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Capítulo 1 A salvação |
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A
doutrina dos teólogos papistas em termos gerais |
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A igreja católica romana afirma que ‘o Filho de Deus se fez homem para nos salvar, isto é, para nos
redimir do pecado...’ (ibid.,
pag. 71). Portanto, ela ensina o justo nisto; mas passando a explicar como
Cristo nos salva ela afirma uma heresia porque diz que Cristo ‘nos redimiu do
pecado original que cancela em nós com o Batismo, e nos redime dos nossos
pecados com a Penitência que nos os perdoando, nos poupa também o Inferno por
eles merecido, e nos readquire o direito ao Paraíso’ (ibid., pag. 71). O que querem dizer estas palavras? Isto, que
quando a criança é batizada (ou seja, - para eles - quando lhe é derramada a
água benzida sobre a cabeça) é libertada da escravidão do pecado, é
justificada diante de Deus, lhe é cancelado o pecado original, e obtém a
entrada no paraíso (sem fé portanto); depois quando cresce e comete pecados
mortais, que são os únicos que segundo a teologia papista a privam da graça
divina e a fazem digna de pena ou morte eterna no inferno, então se deve ir
confessar ao padre, que a redime deles, a justifica, e lhe os perdoa,
absolvendo-a e dando-lhe obras de penitência a fazer para expiá-los
plenamente porque os méritos de Cristo não bastam: o homem deve também ele
dar a sua parte de satisfação pelos seus pecados a Deus! Assim, através da
confissão feita ao padre e a observância das obras lhe prescritas, ela pode
recuperar a graça perdida, e merecer o paraíso [1].
Na substância a salvação de que falam os teólogos papistas não se obtém
somente pela fé (e portanto não pela graça de Deus) o que equivale a dizer
que Cristo na realidade não veio para nos salvar mas a nos ajudar para que
nos salvássemos a nós mesmos. Quis fazer esta premissa para fazer
compreender, sem entrar por agora nos detalhes destes dois sacramentos
essenciais para a salvação (isto o faremos quando falarmos especificamente
deles), que a teologia papista ensina não a salvação (só) pela fé, como
ensina a sagrada Escritura, mas uma salvação por meio do batismo quando se é
menino (ou quando se é adulto) e por meio da penitência (o que implica sempre
- se tenha presente isto - o ter que fazer alguma coisa para expiar os
pecados) quando se é crescido. É verdade que falam também eles de fé, mas (além
de fazer estranhas distinções de fé como a entre a fé teologal e a de
confiança) fazem compreender claramente, e repito claramente, que só pela fé
não se é salvo, só pela fé não se obtém a remissão dos pecados, só pela fé
não se é justificado, só pela fé não se obtém a vida eterna. A sua mensagem
na substância é esta: ‘Não basta crer para ser salvo, justificado, perdoado,
e entrar no paraíso’. |
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Ora, como assinalei antes, para a teologia papista há uma
redenção, uma remissão dos pecados, uma justificação com o relativo direito
de ir para o paraíso, que se obtém sem fé e sem obras com o batismo por
infusão poucos dias depois de que se nasce; e depois há uma outra redenção,
uma outra remissão dos pecados, uma outra justificação com o direito de ir
para o paraíso que se obtém pelo sacramento da penitência quando se é maior -
após ter cometido os chamados pecados mortais - fazendo obras de misericórdia
e mortificações. Eu nesta primeira parte do livro confutarei principalmente a
doutrina que diz que a libertação do pecado, a justificação, a remissão dos
pecados, e a vida eterna se obtêm por obras meritórias, em outras palavras a
salvação pelas obras prescrita aos adultos pela igreja papista que podemos
muito bem chamar auto-redenção. Sim, porque nos factos a redenção oferecida
pelo catolicismo aos homens é uma auto-redenção porque ela se funda
essencialmente nos méritos humanos que consistem no catolicismo em jejuns,
mortificações, actos de misericórdia, esmolas, orações e cerimónias chamadas
sagradas. Isto é um dado de facto; mas os teólogos papistas sabem bem
disfarçar esta auto-redenção falando de graça. Mas de uma graça subdividida
em duas espécies; graça santificante e graça sacramental que são conferidas
ao homem pelos seus sacramentos. Sem entrar em detalhes limito-me a dizer que
esta sua graça conferida pelos sacramentos torna o homem idóneo de merecer, e
repito merecer, a salvação eterna. |
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Ora, com a graça de Deus, demonstrarei que não é de modo
nenhum em virtude de obras que se é libertado dos pecados, que não é em
virtude de obras que se é justificado, que não é em virtude de obras que se
obtém a remissão dos pecados, e que não é em virtude de obras que se obtém a
vida eterna [2], mas só e
exclusivamente mediante a fé, portanto pela graça de Deus (gratuitamente). E
que por isso todo o mérito humano é excluído da maneira mais absoluta; todo o
esforço humano feito para ganhar a salvação é vão e ofensivo para Cristo
Jesus. A salvação é por graça, totalmente por graça; o homem não tem de
ganhá-la, mas somente a tem que receber da mão de Deus. Esta é a mensagem que
está na base do Evangelho; se ela falta, falta o Evangelho. E na igreja
católica romana falta isto mesmo, o Evangelho da graça de Deus. Agora o
demonstrarei. |
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A
LIBERTAÇÃO DA ESCRAVIDÃO DO PECADO |
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A
doutrina dos teólogos papistas |
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A redenção do
pecado obtém-se pelo batismo e a penitência. Os méritos de Cristo não bastam
para recebê-la, é necessário por isso fazer boas obras para obtê-la. Os teólogos papistas - como já assinalei - sustentam que o batismo
liberta do pecado quem o recebe (portanto não apenas os infantes mas também
os adultos que por exemplo se convertam do budismo ao catolicismo); e afirmam
também que uma vez batizado se se cometerem pecados ‘mortais’ perde-se a
graça e portanto é necessário ir fazer a confissão ao padre para obter a
libertação deles e recuperar a graça perdida. Deve ser dito porém que embora
o padre tenha recebido de Cristo a autoridade de perdoar os pecados, ao
penitente após a confissão permanece por expiar uma parte da pena merecida.
Porquê isto? Porque os méritos de Cristo (que o padre pretende aplicar ao
penitente com a fórmula absolutória) são insuficientes para salvá-lo pelo que
não é suficiente a fé para salvá-lo, ou seja, para ele não é suficiente
arrepender-se e crer que Jesus Cristo morreu também pelos seus pecados sobre
a cruz e ressuscitou para sua justificação, mas é preciso também boas obras
(chamadas obras de satisfação). E como sustentam isto com as sagradas
Escrituras? Tomam as seguintes palavras de Paulo aos Colossenses: "E cumpro na minha carne o que resta das aflições de
Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja" (Col. 1:24), e
dão-lhe este significado: ‘Nós devemos cooperar com Cristo para a nossa
salvação mediante as nossas obras meritórias, portanto com os nossos
sofrimentos; isto porque nós devemos cumprir o que resta das aflições de
Cristo’. Portanto quando se ouve falar de redenção aos Católicos é necessário
ter presente as seguintes coisas; que o batismo e a penitência são
considerados indispensáveis para ser salvo (isto o veremos melhor mais à
frente), e que no caso do adulto que se vai confessar após ter pecado
‘mortalmente’ contra Deus, a fé em Cristo somente não o pode de algum modo
redimir porque ele é chamado a fazer obras de satisfação. Eis porque os
teólogos papistas repetem continuamente que a fé somente não salva, que não
basta somente crer para ser salvo: porque segundo eles para ser salvo é
preciso a fé e as boas obras [3]. Mas
as coisas não são de modo nenhum assim, porque se para ser salvo por Cristo
além da fé são necessárias obras justas então a salvação cessa
automaticamente de ser por graça ou seja gratuita. |
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Confutação |
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Se é libertado da lei do pecado e da morte
crendo em Jesus e portanto por graça |
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A sagrada Escritura afirma que todos pecaram, por isso
todos são escravos do pecado que cometem conforme está escrito: "Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado"
(João 8:34); e ela afirma que para alguém ser libertado da escravidão do
pecado é necessário somente arrepender-se dos pecados e crer em nosso Senhor
Jesus Cristo [4]. Portanto é de
excluir-se que o batismo (seja por infusão ou por imersão) salva do pecado,
porque a fé (que é a que salva) deve preceder e precede o batismo; como
também que a confissão ao padre redima do pecado porque, segundo a Escritura,
há necessidade apenas de arrependimento e de crer com o coração em Cristo
Jesus para obter a redenção do pecado, sem necessidade alguma de um mediador
terreno. As seguintes Escrituras testificam de maneira inequívoca que se é
salvo somente pela fé, e portanto não pelo batismo que segue a fé e nem
através das boas obras. |
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• Paulo e
Silas, quando o carcereiro de Filipos perguntou-lhes: "Senhores, que é
necessário que eu faça para me salvar?" (Actos 16:30), lhe responderam:
"Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu a a tua casa" (Actos
16:31). |
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Eles não lhe disseram: ‘Batiza-te e serás salvo’ e nem:
‘Faz boas obras e serás salvo’, porque sabiam que o homem é salvo pela fé no
Senhor Jesus e não pelo batismo ou pelas boas obras. Mas ponhamos o caso
desta pergunta ser feita a um padre, que responderá ele? Ele responderá
assim: deves antes de tudo batizar-te, deves crer todas as coisas que Deus
revelou à sua Igreja e que estão na Bíblia e na tradição e depois deves fazer
obras justas. Depois de teres feito tudo isto porém não podes estar certo de
estar salvo porque poderás cair em algum pecado mortal e perder assim a graça
recebida; neste caso, de qualquer modo, há a confissão que te salva. Mas para
fazer uma boa confissão são precisas diversas coisas e depois que tu faças as
obras prescritas pelo confessor. Procura receber os sacramentos da igreja e
fazer o teu melhor e espera ser salvo mas nunca digas que estás salvo: isso é
descarada presunção. Mas dizei-me: Não é tudo isto um caminho muito
complicado e completamente inseguro? |
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• Cornélio era um homem piedoso e temente a Deus com toda
a sua casa, e fazia muitas esmolas ao povo e de
contínuo orava a Deus, mas apesar disso não tinha ainda sido salvo dos
seus pecados quando o anjo de Deus lhe apareceu em visão dizendo-lhe para
mandar chamar Simão Pedro. Isto é confirmado pelo facto de o anjo lhe ter
dito: "Envia a Jope e manda chamar a Simão,
que tem por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras pelas quais serás salvo,
tu e toda a tua casa" (Actos 11:13,14). Cornélio foi salvo quando
aceitou por fé as palavras que Pedro disse em sua casa. Portanto, este homem
não foi salvo nem pelo batismo (que lhe foi ministrado depois que creu) e nem
pelas suas esmolas mas foi salvo pela sua fé no Evangelho que Pedro lhe
pregou. Certamente se as orações e as esmolas que Cornélio fazia tivessem
sido suficientes para a sua salvação não teria havido necessidade que ele
ouvisse o Evangelho e cresse nele. O facto porém é que Cornélio embora
temesse a Deus, orasse a Deus e fizesse muitas esmolas ainda era perdido e
escravo do pecado. Foi indispensável também para ele ouvir o Evangelho e crer
nele para ser salvo porque a salvação não a confere o batismo e nem é o fruto
de boas obras mas dom de Deus que se recebe crendo e não operando. |
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• Paulo
disse aos Romanos: "Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado,
obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E,
libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça" (Rom. 6:17,18).
Os crentes de Roma foram salvos dos seus pecados obedecendo ao Evangelho,
isto é, crendo no Evangelho, e não pelo batismo ou por terem feito boas
obras. |
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• Paulo
disse aos Romanos: "Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Rom. 1:16). Isto
significa que é a mensagem da Boa Nova que liberta dos pecados todos os que
crêem nela. E nós somos testemunhas da salvação operada pelo Evangelho
naqueles que eram escravos de toda a sorte de iniquidades: homens que no
passado eram fornicadores, sodomitas, ladrões, bêbados, avarentos,
feiticeiros, mentirosos, foram libertados do pecado a quem eles obedeciam
somente pela sua fé no Evangelho. Eles nunca teriam podido ser libertos da
escravidão das suas paixões pecaminosas pelo batismo, ou mortificando o seu
corpo, ou fazendo esmolas, visitando os doentes, as viúvas e os orfãos, ou
dando de comer aos famintos e de beber aos sedentos, e isto sempre porque se
é libertado da escravidão do pecado crendo, somente crendo, o que precede
sempre o batismo e o bom operar ordenado por Deus aos crentes. |
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• Paulo
diz aos Efésios: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto
não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se
glorie" (Ef. 2:8,9). Nós que cremos no Evangelho da nossa salvação fomos
libertados dos nossos pecados somente por meio da fé no Evangelho; nenhum de
nós pode dizer de ter sido salvo dos seus pecados por meio do batismo ou por
ter feito esmolas, visitas aos doentes, às viúvas e aos orfãos, ou por ter
dado de comer, de beber e de vestir aos que disso tinham necessidade,
justamente porque não foi em virtude do batismo na água ou de boas obras que
obtivemos esta grande salvação, mas somente, e o repito somente, por ter
crido no Evangelho da graça de Deus. Se se pudesse ser salvo por meio de boas
obras, Cristo teria morrido inutilmente, e seria portanto inútil pregar o
Evangelho a todos aqueles homens que pensam alcançar a salvação fazendo o bem
a si mesmos e aos outros. Mas
além disso, importa dizer que se se pudesse ser salvo por meio das boas
obras, os homens teriam do que se gloriar perante Deus, porque poderiam dizer
serem merecedores da salvação, em outras palavras poderiam dizer que ela foi
o fruto dos seus trabalhos, e nunca diriam que ela é o fruto do tormento da
alma de Cristo Jesus. Eles poderiam dizer que foram eles a sofrer para se
salvarem, e não mais que Cristo, o Justo, sofreu por nós injustos para nos
libertar da escravidão do pecado. Mas, como dizia Paulo aos Romanos, "Onde
está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei
da fé" (Rom. 3:27), porque nós cremos que o homem é salvo por meio da
sua fé em Jesus Cristo. Eis, por que nós não temos nada de que nos gloriar,
porque fomos salvos pela lei da fé, e portanto por graça. Sim, pela graça de
Deus; porque nós tivemos apenas que crer no Senhor Jesus para ser salvos. |
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• Paulo
diz aos Tessalonicenses: "Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós,
irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a
salvação, pela santificação do Espírito, e fé na verdade" (2 Tess.
2:13). O apóstolo dava graças a Deus porque aprouve a Deus, com base no seu
propósito eterno, salvar os crentes de Tessalónica. Mas como tinha salvo Deus
os Tessalonicenses? pelo batismo ou pelas boas obras porventura? Não, mas
pela santificação do Espírito e a fé na verdade. Ainda uma vez a Escritura
confirma que a salvação se obtém não pelo batismo e nem através das boas
obras, mas pela fé na verdade. Onde estão portanto os méritos do homem? Estão
excluídos pela lei da fé.
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• Paulo
diz aos Coríntios: "Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos
tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo
qual também sois salvos..." (1 Cor. 15:1), depois diz-lhes o Evangelho
que lhes tinha anunciado, e por fim diz: "Assim pregamos e assim haveis
crido" (1 Cor. 15:11). Por este discurso de Paulo se deduz que os
Coríntios tinham sido salvos mediante a sua fé no Evangelho e não mediante o batismo
(que também eles tinham recebido logo depois de terem crido) ou por terem feito boas obras. Alguns deles
tinham sido adúlteros, fornicadores, idólatras, efeminados, sodomitas,
ladrões, avarentos, roubadores, bêbados e maldizentes; mas tinham sido salvos
dos seus pecados somente pela fé no Evangelho, que tinham posto nele antes de
se batizarem, sem as obras da lei. Por isso a mensagem de Cristo é chamada a
Boa Nova da paz; porque para obter paz com Deus, isto é, para ser
reconciliado com Deus, os pecadores não têm que fazer obras meritórias, mas
têm só que arrepender-se e crer no nome de Jesus Cristo. Aliás que boa nova
seria a mensagem de Cristo se ela dissesse que para ser salvo do pecado é
necessário fazer boas obras? Não estaria tudo isso em nítida contradição com
a essência do Evangelho? Certamente que estaria; seria como dizer que Jesus
veio para nos salvar gratuitamente, sem nos exigir nada mais senão o
arrependimento e a fé nele, mas nós temos que cooperar com ele (fazer obras
justas) para sermos salvos dos pecados! |
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• Paulo
diz na epístola a Tito: "Também nós éramos noutro tempo insensatos,
desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites,
vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros. Mas quando
apareceu a benignidade e a caridade de Deus, nosso Salvador, para com os
homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua
misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do
Espírito Santo..." (Tito 3:3-5). Destas palavras de Paulo aprendem-se
claramente duas coisas: a primeira é que nós fomos salvos e por isso podemos
afirmar que estamos salvos, sem o perigo de pecar por presunção; a segunda é
que esta salvação a obtivemos não pelo batismo e nem por ter feito obras meritórias
mas exclusivamente pela misericórdia de Deus o qual nos fez renascer para uma
nova vida pela Palavra de Deus plantada em nós (a lavagem da regeneração) e
pela renovação operada em nós pelo Espírito Santo. |
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• Paulo
diz a Timóteo que Deus "nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não
segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos
foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; e que é manifesta
agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo..." (2 Tim. 1:9,10).
O apóstolo diz pela enésima vez que Deus nos salvou por graça sem que nós
tenhamos feito algo de bom; mas ele diz também que Deus nos deu graça antes
dos tempos dos séculos, isto é, antes da fundação do mundo. E se isto não
bastasse para fazer compreender que a nossa salvação não foi dispensada em
razão de boas obras por nós feitas, mas exclusivamente por Deus ao qual
agradou salvar-nos sem que merecêssemos, citamos também as seguintes palavras
de Paulo aos Romanos sobre Esaú e Jacó: "Não tendo eles ainda nascido,
nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição,
ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe
dito a ela: O maior servirá o menor" (Rom. 9:11,12), e estas outras:
"Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de
Deus, que usa de misericórdia" (Rom. 9:16). Perante tais palavras caem
pela enésima vez todos aqueles raciocínios dos teólogos papistas que atribuem
a salvação às obras meritórias. |
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• Pedro
disse em Jerusalém, diante dos outros apóstolos e dos anciãos: "Mas cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus,
do mesmo modo que eles também" (Actos 15:11). Ora, aqui Pedro
disse que eles que eram Judeus de nascença eram salvos pela graça da mesma
maneira em que o eram os Gentios; e isto apesar deles serem circuncisos na
carne e terem a lei de Moisés com os mandamentos de Deus. Mas por que motivo
Pedro não pôde dizer que eles que eram Judeus tinham sido salvos pelas obras
da lei, enquanto os Gentios, que não tinham a lei, tinham sido salvos pela
graça? Porque também eles Judeus para serem salvos tiveram somente que crer
(e portanto não eram merecedores da salvação pela lei), da mesma maneira que
os Gentios. As palavras de Pedro fazem claramente compreender que para ser
salvo tem-se apenas que crer e não operar, porque a salvação de Deus é
oferecida gratuitamente tanto aos Judeus como aos Gentios. |
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• Jesus
nos dias da sua carne disse estas palavras a duas mulheres: "A tua fé te
salvou" (Lucas 8:48; 7:50): as disse à mulher que foi curada do seu
fluxo de sangue, e àquela mulher pecadora que lhe regou de lágrimas os seus
pés, lhe os enxugou com os seus cabelos e lhe os ungiu com óleo. A um
daqueles dez leprosos que ele curou, e a Bartimeu disse as mesmas palavras,
ou seja: "A tua fé te salvou" (Lucas 17:19; 18:42). Também estas
Escrituras confirmam que é somente pela fé que se é salvo e não pelo batismo
ou por boas obras. Porque se Jesus tivesse crido que era o batismo a salvar
não poderia dizer "a tua fé te salvou" mas teria que dizer: ‘Vem
batizar-te e serás salvo’; e se cria que era a fé mais as boas obras deveria
ter dito: ‘Vai primeiro fazer obras dignas de arrependimento e então
conseguirás a salvação dos teus pecados porque só a fé não basta para
salvar-te’. |
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• Paulo
diz aos Romanos: "Esta é a palavra de fé, que pregamos, a saber: Se com
a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o
ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê
para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a
Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não
há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico
para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor
será salvo" (Rom. 10:8-13). |
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Como podeis ver para ser salvo não é preciso o batismo e
não é necessário fazer boas obras, mas é necessário confessar com a boca
Jesus como Senhor, e crer com o coração que Deus o ressuscitou dos mortos.
Não é simples e claro o caminho da salvação que propõe a Escritura?
Certamente que o é. Mas experimentai pegar com as vossas mãos um qualquer
livro de teologia dogmática e procurai lá a forma como se obtém a salvação
para a igreja papista e vos apercebereis logo pelas primeiras palavras do
quanto ela é extremamente complicada e também incerta, de tal maneira a
fazer-vos perder logo a vontade de continuar a ler. Para vos fazer
compreender como nós das muitas águas não fomos tirados porque nos submetemos
ao rito do batismo ou por méritos nossos, mas somente porque invocamos o nome
do Senhor, vos recordo um episódio que aconteceu no mar de Tiberíades nos dias de Jesus. Jesus, uma noite,
enquanto os seus discípulos estavam no barco no meio do mar, foi ter com eles
andando sobre o mar. Os seus discípulos quando o viram começaram a gritar de
medo pensando que estavam a ver um fantasma, mas Jesus os sossegou
dizendo-lhes para não temer porque era ele. Quando Pedro o ouviu dizer isso,
lhe disse para mandar-lhe andar sobre as águas se era ele. Jesus lhe disse:
"Vem! E Pedro, descendo do barco, e andando
sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, teve medo;
e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu
Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?"
(Mat. 14:29-31). Recordando a nossa vida passada, vivida ao serviço da
iniquidade e da impureza, temos que dizer que nós nos encontrávamos numa cova
de perdição, num charco de lodo, onde os nossos pés não tinham onde se
apoiar, mas na angústia do nosso coração invocámos o nome do Senhor
dizendo-lhe: ‘Senhor, salva-me’, e ele, na sua fidelidade, tendo ouvido o
nosso clamor, nos tirou do lamaçal em que nos debatíamos. Mas que fizemos
para sair dele? Tivemos que nos fazer imergir na água ou fizemos alguma boa
obra porventura? Não, mas somente clamámos ao Senhor, como fez Pedro naquela
noite no mar Tiberíades . Tudo isto para confirmação que "todo aquele que invocar o nome do
Senhor será salvo" (Rom. 10:13). |
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Por fim queremos dizer algumas palavras sobre a
interpretação papista dada às palavras de Paulo aos Colossenses para sustento
da salvação por obras. Esta sua interpretação lhe dada é completamente
arbitrária, porque se fosse assim como dizem eles então teríamos que afirmar
que Cristo não sofreu o suficiente para nos libertar dos nossos pecados, e
que há sofrimentos que o homem deve padecer para merecer a salvação. Mas o
que vão tagarelando os teólogos papistas? Os sofrimentos de Cristo foram
completos; não restam mortificações corporais a cumprir pelo homem pecador
porque as de Cristo são suficientes para a sua salvação. Aquele "o que resta das aflições de Cristo" (Col.
1:24) de que fala Paulo não são as aflições de Cristo que faltam que é
preciso cumprir para merecer a salvação; porque destas aflições não faltam
nenhumas. Mas elas são as aflições que os crentes, que já estão salvos, são
chamados a padecer por Cristo conforme está escrito: "Porque a vós vos
foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também
padecer por ele" (Fil. 1:29); e mediante as quais os crentes são
julgados dignos do reino de Deus conforme está escrito: "E, se nós somos
filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de
Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos
glorificados" (Rom. 8:17). |
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Os resgatados
devem fazer boas obras para fazer segura e firme a sua vocação e eleição |
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A Escritura diz claramente que nós não fomos salvos
mediante obras justas, mas mediante a fé em Cristo e portanto pela graça de
Deus. Mas a mesma Escritura também diz claramente que nós agora que estamos
salvos devemos fazer boas obras. Paulo disse de facto aos Efésios que nós
somos "feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais
Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef. 2:10); e a Tito que Jesus
Cristo "se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e
purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras" (Tito
2:14). Mas ainda antes de Paulo este conceito o tinha explicado o Senhor
Jesus Cristo o qual tinha dito aos seus discípulos tê-los escolhido para que
praticassem as boas obras. Eis as suas palavras: "Não me escolhestes vós
a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e
o vosso fruto permaneça" (João 15:16). Mas por que é que devemos ser
zelosos nas boas obras? Porque Jesus disse: "Nisto é glorificado meu
Pai, que deis muito fruto, e assim sereis meus discípulos" (João 15:8),
e também: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que
vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus"
(Mat 5:16) querendo significar que nós fazendo boas obras faremos glorificar
o nome de Deus. Além disso deve-se ter presente que nós fazendo boas obras
ajuntamos um tesuro no céu que constitui o galardão que o Senhor nos dará
naquele dia (o que para nós é um estímulo). Jesus de facto quando disse ao
jovem rico para vender tudo o que tinha e dá-lo aos pobres lhe disse: "e
terás um tesouro no céu" (Mat 19:21), e Paulo disse a Timóteo para
ordenar aos ricos "que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de
boa mente, e sejam comunicáveis, que entesourem para si mesmos um bom
fundamento para o futuro" (1 Tim. 6:18,19). |
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Vos recordo por fim irmãos que as boas obras só podem
estar presentes na nossa vida se observarmos os mandamentos de Deus conforme
está escrito: "Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto.."
(João 15:5); mas estarão ausentes se nós não observarmos os mandamentos de
Deus porque está escrito: "Como a vara de si mesma não pode dar fruto,
se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim"
(João 15:4). Para concluir dizemos isto: nós crentes sabemos que pela nossa
fé fomos salvos do pecado e do presente século mau, e que pelos nossos
trabalhos de amor (as nossas boas obras) seremos premiados, isto é,
receberemos de Deus o fruto das obras que fizemos na terra por amor do Senhor
e dos eleitos. |
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A
JUSTIFICAÇÃO |
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A
doutrina dos teólogos papistas |
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A justificação
se obtém pela fé mais as obras. A teologia papista diz que para obter a justificação não
é suficiente crer, ou seja, que para ser declarado justo por Deus não basta
só crer em Jesus Cristo. Eis na realidade como se exprime Bartmann: ‘Para
obter a justificação são exigidos ao adulto, além da fé, também outros actos
de virtude; só a fé não justifica - É
de fé’ (Bartmann Bernardo, Manual
de Teologia dogmática, Alba 1949, vol.
II, pag. 315). Isto equivale a dizer que a justificação não se obtém pela
graça de Deus mas por méritos próprios, de facto, se além da fé é preciso
algum acto de virtude da parte do homem isso quer dizer que a justificação
não é completamente gratuita, porque Deus quer que o homem faça alguma coisa
de bom para consegui-la. Mas o que tem que fazer o homem para conseguir a
justificação segundo a teologia papista? Antes de tudo tem que batizar-se
porque o concílio de Trento afirmou que a justificação é concedida por Deus
pelo batismo: ‘Causa instrumental é o sacramento do Batismo, que é o
sacramento da fé, sem o qual jamais a alguém é concedida a justificação’
(Concílio de Trento, Sess. VI, cap. VII) [5],
e depois tem que confessar-se ao padre para obter a remissão dos chamados
pecados mortais cometidos depois do batismo e fazer boas obras porque estas
últimas são justificantes e expiatórias. Para sustento desta justificação por
obras tomam as seguintes palavras de Tiago: "Porventura o nosso pai
Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu
filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras
a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em
Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.
Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé"
(Tiago 2:21-24), e dizem que elas confirmam plenamente a sua doutrina segundo
a qual para obter a justificação não basta só a fé porque Deus exige outros
actos de virtude, e que portanto elas abatem um dos princípios fundamentais
do ‘protestantismo’! Em defesa desta doutrina sobre a justificação o concílio
de Trento emitiu os seguintes anátemas: ‘Se alguém disser que os sacramentos
da Nova Lei não são necessários para a salvação, mas supérfluos; e que sem
eles ou sem o desejo deles, só pela fé os homens alcançam de Deus a graça da
justificação, ainda que nem todos sejam necessários para cada um; seja
anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VII, can. 4. O termo anátema deriva do
grego anathema que significa
‘maldito’): ‘Se alguém disser que o ímpio é justificado somente pela fé,
entendendo que nada mais se exige como cooperação para conseguir a graça da
justificação, e que de nenhum modo é necessário que ele se prepare e disponha
pela acção da sua vontade; seja anátema’
(Concílio de Trento, Sess. VI, can. 9). |
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Confutação |
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Se é
justificado dos pecados pela fé em Jesus |
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Mas as coisas não são de modo nenhum assim como dizem os
teólogos papistas porque a Escritura ensina que se é justificado por Deus
somente pela fé. Ora, neste caso nós não falaremos do porquê do batismo não
justificar (mesmo se já haveis compreendido que dado que se é justificado
somente pela fé que precede o batismo, este último não pode de nenhum modo
justificar), e nem do porquê da confissão ao padre não poder justificar
(destes seus sacramentos falaremos mais difusamente a seguir), mas
demonstraremos com as Escrituras que o homem é justificado só pela fé porque
as obras justas não podem de nenhum modo justificá-lo [6]. |
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Nós todos éramos inimigos de Deus nas nossas obras más e
na nossa mente porque nós todos caminhávamos segundo as concupiscências da
carne; mas quando Deus manifestou o seu amor por nós, Ele nos justificou,
isto é, nos fez justos aos seus olhos, cancelando-nos todos os nossos
pecados. E pela justificação nós fomos reconciliados com Deus e nos tornámos
seus amigos conforme está escrito: "A sua amizade está com os
sinceros" (Prov. 3:32). E esta justificação que nós obtivemos a
recebemos por fé, e portanto por graça e não por obras. As seguintes
Escrituras o testificam de forma clara. |
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• Paulo diz aos Romanos: "Sendo pois justificados
pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo..." (Rom.
5:1), e: "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo
justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo
Jesus " (Rom. 3:23,24), e ainda: "Mas Deus prova o seu amor para
conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito
mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da
ira" (Rom. 5:8,9); as palavras "justificados pelo seu sangue"
significam que nós somos justificados mediante a fé no sangue de Cristo. E
ainda aos Romanos Paulo diz: "Se pela ofensa de um só, a morte reinou
por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da
justiça, reinarão em vida por um só - Jesus Cristo" (Rom. 5:17). Notai
as palavras "o dom da justiça"; elas mostram que a justiça de Deus
(a justificação) se obtém gratuitamente por Deus sendo um dom de Deus. Ela se
pode obter precisamente crendo no Filho de Deus: todo o mérito pessoal é
portanto excluído. Um outro versículo da carta aos Romanos que testifica que
para ser justificado é necessário só crer em Cristo é aquele que diz que
"o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê" (Rom.
10:4). |
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• Paulo diz aos Gálatas: "Sabendo que o homem não é
justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também
crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não
pelas obras da lei" (Gal. 2:16); e: "A lei nos serviu de aio, para
nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados" (Gal.
3:24); e ainda: "Tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar
pela fé os Gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as
nações serão benditas em ti" (Gal. 3:8) (isto aconteceu porque nós fomos
benditos por Deus pela fé em Cristo que é descendência d`Abraão). E ainda aos
Gálatas estão estas palavras: "Se fosse dada uma lei que pudesse
vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura
encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo
fosse dada aos crentes" (Gal. 3:21,22). E na "promessa" estava
também a justiça de Deus (portanto a justificação); a quem é dada? A quem crê
ou a quem faz obras? A quem crê porque ela foi prometida pela fé em Jesus. |
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• "O justo viverá pela sua fé" (Hab. 2:4):
estas palavras Deus as dirigiu ao profeta Habacuque, anunciando desta maneira
que Ele justificaria os homens pela fé, "pela fé a circuncisão, e por
meio da fé a incircuncisão" (Rom. 3:30). |
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Estas outras Escrituras ao invés testificam que os que se
baseiam nas obras da lei não são justificados e não serão justificados diante
de Deus: |
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• "Pelas obras da lei nenhuma carne será
justificada" (Gal. 2:16); |
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"O homem não é justificado pelas obras
da lei" (Gal. 2:16); |
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"Todos aqueles, pois, que são das obras
da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele
que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei,
para fazê-las. E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de
Deus, porque o justo viverá pela fé" (Gal. 3:10,11); |
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"Nenhuma carne será justificada diante
dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado"
(Rom. 3:20). |
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Para demonstrar-vos como não se é justificado pelas obras
mas somente pela fé vos recordo o exemplo de Abraão nosso pai. Ora, Abraão,
segundo o que diz a Escritura, foi justificado por Deus pela sua fé na
promessa feita a ele por Deus (cfr. Gen. 15:6), e esta justificação a obteve
depois que ele saiu de Ur dos Caldeus (cfr. Gen. 12:4) e depois que ele deu o
dízimo do melhor dos despojos a Melquisedeque, sacerdote do Deus altíssimo
(cfr. Gen. 14:20). |
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Portanto, reiteramos com força as seguintes coisas: |
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Abraão não foi justificado por Deus porque ou quando
obedeceu à ordem de Deus: "Sai da tua terra, e da tua parentela, e da
casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei..." (Gen. 12:1).
Certo, na epístola aos Hebreus está escrito que "pela fé Abraão, sendo
chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por
herança.." (Heb. 11:8), mas permanece o facto de que não foi este acto
de obediência de Abraão que lhe imputou a justiça; |
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Abraão não foi justificado por Deus porque ou quando deu o
dízimo a Melquisedeque; certo, ele fez algo de bom que Deus se agradou
(aquele seu dízimo o recebeu no céu um de quem se testifica que vive), mas
apesar disso, não foi em virtude dessa boa obra que Abraão foi justificado
por Deus; |
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Abraão foi justificado por Deus porque creu na promessa de
Deus conforme está escrito "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado
como justiça" (Rom. 4:3; Gen. 15:6); por isso também Abraão não tinha
nada de que se gloriar diante de Deus. |
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Mas há um outro exemplo de um homem justificado por Deus
pela graça mediante a sua fé, sem as obras da lei; é o daquele publicano que Jesus disse que tinha subido
ao templo para orar juntamente com um Fariseu. Ele "nem ainda queria
levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem
misericórdia de mim, pecador" (Lucas 18:13), e por se ter humilhado
diante a Deus, pela a sua fé foi justificado conforme está escrito:
"Digo-vos que este desceu justificado para sua casa..." (Lucas
18:14). Ao contrário, o Fariseu que dava graças a Deus por não ser roubador,
injusto e adúltero como os outros homens, e fazia notar a Deus que ele pagava
os dízimos de tudo o que possuia, que jejuava duas vezes na semana e que não
era como aquele publicano, não foi justificado. Não é esta mais uma
confirmação que a justificação se obtém somente mediante a fé pela graça de
Deus sem as obras? Certamente que o é. Erram grandemente portanto os teólogos
papistas quando afirmam que para ser justificado por Deus não é suficiente a
fé em Deus. |
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Mas por que é que a justificação não se pode obter pelas
obras justas da lei? O motivo pelo qual a justiça não se pode obter por meio
das obras da lei é porque a lei foi dada para dar aos homens o conhecimento
do pecado (cfr. Rom. 3:20) e para fazer abundar o pecado (cfr. Rom. 5:20), e
não para fazer justos os homens. Deus, para fazer justos os homens, deu o seu
Unigénito Filho, de facto, é através do Filho que veio a graça e que nós
fomos justificados. |
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Ora, vimos que a Escritura diz que pelas obras da lei o
homem não pode ser justificado dos seus pecados, porque a lei não tem o poder
de justificar o pecador; vejamos portanto de perto algumas destas obras da
lei que não justificam quem as cumpre. Na lei está dito: "As primícias
dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor, teu Deus"
(Ex. 23:19); "Vendo extraviado o boi ou ovelha de teu irmão, não te
esconderás deles; restituí-los-ás sem falta a teu irmão" (Deut. 22:1);
"Todo o credor remitirá o que emprestou ao seu próximo; não o exigirá do
seu próximo ou do seu irmão, pois a remissão do Senhor é apregoada"
(Deut. 15:2); "Quando no teu campo segares a tua sega, e esqueceres um
molho no campo, não tornarás a tomá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e
para a viúva será, para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra das
tuas mãos. Quando sacudires a tua oliveira, não tornarás atrás de ti a
sacudir os ramos; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será.
Quando vindimares a tua vinha, não tornarás atrás de ti a rebuscá-la; para o
estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será." (Deut. 24:19-21). Estas são algumas das boas obras que Deus
prescreveu na lei de Moisés porque há
muitas mais. Elas são todas obras justas; no entanto por elas não se pode ser
justificado dos próprios pecados! Não é bastante clara a Escritura a tal
respeito? Certamente que o é para nós. Mas não para a cúria romana que não
entende rectamente a Palavra de Deus; e se ilude e faz iludir as pessoas
dizendo que se é justificado por Deus pelos sacramentos e fazendo boas obras:
porque os sacramentos (batismo e penitência) tornam justos os homens e as boas
obras são justificantes! Falando desta maneira os teólogos papistas anulam a
graça e reduzem a morte expiatória feita por Cristo meramente a um gesto de
amor com o qual Deus quis ajudar os homens a auto-justificarem-se! A mesma
coisa se deve dizer da ressurreição de Cristo; ela ajuda a conseguir a
justificação mas não é suficiente para justificar o homem, segundo eles! Ó
guias cegos, mas quando caireis em vós mesmos, e reconhecereis que para ser
justificado é suficiente somente a fé no Senhor Jesus Cristo? |
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Vimos antes que os vértices da igreja romana além de
afirmar que é mediante os seus sacramentos que se obtém a justificação, nos
declaram malditos porque nós afirmamos que o homem é justificado somente
mediante a fé sem os seus sacramentos e sem obras justas! Mas estes perecem
por falta de conhecimento das Escrituras porque se as conhecessem e as
manejassem bem não diriam tais coisas. Está escrito claramente em Isaías que
toda a justiça do homem é "como trapo da imundícia" (Is. 64:6),
portanto não importa quantas obras justas fazem os homens para serem
justificados diante de Deus, se eles não se arrependem e não crêem no
evangelho continuam a ser considerados pecadores diante de Deus porque não é
com as mãos que se faz alguma coisa para obter a justiça mas "com o
coração se crê para a justiça" (Rom. 10:10), como diz Paulo aos Romanos.
‘É demasiado simples para ser verdade!’, exclamam os católicos romanos a
respeito da maneira em que se é justificado. Certamente que aos olhos deles é
demasiado simples e não crêem que seja verdade; lhes é continuamente dito que
se é justificado fazendo sacrifícios e lhes é mantida escondida a palavra que
diz: "Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o
ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça" (Rom. 4:5); (notai que
"àquele que não pratica" significa ‘àquele que não se apoia nas
obras justas para a sua salvação’). O que se pode esperar portanto que digam?
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A vós homens que considerais poder ser justificados pelas
obras e rejeitais ser justificados gratuitamente por Cristo Jesus digo isto:
‘Sabei que tendo uma semelhante conduta vós não fazeis mais que conservar em
cima de vós os vossos trajes sujos (os
pecados) e renunciar à veste branca (a justiça de Deus) de que são revestidos
todos os que cessam de se apoiar nas suas próprias obras e crêem no Senhor
Jesus para serem justificados. Por conseguinte vós continuais a ter sobre vós
a ira de Deus porque estais ainda debaixo da maldição. Reflecti ó homens e
mulheres; não compreendeis que, como diz Paulo, "se a justiça provém da
lei, segue-se que Cristo morreu debalde" (Gal. 2:21), e que procurando
ser justificados pelas obras da lei não fazeis mais que anular a graça de
Deus e fazer vã a fé para vós mesmos?
Fazei pois isto; não vos apoieis mais nas vossas obras para serdes
justificados mas somente crede que Jesus é o Cristo que morreu pelos vossos
pecados e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia’. |
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Se é por graça já não é por obras, e se é por
obras já não é por graça |
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A este ponto quero dizer algo mais que considero
importante: os teólogos papistas quando falam da justificação fazem discursos
nos quais por um lado afirmam que a justificação é gratuita (e para fazer
isso se usam das passagens da Escritura que testificam claramente que o homem
é justificado por Deus por graça), e por outro afirmam que a justificação
depende também das obras que o homem faz. Parecerá estranho para muitos mas é
assim mesmo; e disto nos apercebemos lendo os seus livros. É claro que as
suas afirmações são contraditórias, (notai por exemplo como são
contraditórias as palavras do concílio tridentino segundo as quais a graça da
justificação não se pode obter somente pela fé porque são exigidas outras
coisas além da fé para obtê-la; mas se é uma graça por que não basta a fé
para consegui-la? Mas que tipo de graça é então? Uma graça que se merece? Mas
então já não é graça porque a graça se obtém sem fazer nada mas só crendo em
Deus!) mas não obstante isso eles procuram conciliá-las de toda a maneira,
não sendo bem sucedidos porque é impossível conciliar a doutrina que diz que
o homem é justificado por Deus somente pela fé sem as boas obras, e a que diz
que o homem tem que cooperar com Deus fazendo boas obras para ser
justificado. Se se aceita a justificação só pela fé tem que se descartar a justificação
pelas obras, e se se aceita a justificação pelos méritos tem que se descartar
a justificação só pela fé. A razão pela qual eles fazem estes discursos
ambíguos e contraditórios entre si é para defender e sustentar a todo o custo
toda aquela bagagem de doutrinas que acumularam no curso dos séculos;
refiro-me à doutrina que diz que a graça se obtém pelos sacramentos, portanto
praticando [operando] e não crendo; e à doutrina do purgatório,
àquela sobre as obras de satisfação, àquela sobre as indulgências, e tantas e
tantas outras doutrinas fundadas sobre o dogma da justificação por obras.
Eles se dão conta que reconhecer a doutrina da justificação só pela fé
significaria ter que rejeitar todas estas doutrinas aqui supracitadas, porque
não haveria mais necessidade de crer nelas e de professá-las; por isso
procuram de todas as maneiras fazer crer que o homem é justificado pelas
obras. Quis fazer este discurso para vos fazer compreender que se os teólogos
papistas atacam com tanto vigor a doutrina da justificação só pela fé e
procuram anulá-la com toda a sorte de vãos raciocínios, é porque têm que a
todo o custo manter credíveis as falsas doutrinas papistas fundadas sobre os
méritos, em outras palavras porque têm que manter credível a igreja católica
romana. Esta é a razão pela qual falando com os Católicos romanos é preciso
insistir na doutrina da justificação só pela fé assim como está escrita na
Palavra de Deus, para lhes fazer perceber que como se é justificado pela
graça mediante a fé assim todas as doutrinas sobre méritos humanos da igreja
romana são falsas e não podem ser aceites. Certamente, ao fazer isto se é
perseguido pela cúria romana e pelos seus seguidores; porquê? Porque pregando
que Cristo "para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção" (1 Cor. 1:30, e que portanto para ser
justificado e santificado é preciso somente crer no Senhor Jesus, nós
reputamos um nada todos os preceitos da igreja católica romana que afirmam
que para ser justificado e santificado é preciso cumprir os seus ritos. Ritos
cerimoniais, que importa dizer, em certos aspectos assemelham-se
exteriormente aos da lei de Moisés, e que como os da lei de Moisés (que porém
tinham sido ordenados por Deus) não podem de nenhum modo justificar e
santificar as pessoas que os cumprem. Mas porque é que os ritos cerimoniais e
não cerimoniais que fazem parte da lei de Moisés, como a circuncisão da
carne, a observância de dias, meses, anos, luas novas, a abstenção de certos
alimentos, as várias abluções, as várias
aspersões de sangue e de água e muitas outras coisas não podiam e não podem
justificar o homem pecador e não podem santificá-lo quanto à consciência? A
razão é porque, a lei tendo a sombra dos bens futuros e não a realidade
exacta das coisas, não podia e não pode cancelar os pecados da consciência do
homem e santificá-lo (cfr. Heb. 9:9,10; 10:1-4; Col. 2:16,17). Mas agora que
veio Cristo Jesus o Sumo Sacerdote dos bens futuros prometidos na lei e nos
profetas, e que ele derramou o seu sangue para a propiciação dos nossos
pecados, todos aqueles ritos foram cumpridos porque agora há a realidade
dessas coisas. As sombras desapareceram e no seu lugar está a realidade. Mas
o que fez ao invés a cúria romana? Tirou a realidade das coisas da frente do
povo e a substituiu com espécies de sombras, se assim se podem chamar, que
ela habilmente construiu apoiando-se nas sombras do Antigo Pacto e fazendo-as
crer verdadeiras. E assim as pessoas pensam que para serem justificadas
precisam receber na sua cabeça a água benzida do batismo e fazer muitas
mortificações corporais e oferecer a Deus o sacrifício da missa e por aí
fora, ou seja, observar os sacramentos da igreja romana; não é isto subverter
o Evangelho de Cristo? Sim, certamente, estes subverteram o Evangelho de Cristo;
ai deles; sofrerão a condenação. Nós dizemos portanto aos Católicos romanos
que procuram ser justificados pelos seus sacramentos e pelas obras
meritórias; ‘Sabei que esta doutrina que vos ensinam segundo a qual não
podeis ser justificados se não cumprirdes os ritos prescritos pelas leis
papais não vem d`Aquele que vos chama ao arrependimento mas do diabo que
seduziu os papas e toda a cúria romana’. |
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Explicação das palavras de Tiago sobre o
valor das boas obras |
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Tiago, o irmão do Senhor, disse: "Porventura o nosso
pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o
seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas
obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão
em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.
Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela
fé" (Tiago 2:21-24). |
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Vamos agora explicar estas suas palavras. Antes de tudo
dizemos que Tiago escreveu estas palavras para crentes e não para incrédulos,
de facto pouco antes diz: "Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor
Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas...." (Tiago 2:1);
digo isto para vos fazer compreender que aqueles a quem estas palavras foram
dirigidas tinham a fé e por isso já estavam justificados conforme o que está
escrito: "Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas
pela fé em Jesus Cristo" (Gal. 2:16). Mas por que motivo Tiago lhes
falou desta maneira? Porque alguns crentes embora tendo a fé recusavam fazer
boas obras pensando que mesmo sem as obras a sua fé seria suficiente para
salvá-los da ira de Deus, iludindo-se assim a si mesmos. [7]. |
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E então ele primeiro os reprovou dizendo: "Meus
irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?
" (Tiago 2:14), e ainda: "Mas, ó homem vão, queres tu saber que a
fé sem as obras é morta?" (Tiago 2:20) fazendo-lhes perceber que só a fé
nada lhes valeria, e depois dando-lhes o exemplo de Abraão e de Raabe para
confirmar que as obras têm que acompanhar a fé para que esta tenha valor. O
discurso de Tiago versa sobre o facto que se alguém diz ter fé, isto é, de
ter crido em Cristo Jesus, mas não tem as obras a sua fé é sem valor, ou, como
diz num outro lugar é morta. São
palavras duras as de Tiago, mas elas nos fazem compreender quanto são
importantes as boas obras para nós crentes; cuidai que Tiago não disse de
maneira nenhuma que a justiça se obtém pelas obras da lei ou que o homem
pecador é perdoado ou recebe a vida eterna em virtude das suas boas obras;
atribuir este significado às suas palavras significaria dizer que Tiago tinha
subvertido o Evangelho porque obrigava os Gentios a viverem como Judeus
dizendo-lhes que se é justificado pelas obras da lei. O seu discurso tem
antes como finalidade desencorajar qualquer crente de pensar que depois de
ter crido mesmo se recusa fazer boas obras será agradável na mesma aos olhos
de Deus e será salvo. Portanto, se a fé em Deus sem as obras não tem valor
como não tem valor o facto de também os demónios crerem que há um só Deus, é
necessário concluir que a fé que tem valor é aquela que tem as boas obras, e
de facto isto é confirmado pelo apóstolo Paulo que diz aos Gálatas:
"Aquilo que tem valor é a fé que opera pelo amor" (cfr.Gal. 5:6), e
aos Coríntios: "A observância dos
mandamentos de Deus é tudo" (1 Cor. 7:19). A comparação feita por Tiago
é verdadeiramente apropriada; porque se alguém reflectir bem também os
demónios crêem que há um só Deus como o cremos nós; e se é por isto eles,
quando Jesus estava sobre a terra, demonstraram também saber que Jesus era o
Filho de Deus, o Santo de Deus e o Cristo de facto disseram a Jesus: "Tu
és o Filho de Deus!" (Mar. 3:11), e ainda: "Bem sei quem és: o Santo
de Deus" (Mar. 1:24), e Lucas diz que eles "sabiam que ele era o
Cristo" (Lucas 4:41). Mas não é por os demónios crerem que há um só
Deus, ou porque sabem que Jesus é o Cristo e o Filho de Deus, que isso
significa que eles serão salvos do fogo eterno; de maneira nenhuma, porque
nós sabemos também que eles sabem que um dia serão lançados no fogo eterno
para serem atormentados pela eternidade porque disseram a Jesus: "Vieste
aqui atormentar-nos antes de tempo?" (Mat. 8:29); esta é a sorte que
lhes está reservada. Assim não é porque alguém creu em Cristo que se pode
permitir a recusar fazer boas obras, porque em tal caso nada lhe aproveitaria
um dia ter crido. |
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Voltemos às boas obras; elas servem para fazer e manter
viva a nossa fé no Senhor, de facto se um crente cessa ou se recusa a fazer
boas obras por certo a sua fé morrerá e será como uma lâmpada fundida que não
pode dar luz. Tiago o disse claramente: "Como o corpo sem o espírito
está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tiago 2:26); para que serve
um corpo sem o espírito nele? Para nada, porque não pode falar, não pode
mover-se, não pode ajudar ninguém. Para que serve a fé sem as obras? Para
nada, porque não opera nada em prol daqueles que são necessitados; ela é
morta. Também Paulo falou de uma maneira semelhante a Tiago quando disse aos
Romanos: "Se viverdes segundo a carne, morrereis" (Rom. 8:13);
portanto as referidas palavras de Tiago encontram uma confirmação também nos
escritos de Paulo. Se um crente de facto começa a andar segundo a carne
(rejeitando assim fazer boas obras) morre espiritualmente, embora diga de ter
fé, de crer em Deus, de crer que Jesus é o Filho de Deus, etc. |
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Tiago deu o exemplo de Abraão para explicar como o
patriarca foi justificado pelas suas obras e não pela sua fé somente. Ora,
para evitar mal entendidos começamos por dizer que Abraão, segundo o que diz
a Escritura, quando creu na promessa lhe feita por Deus a sua fé lhe foi
imputada como justiça conforme está escrito: "E creu ele no Senhor, e
foi-lhe imputado isto por justiça" (Gen. 15:6), portanto ele recebeu o
perdão dos seus pecados pela sua fé, por graça. Não fez nenhuma obra
meritória ou boa obra para obter a justiça, porque também ele foi justificado
por Deus pela fé. De facto Paulo diz que "se Abraão foi justificado
pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus" (Rom. 4:2)
porque a Escritura diz que ele creu em Deus e esta sua fé lhe foi imputada
como justiça. Portanto, Abraão teve fé em Deus, mas o patriarca demonstrou de
ter fé em Deus tanto quando creu com o seu coração na promessa que Deus lhe
havia feito como também quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar como
lhe tinha ordenado para fazer Deus. Vós sabeis de facto que diversos anos
depois de Abraão ter crido, Deus colocou à prova Abraão ordenando-lhe de ir
sobre um monte e oferecer em holocausto o seu filho Isaque. E Abraão obedeceu
a Deus, considerando que Deus o ressuscitaria dos mortos para cumprir a seu
respeito a promessa que tinha feito (cfr. Heb. 11:17-19). Portanto ele creu
que recuperaria o seu filho mediante uma ressurreição, e que não o perderia
porque Deus lhe tinha que manter as promessas feitas. E por esta sua fé ele
agradou a Deus de facto quando ele estava para degolar Isaque o anjo de Deus
lhe disse: "Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada;
porquanto agora sei que temes a Deus" (Gen. 22:12) e lhe jurou também
por si mesmo que o abençoaria e lhe multiplicaria a sua descendência como as
estrelas do céu. Tiago diz que Abraão foi justificado pelas obras quando
ofereceu o seu filho e isso é verdade porque Abraão mediante aquela obra que
fez demonstrou temer a Deus e de crer firmemente na sua promessa. Portanto
podemos dizer que Abraão demonstrou com os factos a fé que ele tinha em Deus;
e por isso foi chamado amigo de Deus. Como Abraão também nós que cremos
seremos chamados amigos de Cristo se fizermos o que ele nos manda fazer
conforme está escrito: "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos
mando" (João 15:14); mas se nós dizemos crer em Cristo Jesus e depois
recusamos observar as suas palavras como poderemos demonstrar que cremos nele
e pretender ser chamados amigos de Cristo e de Deus? Nos meteremos ao mesmo
nível de muitas pessoas do mundo que se dizem Cristãs, dizem crer em Jesus,
mas sendo incapazes de realizar alguma boa obra demonstram que não crêem
nele. Como a fé de Abraão foi aperfeiçoada pelas suas obras, assim também a
nossa fé será aperfeiçoada pelas nossas boas obras. O apóstolo Pedro explica
isto na sua segunda epístola desta maneira: "Fazendo isto, nunca jamais
tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino
eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2 Ped. 1:10,11).
Fazendo o quê? Aquilo que ele falou pouco antes: isto é acrescentando à fé a
virtude, a ciência, a temperança, a paciência, a piedade, o amor fraterno e a
caridade (cfr. 2 Ped. 1:5-7). Portanto também Pedro cria que acrescentando à
nossa fé as boas obras (de facto a piedade, o amor fraterno e a caridade como
se manifestam na prática senão fazendo boas obras no relacionamento com
aqueles de dentro primeiro, e depois com os de fora?) nos será concedida a
entrada no reino de Deus, ou dito de uma outra forma, fazemos segura a nossa
vocação e eleição. Reflictamos: porque é que depois de ter crido se sente a
necessidade de fazer boas obras?
Sim, está-se seguro de ter sido
perdoado pelo Senhor, sim, está-se
seguro de ser um filho de Deus, de ter a vida eterna; mas apesar disso em nós
surge o grande desejo de nos pormos a fazê-las para fazer segura a nossa
eleição, porque sentimos que dizendo somente que cremos sem fazer nada em
benefício dos santos para a glória de Deus, não fazemos firme a nossa
eleição. E depois, deve-se ainda ter presente que as boas obras levam o
próximo, que as vê fazer, a glorificar a Deus, de facto Jesus disse:
"Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" (Mat.
5:16); e portanto constituem uma maneira de honrar Deus e a sua doutrina.
Ao contrário o recusar fazer boas
obras leva o nosso próximo a blasfemar
o nome de Deus e a sua doutrina conforme está escrito: "O nome de Deus é
blasfemado entre os Gentios por causa de vós" (Rom. 2:24). |
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Para concluir dizemos isto: a fé necessita das boas obras
para ser aperfeiçoada, mas isso não significa que a fé não é suficiente para
ser justificado porque a Escritura afirma que "o homem não é justificado
pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo" (Gal. 2:16). Longe de
nós por isso de nos pormos a fazer como fizeram os crentes da Galácia que
depois de ter começado com o Espírito queriam alcançar a perfeição com a
carne, depois de ter aceitado Cristo o tinham renunciado porque queriam ser
justificados pela lei (cfr. Gal. 5:4), o que fez indignar e preocupar Paulo
que os admoestou severamente e disse-lhes que estava de novo em dores de
parto por eles até que Cristo fosse formado neles (cfr. Gal. 4:19). Irmãos,
cuidai de vós mesmos, e tende sempre presente que procurar querer ser
justificado pelas obras é uma ofensa a Cristo porque se anula a sua obra
expiatória. Sede zelosos nas boas obras mas não penseis que elas possam
acrescentar algo mais aos méritos de Cristo como infelizmente fazem os
Católicos romanos. |
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As palavras de Tiago não confirmam a doutrina
papista da justificação |
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Se Abraão tivesse sido justificado, ou seja, se ao
patriarca Deus tivesse imputado a justiça, mediante a fé e as obras que
seguiram, ele teria tido de que se gloriar diante de Deus porque poderia
dizer que a justiça lhe tinha sido imputada por Deus não só pela fé mas
também pelas suas obras (e portanto não inteiramente pela graça mas também
pelos seus méritos pessoais), mas Abraão não podia dizer nada disto porque
Paulo diz que "Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como
justiça" (Rom. 4:3); aquele "isso" refere-se exclusivamente ao
seu acto de fé e não ao acto de fé mais obras. Abraão creu na promessa que
Deus lhe tinha feito, isto é, que Ele faria a sua descendência semelhante às
estrelas do céu que não se podem contar, e em virtude disso foi justificado
no instante em que creu com o seu coração nessas palavras de Deus. Não está
porventura escrito que "com o coração se crê para a justiça" (Rom.
10:10)? Que há pois de estranho se Abraão por ter somente crido com o seu
coração naquela promessa de Deus foi por ele justificado? |
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Mas há uma coisa mais a dizer: Paulo aos Romanos afirma
que "a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela
lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé" (Rom. 4:13);
isto significa que a herança foi por Deus dada a Abraão pela justiça da fé e
não pela justiça das obras. Em outras palavras Abraão tornou-se herdeiro do
mundo por meio da fé e não por meio de obras justas feitas. Isso porque ele
creu na promessa que Deus lhe daria tantos filhos (a herança que vem de Deus)
como as estrelas do céu. Se na realidade ele não tivesse crido como poderia
ver o cumprimento daquela promessa divina de se tornar pai de uma multidão?
Não está porventura escrito que pela fé os profetas "alcançaram
promessas" (Heb. 11:33)? Que dizer então a propósito da promessa que
Deus fez a Abraão depois que viu que o patriarca não lhe tinha recusado o seu
único filho? Diremos que quando Abraão obedeceu a Deus e foi sobre o monte
Moriá oferecer o seu filho Isaque, depois que Deus o deteve confirmou-lhe a
promessa que anos antes lhe tinha feito, de facto lhe jurou: "Porquanto
fizeste isto, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te
abençoarei, e grandemente multiplicarei a tua descendência como as estrelas
dos céus" (Gen. 22:16,17). A confirmou-lhe significa que Abraão já tinha
a promessa de Deus, de facto, ela foi feita quando ainda Isaque não era
sequer nascido, e portanto não foi por méritos que ele tornou-se pai de
muitas nações, mas só pela sua fé tida por ele em Deus antes de ser
circunciso e antes de oferecer Isaque sobre o monte Moriá. Por isso Paulo diz
aos Gálatas que "se a herança provém da lei, já não provém da promessa;
mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão" (Gal. 3:18), e aos
Romanos que "se os que são da lei são
herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é anulada" (Rom. 4:14),
para testificar que como Abraão foi constituído herdeiro do mundo pela sua
fé, assim também nós fomos constituídos herdeiros do Reino de Deus pela fé
sem as obras; porque se a herança fosse pela fé mais as obras então a
promessa seria anulada. |
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Agora vejamos as consequências práticas a que levariam as
palavras de Tiago se quisessem dizer o que lhes fazem dizer os teólogos
papistas. Se é a fé mais as obras que justifica, e não só a fé, seria
necessário estabelecer quantas obras e de que género são precisas depois de
ter crido para ser justificado (Abraão ofereceu em sacrifício o seu filho,
Raabe praticou a hospitalidade com os estrangeiros, mas o que teria que fazer
o homem para obter esta justificação depois de ter crido?), e então surgiriam
as seguintes perguntas: Como se faria para estabelecer a quantidade de obras
a fazer para conseguir esta justificação, qual critério importaria adoptar? Como
poderia quem creu estar seguro de estar justificado em qualquer momento da
sua vida vivendo com a dúvida de não ter feito porventura o suficiente? Não é
porventura verdade que um homem nunca poderia estar seguro de ter sido
justificado inteiramente por Deus se seguisse a teologia papista? Certamente
que seria assim; mas isto é mesmo o querem os papas; ter as pessoas
continuamente na dúvida da sua justificação para induzi-las a fazer obras
após obras. E assim as almas permanecem escravas do papado. |
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Além disso, se a justificação se obtivesse pela fé mais as
obras, como poderia alguém que se encontra a morrer obtê-la? Ela lhe estaria
preclusa porque estaria impossibilitado de fazer boas obras [8]. Em substância, se um moribundo perguntasse
o que tem de fazer para ser salvo porque quer ser salvo, teria que se lhe
dizer que a fé só não basta, é preciso também as obras: não significaria isto
fazê-lo cair no mais profundo desespero em vez de ser-lhe de consolação? E
que notícia lhe anunciaremos? Certamente não a Boa Notícia da paz. |
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E ainda, se além da fé for preciso as obras para ser
declarado justo por Deus isso significa que no momento em que alguém crê em
Cristo não lhe é imputada toda a justiça de Deus que vem pela fé como diz a
Escritura mas apenas uma parte porque restaria ao crente o ter de fazer
alguma coisa para assegurar a parte em falta de justiça. Mas tudo isto não se
concilia de nenhuma maneira com estas passagens da Escritura: "O fim da
lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê" (Rom. 10:4); "Mas
vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria,
e justiça, e santificação, e redenção..." (1 Cor. 1:30). Portanto a
interpretação que lhe dão os Católicos àquelas palavras de Tiago não pode
senão ser falsa porque ela não atribui mais inteiramente à fé o poder de
fazer justificar o homem, mas o divide entre a fé e as obras. |
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Mas vamos agora aos factos para ver se Tiago quis dizer
aquilo que dizem os Católicos romanos. Os Católicos dizem que a fé mais as
obras justifica e que só a fé não justifica; por conseguinte eles deveriam
estar seguros de estar justificados porque têm a fé e as obras. Mas os factos
demonstram que eles não estão de modo algum seguros de estar justificados.
Como é possível isso? É possível porque eles na realidade não creram com o
coração para obter o dom da justiça; se de facto tivessem verdadeiramente
crido teriam obtido este dom e não estariam mais na dúvida. O facto portanto
de eles não ousarem afirmar terem sido justificados uma vez para sempre,
ainda que digam crer, porque estão ainda fazendo as obras necessárias para
conseguir a justificação, significa que eles não creram de maneira nenhuma. E
que é assim, isto é, que verdadeiramente não creram em Cristo Jesus, é
confirmado pelo facto de não estarem seguros de terem sido perdoados, de
terem a vida eterna e por aí fora. Não disse porventura Pedro que todo aquele
que crê em Jesus recebe a remissão dos pecados pelo seu nome (cfr. Actos
10:43)? Como é que então eles que dizem crer não têm a certeza de ter todos
os seus pecados perdoados, mas têm que continuamente ir ao padre e fazer
obras de satisfação? Não disse porventura Jesus que "Aquele que crê tem a vida eterna" (João
6:47)? Como é que então eles dizem crer mas não têm a vida eterna? |
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Este facto então de dizer que além da fé é preciso as
obras para ser justificado não é mais que um hábil sofisma para disfarçar a
própria incerteza mas também o próprio orgulho porque quem fala assim
considera que Cristo não fez o suficiente para justificá-lo. Ele demonstra a própria
insolência porque desta maneira faz passar Deus por alguém que não pode
justificar completamente um homem em virtude só da sua fé, fazendo assim
passar Deus por mentiroso. Eis o que acontece na igreja católica romana,
faz-se passar Deus por mentiroso. Ó homens e mulheres tende plena confiança
nas palavras verazes de Deus em vez de nas falsas dos vossos teólogos e
obtereis nesse instante a justificação. Crede que Cristo morrendo na cruz
expiou todas as vossas dívidas e vos adquiriu o dom da justiça e que basta a
fé para obter a expiação das vossas dívidas e receber o dom da sua justiça; e
vereis como nesse instante vos sentireis lavados com o sangue de Cristo e
justificados na sua presença pela vossa fé, e portanto pela graça de Deus.
Fazei-o, antes que seja demasiado tarde, não deis ouvidos aos sofismas
papistas, o Senhor está pronto a justificar-vos. |
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A
REMISSÃO DOS PECADOS |
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A
doutrina dos teólogos papistas |
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A remissão dos
pecados obtém-se com a fé e as obras e ninguém pode estar seguro de possuí-la. O concílio de Trento, em 13 de Janeiro de
1547, decretou o que segue: ‘Ainda que seja necessário crer que os pecados
não são perdoados nem jamais foram perdoados, senão gratuitamente pela
misericórdia divina, por causa de Cristo: deve dizer-se, todavia, que a
ninguém que ostente confiança e certeza da remissão dos seus pecados e que
tão somente com isto se tranquiliza, são perdoados ou foram perdoados os
pecados. Pois, também entre os
heréticos [9] e cismáticos pode encontrar-se esta
confiança vã e alheia a toda a piedade. Sim, ela aí existe em nossos dias e
com grande empenho é pregada contra a Igreja Católica’ (Concílio de Trento,
Sess. VI, cap. IX); e também: ‘Quem afirma que para conseguir a remissão dos
pecados é necessário que todo homem creia com certeza e sem hesitação alguma
da sua enfermidade e indisposição, que os pecados lhe são perdoados: seja
anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 13). Em outras palavras para a
igreja católica romana a remissão dos pecados não é algo que se pode obter só
pela fé e de que se pode estar seguro de possuir. Também aqui além da fé é
necessário as boas obras que segundo eles têm o poder de perdoar os pecados.
E para confirmar este poder de perdoar (ou expiar) os pecados que teriam as
boas obras os teólogos papistas citam duas passagens dos livros apócrifos; a
primeira é a de Tobias que diz: ‘A esmola livra da morte e purifica de todo o
pecado’ (Tobias 12:9), a segunda é a do Eclesiástico que diz: ‘A água apaga o
fogo, e a esmola apaga os pecados’ (Eclesiástico ou Livro de Ben Sirá 3:29),
e esta passagem do Evangelho escrito por Lucas: "Os seus muitos pecados
lhe são perdoados, porque muito amou..." (Lucas 7:47). Segundo eles
Jesus perdoou àquela mulher os seus pecados porque ela lhe tinha regado os
pés de lágrimas, os lhe tinha enxugado com os seus cabelos, os lhe tinha
beijado e ungido de perfume; portanto ele lhe perdoou os seus pecados com
base nas suas obras. |
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Confutação |
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A remissão dos pecados obtém-se crendo em
Jesus |
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A Escritura diz de maneira inequívoca: "Nele nós
temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas
da sua graça" (Ef. 1:7); e também: "Filhinhos, escrevo-vos, porque
pelo seu nome vos são perdoados os pecados" (1 João 2:12) e ainda que "o
seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo
conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.." (2 Ped.
1:3). Nós pois, pela misericórdia de Deus, temos o perdão dos nossos pecados,
disso estamos certos sem sombra de dúvida; e por isso nós temos a certeza que
quando morrermos iremos habitar com o Senhor Jesus no céu porque as nossas
vestes foram lavadas e branqueadas com o seu precioso sangue. Mas de que
maneira obtivemos a remissão dos nossos pecados? A nós crentes foram
perdoados todos os nossos velhos pecados mediante só a fé em Cristo Jesus;
sim, por ter somente crido no nome do Filho de Deus. Não somos de modo nenhum
presunçosos em fazer esta afirmação porque o próprio Senhor Jesus testificou
que a remissão dos pecados se obtém crendo nele quando disse a Saulo: "Aos quais (aos gentios) te envio, para lhes abrir os
olhos a fim de que se convertam das trevas à luz, e do poder de Satanás a
Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são
santificados pela fé em mim" (Actos 26:18). E além de Jesus o
testificou de maneira inequívoca também o apóstolo Pedro quando disse em casa
de Cornélio: "A ele todos os profetas dão
testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo
seu nome" (Actos 10:43). |
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Pode o homem receber a remissão dos pecados pelo batismo
por infusão da igreja romana ou indo-se confessar ao padre ou fazendo obras
meritórias como diz antes a igreja católica romana? Absolutamente não. O
homem pecador que está cheio de dívidas para com Deus pode receber a remissão
de todas as suas dívidas somente crendo no nome do Filho de Deus, e de
nenhuma outra maneira; ele não poderá receber a remissão dos seus pecados
fazendo darramar sobre a sua cabeça a água chamada benta ou indo-se confessar
ao padre ou fazendo alguma boa obra. Porquê? Porque o batismo por infusão da
igreja romana não perdoa os pecados (como aliás nem o por imersão porque é pela fé que o deve
preceder que se obtém a remissão dos pecados), o padre não tem o poder de
perdoar os pecados porque não é Deus, e nas boas obras não há o poder de
purificar a consciência do homem das obras mortas. Portanto todos os que
pensam ter recebido a remissão dos seus pecados pelo seu batismo recebido em
criança (ou em adulto) ou porque se vão confessar ao padre ou que procuram
ganhar o perdão de Deus com as boas obras continuam a ser pecadores diante de
Deus. O saibam bem os Católicos romanos! Mas o porquê do batismo não perdoar
os pecados e o porquê da confissão não perdoar os pecados o veremos muito
melhor mais à frente quando falarmos do batismo e da confissão. |
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Passemos agora à confutação do discurso que os teólogos
papistas, apoiando-se nas passagens referidas tomadas dos livros apócrifos e
do Evangelho escrito por Lucas, fazem para sustentar o poder expiatório das
obras. Em resposta às passagens apócrifas dizemos que a Escritura ensina que
não é de modo nenhum mediante obras de penitência que a consciência do crente
é purificada dos pecados mas pela graça, mediante a fé no sangue de Cristo
conforme está escrito: "Se a aspersão do
sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os
contaminados, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo,
que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará
das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?"
(Heb. 9:13,14), e ainda: "O sangue de Jesus
seu Filho nos purifica de todo pecado" (1 João 1:7). Estas
palavras dado que foram escritas para crentes fazem compreender que a
remissão dos pecados cometidos depois de ter crido se obtém pelo sangue de
Jesus Cristo (confessando as nossas ofensas a Deus) e não fazendo boas obras.
A mesma coisa, de qualquer modo, se deve dizer para a remissão dos pecados
cometidos antes de crer, ou seja, que é somente por meio da fé no sangue de
Cristo que a se obteve sem fazer algo de bom. Pedro isto o confirmou quando
falando na assembleia de Jerusalém disse que Deus não fez alguma diferença
entre eles Judeus e os Gentios "purificando os
seus corações (dos gentios) pela fé" (Actos 15:9). E recordai-vos
que aqui ele fez referência à purificação dos pecados obtida pela fé também
por Cornélio que fazia muitas esmolas ao povo; pelo que se deduz que não
foram as esmolas de Cornélio a purificar Cornélio dos seus pecados mas a
graça de Deus pela sua fé no sacrifício de Jesus. (Isto confirma que os dois
livros apócrifos dos quais são citadas aquelas passagens não são inspirados
por Deus porque vão contra a doutrina do Senhor). Em resposta à interpretação
dada às palavras que Jesus, em casa de Simão, dirigiu àquela mulher que lhe
tinha regado os pés com as suas lágrimas e lhe os tinha enxugado com os seus
cabelos e beijado e ungido de perfume dizemos isto: não negamos que as coisas
que aquela mulher fez para com Jesus foram uma manifestação de amor por
Jesus, mas é bom ter presente que as lágrimas daquela mulher eram lágrimas de
arrependimento portanto ela se arrependeu dos seus pecados; e depois que
Jesus no fim disse-lhe: "A tua fé te salvou;
vai-te em paz" (Lucas 7:50). Por isso também no caso dessa mulher
se deve dizer que ela obteve a remissão dos pecados por ter crido em Jesus;
ou seja mediante só a sua fé sem as suas boas obras. Como teriam podido
aquelas suas boas obras para com Jesus expiar todos os seus pecados? De nenhuma
maneira; por isso Jesus lhe disse que a sua fé a tinha salvo, e não que as
suas boas obras lhe tinham expiado os seus pecados. Certamente se tivessem
sido as suas boas obras a salvá-la Jesus lhe o teria dito; e mesmo se tivesse
sido a sua fé juntamente com as suas obras a salvá-la Jesus lhe o teria dito.
Mas como podeis ver Jesus disse-lhe que a sua fé a tinha salvo. |
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Demonstrámos portanto que a igreja católica romana ensina
o falso a respeito da remissão dos pecados. Por isso ó Católicos romanos que
vos baseais nas obras para obter a remissão dos vossos pecados digo-vos:
‘Rejeitai esta doutrina de demónios que vos ensinam os vossos teólogos e
aceitai a verdadeira anunciada pelo apóstolo Pedro nestes termos: "A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que
nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome" (Actos
10:43). Fazei-o, pelo bem da vossa alma para que ela escape às chamas do
inferno quando morrerdes. |
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A VIDA
ETERNA |
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A
doutrina dos teólogos papistas |
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A vida eterna a
se tem que ganhar.
Quando se fala da salvação mesmo com os Católicos romanos fala-se muito da
salvação do inferno, mas sobre ela - como bem sabeis - não estamos em nada de
acordo com eles. Nós de facto lhes dizemos que pela graça de Deus temos (ou
possuímos) a vida eterna e que por isso quando morrermos iremos logo para o
paraíso com Jesus, enquanto eles nos respondem dizendo que não estão seguros
de ir para o paraíso mas que estão fazendo o seu melhor para ganhá-lo [10]. E de facto, eles se exprimem quase sempre
nestes termos: ‘A vida eterna a se tem que ganhar!’. Mas por que falam desta
maneira? Simples, porque os seus padres ensinam-lhes que o paraíso o têm que
ganhar. Vejamos de perto alguns destes ensinamentos que lhes são dirigidos:
‘Deus dá o Paraíso aos bons (...) Com o ser bom nós, só com as nossas forças
naturais, não poderemos merecer o Paraíso; o merecemos com a graça que Deus nos conferiu no
Batismo, pela qual as nossas boas obras adquirem mérito para o Paraíso (....)
Cada um espera com muitos sacrifícios e trabalhos conseguir para si um bom
estado aqui em baixo, e ganhar bens incertos, que depois se podem perder de
um dia para o outro, que jamais podem fazer feliz alguém pois não afagam o
coração, e que, de todo o modo, é necessário abandonar em breve pela morte.
Pensai ao invés, antes de tudo, ganhar o Paraíso’ (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 57-58); ‘Por isso na
graça da esperança nós aguardamos do Senhor a vida eterna e todas as graças
necessárias para merecê-la aqui em baixo; mas para merecê-la de que modo? Com as boas obras’ (ibid., pag. 381); ‘Esperamos
salvar-nos porque Deus nos quer salvos, e nós queremos, por nossa parte,
fazer o que é necessário para nos salvarmos, ou seja, como dizemos no acto de
esperança, esperamos de Deus ‘a vida eterna e as graças necessárias para
merecê-la com as boas obras que eu devo
e quero fazer’ (ibid., pag.
245); ‘As boas obras são absolutamente necessárias para conseguir a saúde
eterna; em outras palavras, não basta a fé, não basta crer para alguém se
salvar’ (ibid., pag. 381); ‘Mas não
bastam para nos salvar os méritos infinitos de Jesus Cristo? Não bastam, não
porque eles não tenham valor suficiente, mas porque o próprio Jesus Cristo
quis o concurso e a cooperação das nossas boas obras, porque para nos aplicar
o mérito dele, quer que nós sintamos e queiramos em união a Ele, porque quis
que nós praticássemos o Evangelho e vivêssemos a vida cristã’ (ibid., pag. 383). Estes ensinamentos
estão em pleno acordo com o seguinte decreto do concílio de Trento: ‘Por isso
aos que trabalham fielmente até ao fim e
esperam em Deus, se há de propor a vida eterna como graça misericordiosamente
prometida aos filhos de Deus, pelos
méritos de Cristo Jesus, e como recompensa que, segundo a promessa do próprio
Deus, será fielmente concedida pelas suas boas obras e méritos’ (Concílio de
Trento, Sess. VI, cap. XVI). A propósito do valor do mérito das boas obras os
teólogos papistas fazem uma distinção entre acção merecedora de prémio por
conveniência, ou seja, de congruo;
e acção merecedora por justiça, ou seja, de
condigno. Façamos um exemplo para explicar esta sua particular distinção;
um homem salva da morte certa um seu semelhante, neste caso ele é merecedor
duma medalha, ou seja, de um prémio, de
congruo; um trabalhador trabalha em casa de alguém por um mês e no fim do
mês vai cobrar o salário, nesta caso ele recebe a recompensa por justiça, ou
seja de condigno. Com este discurso
eles querem fazer compreender como a vida eterna é devida por Deus por
justiça, ou seja, de condigno ao
que faz boas obras. Por isso, para eles, as orações, as esmolas, os jejuns,
são merecedoras, mediante a graça, da vida eterna. O cardeal Bellarmino
afirmou por exemplo: ‘Com as divinas Escrituras prova-se, que as obras dos
justos são merecedoras da vida eterna... O primeiro argumento se extrai
daqueles lugares, onde a vida eterna é chamada recompensa; porque, se é
recompensa, as boas obras, às quais ela se dá, certamente são méritos. As
boas obras dos justos são merecedoras ex condigno, não só em razão do pacto,
mas também em razão das obras... Porque Deus remunera as boas obras por mera
liberdade ex condigno, isso afirmam todos os teólogos, como se observa por S.
Tomás, S. Boaventura, Scoto, Durando e outros, em 4 sent. dist. 46’
(Bellarmino, De Justif., lib. V,
cap. 3, 17 e 18). |
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Confutação |
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A vida eterna é
dom de Deus que se obtém crendo em Jesus
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Esta doutrina católica romana que atribui às obras o poder
de fazer merecer a vida eterna aos homens e de salvar os homens do inferno é
uma doutrina de demónios que até agora levou ao inferno centenas de milhões
de pessoas; sim, há centenas de milhões de pessoas a sofrer nas chamas do
inferno porque em vida se apoiaram nesta doutrina da salvação lhes ensinada
pelos seus padres. Agora a confutaremos. |
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Segundo o que diz a Escritura, a vida eterna não é a
recompensa que Deus dá ao homem que se esforça para ganhá-la, mas ela é o dom
que Deus dá ao homem que se arrepende dos seus pecados e crê no nome do Filho
de Deus. Paulo diz de facto: "O dom gratuito
de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rom.
6:23), portanto a vida eterna, sendo o dom de Deus, o homem não a pode nem
merecer e nem ganhar praticando o bem, doutra forma o dom não é mais dom. Por
conseguinte deve ser rejeitado em bloco o seu discurso sobre o mérito de condigno! E depois, se Deus desse a
vida eterna como recompensa (ou galardão) aos que operam, isso significaria
que Ele é devedor para com eles porque Paulo diz que "àquele que faz
qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a
dívida" (Rom. 4:4); e isso não pode ser porque o mesmo apóstolo diz
também: "Quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja
recompensado?" (Rom. 11:35). E depois ainda, se as boas obras são
merecedoras de vida eterna, então por que motivo alguma vez o Filho de Deus
viria sofrer a este mundo? Podia ficar junto de Deus Pai sem vir a este
mundo! Mas ele veio justamente por isto, para nos adquirir com o seu sangue a
vida eterna e fazer que todos os homens, Judeus e Gentios, pudessem recebê-la
por graça mediante a fé n`Ele. Ele sabia que os homens não podem merecer a
vida eterna porque todos estão debaixo da condenação e merecem a punição
eterna, e por isso veio morrer por nós para que pelos seus méritos, e repito
pelos seus méritos, nós pudessemos obter gratuitamente a vida eterna de Deus.
E ainda, mas como se pode afirmar que as boas obras são merecedoras de vida
eterna quando postas todas juntas não podem de nenhum modo alcançar o valor
que tem a vida eterna? Como se pode fazer tal afirmação quando Jesus disse
aos seus discípulos: "Assim também vós, quando
fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos
somente o que devíamos fazer" (Lucas 17:10) [11]? é preciso ser verdadeiramente arrogante
para afirmar que Deus deva dar a vida eterna por justiça aos que fazem obras
meritórias! Por estas razões vai rejeitada a doutrina que afirma que a vida
eterna é dada por Deus como recompensa. |
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Disse antes que a vida eterna se obtém só pela fé, e isto
é confirmado pelas seguintes Escrituras. |
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• Jesus disse: "Aquele que
crê tem a vida eterna" (João 6:47), e: "Porquanto esta é a vontade de meu Pai: Que todo aquele
que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no
último dia" (João 6:40), e
ainda: "E como Moisés levantou a
serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para
que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de
tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:14-16). Vejamos qual
foi a razão pela qual Moisés levantou a serpente de metal no deserto. Quando
os Israelitas no deserto murmuraram contra Deus e contra Moisés "o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que
morderam o povo; e morreu muito povo de Israel. Pelo que o povo veio a
Moisés, e disse: Pecamos, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti;
ora ao Senhor para que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo
povo. E disse o Senhor a Moisés: Faz uma serpente ardente, e põe-na sobre uma
haste; e será que viverá todo o mordido que olhar para ela. E Moisés fez uma
serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma serpente
mordido a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia"
(Num. 21:6-9). Ora, Jesus comparou o seu levantamento ao da serpente de metal
feito no deserto, e a comparação é verdadeiramente apropriada porque como os
Israelitas mordidos pelas serpentes para escapar à morte tinham só que olhar
a serpente de metal levantada por Moisés (notai de facto que os que eram
mordidos, para não morrer, tinham só que olhar para a serpente de metal e não
cumprir algum rito ou alguma boa obra escrita na lei), assim os homens mortos
nas suas ofensas para serem vivificados e obterem a vida eterna de Deus têm
somente que ver o Filho de Deus e crer nele. Nele que primeiro foi pendurado
no madeiro da cruz e depois de ter ressuscitado dos mortos foi recebido à
direita de Deus. Sim, é assim mesmo que se obtém a vida eterna de Deus,
(somente) crendo em Cristo Jesus; e não fazendo boas obras ou nos esforçando
para sermos bons como antes proclamam os teólogos papistas mortos nas suas
ofensas que falam desta maneira porque eles próprios ainda não viram o Filho
e não creram n`Ele. São como os Fariseus do tempo de Jesus os quais
investigavam as Escrituras que davam testemunho de Jesus porque pensavam de
ter a vida eterna por meio delas mas não queriam ir a Ele para obter a vida. |
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• João o Batista disse: "Quem
crê no Filho tem a vida eterna" (João 3:36). |
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• Paulo disse a Timóteo: "Mas
por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal [pecador], Cristo Jesus mostrasse toda a
sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer
nele para a vida eterna"
(1 Tim. 1:16). |
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Ora, nós que cremos no Senhor temos, pela graça de Deus, a
vida eterna porque João disse: "Estas coisas
vos escrevo, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que
tendes a vida eterna" (1 João 5:13). Ele não disse: ‘A vós que
credes no nome do Filho de Deus, para que espereis obter a vida eterna’, como
se nós crentes não possuíssemos já a vida eterna em nós mesmos, mas disse nos
ter escrito aquelas coisas para nos fazer saber que nós temos já a vida
eterna. O mesmo apóstolo diz também: "Quem crê
no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho... E o testemunho é este: Que Deus nos deu a vida eterna, e
esta vida está em seu Filho. Quem tem o
Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida" (1
João 5:10,11,12). Estas palavras confirmam plenamente que nós que cremos
temos a vida eterna; como fazemos para dizê-lo com certeza de fé? Por causa
do testemunho que o Espírito Santo nos dá interiormente. O Espírito é verdade
e por isso não pode mentir; nós cremos no que o Espírito nos testifica em
nós, que confirma plenamente o que diz a Escritura. E depois, reflectindo
mais sobre as palavras de João, como podem os Católicos romanos afirmar que
um crente que recebeu Cristo no seu coração não pode dizer com certeza de fé
ter a vida eterna, quando Jesus Cristo é "a
vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada" (1 João
1:2) e "quem tem o filho tem a vida" (1 João 5:12)? Quando falam
assim é como se dissessem que um cidadão italiano não pode dizer que tem a
cidadania italiana porque isso é orgulho! Para eles: ‘Presumir se salvar sem
mérito é soberba que ofende a justiça de Deus e, quase, se escarnece dela,
como se Ele nos deva o Paraíso, ou nos deva premiar pelo bem que não quisemos
fazer’ (Giuseppe Perardi, op. cit.,
pag. 245). Assim dizendo eles nos acusam de ser presunçosos porque nós
dizemos ter sido salvos pela graça de Deus, mas sabei que os presunçosos não
somos nós que lhes dizemos que estamos certos de ter a vida eterna pela graça
de Deus porque cremos e continuamos a crer, mas são eles que dizem que se é
salvo no reino celestial fazendo boas obras. Portanto, para concluir: a
acusação de ser presunçosos e orgulhosos que nos é movida pelos Católicos
romanos porque dizemos que temos a vida eterna, não é mais que uma calúnia.
Mas aliás é inevitável que os que procuram ganhar a vida eterna com as suas
obras vejam com maus olhos os que dizem que a obtiveram crendo,
gratuitamente, sem fazer alguma boa obra. |
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O cristão está
certo que quando morrer irá para o paraíso com Jesus |
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Nós crentes como pela graça de Deus temos a vida eterna em
nós, assim estamos certos que quando morrermos, na condição naturalmente de
conservarmos a fé até àquele dia, iremos para o céu habitar com Jesus porque
Jesus disse: "Eu sou a ressurreição e a vida;
quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e
crê em mim, nunca morrerá" (João 11:25,26), e também: "Se
alguém me serve, siga-me, e, onde eu estiver, ali estará também o meu
servo" (João 12:26). E "como temos o
mesmo espírito de fé que está nessa palavra da Escritura: Cri, por isso
falei; também nós cremos, e por isso também falamos" (2 Cor. 4:13
Riveduta), dizendo como os apóstolos: "Mas temos confiança e desejamos
antes deixar este corpo, e habitar com o Senhor" (2 Cor. 5:8). Sim, temos
a tal respeito em nós o mesmo sentimento que estava em Paulo o qual tinha o
desejo de partir e estar com Cristo, porque estar com Cristo no céu é coisa
muito melhor, de longe, do que ficar na terra. Tudo isto para os teólogos
papistas é descarada presunção; porque segundo eles, antes de ir para o
paraíso todos aqueles que morrem na graça têm de ir para o purgatório expiar
a pena dos seus pecados! E ai de quem não aceita esta sua doutrina porque o
concílio de Trento disse: ‘Se alguém disser que recebida a graça da salvação,
os pecadores arrependidos da culpa são de tal modo perdoados e lhes são
apagados os vestígios da pena eterna, que não lhe resta vestígio algum de
pena temporal que tenha que pagar, seja neste século, ou no futuro, no
purgatório, antes que lhe possa ser aberta a entrada no Reino dos Céus: seja
anátema’ (Concílio de Trento, Sess. VI, can. 30). Mas não é de modo nenhum
assim como dizem eles, porque a Escritura ensina que quando Deus perdoa os
pecados a um homem lhe perdoa por consequência também a pena eterna. O
exemplo do ladrão arrependendo-se sobre a cruz no momento da morte dele é um
exemplo, porque Jesus lhe perdoou todos os seus pecados com os relativos
vestígios de pena eterna, de facto lhe disse: "Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas
23:43). Jesus não lhe disse que primeiro tinha que ir estacionar no
purgatório algum tempo para se purgar de uma parte da pena eterna dos seus
pecados e depois poderia ir para o paraíso, mas disse-lhe que naquele mesmo
dia ele iria para o paraíso! Reflecti; mas não é absurdo crer que Deus perdoa
todas as dívidas ao homem que se arrepende e depois, quando morre, o manda
para um lugar de tormentos como o purgatório
expiar parte delas antes de fazê-lo entrar no reino dos céus? No
entanto isso é o que crêem os Católicos romanos! Com isto não queremos dizer
que nós crentes chegámos à perfeição ou que estamos sem pecado; longe de nós
isso, porque nós reconhecemos ser pessoas com defeitos que temos necessidade
de ser aperfeiçoados e de nos aperfeiçoarmos, e que por vezes fazemos o que
odiamos e necessitamos por isso de confessar as nossas ofensas ao Senhor para
obter a remissão delas. Mas apenas queremos dizer que em virtude da
misericórdia de Deus pela qual Ele nos fez renascer e tornar filhos de Deus e
nos deu a vida eterna, estamos seguros de ter sido plenamente perdoados pelo
Senhor, de ter recebido a purgação de todos os nossos pecados e por isso se
morrermos com Jesus com ele iremos viver no céu logo depois de morrer. A
chamem também presunção esta nossa confiança os teólogos papistas; continuem
os concílios a lançar os seus anátemas contra quem, segundo eles, ostentar
esta certeza de remissão dos pecados e da vida eterna; nós continuaremos a
gloriar-nos no Senhor por ter obtido a purgação dos nossos pecados com o
sangue de Jesus, continuaremos a glorificar o seu nome por isso, e
continuaremos a pregar aos homens que em Cristo há a certeza de remissão dos
pecados, que nele há a certeza de ter a vida eterna; mas na teologia papista
há ambiguidade, falsidade, incerteza; coisas que geram nas pessoas que a
aceitam nada mais que dúvidas, angústias e incertezas. Ó homens e mulheres
que jazeis no medo da morte e não sabeis para onde estais indo (ou melhor
sabeis que ireis para um purgatório que porém não existe) porque tendes dado
ouvidos aos falsos ensinamentos dos padres, vos suplicamos em nome de Cristo
a vos arrependerdes e a crer em Cristo para obter a remissão dos pecados e a
vida eterna! |
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Concluindo; seja a salvação do pecado, seja a justificação,
seja a remissão dos pecados e seja a vida eterna se obtêm só pela fé,
portanto sem o concurso de nenhuma boa obra; a santificação, pelo contrário,
que nós temos por fruto (ou seja a progressiva), se obtém observando os
mandamentos de Deus, ou seja, pelas boas obras. Em outras palavras, as boas
obras são os frutos que brotam da nossa salvação e da nossa justificação
obtidas por fé, mas não são a fonte da salvação e da nossa justificação e não
podem concorrer de nenhuma maneira para salvar e para justificar o homem,
porque "o justo pela sua fé viverá" (Hab. 2:4) e não por causa de
obras meritórias. |
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O cristão está certo que será salvo da ira
vindoura |
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Os Católicos afirmam: ‘Esperamos nos salvar’, querendo
dizer com estas palavras: ‘Não estamos seguros que seremos salvos porque
ninguém o pode estar, mas não tem importância, porque provavelmente Deus que
é tão misericordioso terá piedade de nós e nos salvará’. Estas suas palavras
demonstram que eles não estão certos que serão salvos da ira vindoura, como
nós não estamos certos do tempo que fará amanhã porque dizemos: ‘Esperamos
que o céu esteja sereno’, ou: ‘Esperamos que chova’, e por aí fora. Mas este
modo de falar a respeito da salvação é característico de todos os que ainda
não passaram da morte para a vida, das trevas para a luz; por isso não nos
admiramos dele. |
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A sagrada Escritura nos ensina que o crente foi arrancado
do poder das trevas e transportado para o reino de Deus e está certo que será
salvo da ira vindoura; eis algumas Escrituras que testificam isso. |
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• "Mas Deus dá prova do seu
amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por
nós. Logo muito mais, sendo agora justificados pelo seu sangue, seremos por
ele salvos da ira. Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados
com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados,
seremos salvos pela sua vida" (Rom. 5:8-10); |
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• "Porque Deus não nos
destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por meio de nosso Senhor
Jesus Cristo" (1 Tess. 5:9); |
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• "Vos convertestes dos
ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, e esperardes dos
céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus,
que nos livra da ira vindoura" (1 Tess. 1:9,10). |
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Portanto, não é presunção afirmar que nós seremos salvos
da ira vindoura. Mas como pode ser definida presunçosa uma pessoa que tem fé
em Deus quando está escrito que "a fé é a certeza das coisas que se
esperam" (Heb. 11:1)? Mas há também exemplos na Escritura que nos
ensinam como o crente está certo de escapar à ira de Deus; eles são os de
Noé, de Ló e do povo de Israel. |
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Noé por exemplo quando entrou dentro da arca e o Senhor o
fechou dentro estava certo de escapar ao juízo que Deus enviaria dali a pouco
sobre o mundo dos ímpios porque Deus lhe tinha dito: "Tudo o que há na terra expirará. Mas contigo
estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos,
tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de
toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservares
vivos contigo" (Gen. 6:17-19). |
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Também Ló, depois que Deus o tirou de Sodoma, estava certo
que refugiando-se na cidade de Zoar não pereceria no castigo de Sodoma porque
quando ele disse a um dos anjos de Deus: "Eis
ali perto aquela cidade, para a qual eu posso fugir, e é pequena. Permite que
eu me escape para lá (porventura não é pequena?), e viverá a minha alma!"
(Gen. 19:20), aquele lhe respondeu: "Quanto a
isso também te hei atendido, para não destruir a cidade de que acabas de
falar. Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não
tiveres ali chegado" (Gen. 19:21,22). |
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E vejamos os Israelitas no Egipto: não é porventura
verdade que eles estavam certos que naquela noite o destruidor não entraria
nas suas casas? Mas por que estavam certos disso? Porque Deus tinha lhes
dito: "O Senhor passará para ferir aos egípcios, porém quando vir o
sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o Senhor passará aquela
porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para vos
ferir" (Ex. 12:23). Eles creram nas palavras de Deus, fizeram a aspersão
do sangue como Deus lhes tinha ordenado, e por isso estavam seguros de que
quando o anjo do Senhor naquela noite visse aquele sangue passaria além das
suas casas. Também nós que fomos aspergidos com o sangue de Jesus Cristo
estamos seguros que o Senhor nos salvará da ira vindoura; ele o prometeu e
nós cremos firmemente nas suas palavras. Podemos dizer desde agora que por fé
nós não pereceremos com os filhos de desobediência. |
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A Deus, nosso Salvador e Benfeitor, seja a glória agora e
eternamente em Cristo Jesus. Amen. |
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CONCLUSÃO |
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Eis portanto demonstrado com as Escrituras que a
libertação do pecado, a justificação, a remissão dos pecados e a vida eterna
se recebem de Deus só por meio da fé no Cristo de Deus, morto e ressuscitado
ao terceiro dia. É portanto falso que o batismo, seja ele ministrado a bebés
ou a adultos, confere a libertação do pecado, a justificação, a remissão dos
pecados e a vida eterna; porque por quanto respeita ao bebé ele não tem ainda
a fé, enquanto o adulto que verdadeiramente creu no Senhor ainda antes de
receber o batismo foi libertado do pecado, justificado, perdoado e recebeu a
vida eterna, e isto exactamente porque ele já tem a fé, ele creu que Jesus
Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação.
Por quanto respeita depois ao após
batismo, como se possui a fé, assim está-se certo de estar salvo do pecado,
justificado e perdoado e de ter a vida eterna. Nenhuma dúvida a respeito; o
Espírito Santo no coração do crente lhe testifica de maneira clara e
inequívoca que ele é um filho de Deus lavado no sangue do Cordeiro e por isso
herdeiro do Reino de Deus com todos os outros resgatados. Que dizer então dos
pecados cometidos depois do batismo? Eles devem ser confessados a Deus que na
sua fidelidade e justiça os perdoará; ele nos purificará deles com o sangue
do seu Filho. Nenhum mediador terreno é necessário para obter a remissão
deles, porque temos um mediador no céu que nos defende na presença de Deus; o
seu nome é Jesus Cristo, ele é o nosso advogado, e em virtude da sua
intercessão nós sabemos ter os nossos pecados perdoados plenamente. Em
virtude desta sua obra intercessória nós crentes continuamos a ter pela fé a
certeza da salvação. Mas além de não haver de modo nenhum a necessidade de um
homem como o padre que pretende em nome de Deus perdoar os pecados cometidos
depois do batismo, não há também a necessidade das obras de satisfação para
obter a expiação dos pecados cometidos depois do batismo porque o preço pela
sua remissão já foi pago plenamente por Cristo na cruz. As boas obras não
acrescentam nada à obra de Cristo; as boas obras não podem merecer-nos o
perdão dos pecados; elas devem ser sim praticadas em todo o tempo, mas por
elas não se pode pensar pagar a Deus parte do preço devido pelas nossas
transgressões porque isso constituiria uma ofensa para Cristo. Também o
perdão dos pecados depois do batismo é totalmente gratuito. É preciso pedi-lo
com arrependimento e por certo ele não nos será negado por Aquele que não
poupou o seu próprio Filho mas o deu por todos nós quando éramos ainda
pecadores, sem força, longe de Deus e seus inimigos. É ainda portanto pela fé
que se continua a ser perdoado plenamente pelo Senhor. Assim sendo, o crente
está seguro que quando morrer o Senhor o receberá em glória; não terá que
passar por nenhum purgatório. Se Cristo à sua direita intercede por nós por
que motivo teríamos que ir para um purgatório? Se Ele nos purifica de todo o pecado
em virtude da fé que nós continuamos a repor no seu sangue precioso, por que
razão alguma vez nos teria que enviar depois de mortos a penar num lugar de
tormento? Não, Ele é fiel e os seus anjos nos escoltarão para a casa de seu
Pai quando morrermos porque o seu sangue está sobre nós. A doutrina de Deus a
respeito da salvação é clara, e é de grande consolação para os que creram no
Senhor; mas haveis notado quanto obscura é a papista e como não é de nenhum
conforto para os que a aceitam porque os continua a manter na dúvida, na
maior incerteza? E porquê isso? Porque a salvação ‘papista’ se funda na água
chamada benta que é dito tem o poder de cancelar todo o pecado, em vez de no
sangue precioso de Cristo; e nas obras de satisfação que o homem tem de fazer
em vez de na obra de satisfação perfeita e feita uma vez para sempre por
Jesus Cristo para a remissão dos nossos pecados, em outras palavras nos
méritos do homem em vez de nos de Cristo Jesus, o Filho de Deus. Papas,
cardeais, bispos, padres e simples Católicos, falam sempre de obras a fazer
como se a salvação fosse por merecer; mas nunca se lhes ouve dizer que a obra
de Cristo feita na cruz é perfeita com nada em falta e que quem nele crê é
plenamente salvo. Baseiam-se nos seus méritos em vez de nos de Cristo; por
isso o Evangelho está-lhes encoberto, por isso não têm a certeza da salvação.
Que fazer pois em relação a eles? Conjurá-los em nome do Senhor a se
arrependerem e a crer em Jesus Cristo, a renunciar à justiça deles que é um
trapo imundo diante de Deus, para receber a de Deus baseada na fé que é uma
veste branca, mais branca do que a neve diante de Deus. Eles nos dirão: ‘Mas
por que não ides pregar aos pagãos que se encontram na selva ou em outras
partes remotas da terra? Nós já somos Cristãos, não necessitamos da vossa
evangelização’. Não, não é assim, porque o seu não é cristianismo mas
paganismo camuflado de cristianismo; e eles não são Cristãos, mas pagãos que
não conhecem a Deus. Avante portanto com o evangelizar os Católicos romanos;
arrebatemo-los do fogo. |
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NOTAS |
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[1] Para compreender bem a
doutrina papista sobre a salvação é indispensável conhecer o que os teólogos
dizem sobre o batismo e sobre a confissão. Por isso vos convido a ler
atentamente a exposição detalhada destes seus dois sacramentos. É uma
doutrina bastante complicada, disto me dou perfeitamente conta irmãos, mas
uma vez percebido o mecanismo, torna-se mais fácil identificar os erros
papistas e confutá-los. |
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[2] A libertação do pecado
(que constitui também a libertação do presente século mau que jaz no
maligno), a justificação, a remissão dos pecados e a obtenção da vida eterna
(que implicitamente significa ser salvo do inferno) são tudo coisas
estritamente conexas, porque segundo a Escritura o homem é libertado do
pecado, justificado, perdoado, e obtém a vida eterna (escapando às chamas do
inferno porque a ira de Deus é removida de sobre ele) quando se arrepende e
crê no Senhor. Com efeito pode-se dizer que estas coisas são todas aspectos
da salvação de Deus que está em Cristo Jesus. Eis porque quando dizemos que
fomos salvos, dizemos ao mesmo tempo mais coisas, a saber, que fomos
libertados do domínio do pecado e do presente século mau, fomos justificados,
obtivemos a remissão dos pecados, obtivemos a vida eterna e estamos por isso
seguros de escapar às chamas do Hades quando morrermos. Eu achei por bem
tratar estes aspectos da salvação separadamente para tornar o mais claro
possível tanto a exposição da doutrina católica romana como a exposição da
doutrina de Deus. E dado que tenho falado da salvação, não se esqueça que um
outro seu aspecto é a redenção do nosso corpo que tem ainda que cumprir-se
conforme diz Paulo aos Romanos: "Também gememos em nós mesmos, esperando
a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (Rom. 8:23). Porque, como
diz Paulo logo depois, "em esperança fomos salvos" (Rom. 8:24).
Esta redenção corporal se cumprirá na ressurreição que terá lugar na vinda de
Cristo. Portanto quando dizemos que fomos salvos queremos dizer também que,
dado que fazemos parte do número dos eleitos chamados ao reino e à glória,
naquele dia o nosso corpo será remido da corrupção, da fraqueza, e da
mortalidade porque será feito semelhante ao corpo da glória de Jesus Cristo
(cfr. Fil. 3:21); seremos em outras palavras feitos participantes da glória
obtida por Cristo na sua ressurreição. Glória a Deus eternamente. Amen. |
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[3] Deveria-se portanto
chegar à conclusão que com o batismo, a confissão, crendo e fazendo actos de
piedade como dizem eles, uma pessoa pode estar certa da sua salvação: mas o
facto é que depois de ter seguido escrupulosamente todas as suas prescrições
o penitente continua inevitavelmente a declarar não ter a certeza da
salvação. Antes é obrigado a declarar não ter esta certeza para não ser
atingido pelo anátema lançado contra os que ousarem dizer uma tal coisa. Tem
que portanto haver forçosamente alguma coisa que não bate bem neste sistema.
Pode alguma vez ser que Jesus tenha vindo para deixar as pessoas que nele
crêem na incerteza da sua salvação? |
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[4] Quando se é libertado
da escravidão do pecado se é também resgatado do presente século mau e das
mãos daquele que domina este mundo, isto é, o diabo, pelo que quando falo da
libertação do pecado refiro-me implicitamente também ao resgate do mundo e do
poder de Satanás. Segundo a Palavra de Deus de facto a libertação do domínio
do pecado coincide com a libertação do presente século e do poder de Satanás.
Paulo por exemplo diz aos Gálatas que Cristo "se
deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau"
(Gal. 1:4) e a Tito diz que Cristo se deu a si mesmo por nós "para nos remir de toda a iniqüidade.." (Tito
2:14) e aos Colossenses que "[o Pai] nos tirou do poder
das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado"
(Col. 1:13). |
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[5] Recordamos que o
concílio de Trento (1545-1563) foi a resposta da igreja católica romana aos
reformadores que pregavam a justificação só pela fé. |
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[6] Deve ser dito que os
teólogos papistas para procurar defender-se da acusação de ensinar a
justificação pelas obras condenada por Paulo afirmam que as obras de que eles
falam não são as antecedentes à fé mas as que seguem a fé de que fala Tiago.
Em substância eles dizem que quando Paulo diz que não se é justificado pelas
obras refere-se às obras da lei antecedentes à fé em Cristo (isto é, que não
têm por princípio e raiz a fé de Jesus Cristo), enquanto quando Tiago fala da
justificação pelas obras refere-se às obras que seguem a justificação, isto
é, as que têm a sua raiz na fé em Jesus. Mas este discurso não procede porque,
mesmo se admitíssemos que os Católicos creram e que por isso as obras que
fazem seguem a sua fé, teria sempre que se dizer que eles procuram ser
justificados através delas com base na sua teologia. E por isso neste caso
incorreriam no mesmo erro dos Gálatas que depois de ter começado pelo
Espírito queriam alcançar a perfeição com a carne, isto é, com as boas obras,
e tinham renunciado assim a Cristo caindo da graça. O apóstolo Paulo foi
claro em relação a eles: " Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais
pela lei; da graça tendes caído". (Gal. 5:4) Portanto à luz das
Escrituras é um erro tanto o procurar ser justificado mediante as obras da
lei sem crer no Evangelho (como fazem os Judeus por exemplo), como também o
procurar ser justificado pelas mesmas obras depois de ter crido no Evangelho
porque desta maneira se renuncia a Cristo e se cai da graça. Portanto aqueles
Católicos que dizem de ter crido (o que nós sabemos porém que não é assim) e
de fazer as boas obras para serem justificados deveriam ser repreendidos como
os Gálatas desta maneira: ‘Separados estais de Cristo que foi feito nossa
justiça, da graça tendes caído: quem vos fascinou ó Católicos insensatos?’
Atenção pois aos sofismas dos teólogos papistas!] |
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[7]
Recordai-vos
que aqueles a quem Tiago escreveu eram crentes que matavam, invejavam,
contendiam, que tinham-se tornado inimigos de Deus porque tinham querido
tornar-se amigos do mundo, crentes ricos materialmente que passavam por cima
dos direitos dos seus empregados, crentes que tinham grande atenção para as
pessoas ricas e desprezavam o pobre, e que murmuravam uns contra os outros;
portanto é perfeitamente compreensível o duro discurso de Tiago. |
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[8] Deve ser dito porém
que os teólogos papistas, para contentar um pouco a todos, com os enésimos
sofismas concedem a justificação ao moribundo também sem batismo e sem
penitência! Como? Com o batismo de desejo ou o de sangue, e o óleo santo
(tudo coisas que analizaremos mais à frente). |
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[9] O termo deriva do
grego hairetikos que significa ‘cismático’
ou ‘sectário’ e designa quem decide separar-se da Igreja para ir atrás de
estranhas e diferentes doutrinas. O termo tem portanto um significado
negativo. No Novo Testamento este termo está presente no seguinte versículo:
"Ao homem faccioso (hairetikos), depois
da primeira e segunda admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está
pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado"
(Tito 3:10,11 Almeida Revista e Actualizada). Na versão Revista e Corrigida
de Almeida está traduzido pondo "Ao homem herege..." e assim também
os tradutores da King James Version (Versão do Rei Tiago) de 1611: "A
man that is a heretic...". Os Protestantes foram desde o início
definidos hereges ou heréticos. |
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[10] Deve ser dito porém
que os Católicos romanos ainda que digam que estão ganhando o paraíso, no fim
têm que ir sempre para o purgatório (que é um lugar de tormento para eles)
porque para eles para o céu apenas vão logo os santos, isto é, aqueles que
estão puros de toda a mancha, e eles dado que não o estão, porque dizem de
ser pobres pecadores, têm de primeiro se ir purgar das suas culpas no
purgatório para poder depois aceder puros de toda a escória ao paraíso. |
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[11] Estas palavras de
Jesus anulam a doutrina sobre o mérito de
condigno propugnada pela igreja papista porque põem em claro como as boas
obras não podem fazer merecer a vida eterna ao crente. Mas raciocinai: por
que razão depois de ter recebido o dom da vida eterna no momento em que crê,
o crente a teria que merecer no curso da vida fazendo boas obras? Se é
chamada o dom de Deus não é um contra-senso afirmar que depois de tê-lo
recebido se deve merecer? Não é antes
caso de dizer que uma vez recebido este dom é necessário conservá-lo
para não perdê-lo? Porventura não disse Paulo a Timóteo: "Toma posse da
vida eterna" (1 Tim. 6:12) e não ‘ganha a vida eterna com os teus
méritos’? Com efeito procurar merecê-la significaria procurar pagar a Deus o
preço da sua compra pago por Cristo Jesus o que constitui uma ofensa para
Cristo! Seria como dizer: Tratemos de pagar a Deus o presente dele recebido! |