Capítulo 1

A salvação

 

 

A doutrina dos teólogos papistas em termos gerais

 

A igreja católica romana afirma que ‘o Filho de Deus se fez homem para nos salvar, isto é, para nos redimir do pecado...’ (ibid., pag. 71). Portanto, ela ensina o justo nisto; mas passando a explicar como Cristo nos salva ela afirma uma heresia porque diz que Cristo ‘nos redimiu do pecado original que cancela em nós com o Batismo, e nos redime dos nossos pecados com a Penitência que nos os perdoando, nos poupa também o Inferno por eles merecido, e nos readquire o direito ao Paraíso’ (ibid., pag. 71). O que querem dizer estas palavras? Isto, que quando a criança é batizada (ou seja, - para eles - quando lhe é derramada a água benzida sobre a cabeça) é libertada da escravidão do pecado, é justificada diante de Deus, lhe é cancelado o pecado original, e obtém a entrada no paraíso (sem fé portanto); depois quando cresce e comete pecados mortais, que são os únicos que segundo a teologia papista a privam da graça divina e a fazem digna de pena ou morte eterna no inferno, então se deve ir confessar ao padre, que a redime deles, a justifica, e lhe os perdoa, absolvendo-a e dando-lhe obras de penitência a fazer para expiá-los plenamente porque os méritos de Cristo não bastam: o homem deve também ele dar a sua parte de satisfação pelos seus pecados a Deus! Assim, através da confissão feita ao padre e a observância das obras lhe prescritas, ela pode recuperar a graça perdida, e merecer o paraíso [1]. Na substância a salvação de que falam os teólogos papistas não se obtém somente pela fé (e portanto não pela graça de Deus) o que equivale a dizer que Cristo na realidade não veio para nos salvar mas a nos ajudar para que nos salvássemos a nós mesmos. Quis fazer esta premissa para fazer compreender, sem entrar por agora nos detalhes destes dois sacramentos essenciais para a salvação (isto o faremos quando falarmos especificamente deles), que a teologia papista ensina não a salvação (só) pela fé, como ensina a sagrada Escritura, mas uma salvação por meio do batismo quando se é menino (ou quando se é adulto) e por meio da penitência (o que implica sempre - se tenha presente isto - o ter que fazer alguma coisa para expiar os pecados) quando se é crescido. É verdade que falam também eles de fé, mas (além de fazer estranhas distinções de fé como a entre a fé teologal e a de confiança) fazem compreender claramente, e repito claramente, que só pela fé não se é salvo, só pela fé não se obtém a remissão dos pecados, só pela fé não se é justificado, só pela fé não se obtém a vida eterna. A sua mensagem na substância é esta: ‘Não basta crer para ser salvo, justificado, perdoado, e entrar no paraíso’.

Ora, como assinalei antes, para a teologia papista há uma redenção, uma remissão dos pecados, uma justificação com o relativo direito de ir para o paraíso, que se obtém sem fé e sem obras com o batismo por infusão poucos dias depois de que se nasce; e depois há uma outra redenção, uma outra remissão dos pecados, uma outra justificação com o direito de ir para o paraíso que se obtém pelo sacramento da penitência quando se é maior - após ter cometido os chamados pecados mortais - fazendo obras de misericórdia e mortificações. Eu nesta primeira parte do livro confutarei principalmente a doutrina que diz que a libertação do pecado, a justificação, a remissão dos pecados, e a vida eterna se obtêm por obras meritórias, em outras palavras a salvação pelas obras prescrita aos adultos pela igreja papista que podemos muito bem chamar auto-redenção. Sim, porque nos factos a redenção oferecida pelo catolicismo aos homens é uma auto-redenção porque ela se funda essencialmente nos méritos humanos que consistem no catolicismo em jejuns, mortificações, actos de misericórdia, esmolas, orações e cerimónias chamadas sagradas. Isto é um dado de facto; mas os teólogos papistas sabem bem disfarçar esta auto-redenção falando de graça. Mas de uma graça subdividida em duas espécies; graça santificante e graça sacramental que são conferidas ao homem pelos seus sacramentos. Sem entrar em detalhes limito-me a dizer que esta sua graça conferida pelos sacramentos torna o homem idóneo de merecer, e repito merecer, a salvação eterna.

Ora, com a graça de Deus, demonstrarei que não é de modo nenhum em virtude de obras que se é libertado dos pecados, que não é em virtude de obras que se é justificado, que não é em virtude de obras que se obtém a remissão dos pecados, e que não é em virtude de obras que se obtém a vida eterna [2], mas só e exclusivamente mediante a fé, portanto pela graça de Deus (gratuitamente). E que por isso todo o mérito humano é excluído da maneira mais absoluta; todo o esforço humano feito para ganhar a salvação é vão e ofensivo para Cristo Jesus. A salvação é por graça, totalmente por graça; o homem não tem de ganhá-la, mas somente a tem que receber da mão de Deus. Esta é a mensagem que está na base do Evangelho; se ela falta, falta o Evangelho. E na igreja católica romana falta isto mesmo, o Evangelho da graça de Deus. Agora o demonstrarei.

 

 

 

A LIBERTAÇÃO DA ESCRAVIDÃO DO PECADO

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

A redenção do pecado obtém-se pelo batismo e a penitência. Os méritos de Cristo não bastam para recebê-la, é necessário por isso fazer boas obras para obtê-la. Os teólogos papistas - como  já assinalei - sustentam que o batismo liberta do pecado quem o recebe (portanto não apenas os infantes mas também os adultos que por exemplo se convertam do budismo ao catolicismo); e afirmam também que uma vez batizado se se cometerem pecados ‘mortais’ perde-se a graça e portanto é necessário ir fazer a confissão ao padre para obter a libertação deles e recuperar a graça perdida. Deve ser dito porém que embora o padre tenha recebido de Cristo a autoridade de perdoar os pecados, ao penitente após a confissão permanece por expiar uma parte da pena merecida. Porquê isto? Porque os méritos de Cristo (que o padre pretende aplicar ao penitente com a fórmula absolutória) são insuficientes para salvá-lo pelo que não é suficiente a fé para salvá-lo, ou seja, para ele não é suficiente arrepender-se e crer que Jesus Cristo morreu também pelos seus pecados sobre a cruz e ressuscitou para sua justificação, mas é preciso também boas obras (chamadas obras de satisfação). E como sustentam isto com as sagradas Escrituras? Tomam as seguintes palavras de Paulo aos Colossenses: "E cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja" (Col. 1:24), e dão-lhe este significado: ‘Nós devemos cooperar com Cristo para a nossa salvação mediante as nossas obras meritórias, portanto com os nossos sofrimentos; isto porque nós devemos cumprir o que resta das aflições de Cristo’. Portanto quando se ouve falar de redenção aos Católicos é necessário ter presente as seguintes coisas; que o batismo e a penitência são considerados indispensáveis para ser salvo (isto o veremos melhor mais à frente), e que no caso do adulto que se vai confessar após ter pecado ‘mortalmente’ contra Deus, a fé em Cristo somente não o pode de algum modo redimir porque ele é chamado a fazer obras de satisfação. Eis porque os teólogos papistas repetem continuamente que a fé somente não salva, que não basta somente crer para ser salvo: porque segundo eles para ser salvo é preciso a fé e as boas obras [3]. Mas as coisas não são de modo nenhum assim, porque se para ser salvo por Cristo além da fé são necessárias obras justas então a salvação cessa automaticamente de ser por graça ou seja gratuita.

 

 

Confutação

 

Se é libertado da lei do pecado e da morte crendo em Jesus e portanto por graça 

 

A sagrada Escritura afirma que todos pecaram, por isso todos são escravos do pecado que cometem conforme está escrito: "Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado" (João 8:34); e ela afirma que para alguém ser libertado da escravidão do pecado é necessário somente arrepender-se dos pecados e crer em nosso Senhor Jesus Cristo [4]. Portanto é de excluir-se que o batismo (seja por infusão ou por imersão) salva do pecado, porque a fé (que é a que salva) deve preceder e precede o batismo; como também que a confissão ao padre redima do pecado porque, segundo a Escritura, há necessidade apenas de arrependimento e de crer com o coração em Cristo Jesus para obter a redenção do pecado, sem necessidade alguma de um mediador terreno. As seguintes Escrituras testificam de maneira inequívoca que se é salvo somente pela fé, e portanto não pelo batismo que segue a fé e nem através das boas obras.

Paulo e Silas, quando o carcereiro de Filipos perguntou-lhes: "Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?" (Actos 16:30), lhe responderam: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu a a tua casa" (Actos 16:31).

Eles não lhe disseram: ‘Batiza-te e serás salvo’ e nem: ‘Faz boas obras e serás salvo’, porque sabiam que o homem é salvo pela fé no Senhor Jesus e não pelo batismo ou pelas boas obras. Mas ponhamos o caso desta pergunta ser feita a um padre, que responderá ele? Ele responderá assim: deves antes de tudo batizar-te, deves crer todas as coisas que Deus revelou à sua Igreja e que estão na Bíblia e na tradição e depois deves fazer obras justas. Depois de teres feito tudo isto porém não podes estar certo de estar salvo porque poderás cair em algum pecado mortal e perder assim a graça recebida; neste caso, de qualquer modo, há a confissão que te salva. Mas para fazer uma boa confissão são precisas diversas coisas e depois que tu faças as obras prescritas pelo confessor. Procura receber os sacramentos da igreja e fazer o teu melhor e espera ser salvo mas nunca digas que estás salvo: isso é descarada presunção. Mas dizei-me: Não é tudo isto um caminho muito complicado e completamente inseguro?

• Cornélio era um homem piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus, mas apesar disso não tinha ainda sido salvo dos seus pecados quando o anjo de Deus lhe apareceu em visão dizendo-lhe para mandar chamar Simão Pedro. Isto é confirmado pelo facto de o anjo lhe ter dito: "Envia a Jope e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras pelas quais serás salvo, tu e toda a tua casa" (Actos 11:13,14). Cornélio foi salvo quando aceitou por fé as palavras que Pedro disse em sua casa. Portanto, este homem não foi salvo nem pelo batismo (que lhe foi ministrado depois que creu) e nem pelas suas esmolas mas foi salvo pela sua fé no Evangelho que Pedro lhe pregou. Certamente se as orações e as esmolas que Cornélio fazia tivessem sido suficientes para a sua salvação não teria havido necessidade que ele ouvisse o Evangelho e cresse nele. O facto porém é que Cornélio embora temesse a Deus, orasse a Deus e fizesse muitas esmolas ainda era perdido e escravo do pecado. Foi indispensável também para ele ouvir o Evangelho e crer nele para ser salvo porque a salvação não a confere o batismo e nem é o fruto de boas obras mas dom de Deus que se recebe crendo e não operando.

Paulo disse aos Romanos: "Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça" (Rom. 6:17,18). Os crentes de Roma foram salvos dos seus pecados obedecendo ao Evangelho, isto é, crendo no Evangelho, e não pelo batismo ou por terem feito boas obras.

Paulo disse aos Romanos: "Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Rom. 1:16). Isto significa que é a mensagem da Boa Nova que liberta dos pecados todos os que crêem nela. E nós somos testemunhas da salvação operada pelo Evangelho naqueles que eram escravos de toda a sorte de iniquidades: homens que no passado eram fornicadores, sodomitas, ladrões, bêbados, avarentos, feiticeiros, mentirosos, foram libertados do pecado a quem eles obedeciam somente pela sua fé no Evangelho. Eles nunca teriam podido ser libertos da escravidão das suas paixões pecaminosas pelo batismo, ou mortificando o seu corpo, ou fazendo esmolas, visitando os doentes, as viúvas e os orfãos, ou dando de comer aos famintos e de beber aos sedentos, e isto sempre porque se é libertado da escravidão do pecado crendo, somente crendo, o que precede sempre o batismo e o bom operar ordenado por Deus aos crentes.

Paulo diz aos Efésios: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef. 2:8,9). Nós que cremos no Evangelho da nossa salvação fomos libertados dos nossos pecados somente por meio da fé no Evangelho; nenhum de nós pode dizer de ter sido salvo dos seus pecados por meio do batismo ou por ter feito esmolas, visitas aos doentes, às viúvas e aos orfãos, ou por ter dado de comer, de beber e de vestir aos que disso tinham necessidade, justamente porque não foi em virtude do batismo na água ou de boas obras que obtivemos esta grande salvação, mas somente, e o repito somente, por ter crido no Evangelho da graça de Deus. Se se pudesse ser salvo por meio de boas obras, Cristo teria morrido inutilmente, e seria portanto inútil pregar o Evangelho a todos aqueles homens que pensam alcançar a salvação fazendo o bem a si mesmos e aos outros. Mas além disso, importa dizer que se se pudesse ser salvo por meio das boas obras, os homens teriam do que se gloriar perante Deus, porque poderiam dizer serem merecedores da salvação, em outras palavras poderiam dizer que ela foi o fruto dos seus trabalhos, e nunca diriam que ela é o fruto do tormento da alma de Cristo Jesus. Eles poderiam dizer que foram eles a sofrer para se salvarem, e não mais que Cristo, o Justo, sofreu por nós injustos para nos libertar da escravidão do pecado. Mas, como dizia Paulo aos Romanos, "Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé" (Rom. 3:27), porque nós cremos que o homem é salvo por meio da sua fé em Jesus Cristo. Eis, por que nós não temos nada de que nos gloriar, porque fomos salvos pela lei da fé, e portanto por graça. Sim, pela graça de Deus; porque nós tivemos apenas que crer no Senhor Jesus para ser salvos.

Paulo diz aos Tessalonicenses: "Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito, e fé na verdade" (2 Tess. 2:13). O apóstolo dava graças a Deus porque aprouve a Deus, com base no seu propósito eterno, salvar os crentes de Tessalónica. Mas como tinha salvo Deus os Tessalonicenses? pelo batismo ou pelas boas obras porventura? Não, mas pela santificação do Espírito e a fé na verdade. Ainda uma vez a Escritura confirma que a salvação se obtém não pelo batismo e nem através das boas obras, mas pela fé na verdade. Onde estão portanto os méritos do homem? Estão excluídos pela lei da fé.

Paulo diz aos Coríntios: "Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos..." (1 Cor. 15:1), depois diz-lhes o Evangelho que lhes tinha anunciado, e por fim diz: "Assim pregamos e assim haveis crido" (1 Cor. 15:11). Por este discurso de Paulo se deduz que os Coríntios tinham sido salvos mediante a sua fé no Evangelho e não mediante o batismo (que também eles tinham recebido logo depois de terem crido)  ou por terem feito boas obras. Alguns deles tinham sido adúlteros, fornicadores, idólatras, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, roubadores, bêbados e maldizentes; mas tinham sido salvos dos seus pecados somente pela fé no Evangelho, que tinham posto nele antes de se batizarem, sem as obras da lei. Por isso a mensagem de Cristo é chamada a Boa Nova da paz; porque para obter paz com Deus, isto é, para ser reconciliado com Deus, os pecadores não têm que fazer obras meritórias, mas têm só que arrepender-se e crer no nome de Jesus Cristo. Aliás que boa nova seria a mensagem de Cristo se ela dissesse que para ser salvo do pecado é necessário fazer boas obras? Não estaria tudo isso em nítida contradição com a essência do Evangelho? Certamente que estaria; seria como dizer que Jesus veio para nos salvar gratuitamente, sem nos exigir nada mais senão o arrependimento e a fé nele, mas nós temos que cooperar com ele (fazer obras justas) para sermos salvos dos pecados!

Paulo diz na epístola a Tito: "Também nós éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros. Mas quando apareceu a benignidade e a caridade de Deus, nosso Salvador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo..." (Tito 3:3-5). Destas palavras de Paulo aprendem-se claramente duas coisas: a primeira é que nós fomos salvos e por isso podemos afirmar que estamos salvos, sem o perigo de pecar por presunção; a segunda é que esta salvação a obtivemos não pelo batismo e nem por ter feito obras meritórias mas exclusivamente pela misericórdia de Deus o qual nos fez renascer para uma nova vida pela Palavra de Deus plantada em nós (a lavagem da regeneração) e pela renovação operada em nós pelo Espírito Santo.

Paulo diz a Timóteo que Deus "nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; e que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo..." (2 Tim. 1:9,10). O apóstolo diz pela enésima vez que Deus nos salvou por graça sem que nós tenhamos feito algo de bom; mas ele diz também que Deus nos deu graça antes dos tempos dos séculos, isto é, antes da fundação do mundo. E se isto não bastasse para fazer compreender que a nossa salvação não foi dispensada em razão de boas obras por nós feitas, mas exclusivamente por Deus ao qual agradou salvar-nos sem que merecêssemos, citamos também as seguintes palavras de Paulo aos Romanos sobre Esaú e Jacó: "Não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor" (Rom. 9:11,12), e estas outras: "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia" (Rom. 9:16). Perante tais palavras caem pela enésima vez todos aqueles raciocínios dos teólogos papistas que atribuem a salvação às obras meritórias.

Pedro disse em Jerusalém, diante dos outros apóstolos e dos anciãos: "Mas cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, do mesmo modo que eles também" (Actos 15:11). Ora, aqui Pedro disse que eles que eram Judeus de nascença eram salvos pela graça da mesma maneira em que o eram os Gentios; e isto apesar deles serem circuncisos na carne e terem a lei de Moisés com os mandamentos de Deus. Mas por que motivo Pedro não pôde dizer que eles que eram Judeus tinham sido salvos pelas obras da lei, enquanto os Gentios, que não tinham a lei, tinham sido salvos pela graça? Porque também eles Judeus para serem salvos tiveram somente que crer (e portanto não eram merecedores da salvação pela lei), da mesma maneira que os Gentios. As palavras de Pedro fazem claramente compreender que para ser salvo tem-se apenas que crer e não operar, porque a salvação de Deus é oferecida gratuitamente tanto aos Judeus como aos Gentios.

Jesus nos dias da sua carne disse estas palavras a duas mulheres: "A tua fé te salvou" (Lucas 8:48; 7:50): as disse à mulher que foi curada do seu fluxo de sangue, e àquela mulher pecadora que lhe regou de lágrimas os seus pés, lhe os enxugou com os seus cabelos e lhe os ungiu com óleo. A um daqueles dez leprosos que ele curou, e a Bartimeu disse as mesmas palavras, ou seja: "A tua fé te salvou" (Lucas 17:19; 18:42). Também estas Escrituras confirmam que é somente pela fé que se é salvo e não pelo batismo ou por boas obras. Porque se Jesus tivesse crido que era o batismo a salvar não poderia dizer "a tua fé te salvou" mas teria que dizer: ‘Vem batizar-te e serás salvo’; e se cria que era a fé mais as boas obras deveria ter dito: ‘Vai primeiro fazer obras dignas de arrependimento e então conseguirás a salvação dos teus pecados porque só a fé não basta para salvar-te’.

Paulo diz aos Romanos: "Esta é a palavra de fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Rom. 10:8-13).

Como podeis ver para ser salvo não é preciso o batismo e não é necessário fazer boas obras, mas é necessário confessar com a boca Jesus como Senhor, e crer com o coração que Deus o ressuscitou dos mortos. Não é simples e claro o caminho da salvação que propõe a Escritura? Certamente que o é. Mas experimentai pegar com as vossas mãos um qualquer livro de teologia dogmática e procurai lá a forma como se obtém a salvação para a igreja papista e vos apercebereis logo pelas primeiras palavras do quanto ela é extremamente complicada e também incerta, de tal maneira a fazer-vos perder logo a vontade de continuar a ler. Para vos fazer compreender como nós das muitas águas não fomos tirados porque nos submetemos ao rito do batismo ou por méritos nossos, mas somente porque invocamos o nome do Senhor, vos recordo um episódio que aconteceu no mar de Tiberíades  nos dias de Jesus. Jesus, uma noite, enquanto os seus discípulos estavam no barco no meio do mar, foi ter com eles andando sobre o mar. Os seus discípulos quando o viram começaram a gritar de medo pensando que estavam a ver um fantasma, mas Jesus os sossegou dizendo-lhes para não temer porque era ele. Quando Pedro o ouviu dizer isso, lhe disse para mandar-lhe andar sobre as águas se era ele. Jesus lhe disse: "Vem! E Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?" (Mat. 14:29-31). Recordando a nossa vida passada, vivida ao serviço da iniquidade e da impureza, temos que dizer que nós nos encontrávamos numa cova de perdição, num charco de lodo, onde os nossos pés não tinham onde se apoiar, mas na angústia do nosso coração invocámos o nome do Senhor dizendo-lhe: ‘Senhor, salva-me’, e ele, na sua fidelidade, tendo ouvido o nosso clamor, nos tirou do lamaçal em que nos debatíamos. Mas que fizemos para sair dele? Tivemos que nos fazer imergir na água ou fizemos alguma boa obra porventura? Não, mas somente clamámos ao Senhor, como fez Pedro naquela noite no mar Tiberíades . Tudo isto para confirmação que  "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Rom. 10:13).

Por fim queremos dizer algumas palavras sobre a interpretação papista dada às palavras de Paulo aos Colossenses para sustento da salvação por obras. Esta sua interpretação lhe dada é completamente arbitrária, porque se fosse assim como dizem eles então teríamos que afirmar que Cristo não sofreu o suficiente para nos libertar dos nossos pecados, e que há sofrimentos que o homem deve padecer para merecer a salvação. Mas o que vão tagarelando os teólogos papistas? Os sofrimentos de Cristo foram completos; não restam mortificações corporais a cumprir pelo homem pecador porque as de Cristo são suficientes para a sua salvação. Aquele "o que resta das aflições de Cristo" (Col. 1:24) de que fala Paulo não são as aflições de Cristo que faltam que é preciso cumprir para merecer a salvação; porque destas aflições não faltam nenhumas. Mas elas são as aflições que os crentes, que já estão salvos, são chamados a padecer por Cristo conforme está escrito: "Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele" (Fil. 1:29); e mediante as quais os crentes são julgados dignos do reino de Deus conforme está escrito: "E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados" (Rom. 8:17).

 

 

Os resgatados devem fazer boas obras para fazer segura e firme a sua vocação e eleição

 

A Escritura diz claramente que nós não fomos salvos mediante obras justas, mas mediante a fé em Cristo e portanto pela graça de Deus. Mas a mesma Escritura também diz claramente que nós agora que estamos salvos devemos fazer boas obras. Paulo disse de facto aos Efésios que nós somos "feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef. 2:10); e a Tito que Jesus Cristo "se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras" (Tito 2:14). Mas ainda antes de Paulo este conceito o tinha explicado o Senhor Jesus Cristo o qual tinha dito aos seus discípulos tê-los escolhido para que praticassem as boas obras. Eis as suas palavras: "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça" (João 15:16). Mas por que é que devemos ser zelosos nas boas obras? Porque Jesus disse: "Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto, e assim sereis meus discípulos" (João 15:8), e também: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" (Mat 5:16) querendo significar que nós fazendo boas obras faremos glorificar o nome de Deus. Além disso deve-se ter presente que nós fazendo boas obras ajuntamos um tesuro no céu que constitui o galardão que o Senhor nos dará naquele dia (o que para nós é um estímulo). Jesus de facto quando disse ao jovem rico para vender tudo o que tinha e dá-lo aos pobres lhe disse: "e terás um tesouro no céu" (Mat 19:21), e Paulo disse a Timóteo para ordenar aos ricos "que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis, que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro" (1 Tim. 6:18,19).

Vos recordo por fim irmãos que as boas obras só podem estar presentes na nossa vida se observarmos os mandamentos de Deus conforme está escrito: "Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto.." (João 15:5); mas estarão ausentes se nós não observarmos os mandamentos de Deus porque está escrito: "Como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim" (João 15:4). Para concluir dizemos isto: nós crentes sabemos que pela nossa fé fomos salvos do pecado e do presente século mau, e que pelos nossos trabalhos de amor (as nossas boas obras) seremos premiados, isto é, receberemos de Deus o fruto das obras que fizemos na terra por amor do Senhor e dos eleitos.

 

 

A JUSTIFICAÇÃO

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

A justificação se obtém pela fé mais as obras. A teologia papista diz que para obter a justificação não é suficiente crer, ou seja, que para ser declarado justo por Deus não basta só crer em Jesus Cristo. Eis na realidade como se exprime Bartmann: ‘Para obter a justificação são exigidos ao adulto, além da fé, também outros actos de virtude; só a fé não justifica - É de fé’ (Bartmann Bernardo, Manual de Teologia dogmática, Alba 1949, vol. II, pag. 315). Isto equivale a dizer que a justificação não se obtém pela graça de Deus mas por méritos próprios, de facto, se além da fé é preciso algum acto de virtude da parte do homem isso quer dizer que a justificação não é completamente gratuita, porque Deus quer que o homem faça alguma coisa de bom para consegui-la. Mas o que tem que fazer o homem para conseguir a justificação segundo a teologia papista? Antes de tudo tem que batizar-se porque o concílio de Trento afirmou que a justificação é concedida por Deus pelo batismo: ‘Causa instrumental é o sacramento do Batismo, que é o sacramento da fé, sem o qual jamais a alguém é concedida a justificação’ (Concílio de Trento, Sess. VI, cap. VII) [5], e depois tem que confessar-se ao padre para obter a remissão dos chamados pecados mortais cometidos depois do batismo e fazer boas obras porque estas últimas são justificantes e expiatórias. Para sustento desta justificação por obras tomam as seguintes palavras de Tiago: "Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé" (Tiago 2:21-24), e dizem que elas confirmam plenamente a sua doutrina segundo a qual para obter a justificação não basta só a fé porque Deus exige outros actos de virtude, e que portanto elas abatem um dos princípios fundamentais do ‘protestantismo’! Em defesa desta doutrina sobre a justificação o concílio de Trento emitiu os seguintes anátemas: ‘Se alguém disser que os sacramentos da Nova Lei não são necessários para a salvação, mas supérfluos; e que sem eles ou sem o desejo deles, só pela fé os homens alcançam de Deus a graça da justificação, ainda que nem todos sejam necessários para cada um; seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VII, can. 4. O termo anátema deriva do grego anathema que significa ‘maldito’): ‘Se alguém disser que o ímpio é justificado somente pela fé, entendendo que nada mais se exige como cooperação para conseguir a graça da justificação, e que de nenhum modo é necessário que ele se prepare e disponha pela acção da sua vontade; seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 9).

 

Confutação

 

Se é justificado dos pecados pela fé em Jesus

 

Mas as coisas não são de modo nenhum assim como dizem os teólogos papistas porque a Escritura ensina que se é justificado por Deus somente pela fé. Ora, neste caso nós não falaremos do porquê do batismo não justificar (mesmo se já haveis compreendido que dado que se é justificado somente pela fé que precede o batismo, este último não pode de nenhum modo justificar), e nem do porquê da confissão ao padre não poder justificar (destes seus sacramentos falaremos mais difusamente a seguir), mas demonstraremos com as Escrituras que o homem é justificado só pela fé porque as obras justas não podem de nenhum modo justificá-lo [6].

Nós todos éramos inimigos de Deus nas nossas obras más e na nossa mente porque nós todos caminhávamos segundo as concupiscências da carne; mas quando Deus manifestou o seu amor por nós, Ele nos justificou, isto é, nos fez justos aos seus olhos, cancelando-nos todos os nossos pecados. E pela justificação nós fomos reconciliados com Deus e nos tornámos seus amigos conforme está escrito: "A sua amizade está com os sinceros" (Prov. 3:32). E esta justificação que nós obtivemos a recebemos por fé, e portanto por graça e não por obras. As seguintes Escrituras o testificam de forma clara.

• Paulo diz aos Romanos: "Sendo pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo..." (Rom. 5:1), e: "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus " (Rom. 3:23,24), e ainda: "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira" (Rom. 5:8,9); as palavras "justificados pelo seu sangue" significam que nós somos justificados mediante a fé no sangue de Cristo. E ainda aos Romanos Paulo diz: "Se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só - Jesus Cristo" (Rom. 5:17). Notai as palavras "o dom da justiça"; elas mostram que a justiça de Deus (a justificação) se obtém gratuitamente por Deus sendo um dom de Deus. Ela se pode obter precisamente crendo no Filho de Deus: todo o mérito pessoal é portanto excluído. Um outro versículo da carta aos Romanos que testifica que para ser justificado é necessário só crer em Cristo é aquele que diz que "o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê" (Rom. 10:4).

• Paulo diz aos Gálatas: "Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei" (Gal. 2:16); e: "A lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados" (Gal. 3:24); e ainda: "Tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os Gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti" (Gal. 3:8) (isto aconteceu porque nós fomos benditos por Deus pela fé em Cristo que é descendência d`Abraão). E ainda aos Gálatas estão estas palavras: "Se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes" (Gal. 3:21,22). E na "promessa" estava também a justiça de Deus (portanto a justificação); a quem é dada? A quem crê ou a quem faz obras? A quem crê porque ela foi prometida pela fé em Jesus.

• "O justo viverá pela sua fé" (Hab. 2:4): estas palavras Deus as dirigiu ao profeta Habacuque, anunciando desta maneira que Ele justificaria os homens pela fé, "pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão" (Rom. 3:30).

Estas outras Escrituras ao invés testificam que os que se baseiam nas obras da lei não são justificados e não serão justificados diante de Deus:

• "Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada" (Gal. 2:16);

Ÿ "O homem não é justificado pelas obras da lei" (Gal. 2:16);

Ÿ "Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las. E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé" (Gal. 3:10,11);

Ÿ "Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado" (Rom. 3:20).

Para demonstrar-vos como não se é justificado pelas obras mas somente pela fé vos recordo o exemplo de Abraão nosso pai. Ora, Abraão, segundo o que diz a Escritura, foi justificado por Deus pela sua fé na promessa feita a ele por Deus (cfr. Gen. 15:6), e esta justificação a obteve depois que ele saiu de Ur dos Caldeus (cfr. Gen. 12:4) e depois que ele deu o dízimo do melhor dos despojos a Melquisedeque, sacerdote do Deus altíssimo (cfr. Gen. 14:20).

Portanto, reiteramos com força as seguintes coisas:

Abraão não foi justificado por Deus porque ou quando obedeceu à ordem de Deus: "Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei..." (Gen. 12:1). Certo, na epístola aos Hebreus está escrito que "pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança.." (Heb. 11:8), mas permanece o facto de que não foi este acto de obediência de Abraão que lhe imputou a justiça;

Abraão não foi justificado por Deus porque ou quando deu o dízimo a Melquisedeque; certo, ele fez algo de bom que Deus se agradou (aquele seu dízimo o recebeu no céu um de quem se testifica que vive), mas apesar disso, não foi em virtude dessa boa obra que Abraão foi justificado por Deus;

Abraão foi justificado por Deus porque creu na promessa de Deus conforme está escrito "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça" (Rom. 4:3; Gen. 15:6); por isso também Abraão não tinha nada de que se gloriar diante de Deus.

Mas há um outro exemplo de um homem justificado por Deus pela graça mediante a sua fé, sem as obras da lei; é o daquele  publicano que Jesus disse que tinha subido ao templo para orar juntamente com um Fariseu. Ele "nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador" (Lucas 18:13), e por se ter humilhado diante a Deus, pela a sua fé foi justificado conforme está escrito: "Digo-vos que este desceu justificado para sua casa..." (Lucas 18:14). Ao contrário, o Fariseu que dava graças a Deus por não ser roubador, injusto e adúltero como os outros homens, e fazia notar a Deus que ele pagava os dízimos de tudo o que possuia, que jejuava duas vezes na semana e que não era como aquele publicano, não foi justificado. Não é esta mais uma confirmação que a justificação se obtém somente mediante a fé pela graça de Deus sem as obras? Certamente que o é. Erram grandemente portanto os teólogos papistas quando afirmam que para ser justificado por Deus não é suficiente a fé em Deus.

Mas por que é que a justificação não se pode obter pelas obras justas da lei? O motivo pelo qual a justiça não se pode obter por meio das obras da lei é porque a lei foi dada para dar aos homens o conhecimento do pecado (cfr. Rom. 3:20) e para fazer abundar o pecado (cfr. Rom. 5:20), e não para fazer justos os homens. Deus, para fazer justos os homens, deu o seu Unigénito Filho, de facto, é através do Filho que veio a graça e que nós fomos justificados.

Ora, vimos que a Escritura diz que pelas obras da lei o homem não pode ser justificado dos seus pecados, porque a lei não tem o poder de justificar o pecador; vejamos portanto de perto algumas destas obras da lei que não justificam quem as cumpre. Na lei está dito: "As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor, teu Deus" (Ex. 23:19); "Vendo extraviado o boi ou ovelha de teu irmão, não te esconderás deles; restituí-los-ás sem falta a teu irmão" (Deut. 22:1); "Todo o credor remitirá o que emprestou ao seu próximo; não o exigirá do seu próximo ou do seu irmão, pois a remissão do Senhor é apregoada" (Deut. 15:2); "Quando no teu campo segares a tua sega, e esqueceres um molho no campo, não tornarás a tomá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será, para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra das tuas mãos. Quando sacudires a tua oliveira, não tornarás atrás de ti a sacudir os ramos; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não tornarás atrás de ti a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será." (Deut. 24:19-21). Estas  são algumas das boas obras que Deus prescreveu na lei de Moisés porque  há muitas mais. Elas são todas obras justas; no entanto por elas não se pode ser justificado dos próprios pecados! Não é bastante clara a Escritura a tal respeito? Certamente que o é para nós. Mas não para a cúria romana que não entende rectamente a Palavra de Deus; e se ilude e faz iludir as pessoas dizendo que se é justificado por Deus pelos sacramentos e fazendo boas obras: porque os sacramentos (batismo e penitência) tornam justos os homens e as boas obras são justificantes! Falando desta maneira os teólogos papistas anulam a graça e reduzem a morte expiatória feita por Cristo meramente a um gesto de amor com o qual Deus quis ajudar os homens a auto-justificarem-se! A mesma coisa se deve dizer da ressurreição de Cristo; ela ajuda a conseguir a justificação mas não é suficiente para justificar o homem, segundo eles! Ó guias cegos, mas quando caireis em vós mesmos, e reconhecereis que para ser justificado é suficiente somente a fé no Senhor Jesus Cristo?

Vimos antes que os vértices da igreja romana além de afirmar que é mediante os seus sacramentos que se obtém a justificação, nos declaram malditos porque nós afirmamos que o homem é justificado somente mediante a fé sem os seus sacramentos e sem obras justas! Mas estes perecem por falta de conhecimento das Escrituras porque se as conhecessem e as manejassem bem não diriam tais coisas. Está escrito claramente em Isaías que toda a justiça do homem é "como trapo da imundícia" (Is. 64:6), portanto não importa quantas obras justas fazem os homens para serem justificados diante de Deus, se eles não se arrependem e não crêem no evangelho continuam a ser considerados pecadores diante de Deus porque não é com as mãos que se faz alguma coisa para obter a justiça mas "com o coração se crê para a justiça" (Rom. 10:10), como diz Paulo aos Romanos. ‘É demasiado simples para ser verdade!’, exclamam os católicos romanos a respeito da maneira em que se é justificado. Certamente que aos olhos deles é demasiado simples e não crêem que seja verdade; lhes é continuamente dito que se é justificado fazendo sacrifícios e lhes é mantida escondida a palavra que diz: "Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça" (Rom. 4:5); (notai que "àquele que não pratica" significa ‘àquele que não se apoia nas obras justas para a sua salvação’). O que se pode esperar portanto que digam?

A vós homens que considerais poder ser justificados pelas obras e rejeitais ser justificados gratuitamente por Cristo Jesus digo isto: ‘Sabei que tendo uma semelhante conduta vós não fazeis mais que conservar em cima de vós os vossos trajes sujos (os pecados) e renunciar à veste branca (a justiça de Deus) de que são revestidos todos os que cessam de se apoiar nas suas próprias obras e crêem no Senhor Jesus para serem justificados. Por conseguinte vós continuais a ter sobre vós a ira de Deus porque estais ainda debaixo da maldição. Reflecti ó homens e mulheres; não compreendeis que, como diz Paulo, "se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde" (Gal. 2:21), e que procurando ser justificados pelas obras da lei não fazeis mais que anular a graça de Deus e fazer vã  a fé para vós mesmos? Fazei pois isto; não vos apoieis mais nas vossas obras para serdes justificados mas somente crede que Jesus é o Cristo que morreu pelos vossos pecados e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia’.

 

Se é por graça já não é por obras, e se é por obras já não é por graça 

 

A este ponto quero dizer algo mais que considero importante: os teólogos papistas quando falam da justificação fazem discursos nos quais por um lado afirmam que a justificação é gratuita (e para fazer isso se usam das passagens da Escritura que testificam claramente que o homem é justificado por Deus por graça), e por outro afirmam que a justificação depende também das obras que o homem faz. Parecerá estranho para muitos mas é assim mesmo; e disto nos apercebemos lendo os seus livros. É claro que as suas afirmações são contraditórias, (notai por exemplo como são contraditórias as palavras do concílio tridentino segundo as quais a graça da justificação não se pode obter somente pela fé porque são exigidas outras coisas além da fé para obtê-la; mas se é uma graça por que não basta a fé para consegui-la? Mas que tipo de graça é então? Uma graça que se merece? Mas então já não é graça porque a graça se obtém sem fazer nada mas só crendo em Deus!) mas não obstante isso eles procuram conciliá-las de toda a maneira, não sendo bem sucedidos porque é impossível conciliar a doutrina que diz que o homem é justificado por Deus somente pela fé sem as boas obras, e a que diz que o homem tem que cooperar com Deus fazendo boas obras para ser justificado. Se se aceita a justificação só pela fé tem que se descartar a justificação pelas obras, e se se aceita a justificação pelos méritos tem que se descartar a justificação só pela fé. A razão pela qual eles fazem estes discursos ambíguos e contraditórios entre si é para defender e sustentar a todo o custo toda aquela bagagem de doutrinas que acumularam no curso dos séculos; refiro-me à doutrina que diz que a graça se obtém pelos sacramentos, portanto praticando [operando] e não crendo; e à doutrina do purgatório, àquela sobre as obras de satisfação, àquela sobre as indulgências, e tantas e tantas outras doutrinas fundadas sobre o dogma da justificação por obras. Eles se dão conta que reconhecer a doutrina da justificação só pela fé significaria ter que rejeitar todas estas doutrinas aqui supracitadas, porque não haveria mais necessidade de crer nelas e de professá-las; por isso procuram de todas as maneiras fazer crer que o homem é justificado pelas obras. Quis fazer este discurso para vos fazer compreender que se os teólogos papistas atacam com tanto vigor a doutrina da justificação só pela fé e procuram anulá-la com toda a sorte de vãos raciocínios, é porque têm que a todo o custo manter credíveis as falsas doutrinas papistas fundadas sobre os méritos, em outras palavras porque têm que manter credível a igreja católica romana. Esta é a razão pela qual falando com os Católicos romanos é preciso insistir na doutrina da justificação só pela fé assim como está escrita na Palavra de Deus, para lhes fazer perceber que como se é justificado pela graça mediante a fé assim todas as doutrinas sobre méritos humanos da igreja romana são falsas e não podem ser aceites. Certamente, ao fazer isto se é perseguido pela cúria romana e pelos seus seguidores; porquê? Porque pregando que Cristo "para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção" (1 Cor. 1:30, e que portanto para ser justificado e santificado é preciso somente crer no Senhor Jesus, nós reputamos um nada todos os preceitos da igreja católica romana que afirmam que para ser justificado e santificado é preciso cumprir os seus ritos. Ritos cerimoniais, que importa dizer, em certos aspectos assemelham-se exteriormente aos da lei de Moisés, e que como os da lei de Moisés (que porém tinham sido ordenados por Deus) não podem de nenhum modo justificar e santificar as pessoas que os cumprem. Mas porque é que os ritos cerimoniais e não cerimoniais que fazem parte da lei de Moisés, como a circuncisão da carne, a observância de dias, meses, anos, luas novas, a abstenção de certos alimentos, as várias abluções, as várias aspersões de sangue e de água e muitas outras coisas não podiam e não podem justificar o homem pecador e não podem santificá-lo quanto à consciência? A razão é porque, a lei tendo a sombra dos bens futuros e não a realidade exacta das coisas, não podia e não pode cancelar os pecados da consciência do homem e santificá-lo (cfr. Heb. 9:9,10; 10:1-4; Col. 2:16,17). Mas agora que veio Cristo Jesus o Sumo Sacerdote dos bens futuros prometidos na lei e nos profetas, e que ele derramou o seu sangue para a propiciação dos nossos pecados, todos aqueles ritos foram cumpridos porque agora há a realidade dessas coisas. As sombras desapareceram e no seu lugar está a realidade. Mas o que fez ao invés a cúria romana? Tirou a realidade das coisas da frente do povo e a substituiu com espécies de sombras, se assim se podem chamar, que ela habilmente construiu apoiando-se nas sombras do Antigo Pacto e fazendo-as crer verdadeiras. E assim as pessoas pensam que para serem justificadas precisam receber na sua cabeça a água benzida do batismo e fazer muitas mortificações corporais e oferecer a Deus o sacrifício da missa e por aí fora, ou seja, observar os sacramentos da igreja romana; não é isto subverter o Evangelho de Cristo? Sim, certamente, estes subverteram o Evangelho de Cristo; ai deles; sofrerão a condenação. Nós dizemos portanto aos Católicos romanos que procuram ser justificados pelos seus sacramentos e pelas obras meritórias; ‘Sabei que esta doutrina que vos ensinam segundo a qual não podeis ser justificados se não cumprirdes os ritos prescritos pelas leis papais não vem d`Aquele que vos chama ao arrependimento mas do diabo que seduziu os papas e toda a cúria romana’.

 

 

Explicação das palavras de Tiago sobre o valor das boas obras

 

Tiago, o irmão do Senhor, disse: "Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé" (Tiago 2:21-24).

Vamos agora explicar estas suas palavras. Antes de tudo dizemos que Tiago escreveu estas palavras para crentes e não para incrédulos, de facto pouco antes diz: "Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas...." (Tiago 2:1); digo isto para vos fazer compreender que aqueles a quem estas palavras foram dirigidas tinham a fé e por isso já estavam justificados conforme o que está escrito: "Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo" (Gal. 2:16). Mas por que motivo Tiago lhes falou desta maneira? Porque alguns crentes embora tendo a fé recusavam fazer boas obras pensando que mesmo sem as obras a sua fé seria suficiente para salvá-los da ira de Deus, iludindo-se assim a si mesmos. [7].

E então ele primeiro os reprovou dizendo: "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver  as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? " (Tiago 2:14), e ainda: "Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?" (Tiago 2:20) fazendo-lhes perceber que só a fé nada lhes valeria, e depois dando-lhes o exemplo de Abraão e de Raabe para confirmar que as obras têm que acompanhar a fé para que esta tenha valor. O discurso de Tiago versa sobre o facto que se alguém diz ter fé, isto é, de ter crido em Cristo Jesus, mas não tem as obras a sua fé é sem valor, ou, como diz  num outro lugar é morta. São palavras duras as de Tiago, mas elas nos fazem compreender quanto são importantes as boas obras para nós crentes; cuidai que Tiago não disse de maneira nenhuma que a justiça se obtém pelas obras da lei ou que o homem pecador é perdoado ou recebe a vida eterna em virtude das suas boas obras; atribuir este significado às suas palavras significaria dizer que Tiago tinha subvertido o Evangelho porque obrigava os Gentios a viverem como Judeus dizendo-lhes que se é justificado pelas obras da lei. O seu discurso tem antes como finalidade desencorajar qualquer crente de pensar que depois de ter crido mesmo se recusa fazer boas obras será agradável na mesma aos olhos de Deus e será salvo. Portanto, se a fé em Deus sem as obras não tem valor como não tem valor o facto de também os demónios crerem que há um só Deus, é necessário concluir que a fé que tem valor é aquela que tem as boas obras, e de facto isto é confirmado pelo apóstolo Paulo que diz aos Gálatas: "Aquilo que tem valor é a fé que opera pelo amor" (cfr.Gal. 5:6), e aos  Coríntios: "A observância dos mandamentos de Deus é tudo" (1 Cor. 7:19). A comparação feita por Tiago é verdadeiramente apropriada; porque se alguém reflectir bem também os demónios crêem que há um só Deus como o cremos nós; e se é por isto eles, quando Jesus estava sobre a terra, demonstraram também saber que Jesus era o Filho de Deus, o Santo de Deus e o Cristo de facto disseram a Jesus: "Tu és o Filho de Deus!" (Mar. 3:11), e ainda: "Bem sei quem és: o Santo de Deus" (Mar. 1:24), e Lucas diz que eles "sabiam que ele era o Cristo" (Lucas 4:41). Mas não é por os demónios crerem que há um só Deus, ou porque sabem que Jesus é o Cristo e o Filho de Deus, que isso significa que eles serão salvos do fogo eterno; de maneira nenhuma, porque nós sabemos também que eles sabem que um dia serão lançados no fogo eterno para serem atormentados pela eternidade porque disseram a Jesus: "Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?" (Mat. 8:29); esta é a sorte que lhes está reservada. Assim não é porque alguém creu em Cristo que se pode permitir a recusar fazer boas obras, porque em tal caso nada lhe aproveitaria um dia ter crido.

Voltemos às boas obras; elas servem para fazer e manter viva a nossa fé no Senhor, de facto se um crente cessa ou se recusa a fazer boas obras por certo a sua fé morrerá e será como uma lâmpada fundida que não pode dar luz. Tiago o disse claramente: "Como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tiago 2:26); para que serve um corpo sem o espírito nele? Para nada, porque não pode falar, não pode mover-se, não pode ajudar ninguém. Para que serve a fé sem as obras? Para nada, porque não opera nada em prol daqueles que são necessitados; ela é morta. Também Paulo falou de uma maneira semelhante a Tiago quando disse aos Romanos: "Se viverdes segundo a carne, morrereis" (Rom. 8:13); portanto as referidas palavras de Tiago encontram uma confirmação também nos escritos de Paulo. Se um crente de facto começa a andar segundo a carne (rejeitando assim fazer boas obras) morre espiritualmente, embora diga de ter fé, de crer em Deus, de crer que Jesus é o Filho de Deus, etc.

Tiago deu o exemplo de Abraão para explicar como o patriarca foi justificado pelas suas obras e não pela sua fé somente. Ora, para evitar mal entendidos começamos por dizer que Abraão, segundo o que diz a Escritura, quando creu na promessa lhe feita por Deus a sua fé lhe foi imputada como justiça conforme está escrito: "E creu ele no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça" (Gen. 15:6), portanto ele recebeu o perdão dos seus pecados pela sua fé, por graça. Não fez nenhuma obra meritória ou boa obra para obter a justiça, porque também ele foi justificado por Deus pela fé. De facto Paulo diz que "se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus" (Rom. 4:2) porque a Escritura diz que ele creu em Deus e esta sua fé lhe foi imputada como justiça. Portanto, Abraão teve fé em Deus, mas o patriarca demonstrou de ter fé em Deus tanto quando creu com o seu coração na promessa que Deus lhe havia feito como também quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar como lhe tinha ordenado para fazer Deus. Vós sabeis de facto que diversos anos depois de Abraão ter crido, Deus colocou à prova Abraão ordenando-lhe de ir sobre um monte e oferecer em holocausto o seu filho Isaque. E Abraão obedeceu a Deus, considerando que Deus o ressuscitaria dos mortos para cumprir a seu respeito a promessa que tinha feito (cfr. Heb. 11:17-19). Portanto ele creu que recuperaria o seu filho mediante uma ressurreição, e que não o perderia porque Deus lhe tinha que manter as promessas feitas. E por esta sua fé ele agradou a Deus de facto quando ele estava para degolar Isaque o anjo de Deus lhe disse: "Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus" (Gen. 22:12) e lhe jurou também por si mesmo que o abençoaria e lhe multiplicaria a sua descendência como as estrelas do céu. Tiago diz que Abraão foi justificado pelas obras quando ofereceu o seu filho e isso é verdade porque Abraão mediante aquela obra que fez demonstrou temer a Deus e de crer firmemente na sua promessa. Portanto podemos dizer que Abraão demonstrou com os factos a fé que ele tinha em Deus; e por isso foi chamado amigo de Deus. Como Abraão também nós que cremos seremos chamados amigos de Cristo se fizermos o que ele nos manda fazer conforme está escrito: "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" (João 15:14); mas se nós dizemos crer em Cristo Jesus e depois recusamos observar as suas palavras como poderemos demonstrar que cremos nele e pretender ser chamados amigos de Cristo e de Deus? Nos meteremos ao mesmo nível de muitas pessoas do mundo que se dizem Cristãs, dizem crer em Jesus, mas sendo incapazes de realizar alguma boa obra demonstram que não crêem nele. Como a fé de Abraão foi aperfeiçoada pelas suas obras, assim também a nossa fé será aperfeiçoada pelas nossas boas obras. O apóstolo Pedro explica isto na sua segunda epístola desta maneira: "Fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2 Ped. 1:10,11). Fazendo o quê? Aquilo que ele falou pouco antes: isto é acrescentando à fé a virtude, a ciência, a temperança, a paciência, a piedade, o amor fraterno e a caridade (cfr. 2 Ped. 1:5-7). Portanto também Pedro cria que acrescentando à nossa fé as boas obras (de facto a piedade, o amor fraterno e a caridade como se manifestam na prática senão fazendo boas obras no relacionamento com aqueles de dentro primeiro, e depois com os de fora?) nos será concedida a entrada no reino de Deus, ou dito de uma outra forma, fazemos segura a nossa vocação e eleição. Reflictamos: porque é que depois de ter crido se sente a necessidade de fazer boas obras?  Sim,  está-se seguro de ter sido perdoado pelo Senhor, sim,  está-se seguro de ser um filho de Deus, de ter a vida eterna; mas apesar disso em nós surge o grande desejo de nos pormos a fazê-las para fazer segura a nossa eleição, porque sentimos que dizendo somente que cremos sem fazer nada em benefício dos santos para a glória de Deus, não fazemos firme a nossa eleição. E depois, deve-se ainda ter presente que as boas obras levam o próximo, que as vê fazer, a glorificar a Deus, de facto Jesus disse: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" (Mat. 5:16); e portanto constituem uma maneira de honrar Deus e a sua doutrina. Ao  contrário o recusar fazer boas obras  leva o nosso próximo a blasfemar o nome de Deus e a sua doutrina conforme está escrito: "O nome de Deus é blasfemado entre os Gentios por causa de vós" (Rom. 2:24).

Para concluir dizemos isto: a fé necessita das boas obras para ser aperfeiçoada, mas isso não significa que a fé não é suficiente para ser justificado porque a Escritura afirma que "o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo" (Gal. 2:16). Longe de nós por isso de nos pormos a fazer como fizeram os crentes da Galácia que depois de ter começado com o Espírito queriam alcançar a perfeição com a carne, depois de ter aceitado Cristo o tinham renunciado porque queriam ser justificados pela lei (cfr. Gal. 5:4), o que fez indignar e preocupar Paulo que os admoestou severamente e disse-lhes que estava de novo em dores de parto por eles até que Cristo fosse formado neles (cfr. Gal. 4:19). Irmãos, cuidai de vós mesmos, e tende sempre presente que procurar querer ser justificado pelas obras é uma ofensa a Cristo porque se anula a sua obra expiatória. Sede zelosos nas boas obras mas não penseis que elas possam acrescentar algo mais aos méritos de Cristo como infelizmente fazem os Católicos romanos.

 

As palavras de Tiago não confirmam a doutrina papista da justificação

 

Se Abraão tivesse sido justificado, ou seja, se ao patriarca Deus tivesse imputado a justiça, mediante a fé e as obras que seguiram, ele teria tido de que se gloriar diante de Deus porque poderia dizer que a justiça lhe tinha sido imputada por Deus não só pela fé mas também pelas suas obras (e portanto não inteiramente pela graça mas também pelos seus méritos pessoais), mas Abraão não podia dizer nada disto porque Paulo diz que "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça" (Rom. 4:3); aquele "isso" refere-se exclusivamente ao seu acto de fé e não ao acto de fé mais obras. Abraão creu na promessa que Deus lhe tinha feito, isto é, que Ele faria a sua descendência semelhante às estrelas do céu que não se podem contar, e em virtude disso foi justificado no instante em que creu com o seu coração nessas palavras de Deus. Não está porventura escrito que "com o coração se crê para a justiça" (Rom. 10:10)? Que há pois de estranho se Abraão por ter somente crido com o seu coração naquela promessa de Deus foi por ele justificado?

Mas há uma coisa mais a dizer: Paulo aos Romanos afirma que "a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé" (Rom. 4:13); isto significa que a herança foi por Deus dada a Abraão pela justiça da fé e não pela justiça das obras. Em outras palavras Abraão tornou-se herdeiro do mundo por meio da fé e não por meio de obras justas feitas. Isso porque ele creu na promessa que Deus lhe daria tantos filhos (a herança que vem de Deus) como as estrelas do céu. Se na realidade ele não tivesse crido como poderia ver o cumprimento daquela promessa divina de se tornar pai de uma multidão? Não está porventura escrito que pela fé os profetas "alcançaram promessas" (Heb. 11:33)? Que dizer então a propósito da promessa que Deus fez a Abraão depois que viu que o patriarca não lhe tinha recusado o seu único filho? Diremos que quando Abraão obedeceu a Deus e foi sobre o monte Moriá oferecer o seu filho Isaque, depois que Deus o deteve confirmou-lhe a promessa que anos antes lhe tinha feito, de facto lhe jurou: "Porquanto fizeste isto, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te abençoarei, e grandemente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus" (Gen. 22:16,17). A confirmou-lhe significa que Abraão já tinha a promessa de Deus, de facto, ela foi feita quando ainda Isaque não era sequer nascido, e portanto não foi por méritos que ele tornou-se pai de muitas nações, mas só pela sua fé tida por ele em Deus antes de ser circunciso e antes de oferecer Isaque sobre o monte Moriá. Por isso Paulo diz aos Gálatas que "se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão" (Gal. 3:18), e aos Romanos que "se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é anulada" (Rom. 4:14), para testificar que como Abraão foi constituído herdeiro do mundo pela sua fé, assim também nós fomos constituídos herdeiros do Reino de Deus pela fé sem as obras; porque se a herança fosse pela fé mais as obras então a promessa seria anulada.

Agora vejamos as consequências práticas a que levariam as palavras de Tiago se quisessem dizer o que lhes fazem dizer os teólogos papistas. Se é a fé mais as obras que justifica, e não só a fé, seria necessário estabelecer quantas obras e de que género são precisas depois de ter crido para ser justificado (Abraão ofereceu em sacrifício o seu filho, Raabe praticou a hospitalidade com os estrangeiros, mas o que teria que fazer o homem para obter esta justificação depois de ter crido?), e então surgiriam as seguintes perguntas: Como se faria para estabelecer a quantidade de obras a fazer para conseguir esta justificação, qual critério importaria adoptar? Como poderia quem creu estar seguro de estar justificado em qualquer momento da sua vida vivendo com a dúvida de não ter feito porventura o suficiente? Não é porventura verdade que um homem nunca poderia estar seguro de ter sido justificado inteiramente por Deus se seguisse a teologia papista? Certamente que seria assim; mas isto é mesmo o querem os papas; ter as pessoas continuamente na dúvida da sua justificação para induzi-las a fazer obras após obras. E assim as almas permanecem escravas do papado.

Além disso, se a justificação se obtivesse pela fé mais as obras, como poderia alguém que se encontra a morrer obtê-la? Ela lhe estaria preclusa porque estaria impossibilitado de fazer boas obras [8]. Em substância, se um moribundo perguntasse o que tem de fazer para ser salvo porque quer ser salvo, teria que se lhe dizer que a fé só não basta, é preciso também as obras: não significaria isto fazê-lo cair no mais profundo desespero em vez de ser-lhe de consolação? E que notícia lhe anunciaremos? Certamente não a Boa Notícia da paz.

E ainda, se além da fé for preciso as obras para ser declarado justo por Deus isso significa que no momento em que alguém crê em Cristo não lhe é imputada toda a justiça de Deus que vem pela fé como diz a Escritura mas apenas uma parte porque restaria ao crente o ter de fazer alguma coisa para assegurar a parte em falta de justiça. Mas tudo isto não se concilia de nenhuma maneira com estas passagens da Escritura: "O fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê" (Rom. 10:4); "Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção..." (1 Cor. 1:30). Portanto a interpretação que lhe dão os Católicos àquelas palavras de Tiago não pode senão ser falsa porque ela não atribui mais inteiramente à fé o poder de fazer justificar o homem, mas o divide entre a fé e as obras.

Mas vamos agora aos factos para ver se Tiago quis dizer aquilo que dizem os Católicos romanos. Os Católicos dizem que a fé mais as obras justifica e que só a fé não justifica; por conseguinte eles deveriam estar seguros de estar justificados porque têm a fé e as obras. Mas os factos demonstram que eles não estão de modo algum seguros de estar justificados. Como é possível isso? É possível porque eles na realidade não creram com o coração para obter o dom da justiça; se de facto tivessem verdadeiramente crido teriam obtido este dom e não estariam mais na dúvida. O facto portanto de eles não ousarem afirmar terem sido justificados uma vez para sempre, ainda que digam crer, porque estão ainda fazendo as obras necessárias para conseguir a justificação, significa que eles não creram de maneira nenhuma. E que é assim, isto é, que verdadeiramente não creram em Cristo Jesus, é confirmado pelo facto de não estarem seguros de terem sido perdoados, de terem a vida eterna e por aí fora. Não disse porventura Pedro que todo aquele que crê em Jesus recebe a remissão dos pecados pelo seu nome (cfr. Actos 10:43)? Como é que então eles que dizem crer não têm a certeza de ter todos os seus pecados perdoados, mas têm que continuamente ir ao padre e fazer obras de satisfação? Não disse porventura Jesus que "Aquele que crê tem a vida eterna" (João 6:47)? Como é que então eles dizem crer mas não têm a vida eterna?

Este facto então de dizer que além da fé é preciso as obras para ser justificado não é mais que um hábil sofisma para disfarçar a própria incerteza mas também o próprio orgulho porque quem fala assim considera que Cristo não fez o suficiente para justificá-lo. Ele demonstra a própria insolência porque desta maneira faz passar Deus por alguém que não pode justificar completamente um homem em virtude só da sua fé, fazendo assim passar Deus por mentiroso. Eis o que acontece na igreja católica romana, faz-se passar Deus por mentiroso. Ó homens e mulheres tende plena confiança nas palavras verazes de Deus em vez de nas falsas dos vossos teólogos e obtereis nesse instante a justificação. Crede que Cristo morrendo na cruz expiou todas as vossas dívidas e vos adquiriu o dom da justiça e que basta a fé para obter a expiação das vossas dívidas e receber o dom da sua justiça; e vereis como nesse instante vos sentireis lavados com o sangue de Cristo e justificados na sua presença pela vossa fé, e portanto pela graça de Deus. Fazei-o, antes que seja demasiado tarde, não deis ouvidos aos sofismas papistas, o Senhor está pronto a justificar-vos.

 

 

A REMISSÃO DOS PECADOS

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

A remissão dos pecados obtém-se com a fé e as obras e ninguém pode estar seguro de possuí-la. O concílio de Trento, em 13 de Janeiro de 1547, decretou o que segue: ‘Ainda que seja necessário crer que os pecados não são perdoados nem jamais foram perdoados, senão gratuitamente pela misericórdia divina, por causa de Cristo: deve dizer-se, todavia, que a ninguém que ostente confiança e certeza da remissão dos seus pecados e que tão somente com isto se tranquiliza, são perdoados ou foram perdoados os pecados. Pois, também entre os  heréticos [9]  e cismáticos pode encontrar-se esta confiança vã e alheia a toda a piedade. Sim, ela aí existe em nossos dias e com grande empenho é pregada contra a Igreja Católica’ (Concílio de Trento, Sess. VI, cap. IX); e também: ‘Quem afirma que para conseguir a remissão dos pecados é necessário que todo homem creia com certeza e sem hesitação alguma da sua enfermidade e indisposição, que os pecados lhe são perdoados: seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 13). Em outras palavras para a igreja católica romana a remissão dos pecados não é algo que se pode obter só pela fé e de que se pode estar seguro de possuir. Também aqui além da fé é necessário as boas obras que segundo eles têm o poder de perdoar os pecados. E para confirmar este poder de perdoar (ou expiar) os pecados que teriam as boas obras os teólogos papistas citam duas passagens dos livros apócrifos; a primeira é a de Tobias que diz: ‘A esmola livra da morte e purifica de todo o pecado’ (Tobias 12:9), a segunda é a do Eclesiástico que diz: ‘A água apaga o fogo, e a esmola apaga os pecados’ (Eclesiástico ou Livro de Ben Sirá 3:29), e esta passagem do Evangelho escrito por Lucas: "Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou..." (Lucas 7:47). Segundo eles Jesus perdoou àquela mulher os seus pecados porque ela lhe tinha regado os pés de lágrimas, os lhe tinha enxugado com os seus cabelos, os lhe tinha beijado e ungido de perfume; portanto ele lhe perdoou os seus pecados com base nas suas obras.

 

 

Confutação

 

A remissão dos pecados obtém-se crendo em Jesus

 

A Escritura diz de maneira inequívoca: "Nele nós temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça" (Ef. 1:7); e também: "Filhinhos, escrevo-vos, porque pelo seu nome vos são perdoados os pecados" (1 João 2:12) e ainda que "o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.." (2 Ped. 1:3). Nós pois, pela misericórdia de Deus, temos o perdão dos nossos pecados, disso estamos certos sem sombra de dúvida; e por isso nós temos a certeza que quando morrermos iremos habitar com o Senhor Jesus no céu porque as nossas vestes foram lavadas e branqueadas com o seu precioso sangue. Mas de que maneira obtivemos a remissão dos nossos pecados? A nós crentes foram perdoados todos os nossos velhos pecados mediante só a fé em Cristo Jesus; sim, por ter somente crido no nome do Filho de Deus. Não somos de modo nenhum presunçosos em fazer esta afirmação porque o próprio Senhor Jesus testificou que a remissão dos pecados se obtém crendo nele quando disse a Saulo: "Aos quais (aos gentios) te envio, para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim" (Actos 26:18). E além de Jesus o testificou de maneira inequívoca também o apóstolo Pedro quando disse em casa de Cornélio: "A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome" (Actos 10:43).

Pode o homem receber a remissão dos pecados pelo batismo por infusão da igreja romana ou indo-se confessar ao padre ou fazendo obras meritórias como diz antes a igreja católica romana? Absolutamente não. O homem pecador que está cheio de dívidas para com Deus pode receber a remissão de todas as suas dívidas somente crendo no nome do Filho de Deus, e de nenhuma outra maneira; ele não poderá receber a remissão dos seus pecados fazendo darramar sobre a sua cabeça a água chamada benta ou indo-se confessar ao padre ou fazendo alguma boa obra. Porquê? Porque o batismo por infusão da igreja romana não perdoa os pecados (como aliás nem  o por imersão porque é pela fé que o deve preceder que se obtém a remissão dos pecados), o padre não tem o poder de perdoar os pecados porque não é Deus, e nas boas obras não há o poder de purificar a consciência do homem das obras mortas. Portanto todos os que pensam ter recebido a remissão dos seus pecados pelo seu batismo recebido em criança (ou em adulto) ou porque se vão confessar ao padre ou que procuram ganhar o perdão de Deus com as boas obras continuam a ser pecadores diante de Deus. O saibam bem os Católicos romanos! Mas o porquê do batismo não perdoar os pecados e o porquê da confissão não perdoar os pecados o veremos muito melhor mais à frente quando falarmos do batismo e da confissão.

Passemos agora à confutação do discurso que os teólogos papistas, apoiando-se nas passagens referidas tomadas dos livros apócrifos e do Evangelho escrito por Lucas, fazem para sustentar o poder expiatório das obras. Em resposta às passagens apócrifas dizemos que a Escritura ensina que não é de modo nenhum mediante obras de penitência que a consciência do crente é purificada dos pecados mas pela graça, mediante a fé no sangue de Cristo conforme está escrito: "Se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os contaminados, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?" (Heb. 9:13,14), e ainda: "O sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado" (1 João 1:7). Estas palavras dado que foram escritas para crentes fazem compreender que a remissão dos pecados cometidos depois de ter crido se obtém pelo sangue de Jesus Cristo (confessando as nossas ofensas a Deus) e não fazendo boas obras. A mesma coisa, de qualquer modo, se deve dizer para a remissão dos pecados cometidos antes de crer, ou seja, que é somente por meio da fé no sangue de Cristo que a se obteve sem fazer algo de bom. Pedro isto o confirmou quando falando na assembleia de Jerusalém disse que Deus não fez alguma diferença entre eles Judeus e os Gentios "purificando os seus corações (dos gentios) pela fé" (Actos 15:9). E recordai-vos que aqui ele fez referência à purificação dos pecados obtida pela fé também por Cornélio que fazia muitas esmolas ao povo; pelo que se deduz que não foram as esmolas de Cornélio a purificar Cornélio dos seus pecados mas a graça de Deus pela sua fé no sacrifício de Jesus. (Isto confirma que os dois livros apócrifos dos quais são citadas aquelas passagens não são inspirados por Deus porque vão contra a doutrina do Senhor). Em resposta à interpretação dada às palavras que Jesus, em casa de Simão, dirigiu àquela mulher que lhe tinha regado os pés com as suas lágrimas e lhe os tinha enxugado com os seus cabelos e beijado e ungido de perfume dizemos isto: não negamos que as coisas que aquela mulher fez para com Jesus foram uma manifestação de amor por Jesus, mas é bom ter presente que as lágrimas daquela mulher eram lágrimas de arrependimento portanto ela se arrependeu dos seus pecados; e depois que Jesus no fim disse-lhe: "A tua fé te salvou; vai-te em paz" (Lucas 7:50). Por isso também no caso dessa mulher se deve dizer que ela obteve a remissão dos pecados por ter crido em Jesus; ou seja mediante só a sua fé sem as suas boas obras. Como teriam podido aquelas suas boas obras para com Jesus expiar todos os seus pecados? De nenhuma maneira; por isso Jesus lhe disse que a sua fé a tinha salvo, e não que as suas boas obras lhe tinham expiado os seus pecados. Certamente se tivessem sido as suas boas obras a salvá-la Jesus lhe o teria dito; e mesmo se tivesse sido a sua fé juntamente com as suas obras a salvá-la Jesus lhe o teria dito. Mas como podeis ver Jesus disse-lhe que a sua fé a tinha salvo.

Demonstrámos portanto que a igreja católica romana ensina o falso a respeito da remissão dos pecados. Por isso ó Católicos romanos que vos baseais nas obras para obter a remissão dos vossos pecados digo-vos: ‘Rejeitai esta doutrina de demónios que vos ensinam os vossos teólogos e aceitai a verdadeira anunciada pelo apóstolo Pedro nestes termos: "A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome" (Actos 10:43). Fazei-o, pelo bem da vossa alma para que ela escape às chamas do inferno quando morrerdes.

 

 

A VIDA ETERNA

 

A doutrina dos teólogos papistas

 

A vida eterna a se tem que ganhar. Quando se fala da salvação mesmo com os Católicos romanos fala-se muito da salvação do inferno, mas sobre ela - como bem sabeis - não estamos em nada de acordo com eles. Nós de facto lhes dizemos que pela graça de Deus temos (ou possuímos) a vida eterna e que por isso quando morrermos iremos logo para o paraíso com Jesus, enquanto eles nos respondem dizendo que não estão seguros de ir para o paraíso mas que estão fazendo o seu melhor para ganhá-lo [10]. E de facto, eles se exprimem quase sempre nestes termos: ‘A vida eterna a se tem que ganhar!’. Mas por que falam desta maneira? Simples, porque os seus padres ensinam-lhes que o paraíso o têm que ganhar. Vejamos de perto alguns destes ensinamentos que lhes são dirigidos: ‘Deus dá o Paraíso aos bons (...) Com o ser bom nós, só com as nossas forças naturais, não poderemos merecer o Paraíso; o merecemos com a graça que Deus nos conferiu no Batismo, pela qual as nossas boas obras adquirem mérito para o Paraíso (....) Cada um espera com muitos sacrifícios e trabalhos conseguir para si um bom estado aqui em baixo, e ganhar bens incertos, que depois se podem perder de um dia para o outro, que jamais podem fazer feliz alguém pois não afagam o coração, e que, de todo o modo, é necessário abandonar em breve pela morte. Pensai ao invés, antes de tudo, ganhar o Paraíso’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 57-58); ‘Por isso na graça da esperança nós aguardamos do Senhor a vida eterna e todas as graças necessárias para merecê-la aqui em baixo; mas para merecê-la de que modo? Com as boas obras’ (ibid., pag. 381); ‘Esperamos salvar-nos porque Deus nos quer salvos, e nós queremos, por nossa parte, fazer o que é necessário para nos salvarmos, ou seja, como dizemos no acto de esperança, esperamos de Deus ‘a vida eterna e as graças necessárias para merecê-la com as boas obras que eu devo e quero fazer’ (ibid., pag. 245); ‘As boas obras são absolutamente necessárias para conseguir a saúde eterna; em outras palavras, não basta a fé, não basta crer para alguém se salvar’ (ibid., pag. 381); ‘Mas não bastam para nos salvar os méritos infinitos de Jesus Cristo? Não bastam, não porque eles não tenham valor suficiente, mas porque o próprio Jesus Cristo quis o concurso e a cooperação das nossas boas obras, porque para nos aplicar o mérito dele, quer que nós sintamos e queiramos em união a Ele, porque quis que nós praticássemos o Evangelho e vivêssemos a vida cristã’ (ibid., pag. 383). Estes ensinamentos estão em pleno acordo com o seguinte decreto do concílio de Trento: ‘Por isso aos que trabalham fielmente até ao fim e esperam em Deus, se há de propor a vida eterna como graça misericordiosamente prometida  aos filhos de Deus, pelos méritos de Cristo Jesus, e como recompensa que, segundo a promessa do próprio Deus, será fielmente concedida pelas suas boas obras e méritos’ (Concílio de Trento, Sess. VI, cap. XVI). A propósito do valor do mérito das boas obras os teólogos papistas fazem uma distinção entre acção merecedora de prémio por conveniência, ou seja, de congruo; e acção merecedora por justiça, ou seja, de condigno. Façamos um exemplo para explicar esta sua particular distinção; um homem salva da morte certa um seu semelhante, neste caso ele é merecedor duma medalha, ou seja, de um prémio, de congruo; um trabalhador trabalha em casa de alguém por um mês e no fim do mês vai cobrar o salário, nesta caso ele recebe a recompensa por justiça, ou seja de condigno. Com este discurso eles querem fazer compreender como a vida eterna é devida por Deus por justiça, ou seja, de condigno ao que faz boas obras. Por isso, para eles, as orações, as esmolas, os jejuns, são merecedoras, mediante a graça, da vida eterna. O cardeal Bellarmino afirmou por exemplo: ‘Com as divinas Escrituras prova-se, que as obras dos justos são merecedoras da vida eterna... O primeiro argumento se extrai daqueles lugares, onde a vida eterna é chamada recompensa; porque, se é recompensa, as boas obras, às quais ela se dá, certamente são méritos. As boas obras dos justos são merecedoras ex condigno, não só em razão do pacto, mas também em razão das obras... Porque Deus remunera as boas obras por mera liberdade ex condigno, isso afirmam todos os teólogos, como se observa por S. Tomás, S. Boaventura, Scoto, Durando e outros, em 4 sent. dist. 46’ (Bellarmino, De Justif., lib. V, cap. 3, 17 e 18).

 

 

Confutação

 

A vida eterna é dom de Deus que se obtém crendo em Jesus 

 

Esta doutrina católica romana que atribui às obras o poder de fazer merecer a vida eterna aos homens e de salvar os homens do inferno é uma doutrina de demónios que até agora levou ao inferno centenas de milhões de pessoas; sim, há centenas de milhões de pessoas a sofrer nas chamas do inferno porque em vida se apoiaram nesta doutrina da salvação lhes ensinada pelos seus padres. Agora a confutaremos.

Segundo o que diz a Escritura, a vida eterna não é a recompensa que Deus dá ao homem que se esforça para ganhá-la, mas ela é o dom que Deus dá ao homem que se arrepende dos seus pecados e crê no nome do Filho de Deus. Paulo diz de facto: "O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rom. 6:23), portanto a vida eterna, sendo o dom de Deus, o homem não a pode nem merecer e nem ganhar praticando o bem, doutra forma o dom não é mais dom. Por conseguinte deve ser rejeitado em bloco o seu discurso sobre o mérito de condigno! E depois, se Deus desse a vida eterna como recompensa (ou galardão) aos que operam, isso significaria que Ele é devedor para com eles porque Paulo diz que "àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida" (Rom. 4:4); e isso não pode ser porque o mesmo apóstolo diz também: "Quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?" (Rom. 11:35). E depois ainda, se as boas obras são merecedoras de vida eterna, então por que motivo alguma vez o Filho de Deus viria sofrer a este mundo? Podia ficar junto de Deus Pai sem vir a este mundo! Mas ele veio justamente por isto, para nos adquirir com o seu sangue a vida eterna e fazer que todos os homens, Judeus e Gentios, pudessem recebê-la por graça mediante a fé n`Ele. Ele sabia que os homens não podem merecer a vida eterna porque todos estão debaixo da condenação e merecem a punição eterna, e por isso veio morrer por nós para que pelos seus méritos, e repito pelos seus méritos, nós pudessemos obter gratuitamente a vida eterna de Deus. E ainda, mas como se pode afirmar que as boas obras são merecedoras de vida eterna quando postas todas juntas não podem de nenhum modo alcançar o valor que tem a vida eterna? Como se pode fazer tal afirmação quando Jesus disse aos seus discípulos: "Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer" (Lucas 17:10) [11]? é preciso ser verdadeiramente arrogante para afirmar que Deus deva dar a vida eterna por justiça aos que fazem obras meritórias! Por estas razões vai rejeitada a doutrina que afirma que a vida eterna é dada por Deus como recompensa.

Disse antes que a vida eterna se obtém só pela fé, e isto é confirmado pelas seguintes Escrituras.

• Jesus disse: "Aquele que crê tem a vida eterna" (João 6:47), e: "Porquanto esta é a vontade de meu Pai: Que todo aquele que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia" (João 6:40), e   ainda: "E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:14-16). Vejamos qual foi a razão pela qual Moisés levantou a serpente de metal no deserto. Quando os Israelitas no deserto murmuraram contra Deus e contra Moisés "o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que morderam o povo; e morreu muito povo de Israel. Pelo que o povo veio a Moisés, e disse: Pecamos, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor para que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o Senhor a Moisés: Faz uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o mordido que olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma serpente mordido a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia" (Num. 21:6-9). Ora, Jesus comparou o seu levantamento ao da serpente de metal feito no deserto, e a comparação é verdadeiramente apropriada porque como os Israelitas mordidos pelas serpentes para escapar à morte tinham só que olhar a serpente de metal levantada por Moisés (notai de facto que os que eram mordidos, para não morrer, tinham só que olhar para a serpente de metal e não cumprir algum rito ou alguma boa obra escrita na lei), assim os homens mortos nas suas ofensas para serem vivificados e obterem a vida eterna de Deus têm somente que ver o Filho de Deus e crer nele. Nele que primeiro foi pendurado no madeiro da cruz e depois de ter ressuscitado dos mortos foi recebido à direita de Deus. Sim, é assim mesmo que se obtém a vida eterna de Deus, (somente) crendo em Cristo Jesus; e não fazendo boas obras ou nos esforçando para sermos bons como antes proclamam os teólogos papistas mortos nas suas ofensas que falam desta maneira porque eles próprios ainda não viram o Filho e não creram n`Ele. São como os Fariseus do tempo de Jesus os quais investigavam as Escrituras que davam testemunho de Jesus porque pensavam de ter a vida eterna por meio delas mas não queriam ir a Ele para obter a vida.

• João o Batista disse: "Quem crê no Filho tem a vida eterna" (João 3:36).

• Paulo disse a Timóteo: "Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal [pecador], Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna" (1 Tim. 1:16).

Ora, nós que cremos no Senhor temos, pela graça de Deus, a vida eterna porque João disse: "Estas coisas vos escrevo, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna" (1 João 5:13). Ele não disse: ‘A vós que credes no nome do Filho de Deus, para que espereis obter a vida eterna’, como se nós crentes não possuíssemos já a vida eterna em nós mesmos, mas disse nos ter escrito aquelas coisas para nos fazer saber que nós temos já a vida eterna. O mesmo apóstolo diz também: "Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho... E o testemunho é este: Que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida" (1 João 5:10,11,12). Estas palavras confirmam plenamente que nós que cremos temos a vida eterna; como fazemos para dizê-lo com certeza de fé? Por causa do testemunho que o Espírito Santo nos dá interiormente. O Espírito é verdade e por isso não pode mentir; nós cremos no que o Espírito nos testifica em nós, que confirma plenamente o que diz a Escritura. E depois, reflectindo mais sobre as palavras de João, como podem os Católicos romanos afirmar que um crente que recebeu Cristo no seu coração não pode dizer com certeza de fé ter a vida eterna, quando Jesus Cristo é "a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada" (1 João 1:2) e "quem tem o filho tem a vida" (1 João 5:12)? Quando falam assim é como se dissessem que um cidadão italiano não pode dizer que tem a cidadania italiana porque isso é orgulho! Para eles: ‘Presumir se salvar sem mérito é soberba que ofende a justiça de Deus e, quase, se escarnece dela, como se Ele nos deva o Paraíso, ou nos deva premiar pelo bem que não quisemos fazer’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 245). Assim dizendo eles nos acusam de ser presunçosos porque nós dizemos ter sido salvos pela graça de Deus, mas sabei que os presunçosos não somos nós que lhes dizemos que estamos certos de ter a vida eterna pela graça de Deus porque cremos e continuamos a crer, mas são eles que dizem que se é salvo no reino celestial fazendo boas obras. Portanto, para concluir: a acusação de ser presunçosos e orgulhosos que nos é movida pelos Católicos romanos porque dizemos que temos a vida eterna, não é mais que uma calúnia. Mas aliás é inevitável que os que procuram ganhar a vida eterna com as suas obras vejam com maus olhos os que dizem que a obtiveram crendo, gratuitamente, sem fazer alguma boa obra.

 

O cristão está certo que quando morrer irá para o paraíso com Jesus

 

Nós crentes como pela graça de Deus temos a vida eterna em nós, assim estamos certos que quando morrermos, na condição naturalmente de conservarmos a fé até àquele dia, iremos para o céu habitar com Jesus porque Jesus disse: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá" (João 11:25,26), e também: "Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estiver, ali estará também o meu servo" (João 12:26). E "como temos o mesmo espírito de fé que está nessa palavra da Escritura: Cri, por isso falei; também nós cremos, e por isso também falamos" (2 Cor. 4:13 Riveduta), dizendo como os apóstolos: "Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, e habitar com o Senhor" (2 Cor. 5:8). Sim, temos a tal respeito em nós o mesmo sentimento que estava em Paulo o qual tinha o desejo de partir e estar com Cristo, porque estar com Cristo no céu é coisa muito melhor, de longe, do que ficar na terra. Tudo isto para os teólogos papistas é descarada presunção; porque segundo eles, antes de ir para o paraíso todos aqueles que morrem na graça têm de ir para o purgatório expiar a pena dos seus pecados! E ai de quem não aceita esta sua doutrina porque o concílio de Trento disse: ‘Se alguém disser que recebida a graça da salvação, os pecadores arrependidos da culpa são de tal modo perdoados e lhes são apagados os vestígios da pena eterna, que não lhe resta vestígio algum de pena temporal que tenha que pagar, seja neste século, ou no futuro, no purgatório, antes que lhe possa ser aberta a entrada no Reino dos Céus: seja anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 30). Mas não é de modo nenhum assim como dizem eles, porque a Escritura ensina que quando Deus perdoa os pecados a um homem lhe perdoa por consequência também a pena eterna. O exemplo do ladrão arrependendo-se sobre a cruz no momento da morte dele é um exemplo, porque Jesus lhe perdoou todos os seus pecados com os relativos vestígios de pena eterna, de facto lhe disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:43). Jesus não lhe disse que primeiro tinha que ir estacionar no purgatório algum tempo para se purgar de uma parte da pena eterna dos seus pecados e depois poderia ir para o paraíso, mas disse-lhe que naquele mesmo dia ele iria para o paraíso! Reflecti; mas não é absurdo crer que Deus perdoa todas as dívidas ao homem que se arrepende e depois, quando morre, o manda para um lugar de tormentos como o purgatório  expiar parte delas antes de fazê-lo entrar no reino dos céus? No entanto isso é o que crêem os Católicos romanos! Com isto não queremos dizer que nós crentes chegámos à perfeição ou que estamos sem pecado; longe de nós isso, porque nós reconhecemos ser pessoas com defeitos que temos necessidade de ser aperfeiçoados e de nos aperfeiçoarmos, e que por vezes fazemos o que odiamos e necessitamos por isso de confessar as nossas ofensas ao Senhor para obter a remissão delas. Mas apenas queremos dizer que em virtude da misericórdia de Deus pela qual Ele nos fez renascer e tornar filhos de Deus e nos deu a vida eterna, estamos seguros de ter sido plenamente perdoados pelo Senhor, de ter recebido a purgação de todos os nossos pecados e por isso se morrermos com Jesus com ele iremos viver no céu logo depois de morrer. A chamem também presunção esta nossa confiança os teólogos papistas; continuem os concílios a lançar os seus anátemas contra quem, segundo eles, ostentar esta certeza de remissão dos pecados e da vida eterna; nós continuaremos a gloriar-nos no Senhor por ter obtido a purgação dos nossos pecados com o sangue de Jesus, continuaremos a glorificar o seu nome por isso, e continuaremos a pregar aos homens que em Cristo há a certeza de remissão dos pecados, que nele há a certeza de ter a vida eterna; mas na teologia papista há ambiguidade, falsidade, incerteza; coisas que geram nas pessoas que a aceitam nada mais que dúvidas, angústias e incertezas. Ó homens e mulheres que jazeis no medo da morte e não sabeis para onde estais indo (ou melhor sabeis que ireis para um purgatório que porém não existe) porque tendes dado ouvidos aos falsos ensinamentos dos padres, vos suplicamos em nome de Cristo a vos arrependerdes e a crer em Cristo para obter a remissão dos pecados e a vida eterna!

Concluindo; seja a salvação do pecado, seja a justificação, seja a remissão dos pecados e seja a vida eterna se obtêm só pela fé, portanto sem o concurso de nenhuma boa obra; a santificação, pelo contrário, que nós temos por fruto (ou seja a progressiva), se obtém observando os mandamentos de Deus, ou seja, pelas boas obras. Em outras palavras, as boas obras são os frutos que brotam da nossa salvação e da nossa justificação obtidas por fé, mas não são a fonte da salvação e da nossa justificação e não podem concorrer de nenhuma maneira para salvar e para justificar o homem, porque "o justo pela sua fé viverá" (Hab. 2:4) e não por causa de obras meritórias.

 

O cristão está certo que será salvo da ira vindoura

 

Os Católicos afirmam: ‘Esperamos nos salvar’, querendo dizer com estas palavras: ‘Não estamos seguros que seremos salvos porque ninguém o pode estar, mas não tem importância, porque provavelmente Deus que é tão misericordioso terá piedade de nós e nos salvará’. Estas suas palavras demonstram que eles não estão certos que serão salvos da ira vindoura, como nós não estamos certos do tempo que fará amanhã porque dizemos: ‘Esperamos que o céu esteja sereno’, ou: ‘Esperamos que chova’, e por aí fora. Mas este modo de falar a respeito da salvação é característico de todos os que ainda não passaram da morte para a vida, das trevas para a luz; por isso não nos admiramos dele.

A sagrada Escritura nos ensina que o crente foi arrancado do poder das trevas e transportado para o reino de Deus e está certo que será salvo da ira vindoura; eis algumas Escrituras que testificam isso.

• "Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Logo muito mais, sendo agora justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom. 5:8-10);

• "Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Tess. 5:9);

• "Vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, e esperardes dos céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira vindoura" (1 Tess. 1:9,10).

Portanto, não é presunção afirmar que nós seremos salvos da ira vindoura. Mas como pode ser definida presunçosa uma pessoa que tem fé em Deus quando está escrito que "a fé é a certeza das coisas que se esperam" (Heb. 11:1)? Mas há também exemplos na Escritura que nos ensinam como o crente está certo de escapar à ira de Deus; eles são os de Noé, de Ló e do povo de Israel.

Noé por exemplo quando entrou dentro da arca e o Senhor o fechou dentro estava certo de escapar ao juízo que Deus enviaria dali a pouco sobre o mundo dos ímpios porque Deus lhe tinha dito: "Tudo o que há na terra expirará. Mas contigo estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservares vivos contigo" (Gen. 6:17-19).

Também Ló, depois que Deus o tirou de Sodoma, estava certo que refugiando-se na cidade de Zoar não pereceria no castigo de Sodoma porque quando ele disse a um dos anjos de Deus: "Eis ali perto aquela cidade, para a qual eu posso fugir, e é pequena. Permite que eu me escape para lá (porventura não é pequena?), e viverá a minha alma!" (Gen. 19:20), aquele lhe respondeu: "Quanto a isso também te hei atendido, para não destruir a cidade de que acabas de falar. Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado" (Gen. 19:21,22).

E vejamos os Israelitas no Egipto: não é porventura verdade que eles estavam certos que naquela noite o destruidor não entraria nas suas casas? Mas por que estavam certos disso? Porque Deus tinha lhes dito: "O Senhor passará para ferir aos egípcios, porém quando vir o sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o Senhor passará aquela porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para vos ferir" (Ex. 12:23). Eles creram nas palavras de Deus, fizeram a aspersão do sangue como Deus lhes tinha ordenado, e por isso estavam seguros de que quando o anjo do Senhor naquela noite visse aquele sangue passaria além das suas casas. Também nós que fomos aspergidos com o sangue de Jesus Cristo estamos seguros que o Senhor nos salvará da ira vindoura; ele o prometeu e nós cremos firmemente nas suas palavras. Podemos dizer desde agora que por fé nós não pereceremos com os filhos de desobediência.

A Deus, nosso Salvador e Benfeitor, seja a glória agora e eternamente em Cristo Jesus. Amen.

 

 

CONCLUSÃO

 

Eis portanto demonstrado com as Escrituras que a libertação do pecado, a justificação, a remissão dos pecados e a vida eterna se recebem de Deus só por meio da fé no Cristo de Deus, morto e ressuscitado ao terceiro dia. É portanto falso que o batismo, seja ele ministrado a bebés ou a adultos, confere a libertação do pecado, a justificação, a remissão dos pecados e a vida eterna; porque por quanto respeita ao bebé ele não tem ainda a fé, enquanto o adulto que verdadeiramente creu no Senhor ainda antes de receber o batismo foi libertado do pecado, justificado, perdoado e recebeu a vida eterna, e isto exactamente porque ele já tem a fé, ele creu que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação. Por quanto  respeita depois ao após batismo, como se possui a fé, assim está-se certo de estar salvo do pecado, justificado e perdoado e de ter a vida eterna. Nenhuma dúvida a respeito; o Espírito Santo no coração do crente lhe testifica de maneira clara e inequívoca que ele é um filho de Deus lavado no sangue do Cordeiro e por isso herdeiro do Reino de Deus com todos os outros resgatados. Que dizer então dos pecados cometidos depois do batismo? Eles devem ser confessados a Deus que na sua fidelidade e justiça os perdoará; ele nos purificará deles com o sangue do seu Filho. Nenhum mediador terreno é necessário para obter a remissão deles, porque temos um mediador no céu que nos defende na presença de Deus; o seu nome é Jesus Cristo, ele é o nosso advogado, e em virtude da sua intercessão nós sabemos ter os nossos pecados perdoados plenamente. Em virtude desta sua obra intercessória nós crentes continuamos a ter pela fé a certeza da salvação. Mas além de não haver de modo nenhum a necessidade de um homem como o padre que pretende em nome de Deus perdoar os pecados cometidos depois do batismo, não há também a necessidade das obras de satisfação para obter a expiação dos pecados cometidos depois do batismo porque o preço pela sua remissão já foi pago plenamente por Cristo na cruz. As boas obras não acrescentam nada à obra de Cristo; as boas obras não podem merecer-nos o perdão dos pecados; elas devem ser sim praticadas em todo o tempo, mas por elas não se pode pensar pagar a Deus parte do preço devido pelas nossas transgressões porque isso constituiria uma ofensa para Cristo. Também o perdão dos pecados depois do batismo é totalmente gratuito. É preciso pedi-lo com arrependimento e por certo ele não nos será negado por Aquele que não poupou o seu próprio Filho mas o deu por todos nós quando éramos ainda pecadores, sem força, longe de Deus e seus inimigos. É ainda portanto pela fé que se continua a ser perdoado plenamente pelo Senhor. Assim sendo, o crente está seguro que quando morrer o Senhor o receberá em glória; não terá que passar por nenhum purgatório. Se Cristo à sua direita intercede por nós por que motivo teríamos que ir para um purgatório? Se Ele nos purifica de todo o pecado em virtude da fé que nós continuamos a repor no seu sangue precioso, por que razão alguma vez nos teria que enviar depois de mortos a penar num lugar de tormento? Não, Ele é fiel e os seus anjos nos escoltarão para a casa de seu Pai quando morrermos porque o seu sangue está sobre nós. A doutrina de Deus a respeito da salvação é clara, e é de grande consolação para os que creram no Senhor; mas haveis notado quanto obscura é a papista e como não é de nenhum conforto para os que a aceitam porque os continua a manter na dúvida, na maior incerteza? E porquê isso? Porque a salvação ‘papista’ se funda na água chamada benta que é dito tem o poder de cancelar todo o pecado, em vez de no sangue precioso de Cristo; e nas obras de satisfação que o homem tem de fazer em vez de na obra de satisfação perfeita e feita uma vez para sempre por Jesus Cristo para a remissão dos nossos pecados, em outras palavras nos méritos do homem em vez de nos de Cristo Jesus, o Filho de Deus. Papas, cardeais, bispos, padres e simples Católicos, falam sempre de obras a fazer como se a salvação fosse por merecer; mas nunca se lhes ouve dizer que a obra de Cristo feita na cruz é perfeita com nada em falta e que quem nele crê é plenamente salvo. Baseiam-se nos seus méritos em vez de nos de Cristo; por isso o Evangelho está-lhes encoberto, por isso não têm a certeza da salvação. Que fazer pois em relação a eles? Conjurá-los em nome do Senhor a se arrependerem e a crer em Jesus Cristo, a renunciar à justiça deles que é um trapo imundo diante de Deus, para receber a de Deus baseada na fé que é uma veste branca, mais branca do que a neve diante de Deus. Eles nos dirão: ‘Mas por que não ides pregar aos pagãos que se encontram na selva ou em outras partes remotas da terra? Nós já somos Cristãos, não necessitamos da vossa evangelização’. Não, não é assim, porque o seu não é cristianismo mas paganismo camuflado de cristianismo; e eles não são Cristãos, mas pagãos que não conhecem a Deus. Avante portanto com o evangelizar os Católicos romanos; arrebatemo-los do fogo.

 

 

 

NOTAS

 

[1] Para compreender bem a doutrina papista sobre a salvação é indispensável conhecer o que os teólogos dizem sobre o batismo e sobre a confissão. Por isso vos convido a ler atentamente a exposição detalhada destes seus dois sacramentos. É uma doutrina bastante complicada, disto me dou perfeitamente conta irmãos, mas uma vez percebido o mecanismo, torna-se mais fácil identificar os erros papistas e confutá-los.

 

[2] A libertação do pecado (que constitui também a libertação do presente século mau que jaz no maligno), a justificação, a remissão dos pecados e a obtenção da vida eterna (que implicitamente significa ser salvo do inferno) são tudo coisas estritamente conexas, porque segundo a Escritura o homem é libertado do pecado, justificado, perdoado, e obtém a vida eterna (escapando às chamas do inferno porque a ira de Deus é removida de sobre ele) quando se arrepende e crê no Senhor. Com efeito pode-se dizer que estas coisas são todas aspectos da salvação de Deus que está em Cristo Jesus. Eis porque quando dizemos que fomos salvos, dizemos ao mesmo tempo mais coisas, a saber, que fomos libertados do domínio do pecado e do presente século mau, fomos justificados, obtivemos a remissão dos pecados, obtivemos a vida eterna e estamos por isso seguros de escapar às chamas do Hades quando morrermos. Eu achei por bem tratar estes aspectos da salvação separadamente para tornar o mais claro possível tanto a exposição da doutrina católica romana como a exposição da doutrina de Deus. E dado que tenho falado da salvação, não se esqueça que um outro seu aspecto é a redenção do nosso corpo que tem ainda que cumprir-se conforme diz Paulo aos Romanos: "Também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (Rom. 8:23). Porque, como diz Paulo logo depois, "em esperança fomos salvos" (Rom. 8:24). Esta redenção corporal se cumprirá na ressurreição que terá lugar na vinda de Cristo. Portanto quando dizemos que fomos salvos queremos dizer também que, dado que fazemos parte do número dos eleitos chamados ao reino e à glória, naquele dia o nosso corpo será remido da corrupção, da fraqueza, e da mortalidade porque será feito semelhante ao corpo da glória de Jesus Cristo (cfr. Fil. 3:21); seremos em outras palavras feitos participantes da glória obtida por Cristo na sua ressurreição. Glória a Deus eternamente. Amen.

 

[3] Deveria-se portanto chegar à conclusão que com o batismo, a confissão, crendo e fazendo actos de piedade como dizem eles, uma pessoa pode estar certa da sua salvação: mas o facto é que depois de ter seguido escrupulosamente todas as suas prescrições o penitente continua inevitavelmente a declarar não ter a certeza da salvação. Antes é obrigado a declarar não ter esta certeza para não ser atingido pelo anátema lançado contra os que ousarem dizer uma tal coisa. Tem que portanto haver forçosamente alguma coisa que não bate bem neste sistema. Pode alguma vez ser que Jesus tenha vindo para deixar as pessoas que nele crêem na incerteza da sua salvação?

 

[4] Quando se é libertado da escravidão do pecado se é também resgatado do presente século mau e das mãos daquele que domina este mundo, isto é, o diabo, pelo que quando falo da libertação do pecado refiro-me implicitamente também ao resgate do mundo e do poder de Satanás. Segundo a Palavra de Deus de facto a libertação do domínio do pecado coincide com a libertação do presente século e do poder de Satanás. Paulo por exemplo diz aos Gálatas que Cristo "se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau" (Gal. 1:4) e a Tito diz que Cristo se deu a si mesmo por nós "para nos remir de toda a iniqüidade.." (Tito 2:14) e aos Colossenses que "[o Pai] nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado" (Col. 1:13).

 

[5] Recordamos que o concílio de Trento (1545-1563) foi a resposta da igreja católica romana aos reformadores que pregavam a justificação só pela fé.

 

[6] Deve ser dito que os teólogos papistas para procurar defender-se da acusação de ensinar a justificação pelas obras condenada por Paulo afirmam que as obras de que eles falam não são as antecedentes à fé mas as que seguem a fé de que fala Tiago. Em substância eles dizem que quando Paulo diz que não se é justificado pelas obras refere-se às obras da lei antecedentes à fé em Cristo (isto é, que não têm por princípio e raiz a fé de Jesus Cristo), enquanto quando Tiago fala da justificação pelas obras refere-se às obras que seguem a justificação, isto é, as que têm a sua raiz na fé em Jesus. Mas este discurso não procede porque, mesmo se admitíssemos que os Católicos creram e que por isso as obras que fazem seguem a sua fé, teria sempre que se dizer que eles procuram ser justificados através delas com base na sua teologia. E por isso neste caso incorreriam no mesmo erro dos Gálatas que depois de ter começado pelo Espírito queriam alcançar a perfeição com a carne, isto é, com as boas obras, e tinham renunciado assim a Cristo caindo da graça. O apóstolo Paulo foi claro em relação a eles: " Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído". (Gal. 5:4) Portanto à luz das Escrituras é um erro tanto o procurar ser justificado mediante as obras da lei sem crer no Evangelho (como fazem os Judeus por exemplo), como também o procurar ser justificado pelas mesmas obras depois de ter crido no Evangelho porque desta maneira se renuncia a Cristo e se cai da graça. Portanto aqueles Católicos que dizem de ter crido (o que nós sabemos porém que não é assim) e de fazer as boas obras para serem justificados deveriam ser repreendidos como os Gálatas desta maneira: ‘Separados estais de Cristo que foi feito nossa justiça, da graça tendes caído: quem vos fascinou ó Católicos insensatos?’ Atenção pois aos sofismas dos teólogos papistas!]

 

[7] Recordai-vos que aqueles a quem Tiago escreveu eram crentes que matavam, invejavam, contendiam, que tinham-se tornado inimigos de Deus porque tinham querido tornar-se amigos do mundo, crentes ricos materialmente que passavam por cima dos direitos dos seus empregados, crentes que tinham grande atenção para as pessoas ricas e desprezavam o pobre, e que murmuravam uns contra os outros; portanto é perfeitamente compreensível o duro discurso de Tiago.

 

[8] Deve ser dito porém que os teólogos papistas, para contentar um pouco a todos, com os enésimos sofismas concedem a justificação ao moribundo também sem batismo e sem penitência! Como? Com o batismo de desejo ou o de sangue, e o óleo santo (tudo coisas que analizaremos mais à frente).

 

[9] O termo deriva do grego hairetikos que significa ‘cismático’ ou ‘sectário’ e designa quem decide separar-se da Igreja para ir atrás de estranhas e diferentes doutrinas. O termo tem portanto um significado negativo. No Novo Testamento este termo está presente no seguinte versículo: "Ao homem faccioso (hairetikos), depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado" (Tito 3:10,11 Almeida Revista e Actualizada). Na versão Revista e Corrigida de Almeida está traduzido pondo "Ao homem herege..." e assim também os tradutores da King James Version (Versão do Rei Tiago) de 1611: "A man that is a heretic...". Os Protestantes foram desde o início definidos hereges ou heréticos.

 

[10] Deve ser dito porém que os Católicos romanos ainda que digam que estão ganhando o paraíso, no fim têm que ir sempre para o purgatório (que é um lugar de tormento para eles) porque para eles para o céu apenas vão logo os santos, isto é, aqueles que estão puros de toda a mancha, e eles dado que não o estão, porque dizem de ser pobres pecadores, têm de primeiro se ir purgar das suas culpas no purgatório para poder depois aceder puros de toda a escória ao paraíso.

 

[11] Estas palavras de Jesus anulam a doutrina sobre o mérito de condigno propugnada pela igreja papista porque põem em claro como as boas obras não podem fazer merecer a vida eterna ao crente. Mas raciocinai: por que razão depois de ter recebido o dom da vida eterna no momento em que crê, o crente a teria que merecer no curso da vida fazendo boas obras? Se é chamada o dom de Deus não é um contra-senso afirmar que depois de tê-lo recebido se deve merecer? Não é antes  caso de dizer que uma vez recebido este dom é necessário conservá-lo para não perdê-lo? Porventura não disse Paulo a Timóteo: "Toma posse da vida eterna" (1 Tim. 6:12) e não ‘ganha a vida eterna com os teus méritos’? Com efeito procurar merecê-la significaria procurar pagar a Deus o preço da sua compra pago por Cristo Jesus o que constitui uma ofensa para Cristo! Seria como dizer: Tratemos de pagar a Deus o presente dele recebido!

 

 

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