se difundiu muito na Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia (nestas nações com o apoio dos soberanos que aderiram à Reforma); mas também em França, Holanda, e em Itália (começando pela república de Veneza), aqui porém um pouco menos. Hoje as igrejas que se baseam nos ensinamentos de Lutero se chamam igrejas luteranas.

Além do luteranismo surgiu e se difundiu na Europa o calvinismo, ou seja, o conjunto de doutrinas ensinadas por João Calvino (1509-1564) reformador nascido em França que desenvolveu a sua missão sobretudo na Suíça, em Genebra, cujos escritos se difundiram também eles por toda a Europa. Apesar de haverem diferenças doutrinais entre Lutero e Calvino [51] os dois pregavam que o homem é justificado só pela fé sem as obras e rejeitavam o papismo. O calvinismo se difundiu muito em França (aqui os seus aderentes serão chamados huguenotes), na Holanda, na Escócia (aqui propagará o calvinismo João Knox, 1513-1572) e em Inglaterra (os que foram sobrenomeados os Puritanos por exemplo eram calvinistas). Hoje as igrejas que no continente (especialmente na Suíça, Holanda, França e partes da Alemanha) se baseam nos ensinamentos de Calvino são denominadas igrejas reformadas: em Inglaterra e na Escócia ao invés os Calvinistas são conhecidos habitualmente como presbiterianos.

Um outro movimento reformador surgido naqueles anos que se difundirá na Europa é o anabatismo, surgido na Suíça nos arredores de Zurique por volta de 1523. O anabatismo era um movimento que se distinguia tanto do luteranismo como do calvinismo porque não aceitava o batismo dos infantes mas somente o dos adultos (daqui o nome dado aos seus aderentes de Anabatistas, isto é, rebatizadores), como não aceitava a união entre Igreja e Estado porque pregava a completa separação entre Igreja e Estado. Os Anabatistas eram também pacifistas não admitindo a violência nem com objectivo de ofensiva nem com objectivo de defesa, e não admitiam o juramento em tribunal e que um cristão ocupasse o cargo de magistrado [52]. Os Anabatistas se difundiram muito nos Países Baixos. Do movimento anabatista surgiram os Menonitas (que tomaram o nome de Menno Simmons um ex-sacerdote católico, 1496 ca. -1561 ca.) e os Batistas.

Um discurso um pouco diferente merece, pelo contrário, o anglicanismo radicado em Inglaterra. Porque ele começou como movimento político e prosseguiu como movimento religioso. Em Inglaterra existiam ainda Lolardos (seguidores de João Wycliffe), e após o rebentar da Reforma luterana se difundiram os escritos de Lutero que foram aceites por muitos. Naquele tempo era rei de Inglaterra Henrique VIII que era casado com Catarina de Aragão da qual já considerava não poder ter mais um filho macho que pudesse suceder-lhe no trono. Então o rei pediu ao papa Clemente VII o anulamento deste seu matrimónio e a permissão de voltar a casar com Ana Bolena. O papa porém recusou conceder o divórcio a Henrique, o qual então pensou em libertar-se do casamento pelo clero inglês. O rei se fez proclamar em 1531 pela assembleia do clero chefe e protector da igreja e do clero de Inglaterra. Assim o clero aceitou Henrique VIII como seu chefe e em 1533 o matrimónio do rei com Catarina era declarado nulo enquanto ele se tinha já casado secretamente com Ana Bolena. Em 1534 Henrique fez votar ao parlamento a ‘lei de supremacia’ que reconhecia o rei como único chefe supremo da Igreja de Inglaterra na terra. Vem a consumar-se portanto o cisma; o rei de Inglaterra tinha se tornado o papa da igreja na sua nação. E nesta sua nova veste fez perseguir de morte aqueles prelados que recusaram a sua supremacia espiritual e mandou fechar muitos mosteiros cujos bens e cujas terras passaram em parte para a coroa e em parte foram doadas ou vendidas à nobreza. Deve ser dito porém que se bem que o rei tenha perseguido de morte aqueles prelados católicos que se recusaram a reconhecê-lo como chefe supremo da igreja, e ter mandado fechar muitos mosteiros, ele se manteve substancialmente católico na doutrina. Inicialmente tinha feito sim concessões aos Protestantes para poder ter o seu favor, mas de 1539 em diante tinha mudado de atitude fazendo promulgar a lei dos Seis Artigos que era fortemente católica. Esta lei afirmava a transubstanciação, a suficiência da comunhão sob uma espécie, o celibato dos padres, a perpetuidade dos votos, as missas privadas e a confissão auricular. Não obstante isso, pode-se dizer, que este rei favoreceu, contra as suas intenções, a obra de reforma no seio da igreja inglesa. Morto Henrique VIII, lhe sucedeu no trono o jovem filho Eduardo VI (1547-1553) que favoreceu a difusão da Reforma no país. Em 1547 o parlamento permitiu o cálice ao povo na comunhão e revogou a lei dos Seis Artigos: em 1549 tornou legal o matrimónio dos padres e ordenou o encerramento das capelas votivas onde se dizia a missa em sufrágio da alma do doador. Além disso foi declarado que os serviços religiosos deviam se realizar na língua falada em vez de em latim. Em 1549 era estabelecido o uso do ‘Book of Common Prayer’ (‘Livro da oração comum’), livro que era obra de um Protestante no qual vinha posto em primeiro lugar o uso do inglês nos serviços religiosos, a leitura da Bíblia e a participação dos fiéis na adoração. Em 1552 foi publicado uma segunda edição deste livro (na qual havia uma clara influência calvinista) cujo uso foi ordenado às igrejas. Em 1553 por fim o rei sancionou Os Quarenta e Dois Artigos preparados por um Protestante e que eram fortemente calvinistas; estes artigos tornaram-se credo da igreja anglicana. À morte de Eduardo VI lhe sucedeu a católica Maria Tudor (1553-1558) que aboliu as mudanças trazidas por Eduardo e emanou severíssimas leis contra os que dissentiam da igreja inglesa. Muitos crentes foram mortos durante o seu reinado; daqui o sobrenome dado a esta soberana ‘a sanguinária’, bem amada naturalmente pelo papa. Outros foram obrigados a fugir para aqueles países europeus onde a Reforma era protegida. Depois de Maria subiu ao reinado Isabel (ou Elisabete) que reintroduz, com algumas modificações, as mudanças trazidas por Eduardo à igreja inglesa. E por esta sua decisão atraiu a excomunhão do então papa Pio V. Eis como surgiu a igreja anglicana (da qual depois se separariam os que serão chamados Puritanos porque consideravam que nela tinham ficado demasiados restos do papismo que deviam ser tirados, e os que foram denominados Metodistas) ainda hoje existente.

Todos os que aderiram à Reforma, não importa se Luteranos, Calvinistas, Anabatistas, Anglicanos, foram chamados Protestantes [53].

Depois de ter feito este necessário parêntesis para tratar a Reforma que representou do décimo sexto século em diante para o papado a perda do seu antigo poder em muitas nações europeias como também uma perda de muitos rendimentos e de muitos membros, prossigamos com o sucessor de Leão X.

Morto Leão X em 1521, lhe sucedeu Adriano VI em 1522. O novo papa era holandês. Este tinha intenção de reformar a igreja católica romana a começar pela corte papal expulsando as meretrizes, os poetas e os bobos. Mas os seus propósitos não agradaram à cúria romana que o tomou em aversão. Adoeceu repentinamente e morreu em 1523.

Tomou o seu lugar Clemente VII (1523-1534) o qual por causa da sua posição política anti-imperial atraiu as iras de Carlos V que mandou as suas tropas contra Roma. Os soldados alemães chegados a Roma se deram ao saque, mataram muitas pessoas, violentaram as mulheres e destruiram muitas obras de arte. O papa se refugiou em Castel Sant’Angelo mas teve que se render, foi feito prisioneiro por alguns meses. O papa teve que pagar muito dinheiro e graças à complacência de alguns oficiais conseguiu fugir da cidade disfarçado de vendedor ambulante. Muitos interpretaram então aquele flagelo abatido sobre Roma como um castigo infligido por Deus por causa da vida escandalosa que levavam os papas e os eclesiásticos. Clemente VII pôde voltar a Roma, encontrando-a devastada e despovoada, apenas em 1528. Reconciliou-se depois com Carlos V em 1529. No ano seguinte Clemente VII coroou imperador Carlos V em Bologna. Carlos V fez emanar à Dieta de Spira de 1529 um decreto contra os Anabatistas segundo o qual ‘todos os anabatistas, e todas as pessoas rebatizadas, homem ou mulher que fosse, devia ser morta ou pela espada, ou pelo fogo, ou doutra forma’. Carlos V fará depois guerra à Liga de Esmalcalda (uma liga que se formou em 1531 à qual tinham aderido príncipes, condes e cidades protestantes para proteger com as armas o protestantismo na Alemanha) derrotando-a em 1547 em Muhlberg.

Morto Clemente foi eleito papa Paulo III (1534-1549). Diz dele Pastor: ‘Em geral este papa não pode ser absolvido da má fama, de se abandonar ele próprio a uma vida mundana, que não convinha com a gravidade do tempo. Também agora como antes não só por cardeais, mas também pelo papa no Vaticano eram celebradas festas luxuosas, nas quais compareciam músicos, improvisadores, até cantoras, dançarinos e bobos’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., Roma 1914, vol. V, pag. 235). Sob Paulo III surgiram os Jesuítas (1540), ‘os homens do papa’, que com intrigas e lisonjas de todo o género atiçariam reis e governadores contra os Protestantes para os extirpar dos territórios destes; foi instituída a Inquisição romana (1542) para combater a heresia em todo o lugar, e foi convocado o concílio de Trento em 1545 (que se prolongou até 1563) que não fez mais que reforçar o poder do papa e de toda a cúria romana e confirmar todas as falsas doutrinas católicas a que se opunham os reformadores lançando anátemas contra os que não as aceitassem.

O papa sucessivo foi Júlio III (1550-1555). Ainda Pastor nos diz dele: ‘Ele assistia igualmente às representações teatrais com que terminavam os seus banquetes. Também mulheres eram convidadas para o Vaticano (...) Júlio III, que ainda a par dos negócios se tinha largamente abandonado aos prazeres, adorava em espécie esplêndidos convites (...) Como a par dos papas do renascimento saía para caçar, jogava grandes somas com cardeais amigos e outros confidentes e mantinha muitos bobos da corte, assim Júlio III não tinha sequer escrúpulo algum de intervir em representações teatrais inconvenientes’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., Roma 1922, vol. VI, pag. 46-47).

A Júlio sucedeu por pouco Marcelo II (1555), e depois veio Paulo IV (1555-1559). Este se distinguiu pelas perseguições contra os Hebreus. Eis o que diz a respeito Pastor: ‘Solicitude para manter pura a fé foi também a causa das severíssimas prescrições, que Paulo IV emanou logo no princípio do seu pontificado contra os Hebreus (...) uma bula de 14 de Julho de 1555 decretava que em Roma e nas outras cidades do Estado pontifício os Judeus devessem habitar completamente separados dos cristãos num bairro ou numa rua com apenas uma entrada e uma saída. Foi estabelecido além disso: não é permitido mais do que uma sinagoga em cada cidade, os Hebreus não podem adquirir imóveis e devem vender dentro de um determinado tempo aos cristãos os que se encontram na sua posse. Como sinal distintivo se prescreveram aos Hebreus chapéus amarelos. Foi-lhes interdito ter servos cristãos, o trabalho público nos dias de festa para os cristãos, relações demasiado estreitas com os cristãos, de estender contratos fictícios (...) Finalmente não era lícito aos Hebreus exercer comércio algum de trigo ou outras coisas necessárias ao sustento humano, tratar como médicos os cristãos’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., pag. 487,488). Este papa como se pode bem ver imitou Faraó do Egipto porque também ele maltratou os Hebreus; mas além de oprimir e perseguir os Hebreus fez perseguir de morte os que tinham abraçado a Reforma. Sob ele muitos crentes morreram por causa da sua fé. Foi um perseguidor cruel e impiedoso dos Protestantes. Em 1559 ele promulgou o primeiro Index Librorum Prohibitorum, isto é, o Índice dos livros cuja leitura era proibida aos Católicos (O Índice será abolido em 1965 por Paulo VI).

Depois de Paulo IV outros papas que perseguiram com grande ferocidade os Protestantes foram Pio V, Gregório XIII e Sisto V; todos os três prontos a encorajar a exterminar os Protestantes e os soberanos que os favoreciam na suas nações.

Pio V (1566-1572) incitou o rei Carlos IX a exterminar os Huguenotes em França; em 1570 com uma bula excomungou a rainha Isabel de Inglaterra (porque favoreceu o protestantismo em Inglaterra) e dissolveu os seus súbditos do juramento de fidelidade para com ela; e além disso conspirou o assassínio desta rainha.

Gregório XIII (1572-1585) com uma bula incitou Carlos IX a perseverar no extermínio dos Protestantes até que o seu reino estivesse inteiramente purgado das ‘heresias blasfemas’: o seu secretário de Estado, cardeal Galli, em nome do papa Gregório um dia respondeu ao núncio pontifício em Espanha, Filippo Sega (ao qual o Católico inglês Ely tinha submetido um plano para matar a rainha Isabel): ‘Todo aquele que a tira do mundo ao justo serviço de Deus, não só não peca, mas também adquire um mérito, sobretudo tendo em conta a sentença lançada contra ela por Pio V’.

Sisto V (1585-1590) para reconquistar a Inglaterra para a igreja católica enviou contra ela o rei Filipe de Espanha, devoto católico, com a sua grande frota chamada ‘Armada Espanhola’ mas a empresa financiada por este papa sanguinário não foi bem sucedida, porque a frota espanhola foi derrotada pela inglesa.

A contra-reforma católica (assim é chamada a reacção papista à Reforma protestante) produziu um período de duras perseguições durante as quais encontraram a morte na Europa muitos milhares de crentes. Foram afogados, sepultados vivos, queimados vivos, enforcados, decapitados, foram em suma tratados como se tivessem feito a obra dos malfeitores. O seu crime era o de não se quererem submeter ao papa aceitando os dogmas da igreja católica romana.

 

Do décimo oitavo ao vigésimo século

 

Passemos agora ao décimo oitavo século e em particular vejamos quais foram os efeitos da revolução francesa sobre o papado; antes porém dizemos alguma coisa sobre Clemente XIV (1769-1774). Este papa passou à história pela sua decisão de suprimir os Jesuítas por causa das suas cometidas transgressões que tinham incrementado a aversão ao papado de muitos soberanos (na Rússia e na Prússia porém os Jesuítas continuaram a sobreviver até à sua reabilitação). Deste papa Pastor diz: ‘Clemente XIV costumava distrair-se jogando bilhar, ou, quando o tempo estava bom, bocce no jardim do Quirinal ou em Villa Patrizi (...) Quando Clemente XIV estava de bom humor, os seus íntimos podiam permitir-se a brincadeiras e zombarias bastante singulares...’ (Ludovico Von Pastor, op. cit., Roma 1933, vol. XVI, pag. 79, 80, 81). Morreu envenenado.

Com a revolução francesa o papado recebeu um outro duro golpe. A Assembleia Nacional de 1789 declarou propriedade do Estado os bens da igreja católica. As ordens foram dissolvidas, os votos suprimidos, os bispos de agora em diante deviam ser eleitos pelo povo e o papa devia apenas receber a comunicação da sucedida escolha, os eclesiásticos deviam ser pagos pelo Estado e prestar juramento de fidelidade a ele. As coisas para o papado pioraram ainda mais quando o Directório considerou que o governo dos padres em Itália era incompatível com a existência da república francesa. Em 1797 em Roma durante uma sublevação popular houve a matança do general Duphot por parte de soldados pontifícios, o Directório aproveitou então a ocasião para cumprir o seu desígnio que era o de eliminar o Estado pontifício, e mandou as tropas francesas sob o comando do general Berthier invadir o Estado pontifício e ocupar Roma onde foi proclamada a República. O então papa Pio VI (1775-1799) que era muito velho pediu aos seus inimigos que queria morrer ali onde tinha vivido. Foi-lhe respondido que podia morrer em qualquer lugar; o seu quarto foi saqueado, tiraram-lhe do dedo o anel que trazia e o levaram para França onde morreu em 1799. Naquele mesmo ano em França subiu ao poder Napoleão Bonaparte. Ele fez em 1801 uma Concordata com a igreja católica romana (o então papa era Pio VII que tinha sido eleito papa em Março de 1800 num conclave realizado em Veneza e depois tinha ido para Roma onde já não havia papa desde Fevereiro de 1798) em que reconhecia a religião católica como ‘a religião da maioria dos Franceses’, contudo não fazendo dela a religião de Estado. Os bispos deviam ser nomeados pelo Estado e consagrados pelo papa. O clero devia ser pago pelo Estado mas à igreja não seriam restituídas as propriedades confiscadas em 1790. Em 1804 Napoleão convidou o papa a ir a Paris à cerimónia da sua coroação imperial. Pio VII aceitou (foi obrigado a fazê-lo porque Napoleão ameaçava puni-lo se ele recusasse) pensando que seria ele a coroar o imperador Bonaparte, como tinha feito o seu predecessor Leão III com Carlos Magno, e que com este gesto viria bem à igreja católica romana; mas quando chegou o dia da cerimónia na catedral de Notre-Dame aconteceu que Napoleão pegou na coroa e a pôs sobre a cabeça com as suas próprias mãos. O papa tinha sido mais uma vez humilhado por Napoleão e voltou a Roma onde entre os eclesiásticos reinava a insatisfação pelo seu comportamento. Depois disso Napoleão pediu a Pio VII para unir-se a ele contra os Ingleses (que segundo Napoleão não queriam a paz do Império) mas o papa recusou atraindo a si as iras de Napoleão o qual ocupou Ancona e Urbino, e enviou as suas tropas contra Roma ocupando-a em 1808. Os cardeais que não lhe eram amigos foram afastados a começar pelo secretário de estado. Pio VII (1800-1823) foi deportado de Roma (primeiro foi levado para Savona e depois para Paris) e o Estado pontifício foi anexado ao império francês. Mas com a derrota de Napoleão as coisas voltaram ao que eram antes, porque Napoleão, obrigado pelas circunstâncias que lhe eram desfavoráveis, deu ordem para pôr em liberdade o papa o qual voltou para Roma triunfalmente. Era Maio de 1814; o Estado pontifício voltava para as mãos do papa.

Em 1848 o então papa Pio IX foi obrigado por uma sublevação popular a fugir de Roma e a refugiar-se em Gaeta. A população estava cansada de ver o poder civil nas mãos do clero; ela queria que o governo civil fosse entregue só aos ‘leigos’, coisa que o papa não queria absolutamente porque segundo ele o Estado pontifício era a herança de São Pedro que ele tinha recebido de Cristo e portanto ele devia ser governado pelo sucessor de Pedro porque lhe pertencia. Mas Pio IX enquanto se encontrava em Gaeta, pensou recuperar Roma pela força fazendo apelo à Áustria, à Espanha, ao reino de Nápoles e à França a qual enviou as suas tropas para Roma (onde entretanto tinha sido proclamada a república romana com a sua nova constituição que trazia à cabeça o princípio da soberania popular, e declarada decaída a soberania temporal do papa) ‘para restituir a capital do mundo católico à soberania da Igreja, segundo o caloroso desejo de todos os católicos’. As tropas francesas depois de terem desembarcado em Civitavecchia, sob o comando do general Oudinot, bombardearam Roma e mataram muitas pessoas para restituir a cidade nas mãos do papa [54]. As tropas das outras potências ao invés ocuparam o resto do Estado pontifício. A república romana foi assim dissolvida; e o governo dos assuntos civis foi transferido para uma comissão cardinalícia nomeada pelo papa. Pio IX pôde voltar para Roma em 1850.

Em 1859-1860 Vítor Emanuel II conseguiu anexar primeiro a Romagna e depois a Umbria e as Marche, iniciando assim a conquista do Estado pontifício. O Estado pontifício no fim de 1860 estava limitado apenas ao Lazio e à cidade de Roma onde haviam tropas francesas em defesa do Estado pontifício. Em 1870 aconteceu que rebentou a guerra entre a França e a Prússia. E a França foi obrigada por razões militares a retirar as suas tropas que tinha em solo italiano em defesa do Estado da igreja católica. O Estado da igreja se encontrou portanto indefeso (e ainda por cima a França saiu derrotada da guerra) e desta condição se aproveitaram logo dela os Italianos para se desfazerem de uma vez por todas da tirania do clero. Naquele ano as tropas piemontesas comandadas pelo general Raffaele Cadorna entraram pela brecha da Porta Pia em Roma anexando a cidade do papa ao reino de Itália. Foi uma humilhação para o Estado pontifício [55]; o papa perdeu aquela que ele definia a herança ou o património de São Pedro [56] a que nunca renunciaria de sua espontânea vontade, e se declarou ‘prisioneiro do Vaticano’; excomungou o rei Vítor Emanuel II e todos os que tinham contribuído para a ocupação do Estado pontifício e proibiu aos Católicos de participar tanto na qualidade de candidatos como de eleitores em eleições de qualquer tipo. A qualquer oferta do Governo italiano para chegar a uma reconciliação Pio IX respondeu dizendo: Non possumus. Em 1871 o Parlamento italiano aprovou a chamada Lei das Garantias com que ia ao encontro das exigências da ‘Santa Sé’, incluindo as económicas atribuindo-lhe ‘uma dotação de renda anual de L. 3.225.000’ que estaria isenta de toda espécie de taxa ou ónus governativo, comunal e provincial. Mas tanto Pio IX como os seus sucessores recusaram a mão lhes oferecida pelo Governo italiano, não querendo reconhecer a Lei das Garantias.

Em 1922 subiu ao poder Benito Mussolini [57], e no mesmo ano foi eleito papa Pio XI (1922-1939). Os dois perceberam que poderiam tirar enormes vantagens de um acordo reconciliador, e por isso iniciaram negociações secretas entre as partes para pôr termo à inimizade entre o papado e o governo italiano que já durava há diversas décadas. As negociações levaram à estipulação, em 1929, entre a ‘Santa Sé’, representada naquela ocasião pelo cardeal Gasparri, e o Estado italiano, comandado por Benito Mussolini, do Tratado de Latrão e da Concordata (ambos estes documentos trazem à cabeça a expressão ‘Em Nome da Santíssima Trindade’) e de uma Convenção Financeira. Com o Tratado a Itália reconheceu à ‘Santa Sé’ a soberania sobre um minúsculo território chamado ‘Cidade do Vaticano’ e a ‘Santa Sé’ declarou definitivamente concluída a ‘questão romana’, reconhecendo o Reino de Itália sob a dinastia da Casa Savóia com Roma capital do Estado italiano. Vejamos agora alguns artigos do Tratado e da Concordata de Latrão a fim de perceber as concessões feitas e os privilégios concedidos pelo Estado Italiano ao Vaticano.

O art. 1 do Tratado afirma: ‘A Itália reconhece e reafirma o princípio consagrado no art. 1 do Estatuto do Reino de 4 de Março de 1848, pelo qual a religião católica, apostólica e romana é a única religião do Estado’; o art. 6 afirma que a Itália ‘providenciará, além disso, a comunicação com as ferrovias do Estado mediante a construção de uma estação ferroviária na Cidade do Vaticano..’; o art. 8 do Tratado diz que ‘a Itália, considerando sagrada e inviolável a pessoa do Sumo Pontífice, declara punível o atentado contra Ela e a provocação a cometê-lo com as mesmas penas estabelecidas para o atentado e a provocação a cometê-lo contra a pessoa do Rei. As ofensas e as injúrias públicas cometidas em território italiano contra a pessoa do Sumo Pontífice com discursos, com factos e com escritos, são punidas como as ofensas e as injúrias à pessoa do Rei’; o art. 13 diz que ‘a Itália reconhece à Santa Sé a plena propriedade das Basílicas patriarcais de São João em Latrão, de Santa Maria Maior e de S. Paulo, com os edifícios anexos...’; o art. 14 que ‘a Itália reconhece à Santa Sé a plena propriedade do palácio pontifício de Castel Gandolfo com todas as dotações, ligações e dependências’ e se obriga a ceder-lhe ‘a Villa Barberini em Castel Gandolfo com todas as dotações, ligações e dependências’ [58] e depois ‘para integrar a propriedade dos imóveis sitos no lado norte da Colina Gianicolense pertencente à Sagrada Congregação de Propaganda Fide e a outros institutos eclesiásticos e defronte para os palácios vaticanos, o Estado se compromete a transferir para a Santa Sé ou para as entidades que forem por Ela indicadas os imóveis de propriedade do Estado ou de terceiros existentes em dita zona... a Itália, por fim, transfere para a Santa Sé em plena e livre propriedade os edifícios ex-conventuais em Roma anexos à Basílica dos Santos XII Apóstolos e às igrejas de Sant’Andrea della Valle e de São Carlo ai Catinari, com todos os anexos e dependências..’; o art. 16 diz que os imóveis citados nos três artigos anteriores (no art. 15 são citados diversos palácios da igreja católica romana situados em território italiano) ‘assim como os destinados a sedes dos seguintes institutos pontifícios: Universidade Gregoriana, Instituto Bíblico, Oriental, Arqueológico, Seminário Russo, Colégio Lombardo, os dois palácios de Sant’Apollinare e a Casa dos exercícios para o clero de São João e Paulo, nunca serão sujeitos a vínculos ou a expropriação para causa de utilidade pública, senão prévio acordo com a Santa Sé, e estarão isentos de tributos seja ordinários ou extraordinários tanto para com o Estado quanto para com qualquer outra entidade’; o art. 17 afirma quanto se segue: ‘As retribuições de qualquer natureza, devidas pela Santa Sé, pelas outras entidades centrais da Igreja Católica e pelas outras entidades geridas directamente pela Santa Sé também fora de Roma, a dignitários, empregados e assalariados, mesmo não estáveis, serão no território italiano isentos, a partir de 1° de Julho de 1929, de qualquer tributo tanto para com o Estado quanto para com toda outra entidade’; o art. 20 recita quanto se segue: ‘As mercadorias provenientes do exterior e dirigidas à Cidade do Vaticano, ou, fora da mesma, a instituições ou ofícios da Santa Sé, serão sempre admitidas por qualquer ponto da fronteira italiana e em qualquer porto do Reino, ao trânsito pelo território italiano com plena isenção dos direitos aduaneiros e impostos’; o art. 21 afirma: ‘Todos os Cardeais gozam em Itália das honras devidas aos Príncipes de sangue; os que residem em Roma, mesmo fora da Cidade do Vaticano, são, para todos os efeitos, cidadãos da mesma’; o art. 23 afirma que terão ‘plena eficácia jurídica, também para todos os efeitos civis, em Itália as sentenças e as disposições emanadas por autoridades eclesiásticas e oficialmente comunicadas às autoridades civis, acerca de pessoas eclesiásticas ou religiosas e concernentes a matérias espirituais ou disciplinares’.

Cito agora algumas passagens de alguns artigos da Concordata. O art. 1 da Concordata diz: ‘.... Em consideração do carácter sagrado da Cidade Eterna, sede bispal do Sumo Pontífice, centro do mundo católico e meta de peregrinações, o Governo italiano terá cuidado de impedir em Roma tudo o que possa estar em contraste com dito carácter’. O art. 2 afirma: ‘... Tanto a Santa Sé quanto os Bispos podem publicar livremente e também afixar no interior e nas portas exteriores dos edifícios destinados ao culto ou a ofícios do seu ministério as instruções, ordenanças, cartas pastorais, boletins diocesanos e outros actos que digam respeito ao governo espiritual dos fiéis, que acreditarão emanar no âmbito da sua competência. Tais publicações e afixações e em geral todos os outros actos e documentos relativos ao governo espiritual dos fiéis não são sujeitos a encargos fiscais... As autoridades eclesiásticas podem sem alguma ingerência das autoridades civis executar colectas no interior e na entrada das igrejas assim como nos edifícios de sua propriedade’. O art. 3 diz: ‘... ‘Os estudantes de teologia, os dos últimos dois anos de propedêutica à teologia encaminhados ao sacerdócio e os noviços dos institutos religiosos podem, a seu pedido, adiar, de ano em ano, até ao vigésimo sexto ano de idade o cumprimento das obrigações do serviço militar. Os clérigos ordenados em ‘sacris’ e os religiosos, que emitiram os votos, estão isentos do serviço militar, salvo o caso de mobilização geral. Em tal caso, os sacerdotes passam nas forças armadas do Estado, mas é-lhes conservado o hábito eclesiástico, para que exerçam entre as tropas o ministério sagrado sob a jurisdição eclesiástica do Ordinário militar conforme o art. 14. Os outros clérigos ou religiosos são de preferência destinados aos serviços sanitários. Todavia, mesmo se for disposta a mobilização geral, estão dispensados de apresentar-se à chamada os sacerdotes com cura de almas. Consideram-se tais os Ordinários, os párocos, os vice-párocos e coadjutores, os vigários e os sacerdotes estavelmente estabelecidos em reitorias de igrejas abertas ao culto’. O art. 5 afirma que ‘os sacerdotes apóstatas ou enredados por censura não poderão ser assumidos nem conservados num ensino, num ofício ou num emprego, nos quais estejam em contacto directo com o público’. O art. 8 afirma que ‘.... Em caso de prisão, o eclesiástico ou o religioso é tratado com o respeito devido ao seu estado e ao seu grau hierárquico. No caso de condenação de um eclesiástico ou de um religioso, a pena é descontada possivelmente em locais separados dos destinados aos leigos, a menos que o Ordinário competente tenha reduzido o condenado ao estado laical’; o art. 9 afirma que ‘em regra, os edifícios abertos ao culto estão isentos de requisições ou ocupações’ e que ‘salvo os casos de urgente necessidade, a força pública não pode entrar, para o exercício das suas funções, nos edifícios abertos ao culto, sem ter dado disso prévio aviso à autoridade eclesiástica’; o art. 10 diz que ‘não se poderá por qualquer que seja a causa proceder à demolição de edifícios abertos ao culto, senão com prévio acordo com a competente autoridade eclesiástica’; o art. 11 diz: ‘O Estado reconhece os dias festivos estabelecidos pela Igreja, que são os seguintes: todos os Domingos, o primeiro dia do ano; o dia da Epifania (6 de Janeiro); o dia da festa de São José (19 de Março); o dia da Ascensão; o dia do Corpus Domini; o dia da festa dos ss. Apóstolos Pedro e Paulo (29 de Junho); o dia da assunção da B.V. Maria (15 de Agosto); o dia de Todos os santos (1 de Novembro); o dia da festa da Imaculada Conceição (8 de Dezembro); o dia de Natal (25 de Dezembro)’ (cinco destas festividades foram suprimidas em 1977); o art. 14 afirma: ‘As tropas italianas de ar, de terra e de mar gozam, nos cuidados dos deveres religiosos, dos privilégios e das isenções consentidas pelo direito canónico...’; o art. 29 afirma que ‘...b) Será reconhecida a personalidade jurídica das associações religiosas, com ou sem votos, aprovadas pela Santa Sé, que tenham a sua sede principal no Reino, e sejam ali representadas... Será reconhecida por fim a personalidade jurídica às Casas generalícias e às Procuradorias das associações religiosas, também estrangeiras. As associações ou as Casas religiosas, que já tenham personalidade jurídica, a conservarão. As acções relativas à transferência de imóveis, dos quais as associações já estão em posse, dos actuais proprietários para as associações serão isentas de todo tributo... h)... não será aplicado aos ministros do culto pelo exercício do ministério sacerdotal o imposto sobre as profissões e a taxa de patente, instituído com o Régio decreto de 18 de Novembro de 1923, n° 2538, em lugar da suprimida taxa de exercício e revenda, nem qualquer outro tributo do género’; o art. 30 que ‘o Estado Italiano reconhece aos institutos eclesiásticos e às associações religiosas a capacidade de adquirir bens, salvo as disposições das leis civis concernentes às aquisições dos corpos morais’; o art. 34 diz que ‘o Estado italiano, querendo devolver ao instituto do matrimónio, que é a base da família, dignidade conforme às tradições católicas do seu povo, reconhece ao sacramento do matrimónio, disciplinado pelo direito canónico, os efeitos civis... As causas concernentes a nulidade do matrimónio e a dispensa do matrimónio rato e não consumado são reservadas à competência dos tribunais e dos dicastérios eclesiásticos. As disposições e as sentenças relativas, quando sejam tornadas definitivas, serão levadas ao Supremo Tribunal da Assinatura, o qual controlará se foram respeitadas as normas do direito canónico relativas à competência do juiz, à citação e à legítima representação ou contumácia das partes. As ditas disposições e sentenças definitivas com os relativos decretos do Supremo Tribunal da Assinatura serão transmitidos à Corte de Apelo do Estado competente por território, a qual, com ordenanças emitidas em câmera de conselho, os tornará executivos para efeitos civis e ordenará que sejam anotados nos registos do estado civil junto da acta de matrimónio’; o art. 36 diz: ‘A Itália considera fundamento e coroamento da instrução pública o ensino da doutrina cristã segundo a forma recebida da tradição católica. E por isso consente que o ensino religioso agora aprendido nas escolas públicas elementares tenha um ulterior desenvolvimento nas escolas médias, segundo programas a estabelecer-se de acordo entre a Santa Sé e o Estado’; l’art. 40 afirma: ‘As licenciaturas em sagrada teologia dadas pelas Faculdades aprovadas pela Santa Sé serão reconhecidas pelo Estado Italiano. Serão igualmente reconhecidos os diplomas, que se conseguem nas escolas de paleografia, arquivologia e diplomática documentária erectas na biblioteca e no arquivo da Cidade do Vaticano’.

Além de tudo isto o Estado italiano se obrigou a dar muito dinheiro ao Vaticano, na Convenção Financeira lê-se no art. 1 que ‘a Itália se obriga a depositar, em troca das ratificações do Tratado, à Santa Sé a soma de liras italianas 750.000.000 (setecentos e cinquenta milhões) e a entregar contemporaneamente à mesma um consolidado italiano 5 por cento ao portador (com cupão vencendo-se a 30 de Junho p.v) do valor nominal de liras italianas 1.000.000.000 (mil milhões)’ [59].

Mas o que obteve o Estado italiano da igreja católica romana em troca de todos os favores e privilégios lhe concedidos (se tenha presente que não os citei todos)? Isto, que encontramos nos art. 12, 19, 20, 21 e 43 da Concordata. O art. 12 afirma: ‘Nos Domingos e nas festas de preceito, nas Igrejas em que oficia um Capítulo, o celebrante da Missa Conventual cantará, segundo as normas da liturgia sagrada, uma oração pela prosperidade do Rei de Itália e do Estado italiano’; o art. 19 que ‘antes de proceder à nomeação de um Arcebispo ou de um bispo diocesano ou de um coadjutor cum jure successionis, a Santa Sé comunicará o nome da pessoa escolhida ao Governo italiano para assegurar que o mesmo não tenha razões de carácter político a levantar contra a nomeação. As relativas práticas se desenvolverão com a maior solicitude possível e com toda a discrição, de modo que seja mantido o segredo sobre a pessoa escolhida, até que não ocorra a nomeação da mesma’; o art. 20 diz: ‘Os bispos, antes de tomar posse da sua diocese, prestam nas mãos do Chefe do Estado um juramento de fidelidade...’; o art. 21 diz: ‘As nomeações dos investidos de benefícios paroquiais são da autoridade eclesiástica competente comunicadas reservadamente ao Governo italiano e não podem ter curso antes que sejam passados trinta dias da comunicação. Ao fim deste prazo, o Governo italiano, quando graves razões se oponham à nomeação, pode manifestá-las reservadamente à autoridade eclesiástica, a qual, permanecendo a divergência, deferirá o caso para a Santa Sé’; o art. 43 por fim afirma: ‘O Estado italiano reconhece as organizações dependentes da Acção Católica Italiana, enquanto elas, como a Santa Sé dispôs, desenvolvam a suas actividades fora de todo o partido político e sob a imediata dependência da hierarquia da Igreja para a difusão e actuação dos princípios católicos. A Santa Sé aproveita a ocasião da estipulação da presente Concordata para renovar a todos os eclesiásticos e religiosos de Itália a proibição de se inscreverem e militar em qualquer partido político’ [60].

Pio XI expressa a sua satisfação pela Concordata em 13 de Fevereiro de 1929 falando aos professores e aos alunos da Universidade católica do Sagrado Coração nestes termos: ‘Nos era necessário um homem como o que a Providência nos fez encontrar, um homem que não tivesse as preocupações da escola liberal... E com a graça de Deus, com muita paciência, com muito trabalho, com o encontro de muitos e hábeis favorecimentos, conseguimos ‘per medium profundum’ concluir uma Concordata, que se não é a melhor de quantas delas possam haver, está certamente entre as melhores’ [61].

Em 18 de Fevereiro de 1984 a ‘Santa Sé’ e a República Italiana assinaram uma Nova Concordata que trouxe modificações à Concordata Lateranense. A primeira diferença que se nota nesta nova Concordata é que à diferença da anterior esta não traz à cabeça a expressão ‘Em nome da Santíssima Trindade’. Uma outra diferença a se nota no primeiro ponto do protocolo adicional segundo o qual ‘se considera não mais em vigor o princípio, originariamente reclamado pelos Pactos Lateranenses, da religião católica como única religião do Estado italiano’ [62]. Pelo que qualquer um é ‘livre’ (apesar de o Estado italiano continuar a assegurar o ensino da religião católica nas escolas públicas não universitárias de todas as ordens e graus) na escola de valer-se ou não do ensino católico. O art. 9 afirma com efeito que ‘no respeito da liberdade de consciência e da responsabilidade educativa dos pais, é garantido a cada um o direito de escolher se valer-se ou não valer-se de dito ensino’ [63].

Por quanto respeita às facilitações fiscais lê-se no art. 7 que ‘para efeitos tributários as entidades eclesiásticas que têm fim de religião ou de culto, como também as actividades dirigidas com tais objectivos, são equiparadas às que têm fim de beneficência ou de instrução’ (n.3), mas também que ‘as actividades diferentes das de religião ou de culto, desenvolvidas pelas entidades eclesiásticas, estão sujeitas, no respeito da estrutura e da finalidade de tais entidades, às leis do Estado respeitantes a tais actividades e ao regime tributário previsto para as mesmas’ (n.3).

Também a propósito do matrimónio nesta nova Concordata nota-se alguma diferença, com efeito o art. 8 depois de ter afirmado que ‘são reconhecidos os efeitos civis aos matrimónios contraídos segundo as normas do direito canónico, na condição que a acta relativa seja transcrita nos registos do estado civil, prévias publicações na casa comunal’ afirma: ‘Considera a Santa Sé que a transcrição não poderá ter lugar: a) quando os esposos não respondam aos requesitos da lei civil acerca da idade exigida para a celebração; b) quando subsiste entre os esposos um impedimento que a lei civil considera inderrogável’. Quanto depois às sentenças de nulidade pronunciadas pelos tribunais eclesiásticos elas são equiparadas a sentenças estrangeiras, portanto é introduzido o instituto da deliberação.

 

Como reage o papado quando um governo de uma nação se põe contra a igreja católica romana tirando-lhe os seus privilégios

 

O Estado ‘Cidade do Vaticano’ é um Estado anómalo porque além de ser um Estado é também uma organização religiosa que possui centenas de milhões de membros em todo o mundo que apesar de não poderem definir-se cidadãos do Estado ‘Cidade do Vaticano’, porque são cidadãos de um outro Estado, têm como seu chefe quem governa este minúsculo Estado presente sobre a península italiana pelo que se encontram a ter que obedecer a dois chefes de Estado, o da sua nação da qual são efectivamente cidadãos e onde habitam e o do Estado do Vaticano aqui em Roma porque ele se considera também o chefe visível da igreja de que eles fazem parte e fora da qual - segundo eles - não há salvação. Naturalmente no caso de o chefe do Estado do qual eles fazem parte ir contra os interesses da igreja católica romana eles são obrigados a desobedecer ao chefe da sua nação e a opor-se-lhe com a força para obedecer ao seu sumo pontífice que para eles é o vigário de Cristo na terra não importa o que ele diz sob pena de excomunhão que comprometeria o seu destino eterno. Leão XIII (1878-1903) o disse claramente na encíclica Sapientiae Christianae o que devem fazer os cidadãos católicos neste caso: ‘Se as leis do Estado abertamente divergem do direito divino, se impõem ofensas à Igreja ou contrariam os deveres religiosos ou violam a autoridade de Jesus Cristo no seu Vigário, então é dever resistir e culpa obedecer..’ (aquele ‘resistir’ significa insurgir contra a autoridade civil). Eis por que muitos chefes de Estado procuram conciliar o favor do papa de Roma porque sabem que tendo o seu favor terão os seus cidadãos de religião católica do seu lado. E eis por que ainda o papa consegue influenciar politicamente muitas nações da terra porque sabe ter debaixo de si muitas e muitas pessoas, que estão convencidas que a sua salvação eterna depende dele e que para não irem para o inferno estão portanto prontas a obedecer-lhe em tudo e em todo lugar, pelo que ele se faz forte porque sabe tê-las do seu lado ou melhor no punho. Façamos um exemplo explicativo. Ponhamos o caso de que o Governo italiano um dia emanasse uma lei que ordena destruir todas as chamadas estátuas e imagens sagradas presentes em território italiano porque considera que elas sejam ídolos e suprimir as peregrinações que se fazem aqui a Itália e as procissões do Corpus domini e a oração a Maria, e tirar à igreja papista todos os seus privilégios (entre os quais recordamos está a isenção de impostos e tributos de vários géneros), etc. O que aconteceria? Que isso faria enfurecer o papa que lançaria logo uma excomunhão tanto contra o Governo italiano como contra todos os que ousassem destruir as estátuas e as imagens e obedecer às outras ordens governativas. E como o Governo italiano seria considerado herético e apóstata por ter tomado estas decisões os cidadãos italianos católicos não seriam mais obrigados a obedecer-lhe (porventura também não pagando os impostos) para não serem considerados também eles heréticos e apóstatas. Sucederia também que muitos zelosos Católicos (incitados e ajudados como sempre sucede nestes casos pelos Jesuítas) se revoltariam também contra o governo fomentando tumultos de todo o género, e, como sempre aconteceu nestes casos, muitos ficariam feridos e mortos. E porquê tudo isso? Por medo de incorrer na excomunhão do papa que os privaria do paraíso, a seu dizer. Mas há mais, poderia também suceder de o papa chamar o exército de uma nação sua amiga sobre território italiano a fim de defender as suas estátuas e as suas imagens e permitir as peregrinações e as procissões e que se continue a dizer o Avé Maria, e para restaurar a ‘liberdade cristã’ nesta nação (o que significa para fazer voltar a igreja católica à posse de todos os seus privilégios para que possa continuar a desenvolver tranquilamente a sua missão) em outras palavras para impedir que as referidas ordens governativas sejam postas em prática, e assim o Estado italiano se acharia invadido por um exército estrangeiro e obrigado a defender-se com a força pelo que muitos cairiam mortos. Recordai-vos de facto que o papa está à cabeça de um Estado e como chefe de Estado pode chamar em sua ajuda uma nação estrangeira quando estão em jogo os seus interesses económicos e temporais em Itália ou em alguma outra nação. Sucederia em suma o que já sucedeu no passado; nada de novo. Porventura alguns, ouvindo-nos falar desta maneira, dirão que semelhantes coisas não podem mais suceder no nosso século. Mas estes se enganam grandemente e para demonstrá-lo citarei dois casos ocorridos neste vigésimo século em que a igreja católica romana quando o governo de uma nação se pôs contra ela comprometendo os seus grandes interesses ela lançou-se contra ele fomentando entre o povo a revolução contra o governo a seu dizer rebelde. Os casos são os da Espanha e da Argentina, dois países onde a igreja católica gozou e goza ainda de muitos privilégios.

Em 14 de Abril de 1931 os espanhóis proclamaram a República. A nova constituição decretou a completa separação entre igreja e Estado. Entre as disposições contra a igreja católica estavam as seguintes: foi proibido o ensino às ordens religiosas porque o Estado adquiriu o monopólio sobre a educação, o Estado deixou de pagar os ordenados aos párocos com o dinheiro público e de manter às suas custas o aparelho da igreja, foi dissolvida a Companhia de Jesus e os seus bens foram confiscados. Em outras palavras a República espanhola não esteve disposta a reconhecer ‘a liberdade da Igreja’ como a reconhecia o governo de Mussolini em Itália. Tais disposições constituiram um grande ataque aos enormes interesses da igreja católica então muito poderosa, rica e cheia de privilégios sobre território espanhol. Os Jesuítas tinham de facto o controlo da instrução pública, um terço das terras pertencia às congregações religiosas e a igreja tinha enormes somas de dinheiro investido nos bancos, nas indústrias, nos negócios. A 16 de Fevereiro de 1936 a Frente Popular dos republicanos venceu as eleições às Cortes (antes das eleições, Gomá, o cardeal primaz da Espanha, tinha ordenado aos Católicos para votar contra as forças republicanas). As hierarquias eclesiásticas então, com os Jesuítas à cabeça, sustentaram que os Católicos tinham o direito de se insurgir contra o governo da república espanhola. A 17 de Julho de 1936 rebentou a revolta militar contra a República espanhola; esta revolta foi conduzida pelo general Franco, foi preparada pelas hierarquias eclesiásticas, e sustentada por Hitler e Mussolini com armas e homens (na América entretanto a imprensa católica apresentava o conflito em acção em Espanha como uma guerra santa para a salvação do cristianismo, e a igreja católica tinha um papel decisivo em impedir que fosse tirado o embargo de armas para Espanha, armas que muitos consideram permitiriam às forças republicanas vencer o conflito). A revolta, que levou ao extermínio por parte dos fascistas comandados por Franco de dezenas de milhar de pessoas, teve o sustento dos cardeias e dos bispos e recebeu a benção e a aprovação papal que pensava desta maneira poder retomar o seu domínio em Espanha. As forças armadas comandadas por Franco (que incluiam alemães e italianos no seu interior) levaram a melhor sobre os republicanos e assim a igreja católica pôde voltar a ser senhora em Espanha. No caderno de Civiltà Cattolica de 28 de Maio de 1938, a revista reportou, do Boletim oficial do Estado espanhol, a motivação com a qual o governo nacional tinha dado a personalidade jurídica à Companhia de Jesus, restituindo-lhe os bens confiscados pelos republicanos: ‘No presente glorioso despertar da tradição Espanhola, é parte principal a restauração da Companhia de Jesus em Espanha, na plenitude da sua personalidade, e isto por várias razões. Em primeiro lugar, para reparar devidamente a injustiça consumada contra ela. Em segundo lugar, como o Estado espanhol reconhece e afirma a existência da Igreja católica como sociedade perfeita, com a plenitude dos seus direitos, assim deve também reconhecer a personalidade jurídica às Ordens religiosas canonicamente aprovadas, como é a Companhia de Jesus desde Paulo III, e posteriormente por Pio VII e pelos seus sucessores. Em terceiro lugar, por ser a Companhia de Jesus uma Ordem eminentemente espanhola, e de grande significado universal, que faz acto de presença no ápice do Império espanhol, participando intensamente em todas as suas vicissitudes, de modo que, com feliz coincidência, andam sempre juntas na história as perseguições contra ela e o processo de desenvolvimento do anti-Espanha. Finalmente, pelo enorme seu aporte cultural, que tanto contribuiu para o engrandecimento da nossa Pátria e para o aumento do tesouro científico da humanidade; por isso Menendes y Pelayo qualificou a perseguição contra ela um golpe mortal para a cultura espanhola e um atentado brutal e obscurantista contra a ciência e as letras humanas’. A 19 de Maio de 1939 Franco fez a sua entrada triunfal em Madrid. Pio XII no dia da vitória lhe enviou esta mensagem: ‘Elevando o nosso coração a Deus, damos graças a Ele e a Vossa Excelência pela desejada vitória da Espanha católica e oramos para que este nosso dilecto país, encontrada a paz, renove energicamente a sua antiga tradição cristã que o fez tão grande. Com tais sentimentos enviamos a V. E. e a todo o povo espanhol a nossa benção apostólica...’. O regime de Franco se desendividou para com a casta eclesiástica católica; lhe restituiu e até aumentou as suas possessões, introduziu especiais taxas a favor dos fundos eclesiásticos e assumiu a cargo do orçamento do Estado o mantimento da igreja e do clero, e a religião católica foi proclamada única religião de Estado.

Da Espanha desloquemo-nos para a Argentina ao tempo em que governava o general Perón. A Argentina foi sempre um país católico, tanto que segundo a constituição de 1853 o Presidente e o Vice-Presidente da República deviam pertencer ‘à comunhão católica apostólica romana’. O general Perón foi eleito Presidente da República Argentina em 1946 e esta sua eleição teve o benévolo consentimento da igreja católica romana. Subido ao poder Perón favoreceu a igreja católica romana aumentando as côngruas do clero e introduzindo novamente a instrução religiosa nas escolas. Ele mesmo demonstrava ser um Católico convicto porque invocava com apropriadas cerimónias Maria e os Santos para especiais protectores de particulares instituições; tanto ele como sua mulher Evita assistiam a funções religiosas e comungavam em público. A 15 de Novembro de 1953 de joelhos na Plaza de Mayo tinha até dirigido uma especial oração a Maria. Tudo deixava portanto pressagiar que a igreja católica sob o seu regime gozaria do favor do governo. Mas para o fim de 1954 as coisas tomaram um mau rumo para a igreja católica romana [64]; o Congresso em poucos meses aprovou muitas leis contra ela; supressão do ensino religioso, dos subsídios governamentais às escolas privadas, legalização do divórcio, abolição da isenção fiscal para os bens destinados ao culto, supressão do calendário civil das festas religiosas da Epifania, do Corpus Domini, da Assunção, de Todos os santos, da Imaculada Conceição e o encerramento dos locais da Acção Católica. O L’Osservatore Romano declarou tal política opressiva para o catolicismo. No princípio de 1955 mais de cem religiosos tinham sido privados da cátedra ou exonerados como inspectores escolares, e 200 escolas livres tinham sido fechadas. Em vez dos professores de religião apareceram nas escolas elementares e médias ‘conselheiros espirituais’. No fim de Junho 125 religiosos e leigos católicos estavam na prisão por actividades sediciosas. Foi depois aprovado um projecto de lei que declarava tributáveis os conventos, os lugares de culto da igreja católica e em geral as propriedades eclesiásticas. A 16 de Junho o Vaticano excomungou ‘todos os que tinham espezinhado os direitos da Igreja’; embora Perón não fosse nomeado percebeu-se muito bem que a medida era dirigida para atingi-lo directamente (fazemos presente que a excomunhão o Vaticano não a lançou nem contra Hitler quando invadia outras nações e exterminava milhões de pessoas nos campos de concentração). Contemporaneamente à excomunhão papal, em Buenos Aires rebentou a revolta que tinha sido preparada pelo clero católico. Em Junho de 1955 alguns aviões militares bombardearam o Palácio do Governo e outros edifícios públicos; o ataque fez cerca de trezentas vítimas entre a multidão além de um milhar de feridos; mas poucas horas depois a insurreição era sufocada. O L’Osservatore Romano então anunciou abertamente que o Vaticano não desistiria da sua ofensiva senão depois de ter conquistado a autoridade secular na Argentina: ‘Quando um chefe se rebela contra Deus subscreve a sua própria condenação’ - ameaçou o orgão de imprensa do vaticano. Após alguns meses de tréguas a revolta rebentou de novo em meados de setembro de 1955. Uma bomba caiu sobre a Capital Federal e se falou de 350 vítimas; então o excomungado presidente Perón decidiu demitir-se e deixar a Argentina para ‘salvar a nação do massacre’ que tinha começado por obra do clero católico.

Estes factos ocorridos em meados deste século mostram pois de maneira clara como o papado não mudou em nada; ele está ainda pronto a lançar excomunhões e a fomentar revoluções e violências de todo o género contra aqueles governos que decidem ‘oprimir’ a igreja católica romana nos seus países. Ninguém pois se iluda sobre o real carácter do papado; ele como na antiguidade é ainda uma besta feroz pronta a despedaçar os seus inimigos. Os sorrisos do papa, as suas doces palavras, os seus apertos de mão, os seus encorajamentos para fazer o bem, são apenas máscaras debaixo das quais se esconde um homem que se vê que algum chefe de Estado ousa pôr-se a ‘perseguir’ a sua igreja está pronto a encorajar o assassínio e a violência para remover o ‘perseguidor’. Mas está também pronto a calar, a fingir que nada vê, a não dizer uma palavra, no caso de um ditador, com quem ele se aliou e favorece a igreja católica, se abandonar a prepotências e violências, e crimes de todo o género contra os Hebreus, Protestantes, etc., para não perder a sua amizade e portanto os seus favores e privilégios. As excomunhões ele só as lança contra quem prejudica fortemente os interesses da igreja católica.

 

Dois sonhos e uma visão dados por Deus sobre o presente papa

 

Termino esta minha confutação sobre o papado referindo-vos o que eu e meu irmão sonhámos e o que uma nossa irmã em Cristo viu em visão acerca de João Paulo II [65].

Alguns anos atrás em sonho eu me vi em frente de Wojtyla e disse-lhe apontando o dedo contra ele: ‘Tu estás mandando para o inferno milhões de pessoas!’

Meu irmão sonhou que se encontrava deitado e Wojtyla enfurecido batia-lhe no peito, e ele (meu irmão) disse-lhe: ‘A Igreja não é tua mas de Deus’.

A irmã Maria (enquanto tinha os olhos abertos) o viu em visão vestido de branco com um colar negro ao seu pescoço. Esta visão foi-lhe concedida por Deus uma noite poucos instantes depois de eu ter referido na presença dela e de meu irmão o sonho que tinha tido sobre o papa anos antes e que referi acima.

Quem tem ouvidos para ouvir ouça.

 

CONCLUSÃO

 

Vimos na segunda parte deste capítulo como surgiu este pequeno Estado ‘Cidade do Vaticano’, que exerce um enorme poder político sobre a face da terra [66]. Para resumir muito brevemente a história do papado podemos dizer quanto segue. Se começou a dizer que a Igreja de Roma tinha sido fundada por Pedro e que ele tinha cumprido aí um longo episcopado, depois - fazendo alavanca sobre palavras de Jesus a Pedro - que Pedro tinha sido constituído príncipe dos apóstolos e chefe da Igreja e que à sua morte tinha deixado o seu ofício ao bispo de Roma, seu sucessor. Quando depois a Igreja começou a receber honras e privilégios do Imperador romano o bispo de Roma, apoiado pelo Imperador, reforçou notavelmente a sua posição até se tornar uma autoridade política à cabeça de um reino terreno e a considerar-se o chefe da Igreja universal. Acrescentemos a tudo isso as fraudes de todo o género, os enganos, as intrigas dos bispos de Roma e as alianças com os príncipes e os reis que se sucederam no curso dos séculos, e as guerras sangrentas excitadas pelos papas para salvaguardar os seus interesses e estender o seu poder e eis o papado de hoje. Muito tempo nos seria preciso para contar de maneira aprofundada a longa história do papado; por isso quis citar apenas os factos principais. Mas mesmo sem tê-la contada toda estou convencido que bem compreendestes como ele se funda sobre a arrogância, sobre a mentira e sobre prepotências e violências de todo o género perpetradas pelos bispos de Roma. Foi fundado sobre o erro e construído com o sangue, a violência e a fraude, e continua a subsistir mediante a sua arrogância e a sua maldade. Mas vem o dia que Deus lhe fará cair sobre a sua cabeça toda a violência e a maldade por ele perpetrada contra a humanidade em todos os tempos. Sim porque o papado fez mal tanto materialmente como espiritualmente a muita gente; derramou e fez derramar muito sangue; perpetrou crueldades de todo o género sem fim contra os homens; e seduções também. Deus viu e ouviu tudo, Deus vê e ouve tudo; e ele a seu tempo fará justiça de todo o sangue dos mártires de Jesus que ele derramou e fez darramar; ele fará justiça de todas as mentiras que ele pregou usando-se do seu santo nome.

Com o papado não deve ser feita nenhuma aliança. A única coisa que vale a pena fazer em relação a ele é desmascará-lo, isto é, demonstrar como ele não é parte integrante da Igreja de Cristo, que não está - como ao invés querem fazer crer os Católicos - na base da Igreja, porque ele se opõe à Igreja de Deus, coluna e base da verdade, da mesma maneira em que se opõe o reino do diabo. Mas o faz de uma maneira particular, com sofismas todos particulares. Certamente o papado faz parte do reino do diabo; mas infelizmente muitos não se apercebem disso, porque na sua fronte traz a expressão ‘santa igreja católica apostólica romana’. Mas vem aquele dia em que todos, do primeiro ao último verão o que é verdadeiramente o papado.

 

 

NOTAS

 

[1] Anteriormente ao concílio Vaticano I muitos Católicos negavam a infalibilidade papal. Por exemplo, nos Estados Unidos antes do Vaticano I tinha sido publicado o livro Controversial Catechism que trazia o Imprimatur do arcebispo de New York, Hughes, em que havia a seguinte pergunta com a relativa resposta: ‘Pergunta: os católicos não devem crer que o papa é infalível? Resposta: é uma invenção dos protestantes, e não um dogma da fé católica; nenhuma sua decisão pode ser vinculativa sob pena de heresia, a menos que seja aceite e aplicada pelo corpo doutrinal, isto é, pelos bispos da Igreja’. Esta pergunta foi suprimida do Catechism na posterior edição. A razão é evidente, depois do Vaticano I a infalibilidade papal não era mais uma invenção dos Protestantes mas um dogma católico a aceitar por força, sob pena de excomunhão.

 

[2] A propósito da votação deste dogma deve ser dito que na véspera da votação cento e cinquenta e cinco bispos da oposição deixaram Roma em sinal de protesto, depois de terem subscrito uma declaração em que afirmavam que, em sinal de respeito pelo papa, preferiam abster-se da votação pública do que pronunciar diante do papa o non placet. Na votação depois entre os 535 chamados padres presentes 533 votaram a favor da aprovação do dogma enquanto 2 (o cardeal americano Kenrick e o italiano Guidi) disseram non placet.

 

[3] As declarações feitas por um papa ex-catedra, sobre as quais no âmbito católico há unanimidade, são raras. A definição da imaculada conceição, feita por Pio IX em 1854, foi por exemplo uma delas, uma outra foi a da assunção de Maria ao céu feita por Pio XII em 1950 com o relativo anátema contra quem a negar. Porém ainda não foi formulado um elenco de todas as declarações ex-catedra feitas pelos papas até agora. Como também não foi invocada a infalibilidade sobre declarações que concernem ao sacerdócio das mulheres, ao aborto, etc. De maneira que nem os Católicos sabem com certeza quais são as declarações dos seus papas em que devem crer como infalíveis. Mas aliás este comportamento do papado é compreensível; não lhe convém de facto fazer uma coisa que lhe impediria no futuro de desmentir alguma das suas actuais tomadas de posição e de introduzir outros dogmas. Sabe-se de facto que na tradição católica com o passar do tempo entram a fazer parte novas leis e novos dogmas papais que vão desmentir as de papas anteriores. Em outras palavras, o facto de muito raramente se ouvir dizer que o papa falou ex-catedra ou de esta ou aquela outra declaração foi feita ex-catedra demonstra que os próprios papas se dão conta do perigo que correm ao falar ex-catedra. João XXIII (1958-1963) teve a afirmar um dia: ‘Não sou infalível. Seria infalível somente se falasse ex catedra, coisa que não tenho intenção de fazer’. Esta sua afirmação que parece uma piada na realidade faz perceber o porquê de os papas não recorrerem com frequência a falar ex catedra.

 

[4] Ele tem o seu pessoal confessor, mas particularidade da sua confissão é que o confessor no fim recebe a benção do papa. ‘Sabe-se que ordinariamente às Sextas-feiras ao anoitecer o confessor do Papa se dirige ao Vaticano para ouvir a confissão dele como a de todo o fiel. Única diferença é que, depois da confissão, o confessor recebe a benção do Papa’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 209).

 

[5] Libério tinha sido enviado para o exílio pelo imperador Constâncio porque se tinha oposto à deposição de Atanásio, ele sustentava de facto juntamente com Atanásio a idêntica natureza entre o Pai e o Filho (Ário ao invés sustentava que o Filho tinha sido criado e por isso não era da mesma substância e natureza do Pai). Mas enquanto estava no exílio escreveu cartas em que aderia à doutrina de Ário e excomungava Atanásio, a fim de cativar a amizade do imperador e poder voltar assim para Roma. Jerónimo escreveu: ‘Libério vencido pelo tédio do exílio, subscrevendo à maldade herética, entrou vitorioso em Roma’. Também Hilário e Atanásio censuraram a Libério a subscrição da heresia ariana.

 

[6] O termo ortodoxo deriva das palavras gregas orthos que significa ‘correcto’ ou ‘direito’, e doxa que significa ‘opinião’ ou ‘honra’ e é usado para definir quem ensina a recta doutrina. Quando porém este termo é usado em referência aos Ortodoxos gregos é necessário dizer que é usado impropriamente porque a igreja ortodoxa greco-bizantina, de que dizem fazer parte, não possui uma doutrina recta.

 

[7] Por esta razão este papa definiu heréticos os Franciscanos e os funcionários civis foram obrigados a enviá-los para a fogueira sob pena de serem tratados eles mesmos como heréticos.

 

[8] Afirmação esta última que se desencontra com esta presente no decreto de Graciano: ‘Ninguém pode julgar os pecados do papa, porque ele pode julgar os homens, mas não ser julgado por algum, a menos que seja achado culpado de heresia’ (Decretum Gratiani, Divis. 1 Dist. XI c. 6), e com o que disseram outros teólogos papistas do passado. Pedro D’Ailly (m. 1420) por exemplo afirmou explicitamente que o papa pode errar em matéria de fé, como fez Pedro quando Paulo lhe resistiu na cara; e Gerson (m. 1429) disse que o papa pode errar, como Pedro.

 

[9] A primeira canonização, de que existe ainda o documento pontifício, é a de Udalrico, bispo de Augusta, executada por João XV em 993 durante o Sínodo celebrado no Latrão. Segundo a Enciclopédia Católica o mérito de ter dirigido o procedimento canónico da canonização à austeridade e segurança que ainda vigora pertence a Urbano VIII (1623-1644) o qual fez publicar num pequeno volume todos os decretos e os sucessivos esclarecimentos emanados durante o seu longo governo em matéria de canonização, que tem de título Urbani VIII Pont. O. M. Decreta servanda in canonizatione et beatificatione sanctorum.

 

[10] A propósito da cerimónia de coroação deve ser dito que antigamente era circundada de uma pompa e um luxo extraordinário. Com João Paulo I (1978) porém desapareceu uma parte da pompa e do luxo que a caracterizava. Foram com efeito banidos alguns luxos: nada de trirregno, nada de cadeira gestatória, nada de guardas nobres. Só o altar branco onde é celebrada uma missa pela sua consagração; depois a ‘profissão de obediência’ dos cardeais que desfilam diante dele, com o beijo do anel e o abraço. João Paulo II se adequou às inovações do seu predecessor.

 

[11] Eis alguns exemplos; da morte de João XXI (1276-1277) à eleição de Nicolau III (1277-1280) a sede esteve vacante por seis meses; da morte de Nicolau IV (1288-1292) à eleição de Celestino V (1294) a sede esteve vacante por vinte e sete meses; da morte de Clemente V (1305-1314) à eleição de João XXII (1316-1334) a sede esteve vacante por cerca de dois anos.

 

[12] Cuidai que com isto não se quer dizer que o papado não tenha surgido por querer de Deus porque sendo um Estado como tantos outros foi Deus que o fez surgir: sobre isto não há a mínima dúvida. Mas queremos apenas dizer que o papado não é a Igreja que Deus edificou sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas sendo ele mesmo a pedra angular, e portanto não tem nenhum direito de dizer que as suas origens remontam a Cristo quando ele disse a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...". Portanto nós não negamos que ele seja um Estado, mas negamos da maneira mais categórica que ele seja o resultado natural, espontâneo e justo das supraditas palavras do Senhor a Simão Pedro. O papado não tem nada a ver com o Evangelho, como o joio não tem nada a ver com o trigo.

 

[13] A Vítor se opôs também Ireneu, bispo de Lião. É necessário dizer porém que o mesmo Ireneu com algumas suas palavras contribuiu para o nascimento do primado do bispo de Roma sobre toda a Igreja, com efeito ele disse: ‘Mas porque seria demasiado longo nesta obra enumerar as sucessões de todas as Igrejas, tomaremos a Igreja grandíssima e antiquíssima e a todos conhecida, a Igreja fundada e estabelecida em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Mostrando a tradição recebida dos Apóstolos e a fé anunciada aos homens que chegou até nós através das sucessões dos bispos confundamos todos aqueles que de alguma maneira, ou por enfatuação ou por vanglória ou por cegueira e por erro de pensamento, se reúnem além do que é justo. De facto com esta Igreja, em razão da sua origem mais excelente, deve necessariamente estar de acordo toda a Igreja, isto é, os fiéis que são de toda a parte - ela na qual por todos os homens sempre foi conservada a tradição que vem dos Apóstolos’ (Ireneu, Contra as heresias, Milano 1981, Livro III, pag. 218). Não obstante esta oposição recebida por Vítor, os teólogos católicos persistem em afirmar a origem divina do primado do bispo de Roma. Um escritor disse por exemplo que a supremacia do bispo de Roma naquele tempo era ‘sentida mas não definida’, um outro diz que ‘Roma desde o fim do século II se demonstra consciente de uma missão que ela cumpre com uma rectidão e uma firmeza de procedimento deveras surpreendente!’. Conversas vãs, só conversas vãs.

 

[14] Também no caso de Cipriano porém, como no de Ireneu, deve ser dito que apesar de nesta ocasião se ter oposto ao bispo de Roma, com palavras suas ele contribuiu para fazer surgir o primado do bispo de Roma sobre toda a Igreja. Porque ele sustentava que dentre todas as igrejas a de Roma tinha alguma superioridade sobre todas as outras. Por exemplo a Cornélio, falando dos cismáticos cartageneses, escreveu: ‘Depois de tudo isto, tendo criado até um pseudobispo para eles, ousam embarcar e levar à catedra de Pedro e à Igreja principal, da qual surgiu a unidade sacerdotal, cartas da parte de cismáticos e profanos’ (Carta 59, 14). Em outras passagens, de qualquer modo, Cipriano parece excluir que para ele o bispo de Roma tivesse um primado de jurisdição sobre a Igreja universal, de facto diz: ‘Nós não fazemos violência a algum, nem estabelecemos uma lei, visto que no governo da Igreja cada bispo é senhor das suas decisões, pronto a prestar contas das suas acções ao Senhor (Carta 72, 3) e ainda ‘Cada bispo é livre de exercer o seu poder como melhor crê, e não pode ser julgado por um outro, nem julgar ele próprio um outro..’.

Também Firmiliano, bispo de Cesaréia de Capadócia (de 230 a após 268), se opôs a Estevão porque não considerava válido o batismo dos heréticos. Numa sua carta a Cipriano escreveu palavras duras contra Estevão, como por exemplo: ‘Como Judas: a pérfida traição consumada impiamente contra o Salvador não pode permitir-lhe apresentar-se - nem aparentemente - como promotor dos copiosos frutos maturados pela paixão do Senhor, pela qual tem origem a libertação do mundo e dos povos. Mas deixemos, entretanto, o comportamento de Estevão, para evitar o perigo, que enquanto demoramos na lembrança da sua temeridade e insolência, demasiadamente perdure em nós a tristeza causada pelo seu inconveniente modo de agir (...) É quanto, pelo contrário, agora ousou consumar Estevão com a iniciativa de romper com vós a paz, que sempre, com amor e respeito mútuo, os seus predecessores salvaguardaram em relação a nós. Pior: denegriu os bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, como se a transmitir-lhe essas normas tivessem sido eles, que ao contrário nas suas cartas aborrecem os heréticos e nos dão admoestações, para que nos mantenhamos longe deles. Disto se pode tirar a evidente conclusão que é tradição de origem humana a que favorece os heréticos, sustentando à força que eles possuem o batismo, que não pode pertencer - e de modo completamente exclusivo - senão à Igreja (...) A este ponto, devida indignação me sobrevém defronte da evidente e tangível loucura de Estevão, sobretudo porque - enquanto anda inchado de soberba pela preeminência da sua sede episcopal e reivindica a posse da sucessão de Pedro, sobre o qual apoiam os alicerces da Igreja - não hesita em intrometer uma grande quantidade de outras pedras e de lançar assim, de fresco, o fundamento de outras igrejas, com o apetrecho do sustento da sua autoridade a existência de um batismo junto dos heréticos (..) Estevão que também se gloria de ocupar por direito de sucessão a cátedra de Pedro, de modo nenhum é estimulado por zelo na sua acção defronte aos heréticos...’ (Cipriano, Le lettere [ As cartas] , Ventimiglia 1979, pag. 494, 498-499, 510).

 

[15] Os Gnósticos (não confundir com os agnósticos que são os que dizem que Deus não se pode conhecer) que tomavam o nome da palavra grega gnosis que significa ‘conhecimento’ estavam subdivididos em diversos grupos e alcançaram a sua máxima difusão em meados do segundo século. Para eles a matéria se identificava com o mal e o espírito com o bem, pelo que Deus não podia ser o criador deste mundo material. O criador do mundo material não era para eles o Deus bom de que fala o Novo Testamento mas o Deus do Antigo Testamento, que eles chamavam demiurgo e detestavam, e que para eles era uma emanação do alto deus do gnosticismo (em outras palavras para eles o Deus do Novo Testamento era um Deus totalmente diferente daquele do Antigo). Por quanto respeita a Cristo eles afirmavam que dado que a matéria era o mal e ele era absoluto bem espiritual ele não podia revestir um corpo humano; ele não podia unir-se à matéria. Para eles portanto o Cristo entrou no corpo de Jesus apenas pelo período que mediou entre o seu batismo e o início do seu sofrimento na cruz, deixando morrer na cruz o homem Jesus. Em outras palavras para eles Jesus não era o Cristo. Para eles depois este cristo que habitou em Jesus por um pouco de tempo teria ensinado uma especial gnose ou conhecimento que ajudaria o homem a salvar-se mediante um processo intelectual. Entre os Gnósticos em Roma se difundiram muito os seguidores de um certo Marcião, natural do Ponto.

 

[16] Um escritor católico a propósito desta carta chega a dizer: ‘É o primeiro texto que na prática afirma a superioridade do bispo de Roma sobre todas as Igrejas espalhadas no mundo’.

 

[17] A esta passagem depois foram acrescentadas também a que diz: "Quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lucas 22:32) e a que diz: "Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:17).

 

[18] Os Cristãos foram perseguidos sob Nero (54-68) o qual acusou os Cristãos de Roma de ter causado o incêndio que depois destruiu parte da cidade e servindo-se deste motivo mandou matar muitos deles, entre os quais alguns queimando-os vivos. A tradição diz que foi sob o seu reinado que morreram mártires em Roma tanto o apóstolo Paulo como o apóstolo Pedro. Houveram perseguições contra os Cristãos também sob Domiciano (81-96): sob o seu império a tradição diz que João foi exilado na ilha de Patmos (onde escreveu o livro do Apocalipse). Sob Septímio Severo (193-211); sob Maximino (235-238); sob Décio (249-251) que ordenou aos Cristãos sacrificar aos deuses e muitos tendo recusado obedecer foram mortos; sob Valeriano (253-260); sob Diocleciano (284-305) que proibiu aos Cristãos reunirem-se e ordenou a destruição dos seus lugares de culto e dos Escritos sagrados, ordenou a deposição e a prisão dos bispos que persistiam em testemunhar do Evangelho. Os Cristãos foram punidos com a perda das propriedades, com o exílio, a prisão, com a execução por meio da espada ou das feras, e com trabalhos forçados.

 

[19] Foi ele - segundo quanto nos é dito -, para atender aos desejos do bispo de Roma Silvestre I, a construir (sobre o túmulo do apóstolo Pedro, dizem) a antiquíssima basílica de São Pedro aqui em Roma, basílica que depois no curso do tempo seria embelezada por reis e papas e reconstruída a partir do século dezasseis por obra de Júlio II, reconstrução que foi terminada na sua totalidade no fim do século dezoito. A Fábrica no seu conjunto tinha custado até então a soma de cerca de 46.800.000 escudos. Outras basílicas mandadas construir pelo imperador aqui em Roma são estas: a basílica de S. Paulo que teria sido mandada construir por Constantino após pedido de Silvestre I; a da Santa Cruz de Jerusalém após o de sua mãe (nesta basílica sua mãe teria colocado um pedaço da verdadeira cruz de Cristo por ela mesma achada na terra santa); e a Lateranense que presenteou com estátuas de ouro e de prata, candelabros e louça de todo o tipo.

 

[20] É dito por muitos que Constantino tornou-se um cristão. As suas obras porém não confirmam isso. Sabemos de facto que mandou matar sua mulher, um seu filho, mandou construir magníficos templos pagãos em Constantinopola, manteve o título de Pontifex Maximus (Pontífice Máximo) da religião romana e não deixou de oferecer culto ao deus sol.

 

[21] Constantino deu ao bispo de Roma também o palácio do Latrão, propriedade pessoal da imperatriz Fausta; este palácio será a morada dos papas por toda a Idade Média.

 

[22] Também sob outros imperadores os Donatistas foram perseguidos. Sucedeu então que veio a formar-se uma classe de gente que simpatizava com os Donatistas os quais foram chamados circumcellions porque vagavam em redor das cabanas dos camponeses. Estes se dedicaram a vingar-se de todos os que atacavam os Donatistas e muitos caíram suas vítimas. Os Donatistas mais moderados recusaram aliar-se com eles e aprovar as suas iníquas obras; mas outros buscaram a sua ajuda.

 

[23] Ário sustentava que Deus não foi sempre Pai porque o Filho não existiu sempre. Em outras palavras ele negava que Jesus fosse Deus da mesma maneira em que o era o seu Pai. O concílio de Nicéia além de condenar a heresia ariana decidiu que de então em diante a Páscoa devia ser celebrada na mesma data por toda a Igreja; os Orientais tiveram que aceitar assim a posição dos Romanos.

 

[24] A ingerência nos assuntos civis da cidade e nas vicissitudes políticas por parte do bispo de Roma fará exclamar em seguida Gregório Magno: ‘Quem é aqui pastor espiritual, está tão carregado de cuidados por coisas exteriores, que muitas vezes não se sabe, se ele ocupa o ofício de um pastor espiritual ou o de um Grande da terra’.

 

[25] É claro que não se pode dizer que todos os crentes de então se mostraram de acordo com os que permitiram ao imperador imiscuir-se nas coisas espirituais, como também nem todos estiveram de acordo que a Igreja se servisse da autoridade civil para converter os incrédulos e os heréticos. E isto o dizemos porque sabemos que Deus teve sempre um resíduo de homens e mulheres mesmo nos tempos mais tenebrosos que se manteve apegado à sua Palavra. Um pouco como hoje em suma; muitas igrejas se aliaram com o Estado, mas nem todos os crentes estão de acordo com aqueles que contraíram esta aliança.

 

[26] Atanásio sofreu durante a sua vida bem cinco exílios por causa da sua posição antiariana, e isto porque quando naqueles anos subia ao poder um imperador que se mostrava a favor da doutrina de Ário este fazia que aqueles bispos que se opunham a Ário fossem exilados. Demonstração esta que quando a autoridade temporal é feita entrar na Igreja e se lhe permite ditar lei em matéria de doutrina (ou em outras palavras quando a Igreja se alia com o Estado), pode obrigar a maioria de uma maneira ou de outra (em troca de favores) a aceitar também heresias porque tem a força material para fazê-lo e punir aqueles que não se quiserem submeter a ela.

 

[27] Por antipapa os teólogos papistas entendem todo o que tenha recebido o nome de pontífice e tenha exercido ou pretendido exercer as funções sem fundamento canónico. O antipapa pode ser pois um papa eleito de maneira não canónica, após a morte ou a deposição de um pontífice regular, ou um concorrente designado em condições duvidosas em frente de um papa regularmente eleito, ou ainda um intruso que com a força se tenha imposto durante o pontificado. Ora, Félix, que era também ele ariano, é considerado um antipapa mas isto não pode corresponder à verdade porque a sua eleição tinha sido regular. A razão é clara; era preciso escolher quem pôr dentre os dois na lista dos papas legítimos porque ambos não podiam lá estar tendo ocupado o ofício de bispo daquela cidade ao mesmo tempo, e se acabou por escolher o velho e excluir o novo. Há depois quem afirme, para justificar os acontecimentos, que Félix era o vigário de Libério em sua ausência. Mas também isto não é verdade porque Félix foi pelo imperador, pelo clero e pelo povo eleito verdadeiramente bispo de Roma.

 

[28] Seita que tomou o nome de um certo Mani ou Maniqueu (216 ca. - 267) proveniente da Mesopotâmia. Segundo este a alma mantinha o homem ligado ao reino da luz, mas o seu corpo o mantinha escravo do reino das trevas. A salvação acontecia com a libertação da luz existente na sua alma da escravidão da matéria do corpo. Esta libertação podia ser alcançada por meio da exposição à luz, Cristo. Entre os Maniqueus havia uma casta sacerdotal chamados os perfeitos que viviam uma vida ascética e executavam alguns ritos essenciais para a emanação da luz. Os auditores ou ouvintes tornavam-se participantes da santidade deste grupo eleito provendo as suas necessidades materiais, participando assim também na salvação. Na seita era exaltada a superioridade do celibato.

 

[29] Se tenha presente que dois anos antes, ou seja em 449, tinha havido um outro concílio convocado para Éfeso pelo imperador Teodósio II o qual simpatizava por Eutiques; este concílio, em que houveram cenas de violência, aprovou a heresia de Eutiques. Foi definido o ‘latrocínio de Éfeso’. Neste concílio participaram também os legados do bispo de Roma que foram ameaçados; ele é um exemplo que mostra de maneira clara pela enésima vez como as decisões dos concílios eram influenciadas pelos imperadores.

 

[30] Num livro de história da Igreja escrito por parte católica a propósito desta decisão tomada em Calcedónia se lê: ‘O concílio de Calcedónia não tinha intenção de negar o primado do papa, mas considerava que este primado da sede apostólica era fundado na função política de Roma capital; nisto estava o erro. Os papas fizeram sempre apoiar o princípio do seu primado na vinda de são Pedro a Roma e na sua dignidade de sucessores de Pedro’. Isto faz perceber que a cúria romana para sustentar o primado espiritual do papa se baseia principalmente na vinda de Pedro a Roma e na chamada sucessão apostólica segundo a qual Pedro teria deixado a um sucessor a sua presumida autoridade espiritual sobre toda a Igreja que teria recebido de Cristo. Ela não aceita que se diga que o primado do bispo de Roma inicialmente era inexistente porque foi o resultado natural de certas condições e certos acontecimentos históricos que se verificaram nos primeiros séculos depois de Cristo, porque isso significaria negar ‘a instalação divina’ do primado do papa.

 

[31] Nós sabemos pelas Escrituras que uma das maneiras em que Deus pune os povos é chamando exércitos estrangeiros contra eles. Pelo que estamos persuadidos que foi Deus a chamar os bárbaros contra o império Romano para abatê-lo; império que nunca se deve esquecer tinha durante séculos devastado muitas nações e cidades e massacrado muitas pessoas, e que em diferentes momentos tinha perseguido os Cristãos por causa da sua fé. "Como tu fizeste, assim se fará contigo" (Obadias 15) diz Deus.

 

[32] Os Montanistas eram os seguidores de um certo Montano e surgiram na Frígia em 135 até cerca de 160. Montano se considerava o paracleto ou advogado através do qual o Espírito Santo falava à Igreja. Ele sustentava também que o reino celeste de Cristo seria cedo estabelecido em Pepuza na Frígia e ele ocuparia um lugar preeminente nele. À morte de um dos cônjuges era proibido ao outro passar a novas núpcias, tinham que se observar muitos jejuns e comer alimentos secos. Tertuliano (160 ca. - 220 ca.), considerado um dos maiores pais da Igreja, aderiu ao montanismo.

 

[33] O termo indicava os escritos de Teodoro de Mopsuestia e Teodoreto de Ciro, e uma carta de Ibas de Edessa. Este édito na realidade contrastava o concílio de Calcedónia que tinha reconhecido ortodoxos (de recta doutrina) tanto Teodoreto como Ibas.

 

[34] Isto explica por que razão o patriarca de Constantinopola não pôde tornar-se chefe de um Estado como o bispo de Roma, porque o imperador o tinha sob controlo directo.

 

[35] A palavra iconoclasta significa literalmente ‘quebrador de ícones ou de imagens sagradas, pintadas ou esculpidas, que figuram Jesus Cristo, Maria e os santos’. São chamados iconoclastas aqueles que reprovam o culto das chamadas imagens e estátuas sagradas definindo-o idolatria e destroem as estátuas e as imagens. Estes são também chamados iconómacos ou inimigos das imagens.

 

[36] A propósito deste rei deve ser dito que pouco tempo antes tinha recebido um ‘favor’ do papa Zacarias (741-752). Tinha sucedido com efeito que o ‘mordomo do palácio’ Pepino estava em dúvida se podia ou não ir ao juramento de fidelidade feito ao seu rei Childerico III, destroná-lo e tornar-se ele mesmo soberano. Que fez então? Em 751 decidiu entregar a questão a um concílio e enviou a Roma um bispo e um abade para pedir ao papa, cuja autoridade moral e religiosa era considerada incontestável, se fosse possível o anulamento de um sagrado juramento feito a um rei. Zacarias, que naqueles dias precisava da ajuda dos Francos contra os Longobardos que ameaçavam Roma, respondeu que Pepino fosse coroado rei; em outras palavras declarou nulo um juramento para assegurar ao papado a protecção militar do rei franco. E assim Childerico III acabou num mosteiro e Pepino o Breve foi coroado por um bispo entre o fim de 751 e o início de 752. Zacarias tinha assim concedido este grande favor a Pepino. Mas Zacarias não pôde beneficiar da retribuição do rei franco porque morreu logo depois da sua coroação.

 

[37] É evidente que se de restituição à sede de Roma se podia falar para um certo número de territórios conquistados por Astolfo, certamente para muitos outros o termo restituição não se podia usar porque na realidade eram territórios que não eram de modo nenhum propriedade da igreja de Roma mas de outros. Por exemplo o Exarcado de Ravena e a Pentápole que Astolfo tinha conquistado pertenciam ao imperador. Mas Estevão apoiando-se na Doação de Constantino sentiu-se autorizado a pedir também estes não se preocupando de modo nenhum que com aquele seu gesto ele tomava posse de territórios de outros.

 

[38] Fazemos notar que entretanto se tinham apresentado em Roma alguns legados do imperador Constantino V que transmitiram a Pepino o pedido da parte do seu soberano de tornar a entrar em possessão dos territórios bizantinos por ele reconquistados. Ao que Pepino respondeu-lhe que tinha feito duas expedições a Itália para a reconquista daqueles territórios por amor de São Pedro, ao qual pertenciam, e para a salvação da sua alma. E precisou que todos os tesouros do mundo não chegariam para induzi-lo a trair a palavra dada a S. Pedro e reiterou a sua intenção de entregar todos os territórios ao papa. Por quanto respeita aos territórios entregues ao papa, além do Exarcado o Liber Pontificalis os elenca por cidades: Ravena, Rimini, Pesaro, Cesena, Catolica, Fano, Senigallia, Jesi, Forlimpopoli, Forlì, Castrocaro, Montefeltro, Arcena, Monte di Lucaro, Serra dei Conti, Castello di S. Marino, Sarsina, Urbino, Cagli, Canziano, Gubbio, Comacchio, Narni, Roma e o território circunstante.

 

[39] Gregorovius, historiador alemão, a propósito do nascimento deste Estado afirmou: ‘Com a fundação de tal estado, cessou o período da história puramente episcopal e sacerdotal e se encerrou a época mais bela e gloriosa da Igreja romana. Ela tornou-se coisa mundana e os pontífices que, contra a lei do Evangelho e das doutrinas de Cristo, associaram o sacerdócio ao principado, não poderão em seguida manter-se na pura missão de bispos apostólicos. A sua dupla natureza, contradição em si mesma, os arrastou continuamente mais para baixo, para o meio da agitação das ambiciosas artes políticas, por isso eles, por necessidade, foram levados a lutas depravadoras, a fim de se manterem na posse dos seus títulos temporais; foram obrigados a descer a guerras civis internas contra a cidade de Roma e a lutas contínuas contra os poderes políticos’ (Gregorovius, La Storia della città di Roma nel Medioevo [ A História da cidade de Roma na Idade Média] , Roma 1900, vol. I, pag. 546).

 

[40] Este Formoso quando era ainda bispo de Porto tinha sido segundo alguns o chefe, segundo outros tinha tido parte na conspiração conhecida sob o nome de conjura de Gregório o Nomenclador, conjura que tinha nada menos o objectivo de entregar Roma aos Sarracenos. Descoberta a conjura papa João VIII (872-882) excomungou Formoso e o depôs; mas o seu sucessor Marino I (882-884) o tinha reabilitado restituindo-lhe o bispado. Como papa (891-896) tinha-se feito culpado de ter renegado a casa de Spoleto invocando à traição a Itália um rei bárbaro. Por este acto tinha atraído um forte ódio da parte dos spoletinos; Estevão tinha sido eleito papa exactamente pelo partido dos spoletinos. Daqui o macabro acto de Estevão VI.

 

[41] O cardeal Barônio nos seus Anais eclesiásticos começando a falar do papado do décimo século numa espécie de prefácio afirma: ‘São coisas que superam toda a imaginação aquelas que teve que sofrer a Igreja neste século. Ninguém pode imaginar quantas indignidades, quantas torpezas, quantas deformidades, execrações, e abominações, tenha sido obrigada a sofrer a S. Sede apostólica (...) Naquela santa Sede foram intrusos monstros, pelos quais vieram males infinitos, e se realizaram sangrentas tragédias; e assim ela que era imaculada foi coberta de toda a imundícia, e denegrida com infâmia perpétua’. E foi um Católico que disse estas coisas.

 

[42] O arcebispo Genebrardo (1537-1597), adulador dos papas, na sua crónica, no ano 904 diz: ‘Pelo espaço de cerca de 150 anos, houveram 50 papas, começando por João VIII até Leão IX, que foi por Deus chamado como um novo Arão, e tornou a chamar do céu para a sede apostólica a antiga integridade; mas os papas até ele tinham inteiramente abandonado as virtudes dos maiores, e devem ser chamados antes apóstatas que apóstolos’. Aelfric, arcebispo de Canterbury, falando da situação da cúria romana no décimo século se lamenta que: ‘Naqueles dias havia um descuido horrível na ordem dos padres e dos bispos, que deviam ser as colunas da Igreja; que eles não cuidavam nem de ler a Escritura sagrada, nem de instruir discípulos para fazer deles os seus sucessores; que aqueles padres e bispos eram apegados às honras mundanas, à concupiscência e à avareza mais que os leigos, dando maus exemplos ao seu rebanho, e não ousando falar da justiça, porque eles não a amavam e não a seguiam’ (Serm. ad Sacerd. m. s. m. bibl. collect. Bened. Cantab.).

 

[43] O cardeal Barônio no ano 912 afirma: ‘Assim era então a face da Igreja romana! Oh quão horrível era ela! As cortesãs as mais infames, mas poderosas, dominavam em Roma, e a seu agrado distribuíam os bispados, trocavam os bispos; e, o que é mais horrível dizê-lo, na sede de Pedro, eram por elas introduzidos os seus amantes, falsos papas, os quais não devem ser registrados senão para a cronologia. Porque quem poderá crer que tenham sido legítimos papas, aqueles que sem alguma lei foram introduzidos por tais ímpias fêmeas? Jamais na eleição daqueles falsos papas se fala do clero que elege, ou consente ao menos na eleição: todos os cânones eram obrigados a calar-se; os decretos dos papas anteriores eram sufocados, as antigas tradições proscritas, os costumes, confirmados com o uso na eleição dos papas, e os sagrados ritos inteiramente tirados. A libido tinha tomado o lugar de tudo...’. Assim sendo, queremos perguntar a este ponto aos defensores do papado: ‘Como podeis afirmar que a sucessão apostólica, de que vós tanto falais nunca foi interrompida?’.

 

[44] E por causa desta lei muitas mulheres, vendo-se separadas à força dos seus maridos, pela dor se suicidaram. Um grupo de bispos que se reuniu em Pavia em 1076 excomungou o papa por ter separado os maridos das mulheres.

 

[45] Pelo que respeita à tão debatida questão das investiduras o papado chegará a um acordo com o imperador em 1122 em Worms. No acordo estabelecia-se que a investidura do poder espiritual do bispo com o pastoral e o anel cabia exclusivamente ao papa; ao imperador cabia antes a investidura feudal. Na Alemanha esta última precedia a consagração episcopal, ao contrário de em Itália, onde o bispo devia ser primeiro consagrado. Além disso era consentido ao imperador estar presente na eleição episcopal.

 

[46] Os comportamentos de Gregório VII e de Inocêncio III são uma manifestação da arrogância dos papas que pensavam ter o direito divino de depor os reis da terra quando lhes apetecia e de ‘desligar’ os seus súbditos do juramento de fidelidade para com eles suscitando assim tumultos nas suas nações. Este modo de considerar os seus comportamentos foi porém condenado por Pio IX que no seu Sílabo de 1864 declarou que é errado afirmar que ‘Os Pontífices Romanos (...) ultrapassaram os limites do seu poder, usurpando os direitos dos Príncipes...’ (XXIII). Também ele foi arrogante como o foram os seus predecessores; basta considerar que foi ele a fazer proclamar o dogma da infalibilidade papal.

 

[47] A propósito das meretrizes presentes em Roma deve ser dito que Leão se mostrou muito tolerante para com elas, ou melhor complacente, e isto ainda por amor ao dinheiro. Eis, com efeito, o que declarou este papa: ‘Nós, de nosso pleno conhecimento, impulso, e plenitude de poder, decretamos que, para sustentar encargos assim feitos, todos e particulares bens, e espólios dos Curiais e das meretrizes - ganhos ilicitamente, vivendo na nossa Roma, fora do vínculo matrimonial, e que morrem sem faculdade de poder fazer testamento em qualquer habitação, sejam destinados para o mesmo mosteiro, e para a sua Congregação, e para as Freiras pro tempore ivi existentes; e, em virtude da supra-referida autoridade, moto e ciência, aplicamos, e incorporamos ditos bens, e decretamos aplicados e incorporados, agora e no futuro, excluído qualquer caso em contrário que possa acontecer. Porém, se esses Curiais e mulheres desonestas quiserem deixar, legar, ou doar ao supradito mosteiro, convento, e monjas, para suprir aos seus encargos, a quarta, ou a quinta parte dos seus bens, sejam móveis, ou imóveis, ou outro qualquer, nós então concedemos-lhes faculdade de poder fazer testamentos acerca dos outros seus bens de qualquer qualidade, quantidade e valor que sejam, e dispor deles livremente e licitamente desde agora, e pelo futuro, e isto pela supra-referida autoridade, moto, ciência e plenitude de poder’ (Bula Salvator noster).

 

[48] Eis o que dirá Lutero: ‘Eu fui um bom monge e observei a disciplina da minha ordem tão rigorosamente a poder dizer que, se alguma vez um monge pudesse ir para o céu pela sua disciplina monástica, esse era eu. Todos os frades do mosteiro o podem confirmar (...) Todavia a minha consciência não me dava a certeza, antes, duvidava continuamente e me dizia. ‘Isto não o fiz bem. Não estava suficientemente contrito. Isto não o confessei’. Quanto mais me esforçava para curar com tradições humanas esta minha consciência duvidosa, incerta e perturbada, tanto mais a encontrava, de dia para dia, mais duvidosa, mais fraca e mais perturbada’. E ainda: ‘Fui monge por vinte anos e me mortifiquei a tal ponto com orações, jejuns, vigílias, com não atribuir alguma importância ao inverno, ao frio, que por si mesmo poderia ter-me feito morrer; me torturei a tal ponto que por nada do mundo queria recomeçar, ainda que o pudesse. Se tivesse ficado no convento, para mim teria chegado bem cedo o fim. Durante os quinze anos que fui monge, afadigava-me a dizer a missa todos os dias, me extenuava com os jejuns, as vigílias, as orações e com outras práticas extremamente penosas. Pelo mundo todas estas práticas exteriores dos hebreus, dos turcos, dos papistas são observadas com a maior seriedade, e também eu sob o papismo bem me guardava de rir ou de escarnecer delas. Pois bem, quem o creria? Tudo isto é trabalho perdido... Quem creria que tudo isso era uma perda de tempo e que um dia chegaria a dizer-me: Os meus vinte anos de vida monástica foram perdidos? Não estive no convento senão para perder a minha alma, a minha vida eterna, a saúde física... Com a abstinência nós pensávamos, nós queríamos nos tornar tão merecedores a igualar o preço do sangue de Cristo e eu também na minha loucura nisto acreditava. Não sabia, então, que Deus queria que eu cuidasse do meu corpo e que não confiasse na temperança. Eu me teria morto com os jejuns, com as vigílias e a resistência ao frio. No coração do inverno não trazia senão um hábito ligeiro, quase gelava, tão louco e tolo que era. Por que é que no convento me submeti às austeridades mais duras? Por que é que afligi o corpo com os jejuns, as vigílias, o frio? Porque eu procurava chegar à certeza que estas obras me obtinham o perdão dos pecados’.

 

[49] Vos recordo que uma parte do dinheiro arrecadado com a venda das indulgências ia para as caixas papais e serviam para a reconstrução da basílica de São Pedro. Leão X tinha com efeito promulgado em 1515 uma indulgência com o objectivo de reconstruir em Roma a basílica de São Pedro. Ao arcebispo de Mogúncia, Alberto de Brandeburgo, foi confiada a pregação de tal indulgência por uma parte da Alemanha. E Alberto delegou ao dominicano Tetzel a tarefa de pregar a indulgência.

 

[50] Eis algumas das teses que testificam isso: 26) O papa faz muito bem, quando concede a remissão às almas não pelo poder das chaves (que não tem), mas em modo de sufrágio. 27) Pregam o homem os que dizem: ‘no momento em que a moeda soa ao cair na caixa uma alma voa directamente para fora (do purgatório)’; 28) Aquilo que é certo, é que quando uma moeda soa na caixa, pode aumentar o ganho e a avareza; mas o sufrágio da Igreja depende só do beneplácito de Deus; 47) Deve-se ensinar aos cristãos que a compra das indulgências é matéria de livre escolha e não de mandamento; 49) Deve-se ensinar aos cristãos que os perdões do papa são úteis se não confiarem neles, mas que são enormemente prejudiciais quando por causa deles se perde o temor de Deus; 50) Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa conhecesse as extorsões praticadas pelos pregadores de indulgências, ele preferiria que a basílica de São Pedro fosse reduzida a cinzas a construí-la com a pele, a carne e os ossos das suas ovelhas; 54) Ofende-se a Palavra de Deus, quando, numa mesma pregação se dedica às indulgências um tempo igual ou maior do que a ela; 67) As indulgências, que os pregadores proclamam como as maiores graças, se percebe que são verdadeiramente tais quanto ao ganho que promovem; 81) Esta escandalosa pregação das indulgências faz com que não seja fácil nem mesmo a homens doutos, defender a reverência devida ao papa das calúnias, ou se se preferir, das subtis objecções dos leigos; 86) Por que é que o papa, cujas riquezas são hoje mais crassas do que as dos mais ricos Crassos não constrói uma só basílica de São Pedro com o seu dinheiro, em vez de fazê-lo com o dos pobres fiéis?

De qualquer modo, é necessário reconhecer que as teses de Lutero, tomadas e vistas na sua globalidade, constituiram um ataque contra o papado e contra o seu poder de conceder indulgências, e disso se aperceberam logo os teólogos papistas do tempo e Leão X que procuraram logo travá-lo porque viam nas suas ideias algo que podia levar o povo a desprezar as indulgências e a pôr-se contra o papado.

 

[51] Por exemplo Lutero afirmava que o pão e o vinho usados na santa ceia eram verdadeiramente o corpo e o sangue de Jesus Cristo (doutrina que é denominada consubstanciação), enquanto Calvino negava isso: uma outra diferença doutrinal entre os dois reformadores é a sobre as imagens, Lutero as admitia tanto é verdade que no seu Pequeno Catecismo no comentário aos dez mandamentos ele exclui da lista dos mandamentos o segundo mandamento (a diferença com a lista dos mandamentos dos Católicos é que o terceiro mandamento é ‘Lembra-te de santificar o dia do Senhor’ e o sexto ‘Não cometerás adultério’, o nono ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo’ e o décimo ‘não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu gado, nem alguma coisa que lhe pertença’) enquanto Calvino não aceitava as imagens e as esculturas e de facto no seu Catecismo no comentário aos dez mandamentos se encontra o segundo mandamento assim como Deus o deu.

 

[52] Por esta posição a dos Anabatistas foi denominada ‘Reforma radical’, para contrapô-la à propugnada pelos Luteranos e Calvinistas denominada ‘Reforma clássica’. Com efeito, os Anabatistas em diversas coisas, à diferença dos Luteranos e dos Calvinistas, se mostraram mais apegados à Palavra de Deus. É um dado de facto. E por este seu apegamento à Palavra de Deus sobre aqueles pontos sobre os quais os outros reformadores antes preferiram o compromisso serão perseguidos até por Lutero e Zwingli (1484-1531), para os quais a Igreja devia servir-se da força para levar avante a Reforma e protegê-la.

 

[53] Eis a origem deste apelativo. Na Dieta (reunião de Estado) de Spira (Alemanha) de 1526 os príncipes que tinham aceitado a Reforma obtiveram que até ser convocado um concílio o príncipe de cada estado era livre de seguir aquela que considerava a justa fé. Mas na Dieta de Spira de 1529 este direito foi-lhes negado porque foi reconhecida única fé legalmente reconhecida só a católica romana. Alguns príncipes alemães então protestaram e foram por isso chamados protestantes. Apelativo que desde aquele momento será dado a todos os que se oporão à igreja católica romana por aceitarem a doutrina que o homem é justificado só pela fé.

 

[54] Eis como Gioacchino Ventura, um prelado católico francês, se exprimiu numa carta datada de 12 de Junho de 1849 a respeito daqueles trágicos acontecimentos causados pelo recurso à ajuda francesa por parte de Pio IX: ‘Caro amigo e irmão. Vos escrevo com as lágrimas nos olhos, e o coração despedaçado pela dor. Enquanto escrevo estas linhas, os soldados franceses bombardeiam Roma, destruindo os seus monumentos, matam com a metralha os seus cidadãos, e o sangue escorre em torrentes. Ruínas se acumulam sobre ruínas, e Deus sabe qual será o fim desta terrível luta. (...) O povo vê que os Franceses em nome do papa fazem escorrer o sangue romano e destroem a sua bela cidade. O povo vê que foi o papa que soltou quatro potências armadas de todos os meios de destruição contra o povo romano, como se soltam os mastins contra uma besta feroz; e, vendo tais coisas, ele não ouve mais nada e se levanta contra o papa e contra a Igreja em nome da qual o papa proclama ser seu dever readquirir pela força o domínio temporal’ (...) Ah! meu caro amigo, a ideia de um bispo que faz metralhar os seus diocesanos, de um pastor que faz degolar as suas ovelhas, de um pai que manda sicários aos seus filhos, de um papa que quer reinar e impor-se a três milhões de Cristãos por meio da força, que quer restabelecer o seu trono sobre as ruínas, sobre os cadáveres e sobre o sangue; esta ideia, digo, é tão estranha, tão absurda, tão escandalosa, tão horrível, tão contrária ao espírito e à letra do Evangelho, que não há consciência que não sinta repugnância, não há fé que possa resistir a ela, não há coração que não brama, não há língua que não se sinta empurrada a maldizer, a blasfemar! era mil vezes melhor perder todo o temporal e o mundo inteiro se fosse preciso, do que dar um tal escândalo ao povo (...) É provável que Roma sucumba sob o ataque das armas francesas: como de facto resistir à França? É possível que o papa reentre em Roma trazendo na mão a espada em vez da cruz, precedido pelos soldados e seguido do carnífice, como se Roma fosse Meca e o Evangelho o Corão. Mas ele não reinará mais sobre o coração dos Romanos; sob este aspecto o seu reino acabou, acabou para sempre; ele não será mais papa senão sobre um pequeno número de fiéis...’. Ventura, por esta sua carta, da qual citei apenas poucas passagens, foi obrigado a estar no exílio em Montpelier e depois em Paris e a perder o chapéu cardinalício que lhe tinha sido prometido.

 

[55] Vos faço notar que esta humilhação Deus a infligiu ao papa precisamente no ano em que ele se fez declarar infalível ex-catedra: em verdade "Deus resiste aos soberbos" (1 Ped. 5:5).

 

[56] Aquilo que era chamado o Estado pontifício era uma área de cerca de 41.600 quilómetros quadrados com cerca de 3 milhões de habitantes. É claro que vindo-lhe a faltar este Estado vieram a faltar ao papa também muitos recursos financeiros. O papa recusou todos os subsídios lhe propostos decidindo apoiar-se no Óbolo de S. Pedro. A igreja católica fez então distribuir às suas paróquias no mundo, cartolinas postais com a figura do papa deitado numa cama de palha numa prisão subterrânea. E isto para estimular os Católicos a dar ofertas ao papa prisioneiro dos ‘malvados italianos’. E muitos creram que o papa vivesse na mais profunda miséria e uma grande quantidade de pfennings, pennies, xelins, ducados, táleres, pesos e dólares novamente se derramaram nas caixas do Vaticano permitindo-lhe suprir as suas despesas.

 

[57] O partido fascista de Benito Mussolini chegou ao poder com a ajuda do Vaticano. Este, com efeito, tinha impedido de todas as maneiras que o Partido Popular fundado por Luigi Sturzo (um padre católico) em 1919, partido que tinha no parlamento cerca de cem deputados e que era antifascista, se aliá-se com os socialistas de maneira a formar um governo antifascista que impedisse a subida ao poder do fascismo. Além disso o Vaticano numa circular de outubro de 1922 convidava os bispos e os padres a permanecer neutrais nas lutas políticas internas, o que favoreceu Mussolini. A propósito de Luigi Sturzo deve ser dito que foi obrigado pelo Vaticano a entregar a demissão de secretário político do Partido Popular e pouco depois a emigrar de Itália.

 

[58] Na residência de Castel Gandolfo, Wojtyla, com o dinheiro dos polacos da América, mandou construir lá uma piscina.

 

[59] Durante as negociações, um alto prelado, que se ocupava das finanças vaticanas, disse a um seu confrade: ‘Desta vez é preciso que a Itália pague caro as indulgências’. Os meios financeiros que o Estado italiano deu ao Vaticano constituíram o fundamento sobre o qual foi construído o império financeiro que o Vaticano constitui hoje. No próprio dia em que o acordo com Benito Mussolini foi ratificado Pio XI criou uma nova agência financeira, a Administração Especial da Santa Sé e nomeou dela seu director e manager Bernardino Nogara. Este aceitou a proposta do papa porque o papa satisfez as suas exigências entre as quais estavam estas: que todos os investimentos que ele escolhesse fazer fossem totalmente e completamente livres de quaisquer considerações religiosas ou doutrinais; que ele fosse livre de investir os fundos do Vaticano em qualquer sítio do mundo. E assim Nogara se pôs em movimento. Martin Malachi, Jesuíta ex-professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, no seu livro Rich Church, Poor Church (Igreja Rica, Igreja Pobre) editado em 1984, diz: ‘Fiel aos seus planos iniciais, as primeiras maiores aquisições de Nogara em Itália foram actuadas no ramo do gás, dos têxteis, na construção pública e privada, no aço, na decoração, nos hóteis, em produtos mineiros e metalúrgicos, produtos da agricultura, energia eléctrica, armas, produtos farmacêuticos, cimento, papel, madeira de construção, cerâmica, pasta, engenharia, caminhos-de-ferro, navios de passageiros, telefones, telecomunicações e bancos’ (pag. 40). Antes do rebentar da segunda guerra mundial o Vaticano adquiriu o controlo de muitas companhias e bancos tanto em Itália como no exterior e em muitas outras companhias conseguiu ter uma participação menor mas substancial. Por volta dos anos ‘30 o Vaticano possuía cerca de 3 milhões e 716.000 metros quadrados de bens imóveis em Roma, e com o tempo tornar-se-ia o maior proprietário de terra em Itália depois do próprio governo italiano. Quando Mussolini precisou de armamento para a invasão da Etiópia em 1935 uma substanciosa parte dele foi provida por uma fábrica de munições que Nogara tinha comprado em nome do Vaticano. A 27 de Junho de 1942 Pio XII, por proposta de Nogara, fundou uma nova sociedade financeira no Vaticano chamada Instituto para as Obras Religiosas (IOR). A proposta de Nogara tinha sido esta: ‘Estabelecer uma sociedade eclesiástica central para a Igreja Universal, uma sociedade dotada do status de um banco dentro do Estado soberano da Cidade do Vaticano e que tivesse a vantagem de pertencer ao papado e ao Vaticano; uma sociedade que se especializasse em investir e em negociar os fundos e os recursos das entidades eclesiásticas da Igreja inteira’ (Martin Malachi, op. cit., pag. 43). Através do IOR os vários organismos eclesiásticos estavam em condições de investir o seu dinheiro em completo segredo e isentos de impostos. (Recordamos que o IOR diversos anos atrás, quando era dirigido por Paul Marcinkus, esteve envolvido em alguns escândalos financeiros por causa de manobras financeiras ilegais por ele praticadas com a ajuda do financeiro siciliano Michele Sindona - o mandato de captura emitido contra Sindona falava ‘de provas documentais de operações irregulares efectuadas por Sindona por conta do Vaticano’ -, e de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano). Depois da segunda guerra mundial, ainda sob Nogara, o império financeiro vaticano continuou a crescer. Quando Bernardino Nogara morreu em 1958 deixou um Vaticano enormemente rico. A obra realizada por este financeiro em prol do Vaticano fez dizer ao então cardeal Spellman de New York: ‘Depois de Jesus Cristo a maior coisa que sucedeu à Igreja Católica foi Bernardino Nogara’! Mas também depois da morte de Nogara as finanças continuaram a crescer. Em meados dos anos sessenta, as agências financeiras do Vaticano controlavam metade das agências de crédito em Itália. Muitas indústrias tinham por trás dinheiro do Vaticano. O Instituto Farmacológico Serono de Roma por exemplo era de propriedade Vaticana. Este Instituto no período em que a igreja católica romana condenava a contracepção artificial (Paulo VI a condenou explicitamente com a encíclica Humanae Vitae de 1968) lançava no mercado um contraceptivo muito popular chamado Luteolas, que fez embolsar muito dinheiro ao Vaticano (isto para demonstração que quando estão no meio os seus interesses financeiros o Vaticano não tem algum temor de renegar nos factos aquilo que ensina em palavras). Em 1968, segundo quanto declarou o então ministro das Finanças Preti, a ‘Santa Sé’ possuía títulos accionários italianos num valor de cerca de cem mil milhões de liras, com um dividendo que oscilava dos três aos quatro mil milhões ano. Também no exterior o Vaticano possuía títulos accionários para muitos mil milhões. Ele tinha pacotes accionários em diversas grandes companhias internacionais entre as quais a General Motors, a Shell, Gulf Oil, General Electric, Betlehem Steel, International Business Machines (IBM), e TWA. O Vaticano possui uma forte reserva áurea nos Estados Unidos, em Forte Knox. Quanto ao valor das actuais riquezas em mão do Vaticano não há dados que permitam dizer com uma certa exactidão quanto na realidade possui em títulos, acções, bens imóveis; há um véu sobre tudo isso. De seguro há que o Vaticano é muito rico materialmente, e que se sobre as suas finanças a cúria romana mantém uma forte reserva, há várias razões para isso. Uma das quais é a de poder fazer crer ainda às pessoas que a igreja católica romana é ‘a igreja dos pobres’ e necessita continuamente do dinheiro dos seus fiéis para levar avante a sua missão no mundo.

 

[60] O Vaticano se aliou também com Hitler (que - se tenha presente - tinha subido ao poder com a ajuda do partido católico de centro), com efeito, em 1933 foi estipulada uma Concordata entre a ‘Santa Sé’ e o Reich alemão. Nesta concordata se encontram artigos semelhantes aos que se encontram na estipulada com o governo de Mussolini. Por exemplo o Vaticano no art. 32 se comprometia a proibir aos eclesiásticos e aos sacerdotes a pertença aos partidos políticos e todas as actividades em seu favor; no art. 14 de comunicar ao lugar-tenente do Reich o nome das pessoas que tinha intenção escolher como arcebispos e bispos; no art. 16 de fazer prestar aos bispos um juramento de fidelidade ao Reich; no art. 30 de fazer recitar todos os Domingos e nas festas de preceito uma oração pela prosperidade do Reich e do povo germânico. O Vaticano em troca obteve que o ensino religioso passasse a ser obrigatório nas escolas elementares, profissionais, médias e superiores ‘em conformidade com os princípios da Igreja católica’. O Vaticano foi asperamente criticado mesmo por jornais católicos que viram nesta Concordata a ‘canonização do hitlerismo’. Mas o Osservatore Romano de 27 de Julho respondeu que ‘a Santa Sé tratava com os Estados enquanto tais, para assegurar os direitos e a liberdade da Igreja, prescindindo de toda a consideração e apreciação de outra natureza’. Estas palavras fazem claramente compreender que a igreja católica está disposta a aliar-se com o governo de qualquer nação, não importa se democrático ou ditatorial, para salvaguardar os seus próprios interesses. E interesses o Vaticano tinha muitos a defender também na Alemanha aos dias de Hitler. Eis por que a chamada santa Sé, apesar de Hitler a seguir infringir a Concordata perseguindo diversos prelados católicos e organizações católicas, nunca condenou o hitlerismo pois um semelhante comportamento significaria chegar à rotura com o Führer coisa que ao papa metia medo porque significaria consequentemente comprometer os seus interesses na Alemanha. E ainda esta é a razão pela qual o papa (Pio XII) perante o o extermínio dos Hebreus nunca exprimiu uma palavra de solidariedade para com os Hebreus (como se está habituado a ouvir que faz hoje quando em alguma guerra são perpetrados os chamados crimes contra a humanidade) que eram levados às dezenas de milhares para os campos de concentração nazistas e ali exterminados nas câmeras de gás, porque a sua preocupação era a de salvaguardar os interesses do Vaticano na Alemanha, e uma sua palavra de condenação contra o extermínio ordenado por Hitler comprometeria aqueles interesses. A respeito deste silêncio do papa durante as perseguições nazistas contra os Hebreus durante a segunda guerra mundial numa nota do livro Il manganello e l’aspersorio de Ernesto Rossi se lê: ‘O embaixador alemão junto do Vaticano e o Núncio em Berlim continuaram a manter ‘boas relações’ entre os dois governos, e os relatos sobre as atrocidades na Alemanha e na Polónia, que o Núncio junto do governo alemão enviava para Roma, ficaram nos arquivos do Vaticano. Boas relações: de facto o Embaixador alemão junto da Santa Sé, barão Ernst von Weizsäcker, ficou no Vaticano até 26 de Agosto de 1946, enquanto o último diplomata japonês o tinha deixado em Janeiro’ e ainda: ‘Depois da razia perpetrada pelas SS em Roma a 16 de Outubro de 1943, o embaixador Weizsäcker (condenado depois como criminoso de guerra, pelo tribunal de Nuremberga, a quinze anos de prisão por delitos contra a humanidade) escreveu a Keppler e a Ritter um telegrama, datado de 28 de Outubro, em que se lê: ‘Apesar de solicitado por toda a parte, o Papa não se deixou convencer a exprimir oficialmente qualquer reprovação pelas ocorridas deportações dos hebreus de Roma. Embora sabendo que tal sua atitude nesta circunstância virá severamente julgada pelos nossos inimigos, e será explorada pelos ambientes protestantes dos países anglo-saxónicos na sua propaganda contra o catolicismo, ele se comportou, nesta delicada circunstância, de modo a não perturbar minimamente as relações com o governo alemão e com ambientes alemães de Roma’. O nazismo será claramente condenado pelo papa só depois da rendição incondicional da Alemanha; quando já o Vaticano não tinha nada a temer dos nazistas.

 

[61] Benito Mussolini, mediante estes pactos Lateranenses, ganhou a estima e o favor da cúria romana e dos Católicos romanos que não o deixaram de manifestar-lhe a pouco mais de um mês de distância da assinatura dos Pactos nas ‘eleições plebiscitárias’. Cardeais e bispos desceram ao terreno incitando abertamente os Católicos a dar o seu voto de aprovação a Mussolini. O plebiscito de 24 Março deu 8.506.676 ‘sim’ sobre 8.650.470 votantes. Além disso deve ser dito que Mussolini teve o apoio da cúria romana quando quis conquistar a Etiópia. Dentre as mensagens dadas por prelados papais aos Católicos em favor daquela guerra reportamos apenas as seguintes. A 28 de Outubro de 1935 o cardeal Schuster de Milão disse aos Católicos reunidos na catedral de Milão: ‘Cooperemos com Deus nesta missão nacional e católica de bem, sobretudo neste momento em que, nos campos da Etiópia, o estandarte da Itália leva o triunfo da Cruz de Cristo, quebra as cadeias aos escravos, aplana as estradas aos missionários do Evangelho (...) Paz e protecção ao exército valoroso que, em obediência intrépida ao comando da Pátria, a preço de sangue, abre as portas da Etiópia à fé católica e à civilização romana’. A 12 de Dezembro Giorgio Maria Del Rio, arcebispo de Oristano, publicou no boletim da arquidiocese um apelo aos Católicos em que se lê entre outras coisas: ‘As populações abissínias estão num ínfimo nível religioso e moral, estão longe da verdadeira fé, da nossa religião católica, que é fonte de civilização e de progresso. Tudo o que se faz portanto para dar à Itália os meios necessários para afirmar naquelas terras a sua influência e a sua autoridade não é só em vantagem da Pátria e da civilização, mas também da religião católica. A nossa pobre mas generosa Itália, após os seus soldados, leva para Abissínia não só o pão, as estradas, a libertação da escravidão, todas as providências da civilização; mas leva ainda para lá a Cruz de Jesus Cristo, os ensinamentos e as ajudas da Religião católica, apostólica, romana, que nas mãos dos nossos missionários nunca serviu para preparar conquistas políticas’. Recordamos que na guerra da Etiópia Mussolini autorizou o emprego de gás lacrimogénio e de iperite (mais conhecido com o nome de gás-mostarda), pela artilharia e pela aviação. As vítimas entre os Etíopes foram milhares. A 5 de Maio de 1936 as tropas italianas com à cabeça Maresciallo Badoglio entraram em Addis Abeba. Regressado a Itália um mês depois, Badoglio foi recebido por Pio XI. ‘O colóquio com Pio XI se prolongou por mais de uma hora e meia, superando largamente os vinte minutos protocolares das visitas pontifícias. Pela tarde, o Legado do Papa lhe restituiu a visita no seu apartamento na via XX settembre’ (Vanna Vailati, Badoglio racconta, Torino 1955, pag. 323). Evidentemente o papa tinha ficado muito contente pela conquista da Etiópia por parte do exército italiano.

 

[62] A Conferência Episcopal Italiana, de qualquer forma, a propósito desta modificação, para tranquilizar os Católicos, disse: ‘Se depois o Protocolo adicional adverte que ‘se considera não mais em vigor o princípio... da religião católica como única religião do Estado’, podem-se compreender as razões de uma semelhante mudança que, também à luz da Declaração do Concílio sobre a liberdade religiosa, se inspira no respeito devido a todo aquele que tenha outra fé ou diferente convicção de consciência. Esta mudança nada tira aos valores da religião católica. Ela pertence desde sempre ao povo italiano no qual se largamente enraizou pela força do Evangelho, até a ser fermento da sua história, da sua civilização, da sua cultura, dos seus empenhos por uma ordenada convivência civil, por abertas relações de colaboração na Europa e no mundo, pelo progresso de todos os povos e pela paz’.

 

[63] A propósito desta ‘liberdade’ concedida aos não Católicos de professar a sua fé deve ser dito que a igreja católica foi obrigada pelas circunstâncias (tão diferentes em muitos aspectos das de séculos atrás) a lhes concedê-la porque se as circunstâncias tivessem sido outras esta ‘liberdade’ ela jamais a teria concedido. Em outras palavras ela se adaptou aos tempos, como sempre fez, mas sem renunciar com isto à tese que só ela tem o direito de ser completamente livre de divulgar a sua doutrina porque só ela é a depositária da verdade. Para confirmação que na realidade a igreja católica mesmo quando dá a outros liberdade religiosa o faz com desgosto e hipocritamente eis quanto se lê num artigo da Civiltà cattolica: ‘Ora a Igreja católica, convencida pelas suas divinas prerrogativas de ser a única verdadeira Igreja, deve reclamar para si somente o direito à liberdade, porque unicamente à verdade, nunca ao erro, este pode competir; quanto às outras religiões ela não empunhará a espada, mas exigirá que com meios legítimos dignos da pessoa humana, não lhes seja consentido difundir falsas doutrinas. Por conseguinte num estado católico, em que a maioria é católica, a Igreja pedirá que ao erro não seja dada existência legal e que, se existem minorias de religião diferente, estas tenham só uma existência de facto, sem a possibilidade de divulgar as suas crenças... em alguns países depois, os católicos serão obrigados a pedir a plena liberdade religiosa para todos, resignados de poder conviver, lá onde só eles teriam o direito de viver. Neste caso a Igreja não renuncia à sua tese, que soa como a mais imperativa das leis, mas se adapta às hipóteses, isto é, às condições de facto, das quais a sua vida concreta não pode prescindir... A Igreja não pode ruborizar-se desta sua intransigência, assim como a afirma no princípio e assim como a aplica na prática’ (F. Cavalli, S. J. ‘As condições dos protestantes em Espanha’ em Civiltà Cattolica, 3 de Abril de 1948). Traduzido na prática isto significa que se em Itália ou em Portugal ou no Brasil ou em outra qualquer nação subisse ao poder um ditador como Hitler ou Mussolini a igreja católica se aliaria com ele e pediria logo que aos Protestantes fosse tirada (ou pelo menos reduzida) a liberdade de professar a sua fé e de divulgar a Palavra de Deus - coisa que julgamos não lhe seria recusada pelo ditador porque o papa sabe como persuadir qualquer ditador a conceder-lhe favores - e por isso voltariam as perseguições de outrora.

 

[64] Quero fazer presente que precisamente naquele mesmo ano Deus visitou a Argentina porque houve um grande avivamento naquela nação. Naquela ocasião Deus se usou de Tommy Hicks um irmão americano. No The Christian Century de Julho de 1954 se lêem a propósito das reuniões tidas por este irmão em Buenos Aires as seguintes coisas: ‘Hicks ora por eles. Ele grita: ‘Satanás, deixa-os ir, sai deles, deixa-os ir’. De repente um histerismo de massa parece atingir cada um. Os paralíticos se movem e começam a andar. As mães gritam com gratidão enquanto os pequenos filhos andam. O ar da noite é perturbado por milhares de gritos de ‘Te agradeço, Jesus’, ‘Glória, glória, glória’, ‘Amen, amen’. ‘Aleluia’. As lágrimas descem pelas faces de muitos. As pequenas crianças, curadas, correm para Hicks para beijá-lo. As bengalas e as muletas são agitadas no ar para significar que elas não servem mais. Um grita ‘Posso ver’ e um outro ‘Posso ouvir’.... Ministros com experiência e missionários de muitas nações dizem que nunca viram nada de semelhante’.

 

[65] Karol Wojtyla nasceu na Polónia em Wadovice-Cracóvia a 18 de Maio de 1920. Foi eleito papa a 16 de Outubro de 1978. É muito devoto a Maria e promoveu altamente o culto dela. Viajou muito por todo o mundo e onde quer que tenha ido se ajuntaram centenas de milhar de pessoas para vê-lo e ouvi-lo. Ele diz que as viagens as faz ‘para anunciar o Evangelho... para confirmar os irmãos na fé... para consolar a Igreja... para encontrar o homem’. Financiou o movimento polaco de Solidarnosh fazendo-lhe chegar muito dinheiro para levar avante o protesto contra o regime comunista polaco de então. Adora nadar e esquiar. Segundo os actuais elencos do Vaticano João Paulo II resulta ser o 264-ésimo papa. Mas é preciso dizer que sobre este número de papas entre os estudiosos e os teólogos católicos não há de maneira nenhuma unanimidade por causa de fontes históricas contraditórias e de algumas questões controversas. Por exemplo actualmente do elenco dos papas está omisso o de um Estevão eleito papa em 752 entre Zacarias (741-752) e Estevão II (752-757), porque este morreu três dias depois da sua eleição sem ter sido consagrado. O que constitui uma evidente contradição porque no mesmo elenco há papas que morreram sem terem sido coroados. Além disso há incertezas sobre o número dos antipapas (os papas ilegítimos); por exemplo são ainda reconhecidos 37 deles mas na realidade foram 39 porque não estão incluídos Clemente VIII (1423-1429) e Bento XIV (1425-1430); além disso há alguns considerados antipapas que porém receberam uma eleição regular. Depois permanecem as seguintes fortes dúvidas, Leão VIII (963-965) é colocado entre os papas mas deveria ser antipapa até à morte de João XII (955-964), como também Bento V (964-966) que é colocado entre os papas legítimos deveria ser considerado antipapa até à morte de Leão VIII. Como se pode bem ver resulta do presente elenco que Leão VIII foi papa legítimo junto com João XII por um certo tempo e que Bento V foi papa legítimo por um certo tempo contemporaneamente a Leão VIII. Além de tudo isto há a dúvida da tríplice eleição de Bento IX; no elenco dos papas este é feito reinar por três vezes (1032-1044: 1045; 1047-1048) pelo que se deveriam considerar antipapas tanto Silvestre III (1045) como Dámaso II que pontificou em 1048 (colocados no elenco dos papas) se se considerassem ilegais as suas deposições. Como podeis ver os Católicos não estão seguros nem sequer sobre o número dos seus papas porque não sabem dizer com exactidão quem foram todos os antipapas; há antipapas que alguns reputam verdadeiros papas, e papas que outros reputam antipapas. Que confusão há sobre até a sua chamada sucessão apostólica!

 

[66] O Vaticano é um pequeno Estado de cerca de 0,44 quilómetros quadrados (ainda mais pequeno que o Liechtenstein, o Mónaco e San Marino); se compõe de cinquenta edifícios, seis basílicas além da basílica de São Pedro, alguns cemitérios, os Museus e a Biblioteca, e hospeda cerca de dez mil quartos, átrios e galerias. Possui uma estação ferroviária, um heliporto donde levanta voo o helicóptero que deve levar o papa ao aeroporto de Fiumicino ou Ciampino ou à sua vila de Castel Gandolfo, alguns postos de correios, um tribunal, alguns quartéis, um posto de Bombeiros, e um laboratório onde se restauram tapeçarias. Há depois o Annona, uma espécie de supermercado onde os produtos, estando isentos de impostos, custam menos que sobre o território italiano, e por isso foi denominado ‘o paraíso do shopping’: um parque automóvel, uma garagem subterrânea e um grande e próprio parque de estacionamento; a tipografia Poliglota capaz de imprimir em quase todas as línguas conhecidas e por isso é considerada a estamparia mais rica do mundo em caracteres tipográficos; e os escritórios de algumas publicações vaticanas entre as quais a do L`Osservatore Romano. O Vaticano possui também um seu hotel, e uma farmácia. Possui também um exército entre cujo corpo mais famoso está o dos Guardas suíços que como diz o nome são todos suíços; o seu número foi reduzido por Paulo VI para setenta e cinco.

  

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